domingo, 21 de agosto de 2022

Perplexidades em torno ao mundo pentecostal: dialogando com Leonardo Boff

 Perplexidades em torno ao mundo pentecostal: dialogando com Leonardo Boff

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem


 

Confesso a vocês que fiquei preocupado ao ler o artigo recente de Leonardo Boff publicado no IHU de 19/08/2022. O título do artigo: A importância do fator religioso nas atuais eleições presidenciais. Na linha de posicionamentos tradicionais da igreja católica e de segmentos da sociologia, Boff ficou refém da visão recorrente entre segmentos da esquerda na avaliação das igrejas neopentecostais. Cito aqui uma parte do texto onde ele fala a respeito:

 

“(...) O grande desafio da campanha da coligação ao redor de Lula/Alckmin, que é também das Igrejas cristãs históricas, principalmente da Católica, é como atrair estas massas, manipuladas e ludibriadas pelas igrejas pentecostais, para os valores do Jesus histórico, muito mais humanitários e espirituais do que aqueles apresentados pelos “pastores e bispos” autoproclamados e verdadeiros lobos em pele de ovelha. Estes usam a lógica do mercado, da propaganda e estilos que contradizem diretamente a mensagem bíblica e de Jesus, pois utilizam-se diretamente da mentira, da calúnia, da fake news.

 

Vale mostrar a estes seguidores das Igrejas pentecostais como o Jesus dos evangelhos sempre esteve ao lado os pobres, dos cegos, dos coxos, dos hansenianos, das mulheres doentes, e os curava. Era extremamente sensível aos invisíveis e aos mais vulneráveis, homens ou mulheres, enfim, àqueles cujas vidas viviam ameaçadas. Vale muito mais o amor, a solidariedade, a verdade, e acolhida de todos sem discriminação, como os de outra opção sexual, vendo nos negros, quilombolas e indígenas nossos irmãos e irmãs sofredores. Importa se solidarizar com eles e estar junto com eles para fazerem o seu próprio caminho. Esse comportamento vale muito mais que o “evangelho da prosperidade” de bens materiais que não podemos carregar para a eternidade e, no fundo, não preenchem nossos corações e não nos fazem felizes. Ao passo que os outros valores do Jesus histórico vão conosco como expressão de nosso amor ao próximo e a Deus e nos trazem paz no coração e uma felicidade que ninguém nos pode roubar.[1]”

 

Vejo na passagem alguns riscos bem concretos na avaliação das igrejas pentecostais. Há algum tempo somos provocados por autores específicos a questionar nossa visão tradicional sobre os pentecostais, para além da posição enrijecida de parte da esquerda que não vê nos pentecostais senão alienação. Cito aqui o exemplar livro de Waldo Cesar & Richard Shaull, Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs[2].

 

Richard Schaull relata com rigor a difícil estrutura social no Brasil, que provocou um duro enrijecimento das condições de vida dos pobres. Reconhece que foi justamente nessa situação de precariedade social e humana que “muitos passam a conhecer uma rica experiência , que não podemos imaginar, de cura e presença salvadora de Deus”[3]. Mais adiante, continua o autor: “Hoje os pentecostais pregam para os pobres e excluídos, humilhados e oprimidos sob o poder esmagador da opressão. Sua experiência é de impotência e falta de dignidade (...). Em tal situação, os neopentecostais anunciam o amor de um Deus cheio de graça, que deseja que eles tenham, aqui e agora, uma vida plena, bem como a presença do Espírito Santo com poder, para dar vida àqueles a quem ela havia sido negada”[4].

 

Vejam que é outra perspectiva de abordagem, que resgata positivamente traços da experiência neopentecostal. No âmbito das ciências sociais, acompanhamos as reflexões serenas e precisas de Regina Novaes sobre a Assembleia de Deus num município do Nordeste, com nome fictício de Santa Maria. Foi sua tese de mestrado no Museu Nacional. Regina lembrava em seu trabalho, publicado em 1985[5], a “proposta de vida” que encontrou entre os camponeses da religião em sua experiência pentecostal. De forma revolucionária, Regina foi uma pioneira em reconhecer o trabalho social dos pentecostais, quebrando aquela ideia jargão que são alienados. Mostrou com sua pesquisa, o empenho de núcleos pentecostais na luta pela terra. O elemento novo que ela nos trouxe foi sublinhar “a contaminação da área dos direitos trabalhistas e dos direitos pela posse e uso da terra por categorias religiosas. Os ´salmos` , a ´sagrada escritura` estariam, neste sentido, legitimando e até sacralizando a luta pelos direitos”[6]. Como vemos, o traço da relativização acontece aqui com pertinência, pontuando a complexidade de tirar impressões apressadas sobre os pentecostais. O trabalho de Regina foi pioneiro nesse campo.

 

A mesma Regina, em outro trabalho importante - publicado no livro "Religião e cultura popular" (2001), volta a relativizar esse paradigma que encerra o pentecostalismo no universo conservador. Vai sublinhar, com muito pertinência, o papel dos pentecostais numa fundamental rede de sociabilidade e de ajuda mútua. Mostra igualmente a presença dos pentecostais em rincões que não foram atingidos pela pastoral católica, ali onde estão os mais pobres dos pobres:

 

“Várias pesquisas já demonstraram que são os evangélicos os que mais chegam nas margens da sociedade. Chegam a lugares de onde nenhuma outra instituição civil ou religiosa ousa se aproximar. Estudos demonstram também que são apenas eles que – ao fazer nascer novas e independentes denominações – provocam dinâmicas agregadoras locais sem contar com nenhum recurso material e simbólico externo”[7].

 

O historiador Marcos Alvito comenta também essa capacidade dos pentecostais avançarem para “dentro da favela”, como dizem eles, ou alcançarem “as vielas mais recôndidas e as áreas mais pobres”[8]. Diz ainda que é nos cultos “que se reconstrói o significado de tantas vidas ameaçadas pelo caos, paralisadas pela perplexidade, mergulhadas na dor e acossadas pela iniquidade, pelo Mal”[9]. Muito rica também a descrição feita pelo autor no livro sobre o carisma de uma liderança pentecostal, que em culto ecumênico realça o papel de um "exército de anjos" que protegem os quatro cantos de Acari[10]. Trata-se de uma descrição de beleza única.

 

Beleza que também percebi no filme "Santa Cruz", de João Moreira Sales e Marcos Sá Corrêa, abordando o nascimento e desenvolvimento de uma pequena comunidade pentecostal na periferia do Rio de Janeiro. O retrato que ele passa dos pentecostais vem tecido por um enorme respeito, no sentido de uma ressignificação do sujeito empobrecido pela experiência espiritual. Em artigo que publiquei sobre os pentecostais na Revista Concilium em 2014, caminhei nessa direção alternativa e sublinhei a importância desse filme: 

 

“O filme quebra, assim, a imagem de certas representações correntes sobre o pentecostalismo, apontando caminhos novos de interpretação, favorecendo um olhar internalista e compreensivo sobre esse complexo fenômeno. Possibilita, em verdade, um olhar sobre o potencial da igreja em “formar comunidade moral e rede de ajuda mútua”. Como se a experiência comunitária “preenchesse aos poucos um espaço vazio”, de baixo potencial de dignidade. O filme busca retratar os três primeiros meses da comunidade e as mudanças suscitadas pela nova igreja: “A integração promovida pela igreja criou amizade entre os vizinhos, formou rede de apoio e ajuda mútua entre iguais, valorizando e ´preenchendo` de relações positivas o bairro antes ruim, ´terra de ninguém` , vazio civilizatório.”[11]

 

Retomei depois semelhante reflexão em outro trabalho publicado no IHU-Notícias, em novembro de 2021: Um outro olhar sobre os pentecostais: um desafio para o nosso tempo[12].

 

Menciono também um trabalho premiado nas ciências sociais, de autoria de Maria das Dores Campos Machado, Carismáticos e pentecostais. Adesão religiosa na esfera familiar[13]. A autora, que chegou a escrever na própria Folha Universal, mostrou em seu livro o papel exercido pelas igrejas pentecostais no campo da “autonomização feminina”. Ela mostrou como a prática pentecostal acaba proporcionando aos fiéis experiência importantes de intensificação da qualidade de sujeitos: muitos dos participantes conseguem, via religião, romper com vícios problemáticos (álcool e drogas) e reconstituir o tecido familiar. A autora revela que aqueles que buscam nas igrejas pentecostais uma “vida santificada”, acabam exercendo concretamente em suas igrejas e atuações sociais algo que reforça a dignidade de pessoa de cada um, e que levado às últimas consequências, abala “não só a autoridade masculina, mas a própria instituição que se coloca como responsável pela salvação das almas”[14]. São práticas religiosas que acabam, na verdade, proporcionando uma maior igualdade de gênero e um arrefecimento da violência doméstica. Como também indica o antropólogo Ronaldo de Almeida, numa perspectiva mais sociológica, verifica-se no pentecostalismo o estabelecimento de “vínculos sociais que atenuam a situação de vulnerabilidade sociais das camadas mais pobres”[15]. Algo que vem igualmente partilhado pela análise de Regina Novaes, para quem os evangélicos são “os que mais chegam nas margens da sociedade”, provocando “dinâmicas agregadoras locais sem contar com nenhum recurso material e simbólico externo”[16].

 

Mais recentemente, o livro de Juliano Spyer, Povo de Deus. Quem são os evangélicos e porque eles importam, com apresentação de Caetano Veloso[17](Geração Editorial, 2020). Já no prefácio, com sabedoria, Caetano Veloso, que tem dois filhos ligados à Igreja Universal do Reino de Deus, falou sobre “o clima de honestidade dos fiéis que não podem ser confundidos com descaminhos éticos de certas lideranças”[18]. 

 

Os dados têm-nos revelado que os evangélicos e pentecostais constituem hoje “a religião mais negra do país”, sendo a preferência principal a Assembleia de Deus[19]. O autor mostra que “para muitos negros e pardos que são encarcerados ou se tornam dependente de drogas baratas como o crack, o pentecostalismo constitui hoje um caminho para a reintegração à sociedade”[20]. Adverte também que “para as pessoas dispostas a romper o vínculo com o álcool, as igrejas servem como rede social alternativa aos bares e às amizades formadas em virtude do vício”[21]. O crescimento desse cristianismo evangélico, como indica Spyer, “tem menos a ver com pastores oportunistas e carismáticos, e mais com a influência das igrejas para melhorar as condições de vida dos mais pobres

 

As igrejas evangélicas, como mostra Spyer, constituem um “espaço que, na localidade em que se instala, cumpre a função de estado de bem-estar social informal”[22]. É contra “estereótipos” comuns em segmentos da esquerda, que Spyer se contrapõe, com base em pesquisas sólidas em torno do mundo evangélico e pentecostal. Dentre os estereótipos mais comuns estão aqueles que “descrevem o evangélico como mercador da fé que se aproveita da superstição de um povo ingênuo e ignorante”[23].

 

Nesse livro, que foi admirado por Lula, o autor sublinha que a promessa apresentada pelos pentecostais, diferentemente do que ocorria nessas igrejas da década de 1920, refere-se ao paraíso que deve ser buscado já aqui no tempo. A própria ideia de “teologia da prosperidade” pode ser entendida de forma diversa do que normalmente apresentada. Firma-se uma percepção de que “a Terra é uma dádiva de Deus aos homens para que todos possam prosperar e viver com abundância de bens materiais”[24]. É uma teologia que acaba firmando-se como um “demarcador simbólico”, onde os pobres encontram o estímulo e motivação para iniciativas singulares[25]. A preocupação dos fiéis não é tanto com as grandes abstrações, mas com o que vem acontecendo nas suas famílias e igrejas, e como encontrar soluções de saída para o desamparo social.

 

O que concretamente sabemos, segundo os dados que vão aparecendo, e que poderão ser confirmados pelo Censo que agora começa, é que os evangélicos no Brasil superarão já na próxima década o número de católicos. Temos como desafio essencial buscar um olhar mais especializado e menos a-priorístico sobre os evangélicos e pentecostais, que possa dar conta da grande complexidade que envolve o tema. 

 

 

 



[2]Waldo Cesar & Richard Schaull. Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs. Promessas e desafios. São Leopoldo/Petrópolis: Sinodal/Vozes, 1999.

[3]Ibidem, p. 167.

[4]Ibidem, p. 194.

[5]Regina Reyes Novaes. Os escolhidos de Deus. Pentecostais, trabalhadores & cidadania. São Paulo: Marco Zero, 1985 (Cadernos do Iser, n. 19).

[6]Ibidem, p. 131.

[7]Regina Reyes Novaes. Pentecostalismo, política, mídia e favela. In: Victor Vincent Valla (Org). Religião e cultura popular. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p. 69.

[8]Marcos Alvito. As cores de Acari. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2001, p. 166.

[9]Ibidem, p. 179.

[10]Ibidem, p. 193.

[11]Faustino Teixeira. O Deus da prosperidade: desconstruindo imagens. Concilium, n. 3, 2014 (Cristianism:o, consumismo e mercado). Ver também: Cláudio Mesquita. Santa Cruz, de João Moreira Sales e Marcos Sá Corrêa. O mundo preenchido. Sexta Feira, n. 8, 2006, p. 178.

[13]Maria das Dores Campos Machado. Carismáticos e pentecostais. Adesão religiosa na esfera familiar. Campinas: ANPOCS / Editora Autores Associados, 1996.

[14]Ibidem, p. 199.

[15]Ronaldo de Almeida. A expansão pentecostal: circulação e flexibilidade. In: Faustino Teixeira & Renata Menezes. As religiões no Brasil: Continuidades e rupturas. Petrópolis: Vozes, 2006, p.121.

[16]Regina Reyes Novaes. Pentecostalismo, política, mídia e favela. In: Victor Vincent Valla (Org.). Religião e cultura popular. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2001, p. 69.

[17]Juliano Spyer. Povo de Deus. Quem são os evangélicos e porque eles importam. São Paulo: Geração Editorial, 2020.

[18]Ibidem, p. 13.

[19]Ibidem, p. 38

[20]Ibidem, p. 150.

[21]Ibidem, p. 112.

[22]Ibidem, p. 114

[23]Ibidem, p. 94.

[24]Ibidem, p. 218.

[25]Ronaldo de Almeida. A expansão pentecostal: circulação e flexibilidade, p. 120. 

sábado, 20 de agosto de 2022

Amor à flor da pele - Filmes em Perspectiva

 Amor à flor da pele - Filmes em Perspectiva – 17/08/2022

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

Fui tocado de forma muita particular por esse filme do cineasta chinês de Honk Kong, Wong Kar-Wai: Amor à flor da pele (Fa Yeung Nin Wa – In the Mood for Love). Trata-se do sétimo longa metragem desse importante diretor, que integra o movimento chamado de Segunda Nova Onda do Cinema de Hong Kong. Além dessa obra prima, o cineasta fez ainda outros trabalhos importantes como: Amores expressos (1994), Anjos Caídos (1995),  Felizes Juntos (1997) e Cinzas do Passado (2009).

 

Saiu no Brasil com o título de Amor à flor da pele, com data de 2000. O filme ganhou em Cannes o prêmio de melhor ator (Tony Leung Chiu Wai), bem como o Technical Grand Prize (pela edição e fotografia). Numa tradução mais fiel ao original mandarim, o título poderia ser algo como Anos com flores. Com base na tradução inglesa, o mais preciso seria Clima de amor. As filmagens, realizadas em película, duraram 15 meses.

 

Destaco algumas coisas que em particular me tocaram. Começo pelos  dois lindos intérpretes, movidos por delicadeza impecável: Su Li-Zhen (no papel de Chan) e Tony Leung Chiu Wai (no papel de Chow). 

 

Maravilhosa também a trilha sonora, em particular a canção de Shigeru Umebayashi, Yumeji´s Theme, com o diálogo exemplar de violinos e violoncelos, que dão um toque de sensualidade e neblina. Admiráveis também as interpretações de Nat King Cole: Aquellos ojos verdes, Quizas, quizas, quizas, Te quiero Dijiste. Há também as composições de Michael Galasso: Angkok what Theme Finale e Blue.

 

A fotografia de Christopher Doyle, retomada depois por Mark Lee Ping Bin nos últimos meses de filmagem, revela-se  igualmente preciosa: num jogo de cores que transita de um verde singular em contraponto com um vermelho vivo. Fiquei muito impressionado com a dança da fumaça que escorria fluida do intérprete principal em vários trechos do filme, expressando um cuidado particular, e indicando, talvez, a fragilidade e a contingência da passagem do tempo.

 

O zelo com o figurino dos dois intérpretes principais, assinados por William Chang, é também um traço importante a se destacar. Como sublinha Dalmo de Oliveira Souza e Silva em análise minuciosa, “a câmara segue a Sra. Chan a cada plano revelando suas formas, seu caminhar e sua feminilidade – como se o desejo do Sr. Chow estivesse na lente. A visão da bela mulher caminhando, suas costas, seu vestido justo (...) é sem dúvida, um plano lírico”[1]. Os vestidos da atriz são simplesmente maravilhosos: nos fazem pensar na música de Fito Paes: Un vestido y un amor:  “Só tinhas um vestido e um amor... E eu simplesmente te vi”.

 

O filme se passa em Hong Kong, em 1962, num período que coincide com o auge da Revolução Cultural na China de Mao Tse Tung, quando importantes transformações políticas e sociais ocorreram no país, com impactos precisos nas vidas das famílias. Foi um tempo de muita movimentação de pessoas e também de contenção de despesas, quando muitos tiveram que dividir sua moradia com outras famílias. Isto se vê claramente no filme.

 

O cenário apresentado é muito marcado pelos espaços apertados, num clima claramente claustrofóbico. O encontro dos dois personagens ocorre no momento em que buscam residência num apartamento de subúrbio, e alugam dois quartos contíguos para acolher os cônjuges. São quartos pequenos e sem muita privacidade. A Sra. Chan e o Sr. Chow acabam se aproximando, sem imaginar, a princípio, que seus cônjuges  estivessem vivendo uma experiência amorosa, que na sequência descobrirão:

 

“Naquele prédio, homem e mulher se tornam próximos pela dor e, ao mesmo tempo, estão separados pelas convenções morais, afinal, eles são casados. Da condição de traídos, gradativamente, tomam ações de traidores (sem a consumação do fato). Assombrados pelo pejo, os traídos/traidores resistem em assumir aquilo que um sente pelo outro – o roteiro do filme dá ênfase à situação”[2].

 

Na visão de Ayelen Indra Lago, em sua resenha[3], o filme traduz um sentimento: “delicado e suave como um beijo de despedida”. Toda a movimentação da película é marcada por delicadeza: câmara lenta e tons avermelhados. A atmosfera é tecida por planos curtos. O traço sensorial do filme é como uma “carícia tímida”. Os momentos de maior aproximação são poucos: reduzidos a tímidos toques de mãos.

 

Leung e Cheung fazem um par singular, completam-se, irradiando uma ternura única: conseguem transmitir para os que assistem o filme uma “delicadeza do não toque, ou do quase toque”, que pontuam calor e sentimento. No percurso dos encontros, o jogo singelo de expressões e comportamentos simples. Tudo, porém, regado igualmente por muito silêncio. O desejo se manifesta num sentir que transborda cada olhar, e o diretor consegue transmitir tudo isso também no que ali “se cala”. Evitam a transgressão para não repetir o equívoco dos cônjuges, mas o fazem com muita dor. 

 

O cenário é incômodo, com corredores e escada apertados, lugares entulhados, que aproximam os personagens de forma difícil: A vizinhança se torna inevitável, num ambiente claustrofóbico: “Sempre é um bom dia para ir comprar macarrão ou ir ao cinema e sair do confinamento, sempre é bom colocar um vestido bonito, se encontrar e dividir (...). Os vizinhos são um ruído constante, às vezes uma interrupção justa, como esse lamento de solidão, e outras vezes incômodo como as leis morais da sociedade”[4].

 

Como assinalou Rodrigo Rodrigues, “o diretor criou, de maneira delicada como de praxe, um manifesto de amor, o desejo de expor seus sentimentos diante da paixão ao lado, mas magistralmente velados, contidos e proibidos”. Os dois vivem num “ambiente em que se sentem enclausurados, mesmo estando tão próximos”[5].

 

No filme, há pouco diálogo e muito sentimento: “Os protagonistas esperam, escutam e dizem o necessário”. Os dois vizinhos vivem um momento particular de dor, com o distanciamento de seus cônjuges, que em verdade vivem um romance. Eles aparecem como neblinas, sempre fora do quadro. Nós espectadores não conseguimos conhecer suas faces, e toda a concentração do diretor está fixada no casal principal.

 

Eles evitam a aproximação maior: não querem ser como seus companheiros... O que assistimos, em verdade, é a força do instante de um encontro, de sinceridade e cumplicidade, de um “silêncio compartilhado e inesperado”. O amor estava ali, tão próximo, detrás da parede do quarto, detrás da traição. Tão próximo e tão longe, “Como se a aproximação inevitável fosse uma penitência”.

 

A verdade, expressa por Leung ao final do filme, está contida naquele oco das ruínas no Camboja, onde ele traduz no pequeno buraco o sentimento guardado, repetindo um gesto tradicional presente em sua memória.  O segredo ficou ali ficou contido e tapado com lama e folhagem.

 

Estamos diante de algo que é mais que um filme, mas um sentimento, a gana do amor interrompido: “Cada cena, cada plano é um intenso sentir. O tempo se congela, as vozes estão em planos distantes, nada importa mais que o amor. Está aí a semelhança com a própria vida”[6]. Ele porém se estanca... Em sua fragilidade, transborda em cada olhar numa chamada silenciosa.

 

Como bem sublinhou Isadora Sinay, há no filme um brilhante jogo entre imagem, música e interpretações, presencializando um exemplo fantástico de linguagem cinematográfica[7]. Fica para o expectador, ao final do espetáculo, a sensação de que o passado é fugidio, algo que não se pode tocar, e que se borra indistintamente quando focado pelo olhar.

 



[1]Dalmo de Oliveira Souza e Silva. Sob o signo do silêncio no amor à flor da pele. XII EHA – Encontro de história da arte, UNICAMP:

https://www.ifch.unicamp.br/eha/atas/2017/Dalmo%20de%20Oliveira%20Souza%20e%20Silva.pdf(acesso em 25/08/2022).

[2]Ibidem.

[3]Ayelen Indra Lago. Um filme, um sentimento: In the Mood for Love, Wong Kar Wai (2001). R.Nott Magazine, 19/03/2021:

https://rnottmagazine.com/blog/2021/03/19/um-filme-um-sentimento-in-the-mood-for-love-wong-kar-wai-2000/(acesso em 25/08/2025).

[4]Ibidem.

[5]Rodrigo Rodrigues. Amor à flor da pele. Maxiverso, 04/07/2021:

https://maxiverso.com.br/blog/2021/07/14/critica-amor-a-flor-da-pele-in-the-mood-for-love/(acesso em 25/08/2022).

 

[6]Ayelen Indra Lago. Um filme, um sentimento.

[7]Isadora Sinay. Crítica – Amor à flor da pele. Vortex Cultural, 08/06/2012:

https://vortexcultural.com.br/cinema/critica-amor-a-flor-da-pele/(acesso em 25/08/2022).

 

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Sobre o amor

 Sobre o amor

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

No percurso de minhas leituras sobre o Grande Sertão: Veredas, uma questão que brotou nas minhas reflexões envolveu a temática do amor. Foram raras as obras que suscitaram tantas meditações sobre o tema. Esta foi, certamente, uma delas. Com a preciosa ajuda do livro de Kathrin Rosenfield, Os descaminhos do demo[1](Imago/Edusp, 1993), fui tomando ciência da experiência de Diadorim, que segundo a autora, “nunca manifesta um amor feminino ou sensual” por Riobaldo. Vemos, sim, pistas de sua feminilidade ao longo do livro, mas não um amor que visaria um “corpo sexuado”. Em mais de uma vez, ele manifesta a Riobaldo o desejo de ser apenas amigo ou parente. É alguém que “evita a necessidade de dar forma e significado ao seu amor através da palavra ou do gesto que afirma ou nega simbolicamente a dimensão física e sexual do amor”[2]. Num mundo jagunço marcado pelo machismo incontestável, Diadorim se protege, evitando o ciúme e a violência. 

 

A trilha aberta pela interpretação de Kathrin, ajudou-me a trabalhar outras questões ligadas ao tema. Foi importante para lidar com a questão do amor maduro, que vivo agora nos meus 68 anos de idade. Revendo a letra da canção de Gilberto Gil, A faca e o queijo, de 1995[3], vejo uma bonita identificação. Ajuda a entender as mudanças que sofrem a vida amorosa, quando a “chama da paixão” vem temperada pelo amor sereno e delicado. Isto é estar diante do que Gil chama de transformações do amor, quando as mãos ganham um jeito novo e peculiar de lidar com o outro. Tornam-se mais sutis, garantida agora por “novos desejos”; também os beijos ganham um tom mais azul e menos carmim. Estamos diante de uma letra poderosa para ilustrar o amor maduro.

 

Em seu aprendizado amoroso, Gil conseguiu uma ampliação do olhar com a ajuda de Caetano Veloso, que o favoreceu captar “o traço feminino como complementação do masculino”. Foi o bonito aprendizado “de uma arte e de uma cultura mais doce, o mundo de ternura e leveza”. Vemos isso com muita clareza na canção Super Homem, de 1979[4]. É quando Gil expressa o traço de sua “porção mulher”, até então resguardada, e assinala que ela é o que de melhor traz em si e o ajuda a viver com esse amplo horizonte que assistimos em suas canções e em sua presença no tempo.

 

Numa bonita canção de Caetano Veloso, Tiranizar, musicada por César Mendes, ele toca no tema do amor, sinalizando a importância do respeito e liberdade que a vida em comum supõe. A garantia de um amor profundo está na capacidade que ele tem de gerar respeito, confiança, delicadeza. O amor não pode frutificar num ambiente nocivo de controle e ciúme. Diz Caetano na letra, que quando o amor vem construído na prisão, ele já começa a fenecer, se, ao contrário, vem regado com a liberdade, tem muita chance de durar: “Me deixe solto e eu sou todo seu”.

 

Num livro precioso de Lya Luft, Mar de dentro(ARX, 2002), ela sublinha que há um “espaço de silêncio intransponível mesmo nos mais íntimos amores”[5]. Nas famosas Cartas a um jovem poeta, Rilke assinala que muitos jovens acabam tropeçando no amor por não respeitarem esse espaço de silêncio e solidão que habita o mundo do parceiro[6]. O amor, segundo o poeta, vem resguardado quando se respeita esse limite do outro e o espaço de sua solidão vem acolhido e saudado. Na visão de Rilke, “o amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer”. Ele requer momentos preciosos de solidão e de respeito à impermeável alteridade. O poeta sublinha que o amor entre duas pessoas constitui “a tarefa mais difícil”, mas também mais nobre, desde que se respeite o espaço do outro. Diante desta tarefa, “todas as outras são apenas uma preparação”[7].

 

O amor requer o respeito profundo ao “mundo interior” do outro, a paciência nobre de entender a complexidade e mistério que habitam a alteridade. Em outra obra importante, Elegias de Duíno, Rilke fala do complexo mundo dos amantes, que junto com as crianças e os moribundos, são os que mais se aproximam do Aberto e do espaço puro. Através do gozo, eles conseguem atingir quase o ápice da felicidade, mas como tudo que é humano, eles acabam retornando do gozo ao tempo, por receio a um “estado de graça” inalcançável. Vislumbra-se o “espaço livre”, mas o temor ou o limite acendem as luzes de alerta, e se escapa ao passo maravilhoso do desabrochar das flores. Os amantes chegam a participar, por aproximação, da dinâmica do inefável: eles sentem “a obscura presença e se espantam”[8].

 

Todas essas questões vêm acompanhando minha jornada, seja na forma de meditação pessoal, seja no encontro com os amigos, nas conversas com minha companheira querida, ou nos cursos que venho ministrando sobre Rosa e Clarice Lispector. Num bonito texto que li no dia 13 de agosto, de autoria de Pedro Mairal[9](FSP), ele faz uma comparação do amor com os acordes da música. Diz que às vezes temos a grande sorte de encontrar uma rica “sucessão de acordes”. Não estamos livres das notas dissonantes, dos conflitos e tensões que marcam qualquer relação. Mas se esta vem pontuada pelo cuidado e delicadeza, há maiores chances de provocar alegria e fruição. 

 

Como mostra Mairal, “somos uma sucessão de acordes bem encaixados, que combina harmoniosamente as tensões, as surpresas, a satisfação do já conhecido, a variações. Funcionam bem”. Isso não acontece, assim, de repente, mas leva tempo e requer maturidade. Ninguém está protegido dos “momentos obscuros” ou “acordes menores e tristes”. Eles também fazem parte da sinfonia da vida, mas podem passar e revelar o outro lado da musicalidade, numa linda sequência de acordes novidadeiros. O autor nos adverte para estar atento ao andar na rua e não observar apenas as demolições em curso, mas captar igualmente as construções que vão se operando. É também muito bonito, continua ele, poder verificar o “esforço gradual” que acompanha a dinâmica de escorar aquilo que cresce aos poucos, e que é musical.

 

Toda essa dinâmica reflexiva que me habita no momento tem também a ver com o meu olhar sobre o mundo circundante. Tenho visto e em alguns casos acompanhado muitos casais que estão passando por crises no relacionamento, o que me entristece muito. Tive a sorte e a alegria de ter encontrado uma companheira no meu caminho que foi sempre apoio, presença, delicadeza e incentivo. São já quase 45 anos de união que se recria a cada dia, no respeito e na amizade. Vejo, porém, que relações assim são hoje exceção e não regra. 

 

Acho que com minha experiência e vontade posso dar uma contribuição importante nesse campo para muitas pessoas queridas da minha convivência e que passam por situações dolorosas. Lendo hoje o jornal O Globo, deparei-me com uma bonita entrevista de Maria Fortuna com o ator Caio Blat[10]. O ator e Luisa Arraes fazem um par bem interessante, com uma escolha relacional inovadora. Pude conhecer os dois na peça de Bia Lessa: Grande Sertão: Veredas. Fiquei tão comovido e impressionado com o espetáculo, que assisti três vezes. Os dois agora darão continuidade ao mesmo tema em filme que deverá sair em breve. 

 

Caio Blat estará também atuando na próxima novela das seis, Mar do sertão, cujo tema promete. Em sua entrevista, Caio comenta o novo filme em que ele estreia na direção, O debate, que conta com a presença de dois atores experientes: Debora Bloch e Paulo Betti. Os dois vivem a experiência de um casal que ama, mas que depois de 17 anos de casados resolvem se separar. Foi um processo difícil, como indica o roteiro. Eles resolvem romper a aliança “não sem antes expor as entranhas divergindo sobre monogamia, sexo, desejo, ciúme e liberdade”. A separação ocorre num clima de respeito mútuo, com maturidade e afeto. Bem diferente do que costuma ocorrer nesses casos, quando a separação vem acompanhada de raiva ou mesmo ódio, e as pessoas envolvidas acabam perdendo a sanidade. Caio Blat se inspirou em Domingos de Oliveira, que viveu recentemente as dores de uma separação.

 

Conforme expressou o ator, esse tempo da pandemia foi também um tempo difícil para os casais. Ele diz: “Perdemos a capacidade de ouvir o outro. Famílias brigaram, casais se separaram. O diálogo se rompeu na política e nos relacionamentos”. Atento aos novos tempos e também ao risco do esgarçamento nas relações, Caio Blat buscou junto com Luisa Arraes, sua companheira, um caminho diferente, que me faz lembrar Sartre e Simone de Beauvoir. Cada um tem seu apartamento próprio, no mesmo andar do edifício. Os dois moram “porta com porta” em um prédio da Zona Sul do Rio. Estão divididos apenas por um corredor, e “as portas vivem abertas, mas quando o bicho pega, cada um vai para o seu canto. Para evitar climão, eles mantêm diálogo franco e reveem acordos com frequência”. Busca-se respeitar o momento singular e o espaço de cada um, sem querer uma “fusão” que ofusque as identidades. Como ele assinala: “A gente ajusta de acordo com o momento, encontrando a liberdade e o desejo de cada um”.

 

Cada casal deve encontrar o seu melhor caminho, no respeito da companheira ou companheiro. E o que é muito importante: evitar deixar que o “vapor do mal” tome conta da relação. É sempre bom prevenir as situações mais difíceis com conversas maduras. E seguir sempre o sábio conselho de santo Inácio: nunca decidir abruptamente nos momentos de maior paixão. Os místicos sempre aconselham o caminho da paciência e da temperança. São conselhos sábios, de quem passou muito tempo trabalhando o mundo interior. 

 

O mestre vietnamita Tich Nhat Hanh, em seu livro Paz a cada passo(Rocco, 1993) alerta-nos para o risco das “formações internas” que podem nascer e crescer quando não abrimos espaços para a auto-crítica. Devemos evitar o máximo que “nós” interiores se firmem, provocando tumultos perigosos para o desenvolvimento de qualquer relação ou diálogo. Há que saber, diuturnamente, desatar nós, e isto pode ocorrer com um ritmo diferente na relação: de acolhida, gentileza, generosidade e cortesia. Não é difícil buscar esse equilíbrio interior e na relação. Diz o monge budista que “se não desfizermos esses nós enquanto eles estão se formando, eles ficarão cada vez mais fortes e apertados”[11].

 

 

 

 

 

 



[1]Kathrin H. Rosenfield. Os descaminhos do demo. Tradição e ruptura em Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro / São Paulo: Imago, 1993.

[2]Ibidem, p. 97.

[3]Carlos Rennó (Org.). Gilberto Gil. Todas as letras. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 433.

[4]Ibidem, p. 266 e 268.

[5]Lya Luft. Mar de dentro. 3 ed. São Paulo: ARX, 2002, p. 30.

[6]Rainer Maria Rilke. Cartas a um jovem poeta. 4 ed. São Paulo: Globo, 2013, p. 56.

[7]Ibidem, p. 54-55.

[8]Rainer Maria Rilke. Elegias de Duíno. 6 ed. São Paulo: Globo, 2013, p. 69.

[9]Pedro Mairal. Nosso estranho amor. O Globo, 13/08/2022.

[10]Maria Fortuna. “Perdemos a capacidade de ouvir o outro”. O Globo, 16/08/2022. Segundo Caderno, p. 1 e 3.

[11]Thich Nhat Hanh. Paz a cada passo. Como manter a mente desperta em seu dia-a-dia. 3 ed.  Rio de Janeiro: Rocco, 1996, p. 87-88.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

As experiências-ápice segundo Abraham Maslow

 As experiências-ápice segundo Abraham Maslow

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

Muito interessante o livro de Abraham Maslow, Religiones, valores y experiências cumbre(Barcelona: La Llave, 2013). O autor é um dos nomes importantes da psicologia humanista e da psicologia transpessoal. Nasceu em Nova York em 1908 e faleceu em 1970. Foi professor no Brooklyn College e na Western Behavioral Institute. Desenvolveu ao longo da vida reflexões bem significativas em torno da temática da “pirâmide da necessidade”, ou seja, uma teoria que se dedica ao estudo das motivações humanas e da “fé na tendência inata das pessoas em tirar o maior partido possível de seus próprios talentos e possibilidades”. Algo que tem profundamente a ver com a auto-realização.

 

O livro apresentado no início foi publicado originalmente em inglês em 1964 e traduzido para diversos países. Interessante a presença do teólogo Paul Tillich na base de suas reflexões que envolvem o tema da fé, em particular a questão da experiência de Deus como experiência da profundidade. Para Maslow as questões religiosas relacionam-se com as “preocupações últimas”, intensas e profundas que marcam a psicologia profunda de qualquer pessoa.

 

Maslow sublinha a importância daqueles que vivem a dimensão religiosa em profundidade, que se mostram mais capazes de uma experiência holística e integradora. Mas sublinha que essa experiência não tem necessariamente a que ver com integração nas religiões estabelecidas, mas na captação da profundidade do mundo interior, com o resgate de valores que se mostram essenciais. 

 

Ele faz uma importante distinção entre a mística individual e a perspectiva legalista e organizativa. Fundamental para ele é a definição do que chamou de “experiência ápice” (peack experience). Trata-se de uma experiência de intensidade única e estremecedora, como se fosse uma “pequena morte”.

 

Esta experiência pode ocorrer com qualquer um, e em muitas passagens de nossa vida podemos viver “vislumbres” provisórios disso, enquanto outras pessoas singulares podem permanecer acesas para essa elevada faceta da consciência unitiva. É algo que requer do buscador “tempo, trabalho, disciplina, estudo e compromisso”. Aqueles que viveram similar experiência são capazes de perceber no universo uma bonita dimensão de “totalidade integrada e unificada”; são igualmente pessoas que se sentem mais desapegadas, tendo um potencial singular para perceber a relação íntima que vincula o sujeito com o mundo, para além das dicotomia empobrecedoras. A experiência-ápice, como lembra Maslow, favorece ao que a vivencia um olhar mais elevado sobre a dinâmica da realidade.

 

Em suas reflexões, Maslow mostrou com pertinência que os valores espirituais têm uma valência natural, não sendo, absolutamente, propriedade exclusiva das igrejas organizadas. Tais valores não requerem, necessariamente, conceitos sobrenaturais, podendo ocorrer com base na experiência do cotidiano da vida, onde se irradiam valores de nobreza que possibilitam uma vida reta, de pureza, bondade e justiça. O autor foi também pioneiro e, talvez, precursor de uma mística do cotidiano, que resgata esta dimensão terrenal da espiritualidade. É algo que pode ocorrer com qualquer um, e que está firmado em acontecimentos subjetivos: uma experiência que ocorre também sem referência a “princípios alheios à natureza, ou à natureza humana”.

 

Maslow foi pioneiro também na busca de uma percepção mais ampla de ciência, capaz de envolver em seu bojo questões religiosas básica, ligadas à experiência de profundidade. Assim como faz uma contundente crítica às visões religiosas institucionais que se apegam exclusivamente a fundamentos sobrenaturais, deixando à margem experiências da natureza humana, volta igualmente sua crítica implacável contra a ciência dogmática  e positivista, que exclui de seu campo investigativo as experiências transcendentes. Em sua visão, “um dos aspectos mais irritantes da ciência positivista é seu excesso de confiança, ou melhor, sua falta de humildade”. Os assim chamados “cientistas puros” pecam pela arrogância, sentindo-se demasiadamente seguros, carecendo da humildade necessária para perceber dimensões do ilimitado.

 

Em suas argumentações pertinentes, Maslow dedica-se à reflexão sobre a “experiência religiosa básica”. Faz uma distinção entre o profeta e o tipo puro do legalista eclesiástico. Sublinha que nem todos religiosos deixam-se habitar pelas experiências-ápice, permanecendo satisfeitos e protegidos pelo mundo tranquilo da estabilidade. Preferem estar sempre garantidos pela experiência controlada, que é aquilo que Maslow designou como experiência de “não-ápice”. Não só preferem manter-se assim garantidos, como reagem criticamente aos que buscam ousar em experiências singulares. Maslow entende que “a maior parte da linguagem utilizada pela teologia e pela religião ao longo da história e no mundo inteiro, constitui um esforço mais ou menos vão, de transmitir – mediante palavras, fórmulas comunicáveis, rituais e cerimônias simbólicas – a experiência mística do profeta original”. São “autoridades” que acabem desclassificando como heréticos aqueles que ousam para além dos limites proclamados.

 

Maslow sublinha que as experiências-ápice , com sua dinâmica de iluminação, desempenhou um papel importante na história das religiões. Reconheceu também que tais experiências foram propiciadas por drogas psicodélicas, em especial o LSD e a psilocibina. Foram drogas que favoreceram “alguma possibilidade de controle no reino das experiências-ápice”. O autor chega inclusive a afirmar, com base em Jung, que em casos específicos a inserção em estruturas organizadas acaba por constituir um empecilho para experiências mais puras no campo do profundamente religioso. Pontua que “a experiência transcendente parece atuar com mais frequência aqueles que rechaçaram a religião herdada”.

 

Aquele que conseguiu viver momentos de experiência-ápice é capaz de desocultar a beleza que existe no mundo, mas igualmente, em certa medida, reconhecer a presença do mal no mundo e, de certa forma, reconciliar-se com ele. Isto é mais difícil perceber. Não se trata de uma defesa do mal, mas de um reconhecimento de sua presença no tempo e nas pessoas. O autor indica que aqueles que passam pela experiência-ápice são capazes de reconhecer o lugar que o mal “ocupa na totalidade”, como um traço que pertence ao aqui, “inevitável, necessário e, em consequência, apropriado”.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Uma festa da amizade

 Uma festa da amizade – Juiz de Fora, julho de 2022 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

Estar aqui na Faixa de Gaia, em Juiz de Fora, com esta gente querida provoca em mim uma emoção oceânica. Passamos juntos nesta tremenda pandemia fazendo das coisas mais bonitas que é debater literatura. O caminho escolhido não podia ser melhor: Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Com esses dois mestres da reflexão pudemos mergulhar no vasto oceano do real, debatendo temas que são essenciais e muitas vezes esquecidos: o mergulho interior, a ambiguidade do humano, a maldade que nos abate, os enigmas das relações, o chamado ancestral.

 

As aulas seguiam-se de aprofundamentos no grupo menor, que se reunia on-line depois da reflexão e então começava um momento bonito de trocas, de intimidade, de abertura do coração e de fortalecimento de uma amizade com gente bonita de todo lugar. Muito comovente para mim ter vivido esses momentos tão especiais. Vejo hoje com clareza que pude crescer interiormente nessa troca singela, gratuita e desarmada. 

 

Todos sabemos que vivemos tempos bicudos, de fechamentos identitários e fundamentalismos que graçam por todo canto. Construímos nos debates diques de fraternidade e amor, “gestos barreira”, como diz Latour. Que alegria ver os rostos de cada um, numa simpatia contagiante, numa sede de entendimento que ultrapassou o mero interesse acadêmico. Era um encontro de amigos que se abriam, que ousaram partilhar santuários de reflexões que não ocorrem no cotidiano normal.

 

Não era só sede de conhecimento ou ânsia de penetrar em domínios difíceis, era também vontade de estar junto, de sorrir em comum, de partilhar dores, às vezes profundas, apoiar-se mutuante, tudo suscitado pelas aulas semanais. Criamos um bonito “aparelho de conversa”, onde cada palavra, gesto, silêncio ocupavam o seu lugar de reverência e acolhida. 

 

Sim, acolhida, talvez tenha sido o mais bonito que aconteceu nessa ciranda que nos motivou a viver em profundidade uma amizade singular. 

 

Ao longo desse tempo de vivência comum, mesmo à distância, pude ganhar o impulso para refletir temas de profundidade inaudita; também a coragem para partilhar sentimentos e ideias nas redes comuns, coisa que não é fácil. 

 

Sinto que cresci nestes tempos de partilha e comunhão. Saio fortalecido para adentrar-me em veredas complexas, delicadas e difíceis. No grupo encontrei o importante apoio para aventurar-me em searas complicadas e resistentes, buscando vencer ou, pelo menos, lidar com as barreiras quase intransponíveis dos nefastos identitarismos.

 

Agradeço de coração a todas e todos queridos que estão aqui, ou aqueles que nos acompanharam generosamente nesta viagem de vida, mas não puderam estar conosco nestes dois dias maravilhosos. Sairei, certamente, com o brilho do olhar de cada um de vocês, desta vez podendo penetrar com mais beleza no mundo interior de cada um... e poder abraçar, dar as mãos, tão lembradas nos nossos cursos, e ver com a ocular sedenta, que cada um existe de fato, com a vocação de fazer a vida cada vez mais bela, acreditando que um novo mundo é possível, apesar de.

 

Relendo aqui as contribuições de todos que enviaram seus textos ecoando a riqueza da experiências desses anos, fiquei realmente emocionado. Nos dois dias em que estivemos juntos em Juiz de Fora, pudemos sorver que emoção cada palavra das mensagens redigidas pelos participantes das aulas. 

 

Alguns disseram que com todo o saldo negativo da pandemia, os encontros semanais proporcionavam um saldo de alegria e um caminho profundo para reflexões vitais. Disseram que com Clarice visitaram a Cidade Sitiada, e beberam também com emoção da Água Viva. A cada encontro um “novo acorde” para tecer a canção do amor, da fraternidade, da solidariedade, da hospitalidade e da delicadeza. 

 

As palavra de Clarice e Rosa eram música para o coração; palavras que teciam instantes mágicos de olhares sedentos. Alguém lembrou que a inquietude de Clarice contaminou a peregrinação, ecoando viva nos corações. A partir dos encontros, tudo virou motivo de atenção: os mínimos detalhes, nos sons da natureza, dos animais e das plantas. 

 

Durante os cursos, estávamos distantes, mas no encontro de Juiz de Fora, os corações ganharam uma proximidade inusitada, calorosa, vibrante... “Amizades e carinhos, distantes em quilometragem da Terra, mas perto, tão perto que operaram mudanças” nas agendas de cada um. Foi mesmo um “bálsamo” na vida de todos... tudo sendo pacientemente preparado nas aulas semanais e nos debates que se seguiam no grupo menor: foi “uma acolhedora companhia no isolamento social”; “momentos de leveza e doçura no meio do turbilhão da vida”. 

 

Muitos relataram suas transformações pessoais aos longos desse tempo, desde 2020, quando os cursos começaram. Alguém disse que Rosa ajudou a entender o seu passado e ancestralidade. Ajudou a situar os sobrenomes que se firmaram nos campos gerais, a reconhecer com alegria a “linguagem mineira”. Disseram ainda que não foi o grupo que escolheu o livro, mas o livro que escolheu o grupo, tocando a alma de cada um. Sobre o Grande Sertão: Veredas, disseram que é um livro precioso, em que se retorna sempre nos momentos de precisão, nos instantes importantes da vida. Um livro que projeta luz e esperança. Sem que se perceba bem, ele irradia “veredas verdejantes” que desanuviam “as tensões dos dilemas da vida”. 

 

Alguém chegou a falar em “tsunami” na vida. Na companhia de Riobaldo e do compadre Quelemém, muitos foram se abrindo para uma espiritualidade plural, onde o coração é capaz de acolher muitos amores: “muita religião, seu moço!”. Fora mesmo encontros maravilhosos, que agora continuam com os contos de Rosa. Debatendo Rosa e Clarice, cada um pode partilhar a vida pulsando, a música tocando, o sol se pondo... E ao final, pudemos todos verificar com alegria, que a vida segue, apesar de, segue nos rastros da luz... O desafio estar em viver cada dia sem maiores preocupações, enfrentando com dignidade e altivez os problemas, e sabendo levantar com garbo a cada queda no caminho: “Cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta... O que a vida quer da gente é coragem”.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Viver na Presença, entre as coisas

Viver na Presença, entre as coisas

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

Numa das leituras da liturgia do dia 31 de julho de 2022  há uma passagem da carta de Paulo aos Colossenses que me fez refletir e discernir de modo crítico.

Dizia: "Aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres" (Cl 3,2)

No contexto da leitura podemos entender que o apóstolo fala das coisas negativas que estão ao nosso redor no tempo: "a imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça"

Vendo sob esse ângulo, podemos até entender. O perigo, porém, é cair no dualismo problemático que nos faz rechaçar o chamado da terra. Não acredito que devamos fazer morrer o que em nós pertence à terra. O que precisamos, sim, é saber reconhecer na Terra o bonito espaço da experiência de Deus, do Mistério ou do Nada, como nos dizem os budistas e místicos.

Teilhard de Chardin, em seu Meio Divino, fala-nos da importância da educação do olhar: saber ver[1]. O místico nos convoca a perceber com serenidade que o grande Mistério "nos espera a cada instante da ação, na obra do momento"[2]. 

Na sua Missa sobre o Mundo, Teilhard agrade a Deus por conduzir seu olhar "à imensa simplicidade das coisas"[3], das coisas que estão aí, que tem seu grande valor em si, mas que podem também expressar as grandezas de Deus. De forma tão linda, ele diz que sobe para o Espírito que lhe sorri "vestido com o esplendor concreto do Universo"[4]. O místico jesuíta tinha uma simpatia profunda, irresistível, por tudo aquilo que se movia na matéria obscura[5].

Daí a beleza de, na contramão do problemático dualismo grego, recuperar a ideia de Diafania de Deus no universo, que possibilita perceber "na profundidade de todo fato e de todo elemento o calor luminoso de uma mesma Vida"[6]. 

A pureza, nos diz Teilhard, "não está na separação, mas numa penetração mais profunda no Universo". É preciso, diz ele, "ver, tocar, viver na presença, beber a existência quente no próprio seio da Realidade"[7].

Ainda tocado pela inconformidade da expressão paulina, recorri também a Rubem Alves, no lindo texto "Sobre Deuses e caquis"[8]. Para ele, a teologia "é uma brincadeira, parecida com o jogo encantado das contas de vidro"[9], como trabalhado por Hermann Hesse. 

Beleza é poder sentir com o "tremor na carne" quando nela acontece a magia da presença do poema. Não há como falar de Deus, nos lembra Rubem Alves, "mas podemos falar sobre as coisas humanas". A teologia não são senão "os poemas que tecemos como redes sobre a saudade de algo cujo nome esquecemos"[10].

Nós teólogos devemos ser contagiados pela humildade: não ser como o galo que imagina que com seu canto é que brota a verdade. Deus, em verdade, está muito além dos seus discursos movediços. Deus não é uma realidade "que muda de ideia ou muda de ser ao sabor das coisas que nós pensamos e dizemos"[11]. Deus é sempre maior, alertam-nos os místicos sufis.

Ainda com base no texto de Rubem Alves, sabemos que o que Deus mais admira é essa Terra. Citando Adélia Prado, Alves sublinha: "Depois da morte... eu vou querer o prato e a fome, um dia sem tomar banho, a gravata pro domingo de manhã... Quando eu ressuscitar, o que quero é a vida repetida sem o perigo da morte, os riscos todos, a garantia; de noite estaremos juntos, a camisa no portal. Descansaremos porque a sirene apita e temos que trabalhar, comer, passar dificuldades, com o temor de Deus, para ganhar o céu"[12]. 

 



[1]Pierre Teilhard de Chardin. O meio divino. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 33.

[2]Ibidem, p. 32.

[3]Pierre Teilhard de Chardin. Hino do universo.  São Paulo: Paulus, p. 27.

[4]  Ibidem, p. 29.

[5]Ibidem, p. 21.

[6]Ibidem, p. 29.

[7]Ibidem, p. 68.

[8]Rubem Alves. Sobre deuses e caquis. In: Edin Sued Abumnsur et alii. Sobre deuses e caquis.Teologia, política e poesia em Rubem Alves. Comunicações do ISER, n. 32, 1988.

[9]Rubem Alves. Sobre deuses e caquis, p. 10.

[10]Ibidem, p. 11.

[11]Ibidem, p. 13.

[12]Ibidem, p. 18.