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terça-feira, 13 de abril de 2010

Um dominicano diante do mistério do islã

Um dominicano diante do mistério do Islã

 

Faustino Teixeira

PPCIR/UFJF

 

Entre as novidades de 2008 da editora Cerf francesa, destaca-se o singular livro de Jean-Jacques Pérennès: Georges Anawati (1905-1994). Un chrétien égyptien devant le mystère de l´islam. Ao debruçar-se sobre essa bela obra, o leitor fica admirado ao constatar o significativo empenho de alguns dominicanos católicos que se dedicaram ao trabalho de aproximação religiosa ao islã, mesmo antes da abertura conciliar. Um desses importantes nomes foi Georges Anawati, um religioso católico egípcio que consagrou toda a sua vida ao desafio de compreender o islã. Nas trilhas abertas por Louis Massignon (1883-1962), que dizia que a melhor forma de conhecer o outro é tornar-se seu hóspede, Anawati destacou-se pelo seu excepcional dom de abertura e amizade. Ainda hoje, seu nome é uma referência entre os ulemás egípcios.

Nascido numa família de ortodoxos, ele opta aos 16 anos pelo caminho do catolicismo, em razão de sua abertura de horizontes. Aos 28 anos decide-se pela ordem dominicana, e ali busca trabalhar e resolver seu conflito interior, de alguém que se debate entre a cultura francesa e a identidade oriental. A resposta a tal desafio encontra no caminho dialogal: transcorre toda a sua vida no trabalho de diálogo com os muçulmanos. Em seu original método de encontro com o outro, sublinhava a importância da amizade sincera, do estudo sério do patrimônio religioso e espiritual do outro, bem como o empenho de uma aproximação humana e inteligente da alteridade como ponto de arranque para a dinâmica dialogal.

A resposta ao desafio dialogal não poderia acontecer senão através de um novo olhar sobre o islã. Essa perspectiva foi favorecida pelo influxo de Louis Massignon, um dos mais importantes pesquisadores no domínio dos estudos árabes e islâmicos. Foi Massignon que abriu caminho para uma “visão empática” do islã, apontando para a singularidade de um método “interiorista”, que privilegiava o conhecimento da outra tradição a partir “de dentro”. A rica contribuição de Anawati, na linha da tradição dominicana, vai acontecer no âmbito intelectual. Vale registrar o seu precioso trabalho no Instituto dominicano de estudos orientais, no Cairo (Egito), entre os anos de 1944 e 1953. O que o movia era a busca da verdade, antes de tudo. Essa era para ele a regra indispensável para qualquer diálogo. Em seu otimismo peculiar, Anawati acreditava que a missão a ele destinada por Deus era a de “promover o diálogo científico, filosófico e cultural com o islã”. Num longo encontro com Massignon, em 1940, Anawati reforça essa perspectiva de estudar a fundo o islã, e a orientação de nunca “minimizar o islã”.

A criação do Instituto dominicano de estudos orientais nasceu de uma intuição do padre Marie-Joseph Lagrange (1855-1938), fundador da Escola bíblica de Jerusalém. Foi também estimulado pelo teólogo Marie-Dominique Chenu, então reitor de Le Saulchoir, a grande escola de formação teológica do período. Para Chenu, fazia-se necessário abrir espaço acadêmico para um estudo sério do islã. E dizia, numa nota de 1945: “não mais partir para a conquista do islã, nem mesmo converter aqui e ali alguns indivíduos (...), mas entregar-se ao estudo aprofundado do islã, de sua doutrina e civilização”. Nessa perspectiva vai atuar no Cairo um “trio insólito”: Anawati, Jacques Jomier e Serge de Laugier de Beaurecueil. Os três intelectuais vão deixar-se banhar pelos ensinamentos dos ulemás de al-Azhar, com a riqueza da iniciação às complexas disciplinas da religião muçulmana.

Os frutos dessa experiência vão suscitar em Anawati um trabalho intelectual destacado. Pode-se mencionar a importante obra realizada em parceria com Louis Gardet: Introduction à la théologie musulmane. Essai de théologie comparée (Paris: Vrin, 1948). Trata-se de um dos trabalhos mais importantes desse autor, e que vai se tornar obra de referência. Com esse mesmo parceiro, Anawat vai publicar a obra Mystique musulmane. Aspects et tendances expériences et techniques (Paris: Vrin, 1961). Anawati destacou-se ainda como tradutor e intérprete de Avicena. No âmbito acadêmico, foi professor visitante nas Universidades da Califórnia (Los Angeles – USA),  Angelicum, Urbaniana (Roma), e em Montreal (Canadá), no Instituto de Estudos Medievais (fundado por Étienne Gilson).

No campo do diálogo entre cristianismo e islã, vale assinalar o seu trabalho junto ao Secretariado pela Unidade dos Cristãos (nomeado em 1963) e no Secretariado para os não-cristãos, desde a sua fundação, em 1964. Nesse último secretariado trabalhou junto com nomes importantes: Abd el-Jalil, Roger Arnaldez, Robert Caspar e Louis Gardet. Teve um papel singular nesses dois Secretariados, propiciando uma nova sensibilização com respeito ao islã. Sobre o tema do islã, escreveu um texto para um dos experts do Concílio, Gustave Thils; tendo ainda proferido uma importante conferência no Angelicum sobre “o islã no momento do concílio: prolegômenos de um diálogo islamo-cristão” (novembro de 1963), cujo texto chegou provavelmente às mãos do papa Paulo VI. Anawati foi um intelectual infatigável. Ao morrer, estava redigindo o seu tratado sobre a unicidade de Deus (Tawhid), iniciado nos anos 70.

Ao final da vida pôde presenciar o belo gesto de hospitalidade de João Paulo II, na Jornada Mundial de Oração em favor da paz, na cidade de Assis (1986). Ali realizava um pouco de seu sonho dialogal, traduzido nas palavras do papa: o diálogo como uma “viagem fraterna na qual nos acompanhamos uns aos outros rumo à meta transcendente que ele (Deus) estabelece para nós”. A grande mensagem deixada por Anawati indica que a aproximação ao islã deve acontecer com muita delicadeza e respeito. Em vez de isolar e proteger nossas fronteiras para resguardar a verdade, é necessário “abrir as portas” e “alongar as cordas” para ampliar nosso olhar e reconhecer que o islã também vem acolhido no desígnio misterioso de Deus.

 

(publicado em Amaivos.uol.com.br  - 23 de setembro de 2008)

 

Uma fé que transborda fronteiras

Uma fé que transborda fronteiras: diálogos com o Cardeal Martini

 

Faustino Teixeira

 

Uma singular novidade nesse tempo do advento é a recente tradução do livro do Cardeal Carlo Maria Martini (1927- ), Diálogos noturnos em Jerusalém. Trata-se de uma iniciativa da editora Paulus, em colaboração com a Cátedra Carlo Maria Martini (PUC-RJ). A obra traduz o debate entre o eminente Arcebispo emérito de Milão e o pe. Jesuíta Georg Sporschill. No centro dos diálogos, o sonho comum em favor de uma Igreja aberta e a esperança na juventude.  O lugar do encontro também foi significativo: a cidade de Jerusalém. Essa “cidade da paz” reflete o toque doloroso de um tempo de intransparências. Ali se experimentam tensões, conflitos e ódio inter-religioso. Mas também a esperança: a percepção de que o trabalho em favor da paz envolve sempre um “processo doloroso”. É a cidade onde “Deus toca o mundo”. O Cardeal Martini é uma das mais importantes figuras do cenário eclesial contemporâneo. Inserido na tradição jesuíta, foi Arcebispo de Milão entre os anos de 1980 e 2002, e por muitos anos um forte candidato à sucessão papal. Ao completar 75 anos de idade, deixou a diocese de Milão e passou a morar na casa dos jesuítas em Jerusalém, considerada a “cidade do seu primeiro amor”.

O título do livro é bem sugestivo. Os diálogos são noturnos, pois “a noite é tempo de escuridão, da imaginação, de sentidos mais aguçados”. E o meio da noite já anuncia o dia em seu momento virginal. Como sublinha Georg Sporchill no início da obra, “os diálogos em Jerusalém, realizados num lugar onde a história dos cristãos teve seu começo, são também diálogos sobre o caminho da fé em tempos de incerteza”. São inúmeros os temas tratados no livro, entre os quais o desafio da abertura corajosa da Igreja ao mundo e aos outros, o percurso que leva à intimidade com Deus e o encontro com o Jesus amoroso e solidário. Vamos nos deter em alguns tópicos particulares.

Em tempos de “inverno eclesial”, Martini aponta o sonho de uma Igreja corajosa e ousada. Tem no horizonte o impulso profético que sinaliza o desafio de transmitir aos outros não as decepções da vida, mas os sonhos mais decisivos. E esses sonhos “nunca envelhecem”. Confessa, porém, que não acalenta hoje muitos sonhos ou esperanças numa Igreja jovem: “Aos 75 anos me decidi a rezar pela Igreja. Olho para o futuro (...). A utopia é importante. Só quando você tem uma visão é que o espírito o eleva acima de querelas mesquinhas”.

Acredita também na possibilidade de uma Igreja mais sintonizada com o tempo, mais compreensiva e solidária, mais disponível aos apelos dos jovens, mais integrada à realidade da vida. De forma corajosa, aponta o desafio eclesial de encontrar uma palavra nova e um caminho melhor no campo da sexualidade e da família, para além dos limites definidos na Encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI (1968): “A Igreja recuperaria credibilidade e competência (...). Não podemos de modo algum esperar tanto tempo nos temas que tratam da vida e do amor”. Aborda igualmente questões candentes como o celibato – assinala que “nem todas as pessoas chamadas ao sacerdócio tenham este carisma” – a ordenação de homens casados, “experimentados e confirmados na fé”, e o homossexualismo, que a seu ver mereceria um tratamento mais sereno na Igreja. Para Martini, “A Igreja deve trabalhar em favor de uma nova cultura da sexualidade e do relacionamento”, e alimentar um profundo respeito à dignidade da pessoa humana, também no âmbito da sexualidade

Em vários momentos do livro, o Cardeal Martini fala da importância do diálogo da Igreja com as diversas expressões religiosas e do desafio imprescindível de entrar no mundo do outro. As religiões têm, para ele, um papel essencial em nossos tempos: “Todas as Igrejas, todas as religiões têm como objetivo fazer o bem neste mundo, tornar o mundo mais luminoso”. Não há como manter-se fechado e enclausurado no círculo estreito de uma única tradição. Há que se deixar surpreender por Deus, pois “o Espírito sopra onde quer” e o “estupor pode também conduzir-nos a Deus”. Na visão de Martini, o desafio de ir ao encontro do outro, com atenção e delicadeza, traduz um dos caminhos que levam a Deus. Isso é viver verdadeiramente a abertura universal. Para superar a “estreiteza do coração” é necessário alargar as fronteiras: “Não se pode fazer um Deus católico. Deus está além dos limites e das definições que estabelecemos. Precisamos de limites na vida, mas não podemos confundi-los com Deus, cujo coração é sempre maior”.

Como reconhece o Cardeal Martini, as religiões são portadoras de um grandioso patrimônio espiritual: elas existem “para ajudar o maior número possível de pessoas a encontrar uma pátria em Deus”. Relata que em sua longa experiência encontrou amigos em distintas tradições religiosas, entre os quais estão “os anjos que podemos encontrar aqui na terra”. Foram experiências novidadeiras, mas que jamais o distanciaram do cristianismo. Sublinha que, ao contrário, esse convívio fraterno com os outros reforçou o seu amor à Igreja. O exercício de abertura dialogal com os outros, requer, porém, a presença de amigos que possam servir de guia nessa travessia. E esse caminho vai revelar novas e mais profundas facetas do ser cristão. Não há que temer os “estranhos”. O diálogo com o islã, foi um dos mais aprofundados por Martini. Nos tempos de sua atuação na diocese de Milão escreveu o clássico texto Nós e o Islã. O tema vem retomado no livro, trazendo facetas fundamentais que devem reger o diálogo entre as duas tradições religiosas. Assinala três fundamentais tarefas: em primeiro lugar a eliminação de preconceitos e imagens distorcidas construídas ao longo da história do cristianismo. Em segundo lugar, o reconhecimento das diferenças, mas também o desafio de afirmação da fé num único Deus. Em terceiro lugar, o exercício da práxis dialogal, da hospitalidade recíproca e da experiência comum de oração.

Toda essa abertura dialogal tem sua raiz na fé de Jesus e no seu testemunho essencial de hospitalidade inter-religiosa. Na abertura do livro, o pe. Georg Sporschill dizia que o Cardeal Martini nos possibilita um encontro peculiar com Jesus, a partir de uma perspectiva distinta da apresentada pelo Papa Bento XVI em seu livro sobre Jesus de Nazaré. O que há de singular aqui é o traço de Jesus “amigo dos publicanos e pecadores. Ele escuta as perguntas dos jovens. Ele provoca inquietação. Ele luta conosco contra a injustiça”. Para Martini, o que distingue o amor de Jesus é a sua experiência de amor que visibiliza o Deus misericordioso; e também a sua disponibilidade e abertura aos “estranhos”. Traz em sua vida um “amor aberto”. Jesus torna-se exemplo para o cristão que ousa corajosamente entrar em diálogo com os outros: “Jesus é nosso mestre nessa abertura aos ´estranhos`, que no seu tempo eram os pagãos e os soldados romanos”.

O Cardeal Martini sublinha em seu livro que o amor é o que há de mais essencial no nosso testemunho histórico, no nosso relacionamento humano. Seguindo a norma bíblica contida na versão original hebraica, há que amar o próximo, “porque ele é como tu”. E esse amor deve acontecer na atmosfera fundamental da bem-querença de Deus. Há que “buscar a Deus com sinceridade e prontos a nos entregar a ele”. E isso, para Martini, é “muito mais importante que uma exterior profissão de pertença religiosa”. Num tempo carente de vozes proféticas, o livro do Cardeal Martini revela-se auspicioso. Acende a chama de esperança nos cristãos que acreditam num novo modo de ser Igreja.

 

(enviado para Amaivos em 19/12/2008)