terça-feira, 13 de abril de 2010

Uma declaração de amor à vida e à teologia (entrevista)

Uma declaração de amor à Teologia e à vida. Entrevista exclusiva com Faustino Teixeira

Faustino Teixeira, o Dudu, é um apaixonado pela Teologia. Nesta entrevista, o doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora adianta o trabalho desenvolvido ao lado da antropóloga Renata Meneses, professora do Departamento de Sociologia e Política da Puc-Rio e pesquisadora do Iser Assessoria, na edição especial de natal da IHU On-Line. A revista abordará os rumos da religião no Brasil nas últimas décadas.

A revista, que estará disponível nesta página, na segunda-feira, dia 19 de dezembro, na sua versão impressa, será distribuída na manhã de terça-feira, dia 20.

Será a última edição do ano. Assim, ela terá mais páginas. Ela voltará a circular no dia 6 de março de 2006.

Faustino Teixeira, teólogo leigo, parceiro do IHU, é o nosso entrevistado de hoje.

Dudu faz uma viagem no tempo e fala sobre as temporadas passadas na Itália, o trabalho relacionado à Teologia da Libertação, a relação com a esposa, a médica Teita, e os quatro filhos.

Confira, a seguir, a íntegra da entrevista:

IHU On-Line - Como surgiu a idéia deste número especial de final de ano da IHU On-Line e qual o objetivo desta edição da revista? Que enfoque será dado ao tema religiões?

Faustino Teixeira - A idéia do número nasceu numa conversa com o amigo Inácio Neutzling durante o ultimo Fórum Social Mundial em Porto Alegre. Tinha comentado com ele na ocasião sobre um livro que estava organizando junto com a antropóloga Renata Meneses sobre o tema do campo religioso brasileiro, por iniciativa da ONG Iser-Assessoria, do Rio de Janeiro. Inácio ficou muito interessado e lançou para mim a provocação de organizar um caderno especial sobre o tema, nos moldes de um número anterior que tínhamos lançado sobre a mística comparada. A idéia foi tomando corpo e para sua realização contei com a preciosa ajuda de Renata Meneses, que topou me ajudar a organizar o trabalho. A nossa idéia era a de oferecer aos leitores um panorama geral do campo religioso brasileiro, com a colaboração de pesquisadores nacionais. O número especial de natal foi ganhando uma dimensão singular, em razão da grande aceitação dos autores convidados para as entrevistas. Estou muito surpreso com a riqueza das respostas e com o leque diversificado das abordagens. O caderno vai ser um marco referencial.

IHU On-Line - O senhor poderia explicar os conceitos de trânsito religioso, pluralização religiosa e desinstitucionalização das religiões? As religiões sobreviverão ao século XXI?

Faustino Teixeira - Na organização deste caderno especial de Natal, partimos da provocação do ultimo censo demográfico do IBGE, que revelou fissuras na tradicional hegemonia católica, com a constatação do crescimento dos evangélicos e dos "sem religião". Estamos vivendo no Brasil uma situação nova de início de uma pluralização do campo religioso. É revelador deste novo momento de diversificação religiosa o fato de ocorrerem trinta e cinco mil respostas diferentes no ultimo censo para a pergunta: "qual a sua religião?".

O Brasil vive hoje uma situação particular de "desinstitucionalização" ou "destradicionalização" dos componentes religiosos. Vivemos um campo religioso marcado pela idéia de desfiliação religiosa e trânsito, onde as pertenças culturais e religiosas tornam-se opcionais e revisáveis. É também revelador o crescimento dos "sem religião", cujo registro no censo de 2000 foi de 7,4%.

Trata-se de uma realidade que toca substancialmente a juventude e traduz não necessariamente a afirmação ou crescimento do ateísmo, mas a irradiação de "formas não institucionais de espiritualidade". Mas não há dúvida alguma sobre a força do fenômeno religioso neste nosso século XXI. Como mostrou muito bem Peter Berger em trabalho recente, "não há razão para pensar que o mundo do século XXI será menos religioso do que o mundo atual".

IHU On-Line - Como o senhor selecionou os entrevistados desta edição da revista? Que aspectos lhe chamaram a atenção em relação ao conteúdo das entrevistas?

Faustino Teixeira - Eu e Renata temos muitos contatos na área de ciências sociais da religião. Além de experiência docente comum na área de antropologia da religião, organizamos juntos em 2004, pelo Iser-Assessoria, um seminário de quatro dias sobre campo religioso, cujos resultados estão para ser publicados em livro pela editora Vozes, em 2006. Há hoje no Brasil um número muito significativo e expressivo de pesquisadores na área das ciências sociais da religião, atuando em centros de pesquisa e universidades. Para este número especial, nós dividimos os três blocos de reflexão envolvendo o campo religioso, e fomos contatando os nomes para as entrevistas, de acordo com a especialidade de cada pesquisador. Os autores convidados responderam ao convite com extrema generosidade e demonstraram grande interesse em assumir a tarefa, mesmo neste período complicado de fim de ano. O resultado foi muito positivo. As respostas às entrevistas revelam um panorama extremamente interessante para quem quer conhecer o campo das religiões no Brasil.

IHU On-Line - O senhor poderia falar sobre seu grupo de pesquisa no Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora?

Faustino Teixeira - Eu trabalho em Juiz de Fora no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da UFJF, que é o único em universidade pública no Brasil. O Programa conta com três áreas de concentração, entre as quais uma voltada para as ciências sociais da religião e outra para as religiões comparadas e perspectivas de diálogo. O âmbito de minha atuação ocorre nesta última área, mas colaboro também em tarefas de orientação de alunos na área de ciências sociais da religião. Minhas pesquisas mais importantes situam-se na área do diálogo inter-religioso, teologia das religiões e mística comparada. Estou também comprometido no momento com uma pesquisa no CNPQ sobre os buscadores do diálogo, ou seja, alguns místicos cristãos que viveram ou vivem experiências de dialogo com outras tradições religiosas, como Thomas Merton, Henri le Saux, Louis Massignon, Raimon Pannikkar e outros. Minha intenção é publicar proximamente um livro sobre este tema. As pesquisas mais importantes em nosso Programa nasceram na metade dos anos 1980, e a riqueza dos trabalhos está revelada nas inúmeras publicações e nos dissertações e teses que temos orientado nos últimos anos.

IHU On-Line - Como surgiu seu interesse pela mística? Sendo filho de médico, não houve pressão para seguir a carreira de seu pai?

Faustino Teixeira - O meu pai foi um médico muito especial. Ele foi um dos fundadores do Instituto de Ciências Humanas da UFJF e atuou por muitos anos como professor de deontologia médica na mesma Universidade, além de aulas de ética no Seminário Arquidiocesano Santo Antônio. Foi um humanista singular e um médico de família, daqueles que não existem mais. Há uma brincadeira na família que diz que ele tratava os seus pacientes com fé, esperança e cafuné. Ao longo da vida, conseguiu reunir uma biblioteca excepcional que ocupava dois cômodos de minha casa. Depois de sua morte, a família decidiu doar o acervo para a UFJF e o Seminário Arquidiocesano. O seu grande interesse foi sempre relacionado às humanidades e, em particular, à filosofia e à teologia. Ele sempre respeitou as opções dos filhos e nunca interferiu nas decisões que cada um foi tomando na vida.

Uma família de artistas e professores

Dentre seus quinze filhos, há uma diversidade grande de escolhas e profissões. Alguns escolheram as artes plásticas, outros, a música. E uma boa parte seguiu a vocação do pai, no magistério. Eu tomei o rumo da teologia e minha decisão teve sempre sua admiração e apoio. O meu interesse pela mística foi sendo gestado no ambiente da própria cidade, rica em experiências contemplativas, como a das carmelitas e beneditinas. Foram também marcantes as influências dos dominicanos e redentoristas, em especial do padre Jaime Snoek, fundador do departamento de ciência da religião em 1969.

IHU On-Line - Quando e por que o senhor optou por estudar teologia? Qual a importância da teologia em sua vida?

Faustino Teixeira - Eu tive a oportunidade de fazer duas graduações simultâneas: filosofia e ciências da religião. No final do curso, em 1977, surgiu uma possibilidade de fazer mestrado em sociologia da religião na USP, mas o possível orientador morreu num acidente e os rumos de minha vida foram modificados. Para o meu encaminhamento na teologia foi de grande importância o apoio e a presença do padre João Batista Libânio, que talvez tenha sido um dos amigos mais decisivos em minha caminhada teológica. Por sua sugestão, acabei fazendo o mestrado em teologia na PUC do Rio, num momento nobre da reflexão teológica brasileira. Ali atuavam como professores, Libânio, Clodovis Boff, Pedro R. de Oliveira, Alfonso Garcia Rúbio, Felix Pastor, Gabriel Selong, Antônio Moser, Carlos Palácio, Ulpiano e tantos outros. Foi na PUC do Rio que nasceu um grupo de teólogos leigos que estão hoje atuando em toda parte, como Maria Clara Bingemer, Ana Maria Tepedino, Tereza Cavalvanti, Paulo Fernando de Andrade etc.

"Não é fácil para o teólogo leigo ter que se submeter à missio canônica e viver sob o peso permanente de uma auto-censura difícil"

Apesar da situação peculiar da arquidiocese do Rio de Janeiro, conseguimos encontrar apoios importantes como os de Álvaro Barreiro e Jesus Hortal, que foram diretores do departamento de teologia. Foram pessoas muito importantes enquanto incentivadores na formação teológica, abrindo também caminhos fundamentais para a nossa atuação como professores no departamento de teologia. Foi ali na experiência da PUC que conheci o Inácio Neutzling: fomos companheiros de mestrado e, depois, fomos também juntos para o doutorado em Roma, em 1982. Tenho uma paixão peculiar pela teologia, mas entristece-me o controle que hoje se exerce sobre a produção teológica nas Faculdades e Institutos de Teologia. Não é fácil para o teólogo leigo ter que se submeter à missio canônica e viver sob o peso permanente de uma auto-censura difícil como condição para manter-se no trabalho de ensino. Não vivemos uma conjuntura favorecedora para uma pesquisa teológica livre e criadora. Daí ser um entusiasta das propostas em curso de uma teologia pública, como as que vem sendo aventadas aí na Unisinos. Eu vivo uma situação de exceção ao exercer o meu trabalho teológico numa universidade pública. Sinto-me extremamente livre para a reflexão e o trabalho de pesquisa. Não é o caso, porém, de muitos de meus colegas.

IHU On-Line - O senhor estudou as comunidades eclesiais de base, a teologia da libertação. Que reflexos estes estudos deixaram em seu trabalho atual?

Faustino Teixeira - As comunidades eclesiais de base são objeto particular do meu carinho e apreço. Dediquei a elas uma parte significativa dos meus estudos e trabalho. E continuo publicando a respeito e assessorando os encontros intereclesiais de CEBs. Minha dissertação de mestrado e tese de doutorado foram dedicadas a elas. Durante um tempo importante de minha vida atuei com junto Teita, minha mulher, em Volta Redonda, acompanhado a experiência das CEBs. Guardo com grande alegria no coração a presença carinhosa, amiga e incentivadora de Dom Waldir Calheiros, bispo da região, que sempre me estimulou e provocou ao exercício de uma teologia atenta aos sinais dos tempos e movida por compaixão pelos empobrecidos. Minha formação teológica aconteceu num momento auge da teologia da libertação e sua influência é marcante em minha trajetória. São grandes e decisivos os reflexos desta teologia na minha reflexão e produção acadêmica. Recentemente, assessorei um seminário nacional de teologia da libertação em Porto Alegre, organizado pelo CECA e o CEBI. Foi uma experiência muito interessante. Foi uma oportunidade para rever a reflexão sobre o tema e destacar as mudanças ocorridas nos últimos anos, com os novos desafios apresentados. Venho também participando há anos do grupo de Emaús, que reúne teólogos brasileiros, filósofos, cientistas sociais e pastoralistas marcados por grande vínculo com a teologia da libertação. E posso verificar a força de criatividade desta teologia, que ao contrario do que se diz, não morreu Mas está viva e provocada por novos desafios, como por exemplo o pluralismo religioso.

IHU On-Line - É muito difícil trabalhar a teologia sendo um teólogo leigo?

Faustino Teixeira - Não creio ser difícil, mas bem desafiante. Temos hoje no Brasil um bom grupo de teólogos leigos (mulheres e homens) atuando em universidades particulares católicas ou protestantes. A perspectiva e a visada do leigo é distinta e particular. Há a rica experiência da família, a inserção no mundo profissional, o diálogo efetivo com as outras áreas do saber. Tudo isso faculta um jeito diferente de exercer a teologia. Mas é um campo que ainda suscita desconfiança no meio acadêmico, em razão do controle doutrinal que se exerce sobre o profissional da teologia. A liberdade de pesquisa e expressão é sempre condicionada e limitada, sobretudo no caso dos teólogos leigos que atuam em universidades católicas.

Há dificuldades para teólogos leigos

Temos observado casos muito humilhantes de teólogos que são obrigados a se retratar ou que, sob o crivo da auto-censura, não podem exercer livremente a sua vocação de pesquisa e reflexão. Lamento também a situação que se firma em alguns lugares de nosso país de separação da formação teológica dos seminaristas com respeito aos leigos. Os primeiros podem fazer a teologia normal, com horários e professores privilegiados, enquanto os leigos são incentivados a fazer uma espécie de "madureza teológica" no horário noturno. Em alguns casos, até os diplomas são diferenciados. Em certa ocasião, quando ainda lecionava na PUC do Rio, um dos "visitadores" que foram avaliar o nosso curso de teologia observou que, em razão da presença de leigos entre os alunos e professores, vivia-se um ambiente não favorável e propício ao crescimento e formação eclesiástica. Como é que a teologia pode se afirmar academicamente com lideranças eclesiásticas com visão de mundo tão estreitas e limitadas? É uma questão complexa.

IHU On-Line - O senhor é casado desde 1978 com a médica Maria Teresa Bustamante (Teita). Isso significa que sua esposa o acompanha desde o início de sua formação profissional. Como foram aqueles tempos? Qual a importância de Teita como incentivadora de seu trabalho?

Faustino Teixeira - Eu vejo como um privilégio único estar casado com Teita há tanto tempo e poder partilhar com ela o meu caminho de vida. É alguém que está sempre ao meu lado, me estimulando e fazendo crescer. Juntos fomos para o Rio em 1978, quando comecei a experiência do mestrado. Juntos formamos uma família muito especial. Quando surgiu a oportunidade de ir fazer o doutorado em Roma, ela foi uma das pessoas que mais me incentivou. Ela largou um emprego público para viver a nova aventura! Ficamos hospedados na Via Cassia com as irmãs dominicanas por quase um mês, de forma um pouco improvisada e com dois filhos bem pequenos Depois conseguimos um apartamento em Ladispoli (Tirreno) e lá ficamos nos quatro anos do doutorado (de 1982 a 1985). Voltamos novamente a Roma nos anos de 1997 e 1998, para o pós-doutorado, e também foi uma experiência muito enriquecedora. Foi o momento em que pude aprofundar minhas reflexões com Jacques Dupuis, que me orientou na ocasião. Teita aproveitou muito bem sua experiência romana, fazendo contatos e cursos na área da saúde. Sua experiência no exterior possibilitou o acesso a métodos de reflexão que foram essenciais para o seu doutorado na UERJ. Hoje ela atua num dos mais importantes núcleos de pesquisa da UFJF, o NATES, e coordena outros trabalhos fundamentais relacionados à saúde da família, além de coordenar o mestrado em saúde coletiva.

IHU On-Line - Quando vieram seus filhos? Como eles se chamam e qual a idade deles? Eles já estão encaminhados profissionalmente?

Faustino Teixeira - Eu tenho quatro filhos: Pedro (25 anos), João (23 anos), Tiago (17 anos) e Daniel (15 anos). Pedro, o filho mais velho, está fazendo letras na UFJF. É um apaixonado por música, literatura brasileira e italiano. João está fazendo bacharelado em violoncelo na UFRJ, no Rio de Janeiro. É o único filho que saiu de casa. Esta tocando em três orquestras do Rio, entre elas a OSB Jovem. Tiago está cursando a segunda série de segundo grau e ainda tem dúvidas sobre sua profissão. Daniel está na primeira série do segundo grau e também não se decidiu.

IHU On-Line - Qual a importância de sua família em sua vida?

Faustino Teixeira - Eu sempre fui muito família. Venho de um núcleo familiar grande e unido. São laços afetivos fortes, regados a muita musicalidade. Nasci num ambiente cercado de poesia, música e afeição. Tenho a alegria de poder desfrutar a presença de minha mãe tão querida, na flor de seus 88 anos. Ela continua a exercer uma presença única entre os filhos. Com ela montei um grupo de oração, que se reúne quinzenalmente em torno do Ofício Divino das Comunidades. Trata-se de um grupo quase exclusivamente de mulheres, e de "mulheres ensolaradas", para usar uma expressão de Lia Luft. Todas vêm de uma participação viva na Igreja, atuando na Renovação Cristã e na Fraternidade Dominicana. Conseguimos criar um espaço muito importante de oração e recolhimento. Vejo com alegria a continuidade de um clima de muita fraternidade também na relação que busco manter com minha mulher e meus filhos. Um dos elos de ligação continua sendo a música, que também é a paixão de meus filhos. Três deles tocam instrumentos: violoncelo e violão. O espaço geográfico de nossa casa também ajuda, e muito. Moramos numa casa em meio a árvores e muita paisagem verde, o que serve para criar um clima de aproximação e aconchego. É uma experiência única ter a presença carinhosa da mulher e dos filhos ao meu lado. E a teologia lucra muito com isto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário