quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Antonio Candido, anotações finais

 Antonio Candido, anotações finais 

 

Consegui, finalmente, assistir ao documentário de Eduardo Escorel abordando os dois últimos cadernos de anotação de Antonio Candido (1918-2017). Fui tomado de emoção do começo ao fim do filme, uma peça extraordinária, que consegue trazer para nós, leitores, uma imagem precisa e terna desse professor de grandeza única. Antonio Candido deixou 74 cadernos inéditos, que se encontram sob a guarda de suas três filhas. Escorel escolheu abordar os cadernos finais, que cobrem o período de 2015 a 2017. Antonio Candido morreu em maio de 2017, com 98 anos de uma vida fascinante.

 

O diretor conseguiu a autorização das filhas de Antonio Candido para ler os cadernos inéditos. E escolheu os dois últimos para a realização de seu filme, de 84 minutos: Antonio Candido, anotações finais. A forma escolhida para abordar o tema foi singular. Decidiu não utilizar entrevistas com outras pessoas, ou uma narração falando dele. A opção foi deixar os próprios cadernos falarem, na voz maravilhosa do ator Matheus Nachtergaele. Como sublinhou Eduardo Escorel, com essa presença de Matheus na narração, tudo transcorreu de forma extraordinária, como um “passeio no parque”.  Para Matheus foi um desafio aceitar a empreitada. Ele sublinha: “Foi um desafio bonito botar a voz em um projeto tão pessoal do Eduardo Escorel (...). Era preciso uma melancolia, mas não uma tristeza. Era preciso uma paixão educada, como é o retratado”. Matheus fala emocionado de Antonio Candido: alguém que, segundo ele, “acredita no Brasil, ainda”. Segundo Escorel, o seu filme busca retratar o ser humano extraordinário que foi Antonio Candido, como poucos no Brasil.

 

Num tempo de pouco mais de hora e meia, o documentário aborda vários temas, como a iminência da morte, a presença viva de Gilda Mello e Souza – a mulher de Antonio Candido, que tinha falecido em 2005 -, o seu processo de envelhecimento, a sua história de militância, suas reflexões sobre o Brasil e a presença do racismo. A meu ver, um dos momentos mais emocionantes do documentário é quando ele fala com carinho de sua companheira de uma vida, Gilda Mello e Souza, que foi filósofa e crítica literária. Ele ficou profundamente abalado com a morte de sua esposa, nunca se refazendo totalmente de sua perda.

 

O que se destaca no documentário é a profunda lucidez de Antonio Candido, que guardou serenidade e tenacidade até o final de sua vida. Em sua história combina-se admiravelmente a melancolia com a lucidez. Sua reflexões sobre a literatura são inspiradoras. No meu caso, suas obras são de fundamental importância para o meu trabalho de abordagem da literatura, sobretudo com os autores: Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. 

 

Num texto de Antonio Candido- “Pranto dos livros” -, que inspirou Eduardo Escorel na elaboração do documentário, o professor se imagina morto, fechado num caixão, sendo objeto de lamento de seus livros. Ele sublinha que com sua morte o mundo não deixa de existir, e continua seu movimento: “As pessoas continuam a trabalhar e a passear, os amigos misturam alguma tristeza com as preocupações da hora e lembram de mim apenas por intervalos”. Falando sobre si mesmo, Candido destaca “certa amenidade de convívio”, sendo capaz de acolher com carinho pobres e ricos. Mas gostava mesmo era de ficar só e fugia sempre da publicidade. 

 

Merece destaque especial o seu empenho em favor da justiça social e da igualdade. Ao final do filme, ele revela que sua opção primeira é em favor da igualdade, que a seu ver merece um lugar privilegiado, também com respeito à liberdade. Com verve crítica, denuncia a grave situação do racismo no Brasil, reconhecendo que o negro permanece sendo “o grande excluído até hoje”. Esteve na origem tanto do partido socialista como do partido dos trabalhadores. Reconhece o grande valor de Lula, que a seu ver teve o mérito fundamental de atenuar a situação de iniquidade econômica e social do Brasil. 

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