O brutalista
Assisti ontem, 20/02/2025, ao filme O Brutalista, dirigido pelo americano Brady Corbet. Tive que me armar da disposição de assistir a um filme de 3 horas e meia, com intervalo de 15 minutos entre as duas partes. Trata-se de um filme precioso, e não deu para ser castigado pelo tempo. Gostei muito da direção, do roteiro, da fotografia e da magnífica atuação Adrien Brody, interpretando um arquiteto húngaro judeu, saído dos horreres de um campo de concentração nazista. O filme concorre a dez categorias no Oscar de 2025: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Montagem e Melhor Trilha Sonora.
Como mostrou Inácio Araujo em sua resenha na FSP, trata-se de “um filme do pós-guerra”, que carrega consigo as dores indizíveis do grave conflito que dizimou tantas vidas e marcou para sempre outras, dos que sobreviveram com seus traumas particulares. É o caso de László Tóth, que vive no filme o drama de uma separação dolorosa: ele e a mulher viveram experiências doídas em campos de concentração distintos. Ele conseguiu chegar aos Estados Unidos, mas ela ficou retida na Hungria, e só na segunda parte do filme é que os dois finalmente se encontram. Junto com ela, a sobrinha órfã, Zsófia.
O filme busca também expor duramente “a fragmentação do ´sonho americano`” e o lado sombrio do capitalismo. Como disse um cronista: “O filme olha essa noção idealizada de que você pode chegar nos EUA e fazer qualquer coisa da sua vida, mas isso não é realmente o caso. Para cada pessoa que consegue ter sucesso, existem muitas outras que não têm sucesso”. O filme aborda um “lado podre” dos Estados Unidos, exemplificado por preconceitos com os diferentes, e um sentimento de empáfia que nos causa asco.
Outra cena impressionante ocorre na Itália, quando László e seu poderoso patrão viajam para Carrara, visando conseguir o mármore em estado puro para compor o altar previsto no suntuoso projeto arquitetônico, cujo objetivo na visão de László permanece desconhecido pelo capitalista contratante. Como disse Guy Pearce, “o aspecto mais memorável foi a incrível beleza de poder ver esse mármore natural. Era tudo muito místico e belo, mas ao mesmo tempo era devastador ver o que nós, seres humanos, fazemos com o mundo natural só para ter uma bela bancada de cozinha”.
O filme nos mostra com grande maestria que as guerras não acabam simplesmente, mas deixam marcas permanentes e dores que não se apagam. É interessante observar no filme a presença silenciosa da sobrinha, Zsófia, que acompanha a mulher de László na jornada que a leva ao encontro do marido. Um silêncio de uma jovem que não consegue adaptar-se de forma alguma ao país, e que sofre com o assédio. Há algo também precioso no filme, expresso na proximidade/distância que vige na relação do casal, marcado pelas dores da guerra. Ela, a mulher, chega aos EUA de cadeira de rodas, em razão da osteoporose adquirida em razão da fome passada no campo de concentração. Ao lado de um amor profundo, a presença de um distanciamento e estranhamento que igualmente delineia a relação, numa tensão surda e complexa.
Tem razão o crítico Inácio Araujo, quando sublinha ser o filme uma “obra prima”, que vem traduzir um novo e inaugural momento no “imenso vácuo de quase todo o cinema americano”.
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