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terça-feira, 25 de abril de 2023

Pregar e Predar

 Pregar e Predar

 

Faustino Teixeira

 

 

O tema da missão evangelizadora junto aos povos originários tem sido um campo de muito debate na antropologia brasileira hoje. No livro que estou organizando junto com Renata Menezes, de Antropologia da Religião (a sair pela Vozes em breve) há dois textos que o tema vem abordado. Um que é mais direto, de autoria de Paula Montero: Antropologia e missão: reflexões teórico-metodológicas. E outro, que trata o tema do xamanismo, religião e espiritualidade, de Beth Pissolato. 

 

Como indicou Paula, com acerto, “não é possível narrar uma história nativa sem narrar, ao mesmo tempo, uma história colonial”. Ela mostra como uma antropologia das missões “precisa sempre levar em conta que todo o discurso sobre o Outro se organiza, necessariamente, em condições históricas nas quais a conjunção/interação de universos culturais distintos já está dada”. Em todo esse processo, que é dinâmico, há sempre “um ´outro` modificado por um ´nòs`”. Não é possível fugir disso, mesmo que a intenção missionária seja aberta e respeitosa da diversidade.

 

No texto de Beth Pissolato ela cita o importante livro da antropóloga Aparecida Vilaça, que recobre uma etnografia de longa duração com os Wari` no sudoeste amazônica. O seu livro, infelizmente, não está disponível em português, mas o título já é profundamente significativo: Rezar e Predar (Pray and Prey – 2016). Não há nenhuma dúvida com respeito ao que aponta Aparecida: não há como exercer a dinâmica missionária, com seu repertório subjacente, sem que alguma predação ocorra. 

 

Em livro mais recente e muito precioso, Paletó e eu (2018), há um capítulo específico dedicado por Aparecida à conversão evangélica dos Wari`. Mesmo Paletó, pai espiritual de Aparecida, acabou se convertendo à religião dos crentes. E segundo a narração de Aparecida, Paletó tornou-se crente por “medo do fim do mundo”, e, por consequência, “ser abandonado pelos seus conterrâneos e parentes, muitos deles crentes desde o fim dos anos de 1960”. Aqueles que não se convertessem, segundo o discurso dos missionários, estariam condenados a ficarem na terra da onça e servirem de alimento para elas. Esse era o dicurso da predação. 

 

Estamos diante de uma tradição missionária desencantadora do universo simbólico dos povos originários. Uma pregação que esvazia de sentido a beleza de como esses povos vêem a vida e o destino. Em seu lugar vem proposto um céu como “um lugar meio sem graça, onde todos são iguais, não fazem sexo nem festas, bebem água, comem pão e passam todo o tempo a escrever”. Em verdade, é por causa do medo do inferno, incutido nesses povos, que se dá a conversão.

 

Não há dúvida que toda essa situação incomodou e incomoda Aparecida Vilaça, e outros tantos antropólogos e antropólogas. Ela diz nesse livro sobre Paletó, que se coloca radicalmente contrária “ao trabalho de conversão religiosa” em curso entre os Wari`, mas sublinha também que sempre se manteve respeitosa face a opção por eles escolhida. Mas estranha o que ocorreu e ainda está em curso, pois é algo que vem contrariar radicalmente o dado de acolhida da multiplicidade que sempre marcou a cosmovisão dos Wari`. Eles são “radicalmente não dogmáticos”, e sofrem um violento processo de dogmatização que vem de fora.

 

 

 

 

domingo, 9 de abril de 2023

Ai de ti, Tiguera: uma semana santa diferente

 Ai de ti Tiguera: Uma semana santa diferente

Faustino Teixeira

IHU / UFJF

 

 

Essa foi uma semana santa muito estranha em minha vida. Não pude curtir com alegria a passagem de sexta feira santa para o domingo de páscoa, que é hoje, 09 de abril de 2023. Lembro-me quando jovem, ao ler o livro de Roger Garaudy, Do anátema ao diálogo (1966), estranhei o fato dele dizer que a sexta feira santa do marxista não vem amenizada por nenhum domingo de páscoa. Ou seja, como ele diz: “Vivemos, sem dúvida, cristãos e marxistas, a exigência do mesmo infinito, mas o vosso é presença, e o nosso é ausência”.

 

Vendo as fotos de amigos cristãos celebrando a data, com mesas enfeitadas e celebrações bonitas, também textos de amigos exaltando a força da ressurreição; vendo também fotos de festa familiar, onde o ritmo era de alegria, vivenciei uma experiência diversa, que foi de penumbra e dor, preocupação intensa com um futuro que se aproxima, que vem marcado pelo desgaste da compaixão.

 

E aqui digo a compaixão pelas espécies companheiras, no meu caso particular, pelas irmãs-árvores. Falava ontem com um filho, que só quem vivenciou a virada animal e vegetal é capaz de compreender a minha dor. E vejo com cada vez mais clareza que passo por essa experiência-cume. Muitos não e entendem ou aceitam, incapazes de captar o alcance do que essa virada significa na minha vida. 

 

Quando leio uma passagem da reflexão de Ailton Krenak, num livro de entrevistas com ele, sinto a mesma sensação descrita: A natureza “existe em cada um dos pequenos, no ar que eu respiro, naquelas plantinhas que estão ali no quintal, na chuva que cai, nos raios de sol que atravessam todos esses concretos e cimentos que passam por este buraquinho na janela aqui”. Essa foi uma reflexão de Krenak quando estava em São Paulo. E ele mostrou com clareza, que carrega sempre consigo a natureza. Ela faz parte dele. Qualquer violência que se cometa contra ela, ele vive nele a violência, com intensidade igual. Foi o que ele sentiu com muita dor, ao ver seu rio em Minas Gerais contaminado com os descasos de uma empresa mineradora.

 

Fui educado na tradição cristã, e me considero ainda vivamente cristão, embora conectado com vigor num ritmo dialogal com todas as outras tradições religiosas. Em geral, quando estamos vinculados a uma determinada tradição religiosa somos tomados pela cadência do exclusivismo. Como diz Freud, “quando amo sou exclusivista”. No meu caso de relação com o cristianismo, o exclusivismo não se dá... e cada vez menos.

 

Voltando à minha dor dessa páscoa, explico a principal razão. Ela se dá no contexto em que aqui em meu condomínio, onde habito desde 1992, mas que habita o meu imaginário muito tempo antes, desde que meu pai comprou um terreno aqui, quando ainda era menino. Vinha com minha mãe e meus irmãos de ônibus apreciar essa beleza única. No cenário estavam majestosos eucaliptos-limão (Eucalyptus citriodora), com seu perfume único, que nunca saiu de minha memória. E desde o dia 04 de abril, que foi o início da semana santa, esses eucaliptos começaram a ser devastados impiedosamente, com os mais diversos argumentos, fundados na percepção de alguns moradores.

 

No segundo dia dos cortes, ao visitar o local, pude observar aquele aroma que encantava e embalava minha juventude agora irradiado de fora ainda mais viva por todo canto. Ao chão, ramos inteiros de folhas da árvore, com suas delicadas flores brancas. E estavam ali, jogadas sem piedade nas pedras da rua, sobre o óleo derramado do caminhão com sua grua, contratado pelo condomínio, com autorização da prefeitura, para exercer o serviço. Os moradores que decidiram em assembleia estavam tranquilos em suas casas, preparando-se para o grande evento pascal. Eu, ao contrário, como alguns outros, estávamos tomados pela dor de uma semana “santa” que se anunciava desta vez sangrenta e impiedosa.

 

Os grandes especialistas no campo da biologia justificavam o corte com palavras de indiferença. Para eles, os eucaliptos são árvores invasoras, estranhas ao bioma da Mata Atlântica. Seu corte vinha justificado sem qualquer drama de consciência. Nem sequer consideravam que aquelas majestosas e imponentes árvores estavam aqui no condomínio há mais de oitenta anos, encantando o imaginário das crianças, com seu perfume e beleza. 

 

Veio-me então na memória uma passagem do evangelho que admiro desde jovem: “O que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e, o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é...”. Foi assim que compreendi as razões do corte e as motivações evangélicas para a minha iracúndia sagrada: Deus escolheu o que é vil e desprezado e o glorifica e bem-diz.

 

Eu aqui, neste domingo de páscoa presto a minha homenagem a esta árvore desprezada por tantos, e os grandes especialistas. Esta árvore estrangeira, de origem australiana, que vem recusada como hostil por nós brasileiros. Uma árvore que se adaptou tão bem entre nós, amplamente cultivada para o reflorestamento e utilizada “na arborização de caminhos e estradas em áreas rurais”, e “particularmente apreciada pelo aroma agradável que libera”.

 

A memória desse aroma ninguém poderá roubar de nós. E isto me faz lembrar Proust, em seu livro Em busca do tempo perdido(No caminho de Swann). Aquele sabor da Madeleine, aquele sabor que subsiste ao tempo, para além “da morte das criaturas e a destruição da coisas”. O aroma do eucalipto e o sabor da Madeleine são, sem dúvida “frágeis”, mas “vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis”, e tem o dom de durar permanentemente, “ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação”.

 

Essa foi a minha semana este ano, depois de minha virada animal e vegetal. Fico feliz e tranquilo por fazer a minha parte na luta em favor da preservação da natureza, por toda parte e com o mesmo e sagrado sentimento. A minha dor é semelhante aos ribeirinhos do rio doce, com toda a devastação produzida pelo afã necrófilo do minério, ou os ribeirinho que foram engolidos por Belo Monte. E me irmano com a dor de Eliane Brum, que continua no Sumaúma, a defender essa causa nobre e denunciar sempre “a irrupção da violência do acontecimento Belo Monte”, que “corroeu e corrói a saúde mental da comunidade cujos laços foram rompidos”. 

 

Concluo com a oração pela fúria, de Denise Fraga:

 

Oração pela fúria

 

Santo Deus

Não aplaque a minha fúria

Proteja a minha indignação dos dias iguais

Dos dias banais

Renove a minha perplexidade diante do absurdo

Deus, meu pai

Mantenha aceso o fogo que incendeia a minha alma

Para que eu possa forjar o magma da minha fúria

Em assertividade e paixão

Canalize o jorro da minha indignação furiosa

Em gotas de lucidez implacável

Para a minha luta diária

A caminho da verdade e da liberdade