domingo, 16 de dezembro de 2018

Leonardo Boff: amigo do bem

Leonardo Boff: amigo do bem

Faustino Teixeira
PPCIR/UFJF

É tão bonito poder celebrar a vida com alegria e esperança. Esse é o caso do amigo querido, Leonardo Boff, que neste dia 14 de dezembro de 2018 completa 80 anos. Longe daquele espírito sombrio do livro do Eclesiastes, no início do capítulo 12, Leonardo continua lembrando com vigor do Criador que sempre o inspirou e o animou nas veredas da vida.  No seu caso, a luz do sol não se obscureceu, mas ganhou um significado novo, de uma proximidade que encanta a todos que o rodeiam. 

Leonardo fez ao longo da vida quatro grandes balanço: nos 50, 60, 70 e agora aos 80. Minha intenção aqui, neste breve texto, é captar o que ocorreu nesta revisão de vida que Leonardo foi fazendo em cada um desses passos. Os três primeiros balanços, resultaram em textos ou artigos que foram publicados[1]. O último, recém ocorrido, resultou num livro de beleza novidadeira[2]

No balanço dos 50, Leonardo inicia falando do Mistério que faz viver. Aliás, esse é um tema que vai acompanhar esse místico franciscano por toda a sua vida. Dizia na ocasião que “o primeiro sentimento é de perplexidade. Eu ainda existo e continuo no ministério! Quantos em nossa idade já não são e quantos seguirão outros caminhos! Por que estou ainda aí? Isso não se deixa explicar por nada neste mundo” (B50:11). Leonardo não imaginava que fosse ultrapassar o tempo de vida de seu pai, que morreu aos 54 anos, justamente no dia em que ele estava de partida para Munique, de navio, onde iria fazer seu doutorado em teologia[3]. E Leonardo tinha nascido fragilizado, “marcado para morrer”, como expressou sua irmã, Íris Boff, em recente depoimento[4]. Aquele “pacotinho de carne” sobreviveu, graças também aos conselhos de uma famosa benzedeira da redondeza e de suas ervas curativas, bem como ao forno de barro em que foi colocado algumas vezes para fazer vibrar a força da vida. Foi, assim, uma “bruxaria” que o salvou[5]. E assim vingou esse menino-teólogo. Ainda como diz sua irmã, foi essa sua iniciação que o preparou para “toda a sorte de intempéries e perigos” para adentrar-se “na densa floresta da consciência humana e planetária”[6].

Voltando ao balanço dos 50, Leonardo escreveu na época que a percepção do Mistério foi crescendo em sua vida: “Mistério é muito mais  que um enigma. Como os antigos sabiam melhor que nós,  mistério consiste num desígnio cujo último sentido nos escapa, mas que passa por nós, nos usa como um subsistema de algo maior para prosseguir sua trajetória que termina no coração do próprio Deus” (B50:11). Como lembra Leonardo, é esse Mistério “que faz viver”. Recordou que teve que amadurecer no sofrimento, a acreditar “que não são ideias que mudam o mundo,  mas atitudes” e que a mais “penosa” viagem é aquela que fazemos “para dentro de nós mesmos, rumo ao nosso próprio coração” (B50:11). Relata que sua perplexidade aumenta quando relembra de sua trajetória, desde a infância: “Aquele menino de pés descalços, maldizendo os dias gelados de junho-julho, montado num velho cavalo para ir ao moinho, levando trigo e trazendo farinha para o pão de mamãe, feito no forno de pedras rústicas” (B50:12). Esse menino, tido como um dos mais inteligentes dos irmãos, foi galgando etapas bonitas na sua formação, que culminou num doutorado na Alemanha. Ele diz: 

“Há alguma razão transcendental que explique por que esse menino magérrimo, que fora dado como perdido e morto aos seis meses, tenha que ir a Roma, enfrentar o ex-Santo Ofício, sentir-se em profunda comunhão de destino com Galileu, Giordano Bruno e outros infinitamente mais sábios e defender a teologia da libertação também aplicável à Igreja, para que tenha mais práticas que prédigas sobre a eminente centralidade dos pobres no projeto de Jesus” (B50:12).

            E assim, seguiu a vida de Leonardo, e como diz Carlos Drummond, foi ser “gauche na vida”. E ele agradece a todos que favoreceram essa trajetória benfazeja, mas sobretudo a Deus, o Mistério Maior, sem nome, cujos “desígnios são insondáveis, além de surpreendentes”. E ao fazer o balanço de sua vida, agradece, e não tem dificuldade de fazê-lo, pois tem a viva consciência de que o que conta mesmo na vida é viver “a partir dos outros”. Recorda que durante sua condenação, em razão da causa dos oprimidos, recebeu muito apoio e solidariedade: “milhares de cartas e gestos de solidariedade do mundo inteiro” (B50:13). E segue tranquilo em sua consciência de ser, como falou um dia Pablo Neruda, “o portador da esperança dos oprimidos”.

            Em sua memória, Boff recorda aqueles que tiveram importância em sua formação, como no caso do teólogo Karl Rahner, que apontou-lhe “um cristianismo para além de todas as fronteiras confessionais, aderente ao mistério do mundo e da pessoa”. Fizeram-se depois amigos e ele, inclusive, tomou sua defesa no momento necessário (B50:13). Sobre ele, recorda.

“Certa vez, já velhinho com 79 anos, sabendo que estava em Munique, tomou o trem em Innsbruck, onde vivia, e veio ver-me para discutir com toda a seriedade e espírito crítico o que significa uma teologia da libertação, o que vem a ser um cristianismo popular e uma Igreja na base. Deu-me todo apoio e seguia minhas produções como se fora um filho e afilhado muito querido e também preocupante” (B50:13).

            Lembra Boff de outros mestres que encontrou pelo caminho, como Otto Kuss, na área de exegese do Novo Testamento, nos tempos de Munique (1965-1970) e dos amigos da revista internacional de teologia, Concilium, onde atuou por muitos anos. Fala também de seu irmão, Clodovis Boff, também teólogo, que “foi mestre na articulação entre discurso da fé e discurso do mundo, entre compreensão séria e compromisso político com os oprimidos” (B50:14). Agradece ainda as comunidade populares, que assessorou ao longo de décadas de trabalho teológico-pastoral. Reconhece o grande aprendizado que ali recebeu: “Estou seguro de que são eles que levam, de verdade, o sonho de Jesus com radicalidade e coerência pelos séculos afora” (B50:14). E por causa deles, reitera Boff, encontra as razões essenciais para se manter firme no caminho de fidelidade ao projeto de Jesus.

            Na época em que fez o balanço dos 50, final da década de 1980, estava ainda vinculado como frade aos franciscanos, dedicado ao ensino da teologia e a produção literária. Como ele gosta sempre de lembrar, ensinou todos os tratados de teologia sistemática, e aproveitou para escrever sobre eles, bem no estilo alemão. Tinha assumido a cátedra de teologia sistemática no Instituto Franciscano desde 1970: “Obriguei-me a reciclagens, acompanhando a produção mundial em cada área do pensamento sistemático” (B50:15), e sempre numa perspectiva interdisciplinar, tendo em conta as demandas do tempo. Indica que passou “por várias crises criativas”, não vendo nisto um problema, pois “toda crise significa uma chance de acrisolamento e de crescimento, apesar de seu caráter doloroso” (B50:18). Ao lado do ensino, o trabalho de assessoria pastoral. Sublinha que “foi o campo mais difícil e de maior aprendizado”, sobretudo depois de seu regresso ao Brasil, em fevereiro de 1970. Percorreu os rincões mais distantes do Brasil e da América Latina, bem como outros países da Europa, Canadá e Estados Unidos. Tinha uma paixão particular pela Amazônia (B50:20).  Viajou também para os países socialistas, como Cuba, União Soviética e China. Lembrava a respeito: “Considero muito mais difícil dar uma assessoria a qualquer diocese com trabalho pastoral popular do que falar em qualquer prestigiosa cátedra de universidades europeias ou norte-americanas” (B50:15). Outro motivo de alegria foi sua convivência com “bispos verdadeiramente pastores” da igreja latino-americana, que resgataram “a velha tradição que via nos bispos os ´deffensores et advocati populi`” (B50:16), em viva consonância com o projeto de Jesus. Menciona ainda o seu trabalho por anos no editorial religioso da Editora Vozes e na redação da Revista Eclesiástica Brasileira (REB). Anos que foram profícuos, com a abertura de espaço para grandes nomes da sociologia, história, antropologia e linguística. Um lindo serviço prestado pela Vozes “à cultura brasileira e à liberdade de pensamento”. Foi quando então aconteceu a repressão romana e todas as suas consequências para os desdobramentos de sua atuação e reflexão. Voltando à sua produção teológica, ele lembra que seus diversos livros foram produzidos não para convencer os outros, mas para “tirar a limpo” suas “indagações de cristão pensante” (B50:16). Uma teologia que sempre brotou do coração, tocada pela emoção, “uma paixão acesa” que desperta a paixão dos outros. É o que sempre ouço falar de Leonardo, um teólogo doce e apaixonado, com voz sedutora e um brilho único no olhar. Um livro em particular provocou a admiração de muitos, sempre citado:Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos (1975), que já esta na 29ª edição. Em depoimento sobre este livro, diz a teóloga e amiga, Teresa Cavalcanti: “Ali, uma simples caneca de uso caseiro ou um toco de cigarro tornaram-se símbolos da comunidade familiar e da figura do pai. O afeto se acha involucrado nos objetos do cotidiano e remete à relação mais íntima com as pessoas”[7]. Ao falar sobre este livro, Leonardo diz que ali, sim, conseguiu entender de fato a “significação dos sacramentos” (B50:17).

            E assim continuou sua jornada, sempre mirando ao alto, com coragem e altivez, mantendo sempre acesa a humildade para não se esquecer de suas raízes simples e evangélicas. Diz ele: “Me transformei num teólogo discutido e contestado, num teólogo suspeito e perseguido, num teólogo amaldiçoado e condenado, num teólogo absolvido e mesmo depois, sob permanente controle” (B50:17). E tudo isto não lhe roubou a ternura, a delicadeza, o cuidado e a hospitalidade. Não guardou nenhuma mágoa ou hostilidade, o que é muito bom. Essa ternura e vigor o acompanham até hoje. E foi também ganhando liberdade, talvez uma das palavras mais nobres que expressam hoje o seu modo de ser: alguém livre e despojado. Dizia: “Um teólogo condenado goza de inestimável liberdade. Ele não tem, com efeito, nada a perder” (B50:17). Na sua bagagem, a frase genial de Antonio Machado: “Caminante, no hay caminho, se hace caminho al andar”. A liberdade para Leonardo é tudo o que de mais importante pode acolher no mundo interior, pois “ser livre é conquistar seu próprio coração” (B50:17). 

Em seu balanço aos 50, busca voltar os olhos ao passado e reconhece que “a pessoa não muda por que quer. Muda como forma de adequação a novas situações e como condição de sobrevivência espiritual” (B50:18). É como Boff vê a sua caminhada, um alargar permanente dos horizontes da liberdade. Reconhece que na sua caminhada, grandes mestres do saber o acompanharam, aqueles seminais como Platão, Aristóteles, Agostinho e Boécio, e também os grandes mestres medievais e modernos. Reconhece que o contato com esses mestres fizeram sempre “um bem imenso”, servindo também de “terapia contra todas as mediocridades” que abundam nos campos do saber (B50:18). Fala também da importância de Heidegger em sua formação, que o ajudou a refazer todo o seu caminho da teologia, com base na fenomenologia existencial, depois enriquecida com o marxismo. Sua tese doutoral, sobre a igreja como sacramento, foi publicada em alemão em 1972, e parte dela saiu também em português, na revista Numen do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião (PPCIR) da UFJF, onde Boff atuou por um tempo como professor visitante, quando eu era o coordenador do Programa[8].

            No período em que fez o balanço dos anos 50, Boff estava então dedicado a “desenhar as dimensões libertadoras intrínsecas à fé cristã, à experiência de Deus, à doutrina sobre Cristo, sobre o Espírito, sobre a Igreja, sobre a imagem bíblica e cristã do ser humano, a escatologia” (B50:20). Daí nasceram muitos artigos e livros, publicados na ocasião. Fala ainda da importância que teve, na ocasião, o seu encontro com o marxismo: “O encontro com Marx é fundamental para quem fizer uma opção pelos pobres e contra sua pobreza” (B50:21). Fala também de seu trabalho na recuperação da herança franciscana, que o acompanha com emoção até hoje. O franciscanismo, diz, “é naturalmente libertador porque coloca os pobres como a centralidade do carisma e como reveladores de Cristo pobre e servo sofredor” (B50:22). Reconhece que a partir da década de 1980 apercebeu-se que “o verdadeiro problema teológico, na verdade, não é a Igreja, mas o povo e a humanidade”. Em linha semelhante à do teólogo dominicano Edward Schillebeeckx, percebe que a humanidade é a verdadeira história de Deus. Passa então a ver com clareza que “o presbiterato, a vida religiosa, a teologia só possuem sentido radical se nos aproximarem mais diretamente dos demais humanos, companheiros e companheiras de caminhada” (B50:24).  

Ao final de seu balanço dos 50, assinala a presença de um tema que começava a tocar o seu coração, sobretudo em razão da grande crise ecológica mundial, ou seja, a questão do mistério da criação. A percepção de que “o verdadeiro mistério, este realmente radical, é o mistério do mundo”. Estava aberta a chave que iria fecundar o terreno vindouro de sua nova reflexão teológica: seu cuidado com a questão da preservação da criação.  Não podia, porém, deixar de apontar outro tema que foi ganhando corpo em sua reflexão, já naquele tempo: o encontro com o feminino. Reconhece que se trata de uma dimensão fundamental, pois é através dela que podemos redesenhar “um novo rosto de Deus” (B50:25). Ele mesmo faz na ocasião uma retrospectiva de sua trajetórias nos 25 últimos anos: 

“Primeiro vem o entusiasmo pela ordem franciscana, depois pelo sacerdócio, em seguida pela teologia; da teologia passei à Igreja, da Igreja ao povo; do povo aos pobres, dos pobres à humanidade; da humanidade ao mistério da criação. Na medida em que o leque ia se abrindo e o horizonte se dilatando, ia também crescendo em mim as dimensões de universalidade e de autêntica liberdade” (B50:25).

            Avaliando sua caminhada, Boff se dá conta de dois eixos essenciais que devem alimentar toda caminhada existencial: o amor a Deus e aos outros. Ele diz: “O amor que vai a Deus constitui o mesmo movimento que vai ao outro. Com fina razão disse Jesus que o amor a Deus e o amor ao próximo coincidem” (B50:26). O que faz lembrar um beato e mártir, terciário franciscano, Raimundo Lúlio. Em seu Livro do amigo e do Amado, escrito no século XIII, bem ao estilo dos místicos sufis, dizia em duas passagens: 

“À direita do amor reside o Amado, e à esquerda o amigo; por isso, sem passar pelo amor, não se pode alcançar o Amado. / O Amado está de permeio entre o amigo e o amor; por isto o amigo não pode atingir o amor sem atravessar, com pensamentos e desejos, o Amado”[9].

                  Ao final de sua retrospectiva dos 50, Boff chama a atenção para um dado essencial, que foi descobrindo em seu itinerário: “A vida humana é parecida com uma árvore. Quanto mais sobe a copa mais fundas devem ser as raízes. Quanto mais avançamos na vida, tanto mais retrocedemos às nossas matrizes iniciais” (B50:28).  Na base, a presença desse Mistério maior que nos ilumina e aponta os caminhos, do Deus que nos dá “o dom da fé”. Estava aberta a vereda da mística, que vai se firmar cada vez com mais vigor e ternura na vida desse pensador.

            Então vem o balanço dos 60, dez anos depois, quando lecionava no PPCIR da UFJF, como visitante. Começa sua revisão de vida, agradecendo a Deus pela existência (B60:141), e dizendo – como Merton – que não sabe o que Deus propõe no seu caminho e quais as razões peculiares de seu chamado: “Nunca me propus um projeto específico. Vivo ao sabor do que me ocorre. Atendo a demandas que me são propostas” (B60:141). Uma beleza, essa gratuidade que acompanha o ritmo de seus momentos, de sua trajetória e empenho. Esse é o Leonardo que conhecemos e que amamos. Fala de seu “ciganismo teológico”, das inúmeras viagens, realizadas por todo canto, atendendo a pedidos de amigos, de igrejas e pastores. Um ciganismo que se revela igualmente “prático”, que o faz mergulhar de vida aberta nas mais distintas veredas, nos incontáveis espaços, seja no mundo dos pobres ou nas academias e espaços culturais. 

            Reconhece agora que o tempo escapa, que é tempus fugit, ou como diz Rilke, que ele “flutua e desaparece”. Recorda que já em Munique, em seus estudos de pós-graduação, estava mergulhado neste milieu divin, no Mistério de Deus. Um traço que o acompanha desde longe: “Mergulhar no mistério de Deus”. E acrescenta:

“Experimentei uma felicidade incomparável, nunca superada por nada no mundo. O efeito mais imediato é a absoluta liberdade interior e a ausência de todo medo. O amor-encontro-com-Deus te enche de tal superabundância de sentido e de certeza que a vida se torna um brinquedo diante dos olhos do Deus-Mãe. Tudo possui asas e por isso é leve. O universo é jovial. Não andamos. Voamos (B60:144).

 O seu exercício teológico não foi realizado por obrigação, mas por prazer, no ritmo da alegria. E procurou sempre uma teologia diversa, capaz de evocar a beleza, com fluidez linguística e inspiração poética, pontuada por um método que pudesse garantir sobretudo a liberdade, esse bem maior que pautou sua vida e caminhada (B60: 145). Uma teologia de cara distinta, aberta à criação permanente, mesmo nos momentos mais duros no embate com o Vaticano. Daí o seu carinho particular com os místicos, sobretudo daqueles que trazem no peito o dom da poesia (B60:146). Os que a ele estão mais próximos, sabem dessa paixão antiga pelos místicos das diversas tradições religiosas, a começar pela mística franciscana, peculiar na sua capacidade de amor universal, que “abraça o mundo, acarinha as pessoas e se enternece com todas as criaturas” (B60:146).

            Assinala seu carinho especial em tratar os temas da Igreja, sempre com o toque crítico, pois nunca esteve em plena sintonia com ela. A iracúndia sagrada foi sua parceira nessas contendas. Retoma o episódio do conflito com o Vaticano, onde assentou-se na cadeira de Galileu[10], do convite ao silêncio obsequioso feito pelo Ministro Geral da Ordem Franciscana durante a Eco-92. Foi quando então resolveu “mudar de trincheira”, mas não de batalha. Uma decisão de dedicar-se de corpo e alma ao “tempo da profanidade e da fragmentação” (B60:152). Assume com alegria a sua caminhada com a companheira Márcia, que “comungava e comunga do mesmo amor” (B60:152). O grande teólogo belga, Adolphe Gesché, lembra num de seus livros, que o cristianismo precisa dessa pars paganorum, dessa interface com a paganidade, de certa “ausência cristã” ou “pitada de ateísmo” para poder penetrar com mais densidade no seu Mistério[11].

            O tema da ecologia vai ganhando cada vez mais importância na sua teologia, atenta ao ritmo frenético da globalização. É quando ocorre, de forma imperativa, sua preocupação maior com o futuro da Terra, o seu destino que se assomava sombrio. Vislumbrava na passagem do milênio um horizonte nebuloso, de afirmação do homo demens(B60: 155). Daí seu empenho decisivo pela causa  da Terra, de construção de um novo paradigma em favor da salvaguarda do criado. 

            A questão da espiritualidade ganha também força em sua reflexão do período. Dizia: “Comparo-a a uma águia escondida dentro de nós que deve ganhar asas e voar. E ao voar nos carregar para o infinito de nosso desejo, para o coração de Deus que habita nas profundidades de nosso coração e do coração do universo” (B60:156). Via essa a missão do teólogo, com suas palavras, presença e escritos, a de “trazer à memória de todos a bem-aventurada presença de Deus em tudo o que existe e vive” (B60:156). 

            Na ocasião, aos sessenta, comparando-se com a expectativa vital média dos brasileiros, sentia-se já um velho, um sobrevivente. Percebia o tempo escorrer, buscando então concentrar-se nas tarefas mais fundamentais. Já antevia a presença da morte, como possibilidade mais iminente: “O único problema importante de meu futuro é a morte. Com temor e tremor vou ao encontro dela como se vai ao encontro da bem amada” (B60:156). Sentindo-se irmanado a todas as coisas, reconhecia que estava “nascendo a bilhões de anos” e com sua morte ocorreria simplesmente um renascer “para nunca mais morrer”, para se enredar no ritmo do cosmos, no “ritmo da dança divina”. 

            No balanço dos 70, já fala com mais serenidade da velhice que chega, entendida como uma oportunidade oferecida por Deus para “concluir o que um dia começou: a plasmação de minha própria vida” (B70:439). Recorre ao Salmo 90 para dizer que a vida é como um “sonho matinal”, pontuada pela transitoriedade, assim como a erva. Retoma os marcos de sua caminhada, já lembrada antes aqui neste texto, desde a inserção franciscana até o envolvimento de coração com a irmã e mãe Terra e Gaia. Sinaliza sua vida com uma expressão bonita: “Habitar o mundo franciscanamente” (B60: 440). Sobre o compromisso com a Terra dizia: 

“Desde os anos 80 do século passado que se tornou para mim clara esta quaestio magna. Se a teologia da libertação quer ser integral, como sempre quis, deve incluir a libertação da natureza e da Terra, chamada por São Francisco de irmã e mãe e pelos modernos, de Gaia. Deve ouvir e articular os dois gritos, o dos pobres e o da Terra. Deve ser uma ecoteologia da libertação integral” (B70:443).

                  Fala em seguida da questão de Deus, também imperativa na sua reflexão, com uma contribuição ousada e original, sobretudo no campo da trindade. Todas as questões silenciam-se diante deste Mistério Maior. Diante Dele revelam-se “relativas” e “fogo fátuo”. Sublinha sua paixão pelo mistério da Trindade, que sempre o desafiou intelectualmente e misticamente. E complementa: “Defrontei-me com o melhor de minha capacidade de pensamento. Creio que contribuí com algo que não estava claramente presente na tradição” (B70:444). E de uma forma ousada: “Sustentei a tese de que o Pai se personalizou em São José, o Filho se encarnou em Jesus, e o Espírito Santo se espiritualizou em Maria”. Ou seja, uma verdadeira família divina. E em seu jardim, em Araras, plantou três coníferas para expressar plasticamente essa Trindade humana e divina. Mas apesar de toda sua reflexão sistemática a respeito, não busca esgotar o Mistério, que permanecia guarnecido: “Deus-Trindade permanece para mim mistério insondável. Termino sempre no nobre silêncio. Mas é um mistério de ternura, de embraçamento e de inenarrável comunhão” (B70:444). 

            A longa caminhada, adverte Boff, não foi apenas de luzes, mas também de sombras. E diz: “Participo, penosamente, da condition humaineonde vige a porção sim-bólica junto com a porção dia-bólica. Sou teólogo, mas também pecador” (B70:444). Recorda o momento doloroso de seu enfrentamento e “submissão” às altas instâncias doutrinárias da Igreja e sua punição dolorosa. Reconhece, porém, que tudo ocorreu em razão de seu compromisso com “a sagrada causa dos oprimidos, os amados do Pai” (B70:444). Com tudo isso, jamais olhou para trás. Seguindo os passos de Pseudo-Dionísio Areopagita, buscou sempre olhar para o alto[12], sustentado por razões nobres, ainda que em “outra trincheira”. 

            Conclui seu balanço dos 70 dizendo que ficou uma semente. Apesar das perdas “restou a fé, a esperança, o amor, a vida, alguma experiência e, principalmente, restou a semente” (B70:445). Nas grande labutas conheceu o 

“destino da árvore. Ela perdeu a copa e, com isso, o diálogo com o mundo se tornou mais difícil. Perdi o tronco e, assim tive que me fortalecer muito para me manter sustentável. Perdi as raízes e empreendi grande empenho para continuamente me renovar. Perdi a seiva e tive que aprender a conviver com a solidão e a detração. Mas sobrou a semente. Sinto-me hoje apenas semente. E como semente me sinto inteiro. Pois na semente se esconde o frescor da copa, o vigor do tronco, o segredo das raízes e a vitalidade da seiva” (B70:445).

                  E veio agora, finalmente, o balanço dos 80, celebrado com alegria numa bonita festa em Petrópolis, no dia 07 de dezembro de 2018, quando então foram lançados dois livros, um de testemunho dos amigos[13]e outro com uma espécie de síntese das reflexões de Boff, tecidas a partir de provocações de especialistas nas várias áreas onde ele atuou[14]
            
            O livro de Boff é um livro solto, escrito em 15 dias, sem nota alguma, onde passa em revisão os vários temas que ocuparam a sua reflexão ao longo da vida. Começa falando dos sonhos, passa em seguida para os grandes temas da antropologia teológica, da cristologia[15], da trindade, da Igreja, da ecologia, da ética para a Casa Comum, concluindo com a espiritualidade. O prefácio vem escrito pelo grande pensador marxista, Michael Löwy, que celebra esse precioso livro como “uma síntese da obra e do pensamento de Leonardo Boff” (B80:13).

            O que me impressionou muito nesse livro de Leonardo Boff foi a sua sensibilidade ecológica, no sentido mais nobre que podemos conferir à expressão, e também uma preocupação que é comum ao papa Francisco, de pontuar diversas vezes o traço da interligação que permeia todos os seres em sua presença no Tempo[16]. Leonardo Boff, em sintonia com Francisco, vai sublinhar esse traço por diversas vezes: “Todas as coisas estão interligadas entre si” (B80:145)[17]. Leonardo insiste em lembrar que a teologia é provocada a abrir suas malhas, de forma a viver em profundidade a dimensão da multidisciplinaridade. Diz que “o teólogo que só entende de teologia acaba não entendendo sequer a teologia” (B80:32). Há que assumir radicalmente a dimensão globalizante da teologia, assevera, de forma a saber pensar todas as coisas à luz do Mistério sempre maior. 

            A teologia é habitada por um ser humano que é abertura ilimitada, devendo, assim, seguir os seus rastros. E nesse século XXI, há o desafio de falar de Deus de outra forma, com os recursos imprescindíveis da nova cosmologia (B80:41). Uma teologia que seja tocada pelo fogo do Espírito, com sua lógica de movimento, processo e novidade, que sempre surpreende (B80:67). O teólogo, como todo ser humano, está envolvido numa teia de vida, num campo de relacionamentos, em “redes de energia vibracional”. E toda essa vida está em movimento e ressonância. Não há um mundo pronto, já finalizado, mas em processo contínuo de vitalização. Como diz Tim Ingold, “onde quer que haja vida, há movimento”[18]. O ser humano não está confinado em espaços fechados, mas como num rizoma, ele habita num campo de linhas que não se encerram, mas que são linhas de “fuga ou desterritorialização”[19]. O teólogo é alguém que deve estar sempre aceso, em acordo com o tempo[20], ou seja “vivo para o mundo”[21].

            Leonardo Boff, em seu novo balanço, fala de duas cosmologias em tensão: uma cosmologia de conquista e outra de transformação (B80:101-102). A primeira, típica da modernidade pós-cartesiana, é plasmada pelo antropocentrismo e pela hybris, a desmesura ou pretensão arrogante, que busca tudo dominar e controlar. É a cosmologia típica do Antropoceno[22], com todas as terríveis consequências que o acompanham. E Boff assinala algumas dessas consequências, como a destruição das florestas, o desaparecimentos das espécies, o aquecimento global, a perda da biodiversidade e erosão do solo (B80:101-102 e 117). Com base no pensamento de James Lovelock, aquele que formulou a teoria de Gaia, Boff sublinha que os riscos de desaparecimento da humanidade são iminentes (B80:156). Pode inclusive ocorrer a situação em que “a Terra não nos queira mais” (B80:144)[23]. Já dizia Isabelle Stengers, que Gaia não é apenas uma mãe bondosa, mas tem também uma face de “intrusão”, que não perdoa os ataques que vem sofrendo nesse sombrio tempo do Antropoceno. Na visão de Stengers, “Gaia é a transcendência que responde, de modo brutalmente implacável, à transcendência igualmente indiferente, porque brutalmente irresponsável”[24].

            A segunda cosmologia, da transformação e libertação, é a defendida por Leonardo Boff. A seu ver, ela ganhou expressão viva na Carta da Terra (2000)[25]e na encíclica Laudato si, do papa Francisco[26]. Com essa segunda cosmologia, firma-se a importância do cuidado, em lugar da dominação. Boff assinala que hoje, mais do que nunca se impõe uma ética do cuidado (B80:117), que busca recuperar a re-ligação perdida no Antropoceno. Estudos recentes da antropologia nos indicam um caminho novo, que quebra a ruptura entre cultura e natureza, vislumbrando outros modos de relacionamento com a natureza, entendida em sua dimensão “encantada” e viva. Trata-se de uma ecoantropologia relacional. Uma perspectiva singular, que rompe com a ideia de exclusividade do humano e o situa numa teia de relações, como parte do vivente[27].

Faz-se urgente, diz Boff, um “processo de cura”, que não envolve apenas as religiões, mas todos os humanos, em comunhão com as espécies companheiras[28]. Diz ele: “A cura reside na re-ligação com todas as coisas. Não necessariamente precisa ser mais religioso, mas importa ser mais humilde, sentindo-se parte da natureza, mais responsável por sua sustentabilidade e mais cuidadoso com tudo o que faz” (B80:109).

            Há que romper, diz Boff, com a “vaidade (mataiótes)” típica de um ser humano ainda decaído e em processo de amadurecimento. O desígnio de Deus, descrito no livro do Gênesis, quando diz que tudo o que tinha sido feito “era muito bom” (Gn 2,31) é, na verdade, um “desígnio terminal”, como lembrou Boff, com base na reflexão de Ernst Bloch: “O gênesis está no fim, e não no começo” (B80:108). Para poder garantir essa bondade, é necessário muito cuidado, muita cura. O ser humano precisa “voltar à Terra da qual se exilou e sentir-se seu guardião e cuidador (B80:109)[29]. Aí, sim, poderemos ter um “mundo humano que ama a vida, dessacraliza a violência, tem cuidado e piedade para com todos os seres, realiza a justiça verdadeira, social e ecológica” (B80:160). Com esse “retorno”, o ser humano poderá recuperar o seu pathos, seu sentimento de afeto axial, de respeito e reverência pelo criado, numa comunhão profunda com todas as espécies companheiras.

            No belo prefácio do livro A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro assinala que estamos hoje recuperando cosmologias antigas, de povos que são especialistas em “fim de mundo”[30]. E nos damos conta que suas “inquietudes” têm uma base importante de sustentação. Leonardo Boff vai em direção semelhante, ao indicar a importância da escuta do clamor dos indígenas de nossa América, em favor de uma nova reverência à criação (B80:137). Diz Boff com razão, que para a nova música precisamos de ouvidos novos (B80:122). Daí a essencialidade uma nova ética da compaixão, de um ritmo novo de cuidado e reverência para com todas as espécies companheiras, com sensibilidade e espírito novos. Entender ainda que todos os seres são portadores de direitos característicos, e não apenas nós humanos como mostrou com pertinência Michel Serres (B80:151-152). 

            Tudo isso envolve a necessidade de uma nova espiritualidade, uma espiritualidade cordial e companheira. Uma espiritualidade habitada pela dinâmica da “florestania”. O papa Francisco falava também em uma “espiritualidade ecológica”. Dizia: “A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado com a ecologia e com o bem comum, porque autenticamente vivida, reflete-se em um equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida” (LS 216 e 225). E esta espiritualidade, pontua Boff, não é um privilégio dos religiosos, mas de todas “as pessoas consideradas comuns, que vivem a retidão da vida, o sentido da solidariedade e cultivam o espaço sagrado do Espírito, seja em suas religiões e Igrejas, seja no modo como pensam, agem e interpretam a vida” (B80:164). 

A espiritualidade, como mostrou Dalai Lama – retomado por Boff – é “aquilo que produz no ser humano uma mudança interior” (B80:165); é algo que toca a dimensão profunda do humano e tem a ver com as “qualidades do espírito humano” (B80:166-167)[31]. Para alcançar esse horizonte de um mundo interior renovado, teremos, em casos concretos, que desmontar o edifício religioso que nos cerca e rodeia (B80:185), bem como ampliar nossa capacidade de audição, para captar as energias do Espírito que se irradiam por todo canto. A espiritualidade, indica Boff, “vive da gratuidade e da disponibilidade, vive da capacidade de entendimento e de compaixão, vive da honradez face à realidade e da escuta da mensagem que vem permanentemente dessa realidade” (B80:187). 

Em sintonia com o pensamento de Raimon Panikkar, Leonardo Boff revela que o desenvolvimento da espiritualidade está intimamente relacionado com nossa capacidade contemplativa, de escuta do Real, dos pequenos sinais e “valores que impregnam o mundo à nossa volta” (B80:188)[32]. Na base da vida espiritual, uma “poderosa e amorosa energia”, que desafia a todos “abrir-se generosamente” ao seu convite. Ao final do livro, Boff sinaliza: “Se a vida pôde surgir num contexto de cuidado, é pelo cuidado permanente, ao longo de todo o tempo em que existir sobre a face da Terra, que a vida se mantém, se reproduz e coevolui” (B80:192). Trata-se de um imperativo essencial, tão bem captado por Milton Nascimento, na canção Coração de estudante: “Há que se cuidar do broto para que a vida nos dê flor e fruto”.

Na bela reflexão de Jon Sobrino no livro de homenagem a Leonardo Boff, ele lembra uma passagem de um livro do amigo franciscano em torno da espiritualidade libertadora, onde Boff fala sobre Jesus. A passagem é linda: “Para mim, o mais importante que se disse de Jesus no Novo Testamento não é tanto que Ele é Deus, Filho de Deus, Messias, mas que passou pelo mundo fazendo o bem, curando a uns e consolando a outros. Como gostaria que se dissesse isso de todos e também de mim”[33]. Curioso é que em outro testemunho no mesmo livro, Waldemar Boff imagina uma situação em que vem indagado para opinar sobre seu irmão franciscano. E a resposta, sempre certeira: “ele foi um homem bom e basta!”[34]. Foi nisto que também pensei, quando li em oração a epístola a Tito  que exorta os que crêem em Cristo a serem “solícitos na prática do bem”. Digo que o que me veio instantaneamente à mente foi a pessoa do amigo Leonardo, e assim nasceu o título desta minha reflexão que é também testemunho.

            


[1]Leonardo Boff. Um balanço de corpo e alma. In: ____. et al. O que ficou... balanço aos 50. Petrópolis: Vozes, 1989; Id. Balanço aos sessenta anos: entre a cátedra de Pedro e a cadeira de Galileu Galilei. Numen, v. 2, n. 2, dezembro de 1999, p. 141-156; Id. A vida aos setenta anos: um sonho matinal. REB, v. 69, n. 274, abril de 2009, p. 439-445 (para facilitar o trabalho, vou inserir três códigos para os artigos citados: para o primeiro B50, o segundo B60 e o terceiro B70).
[2]Leonardo Boff. Reflexões de um velho teólogo e pensador. Petrópolis: Vozes, 2018 (o código será B80).
[3]Ivonne Helena Boff. Testemunho. In: Maria Helena Aerrochelas & Marcelo Barros (Orgs). Ternura cósmica. Leonardo Boff, 80 anos. Petrópolis: Vozes, 2018, p.27 (irmã de Leonardo Boff). Jon Sobrino recorda o dia em que Leonardo, já em Munique, recebe a carta dos irmãos, com o último toco de cigarro fumado por seu pai antes de morrer (11/08/1965), que se transformou para Boff em sacramento: Jon Sobrino. Carta a Leonardo Boff. In: Ternura cósmica, p. 182-183.
[4]Iris Boff. 80 anos de Leonardo. In: Ternura cósmica, p. 24.
[5]Ibidem, p. 24.
[6]Ibidem, p. 25.
[7]Tereza M.P. Cavalcanti. Leonardo Boff. In: Ternura cósmica, p. 415.
[8]Leonardo Boff. A Igreja como sacramento e as religiões da terra. Numen, v. 5, n. 1, jan/jun 2002, p. 13-37. Veio acompanhada de um excelente Post Scriptum, onde revê e atualiza algumas reflexões sobre a sua nova compreensão das religiões (ibidem, p. 37-40). A tradução do texto da tese foi feita pelo professor Eduardo Gross, do PPCIR.
[9]Raimundo Lúlio. Livro do amigo e do Amado.  São Paulo: Loyola, 1989, p. 108 (pensamentos 258 e 259)
[10]Ver Leonardo Boff. Igreja: carisma e poder. Rio de Janeiro/São Paulo: Redord, 2005, p. 447-466 (com o relato do processo doutrinário no Vaticano).
[11]Adolphe Gesché. O sentido. São Paulo: Paulinas, 135-136 (Deus para pensar 7).
[12]Veja: Pseudo-Dionísio Areopagita. Teologia mística. Rio de Janeiro: Fissus, 2005, p. 26 (tradução de Marco Lucchesi).
[13]Maria Helena Arrochelas & Marcelo Barros. Leonardo Boff, 80 anos. Petrópolis: Vozes, 2018.
[14]Leonardo Boff. Reflexões de um velho teólogo e pensador. Petrópolis: Vozes, 2018 (o livro vai ser citado no texto com o código: B80). Tive a alegria de ter sido um dos que lançaram perguntas a Boff no campo da espiritualidade.
[15]Cito aqui um dos livros guias na vida de Leonardo Boff: Jesus Cristo libertador. Petrópolis: Vozes, 1972 (guardo com carinho sua primeira edição).
[16]Na sua carta encíclica Laudato si, sobre o cuidado da casa comum, o papa Francisco vai tocar nessa questão por diversas vezes: Laudato si. São Paulo: Paulinas, 2015, nºs 16, 42, 91, 92,117.
[17]E também: B80: 100, 105.
[18]Tim Ingold. Estar vivo. Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 122.
[19]Giles Deleuze & Félix Guattari. Mil platôs, v. 1. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2011, p. 43.
[20]Para usar uma expressão bonita de Caetano Veloso em sua Oração ao tempo.
[21]Tim Ingold. Estar vivo, p. 13.
[22]Bruno Latour. Face à Gaia. Huit conférences sur le nouveau régime climatique. Paris: La Découverte, 2015, p. 147-147-158 (L´Anthropocène et la destruction de l´image du globe).
[23]Boff chega a aventar a hipótese de que chegará o tempo em que deixaremos, nós humanos, “lugar para outras emergências da Terra”: B80:159.
[24]Déborah Danowski & Eduardo Viveiros de Castro. Há mundo por vir? Ensaio sobre os meios e os fins. Florianópolis/São Paulo: Cultura e Barbárie/Instituto Sócio Ambiental, 2014, p. 143; Isabelle Stengers. No tempo das catástrofes. São Paulo: Cosac Nayf, 2015, p. 39-40. E ainda: Bruno Latour. Face à Gaia. Huit conférences sur le nouveau régime climatique. Paris: La Découverte, 2015, p. 369 e 186.
[25]Leonardo Boff. Do iceberg à arca de Noé. O nascimento de uma ética planetária. Rio de Janeiro: Garamond, 2002, p. 147-159. O papa Francisco também menciona em sua encíclica a Carta da Terra: LS 207.
[26]Papa Francisco. Carta encíclica Laudato si. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015 (a sigla: LS).
[27]Philippe Descola. Oltre natura e cultura. Firenze: Seid, 2014; Id. Outras natureza, outras culturas. São Paulo: Editora 34, 2016, p. 13-27; Eduardo Kohn. Comment pensent les forêts.2 ed.Le Kremlin-Bicêtre: Les Belles-Lettres, 2017, p. 27-28 e 40-41.
[28]Uma singular expressão tomada de Donna Haraway: Manifeste des espèces de compagnie.Chiens, humains et autres partenaires. Villefranche-De-Rouergue: Éditions de l´éclat, 2010; Id. When species meet. Minneapolis: Minnesota University Press, 2008. Sobre o tema cf. também a entrevista concedida por Donna Haraway a Sandra Azerêdo: Companhias multiespécies nas naturezaculturas. In: Maria Ester Maciel (Org.). Pensar/escrever o animal. Ensaios de zoopoética e biopolítica. Florianópolis: Editora ufsc, 2011, p. 389-391; Vinciane Despret & Jocelyne Porcher. Être bete. Arles: Actes Sud, 2007.
[29]Papa Francisco fala em “administrador responsável”: LS 116. 
[30]Davi Kopenawa & Bruce Albert. A queda do céu. Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 35. Uma reflexão com base em Bruno Latour: Enquête sur les modes d´existence. Une anthopologie des modernes. Paris: La Découverte, 2012, p. 452.
[31]Dalai Lama. Uma ética para o novo milênio. Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 32-33.
[32]Ver também: Raimon Panikkar. Mistica pienezza di vita. Mistica e spiritualità, tomo 1. Milano: Jaca Book, 2008, p. 11-12; Id. L´esperienza della vita. La mistica. Milano: Jaca Book, 2005, p. 15 e 58-59.
[33]Jon Sobrino. Carta a Leonardo Boff. In: Ternura cósmica, p. 183-184.
[34]Waldemar Boff. Querido irmão. In: Ternura cósmica, p. 21.

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