quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Antonio Candido, anotações finais

 Antonio Candido, anotações finais 

 

Consegui, finalmente, assistir ao documentário de Eduardo Escorel abordando os dois últimos cadernos de anotação de Antonio Candido (1918-2017). Fui tomado de emoção do começo ao fim do filme, uma peça extraordinária, que consegue trazer para nós, leitores, uma imagem precisa e terna desse professor de grandeza única. Antonio Candido deixou 74 cadernos inéditos, que se encontram sob a guarda de suas três filhas. Escorel escolheu abordar os cadernos finais, que cobrem o período de 2015 a 2017. Antonio Candido morreu em maio de 2017, com 98 anos de uma vida fascinante.

 

O diretor conseguiu a autorização das filhas de Antonio Candido para ler os cadernos inéditos. E escolheu os dois últimos para a realização de seu filme, de 84 minutos: Antonio Candido, anotações finais. A forma escolhida para abordar o tema foi singular. Decidiu não utilizar entrevistas com outras pessoas, ou uma narração falando dele. A opção foi deixar os próprios cadernos falarem, na voz maravilhosa do ator Matheus Nachtergaele. Como sublinhou Eduardo Escorel, com essa presença de Matheus na narração, tudo transcorreu de forma extraordinária, como um “passeio no parque”.  Para Matheus foi um desafio aceitar a empreitada. Ele sublinha: “Foi um desafio bonito botar a voz em um projeto tão pessoal do Eduardo Escorel (...). Era preciso uma melancolia, mas não uma tristeza. Era preciso uma paixão educada, como é o retratado”. Matheus fala emocionado de Antonio Candido: alguém que, segundo ele, “acredita no Brasil, ainda”. Segundo Escorel, o seu filme busca retratar o ser humano extraordinário que foi Antonio Candido, como poucos no Brasil.

 

Num tempo de pouco mais de hora e meia, o documentário aborda vários temas, como a iminência da morte, a presença viva de Gilda Mello e Souza – a mulher de Antonio Candido, que tinha falecido em 2005 -, o seu processo de envelhecimento, a sua história de militância, suas reflexões sobre o Brasil e a presença do racismo. A meu ver, um dos momentos mais emocionantes do documentário é quando ele fala com carinho de sua companheira de uma vida, Gilda Mello e Souza, que foi filósofa e crítica literária. Ele ficou profundamente abalado com a morte de sua esposa, nunca se refazendo totalmente de sua perda.

 

O que se destaca no documentário é a profunda lucidez de Antonio Candido, que guardou serenidade e tenacidade até o final de sua vida. Em sua história combina-se admiravelmente a melancolia com a lucidez. Sua reflexões sobre a literatura são inspiradoras. No meu caso, suas obras são de fundamental importância para o meu trabalho de abordagem da literatura, sobretudo com os autores: Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. 

 

Num texto de Antonio Candido- “Pranto dos livros” -, que inspirou Eduardo Escorel na elaboração do documentário, o professor se imagina morto, fechado num caixão, sendo objeto de lamento de seus livros. Ele sublinha que com sua morte o mundo não deixa de existir, e continua seu movimento: “As pessoas continuam a trabalhar e a passear, os amigos misturam alguma tristeza com as preocupações da hora e lembram de mim apenas por intervalos”. Falando sobre si mesmo, Candido destaca “certa amenidade de convívio”, sendo capaz de acolher com carinho pobres e ricos. Mas gostava mesmo era de ficar só e fugia sempre da publicidade. 

 

Merece destaque especial o seu empenho em favor da justiça social e da igualdade. Ao final do filme, ele revela que sua opção primeira é em favor da igualdade, que a seu ver merece um lugar privilegiado, também com respeito à liberdade. Com verve crítica, denuncia a grave situação do racismo no Brasil, reconhecendo que o negro permanece sendo “o grande excluído até hoje”. Esteve na origem tanto do partido socialista como do partido dos trabalhadores. Reconhece o grande valor de Lula, que a seu ver teve o mérito fundamental de atenuar a situação de iniquidade econômica e social do Brasil. 

Faustino Assunção Teixeira

 Sobre Faustino Assunção Teixeira

 

Em 1985 foi comemorado em Bom Despacho o centenário de nosso avô paterno, Faustino Assunção Teixeira

 

Em documento da Prefeitura Municipal de Bom Despacho, em 1985, se diz:

 

“Estamos prestando uma homenagem ao homem que encarnou com maior densidade a figura do político bom-despachense: leal, combativo, corajoso, generoso, humanitário, desprendido, realizador e sonhador (...). Faustino Assunção Teixeira é mais do que um exemplo. É um modelo de cidadão bom-despachense. Que viva sua memória e os nossos ideais” (Célio Luquine e Equipe)

 

Ele nasceu em Bom Despacho, em 12 de fevereiro de 1885 e faleceu em Juiz de Fora, no dia 07 de janeiro de 1943.

 

Dados de sua atuação pública:

 

. Ingressou cedo na política

. Foi secretário da Primeira Câmara Municipal, empossada em junho de 1912

. Foi prefeito da cidade de Bom Despacho a partir de 1922

 

Segundo Maria Zuleika Teixeira Bezerra, em artigo de 1985, Faustino, como prefeito, deu “uma grande lição de desprendimento dos próprios interesses, cuidando com inexcedível zelo” das causas em que se manteve ligado. Em sua visão, Faustino foi um “político brilhante, honesto e empreendedor”, mas acima de tudo, “um homem bom”.

 

. Entre os traços de seu legado: o alargamento das ruas da cidade, o estabelecimento de uma nova captação de água; organizou e aprovou os estatutos da Companhia Força e Luz; um carinho especial com a instrução primária da população, com a instalação de diversas escolas rurais; a ampliação dos limites territoriais da cidade, com a aquisição de uma larga faixa de terras; melhoria no sistema de comunicação rodoviária, com as benfeitorias realizadas nas estradas  que ligavam a sede do município à Moema e à Usina de Força e Luz;  organizou o Clube Bom Despacho; instalação da Vila Operária, bem como as oficinas e escritório central da Estrada de Ferro Paracatu; criação de duas colônias agrícolas.

 

. Ele foi o segundo presidente do Conselho Particular da Sociedade São Vicente de Paulo. Era um católico convicto.

 

. Ajudou no reerguimento da Santa Casa de Misericórdia, que estava fadada à ruina.

 

. Segundo o relato de Maria Zuleika, quando Faustino entrou na política, “tinha casa, farmácia, pastagens, gado, algum dinheiro e independência comercial”

 

Em carta de Alexandra Pereira Franco, de 15 anos, ela revelou que no nicho de Faustino “radiava a honra de ser honesto e jamais guardar ódios ou mágoas”. Lembrou ainda que ele mantinha sempre aberta a sua farmácia aos que não tinham recursos, e tomava sempre a defesa dos pobres.

 

. Faustino recebeu como homenagem da cidade um relógio Patek Philippe: em 06 de abril de 1924. Uma joia única. Tinha sido antes presenteado com um automóvel, que vendeu para pagar dívidas.

 

. O relógio ficou um tempo em posse de Faustino A. Teixeira. Em 04 de abril de 1944, sua esposa, Maria de Carvalho Teixeira, dedicou ao filho Rossini, “pelo muito que tem feito pelos seus”, o cuidado com o relógio. Essa guarda passou em seguida para o irmão Mozart Teixeira. Depois de estar aos cuidados de José Geraldo Teixeira, passou agora a ficar sob a guarda de Faustino L.C. Teixeira, que é, no momento, o Faustino mais novo da família. 

O brutalista

 O brutalista

 

Assisti ontem, 20/02/2025, ao filme O Brutalista, dirigido pelo americano Brady Corbet. Tive que me armar da disposição de assistir a um filme de 3 horas e meia, com intervalo de 15 minutos entre as duas partes. Trata-se de um filme precioso, e não deu para ser castigado pelo tempo. Gostei muito da direção, do roteiro, da fotografia e da magnífica atuação Adrien Brody, interpretando um arquiteto húngaro judeu, saído dos horreres de um campo de concentração nazista. O filme concorre a dez categorias no Oscar de 2025:  Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Montagem e Melhor Trilha Sonora.

 

Como mostrou Inácio Araujo em sua resenha na FSP, trata-se de “um filme do pós-guerra”, que carrega consigo as dores indizíveis do grave conflito que dizimou tantas vidas e marcou para sempre outras, dos que sobreviveram com seus traumas particulares. É o caso de László Tóth, que vive no filme o drama de uma separação dolorosa: ele e a mulher viveram experiências doídas em campos de concentração distintos. Ele conseguiu chegar aos Estados Unidos, mas ela ficou retida na Hungria, e só na segunda parte do filme é que os dois finalmente se encontram. Junto com ela, a sobrinha órfã, Zsófia.

 

O filme busca também expor duramente “a fragmentação do ´sonho americano`” e o lado sombrio do capitalismo. Como disse um cronista: “O filme olha essa noção idealizada de que você pode chegar nos EUA e fazer qualquer coisa da sua vida, mas isso não é realmente o caso. Para cada pessoa que consegue ter sucesso, existem muitas outras que não têm sucesso”. O filme aborda um “lado podre” dos Estados Unidos, exemplificado por preconceitos com os diferentes, e um sentimento de empáfia que nos causa asco.

 

Outra cena impressionante ocorre na Itália, quando László e seu poderoso patrão viajam para Carrara, visando conseguir o mármore em estado puro para compor o altar previsto no suntuoso projeto arquitetônico, cujo objetivo na visão de László permanece desconhecido pelo capitalista contratante. Como disse Guy Pearce, “o aspecto mais memorável foi a incrível beleza de poder ver esse mármore natural. Era tudo muito místico e belo, mas ao mesmo tempo era devastador ver o que nós, seres humanos, fazemos com o mundo natural só para ter uma bela bancada de cozinha”.

 

O filme nos mostra com grande maestria que as guerras não acabam simplesmente, mas deixam marcas permanentes e dores que não se apagam. É interessante observar no filme a presença silenciosa da sobrinha, Zsófia, que acompanha a mulher de László na jornada que a leva ao encontro do marido. Um silêncio de uma jovem que não consegue adaptar-se de forma alguma ao país, e que sofre com o assédio. Há algo também precioso no filme, expresso na proximidade/distância que vige na relação do casal, marcado pelas dores da guerra. Ela, a mulher, chega aos EUA de cadeira de rodas, em razão da osteoporose adquirida em razão da fome passada no campo de concentração. Ao lado de um amor profundo, a presença de um distanciamento e estranhamento que igualmente delineia a relação, numa tensão surda e complexa.

 

Tem razão o crítico Inácio Araujo, quando sublinha ser o filme uma “obra prima”, que vem traduzir um novo e inaugural momento no “imenso vácuo de quase todo o cinema americano”.

A presença da ambiguidade no perfil do brasileiro

 A presença da ambiguidade no perfil do brasileiro

 

Revendo com calma o programa de Wisnik de Nestroviski sobre Caymmy, fiquei curioso ao acompanhar a análise que faz Wisnik da canção de Caimmy, João Valentão, que nos favorece reconhecer o traço de ambiguidade que marca o caráter do brasileiro.O que igualmente nos remete à analise de Sérgio Buarque de Hollanda sobre o tal traço de cordialidade do brasileiro. Há certa imagem idílica ao identificar o brasileiro como sendo hospitaleiro, generoso e emocionalmente expansivo. Esse é um lado da medalha. Mas há também outro traço que habita o mesmo brasileiro, e que Rosa destacou com ênfase no conto “A hora e a vez de Augusto Matraga” (Sagarana). É o que Graciliano Ranmos chamou de “homem subterrâneo”. Um traço que vem revelado por poema singular de Drummond:

 

Às vezes o tigre em mim se demonstra cruel

como é próprio da espécie.

Outras, cochila

ou se enrosca em afago emoliente

mas sempre tigre, disfarçado.

 

Antonio Candido expressa essa ambiguidade do humano em sua análise de Grande Sertão: Veredas, no livro: Tese e Antítese. A ideia de uma simultânea presença no humano do “vapor do mal” e do “vozinha do bem”. Quando Rosa sublinha que o demo está presente no íntimo do humano, está ilustrando o fato da presença de um lado “crespo” ou “torvo” no humano: a ideia de um lado “avesso” que é igualmente real.

 

Mas vamos à canção de Caimmy:

 

João Valentão é brigão
Pra dar bofetão
Não presta atenção e nem pensa na vida
A todos João intimida
Faz coisas que até Deus duvida
Mas tem seu momento na vida
É quando o sol vai quebrando
Lá pro fim do mundo pra noite chegar
É quando se ouve mais forte
O ronco das ondas na beira do mar
É quando o cansaço da lida da vida
Obriga João se sentar
É quando a morena se encolhe.

Se chega pro lado querendo agradar
Se a noite é de lua
A vontade é contar mentira
É se espreguiçar
Deitar na areia da praia
Que acaba onde a vista não pode alcançar
E assim adormece esse homem
Que nunca precisa dormir pra sonhar
Porque não há sonho mais lindo do que sua terra.

 

Segundo Wisnik, essa canção de Caimmy não é dramática, mas sinaliza a presença de uma ambiguidade. No início, ele aventa a figura de um ser valentão, que é brigão e dá bofetão. Alguém que a todos intimida. No decorrer da canção, há um decantamento dessa perspectiva: quando João deixa-se levar pelo ócio, ao ouvir o ronco das ondas na beira do mar, e se abandona no colo da morena, envolvido por um sonho lindo.

 

Wisnik chama a atenção para a contradição presente na canção: o valentão brasileiro – diz ele -, portador de uma violência singular,  portador de truculência, de um mandonismo típico das estruturas arcaicas, apresenta igualmente um outro lado, adornado por encanto, festa, alegria e disposição afetiva e acolhedora. Ou seja, o brasileiro, como observamos também em nossas famílias, tem seu lado de onça bravia, conjugada com uma dimensão utópica serena e alegre.

 

Isto também me faz lembrar outro conto de Rosa, Meu tio Iauaretê. A onça Maria Maria, tem seu momento de raiva, quando ela “esbarra de pensar”: “Quando algua coisa ruim acontece, então de repente ela ringe, urra, fica com raiva”. Mas no normal, ela está sempre alegre, e para ela está “tudo bonito, bom, bonito, bom, sem esbarrar”. Ela pode sair do sério, mas é coisa passageira, pois depois, quando tudo torna a ficar quieto, “ela torna a pensar igual, feito em antes...”.

 CELEBRAÇÃO EM AÇÃO DE GRAÇAS

 

70 ANOS

 DE

TEITA

 

Tiguera, 03 de fevereiro de 2025

 

“Quem sabe isso quer dizer amor”

 

Chegada: Momento de silêncio – solo de flauta (Estêvão Teixeira)

 

Acolhida:

 

Estamos hoje aqui reunidos no Tiguera, em família, para celebrarmos os 70 anos de Teita. Essa morena querida tem sido minha companheira ao longo de quase cinquenta anos. Quando nos conhecemos, eu estudava filosofia e ela estava no final do curso de medicina. Foi um encontro bonito, que vem se prorrogando com muita fragrância ao longo desses anos.

 

Passei dois dias de janeiro lendo as cartas que escrevi para a Teita durante o pré-namoro e namoro, bem como as respostas de Teita. Foram momentos de muito alegria. Poder, por exemplo, saber que ela me chamava carinhosamente de “filhote”. Foi também motivo de grande satisfação constatatar a presença forte em nossa vida dos poemas de Drummond. Em 1973, o poeta tinha lançado dois livros: Menino Antigo e As Impurezas do Branco. Esses livros pontuaram muitas de nossas correspondências.

 

Uma passagem do poema de Drummond, “Mulher vestida de homem”, do livro, Menino Antigo, era mote essencial de nossa relação:

 

“Sou seu amigo, sem desejo,

amigo-amigo puro,

desses de compreender sem perguntar”

 

Do mesmo Drummond, desta vez, do livro “As impurezas do branco, partilhávamos a convicção de que éramos sobreviventes que incomodavam. Daqueles que não adiantava sofrer ameaças. Dizia Drummond: “Volto sempre, todas as manhãs me volto, viravolto com exatidão de carteiro que distribui más notícias. Podíamos tropeçar, sem dúvida, mas podíamos garantir o nosso sorriso.

 

O que dizer sobre Teita? Está aí, algo difícil de expressar... Mas vou tentar. Queria começar fazendo referência a uma carta que a jovem filósofa mineira, Sonia Viegas, escreveu para as suas filhas gêmeas, Angela e Mônica, por ocasião de seus quinze anos. O presente que ela resolveu dar para suas filhas não foi algo material, mas valores que considerava fundamentais. 

 

Ela indicou alguns valores: 

 

(a) viver de maneira verdadeira; (b) uma existência cheia de amor (e sublinhava: uma existência cheia de amor possui um mundo, enquanto uma existência sem amor ocupa um lugar); (c) uma vida de alegria (e ela cita uma passagem de G.Rosa, colocada na boca do personagem Miguilim: “Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma”; (d) manter sempre viva a esperança (é preciso alimentar esperanças); (e) acalentar e apreciar a beleza que nos rodeia. A beleza que é a capacidade de o corpo expressar a alma).

 

Vejo como um traço essencial da vida de Teita, que me encanta e envaidece, é a sua capacidade de alegria. Mas sublinho ainda outros aspectos cruciais de sua vida: o dom da hospitalidade, da abertura aos outros e da generosidade em movimento. O que ela vem buscando me ensinar ao longo do tempo, num aprendizado difícil para mim, é o toque da gentileza e da cortesia. Assinala repetidamente que ser gentil é a forma mais nobre de existir. Teita tem o dom de tecer laços afetivos. Gosta de encontros, de muita festa e de gente por perto. Isso se manifesta em todos os seus movimentos, inclusive no trabalho. 

 

Ela sempre seguiu na risca um mote trabalhado e vivenciado por vovó Guiguita: “Que importa-me lá, ninguém me governa”. Leva a sério esse elemento fundamental, e que nos foi também aconselhado por um grande amigo, o pe Dalton, na época de nosso casamento. Dizia que o essencial para uma relação duradoura e amorosa é saber sobre aquilo que não se pode renunciar. 

 

Algo semelhante foi dito por Clarice Lispector em carta para a sua irmã Tânia, quando vivia momentos duros em Berna, na Suiça, em janeiro de 1948. Sinalizou para a irmã a importância da realização pessoal. Disse a ela que até cortar os defeitos pode ser algo perigoso, pois nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro. Queria dizer com isso da importância do respeito ao nó vital de uma pessoa.

 

A mesma Clarice nos ensina sobre a importância de não resistir demais contra o ritmo das ondas, mas, mas sim aprender a subir e descer com a onda, mantendo vivas certas qualidades, como a paciência e a espera. 

 

Tudo fica mais leve quando aprendemos a navegar com serenidade e paz, apesar de tantas tensões e conflitos que habitam o nosso mundo. Com isso também tenho aprendido com Teita. Um jeito Zen de ser: simplesmente a alegria de estar aqui...

 

“As vezes basta resolver estar simples, e o milagre se realiza: tudo fica mais sereno... sutil... iluminado”. Há que deixar que o ardor e a vibração da primavera pulsem em nós: quando a vida se vê multiplicada e conseguimos perceber a beleza de cada instante.

 

Um poeta português que muito admiro, Eugénio de Andrade, dizia: 

 

É urgente o amor

É urgente destruir certas palavras,

Ódio, solidão, crueldade (...)

É urgente inventar a alegria

Multiplicar os beijos, as searas

É urgente descobrir rosas e rios

E manhãs claras.

 

O meu singular mestre zen, Dôgen (século XIII), dizia de forma contundente, em texto de beleza única que “durante a nossa inteira existência, com a nossa força de vontade, torna-se necessário pronunciar palavras de amor. De geração a geração”.

 

Para finalizar, uma dica maravilhosa da poeta portuguesa, Adilia Lopes, que nos deixou em dezembro de 2024:

 

o amanhã
é
como o arco-íris

 

Um anjo
está contigo
quando desanimas

 

Um anjo
está contigo
quando te alegras

 

Sempre
um anjo
está contigo.

 

O texto estava pronto, mas resolvi acrescentar algo que é para todos nós. Lendo o livro de Mirian Goldenberg, sobre a bela velhice, encontrei uma pérola, que vem de Simone Beauvoir: A velhice sadia tem a ver com o projeto de vida. E neste projeto, um grande dom é a capacidade de sorrir... sorrir sempre, na alegria, mas também na tristeza. “Sorrir é coisa de gente feliz”. 

Diz Mirian que para envelhecer bem é necessário olhar a vida com bom humor e aprender a transformar tragédias em comédias.  Mirian perguntou a uma das entrevistadas de sua pesquisa, uma professora de 60 anos. Quando indagado sobre o segredo para envelhecer bem, ela respondeu, sem titubear: “Para envelhecer bem, eu sou feliz, dou muitas risadas”.

 

Obrigado, Teita, por existir e estar aqui entre nós carregando esse suave perfume.

 

DOM: Entrega de rosas vermelhas pelos netos Caetano, Iara e José (são sete rosas, simbolizando os netos e netas)

 

(ao fundo a canção Ofertório, de Caetano Veloso)

 

“Tudo que por ti vi florescer de mim
Senhor da vida
Toda essa alegria que espalhei e que senti
Trago hoje aqui
Todos estes frutos que aqui juntos vês
Senhor da vida
Eu em cada um deles e em mim
Todos teus fiéis, ponho a teus pés

Consentistes que minha pessoa
Fosse da esperança um teu sinal
Uma prova de que a vida é boa
E de que a beleza vence o mal
Tudo que se foi de mim, mas não perdi
Senhor da vida
Os que já chorei e os que ainda estão por vir, oferto a ti”

 

Recordação de Teita pelos amigos: palavra aberta (3 minutos para cada um). Falaram Teita, Pedro R. Oliveira, Ana Maria.

 

Leitura Bíblica: Cântico dos Cânticos

 

(a)

 

“Vem, minha amada

Vamos ao campo

Pernoitemos sob os cedros;

Madruguemos pelas vinhas,

Vejamos se a vinha floresce,

Se os botões estão se abrindo

Se as romeiras vão florindo:

Lá te darei meu amor”

 

(b)

 

“Meu amado põe a mão

Pela fenda da porta:

As entranhas me estremecem,

Minha alma, ouvindo-o se esvai.

Ponho-me de pé

Para abrir ao meu amado:

Minhas mãos gotejam mirra,

Meus dedos são mirra escorrendo

Na maçaneta da fechadura.”

 

Oração da Ecumene Abraâmica:

 

Em nome do Deus Omni-Misericordioso, o Misericordioso.

Louvado seja Deus, o Senhor dos mundos (...)

A Ti somente adoramos.

Somente a Ti imploramos socorro.

Gia-nos na senda da retidão.

(Corão 1-1-7)

 

Ouve, ó Israel: Iahweh é nosso Deus.

Portanto, amarás a Iahweh com todo o teu coração,

Com toda a tua alma e com toda a tua força.

(Dt 6,4-5)

 

Pai nosso que estás nos céus. 

Santificado seja o teu nome, 

venha o Teu reino. 

Seja feita a tua vontade, 

assim na terra como no céu. 

O pão nosso de cada dia nos dá hoje, 

perdoa-nos as nossas ofensas 

assim como nós perdoamos a quem tem nos ofendido. 

E não nos deixes cair em tentação, 

mas livra-nos do mal, 

pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. 

Amém.

 

Partilha do vinho e pão (Dudu para Teita e vice-versa)

(Ao fundo: a música – Cantar)

 

“Se numa noite eu viesse ao clarão do luar
Cantando e aos compassos de uma canção
Te acordar
Talvez com saudade cantasses também
Relembrando aventuras passadas
Ou um passado feliz com alguém

Cantar quase sempre nos faz recordar
Sem querer
Um beijo, um sorriso, ou uma outra ventura qualquer
Cantando aos acordes do meu violão
É que mando depressa ir-se embora
Saudade que mora no meu coração

Cantar quase sempre nos faz recordar
Sem querer
Um beijo, um sorriso, ou uma outra ventura qualquer
Cantando aos acordes do meu violão
É que mando depressa ir-se embora
Saudade que mora no meu coração”

 

Meditação – João da Cruz e Cântico dos Cânticos:

 

“Na interior adega

Do Amado meu, bebi” (João da Cruz)

 

Comei e bebei, companheiros.

Embriagai-vos, meus caros amigos

 

A voz do meu amado!

Vejam, vem correndo pelos montes,

Saltitando nas colinas...

Deixa-me ver tua face

Deixa-me ouvir tua voz...

Roubaste meu coração,

Com um só dos teus olhares

Que belos são teus amores.

 

Toque de Berimbau (João Couto Teixeira)

 

Canção Final: Amor sem limites (Roberto Carlos)

 

“Quando a gente ama alguém de verdade
Esse amor não se esquece
O tempo passa, tudo passa, mas no peito
O amor permanece
E qualquer minuto longe é demais
A saudade atormenta
Mas qualquer minuto perto é bom demais
O amor só aumenta

Vivo por ela
Ninguém duvida
Porque ela é tudo
Na minha vida

Eu nunca imaginei que houvesse no mundo
Um amor desse jeito
Do tipo que quando se tem não se sabe
Se cabe no peito
Mas eu posso dizer que sei o que é ter
Um amor de verdade
E um amor assim eu sei que é pra sempre
É pra eternidade

Vivo por ela
Ninguém duvida
Porque ela é tudo
Na minha vida

Quem ama não esquece quem ama
O amor é assim
Eu tenho esquecido de mim
Mas dela eu nunca me esqueço
Por ela esse amor infinito
O amor mais bonito
É assim nosso amor sem limite
O maior e mais forte que existe

Vivo por ela
Ninguém duvida
Porque ela é tudo
Na minha vida

Quem ama não esquece quem ama
O amor é assim
Eu tenho esquecido de mim
Mas dela eu nunca me esqueço
Por ela esse amor infinito
O amor mais bonito
É assim nosso amor sem limite
O maior e mais forte que existe

Vivo por ela
Ninguém duvida
Porque ela é tudo
Na minha vida”

 

Bênção Final. (José Geraldo Teixeira):

 

Que o Senhor te abençoe e te guarde;
que a face do Senhor brilhe por tua causa,
que ele tenha misericórdia de ti;
que mostre para ti a sua face.

E te conceda a paz (Nm 6,24-26)

Inseridos na teia da vida

 Inseridos na teia da vida

 

Em trabalho que publiquei num de meus último livros, “Paisagens” (Appris, 2024), abordei os temas da teia de vida sob os pés e os caminhos colaborativos do mundo invisível. Apontei também esse traço curioso da presença do “outro mundo” dentro de nós, ou seja, da presença misteriosa das milhares de bactérias, vírus, fungos, protozoários e leveduras em nosso mundo interior. Somos seres habitados pela diversidade. E essa diversidade torna-se fundamental para o nosso equilíbrio interno. Como afirmei no texto, “essa maravilhosa teia de vida não está, portanto, apenas sob os nossos pés, mas está dentro de nós, de forma esplêndida e misteriosa”. 

 

Como disse a premiada escritora Olga Tokarczuk, talvez “o pecado pelo qual fomos expulsos do paraíso não foi o sexo, nem a desobediência, nem mesmo a descoberta dos segredos divinos, mas a ideia de que somos algo separado do resto do mundo, singular e monolítico”. Absolutamente não, somos uma teia de vida animada por outros seres, distintos de nós e em comunhão conosco. Parafraseando a Donna Haraway, somos criaturas da lama e não do céu. Também o papa Francisco, em sua encíclica Laudato si, sobre o cuidado da Casa Comum, sublinhou logo no início de que “nós mesmos somos terra (Gn 2,7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta” (LS 2).  A variedade presente em nossa macrobiota é a garantia da saúde de nosso organismo. O incrível é constatar que em nossas células humanas, há a presença “intrigante” de organelas chamadas mitocôndrias, originadas em bactérias aeróbicas primitivas. 

 

Essa mesma constatação veio primorosamente apontada por José Eduardo Agualusa em artigo publicado no O Globo, em 22 de fevereiro de 2025, com o título: “A nossa metade não humana”. Ele também fala da presença em nosso corpo, em metade das células, a presença de outros seres invisíveis que são essenciais para o nosso corpo. Chega a sugerir que “a melhor parte de alguns humanos é a sua metade não humana”. Diz ainda que “a cada avanço do conhecimento, a arrogância humana recua – ou deveria recuar. Não somos o centro do Universo. Somos parte dele. Não estamos apartados da natureza. Somos a natureza. Não somos uma forma de vida superior. Somos a conjunção harmoniosa de inumeráveis formas de vida.”. Sem dúvida, o diálogo está também dentro de nós, como um convite aberto para vivermos essa experiência essencial na relação com os nossos amigos humanos.