terça-feira, 13 de maio de 2014

Michael Amaladoss: a amplitude cósmica da ação do Cristo

Michael Amaladoss: a amplitude cósmica da ação do Cristo

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF


Com inserção no quado amplo do paradigma inclusivista, encontra-se outro importante teólogo asiático, o jesuíta indiano Michael Ama1adoss (1936-)[1]. Para este autor, a postura inclusivista tradicional é insuficiente, pois mesmo respeitando as outras religiões, acaba sendo devedora de um exclusivismo que mantém em segundo plano estas religiões em relação ao cristianismo. Mas igualmente insuficiente é a posição pluralista, por não levar a sério as religiões: "Subestimam as diferenças reais e as contradições entre as religiões, buscando uma unidade subjacente, que afinal reduz-se a um mínimo denominador comum, como a libertação, o desenvolvimento humano, ou a unidade do gênero humano"[2]. O modelo proposto por Amaladoss situa-se entre o inclusivismo e o pluralismo. Não rompe com o inclusivismo, pois mantém-se no horizonte da perspectiva da fé cristã; e deixa-se fecundar pelo pluralismo ao reconhecer as manifestações plurais de Deus na história, mediante a ação de seu Espírito[3]. Este autor indica que o novo modelo implica o reconhecimento da presença ativa e operante da vontade redentora universal de Deus, que se manifesta em toda parte e de forma diversificada; bem como a consciência de que este projeto de Deus realiza-se progressivamente na história, provocando a unificação de todas as coisas[4].

O Concílio Vaticano II reconheceu, em seu documento sobre a liberdade religiosa, que todos têm o "dever e por conseguinte o direito de procurar a verdade em matéria religiosa, a fim de chegar por meios adequados a formar prudentemente juízos retos e verdadeiros de consciência"[5]. O Concílio foi um dos eventos essenciais que fez as pessoas perceberem a importância da atenção e respeito em face do pluralismo das religiões, como pluralismo de direito, que brota da "livre investigação" da consciência e que se insere numa unidade maior do plano divino.

Partindo da consciência deste pluralismo, Amaladoss aborda a questão da positividade salvífica das religiões e afirma que "é sempre Deus quem salva, não as religiões. A pessoa se salva numa religião e através dela, mas não é salva por ela. As religiões são simples mediações, que tornam presente o amor salvífico de Deus, mas não o substituem"[6]. Afirmar esta universalidade do oferecimento do amor de Deus que convida o ser humano no seguimento de Jesus a responder à sua proposta, mas que igualmente convida o irmão que, de outra perspectiva religiosa, atende a este chamado, não é incorrer em relativismo. O relativismo, sublinha Amaladoss, significa “dizer que para cada um de nós em concreto é indiferente ser cristão, hindu ou muçulmano, porque todos os caminhos levam a Deus". Na verdade, é a providência divina que indica à cada pessoa o caminho de acesso a Deus. É Deus que "guia os homens para Si por diversos caminhos, de uma maneira misteriosa que só Ele conhece. É certo que todos os rios levam ao mar; mas não para uma mesma pessoa"[7].

Com base nas reflexões do antropólogo Clifford Geertz[8], Amaladoss parte da consideração empírica da religião, entendida como um sistema de símbolos. A ação simbólica, que envolve palavras, relatos, gestos, objetos, pessoas e ações, é “fundamental para a religião e a fé. Sem ela, a fé ficaria desincorporada, sem raízes na humanidade e na comunidade”[9]. Os símbolos religiosos são “mediadores de transcendência”. Encontram-se vinculados ao nível dos sentidos, mas apontam sempre para algo que está além. Enquanto representações da realidade, os símbolos são eficazes, na medida em que facultam a experiência da realidade a que aludem; mas são igualmente limitados, pois a realidade a que aludem está para além de sua representação. Os símbolos não passam de mediações voltadas para a realidade maior a que apontam. Seria problemático esquecer esta dimensão de mediação, atribuindo, por exemplo, aos símbolos a qualidade absoluta que pertence, antes, à realidade ou ao compromisso que os mesmos medeiam. Segundo Amaladoss, o que confere especificidade ao cristianismo é o seu caráter simbólico com respeito às outras religiões. Trata-se de “um dos modos simbólicos mediante os quais o amor de Deus torna-se manifesto e ativo entre os homens”[10]. Este amor divino não reivindica exclusividade, fazendo-se igualmente presente na experiência das outras tradições religiosas. No horizonte mais amplo de uma única e universal ação redentora inserem-se as diversas e singulares mediações simbólicas.

Esta nova consciência da universalidade salvífica, que leva a reconhecer a possibilidade de salvação nas outras religiões, parece minar, para alguns, a unicidade e a universalidade de Cristo e a necessária mediação da Igreja. Como pontua Amaladoss, no contexto do pluralismo religioso na Índia, em que o cristianismo é minoritário, questões nesta linha são sempre levantadas: "Se ajudarmos hindus e muçulmanos a crescerem em sua fé não falharemos na missão de proclamar que seu salvador é Jesus Cristo? Como entendemos quem é ele e qual o seu papel salvador, principalmente em outras religiões?"[11] Mas não há como negar hoje esta nova consciência do valor positivo das religiões, que exige uma nova maneira de expressão. Amaladoss escolheu justamente como ponto de partida para seu enfoque particular o caminho do diálogo e, para ele, é no contexto desta relação mútua que busca redescobrir sua identidade[12].
   
Na perspectiva aberta por Amaladoss, o cristocentrismo permanece "elemento essencial"[13]. A singularidade de sua reflexão cristológica reside na dinâmica com que trabalha a universalidade do Cristo e a amplitude cósmica de sua ação. Na sua visão, o Jesus histórico constitui “símbolo do Cristo-mistério”, pois em sua vida e ação o mistério de Cristo torna-se manifesto e ativo, visível e tangível. Em Jesus, este mistério ganha uma particular e específica expressão. “O Cristo desconhecido está em ação por toda parte, e manifesta-se numa grande multiplicidade de símbolos. Ele torna-se, porém, humano e presente no corpo e ativo em Jesus Cristo”[14]. Para Amaladoss, assim como o Cristo foi se revelando aos poucos para os seus discípulos, que sobretudo após sua ressurreição se dão conta de seu aspecto divino, a pessoa mesma do Cristo “esta em processo na história, ao mesmo tempo que a transcende"[15]. Nesta linha de reflexão, ele distinguirá "dois tipos de presença e ação"[16] na história desta mesma pessoa Jesus Cristo, nos seus pólos divino e humano. E aqui lança a sua tese, que tem causado muita discussão: "Jesus é Cristo, mas Cristo é mais do que Jesus.” Com a mesma queria dizer que

“o Jesus da história  possui limites provenientes da sua condição humana, histórica e cultural, determinadas por uma escolha sua. Mas foi neste Jesus que a ação de Deus, na sua forma de Pai, Filho e Espírito, tornou-se manifesta. O Cristo alcançará a plenitude somente no último dia, quando todas as coisas serão reconciliadas”[17].
 
Segundo Amaladoss, a nova compreensão da amplitude cósmica da ação do Cristo permite evitar que se "isole a ação de Deus em Jesus", ampliando-a para toda a sua atuação na história. "O mistério de Cristo inclui todas as manifestações de Deus na história, não apenas as realizadas em Jesus. Ao falar de Jesus Cristo, com freqüência colocamos simultaneamente os dois registros, sem diferenciá-los claramente, dada a força da unidade de sua pessoa"[18].
     
A imagem bíblica da "aliança" é utilizada por Amaladoss para expressar a ação de Deus em Jesus. Deus estabeleceu uma relação de amor com a humanidade, mesmo antes de Jesus, mediante a aliança cósmica e mosaica. Com Jesus, esta aliança se faz carne, e a humanidade pode partilhar de forma palpável sua auto-comunicação amorosa. Com a experiência da ressurreição de Jesus, esta aliança torna-se duradoura, ganhando uma dimensão de universalidade cósmica, que congrega toda a história da salvação.

Para Amaladoss é correto dizer que Cristo é a "última Palavra", mas com a condição de estar se referindo ao aspecto divino de Cristo. "A plenitude de Cristo será alcançada quando Deus nele reunir todas as riquezas que comunicou ao mundo. (...) Jesus se vai realmente convertendo no Cristo através da história da salvação e que nossa tarefa consiste em promovê-lo assim, através da missão e do diálogo”[19].
  
As religiões constituem mediações que patenteiam o amor salvífico de Deus. Em sua situação histórico-cultural, cada religião “é capaz de expressar uma relação absoluta. Portanto, é relativa com respeito a essa relação absoluta, mas não com respeito a outras religiões"[20]. Todas as mediações tem assim um valor relativo em face do absoluto do mistério[21]. É como a realidade da Lua, cuja luz tem sua origem no Sol e não nela mesma. Assim também a Igreja, que vive o mistério manifestado em Jesus, é convocada a "proclamar e promover o mistério, não a si mesma"[22]. Ela é "serva do Reino de Deus"[23], seu sinal e instrumento de implementação na história; mas este Reino, enquanto mistério de Deus, é maior do que a Igreja. No horizonte de um mundo pluralista, o serviço que a Igreja pode prestar "consiste em colaborar com a unidade de toda a humanidade[24], promovendo uma comunidade de diálogo e cooperação"[25], que respeita a pluralidade das religiões na história, articulando-as dentro do plano maior da unidade divina.

(Publicado no livro: F. Teixeira. Teologia e Pluralismo Religioso. São Bernardo do Campo: Nhanduti, 2012, p. 88-93)



[1] Este teólogo, nascido em 1936, no Sul da Índia, apresenta uma vasta produção no campo do diálogo inter-religioso e inculturação da Igreja. Foi Conselheiro de P. Kolvenbach, Geral da Companhia de Jesus e Consultor do do Pontifício Conselho para o Diálogo Interreligioso. Foi também redator da revista Vidyajyoti Journal of Theological Reflection e professor de teologia em Nova Deli (Índia). Depois de sua aposentadoria, em 2002, passou a dirigir o Instituto para o Diálogo com as Culturas e as Religiões (IDCR), em Tamil Nadu.
[2] M.AMALADOSS. O pluralismo das religiões e o significado de Cristo. In: F.TEIXEIRA. Diálogo de pássaros, pp. 91-92. Para este autor, no pluralismo "o específico de cada compromisso de fé não é suficientemente levado em conta. Por exemplo: só se pode dizer que Cristo é um entre muitos caminhos caso se negue a encarnação.” Ao propor uma teologia universal das religiões acaba o pluralismo caindo numa “abstração simplista” ou “nominalismo”. Ibidem, p. 92. Id. Rinnovare tutte le cose; dialogo, pluralismo ed evangelizzazione in Asia. Roma: Arkeios, 1993, p. 93-96.
[3] M.AMALADOSS. O pluralismo das religiões, p. 107. Para Amaladoss, esta mudança de modelo relaciona-se igualmente com a passagem do marco de referência da Igreja para o Reino, com nítidas repercussões no campo da evangelização. Cf. M.AMALADOSS. Dialogo y mission. Realidades en pugna o convergentes? Selecciones de Teologia, v. 27, n. 108, pp. 243-244, 1988. Id. Vivre dans un monde pluraliste. La foi et les cultures. Christus, n. 150, pp. 163-164, 1991.
[4] M.AMALADOSS. Rinnovare tutte le cose, p. 97.
[5] Declaração Dignitatis Humanae, 3.
[6] M.AMALADOSS. O pluralismo das religiões, p. 97. Ver também: Id. Dialogo y mission, p. 245; Id. Rinnovare tutte le cose, pp. 150-152.
[7] M.AMALADOSS, M. Dialogo y mission, p. 246.
[8] C.GEERTZ. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989, p. 101-142 (no capítulo 4: A religião como sistema cultural).
[9] M.AMALADOSS. Pela estrada da vida; prática do diálogo inter-religioso. São Paulo: Paulinas, 1996, p. 27.
[10] M.AMALADOSS. Rinnovare tutte le cose, p.118.
[11] M.AMALADOSS. O pluralismo das religiões, pp. 89-90. É interessante perceber que nas instituições educativas cristãs, na Índia, a tarefa evangelizadora reforça muito mais a dinâmica da promoção dos valores morais e espirituais, e pretende sobretudo ajudar os alunos de outras religiões a se aprofundarem na perspectiva de sua fé, em vista de um crescimento integral. Cf. M.AMALADOSS. Théologie indienne. Études, n. 3783, pp. 346-347, 1993. Cf. tb. M.ZAGO. A evangelização em ambiente religioso asiático. Concilium, v.134, n.4, p. 85, 1978. Este autor assinalava na ocasião, referindo-se à Igreja: Ser sinal e sacramento da salvação é "auxiliar o budismo a progredir em seu caminho de história da salvação e, em certo sentido, poder colaborar para que o budista se torne ainda melhor budista".
[12] M.AMALADOSS. O pluralismo das religiões, p. 93.
[13] Para Amaladoss, ao contrário do que muitas vezes se propaga hoje, o cristocentrismo é um elemento essencial para a maioria dos teólogos indianos. Cf. Id. Théologie indienne, p. 348. E ele não entende como se possa pensar de outra forma, pois "opor o cristocentrismo ao teocentrismo é não entender nossa fé.” Id. Dialogo y mission, p. 252.
[14] AMALADOSS, M. Rinnovare tutte le cose, p. 120.
[15] AMALADOSS, M. O pluralismo das religiões, p. 100. A mesma pessoa Jesus Cristo, como lembra este autor, envolve o Verbo pré-existente (que tudo criou), a Jesus (que sofre a limitação da história), ao Cristo ressuscitado (que é trans-histórico) e ao Cristo do final dos tempos (em quem residirá toda a plenitude). Ibidem, pp. 99-100. Como também afirma L. Boff, a fé cristã professa que o Verbo (Logos) preside todo o processo da criação do universo: "Pela encarnação o Filho de Deus é parte deste imenso processo, de ponta a ponta, mas concretizado na figura do judeu Jesus de Nazaré. Deus tocou o cosmos. Penetrou nele. É de certa maneira o seu corpo. Mas encarnação, pelo fato de ser concreta, significa também limitação." E, finalmente, com a ressurreição, o evento Cristo se universaliza. L.BOFF. Religião, cultura e ecologia; ecologia e teologia. Mimeo, p 9; Id. El Cristo cósmico: la superación del antropocentrismo. Numen, v. 2, n.1, pp. 132-133, 1999.
[16] Amaladoss insiste em que são "dois tipos de presença", mas não duas realidades. Cf. Théologie indienne, p. 348. Para Amaladoss, ao se falar sobre o Jesus histórico e o Cristo da fé, ou ao Jesus da história e o Cristo cósmico, busca-se referir à mesma pessoa, mas “não à mesma dimensão de sua personalidade e esfera de ação.” Cf. Id. Rinnovare tutte le cose, p. 120.
[17] M.AMALADOSS. Rinnovare tutte le cose, p. 153-154; Id. O pluralismo das religiões, p. 100. A afirmação de Amaladoss: "Jesus é Cristo, mas Cristo é mais do que Jesus" tem causado muita discussão. Em seminário realizado no Brasil, em 1990, esta expressão de Amaladoss foi problematizada pelo filósofo jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz, reagindo à conferência de Mário de França Miranda, que havia feito referência a Amaladoss. Em sua intervenção, Vaz assinalou que "a essência do cristianismo é justamente não haver outra possibilidade de encarnação do divino ou de manifestação do divino mais radical do que o divino fazer-se homem”. Manifestou igualmente seu ceticismo diante dos atuais esforços do cristianismo para o pluralismo religioso, particularmente quando o "núcleo do cristianismo, que é Deus feito homem” vem relativizado. Cf. M.C.L.BINGEMER (Org) O impacto da modernidade sobre a religião. São Paulo, Loyola. 1992 p 235 (e a resposta de França na p. 245). O teólogo Mário de França Miranda acredita que "há uma maneira correta de se entender esta expressão". Cf. O encontro das religiões art cit., p. 21. Sobretudo os teólogos asiáticos têm trabalhado nesta mesma perspectiva de Amaladoss. Tissa Balasuriya, teólogo do Sri Lanka, afirma: "Para nós Jesus é divino, mas Jesus não é plena e totalmente Deus. Jesus é de Deus e Deus esta com Jesus. Jesus manifesta Deus, como Pai que ama a todos. Jesus não esgota Deus; Deus não pertence a Jesus de modo tal que Deus não possa manifestar a divindade antes e depois de Jesus". Lasciare che Dio sia Dio. In: C.CANTONE. La svolta planetaria di Dio, p. 103. Id. Right Relationships; de-routing and re-roting of christian theology. Logos, v. 30, n. 3-4, p. 243, 1991 (Jesus and God: Let God be God). E igualmente o documento final da III Assembléia Geral da Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo, realizada em Janeiro de 1992: "Para nós, Jesus é o Senhor, e Senhor completo – mas isto não significa que nós precisamos impô-lo aos outros Pois embora o Jesus em quem nós acreditamos, verdadeiramente nos ponha em contato com Deus, para que Deus esteja presente em nós através dele, o mistério absoluto de Deus não pode ser totalmente compreendido em Jesus. Deus está além de todo nome e forma, e as muitas compreensões que nós temos de Deus não podem individualmente ou coletivamente exaurir o mistério de Deus". In: Sedoc, v. 25, n. 236, p. 475, 1993.
[18] M.AMALADOSS. O pluralismo das religiões, p. 101; Id. A la rencontre des cultures. Paris: Les Éditions de L’Atelier, 1997, p. 123.  Segundo Amaladoss, “o cristianismo ocidental foi exageradamente cristocêntrico e tentou fundamentar em Cristo seu eclesiocentrismo. Ora, o encontro com outras religiões não só nos distanciou do eclesiocentrismo (...). Ele também fez com que nos déssemos conta da presença e da ação do Espírito nos outros, embora pertençam a religiões e culturas diferentes. Confiemos que que essa experiência nos conduza a descobrir a presença do Espírito e de seus carismas fora de seu marco cristológico e hierárquico, mesmo dentro da Igreja.”: Apud A.T.QUEIRUGA. Do terror de Isaac ao Abbá de Jesus, p. 349, n. 40.
[19] M.AMALADOSS. O pluralismo das religiões, p. 103.
[20] Ibidem, p. 95. Id. Dialogo y mission, p. 256.
[21] Com exceção de Jesus, único mediador, que faz parte do mesmo mistério.
[22] Id. O pluralismo das religiões, p. 103.
[23] M.AMALADOSS. La mission en la decada de los 90. Selecciones de teologia, v. 31, n. 122, p. 141, 1992; Id. Vivre dans un monde pluraliste, p. 164; Id. Rumo à plenitude; em busca de uma espiritualidade integral. São Paulo: Loyola, 1997, pp. 123-126; Id. Missão e inculturação. São Paulo: Loyola, 2000, pp. 47-60 (capítulo 4: O Reino de Deus: propósito da missão).
[24] Lumen Gentium, 1.
[25] M.AMALADOSS. O pluralismo das religiões, p. 104. E quando este autor fala em unidade do plano divino, ele não quer com ela entender um "sistema acabado", mas sim "uma unificação a ser realizada pelo Espírito e por nós através do diálogo e da missão". Ibidem, p. 98. Para o aprofundamento da questão do significado do diálogo inter-religioso na reflexão deste autor, cf. M.AMALADOSS. Pela estrada da vida. Pratica do diálogo interreligioso; Id. Rinnovare tutte le cose; Id. Missão e inculturação, pp. 38-43 (sobre a hermenêutica inter-religiosa).

sábado, 3 de maio de 2014

A fragrância da espiritualidade

A fragrância da espiritualidade

Faustino Teixeira

            A questão da espiritualidade vem ganhando a cada dia uma compreensão mais rica e ampla. Distingue-se claramente da religião. Esta é um “sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas” (Durkheim). Um empreendimento coletivo, envolvendo a presença de uma comunidade moral. A espiritualidade, por sua vez, está relacionado a “qualidades do espírito humano”, como tão bem mostrou Dalai Lama em obra sobre a ética para o novo milênio (1999). Todo ser humano é capaz de desenvolver tais qualidades como o amor, a compaixão, a hospitalidade, a atenção, o cuidado e a delicadeza, sem recorrer necessariamente a um sistema religioso. Não há por que concentrar na religião esse monopólio da espiritualidade. Trata-se de um dado essencial para quem quer se adentrar nesse desafiante campo. A espiritualidade requer, assim, o cultivo de uma dimensão fundamental que trata da interioridade do ser humano, ou seja, de “expansão de vitalidade” e qualidade de vida. A espiritualidade suscita o despertar de energias originárias que estão no rincão mais íntimo do ser humano, e que dizem respeito a ele “de forma última”. O cultivo da espiritualidade, entendida como movimento e caminho para a experiência do Real, exige do sujeito uma dinâmica particular de despojamento e interiorização. Há que romper com um modo habitual e rotineiro de ser e deixar-se tocar pelos apelos da profundidade. Não se trata de uma viagem tranquila, mas de uma “saída” para dentro de si mesmo, e um retornar ao tempo transformado. Para viver a intensidade desta experiência firmam-se algumas disposições precisas, como o exercício do despojamento, humildade e purificação do coração. Há que deslocar o ego de sua centralidade, reconhecendo a dinâmica humana essencial em sua contingência e vulnerabilidade. Animado por tais energias espirituais, o ser humano vem disponibilizado a assumir no tempo um modo de ser distinto, pontuado por um “desaforado amor pelo todo”. A espiritualidade não desloca ninguém da história, mas suscita uma sede peculiar de adentrar-se vivamente em suas entranhas. Deixar-se habitar pela dinâmica espiritual é assumir a experiência integral da vida ou da realidade. É uma experiência holística essencial. O toque da espiritualidade incide na acolhida do cotidiano em sua elementar maravilha. Como diz um mestre zen, “se os nossos olhos são novos, todas as coisas revelam-se igualmente novas em cada momento”. A peculiaridade está no exercício do respiro da vida e a atenção desperta para os pequenos sinais do cotidiano. Deixar-se habitar pela atmosfera da espiritualidade é criar um espaço garantido e especial para as fragrâncias da profundidade. Os frutos vão surgindo naturalmente, irrompendo de dentro e atuando nas diversas direções, como bem mostrou Leonardo Boff. É uma paz espiritual que irradia, qualificando as relações e despertando energias secretas: algo que “alimenta o amor, o cuidado, a vontade de acolher e de ser acolhido, de compreender e de ser compreendido, de perdoar e de ser perdoado”. A prática da justiça e do amor ao próximo desabrocham como as flores irrigadas pela chuva, naturalmente, quando suscitadas na experiência fontal da sintonia com o grande Mistério.

(Publicado no Jornal O Povo, Fortaleza, de 03 de maio de 2014:

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2014/05/03/noticiasjornalopiniao,3245266/a-fragrancia-da-espiritualidade.shtml


            

domingo, 27 de abril de 2014

Juventude e Espiritualidade

Juventude e Espiritualidade

Faustino Teixeira

Muita expectativa em torno do I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora, a ser realizado na cidade de Fortaleza no início de maio de 2014, promovido pela Agência de Informação Frei Tito de Alencar para a Ameri﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽o de Alencar para a Amela Agro Nacional de Juventudes e Espiritualidade libertadoraérica Latina e Caribe (ADITAL), com o apoio de uma série de outros centros de reflexão. O objetivo do evento é “discutir a relação entre a juventude e a sua espiritualidade”. O tema ganha atualidade nesse momento particular da juventude brasileira, pontuado por iniciativas importantes no âmbito da cidadania pública, como as que ocorreram por todo o país a partir de junho de 2013. Como tão bem mostrou a antropóloga carioca Regina Novaes, os jovens brasileiros nascidos a partir do final da década de 1980 encontraram um mundo mudado: eles participam “de uma geração pós-industrial, pós-Guerra Fria e pós-descoberta da ecologia. Vivem as tensões e os mistérios do emprego, da violência urbana e do avanço tecnológico”. São jovens que vivem num tempo de intensificação do campo de informações e numa cultura marcadamente midiática. Com respeito à religião, vivem uma situação peculiar de certa desafeição com a fé eclesial, mantendo porém acesa a sede de espiritualidade. O último censo demográfico de 2010, divulgado pelo IBGE no final de junho de 2012, revelou uma presença significativa de jovens entre aqueles que se declararam “sem religião”. Em porcentagem maior do que a verificada para a população geral, 9,5% dos jovens entre 15 a 29 anos se declararam “sem religião”. Isso não significa, porém, um aumento da secularização, mas a presença de uma adesão crescente de jovens a “formas não institucionais de espiritualidade”. O que marca a juventude nesse momento atual é uma abertura à dinâmica de experimentação, de disponibilidade para o trânsito entre pertenças sociais e espirituais diversificadas. Tudo isso ocorrendo num campo religioso que se pluraliza a cada década, e que se torna também a cada dia mais competitivo. Mesmo no âmbito da presença evangélica, segunda força religiosa no Brasil, há o crescimento dos “evangélicos não determinados”, ou genéricos, que também angariam jovens entre seus quadros, facultando um tipo de participação que quebra a forma tradicional de pertencimento. Trata-se de uma categoria que envolve 21,8% de todo o contingente evangélico nacional (cerca de 9,2 milhões de adeptos).  Ao lado do desenvolvimento de uma religiosidade fluida ou carente de vínculos institucionais, há também a presença daqueles que se definem “ateus” ou “agnósticos”, mas que são franca minoria. É nesse novo cenário de crescente pluralização religiosa que se coloca o permanente desafio da espiritualidade, e também o impulso de busca de uma religiosidade inserida e animada por seiva libertadora. A realização desse evento promovido pela ADITAL sinaliza a presença e a vontade de uma militância espiritual distinta, terrenal, com a abertura de espaços especiais de agregação social e de busca identitária voltada para uma presença juvenil singular no cenário da sociedade civil.