quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Inseridos na teia da vida

 Inseridos na teia da vida

 

Em trabalho que publiquei num de meus último livros, “Paisagens” (Appris, 2024), abordei os temas da teia de vida sob os pés e os caminhos colaborativos do mundo invisível. Apontei também esse traço curioso da presença do “outro mundo” dentro de nós, ou seja, da presença misteriosa das milhares de bactérias, vírus, fungos, protozoários e leveduras em nosso mundo interior. Somos seres habitados pela diversidade. E essa diversidade torna-se fundamental para o nosso equilíbrio interno. Como afirmei no texto, “essa maravilhosa teia de vida não está, portanto, apenas sob os nossos pés, mas está dentro de nós, de forma esplêndida e misteriosa”. 

 

Como disse a premiada escritora Olga Tokarczuk, talvez “o pecado pelo qual fomos expulsos do paraíso não foi o sexo, nem a desobediência, nem mesmo a descoberta dos segredos divinos, mas a ideia de que somos algo separado do resto do mundo, singular e monolítico”. Absolutamente não, somos uma teia de vida animada por outros seres, distintos de nós e em comunhão conosco. Parafraseando a Donna Haraway, somos criaturas da lama e não do céu. Também o papa Francisco, em sua encíclica Laudato si, sobre o cuidado da Casa Comum, sublinhou logo no início de que “nós mesmos somos terra (Gn 2,7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta” (LS 2).  A variedade presente em nossa macrobiota é a garantia da saúde de nosso organismo. O incrível é constatar que em nossas células humanas, há a presença “intrigante” de organelas chamadas mitocôndrias, originadas em bactérias aeróbicas primitivas. 

 

Essa mesma constatação veio primorosamente apontada por José Eduardo Agualusa em artigo publicado no O Globo, em 22 de fevereiro de 2025, com o título: “A nossa metade não humana”. Ele também fala da presença em nosso corpo, em metade das células, a presença de outros seres invisíveis que são essenciais para o nosso corpo. Chega a sugerir que “a melhor parte de alguns humanos é a sua metade não humana”. Diz ainda que “a cada avanço do conhecimento, a arrogância humana recua – ou deveria recuar. Não somos o centro do Universo. Somos parte dele. Não estamos apartados da natureza. Somos a natureza. Não somos uma forma de vida superior. Somos a conjunção harmoniosa de inumeráveis formas de vida.”. Sem dúvida, o diálogo está também dentro de nós, como um convite aberto para vivermos essa experiência essencial na relação com os nossos amigos humanos.

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