CELEBRAÇÃO EM AÇÃO DE GRAÇAS
70 ANOS
DE
TEITA
Tiguera, 03 de fevereiro de 2025
“Quem sabe isso quer dizer amor”
Chegada: Momento de silêncio – solo de flauta (Estêvão Teixeira)
Acolhida:
Estamos hoje aqui reunidos no Tiguera, em família, para celebrarmos os 70 anos de Teita. Essa morena querida tem sido minha companheira ao longo de quase cinquenta anos. Quando nos conhecemos, eu estudava filosofia e ela estava no final do curso de medicina. Foi um encontro bonito, que vem se prorrogando com muita fragrância ao longo desses anos.
Passei dois dias de janeiro lendo as cartas que escrevi para a Teita durante o pré-namoro e namoro, bem como as respostas de Teita. Foram momentos de muito alegria. Poder, por exemplo, saber que ela me chamava carinhosamente de “filhote”. Foi também motivo de grande satisfação constatatar a presença forte em nossa vida dos poemas de Drummond. Em 1973, o poeta tinha lançado dois livros: Menino Antigo e As Impurezas do Branco. Esses livros pontuaram muitas de nossas correspondências.
Uma passagem do poema de Drummond, “Mulher vestida de homem”, do livro, Menino Antigo, era mote essencial de nossa relação:
“Sou seu amigo, sem desejo,
amigo-amigo puro,
desses de compreender sem perguntar”
Do mesmo Drummond, desta vez, do livro “As impurezas do branco, partilhávamos a convicção de que éramos sobreviventes que incomodavam. Daqueles que não adiantava sofrer ameaças. Dizia Drummond: “Volto sempre, todas as manhãs me volto, viravolto com exatidão de carteiro que distribui más notícias. Podíamos tropeçar, sem dúvida, mas podíamos garantir o nosso sorriso.
O que dizer sobre Teita? Está aí, algo difícil de expressar... Mas vou tentar. Queria começar fazendo referência a uma carta que a jovem filósofa mineira, Sonia Viegas, escreveu para as suas filhas gêmeas, Angela e Mônica, por ocasião de seus quinze anos. O presente que ela resolveu dar para suas filhas não foi algo material, mas valores que considerava fundamentais.
Ela indicou alguns valores:
(a) viver de maneira verdadeira; (b) uma existência cheia de amor (e sublinhava: uma existência cheia de amor possui um mundo, enquanto uma existência sem amor ocupa um lugar); (c) uma vida de alegria (e ela cita uma passagem de G.Rosa, colocada na boca do personagem Miguilim: “Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma”; (d) manter sempre viva a esperança (é preciso alimentar esperanças); (e) acalentar e apreciar a beleza que nos rodeia. A beleza que é a capacidade de o corpo expressar a alma).
Vejo como um traço essencial da vida de Teita, que me encanta e envaidece, é a sua capacidade de alegria. Mas sublinho ainda outros aspectos cruciais de sua vida: o dom da hospitalidade, da abertura aos outros e da generosidade em movimento. O que ela vem buscando me ensinar ao longo do tempo, num aprendizado difícil para mim, é o toque da gentileza e da cortesia. Assinala repetidamente que ser gentil é a forma mais nobre de existir. Teita tem o dom de tecer laços afetivos. Gosta de encontros, de muita festa e de gente por perto. Isso se manifesta em todos os seus movimentos, inclusive no trabalho.
Ela sempre seguiu na risca um mote trabalhado e vivenciado por vovó Guiguita: “Que importa-me lá, ninguém me governa”. Leva a sério esse elemento fundamental, e que nos foi também aconselhado por um grande amigo, o pe Dalton, na época de nosso casamento. Dizia que o essencial para uma relação duradoura e amorosa é saber sobre aquilo que não se pode renunciar.
Algo semelhante foi dito por Clarice Lispector em carta para a sua irmã Tânia, quando vivia momentos duros em Berna, na Suiça, em janeiro de 1948. Sinalizou para a irmã a importância da realização pessoal. Disse a ela que até cortar os defeitos pode ser algo perigoso, pois nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro. Queria dizer com isso da importância do respeito ao nó vital de uma pessoa.
A mesma Clarice nos ensina sobre a importância de não resistir demais contra o ritmo das ondas, mas, mas sim aprender a subir e descer com a onda, mantendo vivas certas qualidades, como a paciência e a espera.
Tudo fica mais leve quando aprendemos a navegar com serenidade e paz, apesar de tantas tensões e conflitos que habitam o nosso mundo. Com isso também tenho aprendido com Teita. Um jeito Zen de ser: simplesmente a alegria de estar aqui...
“As vezes basta resolver estar simples, e o milagre se realiza: tudo fica mais sereno... sutil... iluminado”. Há que deixar que o ardor e a vibração da primavera pulsem em nós: quando a vida se vê multiplicada e conseguimos perceber a beleza de cada instante.
Um poeta português que muito admiro, Eugénio de Andrade, dizia:
É urgente o amor
É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão, crueldade (...)
É urgente inventar a alegria
Multiplicar os beijos, as searas
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.
O meu singular mestre zen, Dôgen (século XIII), dizia de forma contundente, em texto de beleza única que “durante a nossa inteira existência, com a nossa força de vontade, torna-se necessário pronunciar palavras de amor. De geração a geração”.
Para finalizar, uma dica maravilhosa da poeta portuguesa, Adilia Lopes, que nos deixou em dezembro de 2024:
o amanhã
é
como o arco-íris
Um anjo
está contigo
quando desanimas
Um anjo
está contigo
quando te alegras
Sempre
um anjo
está contigo.
O texto estava pronto, mas resolvi acrescentar algo que é para todos nós. Lendo o livro de Mirian Goldenberg, sobre a bela velhice, encontrei uma pérola, que vem de Simone Beauvoir: A velhice sadia tem a ver com o projeto de vida. E neste projeto, um grande dom é a capacidade de sorrir... sorrir sempre, na alegria, mas também na tristeza. “Sorrir é coisa de gente feliz”.
Diz Mirian que para envelhecer bem é necessário olhar a vida com bom humor e aprender a transformar tragédias em comédias. Mirian perguntou a uma das entrevistadas de sua pesquisa, uma professora de 60 anos. Quando indagado sobre o segredo para envelhecer bem, ela respondeu, sem titubear: “Para envelhecer bem, eu sou feliz, dou muitas risadas”.
Obrigado, Teita, por existir e estar aqui entre nós carregando esse suave perfume.
DOM: Entrega de rosas vermelhas pelos netos Caetano, Iara e José (são sete rosas, simbolizando os netos e netas)
(ao fundo a canção Ofertório, de Caetano Veloso)
“Tudo que por ti vi florescer de mim
Senhor da vida
Toda essa alegria que espalhei e que senti
Trago hoje aqui
Todos estes frutos que aqui juntos vês
Senhor da vida
Eu em cada um deles e em mim
Todos teus fiéis, ponho a teus pés
Consentistes que minha pessoa
Fosse da esperança um teu sinal
Uma prova de que a vida é boa
E de que a beleza vence o mal
Tudo que se foi de mim, mas não perdi
Senhor da vida
Os que já chorei e os que ainda estão por vir, oferto a ti”
Recordação de Teita pelos amigos: palavra aberta (3 minutos para cada um). Falaram Teita, Pedro R. Oliveira, Ana Maria.
Leitura Bíblica: Cântico dos Cânticos
(a)
“Vem, minha amada
Vamos ao campo
Pernoitemos sob os cedros;
Madruguemos pelas vinhas,
Vejamos se a vinha floresce,
Se os botões estão se abrindo
Se as romeiras vão florindo:
Lá te darei meu amor”
(b)
“Meu amado põe a mão
Pela fenda da porta:
As entranhas me estremecem,
Minha alma, ouvindo-o se esvai.
Ponho-me de pé
Para abrir ao meu amado:
Minhas mãos gotejam mirra,
Meus dedos são mirra escorrendo
Na maçaneta da fechadura.”
Oração da Ecumene Abraâmica:
Em nome do Deus Omni-Misericordioso, o Misericordioso.
Louvado seja Deus, o Senhor dos mundos (...)
A Ti somente adoramos.
Somente a Ti imploramos socorro.
Gia-nos na senda da retidão.
(Corão 1-1-7)
Ouve, ó Israel: Iahweh é nosso Deus.
Portanto, amarás a Iahweh com todo o teu coração,
Com toda a tua alma e com toda a tua força.
(Dt 6,4-5)
Pai nosso que estás nos céus.
Santificado seja o teu nome,
venha o Teu reino.
Seja feita a tua vontade,
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje,
perdoa-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos a quem tem nos ofendido.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal,
pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre.
Amém.
Partilha do vinho e pão (Dudu para Teita e vice-versa)
(Ao fundo: a música – Cantar)
“Se numa noite eu viesse ao clarão do luar
Cantando e aos compassos de uma canção
Te acordar
Talvez com saudade cantasses também
Relembrando aventuras passadas
Ou um passado feliz com alguém
Cantar quase sempre nos faz recordar
Sem querer
Um beijo, um sorriso, ou uma outra ventura qualquer
Cantando aos acordes do meu violão
É que mando depressa ir-se embora
Saudade que mora no meu coração
Cantar quase sempre nos faz recordar
Sem querer
Um beijo, um sorriso, ou uma outra ventura qualquer
Cantando aos acordes do meu violão
É que mando depressa ir-se embora
Saudade que mora no meu coração”
Meditação – João da Cruz e Cântico dos Cânticos:
“Na interior adega
Do Amado meu, bebi” (João da Cruz)
Comei e bebei, companheiros.
Embriagai-vos, meus caros amigos
A voz do meu amado!
Vejam, vem correndo pelos montes,
Saltitando nas colinas...
Deixa-me ver tua face
Deixa-me ouvir tua voz...
Roubaste meu coração,
Com um só dos teus olhares
Que belos são teus amores.
Toque de Berimbau (João Couto Teixeira)
Canção Final: Amor sem limites (Roberto Carlos)
“Quando a gente ama alguém de verdade
Esse amor não se esquece
O tempo passa, tudo passa, mas no peito
O amor permanece
E qualquer minuto longe é demais
A saudade atormenta
Mas qualquer minuto perto é bom demais
O amor só aumenta
Vivo por ela
Ninguém duvida
Porque ela é tudo
Na minha vida
Eu nunca imaginei que houvesse no mundo
Um amor desse jeito
Do tipo que quando se tem não se sabe
Se cabe no peito
Mas eu posso dizer que sei o que é ter
Um amor de verdade
E um amor assim eu sei que é pra sempre
É pra eternidade
Vivo por ela
Ninguém duvida
Porque ela é tudo
Na minha vida
Quem ama não esquece quem ama
O amor é assim
Eu tenho esquecido de mim
Mas dela eu nunca me esqueço
Por ela esse amor infinito
O amor mais bonito
É assim nosso amor sem limite
O maior e mais forte que existe
Vivo por ela
Ninguém duvida
Porque ela é tudo
Na minha vida
Quem ama não esquece quem ama
O amor é assim
Eu tenho esquecido de mim
Mas dela eu nunca me esqueço
Por ela esse amor infinito
O amor mais bonito
É assim nosso amor sem limite
O maior e mais forte que existe
Vivo por ela
Ninguém duvida
Porque ela é tudo
Na minha vida”
Bênção Final. (José Geraldo Teixeira):
Que o Senhor te abençoe e te guarde;
que a face do Senhor brilhe por tua causa,
que ele tenha misericórdia de ti;
que mostre para ti a sua face.
E te conceda a paz (Nm 6,24-26)
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