sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Valor Sentimental: as dores da memória

 Valor Sentimental: as dores da memória

 

Faustino Teixeira

UFJF/IHU/Paz e Bem

 

 

Dentre os grandes lançamentos de 2025, destaca-se para mim o filme Valor Sentimental (Sentimental Value), dirigido por Joachim Trier, numa co-produção da Noruega, França, Dinamarca, Alemanha e Reino Unido. Um filme que nos faz lembrar Ingmar Bergman, guardando, porém, suas peculiaridades.  No meu caso, o filme provocou uma gama de reflexões, exercendo um impacto impressionante. Não foi suficiente ver uma única vez para poder desentranhar todos os significados que o filme guarda consigo. 

 

Temos em tela um filme que aborda de forma cirúrgica as complexas relações familiares, e em particular as cicatrizes que perduram duramente na memória em razão dos descompassos da incomunicação. O filme é de profundidade única, e em cada um de seus quadros vai tecendo a rachadura emocional que permanece e se aprofunda com o avançar do tempo. Tudo construído de forma profundamente humana, com as marcas da ambiguidade. Com muita sensibilidade e precisão, o diretor norueguês consegue traduzir um universo dramático pontuado por delicadeza de gestos, silêncios abissais e sentimentos abafados por anos de incompreensão.

 

De forma muito feliz, o diretor recorre à metáfora da casa como locus de relações nubladas, como portadora de memória e guardiã da dor daqueles que por ali passaram. A presença de uma rachadura na casa, que vai lentamente se expandindo, sinaliza uma fissura difícil e dolorosa que acompanha a relação de um pai com suas duas filhas. E se ela não pode ser recomposta, pode ao menos ser reparada ou então revisitada. Na escolha narrativa feita pelo diretor encerra-se uma pergunta que é fundamental: em que medida o passado continua operando, mesmo com a vida seguindo adiante, com as palavras engasgadas e reprimidas no mundo interior ? Em entrevista concedida pelo diretor a Enoe Lopes Pontes (Coisa de Cinéfilo), em janeiro de 2026, ele pontuou que o cinema é distinto da literatura, pois traz o toque das visualidades: há em jogo todo um clima, sensação de luz, de presença dos rostos e toda uma emotividade singular. Revelou ainda que, no caso de Valor Sentimental, esteve presente o complexo desafio de traduzir para o público a experiência de um lugar que carrega consigo o luto e a tragédia[1].

 

Joaquim Trier é um diretor, roteirista e realizador norueguês nascido em março de 1974, que vem se firmando internacionalmente com produções de destaque, como os filmes Reprise (Começar de novo - 2006), Oslo 31de agosto (2011), Mais forte que bombas (2015), Thelma  (2017) e A pior pessoa do mundo (2021). Foi com esse último filme que o diretor ganhou sua consagração no cinema internacional, no Festival de Cannes (2021), quando Renate Reinsver ganhou o prêmio de melhor atriz, além de outras duas indicações (melhor roteiro original e filme internacional).

 

E agora, com Valor Sentimental (2025), o cineasta norueguês volta a ser destaque, com inúmeras premiações e indicações. O filme foi vencedor no Festival de Cannes (2025) e na 38ª edição dos European Film Awards (2026), em Berlim, conquistando seis estatuetas: melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro, melhor ator europeu, melhor atriz europeia e melhor trilha sonora. O filme foi ainda indicado em nove categorias para o Oscar 2026: melhor filme, melhor direção, melhor atriz (Renate Reinsve), melhor ator coadjuvante (Stellan Skargard), melhor atriz coadjuvante (Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas), melhor roteiro original, melhor filme internacional e melhor montagem. 

 

É todo um conjunto de fatores que incidem na singularidade desse filme de Joaquim Tries, a começar pelo aporte de excelentes atrizes e atores: Renate Reinsve (Nora), Inga Ibsdotter Lilleaas (Agnes), Stellan Skarsgard (Gustav), Elle Fanning (Rachel), Cory Michael Smith (Sam) e Anders Danielsen Lie (Jakob). Alguns desses intérpretes atuaram em outros filmes de Trier, como Renate e Anders, em A pior pessoa do mundo.

 

No precioso roteiro do filme temos o trabalho conjunto de Joaquim Trier e Eskil Vogt. São parceiros de longa data. Destacam-se igualmente a bela fotografia de Kasper Tuxen, a montagem de Olivier Bugge Coutté e a trilha sonora original de Hania Rani. Impacta ao espectador a beleza da fotografia do filme, com a presença de um senso tátil particular, com os jogos de luzes e a criação de um clima que favorece uma singular perceção do interior da casa, que é também personagem do filme. A montagem igualmente ajuda, proporcionando uma impressão viva e contínua de “desconforto da permanência”. E junto a isto, a linda e criativa trilha sonora, que me encantou desde o início, a cargo de Hania Rani, com músicas especiais: Nobody Knows (T.L. Barret), Sentimental Value, Havii Oslo (Hania Rani), Dancing With Ghosts (Hania Rani e Patrick Watson), Ooh Lala (Faces), Same old scene (Roxy Music), Cannock Chase (Labi Siffre), dentre outras[2].

 

Como ponto de arranque do filme, temos a redação de uma carta escrita por Nora em sua infância descrevendo a casa da família, que acolheu várias gerações. Na sua ocular, ela era um organismo vivo e sensível, capaz de acolher a dor, a solidão, a raiva, as emoções, mas também as alegrias furtivas que marcaram a vida da família. Ali naquele espaço conviviam o barulho e o silêncio. A ideia de “barulho” sinalizava igualmente os conflitos que marcaram a relação de Gustav com sua esposa Sissel, que resultou em separação. Havia na casa um espaço onde as crianças podiam ouvir escondidas o que se passava na parte de baixo da habitação. A casa era, na verdade, a permanência de uma memória embaraçante das ambiguidades de uma família tocada por dinâmicas de incomunicabilidade. Aliás, o filme revela a presença de duas preocupações centrais do diretor, que é a memória e a identidade.

 

Depois da separação, Gustav abandona a família e parte para a Suécia visando avançar em seu trabalho de cineasta, que, aliás, era um traço presente na sua família. Defendia sempre, e com rigor, a liberdade para o artista. O abandono do lar exerceu um impacto forte sobre as duas filhas, Nora e Agnes, que passaram a viver com a mãe na mesma casa. Gustav deixou como herança uma profunda dor nas crianças e, em particular, na filha mais velha, Nora, que carregou consigo profundas feridas em sua vida adulta. E as dores eram profundas, difíceis de cicatrizarem por completo. Ela buscou realização na vida de atriz de teatro, mas sempre trazendo essa marca em seu corpo, que reagia com constantes ataques de pânico antes de suas apresentações públicas, como na cena que ocorre logo no início do filme. Não há dúvida de que o corpo fala: ele também denuncia aquilo que a fala busca mascarar.

 

Sua irmã mais nova, Agnes, firmou-se como historiadora, e conseguiu formar família, sendo mãe de Erik, uma criança expressiva e encantadora. Ela exerce um papel de contrapeso moral do filme, conseguindo neutralizar melhor o impacto do abandono paterno. A dor também estava presente na sua vida, como podemos vislumbrar num tenso diálogo dela com seu pai, a respeito da sugestão feita por ele para a participação de seu filho Erick num filme que estava para ser rodado. Na ocasião, ela transmite ao pai a sua dor de ter vivido tão próximo dele em momento em que atuou num dos filmes do pai, ainda criança, e depois ter sido impactada pelo abrupto abandono. A personagem de Agnes tem um traço de maior serenidade com respeito a Nora, mas é mais uma “serenidade” de renúncia e fadiga[3]. Ela prefere evitar um embate mais direto e violento com o pai, seguindo uma tradição que é típica da Escandinávia, onde as pessoas seguram mais suas emoções.

 

Numa das mais belas cena do filme, há um diálogo denso entre Agnes e Nora. A irmã mais nova estava sempre preocupada com a fragilidade emocional de Nora, que em certo momento da vida tentou o suicídio. Diante das inúmeras tentativas de comunicação telefônica com a irmã, Agnes resolve ir pessoalmente ao encontro de Nora e as duas conversam desarmadas, com serenidade e transparência. Nora volta-se para Agnes e sublinha que ela conseguiu formar família e driblar a dor. A irmã responde dizendo que também sofreu, mas que certo equilíbrio veio preservado em razão do cuidado dedicado por Nora a ela. Agnes relembra que foi a irmã que estava ali junto dela em todas as ocasiões, tanto as alegres como as difíceis. Era a irmã que ajudava no banho, que penteava os cabelos e que levava a menor para a escola. Foi quem serviu de barreira para o duro embate existencial que as duas viveram depois do abandono do pai.

 

Com seu temperamento egocêntrico e narcisista, Gustav simplesmente toma uma decisão de ir para a Suécia sem se dar conta de mensurar todo o dano que ele causou nas filhas. Na verdade, ele estava mais preocupado com a sua arte, deixando em segundo plano o cuidado e atenção com suas filhas. Gustav traduz de forma viva aqueles que usam de seu trabalho ou arte como um escudo contra a intimidade da vida concreta e real, com todos os seus desdobramentos. Em mesa redonda realizada no Festival de Cannes, o diretor do filme sublinhou: “A vida é bela, há palmeiras e sol, mas nós achamos difícil nos comunicarmos, até mesmo em relacionamentos próximos, no amor, nas famílias. Muitos silêncios nos afetam tremendamente, nos machucam”[4].

O filme escava essa dolorosa carência de comunicação entre as partes, com potência e precisão. Num lar cheio de memórias, há a presença de “ecos tênues” de uma tragédia que ocorreu em décadas anteriores: o suicídio da mãe de Gustav, que viveu tempos difíceis da repressão nazista, com forte impacto na sua vida.

 

O reencontro do pai com as filhas ocorre por ocasião da morte de sua ex-esposa, Sissel. As filhas reúnem os amigos num memorial em homenagem à mãe, depois de sua morte. Para a surpresa de todos, Gustav aparece no encontro. E ressurge tranquilo, como se nada tivesse acontecido antes. A reação das filhas é de surpresa e espanto. Talvez ele buscasse uma nova conexão, e escolheu o caminho da arte, que era o “único” que conhecia e acreditava. Como cineasta reconhecido, buscava agora retomar o caminho do cinema, e já não realizava essa arte há 15 anos. Surgia agora a oportunidade. 

 

Ao reencontrar Nora, a filha mais velha, propõe a ela um papel protagonista no novo filme que planeja rodar na própria casa da família. O projeto visava “transformar o lugar do trauma em um espaço de criação”[5]. Significava também um caminho de reaproximação com a família através da arte. O cinema era para ele a linguagem possível para romper o bloqueio e criar condições para uma distinta comunicação com as filhas. 

 

Os dois, pai e filha (Nora), se reúnem num bar e ele lança sua ideia, propondo à filha a leitura do roteiro previsto. Ela reage negativamente. O desconforto foi o traço marcante na conversa entre os dois, com a emergência de velhos traumas e dores. E ali, junto à sua filha, Gustav expôs suas dificuldades com o teatro e com alguns dos trabalhos realizados por ela. Via na proposta apresentada a possibilidade de uma nova e prodigiosa ascensão artística de sua filha. Não houve solução satisfatória, e Nora sai do bar aborrecida e desencantada.[6]

 

O projeto não morre com a negação da filha, Gustav logo encontra uma possível substituta para o papel. A oportunidade surge num festival de cinema, quando Gustav decide chamar para o papel uma reconhecida atriz americana, Rachel Kemp (Elle Fanning). Ela aceita inicialmente o papel e chega a participar de alguns ensaios. Aos poucos vai se dando conta que não estava ao alcance do projeto previsto por Gustav. Era muito difícil representar o papel que estava previsto para Nora. Era muito desconfortável para ela representar um drama doméstico não vivenciado por ela. Em certo momento, Rachel recorre a Nora, numa visita à sua casa. As duas conversam sobre o filme. Rachel busca indagar as razões da recusa de Nora em assumir o papel. Ela simplesmente diz que os dois não conseguem conversar. Não há entendimento possível. Na verdade, porém, há pontos de contato e similitudes entre o pai e a filha. De forma sábia, que nos faz recordar o filme Persona de Bergman, há um momento em que o diretor de fotografia sincroniza as imagens do pai e da filha numa única imagem, mostrando a realidade de uma intimidade oculta.

 

Com grande nobreza, Rachel vai certa noite ao encontro de Gustav, e numa conversa sincera declina do papel a ela conferido. É uma cena muito bonita, num dos ricos diálogos presentes no filme . Depois de se despedir amistosamente de Rachel, Gustav vive um momento de apreensão, com o estreitamento das possibilidades de sua produção. Ele recorre, como sempre, à bebida e, num aperto interior, resolve sair de casa e ficar ao relento pensativo e perdido. Acaba adormecendo por ali mesmo. A cena vem recortada, e ele reaparece já no hospital, em processo de recuperação. Recebe ali a visita da filha Nora, que se coloca em prontidão para os cuidados com o pai. Temos uma outra cena bonita, no hospital, quando as duas irmãs flagram o pai em conversa  brincalhona com a enfermeira que estava no quarto. As duas irmãs sorriem, felizes, com a pronta recuperação do pai. 

 

Em síntese, a filha Nora acaba fazendo o papel previsto, assim como o filho de Agnes. É muito singela a cena final do filme, com Nora atuando no momento decisivo, em que está para acontecer algo de grave na filmagem. Trata-se da cena em que a mãe despede-se do filho, que está indo para a escola. Quando vai ocorrer o desfecho, o menino bate na porta, pois tinha esquecido o seu celular. A mãe retorna à sala, despede-se novamente dele, que a olha de uma forma diferente, e quando o episódio nodal vai acontecer, o diretor manda cortar a cena, e o filme se conclui. Logo após o corte, o que vemos é uma cena maravilhosa e única, em que a câmera se fixa lentamente no rosto do pai, e retorna ao rosto da filha. Há ali um pacto de silêncio, e um olhar de ternura, que preserva a intimidade. Não há propriamente uma resolução da incomunicabilidade, mas ao menos uma reorganização da afetividade. Tudo de forma simples, bonita, singela e muito amorosa.

 

Estamos, assim, diante de um filme magnífico, que revela novas facetas a cada nova visualização. Aborda algo que está sempre aí, presente no cotidiano de muitas famílias. É quando o abandono se acumula, como a fresta intermitente numa casa, e molda as escolhas e afetos de todos os envolvidos. O filme Valor sentimentalvem regido por esse “controle interno de sensações”, que “guardam traumas, medos e desejos no íntimo. Quando eles são finalmente exteriorizados, vem a avalanche. Uma avalanche que ameaça a relação central da história, entre um pai e as duas filhas”[7]. Em entrevista concedida por Trier ao colunista Leonardo Sanches no festival de Cannes, ele justifica a razão de certos comportamentos vividos pelos escandinavos: "Você pode nadar no oceano no verão e depois não conseguir sair de casa no inverno. Eu acho que isso nos afeta muito, afeta a maneira como expressamos nossos sentimentos, a depender da época do ano"[8].

 

Valor sentimental é, sem dúvida, um filme de fricção. Mas, assim como nos filmes de Bergman, há zonas de respiro e de alegria, que garantem ao espectador um momento mais suave, para então retornar ao cotidiano doloroso. Saímos do filme com a convicção de que apesar de esforços louváveis, a arte não consegue reparar o que a vida fraturou. É como ocorre na arte japonesa do Kintsugi, que consiste em colar com laca e pó de ouro os objetos cerâmicos quebrados. Como indicou com precisão Adriana Lisboa, a cicatriz sempre permanece: “Não se cola um vaso quebrado de cerâmica de modo a fazer sumir as marcas do acidente”[9]. A arte simplesmente possibilita um olhar diferencial. 

 

O grande aprendizado que se dá com o filme Valor sentimental diz respeito ao processo de aceitação da ambiguidade de cada ser humano. Como bem lembrou Tas Zago em resenha sobre o filme, 

 

“O verdadeiro encanto de Valor Sentimental parece-me ser a forma como ele nos devolve a nós mesmos. Não é apenas um filme sobre uma família quebrada, mas um filme sobre o que sobra de nós depois que o amor se escondeu nas dobras do tempo. Trier nos lembra que a intimidade pode ser um lugar perigoso, mas é também o único onde vale a pena se perder.[10]



[1] Enoe Lopes Pontes. Joaquim Trier fala sobre valor sentimental... Coisa de Cinéfilo, 16/01/2026: https://coisadecinefilo.com.br/joachim-trier-fala-sobre-valor-sentimental-em-conversa-exclusiva-com-o-coisa-de-cinefilo/ (acesso em 29/01/2026).

[3] Kevin Rick. A arte como meio de reconciliação. Plano crítico, 25/12/2025:

https://www.planocritico.com/critica-valor-sentimental/ (acesso em 29/12/2025).

[5] Daniel Oliveira. “Valor sentimental”: quem tem medo de Ingmar Bergman. Cinematório, 26/12/2025:

https://www.cinematorio.com.br/2025/12/valor-sentimental-quem-tem-medo-de-ingmar-bergman/ (acesso em 26/12/2025).

[6] Ibidem.

[7] Leonardo Sanchez. “Valor sentimental” mira o oscar... Folha de São Paulo, 17/12/2025:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/12/valor-sentimental-mira-o-oscar-com-dramalhao-que-faz-frente-a-agente-secreto.shtml(acesso em 29/01/2026).

[8] Ibidem.

[9] Adriana Lisboa. Todo o tempo que existe. Belo Horizonte: Relicário, 2022, p. 88.

[10] Tais Zago. “Valor sentimental”: um filme como memória ferida. Café História, 14/01/2026:

https://www.cafehistoria.com.br/valor-sentimental/ (acesso em 29/01/2026).

quarta-feira, 2 de julho de 2025

O amor na teia da perplexidade: em torno a um poema de Drummond

 O amor na teia da perplexidade: em torno de um poema de Drummond

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

Tivemos um lindo encontro ao final da aula sobre os poemas de Drummond, no Instituto Humanitas da Unisinos (IHU). Isso ocorreu em 09 de abril de 2025. Na primeira aula de cada mês, para coroar o dia, um grupo pequeno se encontra para abordar alguma questão refletida. Nesse dia, estavam 7 pessoas: eu, Paula, Alexia, Ana Maria, Mercia, Amauride e Vânia. Esse é um grupo que vem acompanhando os cursos que dou no IHU desde o primeiro semestre de 2021, depois da pandemia. Os encontros são de muita intimidade e de riqueza inaudita.

Na aula do dia, que era a terceira do curso, iniciado em 12 de março de 2025, tinha como livro de referência “O brejo das almas” (1934). Esse livro de Drummond, ao contrário de outros, não teve assim grande projeção, nem foi objeto de muitos estudos teórico. Isto talvez se deva ao fato dele ter saído entre dois livros de muito peso: Alguma poesia (1930) e Sentimento do mundo (1940). Alguns o consideram o “primo pobre” de Drummond, uma vez que se situou entre dois grandes marcos, mas isso não é absolutamente verdade. O livro é de beleza singular e traz em seu bojo reflexões que são fundamentais. 

No encontro com o pequeno grupo, a reflexão não ficou presa ao livro Brejo das almas, mas partiu, sim, de uma indagação presente num dos poemas do livro: 

“O amor no escuro, não, no claro,

é sempre triste, meu filho, Carlos,

mas não diga nada a ninguém,

ninguém sabe nem saberá

Não se mate”[1].

 

No debate, Alexia, lembrou uma passagem maravilhosa do livro de Nizami (sec XII), da tradição sufi, que aborda a dolorosa história de Layla & Majnum, que viveram uma experiência de amor falida, em razão de muitos impedimentos. Os dois passaram a vida separados. Quando, depois de muito tempo, ocorre a oportunidade do encontro entre ambos, há uma interdição que vem do mundo interior de Layla. No momento propício, que podia suscitar o enlace, ocorre algo inesperado. Majnun, que aguarda Layla sob uma palmeira, ardendo de amor e desejo, espera o sinal positivo do velho, que ficou de indicar para Layla o momento oportuno. Por sua vez, Layla não deu conta de avançar rumo ao amado querido. Ela ficou paralisada, e seu corpo inteiro tremia, como se ela estivesse profundamente enferma. Ao tentar conduzi-la com o braço em direção ao amado, ela recuou, com cortesia, e disse:

 

“Nobre senhor, nem tão longe, mas nem tão perto. Agora sou igual a uma vela ardente; um passo mais perto do fogo e eu serei consumida completamente. A proximidade traz o desastre, pois os amantes só estão seguros separados”[2].

 

Um texto que escrevi, ao preparar a aula, serviu de ponto de arranque para a reflexão. Ele se inicia com um poema de Drummond, Mineração do outro, publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, em julho de 1959, e  apareceu no livro Lição de coisas (1962). 

 

Mineração do Outro

 

“Os cabelos ocultam a verdade.

Como saber, como gerir um corpo

alheio?

Os dias consumidos em sua lavra

significam o mesmo que estar morto.

 

Não o decifras, não, ao peito oferto,

mostruário de fomes enredadas,

ávidas de agressão, dormindo em concha.

Um toque, e eis que a blandícia erra em tormento,

e cada abraço tece além do braço

a teia de problemas que existir

na pele do existente vai gravando.

 

Viver-não, viver-sem, como viver

sem conviver, na praça de convites?

Onde avanço, me dou, e o que é sugado

ao mim de mim, em ecos se desmembra;

nem resta mais que indício,

pelos ares lavados,

do que era amor e, dor agora, é vício.

 

O corpo em si, mistério: o nu, cortina

de outro corpo, jamais apreendido,

assim como a palavra esconde outra

voz, prima e vera, ausente de sentido.

Amor é compromisso

com algo mais terrível do que amor?

— pergunta o amante curvo à noite cega,

e nada lhe responde, ante a magia:

arder a salamandra em chama fria”[3].

Sem dúvida, estamos diante de um poema complexo e de riqueza singular. Um grau de dificuldade que nos faz lembrar outro poema enigmático de Drummond, chamado Áporo, que foi desvendado por Davi Arrigucci Jr no livro Coração Partido[4]. Para Arrigucci, esse poema de Drummond é um dos que mais se destaca em sua obra, tratando o tema do amor. Ele revela “um momento a uma só vez ímpar e irradiante, pela alta complexidade, pela firmeza com que enfrenta o difícil, pela luz que lança nos demais que tratam do mesmo tema”[5].

O poema de Drummond é um instrumento fértil e seguro para a compreensão do enigma do outro, ajudando-nos a mergulhar no oceano inatingível da alteridade. A poeta e romancista, Lia Luft, expressou com clareza esse traço em reflexão no livro, Mar de dentro. Na sua visão, que concordo, há um “espaço de silêncio intransponível mesmo nos mais íntimos amores”[6]. A poesia de Drummond toca em pontos de sintonia com Lia Luft:

“Os cabelos ocultam a verdade.

Como saber, como gerir um corpo

alheio?”

 

“Não o decifras, não, ao peito oferto,

mostruário de fomes enredadas,

ávidas de agressão, dormindo em concha.”

 

“e cada abraço tece além do braço

a teia de problemas que existir

na pele do existente vai gravando”

 

“O corpo em si, mistério: o nu, cortina

de outro corpo, jamais apreendido”

 

Temos aqui vários indícios de uma “incomunicabilidade” com o universo daquele que está diante de nós. O outro é sempre “alheio”, estranho, estrangeiro. Lembrei-me aqui de uma reflexão profunda de Alain Montandon no “Livro da Hospitalidade”. Ele aborda o tema da “hospitalidade”[7]. Sublinha que o hóspede é sempre um estranho. A complexa relação com o outro que nos visita começa já no início: “naquela soleira, naquela porta à qual se bate e que vai se abrir para um rosto desconhecido”[8]. Diz o filósofo que o “território do outro” vem sempre resguardado por uma “sensibilidade escrupulosa”. Sem dúvida: devemos “bater devagar”, com cuidado e fineza na porta do outro. A hospitalidade jamais quebra a distância, que permanece acesa.

O trabalho do amor é complexo, sutil, delicado, desafiador. Ele pressupõe uma disponibilidade de avançar no universo do desconhecido. Há, como lembra Arrigucci, o empenho de “escavar”. Escavar de forma semelhante ao inseto no poema “Áporo” (1945)[9], que “cava, sem alarme, perfurando a terra”, mas que se defronta com um “país bloqueado”, ou com o “enlace da noite”.

Adentrando-me no poema de Drummond, Mineração do Outro, vejo que há, de fato um mistério indecifrável na experiência do "peito oferto". Quando nos "ofertamos" ao outro, sabemos, desde o início, que ele jamais será decifrado; esse outro que vem animado por um complexo "mostruário de fomes enredadas". E... curioso, suas fomes estão "ávidas de agressão", e ele dorme "em concha". E apesar de todos os abraços, de nosso movimento que convida, permanece acesa a "a teia de problemas", que não é qualquer oferta que consegue solucionar. 

Em sua lúcida reflexão, Arrigucci relaciona o trabalho do amor ao empenho de escavar, visando uma decifração possível. Ele vê no poema de Drummond, o anseio por penetrar “através de barreiras da terra, do corpo e da própria linguagem até o limite do indizível, quando, reproduzindo  a situação dramática do amante diante da noite, seu discurso se converte em imagem”[10]. Como aponta Arrigucci, na visão de Drummond o amor não é algo cordato, mas contrariado. O poeta quer, antes de tudo, inquirir a qualquer custo para debruçar-se no enigma. E ele recorre à imagem que também está no poema Áporo, que fala em cavar e perfurar a terra, visando desvendar o labirinto:

 “O amor é então aqui mineral; é físico, mas também metafísico, pois corresponde ao desejo de ir além da matéria em que penetra, na busca vã da alteridade em que mais se fragmenta e aniquila do que se reúne ao que já de antemão era perdido”[11].

Daí o recurso à bela imagem da mineração do outro, que invoca o “movimento inquiridor e sofrido a caminho do objeto fugidio que o atrai e impede de passar, mantendo-o cativo do mágico fascínio que se enreda e perde o próprio pensamento”[12]

Nesse itinerário em direção ao outro, ocorre também um trabalho do mundo interior. Não há dúvida. Somos trabalhados em nossa interioridade nessa difícil viagem rumo ao mistério do outro. Daí a imagem feliz da "mineração". Meditar sobre o amor, como mostra Arriguci, é também meditar sobre "a história da relação humana dos seres que o vivem"[13]. É árduo o trabalho de ir além do que está aí, presente na matéria:

"O esforço de minerar até o derradeiro obstáculo que se antepõe a quem ama e quer saber pode chegar a diversas consequências: a inacessível transcendência da mineração por mais que se aprofunde; o dilaceramento patético que vivem os amantes; a inevitabilidade terrível  que acompanha seu percurso com o risco do trágico; o caráter incognoscível extremo daquilo mesmo que nos atrai com o fascínio do inexplicável"[14].

Toda essa reflexão é de uma profundidade singular, que merece de nossa parte um meditar demorado. Não há como responder a isso, mas fazer como aconselha Rilke em suas "Cartas a um jovem poeta". Há que ruminar, primeiro, as perguntas, em profundidade, de forma que elas possam viver em nós. E talvez, quem sabe, mais distante, conseguiremos encontrar uma resposta plausível[15]. Trata-se de algo que envolve um caminho da vida interior, que requer paciência.

Rilke diz ainda que o amor é, radicalmente, "solidão"[16]. E ele tem razão. Diz ele que o amor não é antes de tudo o entregar-se, o confundir-se com outra pessoa. Isso não é possível. O amor é, melhor, uma ocasião bonita para o amadurecimento pessoal. Os amantes, como todos em geral, estão inseridos num mundo que é limitado, frágil, vulnerável. Trata-se, como diz Rilke na segunda elegia de Duíno, de um universo de contingência:

"E aqueles que são belos, oh, quem os deteria? A aparência transita sem descanso em seu rosto e se dissipa. Tal o orvalho da manhã e o calor do alimento, o que é nosso flutua e desaparece"[17].

Rilke desvela, com pasma lucidez os traços da temporalidade “que corrói todos os  esforços humanos de realização e plenitude ontológicas”[18]. Nada escapa à dinâmica do tempo, nem os impulsos do coração, os estases e a beleza. A verdade mais dura é a de que "nós passamos", e as árvores permanecem.

Pobres amantes, diz Rilke. São marcados por uma sede insaciável, são movidos pelo movimento irrefreado do gozo, que, também é contingente. Nessa busca do ápice do prazer, lembra Rilke, chega um momento em que um dos dois diz: basta! Os amantes não dão conta de um gozo abissal, e retornam à realidade cotidiana. É impossível estar diante do mundo aberto e transparente. Não há como se "dissolver" no mundo do outro. Os místicos mesmo tentaram isso, sem sucesso. Mesmo os mais ousados, como os sufis, perceberam a impossibilidade do passo unitivo. Quando o amante pousa seu lábio no outro, buscando o vinho mais límpido, acaba retornando,  sem sucesso, pois não é possível reter uma "duração pura". Nenhum amplexo é capaz de oferecer eternidade[19].



[1] Carlos Drummond de Andrade. Poesia 1930-1962. Edição crítica. São Paulo: Cosac & Naify, 2012, p. 188 (Não se mate).

[2] Nizami. Layla & Majnun. A clássica história de amor da literatura persa. Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 162.

[3] Carlos Drummond de Andrade. Poesia 1930-1962, p. 832.

[4] Davi Arrigucci Jr. Coração partido. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

[5] Ibidem, p. 112.

[6] Lya Luft. Mar de dentro. 3 ed. São Paulo: ARX, 2002, p. 30.

[7] Na raiz mesma da palavra hospitalidade encontra-se outra: hostilidade.

[8] Alain Montandon (Ed.) O livro da hospitalidade. A acolhida do estrangeiro na história e nas culturas. São Paulo: Editora Senac, 2011, p. 32 (Prefácio de Montandon).

[9] Carlos Drummond de Andrade. Poesia 1930-1962, p. 356 (A rosa do povo)

[10] Davi Arrigucci Jr. Coração partido, p. 115.

[11] Ibidem, p. 138.

[12] Ibidem, p. 140.

[13] Ibidem, p. 142.

[14] Ibidem, p. 144.

[15] Rainer Maria Rilke. Cartas a um jovem poeta. 4 ed. São Paulo: Globo, 2013, p. 38.

[16] Ibidem, p. 55.

[17] Rainer Maria Rilke. Elegias de Duíno . 6 ed. São Paulo: Globo, 2013, p. 21.

[18] Ibidem, p. 98 (comentário de Dora Ferreira da Silva).

[19] Ibidem, p. 23.

Francisco e o desafio da literatura

 Francisco e o desafio da Literatura

 

Faustino Teixeira

IHU/Paz e Bem

 

O pontificado de Francisco avança para o seu 12º ano, a ser completado em março de 2025. A igreja católica viveu nesse período momentos de uma grande primavera eclesial, com a renovação de ares fundamentais para a sua sintonia com o tempo presente. O seu trabalho pastoral não tem sido fácil, uma vez que vem cerceado por movimentos de resistência profundos, advindos do próprio circuito eclesial católico (POLITI, 2014, p. 176-177). Um dos traços que marcam a personalidade de Francisco é a paciência, que ele associa à santidade. A paciência e a constância são fruto de um aprendizado bebido nas raízes jesuítas e, é claro, na dinâmica do evangelho. 

 

Em sua entrevista com o pe. Spadaro, Francisco fala em discernimento: 

 

“Esse discernimento requer tempo. Muitos, por exemplo, pensam que as mudanças e as reformas podem acontecer em pouco tempo. Eu creio que será sempre necessário tempo para lançar as bases de uma mudança verdadeira e eficaz. E este é o tempo do discernimento. E por vezes o discernimento, por seu lado, estimula a fazer depressa aquilo que inicialmente se pensava fazer depois (...). O discernimento realiza-se sempre na presença do Senhor, vendo os sinais, escutando as coisas que acontecem, o sentir das pessoas, especialmente dos pobres” (FRANCISCO, 2013, p. 11).

 

Em suas Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke sublinha a importância fundamental da paciência. Ele diz, com ênfase, que “a paciência é tudo”. Trata-se de um ingrediente essencial no desenvolvimento da vida interior. Os grandes e decisivos processos de caminho pessoal devem ser conduzidos com discernimento específico, devagar e sem pressa. É com o devido tempo que conseguimos alcançar uma nova compreensão e fazer com que ela possa habitar tranquilamente nos outros que nos rodeiam (RILKE, 2013, p. 33 e 38).

 

Francisco sabe muito bem que as mudanças na igreja requerem tempo. Como ele disse em longa entrevista ao padre Antonio Spadaro, em 2013, as mudanças que se pretendem verdadeiras e eficazes não ocorrem da noite para o dia, mas envolvem todo um processo de discernimento. As decisões fundamentais na vida eclesial, assevera Francisco, não podem ocorrer de modo repentino. (FRANCISCO, 2013, p. 11 e 17).

 

Em tempos recentes, Francisco tem levantado uma questão fundamental para a dinâmica de formação daqueles que buscam sua inserção do sacerdócio da igreja: a questão da importância da literatura. Trata-se de um desafio que não se restringe aos candidatos ao ministério, mas que se dirige a todos os agentes de pastoral e aos cristãos em geral. O tema apareceu na carta de Francisco sobre o papel da literatura na educação, publicada em 17 de julho de 2024[1].

 

Um de nossos maiores especialistas em literatura no Brasil, o professor Antonio Candido (1918-2017), deixou expressa num singular vídeo, a sua posição sobre o lugar da literatura da vida de cada um de nós. Dizia que a literatura tem um papel fundamental na melhora do ser humano. Para ele, todos aqueles que passaram pelo crivo da literatura viveram, certamente, um grande enriquecimento pessoal. Daí ser fundamental, a seu ver, a abertura de espaços garantidos na sociedade para o acesso livre à literatura[2].

 

Francisco vem demonstrando em seu pontificado uma grande sensibilidade aos temas humanos, e busca acercar-se de colaboradores que manifestam semelhante sintonia, como é o caso do “cardeal poeta”, José Tolentino de Mendonça (1965 -), que atua hoje como Prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação, cargo que assumiu em 2022. 

 

Em entrevista publicada no IHU-Notícias, de 28 de agosto de 2024, José Tolentino pontuou que ele foi escolhido por Francisco porque a poesia faz parte de sua biografia, e sua atuação no Vaticano tem como objetivo trazer para a vida da igreja esse “inútil que perfuma a vida”[3]. E assim tem sido sua atuação em Roma, com influxos vivos na reflexão de Francisco. Mais recentemente, Francisco escolheu para o cargo de cardeal outra grande figura humana, de grande sensibilidade literária, que é o dominicano Timothy Radclife (1945 -), que exerceu o cargo de Mestre Geral da Ordem dos Dominicanos, com várias publicações no campo da espiritualidade e dos desafios da vida contemporânea.

 

Em sua carta sobre o papel da literatura na educação, Francisco lamenta a carência literária dos seminaristas, sacerdotes e agentes de pastoral que atuam na vida eclesial. Reconhece ser esse um dos limites da formação recebida, que carece de um lugar destacado para a literatura. Sublinha Francisco, que 

“é preciso constatar, com pesar, a falta de um lugar adequado da literatura na formação daqueles que se destinam ao ministério ordenado. Efetivamente, esta é, muitas vezes considerada como uma forma de passatempo, ou seja, como uma expressão menor de cultura que não faria parte do caminho de preparação e, portanto, da experiência pastoral concreta dos futuros sacerdotes. Com poucas exceções, a atenção à literatura é considerada como algo não essencial.” (CPLE, 4) 

Essa ideia de que a literatura é um simples “passatempo” para os que estão em processo de formação é algo recorrente entre os responsáveis pelo aprimoramento dos estudantes. Firmou-se o dado de que a literatura é um recurso para as horas livres, como mecanismo de equilíbrio para o ritmo pesado dos estudos durante o dia. Um dos formadores de opinião nesse campo, argumenta que a literatura, a poesia e a música entram como contraponto, no sentido de favorecerem “atitudes tranquilas e repousantes” (LIBÂNIO, 2001, p. 130-131). Daí sua indicação para o horário noturno. Vejo hoje, com clareza, que esse não é melhor caminho de entendimento, já que a literatura não é algo a ser recorrido como um passatempo.

A este respeito, gostaria de afirmar que tal perspectiva não é boa. Ela está na origem de uma forma de grave empobrecimento intelectual e espiritual dos futuros sacerdotes, que ficam assim privados de um acesso privilegiado, precisamente através da literatura, ao coração da cultura humana e, mais especificamente, ao coração do ser humano.

De fato, podemos verificar que em muitos institutos de formação, a carência das humanidades é um dado incontestável, e isto aparece na própria estruturação dos currículos de teologia. Percebe-se nos seminaristas uma preocupação nodal com o desfecho da formação recebida para que logo possam exercer o seu trabalho paroquial, com as benesses que o acompanham. Nota-se por todo canto um desinteresse notório pela formação mais vasta e de ampliação do olhar. 

 

Francisco chama a atenção para traços de superficialidade no tempo utilizado nos seminários, e a presença nociva de certos recursos da internet e das redes sociais, que consomem o tempo vago dos candidatos ao sacerdócio. Fala ainda do perigoso circuito da veleidade e das fake News, que roubam um tempo precioso, que poderia ser sorvido com momentos serenos de leitura e aperfeiçoamento pessoal.

 

O papa lança, assim, um apelo capital em favor de uma mudança radical de perspectiva, no sentido de dedicar uma atenção especial à formação literária. Sua proposta vai no sentido de ampliar o olhar e a consciência. Como indica Francisco, a literatura é uma preciosa porta de entrada para o conhecimento de si, para a sensibilização pessoal, e também para o diálogo com o tempo. E justifica:

 

“Para um crente que deseja sinceramente entrar em diálogo com a cultura do seu tempo ou, simplesmente, com a vida de pessoas concretas, a literatura torna-se indispensável. Com grande razão, o Concílio Vaticano II afirma que ´a literatura e as artes […] procuram dar expressão à natureza do homem» e «dar a conhecer as suas misérias e alegrias, necessidades e energias` . Na verdade, a literatura inspira-se na cotidianidade vivida, suas paixões e acontecimentos reais, como ´a ação, o trabalho, o amor, a morte e todas as pobres coisas que enchem a vida`” (CPLE, 8).

 

O contato direto com a literatura, lembra Francisco, é algo essencial. O exercício cotidiano da leitura, da reflexão demorada e atenta, do mergulho efetivo no texto, são recursos fundamentais para o aperfeiçoamento pessoal, assim como um antídoto contra a “surdez espiritual”. Francisco cita o exemplo precioso de Jorge Luis Borges com seus conselhos a respeito. A literatura entra como ingrediente essencial para a tessitura do mundo pessoal. Com base em Proust, Francisco nos lembra que

 

“Os romances desencadeiam ´em nós, no espaço de uma hora, todas as alegrias e desgraças possíveis que, durante a vida, levaríamos anos inteiros a conhecer minimamente; e, dessas, as mais intensas nunca nos seriam reveladas, porque a lentidão com que ocorrem nos impede de as perceber” (CPLE, 18).

 

A obra literária, ressalta Francisco, está sempre em movimento, como algo vivo e fértil, encantando o olhar e abrindo frestas inesgotáveis. É igualmente um forte ingrediente para o trabalho formativo dos sacerdotes e agentes de pastoral, na medida em que enriquece profundamente o repertório narrativo desses formadores de opinião, bem como o vocabulário e a vida intelectual. Francisco nos lembra que

 

“de um ponto de vista pragmático, muitos cientistas afirmam que o hábito de ler produz muitos efeitos positivos na vida de uma pessoa: ajuda-a a adquirir um vocabulário mais vasto e, consequentemente, a desenvolver vários aspectos da sua inteligência; estimula também a imaginação e a criatividade; simultaneamente, permite que as pessoas aprendam a exprimir as suas narrativas de uma forma mais rica; melhora também a capacidade de concentração, reduz os níveis de déficit cognitivo e acalma o stress e a ansiedade” (CPLE, 16).

 

Chamo aqui a atenção para esse dado levantado por Francisco, de que o hábito da leitura é um forte instrumento para ajudar na expressão das narrativas. O ato de escrever, motivado pela literatura, é fundamental para o sentimento de pertença, como tão bem lembrou Clarice Lispector . É um estímulo poderoso para a renovação pessoal e a experiência integradora do viver cada passo do cotidiano com a intensidade que merece. Clarice, numa de suas crônicas, dizia que o exercício de escrever facultou-lhe o sentimento de pertença a si mesma, um sentimento que potencializa a dinâmica da força pessoal, que se irradia como luz para os outros (LISPECTOR, 2018, p. 115-116). Escrever é uma experiência que salva, diz Clarice. Trata-se de “procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador” (LISPECTOR, 2018, p. 143-144).

 

Em tempos difíceis como o nosso, de crise civilizacional, a literatura fornece um apoio existencial fundamental. Como diz a jovem poeta portuguesa, Matilde Campilho, a poesia, como a pintura e a música, entram como um forte apoio cognitivo: elas “salvam o minuto”[4], elas reconstituem o tecido fragmentado com as dores do tempo e apontam horizontes alvissareiros. 

 

Em livro publicado em 2024 na Itália, com o singelo título Versi a Dio. Antologia dela poesia religiosa, Francisco colaborou com um texto precioso sobre o dom da poesia (BRULLO; SPADARO; CROCETTI, 2024). É, na verdade, uma carta dirigida por Francisco aos poetas. Ele relata em seu texto que a poesia teve sempre um lugar de destaque em sua vida, que ao longo de seu itinerário pôde apreciar muitos escritores e poetas, dentre os quais Dante e Dostoievski. Reconhece que eles exerceram sobre ele um influxo fundamental, no sentido da compreensão de si mesmo e da abertura das sendas do coração. Foram passos fundamentais também para o seu trabalho pastoral, argumenta com precisão. Os poetas, sublinha Francisco, são pessoas nobres, marcadas por sede insaciável de sentido. São movidos pela incrível capacidade de sonhar e de desenhar mundos alternativos. Daí sua importância nos tempos atuais, de predomínio da perturbação do humano sobre a Terra, os tempos do Antropoceno. Os poetas são dotados de “olhos de vidro”, com os quais podem sonhar um mundo distinto. A poesia, diz Francisco, “não fala da realidade a partir de princípios abstratos, mas o faz em escuta à realidade mesma: o trabalho, o amor, a morte, e todas as pequenas grandes coisas que preenchem a vida”.

 

Referências Bibliográficas

 

BRULLO, David; SPADARO, Antonio; Crocetti, Nicola. Versi a Dio. Antologia dela poesia religiosa. Crocetti, 2024.

FRANCISCO. Entrevista exclusiva do papa Francisco ao pe. Antonio Spadaro. São Paulo: Paulus/Loyola, 2013.

LIBÂNIO, João Batista. Introdução à vida intelectual. São Paulo: Loyola, 2001.

LISPECTOR, Clarice. Todas as crônicas.  Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

POLITI, Marco. Francesco tra i lupi. Il segreto di uma rivoluzione. Roma-Bari: Laterza, 2014.

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. 4 ed. São Paulo: Globo, 2013.