quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A religião e a busca de significado

Religião e busca de significado

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

Introdução

Um dos fenômenos que marcam o século XXI é o reencantamento do mundo, ou seja, a presença significativa da religião em toda parte. As teorias que consagravam a dinâmica irreversível da secularização[1] caem por terra, diante de uma nova ressurgência da religião. Vale sublinhar o impressionante crescimento do islamismo em âmbito mundial, bem como a afirmação crescente do pentecostalismo. O sociólogo Peter Berger, relaciona esse movimento de “dessecularização do mundo” a certos aspectos que animam a dinâmica da modernidade:

“A modernidade, por razões muito compreensíveis, solapa todas as velhas certezas; a incerteza é uma condição que muitas pessoas têm grande dificuldade de assumir; assim, qualquer movimento (não apenas religioso) que promete assegurar ou renovar a certeza tem um apelo seguro”[2].

O clima de incerteza e impermanência que envolve o circuito da modernidade tem gerado uma desorientação nas pessoas, que passam a se sentir desalojadas e sem vínculos com as normas sociais de seu grupo. Entre os jovens, esse é um fenômeno recorrente. A falta de referenciais e de um “domicílio” seguro provocam sofrimento e ansiedade, impedindo a afirmação da dinâmica vital. Em magnífico poema, a carioca Ana Cristina Cesar descreve essa realidade: “É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço”[3]. Ao analisar a presença da juventude no V Fórum Social Mundial de Porto alegre (2005), a psicanalista Maria Rita Kehl foi certeira: “uma disposição militante não nasce em terra devastada. É preciso pertencer a algum lugar, contar com alguma referência social estável, pisar em algum chão firme para tomar um impulso de voo”[4].

Essa situação de hesitação e opacidade, que ganha proporções significativas, tem provocado muita angústia e desorientação. Os analistas sublinham o espantoso aumento dos diagnósticos de depressão nos países do Ocidente, desde a década de 1970. De acordo com as previsões da Organização Mundial da Saúde (OMS), a segunda causa de morbidade do mundo industrializado até 2020 será a depressão[5]. É um diagnóstico sombrio sobre o “mal estar” que acompanha a dinâmica de nosso tempo, expressão também de um “empobrecimento da vida interior”. Como indica Maria Rita Kehl,

“a depressão é a expressão de mal-estar que faz água e ameaça afundar a nau dos bem-adaptados ao século da velocidade, da euforia prêt-à-porter, da saúde, do exibicionismo e, como já se tornou chavão, do consumo generalizado. A depressão é sintoma social porque desfaz, lenta e silenciosamente, a teia dos sentidos e de crenças que sustenta e ordena a vida social desta primeira década do século XXI”[6].

A religião, enquanto “teia de sentidos” firma-se com vigor nesse tempo de incertezas e inseguranças. Não há como viver num mundo social sem ordenação e significado[7]. A anomia é uma das mais sérias ameaças aos indivíduos, pois com ela os padrões normativos de conduta e crença começam a vacilar. A ordem significativa do mundo, que confere à experiência uma orientação essencial, fica enfraquecida e a dinâmica da conversação sofre desintegração. O religioso aparece, assim, como um “nomos protetor”, um “escudo contra o terror” da carência de significado. A exigência humana de sentido é um dado antropológico essencial, e está presente no impulso religioso que vem acompanhando a humanidade desde os seus primórdios. A religião, como bem mostrou Berger, é “a ousada tentativa de conceber o universo inteiro como humanamente significativo”[8].

  1. Religião e afirmação do significado

Em sua clássica obra de sociologia da religião, Peter Berger consagra um lugar importante à religião, entendida como um dos sistemas de símbolos fundamentais dos seres humanos. Trata-se de um “edifício de representação simbólica” elaborado pelos seres humanos, e que para eles parece elevar-se sobre a realidade da vida cotidiana, garantindo-lhe uma nomização peculiar, ou seja, um enquadramento a padrões socialmente legítimos de conduta, de significado e valor para sua vida. A religião exerce para os que a ela aderem uma ordenação da realidade, servindo de potente referencial contra o terror da anomia. Junto a esta função nomizadora, Berger acrescenta outras importantes funções exercidas pela religião na sociedade, entre as quais a de integração das experiências marginais ou limites. A religião exerce um singular papel de integração das experiências anômicas ou fragmentadoras, facultando um significado para as crises biográficas. Há nela uma capacidade única de “situar os fenômenos humanos em um quadro cósmico de referência”[9]. Diante do quadro de precariedade e limitação que envolve a situação humana, a religião funciona como um “dossel sagrado”[10] protetor do nomos, possibilitando interpretações que satisfazem não apenas o campo teorético, mas sobretudo aquele da “sustentação interior para enfrentar a crise do sofrimento e da morte”[11]. A teodicéia[12] religiosa tem um papel fundamental na interpretação do sofrimento e da morte. De forma mais substantiva que as teodicéias seculares, ela ajuda a “localizar” o sofrimento e a morte, tornando mais suportável o paradoxo da dor humana. O que vem proporcionado pela teodicéia religiosa não é, necessariamente, a felicidade ou a satisfação, mas, antes de tudo, o significado[13].

Em semelhante linha de reflexão, Clifford Geertz busca mostrar como a religião, entendida como um “sistema de símbolos”, disponibiliza para os seres humanos “poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações” para o exercício de sua existência[14]. É o que Durkheim identificava como a “influência dinamogênica da religião”[15], que fornece o toque de vitalidade aos seres humanos, fazendo-os agir e ajudando-os a viver. A religião faculta ao ser humano o sentimento de poder mais, possibilitando-lhe forças substantivas para suportar e vencer as dificuldades da existência[16].

A religião entra em cena para “garantir a interpretabilidade das situações que compõem e interpelam a experiência cotidiana”[17]. Ela não se propõe a eliminar a perplexidade, o mal ou o sofrimento, mas a situá-los dentro de um quadro referencial de sentido. A questão não é tanto “como evitar o sofrimento, mas como sofrer, como fazer da dor física, da perda pessoal, da derrota frente ao mundo ou da impotente contemplação da agonia alheia algo tolerável, suportável, sofrível”[18]. Ao abordar o tema do sofrimento, em linha de continuidade com a reflexão de Geertz, a antropóloga Carmen Cinira Macedo, sublinha que

“a religião dá condições para suportar o sofrimento nas situações especiais de doença e luto. Isso não significa que a fé religiosa possa impedir o indivíduo de sofrer. O que ela faz é um pouco o inverso: torna possível enfrentar a dor, tolerá-la, enfim, torna possível sofrer (...). A religião fornece, pois, o fio com que os homens tecem significados para situações difíceis, que sem ele, se tornariam aterradoras e insuportáveis”[19].

A questão vem bem expressa numa passagem singular da obra de Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas, na voz do personagem Riobaldo :

“Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue (...). Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca”[20].

Os estudiosos da religião popular no Brasil sublinham o lugar essencial da religião na vida do povo. Em sua tese doutoral, Carlos Rodrigues Brandão assinala que “talvez a melhor maneira de se compreender a cultura popular seja estudar a religião”[21]. No campo popular é a religião que nomeia todas as coisas, envolvendo “o repertório mais abrangente das questões” e suscitando “as respostas mais essenciais”. Ela constitui “o explicador mais usual e, muitas vezes, o mais acreditado”[22]. Retomando o livro de Guimarães Rosa, é curioso constatar como o sagrado acompanha os jagunços por toda a jornada nos sertões. Não há como escapar de sua mirada. Ao relatar a posição de um doutor do Vale do Araçuaí, que desacreditava na presença de Deus, Riobaldo reage de forma contundente:

“Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços”[23].

O mundo religioso, ou o “outro mundo”, compõe um dos três campos que pontuam o universo relacional brasileiro, junto com a casa e a rua. É o que sublinha Roberto da Matta em sua reflexão antropológica[24]. A casa, a rua e o outro mundo revelam uma visão múltipla da realidade, ou seja, a “esferas de ação e significado social de onde se arma e vislumbra toda uma cosmologia”[25], toda uma forma de entender e dar explicação à vida. No mundo da casa predominam as relações de parentesco e amizade; no mundo da rua, as leis do mercado. Há também o espaço do outro mundo, que é demarcado por igrejas, ermidas, oratórios, terreiros, sinagogas, mesquitas, cemitérios etc. É um espaço pontuado pela dinâmica da eternidade e da relatividade, preenchido por mortos, espíritos, espectros, almas, santos, orixás, deuses, anjos e demônios. Trata-se de um mundo de proteção, “um local de síntese, um plano onde tudo pode se encontrar e fazer sentido (...). No caso brasileiro, é um mundo de esperanças e de potenciais que a história e o rumo dos acontecimentos não fizeram com que se realizasse”[26]. No contato com esse outro mundo, firma-se a possibilidade de compensações não realizadas no âmbito das casas e ruas, e também a possibilidade de resgatar um “sentido preciso a tudo, ordenando a vida e as relações entre as coisas da vida”[27]. No intercâmbio com o outro mundo, que é o sobrenatural, tudo é possível. A comunicação, muitas vezes ofuscada ou interditada no cotidiano, torna-se possível e palpável. A linguagem religiosa, tecida por preces, rezas, súplicas e promessas, “permite a um povo destituído de tudo, que não consegue comunicar-se com seus representantes legais, falar, ser ouvido e receber os deuses em seu próprio corpo”[28].

  1. Um novo interesse pela religião no campo acadêmico

Em artigo sobre a religião e os antropólogos, que reproduz uma conferência dada por Evans-Pritchard (1902-1973) em 1959, este autor assinala que os principais sociólogos e antropólogos contemporâneos eram agnósticos e positivistas, e quando abordavam a religião,

“tratavam-na como uma superstição para a qual era necessária – e podia ser oferecida – alguma explicação científica. Quase todos os principais antropólogos da minha geração – creio – sustentariam que a fé religiosa é uma ilusão, um curioso fenômeno que logo será extinto e que poderá ser explicado com expressões tais como ´compensação`e ´projeção`, ou, como estabelecem algumas interpretações sociológicas, algo que diz respeito à manutenção da solidariedade social”[29].

A abordagem da religião por parte de cientistas sociais acabou favorecendo um certo “desencantamento do mundo”. Isso sofre modificação em torno da década de 1970, quando surgem perspectivas distintas na abordagem antropológica sobre a religião. Pode-se mencionar a contribuição de Victor Turner na afirmação dessa nova visada. Em trabalho produzido em 1969, sobre o processo ritual, marca um distanciamento com respeito à abordagem racionalista e hostil à religião, sublinhando “a extrema importância das crenças e práticas religiosas para a manutenção e a transformação radical das estruturas humanas, tanto sociais como psíquicas”[30]. Para Carlos Steil, a reflexão de Victor Turner abre um limiar positivo na abordagem da religião no âmbito da antropologia:

“Assim, se por um lado os milagres, dogmas, cosmologias, rituais, mitos, tradições, deuses, demônios, espíritos etc. que haviam sido ´jogados ao mar`, para tornar a religião assimilável, são agora tomados como elementos-chave para a interpretação das culturas, por outro, as conversões de alguns cientistas sociais apontam para um movimento mais radical que busca incorporar em sua visão de mundo a crenças em fenômenos irredutíveis às explicações racionais das ciências”[31].

De uma “profissão de fé” racionalista, marcada por consistência epistemológica problemática, parte-se para uma perspectiva de abordagem mais abrangente, capaz de acolher com sensibilidade a complexidade do fenômeno religioso. Já Émile Durkheim havia provocado os livre pensadores a uma aproximação diferenciada da religião:

“O que eu peço ao livre-pensador é que se coloque face à religião no estado de espírito do crente. Só nesta condição pode esperar compreendê-la. Que a sinta tal como o crente, pois ela não é verdadeiramente senão o que é para o crente. Assim, quem quer que seja que não traga ao estudo da religião uma espécie de sentimento religioso não pode falar dela. Seria como um cego a falar de cores”[32].

No âmbito de suas reflexões sobre o trabalho de campo, Evans-Pritchard observava que a postura do antropólogo diante de noções inexistentes em sua cultura, como as noções de bruxaria – presente entre os Azande -, não podia ser a de um mero racionalista. Para que se desse a devida aproximação ao horizonte de idéias da cultura analisada, ele deveria aceitar as idéias sobre bruxaria. E relata que as aceitava e, de certa forma, nelas acreditava. E argumenta a respeito:

“Não podemos ter uma conversa produtiva ou sequer inteligível com as pessoas sobre algo que têm por auto-evidente, se damos a impressão de considerar tal crença como ilusão ou delírio. Se fizéssemos isso, logo cessaria qualquer entendimento mutuo. Assim, por mais reservas que tivesse, precisava agir como se confiasse nos oráculos Azande e me curvar ao dogma da bruxaria”[33].

Em trabalhos recentes realizados por antropólogos brasileiros, como Otávio Velho e Rita Segato, acentua-se a importância de uma abordagem honesta do fenômeno religioso, capaz de captar a singularidade e especificidade do “religioso” presente no fenômeno. Trata-se de uma condição imprescindível para o conhecimento e a apreciação verdadeiramente objetiva do mesmo. Em severa critica ao ônus da herança objetivadora presente na antropologia, Otávio Velho defende uma perspectiva que se define pelo “esforço de empatia” e de aperfeiçoamento do “ouvido musical” para a religião. Adverte que o campo do estudo da religião vem demarcado por uma “absoluta impossibilidade” de manutenção de uma “postura de mera observação”. O que para determinado olhar pode indicar uma limitação típica de nativos, revela, na realidade, a ampliação do quadro de compreensão do fenômeno analisado[34]. Não sem razão, Otávio Velho vem postulando ultimamamente uma “antropologia apofática”[35], que silencia um pouco mais a teorização e o conhecimento prévio, em favor da captação do que há de imprevisível e surpreendente no mundo do outro. Ele faz uma crítica ao processo crescente de escolarização em programas de pós-graduação em antropologia, onde o foco deixou de ser o trabalho de campo. Com base nos trabalhos de Tim Imgold, chama a atenção ao sempre fundamental aprendizado de “ver as coisas”, de ouví-las e sentí-las de forma sempre novidadeira. Indica que “o reconhecimento do outro não pode ser apenas intelectualista e que se assim o for, corremos o risco de a nossa atividade ser atingida no que ela tem de mais precioso”[36].

Em favor de uma compreensão mais integral do fenômeno religioso posicionam-se também autores das áreas da fenomenologia da religião e da filosofia da religião, para os quais urge recuperar e valorizar outras dimensões da razão que não conseguem ser apreendidas ou reconhecidas pelos aportes de uma racionalidade “científica” restrita[37]. O filósofo Luis Felipe Pondé, com base numa reflexão epistemológica, levanta importantes argumentos contra o posicionamento do “ateísmo metodológico”[38], que para ele revela-se problemático em termos de “consistência”. Em razão de uma postura marcada por uma espécie de “contágio”, definido como “horror do invisível”, tal procedimento metodológico acaba justificando não uma perspectiva de neutralidade objetiva, mas de “militância anti-religiosa”. O autor sugere como hipótese que

“o ´ateísmo metodológico` tem pavor de adentrar uma região da experiência interna que simplesmente desconhece, ainda que se diga especialista nela. Não seria a não experiência do ´tato religioso` um caso particular e culturalmente recente de uma ´miséria`na cognição?”[39]

O que se percebe, com base nas distintas reflexões tecidas, é a impossibilidade de simplesmente descartar a priori o “tato religioso” para uma compreensão mais ampla do fenômeno religioso. É um “tato” que envolve uma específica experiência sensorial, destacada por fenomenólogos como Rudolph Otto e Mircea Eliade, como essencial para a investigação e os estudos da religião. Não há como sacrificar “uma parte da verdade dos seres humanos”, retratada nos relatos etnográfico, para se alcançar a cognição da “especificidade do religioso vivido”. Obstáculos imprevistos aparecem no trabalho de campo, como relata com afinco a antropóloga Rita Segato, que obrigam o investigador a repensar a abordagem das questões relativas à religião e às crenças. Ela relata a ponderação de dois informantes, em situações concretas do trabalho realizado. O primeiro disse: “Você está em busca de razões humanas, enquanto nós acreditamos em razões divinas”. O segundo, indagou: “Não podemos nos entender. Você está à procura do racional, e para nós se trata de algo emocional: o nosso coração foi tocado, comovido etc.etc.”[40] A incapacidade ou resistência para entender aspectos da experiência religiosa, ou a dinâmica que envolve o seu centro de gravidade, que diz respeito a uma experiência interior, acaba revelando uma carência epistemológica que é altamente prejudicial quando não letal para o investigador desse fenômeno tão complexo e diversificado[41].

  1. Religião e construção do tecido humano nos setores populares

Com o olhar voltado agora para o campo religioso brasileiro, pode-se observar como as experiências em curso têm suscitado uma importante função de tessitura social. Os exemplos das comunidades eclesiais de base (CEBs)[42], das religiões afro-brasileiras e da ampla fermentação pentecostal apontam para uma dinâmica de reconstrução de um novo significado vital e a intensificação da qualidade do “ser sujeito” ou do “ser comunidade”. O antropólogo Ronaldo de Almeida atribui o sucesso e crescimento de certas experiências pentecostais não simplesmente a um produto da anomia social, como davam a entender certos argumentos funcionalistas das décadas de 1960 e 1970, mas a outras causas como a

“geração de laços de confiança e fidelidade pelos quais circulam benefícios materiais e afetivos, por meio de ajuda mútua, informações (ou recomendações) de emprego ou acesso a políticas públicas, além da geração da auto-estima e trocas matrimoniais que tendem a sobrepor relações religiosas a redes de parentesco”[43].

As pesquisas mostram hoje com clareza que são os evangélicos os que vivem com mais radicalidade a opção pelos mais empobrecidos. São eles

“os que mais chegam nas margens da sociedade. Chegam a lugares de onde nenhuma outra instituição civil ou religiosa ousa se aproximar. Estudos demonstram também que são apenas eles que – ao fazer nascer novas e independentes denominações – provocam dinâmicas agregadoras locais sem contar com nenhum recurso material e simbólico externo”[44].

Em pesquisa realizada na favela de Acari, no Rio de Janeiro, durante os anos de 1995-1996, o historiador Marcos Alvito chegou a interessantes conclusões sobre o mundo pentecostal no âmbito da favela. Mostrou como os cultos pentecostais têm um singular papel de reconstrução do significado “de tantas vidas ameaçadas pelo caos, paralisadas pela perplexidade, mergulhadas na dor e acossadas pela iniqüidade, pelo Mal”[45]. Exemplos de vitalidade e coragem de missionários pentecostais são relatados no livro, como no caso de uma narradora da Missão Apostólica Milagres da Fé, uma dissidência da Casa da Bênção, criada em 1992:

“Mas acontece que eu não consigo sentir medo. Eu não tenho medo de vir pra cá todos os dias. Eu moro na Vila Kennedy, às vezes saio do ponto 11 horas da noite. Mas com aquela alegria na minha alma. Já pensando em estar aqui amanhã de novo. Venho com todo amor mesmo. Sabendo que eu tenho um compromisso com Deus e com essas almas que vêm procurar uma palavra amiga”[46].

Na experiência dos fiéis pentecostais, Deus representa, sobretudo, poder, ou seja, uma peculiar força dinamizadora e vitalizante, que firma o sujeito num essencial equilíbrio vital, ajudando-o a enfrentar os diversos obstáculos de sua caminhada[47]. É paradoxal a imagem do “exército da anjos” utilizada por uma missionária pentecostal num culto ecumênico realizado na favela de Acari, num momento de grande tensão:

“(...) esta tarde nós estamos aqui para pedir que cada um de vocês ligasse seu pensamento em Deus, mas ligasse mesmo. Nesta tarde o Senhor Deus não quer saber do seu credo religioso. Nesta tarde o espírito de Deus quer colocar um exército de anjos, um anjo ao redor dos quatro cantos de Acari. Se você não se apegar com Deus, que é um Deus vivo, um Deus poderoso, com quem você vai se apegar?”[48].

Ao analisar o fenômeno da Igreja Universal do Reino de Deus no Brasil, o teólogo Richard Schaull buscou identificar alguns aspectos que escapam das tradicionais análises realizadas sobre o tema. De modo particular, o toque da experiência espiritual que anima os pobres pentecostais em sua jornada de fé. Junto com o sociólogo Waldo César lança-se na empreitada de abordar não só “as transformações pessoais que se operam dentro desse fenômeno complexo”, mas também “o espaço espiritual e social que se abre para aqueles que se entregam – corpo e alma – ao desafio de uma fé que simbolicamente – em muitos casos de maneira efetiva - remove montanhas de problemas do dia-a-dia de marginalizados da sociedade”[49]. Trata-se de um grande desafio, para Schaull, entender o que ocorre com numerosos pobres no Brasil, que em situação de extrema precariedade “passam a conhecer uma rica experiência, que não podemos imaginar, de cura e da presença salvadora de Deus”. Eles apropriam-se das histórias do evangelho como parte de sua experiência particular e dessa dinâmica surge algo que é revelador: “Começa a reconstrução de vidas e famílias arruinadas e de relacionamentos humanos mais amplos que podem, eventualmente, fornecer a visão e a energia necessárias para o desenvolvimento, a partir de baixo, de novas estruturas econômicas, sociais e políticas”[50]. Não há como desconsiderar essa dimensão da fé na conformação do universo motivacional dos pobres.

É curioso verificar como a dinâmica pentecostal “transfigura e inverte a experiência da vida cotidiana”[51]. Os “últimos do mundo” passam a considerar-se os “primeiros do Senhor”, os “escolhidos de Deus”. Isto também ocorre em outras experiências religiosas, nas quais o fiel toma a viva consciência de que “pode mais”. No culto vive-se uma experiência que é distinta da que se experimenta na dura vida cotidiana. Como sinaliza Durkheim, a impressão ali suscitada é de alegria, paz interior, serenidade e entusiasmo de viver: sentimentos que acionam energias inusitadas para a ação histórica. Mesmo conscientes das enormes dificuldades de sua vida social, vivem uma experiência de energia renovadora: “anunciam um Deus cheio de graça, que deseja que eles tenham, aqui e agora, uma vida plena, bem como a presença do Espírito Santo como poder, para dar vida àqueles a quem ela havia sido negada”[52]. Assim também nos cultos afro-brasileiros, onde os participantes cedem seu corpo para a dança dos deuses:

“Os gestos, porém, adquirem maior beleza, os passos de dança alcançam estranha poesia. Não são mais costureirinhas, cozinheiras, lavadeiras que rodopiam ao som dos tambores nas noites baianas; eis Omolu recoberto de palha, Xangô vestido de vermelho e branco, Iemanjá penteando seus cabelos de algas. Os rostos metamorfosearam-se em máscaras, perderam as rugas do trabalho cotidiano, desaparecidos os estigmas desta vida de todos os dias, feita de preocupações e de miséria; Ogum guerreiro brilha no fogo da cólera, Oxum é toda feita de volúpia carnal. Por um momento, confundiram-se África e Brasil; aboliu-se o oceano, apagou-se o tempo da escravidão”[53].

Os estudiosos da religião são desafiados a ampliar seu olhar para poder captar a complexidade que envolve essas experiências religiosas, cheias de vitalidade, que acontecem no âmbito de várias tradições, como a católica, a evangélica e a afro-brasileira. Há também que reconhecer ainda a presença de outras malhas que se inserem nesse fenômeno de retorno ao sagrado, marcado por extraordinária plasticidade: as “inúmeras novas alternativas de conversão e ´descoberta`, de adesão religiosa e de afiliação confessional. Isto acontece dentro e fora dos circuitos mais marcados pela religião”[54]. Trata-se do desafio de levar a sério o dinamismo da experiência religiosa com suas surpreendentes facetas. Não se quer, com isso, ocultar a ambigüidade que permeia toda religião histórica e concreta. Nelas também estão em jogo artimanhas de poder que são problemáticas. Quando, porém, o olhar se volta para a experiência miúda do fiel, a autenticidade de sua dinâmica da fé, a análise não pode abafar ou desconsiderar uma riqueza que é impressionante. Há um “fervor instituinte” que escapa a qualquer possibilidade de domesticação ou enquadramento institucional. O que se quer preservar, a todo custo, são os laços de vinculação com o sagrado, que conferem o sentido essencial a sujeitos que vivem numa sociedade de “tessitura dissociativa”, desagregadora. Na comunidade de fé emerge o espaço essencial de reconstituição do tecido humano e social. Em tempos implacáveis de competição desenfreada, de busca frenética de produtividade a todo custo e de desrespeito aos despossuídos, a experiência da comunidade confere aos pobres uma dignidade que é singular. Nela encontram tudo aquilo que sentem falta e que precisam para facultar novamente o brilho do olhar. É a condição que encontram para viver com segurança e confiança. O desafio que se abre é o de manter sempre aberta e arejada a experiência comunitária, pois a manutenção das janelas fechadas, em tempos de fundamentalismo, é algo potencialmente lesivo, opressivo ou letal.

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VELHO, Otávio. Trajetórias e diversidade: um caso brasileiro. Mimeo, 2008, pp. 1-12.

[1] Do ponto de vista sociológico, a secularização vem entendida como um “processo pelo qual setores da sociedade e da cultura são subtraídos à dominação das instituições e símbolos religiosos”: Peter Berger. O dossel sagrado. Elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulinas, 1985, p. 119.

[2] Peter Berger. A dessecularização do mundo: uma visão global. Religião e Sociedade, v. 21, n. 1, 2001, p. 14.

[3] Ana Cristina César. A teus pés. 5 ed. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 57 (Recuperação da adolescência).

[4] Maria Rita Kehl. Não se fazem jovens como antigamente?

http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3169 (acesso em 29/01/2010).

[5] Maria Rita Kehl. O tempo e o cão. A atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 13.

[6] Ibidem, p. 22.

[7] Como sinaliza Berger, “o mundo socialmente construído é, acima de tudo, uma ordenação da experiência. Uma ordem significativa, ou nomos, é imposta às experiência e sentidos discretos dos indivíduos”: Peter Berger. O dossel sagrado, p. 32.

[8] Peter Berger. O dossel sagrado. Elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulinas, 1985.

[9] Ibidem, p. 48.

[10] Uma expressão tomada do título do livro de Peter Berger. A palavra “dossel” expressa bem esse significado de proteção. Trata-se de uma armação de madeira ornamentada, que funciona como cobertura e proteção das estátuas e imagens nos altares, tronos, leitos, liteiras etc.

[11] Peter Berger. Rumor de anjos. A sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 54.

[12] Na visão de Berger, os fenômenos anômicos não devem apenas ser superados, mas também explicados. Empregada num sentido mais amplo do que o utilizado no âmbito do pensamento teológico, a expressão teodicéia significa aqui uma explicação dos fenômenos anômicos com base em legitimações religiosas.

[13] Peter Berger. O dossel sagrado, p. 70.

[14] Clifford Geertz. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989, p. 104.

[15] É dinamogênica, ou dinamizadora, porque vem “para fazer viver” os seres humanos, aquecendo sua temperatura vital.

[16] Émile Durkheim. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Paulinas, 1989, p. 493; Id. Le sentiment religieux à l´heure actuelle. Archives de sociologie des religions, n. 27, janvier-juin 1969, pp. 73-77. Ver também a respeito: Pierre Sanchis. A contribuição de Émile Durkheim. In: Faustino Teixeira (Org.). Sociologia da religião: enfoques teóricos. Petrópolis: Vozes, 2003, pp. 40-42.

[17] Emerson Giumbelli. Clifford Geertz: a religião e a cultura. In: Faustino Teixeira (Org.). Sociologia da religião: enfoques teóricos, p. 210.

[18] Clifford Geertz. A interpretação das culturas, p. 119.

[19] Carmen Cinira Macedo. A imagem do eterno. Religiões no Brasil. São Paulo: Moderna, 1989, pp. 25-26.

[20] João Guimarães Rosa. Grande serão: veredas. 14 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980, p. 15.

[21] Carlos Rodrigues Brandão. Os deuses do povo. São Paulo: Brasiliense, 1980, p. 15.

[22] Ibidem, pp. 16-17 e 295.

[23] João Guimarães Rosa. Grande serão: veredas, pp. 48-49.

[24] Ver a respeito: Roberto DaMatta. A casa & a rua. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

[25] Ibidem, p. 148.

[26] Ibidem, p. 151.

[27] Roberto DaMatta. O que faz o brasil Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1986, p. 112.

[28] Ibidem, p. 117.

[29] Evans Pritchard. A religião e os antropólogos. Religião e Sociedade, v. 13, n. 1, 1986, p. 11.

[30] Victor W. Turner. O processo ritual. Petrópolis: Vozes, 1974, p. 16.

[31] Carlos Alberto Steil. Evans-Pritchard: da religião dos outros à experiência pessoal. In: Faustino Teixeira (Org.). Sociologia da religião: enfoques teóricos, pp. 152-153.

[32] Émile Durkheim. Le sentiment religieux à l´heure actuelle.

[33] E. E. Evans Pritchard. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 246.

[34] Otávio Velho. O que a religião pode fazer pelas ciências sociais. In: Faustino Teixeira (Org.). A (s) ciência (s) da religião no Brasil. São Paulo: Paulinas, 2001, pp. 233-250; Rita Segato. Um paradoxo do relativismo: o discurso racional da antropologia. Religião e Sociedade, v. 16, ns 1-2, 1992, pp. 114-135.

[35] Otávio Velho recorre aqui a uma terminologia teológica, aplicando-a à antropologia. Foi na tradição mística cristã que se firmou a expressão “teologia apofática” (ou negativa), distinta da teologia catafática (ou positiva). Trata-se de uma das vias de acesso ao conhecimento de Deus privilegiada por Dionísio Areopagita (séc.V). Para ele o acesso a Deus acontece mediante a negação dos atributos tradicionais a ele conferidos, pois seu Mistério está sempre além de toda designação humana.

[36] Otavio Velho. Trajetórias e diversidade: um caso brasileiro. Mimeo, p. 8. Ver também: Tim Ingold. The 4A´s (Anthopology, Archaeology, Art and Architecture): reflections on a teaching and learning experiience, mn. Versão provisória. Trabalho preparado par a Conferencia “Ways of Knowing”, Universidade de St Andrews (Escócia), 13-15 de janeiro de 2005.

[37] Para o caso da fenomenologia da religião cf. Giovanni Magnani. Storia comparata delle religioni. Principi fenomenologici. Assisi: Cittadella Editrice, 1999, pp. 146-147.

[38] No “ateísmo metodológico” busca-se “suspender provisoriamente as opiniões pessoais do investigador acerca da existência e da ação dos seres sobrenaturais, não deixando que tais opiniões penetrem na investigação científica com a função de ´critérios`, e admitindo a presença de tais opiniões no curso de uma investigação científica apenas enquanto objetos do discurso científico”: Otto Maduro. Religião e luta de classes. Petrópolis: Vozes, 1981, p. 46.

[39] Luiz Felipe Pondé. Em busca de uma cultura epistemológica. In: Faustino Teixeira (Org.). A(s) ciência(s) da religião no Brasil. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 57.

[40] Rita Laura Segato. Um paradoxo do relativismo: o discurso racional da antropologia, pp. 116-117.

[41] Luiz Felipe Pondé. Em busca de uma cultura epistemológica, p. 55.

[42] Ver a respeito as considerações tecidas por Ivo Lesbaupin: Comunidades de base no Brasil de hoje. In: Faustino Teixeira & Renata Menezes (Orgs.). Catolicismo plural. Dinâmicas contemporâneas. Petrópolis: Vozes, 2009, pp. 58-60.

[43] Ronaldo de Almeida (entrevista). Trânsito religioso. IHU Online, v. 4, n. 169, 19 de dezembro de 2005, p. 40.

[44] Regina Reyes Novaes. Pentecostalismo, política, mídia e favela. In: Victor Vincent Valla (Org.). Religião e cultura popular. Rio de Janeiro: DP&A/SEPE, 2001, p. 69.

[45] Marcos Alvito. As cores de Acari. Uma favela carioca. Rio de Janeiro: FGV, 2001, p. 179.

[46] Ibidem, p. 182.

[47] Diversas pesquisas indicam como determinadas experiências pentecostais favorecem a afirmação de uma dignidade singular, que provoca a interrupção ou mesmo ruptura de vícios, o abandono da violência e a reconstrução de laços familiares. Ver a respeito: Maria das Dores Campos Machado. Carismáticos e pentecostais. Campinas: Editora Autores Associados/ANPOCS, 1996; Paulo Bonfatti. A expressão popular do sagrado. Uma análise psico-antropológica da Igreja Universal do Reino de Deus. São Paulo: Paulinas, 2000; Cecília L. Mariz. Alcolismo, gênero e pentecostalismo. Religião e Sociedade, v. 16, n. 3, 1994, pp. 80-93.

[48] Marcos Alvito. As cores de Acari,, p. 193.

[49] Waldo Cesar & Richard Schaull. Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs. Petrópolis: Vozes/Sinodal, 1999, p. 26.

[50] Ibidem, p. 167.

[51] Pedro A. Ribeiro de Oliveira. Religiões populares. In: José Oscar Beozzo (Org.). Curso de Verão – Ano II. São Paulo: Paulinas, 1988, p. 111.

[52] Waldo Cesar & Richard Schaull. Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs, p. 194.

[53] Roger Bastide. O candomblé da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 39.

[54] Carlos Rodrigues Brandão. Fronteira da fé – alguns sistemas de sentido, crença e religiões no Brasil de hoje. Estudos Avançados USP, v. 18, n. 52, 2004, p. 284.

(Texto publicado no livro: Eymard Mourão Vasconcelos (Org.). A espiritualidade no trabalho em saúde. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 2011 – Edição aumentada)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Espiritualidade, diversidade religiosa e diálogo interreligioso

Espiritualidade, diversidade religiosa e diálogo interreligioso

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

(1) Quais são as principais questões que estão motivando o debate religioso na América Latina, hoje?

Creio que podemos indicar três questões importantes no cenário desse debate na América Latina, e em particular no Brasil. Situaria em primeiro lugar, a questão dos fundamentalismos religiosos. Trata-se de um tema que merece um cuidado particular nessas próximas décadas. Temos verificado aqui no Brasil o crescimento de afirmações religiosas identitárias que podem ser problemáticas, pois envolvem uma consciência de exclusividade salvífica que acaba excluindo o outro de uma saudável cidadania plural. Cresce de forma preocupante a intolerância religiosa por parte de certos núcleos neo-pentecostais, sobretudo com respeito às religiões afro-brasileiras. Essa temática foi abordada no livro organizado por Vagner Gonçalves: Intolerância religiosa. Impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro. São Paulo: Edusp, 2007. É preocupante esse acirramento dos ataques de igrejas neopentecostais contra as religiões afro-brasileiras, e esse processo estende-se para outros países latino-americanos, como Argentina e Uruguai. Traços de intolerância verificam-se igualmente em segmentos do catolicismo romano no Brasil, como no caso de práticas da Comunidade Canção Nova, fundado pelo padre Jonas Abib. Tanto em programas de televisão como em publicações específicas verificam-se posturas beligerantes contra as outras tradições religiosas. Um exemplo vivo dessa postura encontramos no livro de Jonas Abib, Sim, sim! Não, não! (Editora Canção Nova). Em segundo lugar, situaria o desafio do pluralismo religioso. É como reação de insegurança a ele que se firmam perspectivas religiosas mais ensimesmadas e reativas. Ao convocar atitudes de abertura e dialogação, o pluralismo provoca temor, e com ele, atitudes de diabolização do outro ou de cruzada intolerante. Mas não há como driblar essa questão que tende a se firmar como dado incontornável nesse século XXI. Há que lidar com o pluralismo não como se fosse apenas uma questão de fato, a ser tolerada, mas entendê-lo como um pluralismo de princípio, expressão viva das riquezas da diversidade. Essa acolhida leva tempo, mas é imprescindível. Junto com o pluralismo religioso, em terceiro lugar, situa-se o desafio do do diálogo interreligioso. Se, de um lado, firmam-se experiências religiosas exclusivistas, de outro, irradia-se uma nova sensibilidade dialogal, que abre outras possibilidades de convivência harmoniosa entre as diversas tradições religiosas. Isso se percebe com alegria nos espaços de igrejas e universidades: uma sensibilidade nova em favor da plausibilidade de um pluralismo de princípio, pontuado pelo respeito da diversidade e o reconhecimento da dignidade do outro e do valor de sua convicção religiosa.

(2) Quais os limites e possibilidades do diálogo inter-religioso hoje na América Latina?

O diálogo interreligioso emerge hoje como um dos mais fundamentais desafios para a América Latina e para a humanidade em geral. Já se tornou clássica a expressão cunhada por Hans Küng que sinaliza a impossibilidade de paz no mundo sem paz entre as religiões, bem como a impossibilidade de paz entre as religiões sem um diálogo entre as mesmas. As religiões têm um papel importante no tempo atual, não no sentido de serem as responsáveis pela resolução dos graves problemas que acometem o planeta, como a crise ecológica ou os demais problemas de ordem política, econômica e social. Mas elas podem exercer um papel importante no âmbito da renovação espiritual, no sentido de contribuir para a afirmação de um senso para a vida, conformando o universo motivacional. Podem ainda possibilitar a esperança num horizonte de fidelidade, fundamental para a manutenção do mundo sujetivo e comunitário. Isso se torna possível sobretudo quando elas atuam numa linha de comunhão, no respeito às diversidades específicas. As possibilidades para o diálogo estão dadas e são muitas, envolvendo os campos do diálogo da vida, das ações em comum, do diálogo doutrinal e o espiritual, que é o âmbito mais profundo de sua realização. Temos exemplos muito bonitos e significantes de práticas dialogais em nosso tempo, como no belo exemplo da comunidade dos monges de Tibhirine, na Argélia, tão bem ilustrada no premiado filme de Xavier Beauvois: Homens e Deuses. Há, porém, obstáculos que se interpõem ao exercício dialogal, como a auto-suficiência, a arrogância identitária, a incapacidade de abertura e a vontade de poder. Infelizmente são disposições muito presentes em nosso tempo, obstaculizando qualquer movimento de abertura ao plural.

(3) Quais os principais desafios para as políticas de Estado no que tange à diversidade religiosa?

Creio que em primeiro lugar há que reafirmar com toda a energia possível o valor da diversidade e o respeito fundamental à legítima diversidade de caminhos religiosos e espirituais que traduzem a dinâmica vital em nosso tempo. Por isso, talvez melhor do que falar em diversidade religiosa, seria falar de diversidade de opções espirituais, que podem ser religiosas ou não. É uma importante pista lançada pelo teórico francês, Henri Pena-Ruiz, ainda pouco conhecido em nosso país. Ele trata com pertinência o tema da laicidade e de seus direitos na sociedade democrática. Em sua obra, La laïcité (1998), indica que a laicidade requer a exclusão “de toda discriminação na interpretação das doutrinas e crenças”. O aluno deve ter acesso às grandes referências espirituais da humanidade, sem necessariamente ser por elas condicionado. Pena-Ruiz alerta sobre o risco da confusão entre compreensão e adesão. É perfeitamente plausível o direito à compreensão, na escola pública, do sentido dos testemunhos espirituais que envolvem as diversas religiões, como seus ideias éticos, humanos e politicos, mas sem uma ênfase na adesão de crença. Não se pode igualmente privilegiar, no campo da atividade educacional, uma dada religião. Faz-se necessário um esforço coletivo para facultar o conhecimento respeitoso da diversidade religiosa, e de outras opções espirituais também substantivas para a afirmação do sentido.

(4) E quais os principais desafios para a Educação Pública no que se refere à diversidade religiosa?

Não sou um especialista do tema, mas um leitor interessado. Enquanto defensor de um pluralismo de princípio, acredito que a Educação Pública tem um papel fundamental de resguardar os direitos da diversidade religiosa e espiritual. E também de defender permanentemente a liberdade de opções espirituais. Isso se reflete igualmente na complexa questão do “ensino religioso”. O tratamento dessa questão não pode manter-se inalterado, sobretudo depois das mudanças vislumbradas no campo religioso brasileiro, com a crescente diversidade religiosa. Vejo com dificuldade as formas vigentes de ensino religioso confessional em nosso país. Há que ampliar a discussão e percorrer novos caminhos, em sintonia mais fina com os desdobramentos teóricos em curso sobre a pluralidade religiosa. Identifico-me, em parte, com a perspectiva defendida na França por Regis Debray, de defesa do ensino do “fato” religioso na escola laica (L´enseignement du fait religieux dans l´école laïque, 2002). É necessário criar condições de aperfeiçoamento docente para a apresentação séria e fundamentada do “estudo do religioso” na escola pública, facultando uma abordagem honesta e digna sobre esse fenômeno. Isso pressupõe a formação de um quadro docente especializado, numa linha multifacetada, e com “ouvido musical para a religião”. Há que possibilitar uma maior aproximação “descritiva, factual e nocional” das religiões em sua pluralidade, sem privilégios e exclusividades. E isso deve ser realizado de forma sensível e delicada, com o devido respeito que o fenômeno religioso merece, com a atenção sempre acesa para a perspectiva interdisciplinar. É o caminho de acesso para superar uma “laicidade de incompetência” (o religioso, por construção, não nos interessa), em favor de uma “laicidade de inteligência” (é nosso dever compreendê-lo).

(5) O que o senhor pensa sobre o papel do professor de ensino religioso na escola pública.

Num breve artigo que escrevi para um livro em torno do tema do Ensino religioso e formação docente (Paulinas, 2006[1]), levantei algumas pistas sugestivas para esse papel do professor de “ensino do religioso”. Sugeri que o docente dessa área deve ter uma sensibilidade particular, pois trata de um tema delicado e complexo, que merece atenção, cuidado e respeito. Temos que nos dar conta que nesse campo das religiões estamos sempre caminhando “sobre um solo sagrado”, para utilizar uma expressão cara a Raimon Panikkar. O docente deve ser alguém que busca permanentemente aperfeiçoar o seu olhar e sua escuta para poder captar e transmitir com honestidade e fineza o mundo da alteridade. Há que reconhecer que o outro é sempre um enigma extremamente complexo, que resiste a qualquer apreensão simplificadora. O docente dessa área deve evitar, por princípio, atitudes e reflexões preconceituosas, apriorísticas e simplificadas. Daí a importância de seu constante aperfeiçoamento. Ele deve não só aprimorar seus conhecimentos teóricos sobre as religiões, mas também ampliar sua sensibilidade face ao enigma das religiões. O trabalho do docente deve ainda facultar o reconhecimento da alteridade e o respeito à sua dignidade. O estudo do fenômeno religioso deve possibilitar o exercício de uma dinâmica que seja marcada por um profundo respeito às diversas convicções religiosas. E, finalmente, favorecer a percepção da riqueza e do valor de um mundo plural e diversificado. As religiões não são apenas genuinamente diferentes, mas também autenticamente preciosas. Há que honrar essa alteridade, em sua especificidade peculiar, reconhecendo o valor e a plausibilidade de um pluralismo religioso de direito ou de princípio.

(6) Gostaríamos que o senhor fizesse comentários sobre a transcendência como uma dimensão humana e as suas distintas manifestações culturais.

O meu grande mestre nessa reflexão foi sempre Karl Rahner, que trata com argúcia essa questão da experiência transcendental do humano. Trata-se, para ele, de uma experiência que “faz parte das estruturas necessárias e insuprimíveis do próprio sujeito que conhece”. Todo ser humano, enquanto ser de transcendência, está orientado a um mistério sempre maior, que pode ser por ele nomeado como Deus, como Todo, como Vazio ou como Real. Esse Mistério está íntimamente relacionado com o humano, embora sempre escape de sua compreensão. Há sempre uma “reserva escatológica” que preserva a qualidade de supresa e dom desse Mistério. Como assinala Rahner, “o mistério com sua incompreensibilidade é o que existe de mais evidente”. Esse mistério está no tempo, na vida cotidiana, em todo lugar. Não há como furtar-se de sua Presença envolvente. Ele pode ser captado de forma a-temática ou mesmo irreligiosa. Pode-se experimentar sua acolhida mesmo fora das religiões, em opções espirituais marcadas pela profundidade: temos, por exemplo, a experiência da “imanensidade”, com sublinha Comte-Sponville. O importante é sempre estarmos atentos à nossa dimensão de profundidade e voltados com particular sensibilidade ao “canto das coisas”. Na bela visão de Raimon Panikkar, a mística é sobretudo a experiência do Real, vivido em profundidade, e a espiritualidade o caminho para atingir essa meta. A mística verdadeira nos leva ao coração do Real, ou seja, ao “sentimento do Universo”.

(7) Qual a é a relação entre espiritualidade e transcendência? Se relacionam sim ou não?

Como assinalava antes, a mística é a “experiência suprema da realidade” e a espiritualidade o caminho para alcançar tal experiência. Não há dúvida que a espiritualidade relaciona-se com a transcendência, mas diria que ela relaciona-se igualmente com a imanência. Aliás, o Mistério mais profundo é sempre transcendente/imanente. A espiritualidade não pode ser reduzida ao fenômeno da religiosidade, a não ser que a nossa compreensão de religiosidade seja bem ampla. Assim a definiu, por exemplo, Paul Tillich, distinguindo-a de seu conceito estrito. Num sentido lato, seguindo a pista aberta por Tillich, a religiosidade toca o âmbito do profundo e se traduz como “a dimensão da realidade suprema nos diferentes campos do encontro do ser humano com a realidade” (P.Tillich, My Search for Absolutes). Gosto da definição de espiritualidade apresentada por Dalai Lama. Ele a distingue da religião. Para Dalai Lama, a espiritualidade está relacionada com “qualidades do espírito humano”, como o amor, a compaixão, o respeito ao outro, a cortesia e a hospitalidade. E tais qualidades podem ser desenvolvidas mesmo em alto grau entre aqueles que não partilham um determinado sistema religioso. Por isso minha simpatia pela idéia de “opção espiritual”. Como indica Dalai Lama, as pessoas podem até dispensar a religião como projeto de vida, mas jamais essas qualidades espirituais essenciais para a afirmação do humano.

(8) O que mais o senhor gostaria de acrescentar

Gostaria ao fim dessa entrevista indicar uma pista lançada por um importante filósofo da Escola de Kyoto, Keiji Nishitani (1900-1990). É um autor ainda pouco conhecido entre nós, mas sugere reflexões muito preciosas sobre a espiritualidade do cotidiano. Numa de suas obras mais ricas, A religião e o nada (Religion and Nohingness, 1982), ele nos sinaliza que as coisas mais simples podem tornar-se um essencial ponto de concentração, a ponto de facultar o sentimento profundo do real e despertar uma sensibilidade nova. São experiências que nos fazem perceber a delicada presença do Mistério em tudo, nos detalhes mais simples da vida cotidiana. Mas há que saber maravilhar-se para poder perceber isso. Nishitani, com sua sensibilidade zen, indica-nos a presença de uma ordem mística que envolve todas as coisas. Somos assim convidados a captar esse “profundo sentimento da realidade das coisas cotidianas”. Não sem razão, o grande trapista Thomas Merton, ensinava aos seus noviços em Gethsêmani que a experiência contemplativa nada mais era do que viver a vida, como o peixe na água. E viver em profundidade. Nada mais falso do que isolar a vida espiritual dos mais profundos interesses humanos.

Entrevista a Faustino Teixeira[2] - Revista Novamerica n. 131, jul-set 2011, pp. 4-15 (em português e espanhol)

http://www.novamerica.org.br/revista_novamerica/resumos.asp



[1] F.Teixeira. Ciências da religião e “ensino do religioso”.

[2] Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora. É também pesquisador do CNPQ e consultor do Iser-Assessoria (RJ). Entre seus campos de pesquisa: teologia das religiões, diálogo interreligioso e mística comparada das religiões.

Kodo Sawaki: impermanência e compaixão

Kodo Sawaki: impermanência e compaixão

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

“Antes que eu penetrasse no Zen,

as montanhas nada mais eram senão montanhas

e os rios nada a não ser rios.

Quando aderi ao Zen,

as montanhas não eram mais montanhas

nem os rios eram rios.

Mas, quando compreendi o Zen,

as montanhas eram só montanhas

e os rios, só rios”

(Sentença Zen)

O grande mestre espiritual, Thomas Merton (1915-1968), dizia que o Zen é “uma das mais misteriosas de todas as espiritualidades”. Mais que uma filosofia ou religião, o Zen é uma “trama existencial”, uma disposição particular, de fundo, com respeito à vida e ao tempo. Trata-se de um modo peculiar de proceder, eminentemente prático, que envolve uma atenção singular ao real, à vida, em toda a sua tessitura concreta e existencial, e a todo instante. Está profundamente vinculado às atividades do dia a dia, descortinando uma “percepção plena do dinamismo e da espontaneidade da vida”.

São muitos os místicos e mestres Zen que animaram a nossa trajetória civilizacional, apontando rumos diferenciados que envolvem delicadeza, cuidado e generosidade. Um dos importantes nomes dessa tradição espiritual foi Kodo Sawaki (1880-1965), conhecido como um “mosteiro itinerante”. Viveu a experiência da impermanência (mujo) desde cedo, tendo perdido os pais em tenra idade. Veio adotado por Sawaki, um irmão de sua mãe, daí a derivação de seu nome, que veio depois acrescentado de Kodo, adquirido por ocasião de sua ordenação como monge. Um nome bem apropriado para o pequeno mestre. Kodo significa “sem casa”. De fato, essa condição de “impermanência” o acompanhou durante toda a sua vida. Afirmava não necessitar de casa, templo, títulos ou mulheres. Nem mesmo de iluminação (satori). A itinerância era a sua morada. Foi um mestre singular, que acolhia, indistintamente, a todos que o procuravam, e tinha o dom da palavra. Ele dizia: “Falo sempre com força e com todo o coração. Em cada palavra ou frase a minha mente e o meu corpo, a minha carne e o meu sangue revelam-se completamente”.

Sua grande inspiração veio de Eihei Dôgen (1200-1253), fundador do Soto Zen no Japão. Para Dôgen, a prática do Zazen (meditação sentada) era a porta da real compreensão do caminho espiritual (Dharma). Dizia a seus discípulos: “Muitos imaginam que é a multiplicação das imagens do Buda ou a elevação de templos que favorecem a expansão do Caminho. Trata-se de um grave erro. Uma choupana ou a sombra de uma árvore são suficientes para a prática do Zazen”. Visando orientar seus discípulos, escreveu entre os anos 1231 e 1253, uma das mais célebres obras de espiritualidade, o shôbôgenzô (o tesouro da visão do verdadeiro dharma). O horizonte almejado era o Dharma de Buda, que se revela em todas as coisas. Escrevia a respeito Dôgen: “Na grande via do Dharma de Buda, um só grãozinho de pó contém todos os sutras do universo”. Esse foi o mestre que pontuou toda a trajetória de Kodo Sawaki. E os mestres são fundamentais para o exercício de realização do Dharma, como o próprio Dôgen reconhecia: “Se não encontras um verdadeiro mestre, é melhor não estudar com efeito o budismo”. É o mestre que favorece a escuta do verdadeiro Dharma.

Na trilha aberta por Dôgen, Kodo Sawaki segue o seu caminho, marcado por um significativo lema: viver a vida cotidiana. Trata-se de um lema recorrente no budismo Zen. Outro dos grandes mestres desta tradição budista, Lin Chi, que morreu no ano de 867, dizia num de seus discursos que não há nada de extraordinário a ser cumprido no budismo, senão viver simplesmente a vida. Em mesma linha de sintonia, dirá o conhecido mestre Daisetz Teitaro Suzuki, um dos introdutores do Zen no Ocidente: “O Zen é viver, o Zen é a vida e viver é Zen”. Num dos ditos clássicos da tradição Zen, de autoria de Wou-men (Wou-men-kouan – Passe sans porte), afirma-se que “o coração cotidiano é o Caminho”. É o rastro que seguiu Sawaki em sua existência e prática, levar a vida com consciência e atenção. Mediante a prática contínua do Zazen, desvendar a maravilha do cotidiano, vivido com gratuidade (mushotoku) e respeito. Para ele, a razão da vida não estava em acumular conhecimentos, mas na atenção diuturna e cuidadosa diante do mistério apresentado a cada momento ao olhar humano. Dizia: “Os homens multiplicam conhecimentos, mas penso que o fim almejado está em poder sentir o som dos vales e olhar as cores da montanha”.

Na tradição budista, todo o acento recai na realidade fenomênica. A reverência feita a uma camélia em flor tem a mesma densidade espiritual que outros atos religiosos como a inclinação feita aos budas. Como mostrou acertadamente, Toshihiko Izutsu, em sua reflexão sobre a filosofia do zen budismo, “o mundo fenomênico não é só a ordem das coisas sensíveis que aparece ao ego empírico ordinário, mas na consciência zen ele vem dotado de uma espécie particular de poder dinâmico que poderia ser adequadamente indicado com o verbo VER”. Desvela-se um olhar que descortina uma dimensão excepcionalmente elevada, para além da atividade discriminante traduzida pelo intelecto relativo do ser humano encerrado na limitada esfera da experiência comum e ordinária. As montanhas manifestam-se como montanhas e os rios como rios.

A verdade está aí, no alcance da visão. Basta saber ver. Ela está em todo canto e em cada coisa. Essa era uma máxima seguida com rigor por Sawaki. A prática do Zazen facultava a educação desse olhar, capaz de captar a profunda unidade que liga o ser humano a todo o universo e a todo o criado. No Zazen deixa-se abandonar o corpo e a mente (shin jin datsu raku), facultando-se o “fluir com a infinita luminosidade” que a todos sustenta. É o caminho que faculta o acesso à subjetividade elemental, à pura subjetividade, para além das dicotomias entre sujeito e objeto. Este deixar cair corpo e mente, na prática do “só-Zazen”, não significa um abandono ou exclusão da existência histórica e social. Esse é um equívoco que deve ser extirpado. Na verdade, o Zazen verdadeiro situa o ser humano ainda mais fundo no seu cotidiano, colocando em ação um modo singular de ser no mundo, facultando a “encarnação auto-criativa e auto-expressiva da natureza-de-Buda”. A consciência de “impermanência” não leva de forma alguma a uma perspectiva de fatalismo ou pessimismo diante da vida, mas a uma “vitalidade sempre maior na busca do Caminho”.

O horizonte apontado por Kodo Sawaki é o mesmo indicado por Dôgen em seu shôbôgenzô: o abandono de si e a doação aos outros. Há que romper todos os apegos e viver a profunda dinâmica da gratuidade, sem finalidade ou escopo (mushotoku). E estar sempre a caminho, sem morada fixa, com o olhar aberto e atento ao mundo da alteridade. Num dos fascículos de seu clássico trabalho, Dôgen asseverava: “Compreender o Caminho de Buda é compreender a si mesmo (jiko); compreender a si mesmo é esquecer a si mesmo; esquecer a si mesmo é deixar-se abrigar por todas as coisas (banpô ni shô seraruru) (...)”. Em profunda sintonia com a perspectiva kenótica proposta por Dôgen, Kodo Sawaki reconheceu de forma profunda como o reconhecimento da impermanência de todas as coisas gera gratuidade e doação. Como sublinhou Gianpetro Fazion, em bela obra sobre o Zen de Kodo Sawaki (Roma, 2003), a “ampla visão da impermanência e do sofrimento universal (duhkha), profundamente penetrada pelo olhar de Buda, favoreceu-lhe (a Sawaki) a capacidade de partilhar uma compaixão amorosa por todas as formas de vida”. Num dos ditos de Sawaki, ele sublinha: “Se alguém abandona o próprio ego, sem pensar em si mesmo, se ele serve, e se devota aos outros, ainda que através de pequenas coisas, como cozinhar na manhã, isto é verdadeiramente grande”. A nobreza verdadeira está justamente nesses pequenos detalhes do cuidado, da delicadeza e do serviço aos outros.

Kodo Sawaki foi um grande mestre Zen, mesmo sem a cobertura de uma formação acadêmica tradicional. Tinha apenas o diploma da escola elementar. Sua linguagem era simples, forte e direta, nutrida pela permanente prática do Zazen. Muitos passaram por sua escola, entre os quais Taisen Deshimaru, que introduziu o Zen na França, no final dos anos 1960. De seus traços espirituais, brilha de forma especial a dinâmica da gratuidade absoluta. Seus ditos guardam uma sabedoria exemplar, como o que segue: “A vida é complicada. Há momentos, como na guerra, onde o fogo cai do céu, e outros onde podemos adormecer, aconchegados, junto à lareira. Há períodos nos quais necessitamos trabalhar mesmo de noite, e outros em que se pode beber o sakê. Buscar realizar essa vida, mediante o ensinamento de Buda, isto é o budismo”.

Ao final da vida, já aos 85 anos, voltou seu olhar para o monte Tagakamine. Esse monte tinha sido objeto de suas observações durante muito tempo, mas agora seu olhar voltava-se para ele com particular intensidade. Ele agora o Via, e parecia indicar a presença do empíreo. Três dias antes de sua morte, no mês de dezembro de 1965, pediu que abrissem a janela de sua cela e disse: “Olha a montanha. A natureza é grande, enquanto os homens ocupam-se de pequenas coisas: em toda a minha vida não encontrei um modo de admirá-la completamente. Mas aquela Tagakamine me observa, do alto de sua grandeza, e parece dizer: ´Kodo, Kodo!`”.

(Publicado no IHU Notícias, de 08/09/2011)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Espiritualidade e interreligiosidade

Espiritualidade e Interreligiosidade

Faustino Teixeira

PPCIR/UFJF

Introdução

A pluralidade religiosa é um dos traços mais característicos do século XXI. Não há como desconsiderar ou relativizar o traço da diversidade religiosa no tempo atual. Trata-se de um fenômeno irreversível, que tende a sublinhar a presença diversificada do outro como provocação permanente para a construção da identidade. O grande desafio está em compreender essa pluralidade religiosa não como um dado conjuntural passageiro ou fruto de cegueira problemática dos seres humanos, mas como um mistério transbordante, um dom que corresponde a um misterioso desígnio de Deus para a humanidade. A espiritualidade é um dos caminhos frutuosos para a percepção do valor da diversidade. Ela possibilita a afirmação da humildade, da abertura desarmada para o outro e igualmente uma consciência viva da vulnerabilidade dos caminhos que levam a Deus no tempo. Talvez seja um dos campos mais propícios para a percepção do valor da interreligiosidade, da dinâmica de dom que envolve a relação e a comunhão entre as diversas religiões, preservando os traços essenciais que as distinguem.

1. A irrevogabilidade do pluralismo religioso

Um olhar atento ao cenário religioso mundial desarma radicalmente aqueles autores que defendem a irreversibilidade da dinâmica secularizadora. O que se verifica por todo canto é a pujante presença do fenômeno religioso em suas malhas diversificadas. Como indicou Peter Berger, em artigo sobre a dessecularização do mundo, “não há nenhuma razão para pensar que o mundo do século XXI será menos religioso que o mundo atual”[1]. Na ressurgente dinâmica religiosa atual, firmam-se dois fenômenos extraordinários: o impressionante crescimento do islã e a efervescência pentecostal. Com respeito ao islã, há que assinalar que em âmbito mundial ele ultrapassou o catolicismo em número de adeptos, com cerca de um bilhão e trezentos e vinte e dois milhões de participantes. Em termos de porcentagem, alcançam a cifra de 19,2% da população mundial, enquanto os católicos estacionam na marca de 17,4% (um bilhão e cento e trinta e um milhões de fiéis). Firma-se assim o islã como a denominação religiosa mais numerosa da Terra, embora menor que a soma alcançada pela cifra das denominações cristãs, com cerca de dois bilhões de adeptos. O maior número de muçulmanos concentra-se no subcontinente indiano, envolvendo aproximadamente 400 milhões de fiéis, sendo a Indonésia o país com maior população muçulmana. Mas essa tradição religiosa firma-se igualmente nos espaços americanos e europeus, com forte registro nos Estados Unidos (5 milhões), França (5 milhões) e Alemanha (3 milhões). Vale também registrar a presença de comunidades muçulmanas na América do Sul, sobretudo no Brasil (1 milhão) e Argentina (750.000).

A explosão pentecostal traduz outra vertente importante da retomada religiosa no tempo atual. No início do século XX era um movimento incipiente, mas agora firma-se como um fenômeno de expressão mundial. O pentecostalismo apresenta-se nesse início de milênio como o segundo bloco cristão mais numeroso, envolvendo cerca de 26,2% dos fiéis, só superado pelos católicos, que ultrapassam os 52%. Constituem o grupo mais numeroso na África, superando os índices do catolicismo. Sua presença é viva nos Estados Unidos e na América Latina, onde ocupam o segundo lugar dos batizados. Marca também presença no Extremo Oriente[2].

O crescimento e afirmação do islamismo e do pentecostalismo são exemplos da nova presença do religioso no tempo atual, que envolve igualmente uma série de outras vertentes e irradiações de um fenômeno marcado por grande complexidade. A verdade é que o mundo vem pontuado pela presença crescente e “perturbadora” de outros que não se enquadram num campo de homogeneidade. E eles estão cada vez mais próximos, em nossas vizinhanças. Como mostrou Clifford Geertz, as distinções religiosas vão se tornando mais visíveis e imediatas, num mundo de fronteiras fluidas[3]. E isso pode favorecer uma dupla possibilidade: um novo entendimento interreligioso ou o incremento da suspeita e o acirramento identitário. Wilfred Cantwel Smith já previa na década de 1960 a afirmação dessa pluralidade:

Doravante a vida religiosa da humanidade, se é que ela de algum modo há de ser vivida, o será em um contexto de pluralismo religioso (...). Isso é verdadeiro para todos nós; não apenas para a ´humanidade`em geral, abstrata, mas para você e eu como pessoas, indivíduos. As pessoas de outras crenças religiosas não são mais periféricas ou distantes, fúteis curiosidades de histórias de viajantes. Quanto mais despertos estamos e quanto mais envolvidos com a vida, mais descobrimos que eles são nossos próximos, nossos colegas, nossos concorrentes, nossos companheiros. Confucionistas e hindus, budistas e muçulmanos estão conosco não só nas Nações Unidas, mas descendo a rua. Cada vez mais, não só o destino de nossa civilização é influenciado por suas ações; mas temos com eles também a intimidade de tomar um cafezinho juntos[4].

Os teólogos cristãos vêm sendo desafiados a reconhecer o valor intrínseco das outras tradições religiosas, a honrar a alteridade na sua singularidade específica, a destacar os distintos caminhos religiosos como “vias misteriosas de salvação”, operadas e sustentadas pela Presença de um Mistério sempre maior. Buscam superar com instrumentos aperfeiçoados a perspectiva limitada que não consegue reconhecer no outro senão sua potencialidade de abertura positiva para aquilo que ignoram. Trata-se de um caminho novo e desafiante: o reconhecimento do pluralismo de princípio. Como mostra Roger Haight, “o reconhecimento da influência salvífica universal de Deus transforma o pluralismo religioso em uma situação positiva, na qual se pode aprender mais acerca da realidade última e da existência humana do que o que se acha disponível em uma única tradição”[5]. O toque dessa abertura ao outro faculta ainda a possibilidade de, mediante o diálogo profundo, reconhecer e explicitar de forma ainda mais viva virtualidades escondidas do mistério que a todos preside.

2. Espiritualidade e abertura interreligiosa

Há que distinguir, inicialmente, mística e espiritualidade, com base nas reflexões de Raimon Panikkar. A mística diz respeito à “experiência integral da realidade”. Não se refere a algo distante ou inalcançável, nem a algo indiferente ao sofrimento humano. Está sempre referendada à globalidade da condição humana. Ela envolve um “desaforado amor pelo todo”, e provoca em quem a experiencia uma profunda vontade de adentrar-se no real, em sua densa espessura. Trata-se da “experiência da vida”, da realidade, aqui entendida como o símbolo último do Todo. A espiritualidade, por sua vez, refere-se ao caminho traçado para se alcançar tal experiência. E os caminhos são diversificados[6].

A espiritualidade, entendida como caminho para a experiência do real, distingue-se da religião. Como bem mostrou Dalai Lama, a espiritualidade está relacionada às “qualidades do espírito humano”, dentre as quais o amor, a compaixão, a hospitalidade, a cortesia e a paciência. Ele assinala que não existe “nenhuma razão pela qual um indivíduo não possa desenvolvê-las, até mesmo em alto grau, sem recorrer a qualquer sistema religioso ou metafísico”[7]. A espiritualidade envolve qualidades humanas fundamentais que acionadas provocam profundas mudanças no mundo interior e se irradiam para a história. Entendida em seu sentido profundo, a espiritualidade não se reduz ao âmbito da intimidade, mas suscita a abertura ao mundo, aos outros, ao real. É uma convocação à experiência da “imanensidade”, do envolvimento no todo que traduz o “habitar o universo”[8].

Quando vivida intensamente, a espiritualidade convoca necessariamente à abertura interreligiosa, e por uma razão simples. Quando se penetra de forma desarmada e humilde no mundo interior, com a disponibilidade de atenção aos pequenos sinais do Mistério, a música da alteridade faz sentir sua presença. Essa rica metáfora da profundidade, e de sua conexão dialogal, foi captada de forma exemplar por Paul Tillich:

Na profundidade de toda religião viva há um ponto onde a religião como tal perde sua importância e o horizonte para o qual ela se dirige provoca a quebra de sua particularidade, elevando-a a uma liberdade espiritual que possibilita um novo olhar sobre a presença do divino em todas as expressões do sentido último da vida humana[9].

É sugestiva essa reflexão de Tillich e a pista que a acompanha. De fato, na medida em que se aprofunda na própria experiência religiosa, toca-se um “ponto virginal” que escapa às determinações dos vínculos ou “nós” específicos que acompanham o engajamento religioso. Com a progressão do aprofundamento cresce a liberdade espiritual e a capacidade de ver o Mistério que brilha em toda parte. O sujeito que faz uma tal experiência reconhece que aquilo que vivencia não pode mais limitar-se ao estreito campo de sua domiciliação religiosa. Isso não significa uma ruptura com os vínculos até então estabelecidos, mas a instauração de um novo modo de exercício identitário, pontuado agora pela abertura e aprendizado interreligiosos.

A mesma metáfora da profundidade vem utilizada por Paul Ricoeur para abordar a questão da abertura interreligiosa. Também para ele, a profundidade revela facetas inusitadas da verdade e convoca ao diálogo com o outro:

É ato fundamental de esperança crer que, se me aprofundo no mais íntimo de minha convicção tenho chances de encurtar a distância com o outro crente de outra religião, se este empreende o mesmo movimento de aprofundamento. Proponho a seguinte imagem da esfera: na superfície, as distâncias são imensas, mas à medida que a gente se dirige para um centro, cuja posse e domínio ninguém tem, a gente se aproxima. É a redução da distância pela profundidade e não pela fuga para frente na superfície das coisas[10].

Segundo Ricoeur, é no âmbito da profundidade que se é capaz de perceber a riqueza do pluralismo. É também ali que se abre para as religiões a possibilidade de se compreenderem como comunidades de escuta e de interpretação, na medida em que tomam consciência de sua limitação e vulnerabilidade, e se vêem provocadas ao desafio de abertura a um horizonte que é ilimitado. E Ricoeur complementa, com base na sua convicção cristã: “É muito difícil, e entretanto, necessário ter como absoluto o caminho de Cristo e, ao mesmo tempo, pôr de parte esse pano de fundo no qual não penetro e o qual não atinjo a não ser pelo diálogo com as outras religiões”[11].

Na tradição mística islâmica (sufismo) esse traço de abertura interreligiosa é uma constante. Um de seus grandes expoentes, Ibn´Arabî de Murcia (1165-1240), foi dos mais decisivos defensores do pluralismo religioso. Num de seus clássicos trabalhos, lança uma forte advertência aos crentes:

Cuide-se de não te ligar a um credo particular rejeitando todo o resto, pois perderás um bem imenso; além do mais, perderás a ciência da Verdade tal como é. Que tua alma seja a substância das formas de todas as crenças, pois Allah, o Altíssimo, é muito vasto e imenso para ser confinado num determinado credo, em exclusão dos outros. E Ele diz com efeito: Para onde quer que vos volteis, lá está a Face de Allah (...)[12].

Os buscadores verdadeiros são, segundo Ibn`Arabî, aqueles que ampliam suas crenças, que se deixam provocar pelas irradiações novidadeiras do Mistério que brilha na experiência do outro, favorecendo assim uma maior participação na visão do Real.

A espiritualidade é uma matriz essencial de inspiração do novo, de acolhida do diferente e de despojada abertura ao outro. É também fonte de uma paz que brota de dentro e irradia com vigor na história. Trata-se da

fonte secreta que alimenta a paz cotidiana em todas as suas formas. Ela irrompe de dentro, irradia em todas as direções, qualifica as relações e toca o coração íntimo das pessoas de boa-vontade. Essa paz é feita de reverência, de respeito, de tolerância, de compreensão benevolente das limitações dos outros e da acolhida do Mistério do mundo. Ela alimenta o amor, o cuidado, a vontade de acolher e de ser acolhido, de compreender e de ser compreendido, de perdoar e de ser perdoado[13].

3. O coração e a acolhida da diversidade

Só é capaz de uma autêntica abertura interreligiosa aquele que tem um coração receptivo para hospedar uma diversidade de formas e atributos. Não há como acessar os segredos divinos e sua dinâmica de manifestação no tempo senão mediante a purificação do coração[14]. No evangelho de Mateus se diz, acertadamente, que os puros de coração verão a Deus (Mt 5,8). Quando se vive a pureza de coração, animada pelo ritmo do despojamento e da disponibilização, desperta-se para os sinais vivos de Deus que se manifestam por toda parte. Em clássico poema, Ibn´Arabî assinala:

Meu coração está aberto a todas as formas:

É uma pastagem para as gazelas,

E um claustro para os monges cristãos,

Um templo para os ídolos,

A Caaba do peregrino,

As tábuas da Torá,

E o livro do Corão.

Professo a religião do Amor,

Em qualquer direção que avancem Seus camelos;

A religião do Amor

Será minha religião e minha fé[15]

Seguindo as pistas abertas pela tradição mística sufi, o coração (qalb) é o órgão por excelência da percepção mística. Trata-se de um órgão sutil de captação dos Mistérios, que traduz os decisivos “impactos dos acontecimentos espirituais”. É sobretudo o “lugar do segredo divino”, o “receptáculo cristalino e proteico capaz de refletir todas as epifanias ou atributos de Deus”[16]. O termo coração em árabe, qalb, deriva de uma raiz trilítera (q-l-b), que envolve o significado de receptáculo, mas indica igualmente a idéia de movimento, oscilação, flutuação, inversão, mudança permanente. É, portanto, um órgão dinâmico, em permanente estado de transformação para captar as epifanias divinas.

As teofanias divinas sucedem-se e modificam-se constantemente. A cada segundo o coração capta imagens diversificadas da presença do Mistério sempre maior. E em sua plasticidade é capaz de acolher com generosidade esse dom da diversidade. São manifestações que expressam aspectos diferenciados do Segredo divino. Não há, porem, como conter e exprimir essa Verdade em sua totalidde. Daí a necessidade permanente de manter aberta a porta da percepção. Não há porque fixar-se exclusivamente numa única tradiçao religiosa, excluindo a possibilidade do enriquecimento advindo da relação e do diálogo com o diferente. Como assinala com acerto Teilhard de Chardin, o Meio Divino é um “centro móvel” que escapa permanentemente às tentativas de apropriação. Trata-se da

eterna descoberta e o eterno crescimento. Quanto mais cremos compreendê-lo, mais Ele se revela outro. Quanto mais pensamos possuí-lo, mais Ele se recua, atraindo-nos para as profundezas de si mesmo. Quanto mais nos aproximamos dele, por meio de todos os esforços da natureza e da graça, mais Ele aumenta, em um mesmo movimento, sua atração sobre nossas potências e sobre a receptividade dessas potências a este encanto divino[17].

4. O cristianismo e a convocação à abertura

Quando se vive em profundidade a perspectiva cristã, a abertura dialogal vem naturalmente. Não há contradição alguma entre a domiciliação cristã e a abertura aos outros. Na verdade, a dinâmica da alteridade está no coração do cristianismo. Como sublinhou Edward Schillebeekx no terceiro livro de sua trilogia cristológica, “a aceitação da diversidade das religiões está implicada na essência do cristianismo”[18]. O Deus de Jesus constitui um “símbolo de abertura” permanente, é um Deus que acolhe o sussurro do plural e integra as diferenças. O Deus que Jesus apresenta em seu ministério é uma Presença dotada de amizade e misericórdia, que se preocupa profundamente com o destino humano e com toda a criação. É um Deus de amor incondicional e ilimitado, marcado por total abertura.

A experiência e prática de Jesus revelam igualmente alguém que acolhe com carinho os que estão excluídos do circuito da fé reconhecida. Enquanto galileu, conviveu com um povo aberto e dialogal. Foram anos de convivência com pessoas de outras raças, culturas e religiões. Tudo isso ajudou para a afirmação de uma sensibilidade dialogal[19]. Não rejeita os pagãos, mas com eles estabele diálogo (Mc 7,24-29; Jo 4,7-42); reconhece o valor e a dimensão da fé de pessoas que não eram judias, e com elas se enriquece (Mt, 8,10 e 15,28); sinaliza como exemplo de conduta, a prática solidária do samaritano com o ferido no caminho (Lc 10,29-37) e não rechaça o exorcista desconhecido, que não atua em seu nome (Mc 9,38-40). Os critérios que regem sua acolhida relacionam-se com a força da fé e a dinâmica do amor. O que vale para Jesus é o alcance soteriológico do amor: é ele que decide, em última instância, o sinal da acolhida do Deus misericordioso (Mt 25,31-46).

O seguimento de Jesus Cristo envolve, portanto, uma mesma disposição de abertura ao outro. A habilidade ao diálogo, como sustenta Paul Knitter, “é uma parte essencial do que significa ´ser fiel`a Cristo”[20]. Não se relativiza em momento algum a riqueza da confissão existencial da experiência cristã do que Deus fez em Jesus Cristo. Essa convicção cristã permanece garantida, mas ela não enfraquece o reconhecimento do Deus verdadeiro que atua nas outras religiões, e que convoca a um diálogo sincero e autêntico. O cristianismo e as outras religiões participam de uma mesma sinfonia interreligiosa, cujo arranjo final está sempre adiado para um horizonte que não se tem acesso. O tempo atual é pontuado pela “maturação multiforme” de experiências que são diversificadas. As religiões são compreendidas como fragmentos potenciais de um todo inacabado. E a

palavra de Jesus convida cada fragmento a não ultrapassar suas fronteiras para incluir nele próprio a exterioridade; ela sugere não sufocar as questões que alertam cada fragmento quanto à tentação de apresentar-se, publicamente, como o todo da relação com a transcendência. O elo dos fragmentos com o conjunto permanece indizível no tempo intermediário porque a totalidade é inimaginável. A palavra de Jesus salvaguarda as fronteiras exprimindo seu caráter provisório[21].

O reconhecimento da singularidade do cristianismo não pode ocorrer apagando ou desconhecendo a extrardinária diversidade das tradições religiosas. É no diálogo efetivo que se dá encaminhamento a uma sinfonia de vozes plurais que facultam a profunda revelação do Mistério sempre maior.

A missão cristã não perde sua razão de ser nessa nova perspectiva, mas vem ressignificada. O cristianismo deixa de ser entendido como um “imperativo categórico” para todos, sendo agora descortinado como um dom de uma singularidade. De fato, a missão evangelizadora é essencialmente uma “missão de amor”. Encontra sua razão de ser e sua raiz na experiência do Deus de amor (1 Jo 4,8.16), que é uma experiência de “amor fontal”. No encontro com Jesus, os cristãos vivem a radicalidade de uma dinâmica de amor, bem como um exemplo de vida descentrada e dedicada ao serviço: alguém que proclamou o projeto de Deus muito mais com atos e o diálogo do que com palavras. Como tão bem mostrou José Antonio Pagola, Jesus é alguém que contagia saúde e alegria, que abre as portas para a percepção de um Deus que é “amigo da vida”, um Deus de compaixão e sempre misericordioso. Para ele, o decisivo foi sempre o amor, que é a expressão mais adequada para sinalizar a chegada do reino de Deus. É a partir desse “centro do mistério do amor” que nasce a decisão e o desafio do impulso missionário[22]. Em sua raiz encontra-se a experiência de uma amor profundo por Jesus Cristo, que se traduz pelo desejo de compartilhá-lo com os outros. Antes de ser o resultado de um mandato, a missão evangelizadora é expressão de um mistério do amor que transformou o sujeito[23].

Conclusão

Nada mais desafiante no tempo atual do que a abertura ao outro, respeitando sua dignidade essencial e deixando-se enriquecer pelo Mistério que o circunda. É levando a sério o outro, na sua intransponível alteridade, que se firma para os cristãos uma melhor inteligência de sua identidade. Como mostrou Claude Geffré, a singularidade cristã vem hoje definida em termos de “relação a uma alteridade”. E é “em virtude mesmo de nossa identidade cristã, que somos convidados a reconhecer o outro, o estrangeiro, na sua diferença e no limite que ele nos impõe”[24]. A identidade cristã não vem mais definida em termos de perfeição adquirida, mas enquanto processo em transformação, sempre habitada pelo desafio do outro. Essa sensibilidade dialogal vem reforçada e ampliada pela tônica da espiritualidade. Trata-se do fermento essencial para a ampliação do olhar. Na visão lúcida de Panikkar, há uma indispensável dimensão experiencial e mística na base da abertura interreligiosa. E argumenta:

Sem uma certa experiência que transcende o reino mental, sem um certo elemento místico na própria vida, não se pode esperar superar o particularismo da própria religiosidade, nem mesmo ampliá-la ou aprofundá-la, ao ser defrontado com uma experiência humana diferente[25].

Todas as religiões, incluindo o cristianismo, são fragmentos que expressam no tempo os sinais de uma “Presença Espiritual” que em si é isenta de ambiguidades. Há que ter viva essa consciência para evitar as tentações absolutizadoras. Não há como julgar as distintas expressões religiosas, como verdadeiras ou ilusórias, a não ser partindo do fundo mesmo do Mistério, que é impenetrável. O que se almeja no horizonte é uma comunhão que saiba preservar as diferenças, mas o caminho está em aberto, pontuado pelo “tempo da paciência de Deus”, e “ninguém pode obrigar Deus a agir mais depressa do que ele decidiu fazer”[26].

(Publicado na revista Convergência (Revista da Conferência dos Religiosos do Brasil), v. 46, n. 443, julho/agosto de 2011, pp. 373-384)



[1] Peter BERGER. La désécularisation du monde: un point de vue global. In. Peter BERGER (Ed.). Le réenchantement du monde. Paris: Bayard, 2001, p. 28.

[2] José Oscar BEOZZO. Grandes questões da caminhada do cristianismo na América Latina e no Caribe. In: Wagner Lopes SANCHES (Org.). Cristianismo na América Latina e no Caribe. São Paulo: Paulinas, 2003, pp. 49-50; Peter BERGER. La désécularisation du monde: un point de vue global. In. Peter BERGER (Ed.). Le réenchantement du monde, p. 23.

[3] Clifford GEERTZ. Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 158.

[4] Wilfred Cantwel SMITH. The faith of other men. New York: Harper & Row, 1962, p. 11 (Apud Paul J. Knitter. Introdução às teologias das religiões. São Paulo: Paulinas, 2008, pp. 21-22).

[5] Roger HAIGHT. Jesus, símbolo de Deus. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 485.

[6] Raimon PANIKKAR. Vita e parola. La mia opera. Milano: Jaca Book, 2010, p. 21; Id. L´esperienza della vita. La mistica. Milano: Jaca Book, 2005, pp. 57-66; Id. Mistica pienezza di vita. Mistica e spiritualità (Tomo 1). Milano: Jaca Book, 2008.

[7] DALAI LAMA. Uma ética para o novo milênio. Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 33.

[8] André COMTE-SPONVILLE. O espírito do ateísmo. São Paulo: Martins Fontes, 2007, pp. 127ss.

[9] Paul TILLICH. Le christianisme et les religions. Paris: Aubier, 1968, p. 173.

[10] Paul RICOEUR. La pensée protestante aujourd´hui. Réforme, n. 2609, 1995, p. 8. Em outro artigo assinalava: “É aprofundando meus próprio compromisso que posso encontrar aquele que, partindo de outro ponto perspectivo, realiza um movimento análogo”: Id. Em torno ao político. Leituras 1. São Paulo: Loyola, 1995, p. 188.

[11] Paul RICOEUR. La pensée protestante aujourd´hui, p. 8.

[12] IBN´ARABÎ. Le livre des chatons des sagesses. Tome Premier. Beyrouth: Al-Bouraq, 1997, p. 278.

[13] Leonardo BOFF. A espiritualidade na construção da paz. In:

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/06/07/a-espiritualidade-na-construcao-da-paz-296837.asp (acesso em 14/12/2010)

[14] Carlos Frederico B. De SOUZA. A mística do coração. A senda cordial de Ibn´Arabî e João da Cruz. São Paulo: Paulinas, 2010, p. 244.

[15] IBN´ARABÎ. L´interprete delle passioni. Milano: Urra, 2008, p. 51 (XI,13-15).

[16] Louis MASSIGNON. Écrits mémorables II. Paris: Robert Lafont, 2009, pp. 309-310; AL-NÛRÎ DE BAGDAD. Moradas de los corazones. Madrid: Trotta, 1999, p. 36 (Estudio Introductorio de Luce López-Baralt).

[17] Teilhard de CHARDIN. O meio divino. Petrópolis: Vozes, 2010, p. 115.

[18] Edward SCHILLEBEECKX. História humana revelação de Deus. São Paulo: Paulus, 1994, p. 213.

[19] Carlos MESTERS. Jesus, o Filho do Homem e o diálogo ecumênico e interreligioso. Tempo Brasileiro, 2010 (no prelo).

[20] Paul F. KNITTER. Jesus e os outros nomes. São Bernardo do Campo: Nhanduti, 2010, p. 109. Ver também: Wesley ARIARAJAH. La Bíblia y las gentes de otras religiones. Santander: Sal Terrae, 1998.

[21] Christian DUQUOC. O único Cristo. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 163.

[22] José Antonio PAGOLA. Jesus aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2010. Para uma resenha do livro cf. Faustino TEIXEIRA. Jesus, aproximação histórica. REB, v. 70, n. 280, outubro 2010, pp. 974-978.

[23] PONTIFÍCIO Conselho para o Diálogo Interreligioso. Diálogo e anúncio. Petrópolis: Vozes, 1991, n. 83.

[24] Claude GEFFRÉ. De babel à pentecôte. Paris: Cerf, 2006, p. 123 (ver também p. 122)

[25] Raimon PANIKKAR. La nuova innocenza 3. Sotto il Monte: Servitium, 1996, p. 156.

[26] SECRETARIADO para os Não-Cristãos. A igreja e as outras religiões. São Paulo: Paulinas, 2001, n. 44 (Documento Diálogo e Missão).