Inseridos na teia da vida
Em trabalho que publiquei num de meus último livros, “Paisagens” (Appris, 2024), abordei os temas da teia de vida sob os pés e os caminhos colaborativos do mundo invisível. Apontei também esse traço curioso da presença do “outro mundo” dentro de nós, ou seja, da presença misteriosa das milhares de bactérias, vírus, fungos, protozoários e leveduras em nosso mundo interior. Somos seres habitados pela diversidade. E essa diversidade torna-se fundamental para o nosso equilíbrio interno. Como afirmei no texto, “essa maravilhosa teia de vida não está, portanto, apenas sob os nossos pés, mas está dentro de nós, de forma esplêndida e misteriosa”.
Como disse a premiada escritora Olga Tokarczuk, talvez “o pecado pelo qual fomos expulsos do paraíso não foi o sexo, nem a desobediência, nem mesmo a descoberta dos segredos divinos, mas a ideia de que somos algo separado do resto do mundo, singular e monolítico”. Absolutamente não, somos uma teia de vida animada por outros seres, distintos de nós e em comunhão conosco. Parafraseando a Donna Haraway, somos criaturas da lama e não do céu. Também o papa Francisco, em sua encíclica Laudato si, sobre o cuidado da Casa Comum, sublinhou logo no início de que “nós mesmos somos terra (Gn 2,7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta” (LS 2). A variedade presente em nossa macrobiota é a garantia da saúde de nosso organismo. O incrível é constatar que em nossas células humanas, há a presença “intrigante” de organelas chamadas mitocôndrias, originadas em bactérias aeróbicas primitivas.
Essa mesma constatação veio primorosamente apontada por José Eduardo Agualusa em artigo publicado no O Globo, em 22 de fevereiro de 2025, com o título: “A nossa metade não humana”. Ele também fala da presença em nosso corpo, em metade das células, a presença de outros seres invisíveis que são essenciais para o nosso corpo. Chega a sugerir que “a melhor parte de alguns humanos é a sua metade não humana”. Diz ainda que “a cada avanço do conhecimento, a arrogância humana recua – ou deveria recuar. Não somos o centro do Universo. Somos parte dele. Não estamos apartados da natureza. Somos a natureza. Não somos uma forma de vida superior. Somos a conjunção harmoniosa de inumeráveis formas de vida.”. Sem dúvida, o diálogo está também dentro de nós, como um convite aberto para vivermos essa experiência essencial na relação com os nossos amigos humanos.
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