terça-feira, 9 de setembro de 2014

Mistério e tempo: esboço de prefácio

Mistério e tempo: esboço de prefácio

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF

A ressurreição já esta sendo urdida,
os tubérculos da alegria
estão inchando úmidos,
vão brotar sinos

(Adélia Prado)

            Estamos diante de dois temas apaixonantes: mística e literatura. Muito rica essa iniciativa de Jimmy Sudario Cabral e Maria Clara Bingemer de poder abrir espaço para essa reflexão tão atual e enigmática. É fruto de todo um rico trabalho que vem sendo desenvolvido na PUC-RJ, com o aporte de pesquisadores de outras universidades cariocas.

Poéticas do Mistério, um título que traduz a riqueza de um encontro de narrativas que buscam se aproximar, tateando, desse horizonte sedutor e intraduzível. O recurso que anima essa busca é o que temos disponível: a linguagem. Mas é um instrumento frágil para expressar a dimensão oceânica do real. Místicos e poetas sabem muito bem disso. O que fazem é aludir, acenar para a força que habita a experiência, da presença iluminadora de algo não natural que os envolve e abrasa. Ou como diz Luiz Felipe Pondé, da “visita daquilo que não cabe na natureza”. Apesar dessa intransparência, insistem em dizer “algo” sobre isso, descrevendo “sensações”, num movimento enigmático de traduzir essa cores vibrantes e sutis do cotidiano. Essa é a grande beleza da narrativa mística e poética. Mas é também uma linguagem excessiva, em razão da carência de uma gramática que forneça os requisitos para dizer esse Mistério. O caminho é o da “desnaturalização da língua”, como indica Michel de Certeau: “atormentar as palavras” para que possam dizer o que literalmente não conseguem[1]. Essa “alquimia” da palavra foi magnificamente descrita por Arthur Rimbaud, em sua obra Uma estadia no inferno:

“Inventei a cor das vogais ! – A negro, E branco, I rubro, O azul, U verde. Regulei a forma e o movimento de cada consoante e, com ritmos instintivos, me vangloriava de inventar um verbo poético acessível, algum dia, a todos os sentidos. Eu me reservava a tradução. A princípio era apenas um estudo. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens”[2].

                  É também uma palavra que se nutre do silêncio, de uma passividade densa, receptiva ao canto das coisas[3]. E para ouvir esse canto é necessário sair um pouco da praça, deixar por momentos as “margens da distração” – tão predominantes em nosso tempo – e captar a “música calada” ou o “vazio de plenitude”, como fala Lao-Tsé. Esses estados passivos não indicam inatividade, mas sim uma dinâmica de recolhimento, de renúncia de tudo aquilo que dificulte o trabalho interior para melhor poder antenar todas as faculdades na escuta atenta do tempo. Sobre isso fala João da Cruz, mas também Octavio Paz: “Os estados passivos não são apenas experiências de silêncio e do vazio, mas também momentos positivos e plenos: do núcleo do ser salta um jorro de imagens”, provocando a inusitada vontade criadora[4].

            A teologia cristã debruçou-se sobre a importância desse “tempo de quietude”, de quietação, de silêncio. O místico Thomas Merton fala em “trabalho de cela”, de recolhimento silencioso para não deixar escapar nenhuma das vozes singulares do mundo; tempo de aprendizado para o exercício de uma palavra nova, diferente, de paz, misericórdia, acolhida e generosidade[5]. Jürgen Moltmann fala desse tempo precioso, que é “deixar-se envolver pelo silêncio”, de forma a facultar a abertura de todos os sentidos para as belezas circundantes. Não sem razão – sublinha – a bíblia indicou a observância do sábado, esse “repouso” essencial do sétimo dia[6].

            Às vezes o poeta não precisa dizer muito, basta algumas palavras para expressar sentimentos que são grandiosos. Como nos haikais japoneses, que recorrem aos elementos suficientes para “acender a chispa”. Um verdadeiro exercício espiritual: “perder-se no cotidiano para encontrar o maravilhoso”[7]. Com suas proposições simples e cotidianas, o haikai vem alojado nesse código de sentimentos nomeado como “emoção poética”, nesse significante difuso e inefável. O que o poeta faz é simplesmente anotar impressões[8], captar com o olhar intuitivo os instantes privilegiados:  

            “Como admirável
                  Aquele que não pensa: ´A vida é efêmera`
                  Ao ver um relâmpago” (Bashô)

                  O poeta e o místico lidam com o “desconhecido”. Não se contentam com o presente apresentado, mas um presente grávido de futuro, que se abre ao encontro do que vem.  É rica a gama de sensações ante o mistério do Outro, de estupefação e alegria. Conjuga-se, simultaneamente, o assombro e a sedução. Num primeiro momento, a tendência de recuar, mas logo temperada pela presença que convida. A repulsa inicial vem “sucedida pelo movimento contrário: não conseguimos tirar os olhos da presença, e nos inclinamos para o fundo do precipício”[9].

            Um leito comum irmana poetas e místicos: a experiência amorosa, o enamoramento das pequenas grandes coisas e a atenção aos sinais do cotidiano. Mas tanto na experiência do amor como na presença do Mistério, o ser humano sente-se despojado de si, arrancado de sua substância. E curiosamente, no mesmo movimento de êxtase que acompanha a saída de si, o sujeito se dá conta que esse Mistério confunde-se com o próprio ser, ou melhor, com a profundidade do ser. Na verdade, como lembrou Ernesto Cardenal, “no centro de nosso ser não somos nós, mas Outro”[10].

            A densidade da experiência amorosa não destaca o místico ou o poeta da realidade, mas suscita um “desaforado amor pelo todo”, uma sede irrefreável de adentrar-se na espessura do tempo, com outra perspectiva e foco. Como diz Alberto Caieiro, no guardador de rebanhos, “o essencial é saber ver”[11]. Vale para o místico o que disse Rimbaud sobre a fome dos poetas: “Só me alimento de ar, de rochas, de carvão, de ferro”[12]. Não há nada além do real, mas nele brilha uma Presença, uma “deslumbrante presença de tudo”. E há que seguir atento esse rastro, esse aroma, essa fragrância. O grande capadócio, Gregório de Nissa, definia bem esse Mistério, em sua homilía sobre o cântico dos cânticos: um “perfume difuso” que se espraia por toda a criação, para além de todos os nomes ou pensamentos.

            O eterno brilha no tempo. Não há outro lugar de sua realização. É no aquém, e não no além, que devemos sondar o seu rosto e sorver o leite de sua generosidade. A tessitura do verso poético e da narrativa mística nascem no tecido mesmo da vida. O outro mundo, impermeável às palavras e distante do olhar superficial, está dentro deste mundo, já o recordou o místico sufi Rûmî. Para acessá-lo há que lavar as mãos e o rosto “nas águas deste lugar”. O fino observador, seja poeta ou místico, sabe que “o outro mundo nos rodeia sempre e não é, de modo algum, o ponto de chegada de nenhuma peregrinação”[13]. É o sempre-já-aí, que se adentra pelas frestas, sem a intervenção de nossa ação. A magnífica textura de sua presença e voz, “seu extraordinário estofo” se fazem sentir mesmo na “escuridão vítrea”, como um lado reverso. A vida inteira, como sinaliza Lila Azam, com base em Nabokov, é um “labirinto de sinais, débeis pontos de luz elaborando esquemas ainda desconhecidos”. Diante desta beleza, as narrativas místicas e poéticas não são senão “textura cintilante”.

            Em singular trabalho sobre a mística, o teólogo Jürgen Moltmann chama a atenção para a espiritualidade dos sentidos despertos. Sublinha que nós, humanos, não conseguimos alcançar o mistério de Deus, não por razão de sua distância, mas pela sua ardente proximidade. Esse tema foi abordado de forma sublime por Nizami (sec. XIII), na história de um amor impossível. Laila e Majnum. No momento decisivo do encontro, a impossibilidade do abraço. E a trêmula voz de Laila sussurra: “Nem tão longe, mas nem tão perto. Agora sou igual a uma vela ardente; um passo mais perto do fogo e eu serei consumida completamente. A proximidade traz o desastre, pois os amantes só estão seguros separados”[14].

            Mesmo com essa “reserva escatológica”, o ser humano percebe que é no abandonar-se gratuitamente no mundo, com suas belezas e sombras, que o Mistério maior, sem nome, mostra sua face. Mas há que ter sentidos vigilantes para perceber sua presença: olhos aberto, ouvidos atentos e os outros sentidos despertos. Moltmann adverte que a experiência de Deus testemunhada na bíblia, não dissocia o que está dentro ou fora, a religião e a vida. Não há nenhuma reação de hostilidade com o tempo. Em verdade, o que está no centro é a vida, “a única vida que Deus ama na sua totalidade. Quem busca Deus, deve amar a vida”[15].

            Ao leitor é feito o convite para adentrar-se nessas “poéticas do mistério”, seja nas reflexões de corte mais filosófico, literário ou teológico. São caminhos diversificados e complementares para essa rica aproximação às “nervuras do sagrado”. O mais importante, porém, é desvencilhar-se das amarras cognitivas e existenciais para poder se debruçar sobre o mistério da vida e do real. Tanto a literatura como a mística são alimentos preciosos para a vida do espírito. Não há disparidade entre interioridade e transcendência, entre imanência e abertura. Faço o mesmo convite feito por André Comte-Sponville: o de “habitar o universo”, de romper o ensimesmamento e “sair de si, o mais possível” e “abrir-se para a vida, para o real, para tudo”[16].

Publicado em: Jimmy Sudário Cabral & Maria Clara Bingemer (Orgs). Finitude e Mistério. Mística e literatura moderna. Editora PUC-RJ/Mauad, 2014




[1] Michel de Certeau. La fable mystique 1. Paris: Gallimard, 1982, p. 195. Sobre isso diz Octavio Paz: “Um poema que não lutasse contra a natureza das palavras, obrigando-as a ir além de si mesmas e dos seus significados relativos, um poema que não tentasse fazê-las dizer o indizível não passaria de simples manipulação verbal”: O arco e a lira, p. 191.
[2] Arthur Rimbaud. Prosa poética. 2 ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 2007, p. 161.
[3] O que fundamenta a ciência mística, como diz M. de Certeau, é esta “montanha de silêncio”.
[4] Octavio Paz. O arco e a lira. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p. 45-46 (a citação é da p. 46).
[5] Thomas Merton. Reflexões de um espectador culpado. Petrópolis: Vozes, 1970, p. 206-207; Id. Merton na intimidade. Sua vida em seus diários. Rio de Janeiro: Fisus, 290-302. Para Merton, na solidão da cela ou da floresta, não se requer concentação, “apenas estar presente”. Uma grande sabedoria zen.
[6] Jürgen Moltmann. Spiritualità dei sensi vigili. Modena: Fondazione Collegio San Carlo, 2006, p. 18.
[7] Octavio paz. Signos em rotação. 3 ed. São Paulo: Perspectiva, 2003, p. 166.
[8] Roland Barthes. O império dos signos. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 90-95.
[9] Octavio Paz. O arco e a lira, p. 139.
[10] Ernesto Cardenal. Cântico cósmico. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 89.
[11] Fernando Pessoa. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992, p. 217.
[12] Arthur Rimbaud. Prosa poética, p. 171.
[13] Lila Azam Zanganeh. O encantador. Nabokov e a felicidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013, p. 234.
[14] Nizami. Laila & Majunun. A clássica história de amor da literatura persa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002, p. 162.
[15] Jürgen Moltmann. Spiritualità dei sensi vigili, p. 6-7.
[16] André Comte-Sponville. O espírito do ateísmo. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 183 e 185.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A Meditação Zen e a Recuperação da Memória: breves anotações

A Meditação Zen e a Recuperação da Memória: breves anotações

Faustino Teixeira


Numa de suas obras mais importantes, Bendowa (O caminho religioso), Mestre Dogen enfatiza a importância do Zazen, visto por ele como um “ponto central e irrenunciável” do ensinamento de Sakyamuni (Buda). A tarefa primordial dos Patriarcas Zen foi a de buscar transmitir corretamente, de mestre para discípulo, a prática do Zazen, mantendo vivo o seu ensinamento.

Há que buscar refletir hoje sobre o significado da meditação Zen Budista, com o recurso de textos de Dogen, mas também da límpida e didática reflexão sobre o tema tecida por José Carlos Michelazzo, que a meu ver é um dos mais competentes e generosos autores nacionais que tratam desse tema.

O texto em questão é: “Desapego e entrega: atitudes centrais da meditação Zen Budista e suas ressonâncias nos pensamentos de Eckhart e de Heidegger”. Esse texto foi apresentado no V Colóquio sobre o Pensamento Japonês (São Paulo, novembro de 2010 – e publicado na Revista REVER da PUC-SP, Ano 11, n. 2, jul/dez 2011). Não quero abordar todo o texto, mas um aspecto que considero fundamental apresentado ali.

Michelazzo, de forma divertida, começa sua introdução comentando algumas falas corriqueiras sobre a meditação Zen apresentadas na internet. Numa delas alguém fala da importância da meditação no tempo atual: “Para quem anda atribulado e assoberbado, a meditação pode ser aquela pausa vinda para ´zerar` o cérebro e conseguir, ainda que por instantes, suprimir os pensamentos angustiantes”. Michelazzo se pergunta o que um mestre Zen diria de opiniões como estas. E para nossa surpresa e “desapontamento”, ele provavelmente diria: “Mas isso é verdade!”.

De fato, a meditação provoca tudo isso. Não são observações falsas, diria o mestre, mas “secundárias” diante do que a meditação traz como essencial. Na prática Zen Budista o que a meditação envolve é algo de muita profundidade, que supera a visão da “dualidade ilusória” e aponta para a “não dualidade salvífica”, que é libertadora.

Mas para entender isso é necessário recuperar um dos mais importantes pressupostos do budismo, que está expresso no Sermão das Quatro Verdades, ou seja, a “originação dependente” (pratityasamutpada) ou “originação reciprocamente condicionada”. Esse pressuposto é ESSENCIAL e indica algo que é singular: todos nós estamos envolvidos numa “teia de interdependência” da qual ninguém pode escapar. O que ocorre, infelizmente, é que nos esquecemos disso.

O Zen Budismo propõe ousadamente a busca de recuperação desta perspectiva, num empenho decidido em favor da ultrapassagem desse modo secundário ou ilusório de compreender o real na linha de um modo mais ORIGINÁRIO.

O pensamento ocidental, mesmo aquele mais arrojado de um Martin Heidegger, não conseguiu superar resquícios de antropocentrismo que não dão conta de captar essa não-dualidade. Talvez tenha sido o cerne da crítica feita a Heidegger por alguns pensadores da Escola de Kioto. Entender a “originação dependente” no âmbito do Zen Budismo é buscar captar o significado mais profundo daquilo que Dogen chamou de “prática contínua”.

Numa de suas obras, Gyoji (do Shobogenzo), Dogen sinaliza que “a partir da perspectiva da ´originação dependente (pratityasamutpadativa da , Dogen sinaliza que "o que Dogen chamou de "r a " secundli. Michelazzo, de forma divertida, começa s` (pratityasamutpada), há simplesmente prática contínua”. O que isso significa? Para que haja prática contínua é necessário quebrar o lastro antropocêntrico que mantém aceso o resquício de dualidade e de auto-centralidade.

Quando se supera isso, segundo Dogen, abre-se um novo campo de percepção e penetração do real: abre-se a possibilidade “de experienciar as polaridades do real em sua completa interpenetração”. Gyogi significa exatamente isso: fazer a prática e se manter nela. E isso não é só possibilidade para humanos, mas para todos os seres, daí talvez a dificuldade antropocêntrica de Heidegger. Para Dogen, diferentemente, “a prática contínua pertence a todos os seres do universo”.

Diz Dogen: “Devido à prática contínua há o sol, a lua, as estrelas, a grande terra e a vastidão do espaço (...). Ver uma flor se abrindo ou uma folha caindo no presente momento é ver plenamente o que a prática contínua é. Não há nenhum polimento de espelho ou quebra de espelho que não seja prática contínua”. É uma prática que traduz essa “teia de interdependência que faz com que todas as existências de todos os seres sejam regidas por uma trama global, total, cósmica”.

 Tudo o que está aí, tudo o que é, diz Dogen, está regido por esse exercício contínuo da teia cósmica. Tudo está ligado a uma “prática da coexistência”. Isso é de uma riqueza única... Para ilustrar essa trama, Michelazzo recorre ao exemplo do peixe dado por Dogen: “O peixe nada na água; a água para o peixe é vida (... por isso) se um peixe deixa a água ele, imediatamente, perece” (Dogen).

O que confere significado pleno à vida do peixe é essa

“completa interpenetração com a água. Não há caminhos objetivamente pré-estabelecidos na água para o peixe nadar porque ele não os estuda antecipadamente. Os caminhos surgem para o peixe ao praticar o nado; peixe e água formam uma unidade não-dualística que é costurada pela prática da natação. E quando essa unidade é quebrada, a essência do peixe, sua piscidade, desaparece” (Michelazzo).

Isso é fantástico, e nos ajuda a entender, e como, tudo o que Viveiros de Castro busca traçar sobre o perspectivismo. Mas voltemos ao Zen. Michelazzo assinala que nós, humanos não damos conta de entender “como o peixe se exercita nessa teia cósmica”, e talvez nunca conseguiremos saber: qual “a postura correta adotada pelo peixe para a sua prática contínua”. E aqui Michelazzo encontra uma chave preciosa para entender a situação de nós, modernos, enredados num antropocentrismo desatento. Ele diz:

“Há nessa constatação paradoxal um aceno da condição humana que pode ser aprendida, talvez, pelas seguintes questões: será que a exclusividade do homem não estaria, então, relacionada ao exercício de uma prática especificamente humana, pelo fato dele ser, dentre todos os seres, o ÚNICO QUE SE ESQUECEU DA TEIA CÓSMICA, que perdeu a memória de sua originação dependente, de sua não dualidade? E por esse esquecimento e perda lhe é exigido um ESFORÇO DIFÍCIL E CONTÍNUO para se entregar ao que originariamente ele é, e, assim, fazer o caminho de volta à sua própria casa?” (Michelazzo).

A meditação Zen é, portanto, esse esforço para voltar à casa, exigindo duas atitudes essenciais: desapego e entrega. E o estado meditativo, diferentemente do estado de vigília ou daquele estado de “final de expediente”, fadado ao sono, é marcado por um ritmo distinto: de imobilidade e relaxamento, mas de atenção desperta. Trata-se de um estado de concentração singular, que os budistas nomeiam como samadhi, em que a mente vem mantida “com foco sem foco”, sem apegos a pensamentos.

 Não há mais objeto ou coisa sobre a qual a atenção se debruça, a atenção é agora distinta, plena, e seu ritmo é aquecido pelo vazio, pelo “sem porque”. E nessa sensação de calma e tranquilidade o ser humano tem melhores condições de perceber sua dimensão absolutamente contingente e também a contingência dos fenômenos; e também da insubstancialidade de todas as coisas.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Uma dor do Brasil: o trabalho escravo contemporâneo

Uma dor do Brasil: o trabalho escravo contemporâneo

Faustino Teixeira
PPCIR - UFJF

            É motivo de grande alegria poder estar aqui nesta prestigiosa Academia e falar sobre um tema tão candente. O  meu agradecimento ao acadêmico Domício Proença Filho, que está na coordenação desse seminário, e em particular ao acadêmico e amigo querido, Marco Lucchesi,  que me convidou para estar nessa mesa, junto com Ricardo Rezende, parceiro de caminhada e esperança. O momento é também propício, quando o Cristo Redentor ficou iluminado de Azul, simbolizando a Campanha Nacional contra o Tráfico Humano, lançada nesse 28 de julho de 2014.

            Falar de trabalho escravo no Brasil, ou de trabalho análogo à escravidão, é tocar num tema complexo, que desperta algo sombrio, expressando uma das “dores do Brasil”. Aqui me recordo de ricas reflexões tecidas a respeito pela escritora e psicanalista, Maria Rita Kehl, que também participa da Comissão da Verdade. Ela fala na introdução de um de seus livros, “18 crônicas e mais algumas” (2011), que o “Brasil dói, o Brasil traumatiza”. Se há de um lado tantas riquezas e belezas, diversidade e inter-comunicação, há por outro, traços mais tormentosos e violentos, de um Brasil simultaneamente “cativante e áspero, acolhedor e cruel”.

            Esse tema doloroso, enquanto reflexo de nossas tristes mazelas sociais, traduz em verdade “restos não resolvidos de 350 anos de escravidão”, como vem evidenciando as pesquisas de Luiz Felipe de Alencastro, professor titular da cátedra de História do Brasil na Universidade de Paris-Sorbonne.

Como mostrou Alencastro, “desde a abolição do tráfico negreiro, em 1831, até a abolição da escravatura, mais de 700 mil africanos chegaram ao país. A escravização desses homens e mulheres era ilegal até mesmo para as leis brasileiras da época”, o que ficou ocultado para eles e seus descendentes até 1888 quando terminou a escravidão[1]:

Há que reconhecer o crescimento e afirmação de políticas contra a segregação no Brasil, mas infelizmente a abolição mesmo, de fato, não ganhou status de cidadania, pois ainda vemos, por todo canto, pessoas jogadas nas ruas, sem trabalho, sendo objeto de discriminação e rejeição; bem como pessoas submetidas a trabalhos forçados ou condições degradantes de trabalho, ou ainda objeto de tráfico desumano.

Como assinala Xavier Plassat, o Brasil firma-se como “grande exportador de pessoas, principalmente mulheres, exploradas na prostituição nos países de destinação, particularmente da Europa” [2]

            Em seu discurso na abertura da Feira do Livro de Frankfurt, em 2013, o escritor Luiz Ruffato falou dessa dor de um Brasil que nasceu “sob a égide do genocídio”[3]: do genocídio dos povos originários, que antes somavam quatro milhões e hoje não passam de 900 mil:

O fim da escravidão indígena no Brasil, ocorrida em 1755, não significou efetiva incorporação dessa população nativa à sociedade nacional. E o descaso permanece, como vem acentuando Dom Erwin Kräutler, presidente do CIMI, nas Assembléias da CNBB: o acirramento da prática de violência contra os povos indígenas: entre 2003 e 2010, de acordo com os dados do CIMI, 499 indígenas do Brasil foram assassinados (Assembleia de maio de 2011 – a 49ª); o registro de 463 suicídios de índios Guarani e Kaiowá: “obrigados a viver em acampamentos nas beiras das estradas ou em pequenos espaços retomados no interior das fazendas”. São “vítimas frequentes de ataques promovidos por pistoleiros e fazendeiros. Há casos recorrentes em que a aldeia é incendiada e líderes são assassinados” (Assembléia de maio de 2014 – a 52ª)[4]

O genocídio envolve igualmente os africanos negros, que até meados do século XIX foram aprisionados e levados à força para o nosso país. Os números falam mais forte: nada menos que 4.800.000 africanos foram deportados da África para o Brasil, ou seja 43% do número total, um número bem superior ao dos escravos que foram deportados para os Estados Unidos, em torno de 600 mil.

Um dado curioso, apontado por Luiz Felipe de Alencastro: na cidade do Rio de Janeiro, por volta de 1849, havia 110 mil escravos para uma população de 260 mil habitantes, ou seja, 42%.[5]

            A abolição da escravatura, em 1888, não veio seguida de uma política que assegurasse a afirmação da cidadania aos ex-cativos. Assistimos, assim, mais de um século depois, ao triste espetáculo de uma impressionante desigualdade racial no Brasil.[6] A grande maioria dos afro-descendentes, como assinala Ruffato, “continua confinada à base da pirâmide social”.

            Quando se reconhece hoje no Brasil a vigência de situações que “reduzem alguém a condição análoga à de escravo”, isto deve ser situado dentre desse quadro mais amplo do processo histórico nacional que não conseguiu restringir essa dolorosa diferença ou “dicotomia eu-outro”, que acirra os preconceitos e aciona as violências. O outro, o diferente, passa a ser aquele que nos ameaça. A ele recusamos qualquer interlocução criadora. Como indica Ruffato, “voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual, como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos”.

            Fala-se hoje em “nova escravidão” (Kavin Bales), em escravidão contemporânea[7], tão perversa quanto a anterior, como indica o estudioso Leonardo Sakamoto. Perversa por “roubar do ser humano sua liberdade e dignidade”. No Brasil “ela não se resume à terra de ninguém que é a região de expansão agrícola amazônica, mas está presente nas carvoarias do cerrado, nos laranjais e canaviais do interior paulista, em fazendas de frutas e algodão do Nordeste, nas pequenas tecelagens do Brás e Bom Retiro, da cidade de São Paulo”

Muitos deles com expectativa de vida inferior a muitos escravizados dos séculos passados: os carvoeiros, roçadores de pasto ou cortadores de cana do século XXI. E dentre os maiores contingentes desses escravizados modernos encontram-se os afrodescendentes[8].

As modalidades desta escravidão variam, envolvendo servidão por dívida, trabalho em condições degradantes, com direitos sonegados, relação de trabalho originada de fraude ou violência, cerceamento do direito de ir e vir etc. Esses “novos escravos” vivem em situações degradantes, “exilados da vida”, estrangeiros em sua própria terra. Em número estimado pela Comissão Pastoral da Terra, chegam a 40 mil pessoas, presentes em vários estados do Brasil, aliciados em bolsões de pobreza, sobretudo no Norte e Nordeste do país.

            Estudiosos do tema, como Ricardo Resende e Leonardo Sakamoto relatam situações humilhantes vividas por trabalhadores escravizados, seja nos locais de trabalho ou no tratamento recebido pela Polícia Militar quando conseguiam escapar do cerco a que estavam envolvidos[9].

            Mudanças positivas começaram a acontecer no Brasil nas duas últimas décadas, com a criação de mecanismos de fiscalização e combate à escravidão. Deve, porém, ser ressaltado o papel pioneiro de Dom Pedro Casaldáliga, na sua profética Carta Pastoral de 1971 (Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio): o primeiro texto público a abordar o tema e situar a realidade dos trabalhadores submetidos ao trabalho escravo. Posteriormente serão criados o Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado (Gertraf) e o Grupo Móvel de Fiscalização, isso em 1995, com atuação em todo território nacional. Merece também destaque, no governo Lula, a criação da Secretaria Especial de Direitos Humanos, em 2003, com a presença combativa de Nilmário Miranda. Na última década, como indica Ricardo Rezende, “houve um aumento substantivo de operações de fiscalização”. Segundo dados fornecidos pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), “entre 1995 e 2012, foram resgatados 42.439 trabalhadores em diversas regiões do Brasil”.

            As resistências a esse trabalho de combate e fiscalização ainda são persistentes, como no caso das pressões da bancada ruralista. Há muito caminho pela frente. Verifica-se, com tristeza, que “as raízes da escravidão” ainda perduram, com suas dolorosas sequelas. O trabalho escravo contemporâneo não está dizimado, e marca sua presença “nas principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro”, sinalizando uma dura contradição: de coexistência de tecnologia de ponta com formas ilegais de trabalho ou precarização das relações trabalhistas.

Falando sobre a causa indígena em pronunciamento na 52ª Assembleia Geral da CNBB, Dom Erwin Kräutler, presidente do Conselho Indigenista Missionário, mencionou a presença de nuvens sombrias nos céus: com a presença necrófila de “grupos político-econômicos anti-indigenistas ligados aos agronegócios, mineradoras, empreiteiras, com apoio e participação do governo brasileiro” num cerrado trabalho de desconstrução dos direitos territoriais dos povos indígenas.

            Em mensagem enviada por papa Francisco à 103ª Sessão da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em maio de 2014, ele falou desse terrível espectro da escravidão contemporânea: “O tráfico de seres humanos assim como o trabalho forçado e sua redução em escravidão são um horror e uma praga, um crime contra a humanidade”. São exemplos tristes da “globalização da indiferença”, e que bradam aos céus[10].

            A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dedicou o tema da Campanha da Fraternidade de 2014 ao tráfico humano: “Fraternidade e Tráfico Humano”, captando um tema da atualidade e sublinhando a urgência de uma solução comum para esse grave problema.

O Brasil, infelizmente, ainda assume um posto de liderança mundial nesse âmbito da injustiça social, nesse novo século que começa com “crepúsculo e obscuridade”, como assinalou Eric Hobsbawm em sua auto-biografia[11]. Sublinhou que nosso mundo precisa cada vez mais dos historiadores, sobretudo os céticos, nesses tempos insatisfatórios. E conclui dizendo: “A injustiça social ainda precisa ser denunciada e combatida. O mundo não vai melhorar sozinho”.

E é nossa tarefa, essencial, levantar a voz para fazer valer a cidadania de nossos povos e possibilitar o brilho de nossa gente. Como diz Caetano Veloso:

Gente quer comer
Gente quer ser feliz
Gente quer respirar ar pelo nariz (...)

No coração da mata
Gente quer prosseguir
Quer durar, quer crescer
Gente quer luzir.

Gente é pra brilhar.
Não pra morrer de fome.

(Texto apresentado na Academia Brasileira de Letras, em 31 de julho de 2014, na mesa: Trabalho Escravo no Brasil? – No âmbito do seminário Brasil, Brasis – A coordenação do evento esteve a cargo do acadêmico Domício Proença Filho, e compondo a mesa: o acadêmico Marco Lucchesi e os conferencistas: Ricardo Rezende Figueira e Faustino Teixeira)




Ver também, do mesmo autor:  O trato dos viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
[2] In: Christiane V. Nogueira & Marina Novaes & Remato Bignami (Orgs).  Tráfico de pessoas. Reflexões paria a compreensão do trabalho escravo contemporâneo. São Paulo: Paulinas, 2014, p. 79.
[4] Cf. José de Souza Martins. Sim, existe (trabalho escravo – entrevista com José de Souza Martins). Sem Fronteiras, n. 251, junho de 1997, p. 5. E também os depoimentos de Dom Erwin Kräutler:
[6] Veja os dados estatísticos do PNDA (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio), de 1976, confirmando tal desigualdade racial no Brasil.
[7] No relatório oficial da Organização Internacional do Trabalho, com data de 1993, os dados sobre o trabalho escravo no mundo indicavam a existência de 6 milhões de pessoas nessa condição.
[8] Cf. Christiane Nogueira, Marina Novaes, Renato Bignami e Xavier Plassat. Tráfico de pessoas e trabalho escravo: além da interposição de conceitos. In: In: Christiane V. Nogueira & Marina Novaes & Remato Bignami (Orgs).  Tráfico de pessoas, p. 213.
[9] Ricardo Rezende Figueira. A escravidão contemporânea, o tráfico humano e a Campanha da Fraternidade de 2014. In: Christiane V. Nogueira & Marina Novaes & Remato Bignami (Orgs).  Tráfico de pessoas, p. 114; Leonardo Sakamoto. A “reinvenção” do trabalho escravo no Brasil contemporâneo. In: Christiane V. Nogueira & Marina Novaes & Remato Bignami (Orgs).  Tráfico de pessoas, p. 37.
[11] Eric Hobsbawm. Tempos interessantes. Uma vida no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 418, 448-449 e 455.