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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Leonardo Boff e sua Eclesiogênese

 Leonardo Boff e sua Eclesiogênese

 

Faustino Teixeira

 

Um dos mais preciosos livros da teologia da libertação e que está na base da fundamentação teológica das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no Brasil é o livro de Leonardo Boff: Eclesiogênese (Vozes, 1977). A primeira ideia do livro nasceu junto com os dois primeiros encontros Intereclesiais de CEBs, ocorridos na cidade de Vitória, em 1975 e 1976. Foram nesses Intereclesiais que a expressão “eclesiogênese” ganhou cidadania. 

 

Como afirmei em meu livro sobre Os encontros intereclesiais de CEBs no Brasil (Paulinas, 1996), a ideia de uma “Igreja que nasce do povo” nasceu no primeiro intereclesial. Era algo que significava uma verdadeira eclesiogênese. A expressão ganhou cidadania e correu o mundo, marcando a vitalidade e potencialidade das CEBs. Não ocorreu, porém, sem suscitar dificuldades e controvérsias, recebendo inclusive uma advertência do papa João Paulo II por ocasião do Encontro de Puebla, em 1979.

 

O livro de Leonardo Boff nasceu como uma iniciativa do Instituto Nacional de Pastoral (INP). Foi um fruto de reflexão apresentada a um grupo de teólogos do INP, ligados à Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). 

 

No sumário apresentado vislumbramos cinco capítulos: A CEB como nova experiência de Igreja; Que futuro possui a comunidade?; A Comunidade Eclesial de Base é Igreja, ou só possui elementos eclesiais?; As Comunidades Eclesiais de Base e a reinvenção da Igreja; Em que as CEBs poderão contribuir na superação da atual estrutura da Igreja. Por fim, são levantadas algumas Quaestiones Disputatae.

 

No capítulo primeiro, temos o tema das CEBs como nova experiência da Igreja. Para início de conversa, Leonardo sublinha que o surgimento das CEBs ocorrem “na conjuntura da sociedade moderna”, visando quebrar a atomização da existência nessa sociedade do anonimato. 

 

A experiência provoca um novo encontro entre as pessoas, que podem agora se conhecer e reconhecer como sujeitos da palavra. Na contramão de uma Igreja hierarquizada, as CEBs nascem com o rosto de uma nova experiência, marcada pela fraternidade e comunhão. Elas surgem igualmente respondendo a um desafio premente de crise da instituição Igreja, buscando uma nova presença eclesial centrada no leigo. E nascem gestando uma nova eclesiologia.

 

capítulo segundolança um desafio sobre o futuro da comunidade. Leonardo narra rapidamente o processo de gênese das CEBs no Brasil, com ênfase também no influxo da Conferência de Medellín (1968), da Exortação apostólica Evangelii nuntiandi, de Paulo VI (1975) e o Sínodo dos Bispos, de 1974. Indica que as comunidades nascem pela força do Espírito e não como alternativa à instituição em crise. Nascem respondendo ao imperativo comunitário, buscando um fermento renovador. A comunidade, diz Leonardo, é “utopia da sociedade”. Um jeito novo de “criar e manter a envolvência comunitária, como um ideal, um espírito a ser sempre recriado, vencendo a rotina e o ambiente institucionalizante e nivelador”. 

 

Como sublinha Leonardo, as Cebs nascem como Igreja que brota do chão do povo e reconstitui a mesma Igreja que nasceu dos apóstolos. Seu futuro está garantido na medida em que lança um contraponto profético à Igreja que está aí, movida por sua mesmidade. Ela interage profeticamente com a Igreja instituição, em tensão dialética, sem se deixar por ela envolver ou naufragar.

 

No capítulo terceiro, Leonardo aborda a eclesialidade das CEBs. Elas são de fato Igreja ou apenas contêm elementos de Igreja? Essa é a interrogação lançada. O elemento que confere pertinência às CEBs é sua eclesialidade. Como diz Boff, “a consciência e a explicitação cristã constitui, portanto, a característica da comunidade e o elemento de discernimento face a outros tipos de comunidade”. 

 

É o que na ocasião distinguia as CEBs brasileira de outras no exterior, como na Itália. O que faz as CEBs se constituírem como Igreja é o fato de homens e mulheres responderem de forma singular ao apelo comunitário e salvífico de Deus em Jesus Cristo. São plenamente cristãos, que “se reúnem em comunidade, professam a mesma fé, celebram a mesma libertação escatológica e tentam viver o seguimento de Jesus Cristo”. São, portanto, verdadeira Igreja e não apenas comunidades com elementos eclesiais. 

 

Leonardo procede toda uma argumentação teológica centrada na Constituição Lumen Gentium, do Vaticano II, para mostrar o valor das CEBs como experiência viva de Igreja particular, que confere visibilidade à Igreja Universal na base dos pobres. Leonardo tem consciência de que as CEBs não esgotam a eclesialidade da Igreja, mas traduzem um jeito digno e nobre de ser Igreja. As CEBs constituem verdadeira Igreja-sacramento, que “historiza, torna sinal e instrumento da salvação, a Igreja universal no lugar e na situação cultural em que ser enraíza”.

 

As CEBs como “reinvenção” da Igreja é tema do capítulo quarto. Ao falar de “reinvenção”, Leonardo busca ser claro. Quer dizer, uma Igreja que “começa a nascer das bases, do coração do Povo de Deus”. Uma experiência que provoca toda a Igreja a ser na perspectiva do seguimento de Jesus, sempre inspirada e renovada pelo Espírito. 

 

As CEBs tem algo bem concreto a oferecer à Igreja: “Ajudam a Igreja toda a se considerar a partir da realidade mais fundamental, sem a qual não existe Igreja: a fé na presença ativa do Ressuscitado e do seu Espírito no seio de toda a comunidade humana, fazendo que ela viva os valores sem os quais não há humanidade”. Nelas, os leigos ocupam um lugar de protagonismo, enquanto “criador de valores eclesiológicos”. Trata-se igualmente de uma Igreja toda ministerial, onde vigora uma igualdade fundamental de todos.

 

A real contribuição das CEBs para um modelo alternativo de Igreja é tema do quinto capítulo. Segundo Leonardo, “a forma como se organizam as CEBs e a praxe que nelas se articula corroboram para superar um obstáculo fundamental da vida comunitária: a estrutura de participação na Igreja”. Superando o tradicional modelo triangular da Igreja dividida hierarquicamente em três termos, Bispo-Padre-Fiel, as CEBs buscam um caminho tecido por nova rede de relações, onde o leigo passa a assumir um lugar mais decisivo na gestão da Igreja, “como um dos termos participantes da estrutura”. 

 

Ao final, aparecem as Quaestiones Disputatae. O primeiro tema abordado tem um toque eclesiológico:  Quis o Jesus histórico uma única forma institucional de Igreja? Leonardo Boff reconhece no livro que quando se entende a Igreja como experiência de graça, é correto dizer que Jesus Cristo fundou a Igreja. Mas enquanto instituição não. Aqui se entende a instituição visível, sua organização sacramental e instituição ministerial hierárquica. 

 

A Igreja institucional nasce na base de elementos colocados por Jesus em seu ministério, o que não significa, entretanto que ele tenha criado a instituição do modo específico como se firmou na história. Pode-se falar concretamente na Igreja só após a fé na ressurreição. 

 

É o que diz Leonardo com razão. Citando o grande exegeta do Segundo Testamento, Schnackenburg, “podemos falar de Igreja no sentido próprio, como comunidade de Cristo, somente após a elevação de Cristo e da vinda do Espírito Santo”. Como o Reino anunciado por Jesus não encontrou realização histórica, a Igreja surge como propulsora desse sonho de Jesus na história. Ela nasce, assim, de certo modo, relacionada ao “fracasso” de Cristo em sua labuta pelo Reino.

 

De fato, a intenção original de Jesus não foi a de fundar uma instituição hierárquica, mas de propor o Reino de Deus. E Reino de Deus para Jesus tinha um significado bem preciso, como indica Bultmann, citado por Boff: “o governo de Deus que põe termo ao mundo atual, que aniquila tudo o que é antidivino, satânico e sob o qual geme atualmente o mundo, e que assim, acabando com toda a miséria e com todo o sofrimento, traz a salvação ao povo de Deus, que aguarda o cumprimento das promessas proféticas”. Esse Reino anunciado por Jesus é, por um lado, uma grandeza presente, mas por outro, uma grande que guarda uma dimensão importante de futuro.

 

A ideia de Pedro como fundamento da fé eclesial também vem trabalhada por Boff, com ênfase em seu caráter de explicação etiológica.  Ele é fundamento na medida em que foi assim concebido pela comunidade dos cristãos, que entenderam que “sobre sua confissão e sua fé na ressurreição” a Igreja veio concebida. Toda a passagem evangélica de Mateus que fala em Pedro como pedra e fundamento é uma “reflexão feita pela comunidade”, como um passo nitidamente pós-pascal e não propriamente jesuânico.

 

Também o tema da última ceia vem abordado por Boff, que o identifica como um “derradeiro sinal escatológico”. Ela, a ceia, seria, em verdade, no seu sentido primordial, “um símbolo da ceia celestial dos homens no Reino de Deus”, como claramente transparece na passagem de Lucas.

 

A Igreja que nasce sob a inspiração de Jesus Cristo, é profundamente modelado pelo Espírito renovador. Ela tem sua origem, como diz Hans Kung, e vem lembrado por Boff, “não simplesmente nos discípulos, nos desígnios e na missão de Jesus pré-pascal, mas sim no conjunto do acontecimento cristológico”. Ela foi, sim, “pré-formada pelo Jesus histórico”, mas em sua forma concreta “se apoia na decisão dos apóstolos, iluminados pelo Espírito Santo”.

 

A Igreja é, sim, portadora do sonho de Jesus, e sacramento do Reino na história. Ela nasce do “conjunto do evento cristológico” e dá sequência na história ao projeto inacabado do Reino de Deus.

 

O segundo tema tratado nas Quaestiones Disputataefoi a questão do leigo e o seu direito em celebrar a Ceia do Senhor. Em linha semelhante de reflexão de outros teólogos como Edward Schilebbeckx, Boff aborda corajosamente o tema desse direito do leigo. 

 

Para ele, “as CEBs mostram que o leigo pode fazer tudo o que, pastoralmente, um sacerdote faz. Apenas não pode consagrar e perdoar os pecados”. Leonardo busca apresentar ao final do livro, como um theologumenon, a hipótese do direito do leigo celebrar a Ceia do Senhor. E o faz em nome da fé e do batismo “pelos quais os fiéis são inseridos em  Cristo e Cristo, com todos os seus poderes, se faz presente e atuante na comunidade”. 

 

Leonardo aventa também a possibilidade do sacerdócio da mulher, a partir do reconhecimento sensível de seu lugar protagonista nas pequenas comunidades espalhadas pelo interior do Brasil. Argumenta que não há “argumentos teológicos decisivos contra a ordenação da mulher”, mas apenas argumentos “disciplinares”, que podem ser debatidos. 

 

 

 

 

 

 

Mesters e a flor sem defesa

 Mesters e a Flor sem Defesa

 

Faustino Teixeira

 

 

Provocado pelo amigo José Oscar Beozzo, fui visitar novamente um livro que marcou minha primeira formação teológica: a obra fundacional de frei Carlos Mesters: Por trás das palavras: um estudo sobre a porta de entrada no mundo da Bíblia (Editora Vozes, 1974). É outro livro que tem a assinatura de meu pai, Mozart Teixeira, em sua primeira edição.

 

Quando o livro saiu, estava no início do meu curso de filosofia e ciências da religião, que fiz simultaneamente. Mesters já era na ocasião um exemplo de vida para mim. O meu carinho por ele era tamanho, que quando tive o privilégio de assistir uma celebração sua em Angra dos Reis, onde morava, nasceu a ideia de meu casamento com Teita. Suas celebrações são de uma beleza e simplicidade únicas.

 

Esse livro de Mesters foi inaugural na experiência das CEBs no Brasil e, em particular no impulso para a leitura popular da Bíblia, que deu origem ao Centro de Estudos Bíblicos (CEBI).

 

Já somos tomados de fascínio na abertura do livro, quando faz uma citação de João Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas:

 

“Sou só um sertanejo, nessas altas ideias navego mal. Sou muito pobre coitado.... Eu quase que nada sei. Mas desconfio de muita coisa. O Senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre. – o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém”.

 

Sim, Carlos Mesters é o nosso Riobaldo na familiaridade com a Bíblia. Como poucos no Brasil, sabe farejar a Palavra de Deus de uma forma inédita e simples, e transmitir sua mensagem com uma sabedoria que encanta. É o nosso grande mestre nesse trabalho singelo de levar a Palavra para os mais simples, com um dom de alegria, simplicidade e gratuidade que a todos encanta.

 

Para ele, vale uma expressão que ouvi um dia nas CEBs: “Para entender a Bíblia, nem precisei sair do Ceará”. Uma forma linda de dizer que a leitura da Bíblia ocorre no chão da vida e sua interpretação está em profunda sintonia com a vida sofrida e corajosa do povo, de suas várias Marias.

 

A proximidade com o povo é o ponto fulcral da compreensão da Bíblia segundo Mesters. Ele já diz no prefácio de seu livro: “A distância que vai entre a janela e os meus olhos determina o que vejo lá fora na rua. Se fico mais perto, a visão se alarga; se fico de longe, a visão se estreita”. 

 

O sábio carmelita sabe muito bem das dificuldades que acompanham a leitura e interpretação da Bíblia; das limitações que envolvem o nosso olhar que interpreta. Mas sabe também que a leitura comunitária traduz um caminho rico para a compreensão dessa Palavra-Mistério: “É trocando as experiências, numa conversa franca e humilde, que nos ajudamos mutuamente a enxergar melhor as coisas que vemos, e romper as barreiras que nos separam sem razão”.

 

Esse jeito bonito de ler a Bíblia em comunidade, é um traço característico de nossa América Latina. Temos também o bonito exemplo de Ernesto Cardenal, numa das ilhas do Arquipélago de Solentiname, na Nicarágua, onde gestou uma encantadora experiência espiritual comunitária. Ali, numa ponta de ilha, Cardenal criou a pequena comunidade de Nossa Senhora de Solentiname. 

 

O livro recolhe os diversos comentários dos camponeses sobre a leitura bíblica realizada nas celebrações de domingo. Para Cardenal, o seu livro mais importante é o que recolhe esses comentários: El Evangelio en Solentiname (1976). 

 

O livro veio publicado em diversos países, e ganhou em tempos recentes uma nova edição, pela Editora Trotta (2006). Trata-se de outro livro que está na gênese da leitura popular da Bíblia. Num de seus diários, Cardenal sublinha que essa obra traz como contribuição os ricos comentários bíblicos de camponeses, que captam a Palavra com ainda maior profundidade que muitos teólogos: são depoimentos de Marcelino, Olivia, Rebeca, Laureano, Felipe, Tomás, Alexandro, Pancho, Oscar e Júlio. Essa comunidade foi arrasada pela repressão de Somoza, e muitos desses personagens morreram ou foram torturados. 

 

O livro de Carlos Mesters vem dividido em quatro partes e dez capítulos, sendo os títulos: Abrindo a porta; A atitude do povo frente à Bíblia; A Bíblia vista e interpretada pela Bíblia; A porta de entrada no mundo da Bíblia.

 

Um dos passos mais preciosos do livro está na parábola da porta, incluída na primeira partedo livro. A parábola fala de um povoado que tinha uma casa do povo, antiga e bem construída. A casa “fazia parte da vida do povo”. Com o tempo chegaram dois estudiosos vindos de fora. Eram doutores especialistas em coisas antigas e pediram permissão para ficar na casa.

 

 A presença dos estudiosos ali favoreceu a compreensão de muitas riquezas presentes naquela casa. A presença deles, porém, foi aos poucos inibindo a presença do povo simples, que ficava constrangido de adentrar na casa pela porta da frente. Aos poucos, a casa foi deixando de ser do povo, que quando ali entrava, ficava agora silencioso e acanhado. Com o tempo, a porta da frente ficou esquecida, e o interior da casa ficou mais escuro, por falta de luz. Todos entravam pela porta do lado.

 

O povo continuava com “o livrinho na mão”, estudando-o em pequenos grupos,  mas agora era diferente: “Já nem mais se lembrava dos tempos de outrora, quando juntos brincavam e dançavam no lugar onde agora estudavam, olhando sério, imitando os doutores, livrinho na mão, repetindo a lição”.

 

A libertação finalmente ocorreu quando um velho mendigo, sem casa, adentrou-se por entre a mata que impedia o acesso à porta da frente da casa e conseguiu acessar a porta por uma fresta existente. E assim foi retornando à casa, convidando seus amigos de pobreza a partilharem com ele o novo abrigo. O recado do mendigo foi sendo divulgado entre os pobres, e o ritmo das presenças acabou por abater o mato e abrir o acesso à casa. Guardavam no coração um segredo: “Aquela casa é nossa”. O fato chegou aos ouvidos dos estudiosos, que reagiram de forma diferente: um manifestou seu desgosto, e o outro ficou calado. 

 

O estudioso mais sensível, “escondeu-se, de noite, num canto da casa. Viu o povo entrar, sem pedir licença, para dançar e brincar, falar e cantar, para sentir-se à vontade e encontrar-se com os outros”. Ele gostou de ver essa alegria popular, e acabou também entrando na dança. Ao entrar agora pela porta da frente, pôde então perceber “a beleza da casa de um ângulo novo que ainda não conhecia”.

 

Teve acesso a uma nova luz, vinda agora “da rua e da alegria do povo”. Foi quando então começou a estudar a Bíblia a partir desse novo olhar, descobrindo coisas novidadeiras. E assim Merton, a partir de uma parábola maravilhosa, narra como nasceu “a história da explicação da Bíblia ao povo”.

 

Ainda na primeira parte do livro, Mesters trata o tema da intenção que está atrás dos olhos de quem lê e estuda a Bíblia. Aborda dois critérios fundamentais que devem orientar o estudo popular da Palavra: “Levar em consideração as exigências da realidade que hoje vivemos” e “as exigências da revelação, expressas na própria Bíblia e na fé da Igreja”. 

 

Revela que seu interesse em escrever o livro foi justamente o de poder mostrar esse lado semente da Palavra de Deus: “A sua flor, o seu sentido, só aparece, quando a palavra for plantada no chão da vida e lá tiver condições de germinar e produzir seu fruto”.

 

Indica os defeitos que os estudiosos devem evitar nesse trabalho de leitura popular da Bíblia: atender pacientemente o tempo de germinação da compreensão, sobretudo o cultivo do silêncio. Há também que reconhecer que tudo deve ser dito “aos poucos” e com carinho e cuidado. Estar atendo ao contexto mais amplo, não se fixando numa única página ou afirmação. Importante também estar atento, à escuta da percepção que vai brotando da comunidade.

 

Na parte dois, o tema abordado é o da atitude do povo frente à Bíblia. Quando confrontado com a Bíblia, o povo “faz perguntas, apresenta dificuldades e toma atitudes”. Há importantes exigências subjetivas que devem ser levadas a sério por quem busca uma correta interpretação da Palavra e o desejo de irradiar o conhecimento aos outros. Há que ter muita humildade, rompendo com toda e qualquer hybris, ou vontade de poder: “Aquele que explica a Bíblia ao povo não é o depositário exclusivo da revelação e da verdade”. É o que sublinha com ênfase Merton.

 

É necessário também reconhecer o ritmo do povo e entender que ele também fala pelo seu silêncio, um silêncio que é eloquente e deve ser objeto de muita atenção. Por mais estranho que possa parecer, diz Mesters, “ao povo nada se ensina, mas a ele se devolve, explicitado e purificado”. Há que se estar atento também para conjugar com criatividade o sentido que o texto tem em si com o significado que ele tem para nós. 

 

A atenção deve voltar-se, primeiramente, para os caminhos de superação das dificuldades que o povo tem com a leitura e interpretação da Bíblia: lidar com as limitações de leitura, de acesso ao conteúdo da Palavra; de perceber conjuntamente as dúvidas que o livro gera, e o desvelo de suas complicações. Há também que superar os preconceitos que estão ainda enraizados para uma compreensão mais aberta e ecumênica. 

 

A dificuldade de percepção de alguns problemas deve-se ao distanciamento do povo: “Se nós não percebermos o problema real, escondido nas perguntas e problemas que o povo levanta em torno da Bíblia, é porque sendo do povo, não convivemos com ele nem participamos da sua luta e vida”. Há em verdade um problema de sintonia de nosso sistema hermenêutico e a vida concreta daqueles que ouvem a explicação.

 

Carlos Mesters faz um breve histórico do mal-estar envolvido nas dificuldades encontradas pelo povo para o acesso ao Livro. Enfatiza muito a importância de buscar um novo foco interpretativo, para além dos resquícios do passado. 

 

Relata em breves passadas os caminhos abertos por importantes exegetas como Bultmann, bem como os avanços ocorridos no campo da catequese. Pôde-se então perceber com clareza as razões do curto-circuito entre exegese e vida. E daí partiu-se para um novo caminho. E uma pergunta importante serviu de leme: “A exegese existe para o povo, ou o povo para a exegese?”.

 

Os primeiros passos da reflexão de Merton serviram para um diagnóstico preciso: há que levar a sério as perguntas do povo e reconhecer em seu âmbito as verdadeiras questões envolvidas, e que na verdade estão relacionadas com a sua vida concreta: “A preocupação absorvente com a vida presente e com o seu crescimento, que se traduz, muitas vezes, em sofrimento e medo diante da realidade que arrasa e oprime; abertura e preocupação com o futuro que atrai e que necessita de esperança”.

 

Na terceira partedo livro, a questão que se apresenta é a da Bíblia vista e interpretada pela Bíblia. O caminho escolhido por Mesters foi de enveredar-se pela memória da Igreja, que é uma “memória perigosa”. Propõe-se a fazer num primeiro momento, uma releitura da Bíblia. Com seu instrumental teórico, o carmelita ajuda o leitor a entender as várias “histórias da salvação” que acompanham a ocular da exegese moderna. 

 

E expõe com clareza as diversas releituras feitas ao longo do tempo: Javista, Eloísta, Deuteronomista, Sacerdotal e outras. Essa releitura não cobre apenas o Primeira Testamento, mas também o Segundo, com todas as interpretações que foram sendo favorecidas. 

 

É todo um exercício de ler o passado através do prisma do presente. Dentre tantas descobertas bonitas, a percepção de que por trás do fenômeno literário da releitura bíblica revela-se uma determinada visão da vida e da história. E também o reconhecimento de que a história do passado favorece um sentido sempre renovador, que nunca se esgota numa interpretação específica.

 

Uma das conclusões tomadas por Mesters nesse capítulo é fundamental: “Não basta transmitir a verdade certa, sem se comprometer com ela. É necessário ser a verdade, ´encarná-la` na vida e na história. Não é a verdade que fala por si, mas é a vida, informada e transformada pela verdade, que fala e se constitui revelação e apelo de Deus”. 

 

A fé e a vida formam uma unidade inseparável: “A expressão da fé é a vida do povo de Deus”. Quando se perde esse vínculo, dificulta-se qualquer acesso ao sentido da fé para a vida. O desafio está em apresentar de tal forma o passado bíblico que ele possa ser luz autêntica para o caminho presente. Com isso, podemos acessar um horizonte novo e enriquecedor, que é a “certeza de fé que Deus está conosco na nossa caminhada”.

 

Na quarta partedo livro, Mesters dedica-se ao tema da porta de entrada no mundo da Bíblia. Dedica-se, em primeiro lugar, a buscar superar o caminho tradicional com que se tratou o sentido literal da Palavra. Mudanças importantes foram ocorrendo ao longo da história nos processos de interpretação da Bíblia. E agora, a partir da América Latina e do mundo dos pobres, capta-se uma ocular distinta que nos ajuda a situar diante do modo vivo e familiar com que o povo simples se coloca diante da Bíblia. 

 

Trata-se do desafio novo de redescobrir a porta de entrada no mundo da Bíblia a partir da sensibilidade dos pequenos. Há que compreender que o mundo da Bíblia é um mundo familiar a nós mesmos, mesmo sabendo da história antiga que propiciou sua tessitura. 

 

Como diz Mesters, quem não encontrar na Bíblia um mundo familiar “que lhe lembre a sua terra e os seus problemas, esse dificilmente criará dentro de si a abertura e a simpatia de que se precisa, para poder apreciar no seu justo valor as coisas boas e más que existem por lá”. Daí ser a tarefa daquele que irradia essa luz saber indicar para os ouvintes “o caminho que leva até à praça, apontar o banco e permitir um encontro com muitos amigos que moram por lá”.

 

Ao final do livro, Mesters retoma a história de Riobaldo em suas artimanhas para acessar o real, e reconhece uma identificação particular com ele. Assim como Riobaldo, Mesters também farejou o tempo em busca de uma “flor sem defesa. Sublinha que foi assim, como o jagunço de Rosa, tentou rastrear o caminho até encontrar a flor que soltou um perfume singular: 

 

“Na medida em que eu ia rastreando o perfume da ideia ligeira pelo fundo dos matos do sertão e da Bíblia, fui me sentindo como o sertanejo, cada vez mais pobre, muito pobre, ´muito pobre coitado`. E quando cheguei no lugar onde mora a flor, tive que dizer a mim mesmo: ´Eu quase que nada sei` , e comecei a ´desconfiar de muita coisa` que sempre me ensinaram”. Foi quando então descobriu o “outro lado” de suas ideias, facultado pela auxílio popular.

 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Revendo a Teologia Pé-No-Chao de Clodovis Boff

Revendo a Teologia Pé-No-Chão de Clodovis Boff

 

Faustino Teixeira

PPCIR/UFJF / IHU / Paz e Bem

 

 

Há dias falei aqui de um livro que me marcou muito, de Frei Carlos Mesters: Seis dias nos porões da humanidade. Hoje queria lembrar de outro livro muito presente em minha formação teológica, de um amigo querido, que retornou ao Acre e vive lá como pároco junto ao povo que sempre o encantou.

 

Trata-se do livro de Clodovis Boff: Teologia Pé-No-Chão, publicado pela Vozes, em 1984. Quando saiu publicado o livro eu estava em Roma, no doutorado, e foi uma alegria imensa quando recebi o livro de meu irmão querido, Pulika, que mandou a obra de Brasília para mim, e dizia na dedicatória que era para me acompanhar nos “momentos sofridos junto aos rios da Babilônia”.

 

A apresentação do livro é do cardeal Aloísio Lorscheider, grande profeta dos anos 1970-1980. Ele diz no seu texto: “Parece-me que este livro inaugura na literatura teológica, algo de novo. É um novo modo de fazer teologia e colocar problemas cotidianos da vida nem sempre de fácil solução. É também um novo modo de viver a vida cristã, considerando tudo à luz da Palavra iluminadora e orientadora da vida”.

 

Clodovis tinha voltado de seu doutorado em Louvain, na Bélgica, e era meu professor na PUC-RJ. Ele fazia algo de extremamente bonito e ousado na época. Dividia a sua caminhada entre o Acre e o Rio de Janeiro (numa paróquia do Rio Comprido). Foi um grande privilégio na minha vida ter sido aluno de Clodovis Boff, logo depois de seu doutorado, com uma brilhante tese sobre o Método da Teologia da Libertação.

 

Foi sempre um pensador brilhante, além de um homem de fé exemplar. E continua sendo. Junto a ele tive aprendizados únicos, não só com respeito à teologia, mas sobre o modo nobre de ser na vida, sempre pontuado pela alegria, gratuidade e compromisso com os pequenos. 

 

No prefácio de seu livro, diz: “Saiba que nunca me vi mais provocado à teologia que no meio do povo. Muito mais que nas salas de aula e nos congressos teológicos”. 

 

Aliás, algo que recordo com muito emoção é a presença de Clodovis nos Intereclesiais de CEBs, sentado nas arquibancadas de cimento armado, vibrando com cada fala, oração, ritual e expressão viva do povo naqueles ambientes de festa, luta e oração. Era encantador ver a sua expressão de alegria ao estar ali, onde reconhecia ser o seu lugar ideal.

 

Ainda na sua apresentação, Clodovis sublinha a importância da atenção ao que “existe e lateja no coração da vida”. Isso também aprendi com ele. Conclui seu texto inaugural dizendo que o que busca no livro é mostrar o que são as CEBs no seu cotidiano, uma verdadeira Igreja de base. E complementa dizendo que essa “Igreja ´nova` ou ´popular` de que se fala é muito mais tradicional do que se pensa”.

 

E as páginas do livro correm apresentando-nos o cotidiano das pequenas comunidades “perdidas” no mais extremos rincão do país, no interior do Acre, com sua vida e generosidade. 

 

No primeiro capítulo, trata de muitos temas. Um deles, a fé na transfiguração do mundo. Sinaliza que a fé, decididamente, “não é propriamente uma força de transformação das estruturas do mundo. A fé é antes uma luz que transfigura o sentido do mundo”. Indica que o mais importante para o cristão não são os grandes gestos em sua publicidade, mas “a humildade, a fidelidade ao Senhor do Reino na prática cotidiana”. E a política, acrescenta, só tem sua razão de ser, na medida em que é capaz de promover a “conservação da vida”.

 

Fala também da beleza e coragem dos agentes de pastoral, que saem de longe, às vezes de países ricos da Europa ou Estados Unidos, para dedicar-se a uma vida juntos aos pobres nos “porões da humanidade”. Fala da opção deles por uma vida sacrificada, trabalhando com gratuidade em regiões “tão difíceis” e áridas, como no Acre. Não o fazem por mero prazer ou interesse, mas por algo mais nobre, que habita “a ordem do Mistério”. O mesmo Mistério que fascina o monge é aquele que faz caminhar o missionário.

 

Em seu aprendizado descobriu algo fundamental: a importância da pastoral levar muito a sério “os recursos religiosos próprios do povo”, pois “quem ignora o povo é ignorado por ele”.

 

Já sublinhava naquele tempo a importância essencial de “estender a Igreja para a mata”, de “descentralizar a vida pastoral” e “´popularizar` as responsabilidades religiosas na forma de ministérios”. Um jeito de ser que pudesse de fato “envolver mais a base”, e respeitar inclusive suas formas simples e inéditas de celebração.

 

No ambiente popular, Clodovis descobriu tanta beleza: a humildade profunda, o senso de honestidade, a coragem imorredoura, e também a hospitalidade. Ele diz: “Aqui a vida é mais vida, o homem mais homem e Deus mais Deus”.

 

Em rico momento de sua reflexão lança uma interrogação que é capital: qual o capital político de um trabalho feito em lugares assim tão distantes e longe da apreciação pública ? E responde: “É só mesmo sub specie aeternitatise não sub specie historiae, que esta realidade se torna compreensível. Ou seja, aqui não é questão de marxismo, mas de cristianismo puro e duro”.  Para tanto, diz, é preciso “ter fé e fé nua, como a dos místicos. Passar por estas florestas é como atravessar a ´noite escura da política`.”

 

No segundo capítuloadentra-se no coração da mata. Vem tocado pela força e profundidade da fé do povo, de sua oração colada no chão da vida. Fala sobretudo da riqueza do olhar dos pobres que se voltam com ternura para as imagens dos santos: “Parecem conversar com uma pessoa viva”. Lembra como que para o povo simples “a religião não é o mundo dos mistérios, mas das evidências”. Daí se escandalizarem quando esbarram em alguém que se diz ateu confesso. E a fé que professam é radicalmente “da ordem visível”. 

 

Pontuando a importância do trabalho dos agentes de pastoral, Clodovis sublinha que “a fé e comunidade não são cogumelos que cresçam de modo mágico. Necessitam de semeação e depois cultivo. O espontaneísmo é a teoria da ignorância”. Trabalhou nesse capítulo o processo lento e fontal de formação das comunidades eclesiais populares.

 

No terceiro capítulo, retoma o tema do trabalho diuturno junto às comunidades no coração da mata. Fala aqui da importância dos momentos de oração, que constituem alimentos essenciais para lidar nesse trabalho difícil. A missão, diz Clodovis, nunca vai “sem oração”. A prática só se revela grande quando informada pela alma interior. É o Espírito, diz, que explica a razão desse compromisso. E ele “que faz a gente andar por essa matas”. Ele “é um vento, um chamado, um interesse, um espírito”.

 

Tudo também vem envolvido pelo calor da Palavra e vigor dessa Presença de Deus. E acrescenta que boa mesma é a Escritura “que produz uma palavra viva e criativa”. A verdadeira leitura da Escritura deve ser espiritual, ou seja, “do espírito ou do sentido anterior, que está na legra, como o coração no corpo”.

 

O novo povo de Deus, diz Clodovis, está simplesmente aí, “nesses analfabetos e desconhecidos, que dão de si pela causa do Evangelho e de seus irmãos, pobres como eles”. O método é simples, e está tatuado no corpo: o confronto iluminador e natural de Evangelho e vida. Porém, para entender isso, tem que ir lá onde o povo está, “pois é lá o lugar privilegiado, o mirante para se entender a vida do povo”.

 

No quarto capítulo, Clodovis trata do tema das CEBs, como a do povo do Apocalipse. Ele vê esse livro como essencial para entender o mundo das CEBs: “É o único livro do Novo Testamento que faz uma leitura política sistemática da história. Por isso mesmo, é um livro excelente para abrir as comunidades às dimensões políticas da fé e da Igreja no mundo”.

 

No trabalho feito pelas CEBs, a conscientização é um eixo modelador. É ela que favorece “o primeiro acesso crítico à realidade social”. A atividade pastoral desabrocha numa vida comprometida com a causa popular.

 

No quinto capítulo, o tema é a comunidade que caminha com suas próprias pernas. Clodovis fala aqui sobre os eixos das comunidades e sua nova forma de ser Igreja, uma Igreja de escuta e participação. Sublinha que ali, no meio dos pobres do Acre, descobriu uma forma nova de fazer eclesiologia, não mais a partir de algo abstrato, mas “com o fenômeno eclesial se processando debaixo dos olhos”.

 

A vida eclesial nasce ali não de cima para baixo, mas a partir da própria perna desse povo simples. É por aí, diz Clodovis, “que o trabalho pode começar, e sempre com eles e a partir deles”. E todo cuidado é pouco para estar atento à sensibilidade popular. Não exigir demais, como no caso das regras para os sacramentos. Não há porque “começar com exigências além das tantas que eles já têm”. O compromisso maior é o de mostrar a eles “que Deus está do lado deles e nós também”.

 

No sexto capítulo, uma reflexão bonita sobre a fidelidade dos longos caminhos. A fidelidade vem aquecida por um fogo singular, que brota do coração. Diz Clodovis: “Não basta esclarecer, é preciso inflamar. Como Deus, que nos dá sua Revelação, mas sobretudo sua Graça”. 

 

Nem sempre isso ocorre na vida das comunidades. Há também momentos de “baixa definição”, de desânimo e mesmo depressão. Tudo isso pertence ao ritmo da vida: “Não precisa que a comunidade seja sempre empolgada, entusiástica, mas que seja sempre fiel. Isso é que é preciso”. A força de uma CEB não está no medo, mas na dinâmica de sua fé e na coragem de lidar com os obstáculos.

 

No sétimo capítulo, vem tratado o tema da diaconia da libertação. São abordados os temas dos ministros dos enfermos ou agentes da saúde, dos ministérios e outros temas. Um tema candente que se descortina na reflexão de Clodovis: a dor de uma comunidade adulta que não pode celebrar por carência de ministros. 

 

Ele insiste: “Como acompanhar as comunidades que estão se tornando adultas sem lhes abrir a possibilidade de terem seus ministros adequados, tal o ´ministro da Ceia`”. Esse é um tema que vem sendo tratado aqui no Brasil cada vez com mais veemência.

 

Clodovis trata também nesse capítulo da qualificação necessária aos agentes de pastoral. E um trabalho que exige que os agentes sejam não apenas “quadros de ação pastoral”, mas também “quadros da vida eclesial”. Daí o cuidado necessário com a formação espiritual dos agentes. A fé, diz Clodovis, “é uma força que impede a própria política de se alienar”. Há que criar condições para uma “educação de fé específica”: de formação e nutrição da mística cristã.

 

O trabalho pastoral no campo social tem que ser inteligente e munir-se de artimanhas bem específicas. Saber trabalhar “na barriga do monstro”. É necessário ter uma teoria correta e uma visão correta. Sublinha Clodovis: “Importa entender que o espaço oficial não é monolítico. Está cheio de contradições e brechas”. É nelas que se deve atuar, com jeito, paciência e eficiência. No espaço oficial “existem fendas que podem ser ocupadas pelos oprimidos e que podem se alargar”. Essa é a sabedoria.

 

No oitavo capítulo, entra-se em cheio no tema da espiritualidade encarnada. Essa espiritualidade visada é uma espiritualidade comunitária, e também encarnada, incardinada no povo. Essa espiritualidade vem inspirada e atuada pela utopia de Jesus, que e a utopia do Reino de Deus. Mais do que nunca, diz Clodovis, se faz necessário retomar o kerygma originário. 

 

Sem o recurso do Reino, e sua envergadura teológica, “fica sempre o perigo de se reduzir a fé a uma de suas dimensões”. Não se trata de uma espiritualidade qualquer, mas sim de uma espiritualidade “aberta ao povo”, comprometida, mas envolvida numa “relação pessoal profunda com o Mistério, que é também pessoal”. O desafio esta em “liberar mais humanidade”. Se não houver cuidado com essa fonte, o risco é da própria pastoral ir “secando até desaparecer”.

 

No nono capítulo, Clodovis avança na reflexão da Ceia do Senhor. Começa falando da força das mulheres animadoras das comunidades: de sua raça e espiritualidade funda. Nada mais do que “mulheres fortes de um povo forte”. O autor busca resgatar a imagem da Ceia vivida nos primeiros tempos da comunidade cristã, e que serve de modelo para as CEBs. 

 

Diz ao final que as CEBs poderiam exercer “várias modalidades de celebração da “Ceia do Senhor, desde a missa com o povo de Deus, que é a fórmula tradicional e hoje praticamente única, até à ´fração do pão` tal como se celebrava nas primeiras comunidades cristãs”. Sugere um caminho novo, ousado e bonito: de uma “Eucaristia popular” numa “Igreja popular”.

 

No décimo capítulo, o tema da luta em favor da justiça vivida nas comunidades. Trata-se de uma luta empenhativa, tomada por um clamor evangélico primordial. Há todo um desafio em aberto, no sentido de um trabalho humilde de “semeação”. Um trabalho que busca vencer obstáculos difíceis como o da distância entre as comunidades, das precárias condições materiais e sociais, bem como a dispersão. 

 

No décimo primeiro capítulo, o objeto é a Igreja em construção. Clodovis relata aqui alguns dos trabalhos em que ele se viu envolvido ao longo de sua atuação no Acre. Fala da vitalidade que encontrou em tantas comunidades dispersas pela floresta, da alegria do povo em poder se dedicar com alma a “algo maior do que a vida”. E nos lembra que “o sentido da vida é a vida do sentido”. Fala ainda no capítulo da beleza em ver que esse povo simples começa a narrar sua história. Os pobres começam “a falar e escrever por própria conta, com sua boca e mão próprias, sem intermediários, representantes ou defensores”. Aparecem, finalmente como “criadores de uma Palavra que se impõe por sua força intrínseca”.

 

Descreve também no capítulo a linda trajetórias de animadores populares, como seu Raimundinho, místico popular e de tantos outros ministros leigos. E conclui o livro dizendo que sempre considerou exemplar a pastoral popular, movido por uma “qualidade excepcional”, na linha de um caminho libertador singular e criativo. Suas últimas palavras: “Já sinto pena em ter que deixar toda essa gente em cujo coração se enraizou essa afeição tão bonita. Não se ama para ser feliz; ama-se, então se é feliz. A felicidade não é de justiça; é de graça”.

 

 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Em boa fé - A religião no século XXI

 Em boa fé – A religião no século XXI.[1]

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

O novo livro do cardeal Gerhard Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé 

 

Terminei de ler hoje cedo o novo livro do ex-presidente da Congregação para a Doutrina da Fé - CdF (ex-Santo Ofício), que acompanhou o papa Ratzinger a partir do período de sua renúncia, em 2013.

 

Trata-se de um livro volumoso, com 223 páginas, e nove capítulos, com o prefácio de Franca Giansoldati. O conteúdo da obra envolve uma pequena biografia do autor, sua reflexão sobre o período em que esteve na frente da CdF, sua compreensão do momento atual vivido pela igreja católica e o pontificado de Francisco, bem como sua avaliação da renúncia do papa Ratzinger (Bento XVI). Reflete também sobre alguns pontos que diferenciam sua visão da de Francisco, como a  questão da sinodalidade e o futuro da igreja e outras  relativas à doutrina da igreja e suas relações internacionais. O meu objetivo aqui não é abordar todos os temas desenvolvidos no livro, mas alguns que me pareceram mais singulares segundo o meu ponto de vista. 

 

No início do livro, o cardeal Gerhard Müller fala de sua trajetória de vida, desde o tempo de sua primeira formação em Mainz, no sudoeste da Alemanha, numa região de predominância católica. Veio de uma família católica, de pais trabalhadores, sendo o irmão mais novo de outros três que já faleceram. Sua família teve sempre uma postura crítica com respeito ao Terceiro Reich, e seu pai, em particular, atribuía a Hitler a responsabilidade pela “tragédia coletiva” que significou o nazismo (BF, 21-23) 

 

Fala também sobre as influências que sofreu no curso de sua formação, e sublinha em particular as presenças de Agostinho e a Bíblia. Menciona ainda os teólogos que marcaram sua reflexão, como os Padres da Igreja,  Ratzinger (e cita particularmente o livro: Introdução ao cristianismo), Von Balthasar, Y. Congar e Karl Rahner (BF, 35). 

 

Fundamental na sua vida foi o influxo de Ratzinger, desde os tempos de sua atuação como teólogo. Müller vem se dedicando agora à curadoria da obra completa de Ratzinger, prevista para ser publicada em 16 volumes. Em sua visão, Ratzinger “representa um símbolo, encarnando a parte da Igreja alemã mais fiel ao magistério e menos inclinada a ceder face aos golpes da reforma levada adiante pelos promotores do percurso sinodal” (BF, 67). 

 

Esteve ao lado de Ratzinger, depois de sua renúncia como papa. Foi uma convivência de vinte anos com o bispo emérito de Roma. A renúncia de Bento XVI surpreendeu Müller, que não esperava tal gesto. Nenhum indício do ato pretendido foi anunciado a qualquer membro da CdF (BF, 135). Sublinha que talvez o gesto do papa se deu em razão de seu estado doentio e da percepção da proximidade da morte. Müller acrescenta ainda o influxo de toda uma campanha midiática contra o papa, que corroía suas forças (BF, 133 e 140). Só agora ficamos sabendo, pela divulgação de uma carta de Ratzinger ao seu biógrafo, Peter Seewald, qual foi o motivo real de sua renúncia: uma difícil insônia que o acometeu desde 2005, meses depois de sua eleição[2].

 

Em seu livro, o cardeal Müller deixa clara sua posição crítica com respeito à renúncia papal. Firma sua posição contrária, sublinhando que o caso da renúncia de Bento XVI deve permanecer como um “caso pessoal e excepcional” sem, absolutamente, tornar-se uma regra comum a partir de agora, com riscos danosos para o futuro da igreja (BF, 137-138). Na visão de Müller, o mandato de um papa não é resultado de um conclave, mas de um dom concedido por Deus (BF, 142).

 

O trabalho de Müller na CdF ocorreu em razão de um convite expresso de Bento XVI. Assumiu o cargo com a firme convicção de estar a serviço da defesa da fé e da doutrina. Aliás, a seu ver, todo teólogo deve ter como missão “esclarecer e defender a fé” (BF, 90-91). Trata-se de tarefa que não pode ficar restrita a um dicastério específico. Reage com firmeza contra a posição irradiada na mídia de que ele se posicionava contra Francisco. A seu ver, não era essa a verdade. Lendo, porém, o livro com calma, verificamos que há uma série de discordâncias que são aventadas.

 

O cardeal Müller  não esperava sair assim abruptamente do dicastério romano, e reage duramente contra o sucedido. Reconhece que havia vozes críticas à sua atuação na CdF, mas pontua que o seu trabalho simplesmente refletia o traço definido para qualquer prefeito do dicastério: colaborar com o pontífice e zelar pela doutrina da fé (BF, 39). Sua saída ocorreu em  2016, com uma decisão firme de Francisco, acolhida pelo então prefeito da CdF como algo “arbitrário”. Os lamentos do cardeal Müller são retomados em outras partes do livro, quando reage contra a progressiva perda de influência da CdF no pontificado de Francisco, sobretudo depois da publicação da constituição apostólica Praedicate Evangelium, de março de 2022, com o redesenho do mapa de poder na cúria romana (BF, 52). 

 

Em alguns momentos do livro, o cardeal Müller deixa escapar suas diferenças a respeito de certos teólogos da América Latina, que a seu ver padecem de “complexo de inferioridade” diante dos teólogos europeus. Teólogos que junto a outros personagens da pastoral, como o cardeal Óscar Maradiaga, não viam com benevolência a atuação curial de Müller (BF, 41-42). Em sua colocação resguarda, porém, o teólogo Gustavo Gutiérrez, a quem dedica elogios em diversos momentos do livro (BF, 41; 192-193). Numa de suas críticas mais contundentes ao trabalho de Francisco e de sua equipe, o cardeal Müller denuncia o que chamou de “espécie de círculo mágico” em torno da casa de Santa Marta, com pessoas despreparadas teologicamente (BF, 46).

 

Em vários pontos de seu livro, o cardeal Müller expressa seu descontentamento com o momento atual da igreja católica, que em sua visão corrobora com a fragmentação tomada pelo cristianismo no curso do século XXI (BF, 96; 155). Expressa sua preocupação com o influxo de certo nihilismo, bem como de um acento exagerado na dimensão horizontal da fé. Sua intenção é alertar a igreja contra o risco da “dispersão do patrimônio da fé” em reflexões doutrinais marcadas por imprecisão e confusão. No prefácio da obra, Franca Giansoldati busca resumir algumas das dificuldades que ocorrem na reflexão teológica ou pastoral corrente, que, a seu ver, acabam por diminuir a figura de Jesus Cristo ou do papel salvífico universal da igreja católica. Exemplifica com a tendência em curso de ver Jesus como um irmão, um amigo ou exemplo de vida moral, mas não como o salvador do mundo.

 

Com respeito ao papa Francisco, o cardeal Müller partilha uma visão que é comum entre outros curiais de que sua perspectiva é mais pastoral do que teológica. Considera também que entre seus auxiliares há uma carência de teólogos, o que, na sua visão, tende a enfraquecer “o caráter teológico e eclesiológico do Colégio cardinalício” (BF, 54).

 

As divergências com Francisco emergem em vários momentos da obra, quando detalha passos específicos dados pelo papa em favor de transformações na igreja. Dentre os contrastes, a visão distinta da evangelização. Para Müller, Francisco vislumbra a dinâmica evangelizadora no compasso do compromisso social em favor dos migrantes, pobres e excluídos, evitando uma compreensão de evangelização que se concentra no anúncio explícito de Jesus Cristo. Para Müller, ao contrário, torna-se essencial uma concentração no mandato da evangelização, com ênfase no anúncio (BF, 87, 93, 111, 190). 

 

O processo em curso de redesenho da cúria romana, enfraquecendo o poder da Congregação para a Doutrina da Fé, não agrada ao cardeal Müller. Daí sua contestação da constituição apostólica Predicate Evangelium, de março de 2022. Trata-se de um documento que segundo o cardeal “já nasceu com um defeito de fábrica”, em razão de sua carência eclesiológica (BF, 52). Expressa também dificuldades com a exortação apostólica pós-sinodal, a Amoris Laetitia, de março de 2016, que abria concessões problemáticas no campo da acolhida dos gays (BF, 60, 150). Em todos os seus posicionamentos públicos, o cardeal Müller defende rigidamente o matrimônio tradicional, excluindo qualquer outra possibilidade de acolhida fora dos parâmetros tradicionais, o que para ele seria um verdadeiro “sacrilégio” (BF, 113-115).

 

Em sua obra, o cardeal alemão manifesta também resistências contra o caminho da sinodalidade adotado por Francisco, que segundo ele promove uma descentralização delicada na vida da igreja, conferindo um poder excessivo às conferências episcopais. Uma descentralização que faz parte do projeto de Francisco, ao promover a internacionalização do Colégio cardinalício (BF, 55, 62, 85). Coloca também em cheque a perspectiva litúrgica de Francisco, ao abolir a missa em latim, contrariando a postura anteriormente vigente, com a carta apostólica de Ratzinger, Summorum Pontificum, publicada como um moto proprio em julho de 2007 (BF, 81-82; 84).

 

Em linha de rígida continuidade com a perspectiva ratzingeriana, o cardeal Müller mantém vinculante a declaração Dominus Iesus, publicada pela CdF em agosto de 2000, durante o pontificado de João Paulo II. Na visão do cardeal, esse documento assinado por Ratzinger expressa a “verdade absoluta” para os cristãos, sem possibilidade de alternativa. Com a acolhida da declaração, a confirmação absoluta de que só pode haver esperança salvífica em Jesus Cristo, e que só a igreja católica é sacramento universal da salvação (BF, 94-97). 

 

Com a acolhida da Dominus Iesus, a manutenção de um posicionamento restritivo no campo do diálogo das religiões. Um diálogo que vem reconhecido em seu valor, mas como um dado retórico, pois na verdade, o caminho salvífico de fato só se dá na acolhida da perspectiva católica. O cardeal Müller, defendendo tal posição, coloca em xeque o diálogo efetivo para evitar o risco de uma equivalência entre as religiões (BF, 95).

 

Temos assim, mais uma das obras publicadas durante o pontificado de Francisco, que expressam uma visão distinta de evangelização e que propõem a defesa de uma continuidade de perspectiva que vigorou durante os quarenta anos que antecederam a entrada do novo papa.

 

 

 

 

 

 

 



[1]Gerhard Müller. In buona fede. La religione nel XXI secolo. Milano: Solferino, 2023. As referencias ao livro virão no próprio texto com o código BF, seguido das páginas ou página indicada.