sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Valor Sentimental: as dores da memória

 Valor Sentimental: as dores da memória

 

Faustino Teixeira

UFJF/IHU/Paz e Bem

 

 

Dentre os grandes lançamentos de 2025, destaca-se para mim o filme Valor Sentimental (Sentimental Value), dirigido por Joachim Trier, numa co-produção da Noruega, França, Dinamarca, Alemanha e Reino Unido. Um filme que nos faz lembrar Ingmar Bergman, guardando, porém, suas peculiaridades.  No meu caso, o filme provocou uma gama de reflexões, exercendo um impacto impressionante. Não foi suficiente ver uma única vez para poder desentranhar todos os significados que o filme guarda consigo. 

 

Temos em tela um filme que aborda de forma cirúrgica as complexas relações familiares, e em particular as cicatrizes que perduram duramente na memória em razão dos descompassos da incomunicação. O filme é de profundidade única, e em cada um de seus quadros vai tecendo a rachadura emocional que permanece e se aprofunda com o avançar do tempo. Tudo construído de forma profundamente humana, com as marcas da ambiguidade. Com muita sensibilidade e precisão, o diretor norueguês consegue traduzir um universo dramático pontuado por delicadeza de gestos, silêncios abissais e sentimentos abafados por anos de incompreensão.

 

De forma muito feliz, o diretor recorre à metáfora da casa como locus de relações nubladas, como portadora de memória e guardiã da dor daqueles que por ali passaram. A presença de uma rachadura na casa, que vai lentamente se expandindo, sinaliza uma fissura difícil e dolorosa que acompanha a relação de um pai com suas duas filhas. E se ela não pode ser recomposta, pode ao menos ser reparada ou então revisitada. Na escolha narrativa feita pelo diretor encerra-se uma pergunta que é fundamental: em que medida o passado continua operando, mesmo com a vida seguindo adiante, com as palavras engasgadas e reprimidas no mundo interior ? Em entrevista concedida pelo diretor a Enoe Lopes Pontes (Coisa de Cinéfilo), em janeiro de 2026, ele pontuou que o cinema é distinto da literatura, pois traz o toque das visualidades: há em jogo todo um clima, sensação de luz, de presença dos rostos e toda uma emotividade singular. Revelou ainda que, no caso de Valor Sentimental, esteve presente o complexo desafio de traduzir para o público a experiência de um lugar que carrega consigo o luto e a tragédia[1].

 

Joaquim Trier é um diretor, roteirista e realizador norueguês nascido em março de 1974, que vem se firmando internacionalmente com produções de destaque, como os filmes Reprise (Começar de novo - 2006), Oslo 31de agosto (2011), Mais forte que bombas (2015), Thelma  (2017) e A pior pessoa do mundo (2021). Foi com esse último filme que o diretor ganhou sua consagração no cinema internacional, no Festival de Cannes (2021), quando Renate Reinsver ganhou o prêmio de melhor atriz, além de outras duas indicações (melhor roteiro original e filme internacional).

 

E agora, com Valor Sentimental (2025), o cineasta norueguês volta a ser destaque, com inúmeras premiações e indicações. O filme foi vencedor no Festival de Cannes (2025) e na 38ª edição dos European Film Awards (2026), em Berlim, conquistando seis estatuetas: melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro, melhor ator europeu, melhor atriz europeia e melhor trilha sonora. O filme foi ainda indicado em nove categorias para o Oscar 2026: melhor filme, melhor direção, melhor atriz (Renate Reinsve), melhor ator coadjuvante (Stellan Skargard), melhor atriz coadjuvante (Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas), melhor roteiro original, melhor filme internacional e melhor montagem. 

 

É todo um conjunto de fatores que incidem na singularidade desse filme de Joaquim Tries, a começar pelo aporte de excelentes atrizes e atores: Renate Reinsve (Nora), Inga Ibsdotter Lilleaas (Agnes), Stellan Skarsgard (Gustav), Elle Fanning (Rachel), Cory Michael Smith (Sam) e Anders Danielsen Lie (Jakob). Alguns desses intérpretes atuaram em outros filmes de Trier, como Renate e Anders, em A pior pessoa do mundo.

 

No precioso roteiro do filme temos o trabalho conjunto de Joaquim Trier e Eskil Vogt. São parceiros de longa data. Destacam-se igualmente a bela fotografia de Kasper Tuxen, a montagem de Olivier Bugge Coutté e a trilha sonora original de Hania Rani. Impacta ao espectador a beleza da fotografia do filme, com a presença de um senso tátil particular, com os jogos de luzes e a criação de um clima que favorece uma singular perceção do interior da casa, que é também personagem do filme. A montagem igualmente ajuda, proporcionando uma impressão viva e contínua de “desconforto da permanência”. E junto a isto, a linda e criativa trilha sonora, que me encantou desde o início, a cargo de Hania Rani, com músicas especiais: Nobody Knows (T.L. Barret), Sentimental Value, Havii Oslo (Hania Rani), Dancing With Ghosts (Hania Rani e Patrick Watson), Ooh Lala (Faces), Same old scene (Roxy Music), Cannock Chase (Labi Siffre), dentre outras[2].

 

Como ponto de arranque do filme, temos a redação de uma carta escrita por Nora em sua infância descrevendo a casa da família, que acolheu várias gerações. Na sua ocular, ela era um organismo vivo e sensível, capaz de acolher a dor, a solidão, a raiva, as emoções, mas também as alegrias furtivas que marcaram a vida da família. Ali naquele espaço conviviam o barulho e o silêncio. A ideia de “barulho” sinalizava igualmente os conflitos que marcaram a relação de Gustav com sua esposa Sissel, que resultou em separação. Havia na casa um espaço onde as crianças podiam ouvir escondidas o que se passava na parte de baixo da habitação. A casa era, na verdade, a permanência de uma memória embaraçante das ambiguidades de uma família tocada por dinâmicas de incomunicabilidade. Aliás, o filme revela a presença de duas preocupações centrais do diretor, que é a memória e a identidade.

 

Depois da separação, Gustav abandona a família e parte para a Suécia visando avançar em seu trabalho de cineasta, que, aliás, era um traço presente na sua família. Defendia sempre, e com rigor, a liberdade para o artista. O abandono do lar exerceu um impacto forte sobre as duas filhas, Nora e Agnes, que passaram a viver com a mãe na mesma casa. Gustav deixou como herança uma profunda dor nas crianças e, em particular, na filha mais velha, Nora, que carregou consigo profundas feridas em sua vida adulta. E as dores eram profundas, difíceis de cicatrizarem por completo. Ela buscou realização na vida de atriz de teatro, mas sempre trazendo essa marca em seu corpo, que reagia com constantes ataques de pânico antes de suas apresentações públicas, como na cena que ocorre logo no início do filme. Não há dúvida de que o corpo fala: ele também denuncia aquilo que a fala busca mascarar.

 

Sua irmã mais nova, Agnes, firmou-se como historiadora, e conseguiu formar família, sendo mãe de Erik, uma criança expressiva e encantadora. Ela exerce um papel de contrapeso moral do filme, conseguindo neutralizar melhor o impacto do abandono paterno. A dor também estava presente na sua vida, como podemos vislumbrar num tenso diálogo dela com seu pai, a respeito da sugestão feita por ele para a participação de seu filho Erick num filme que estava para ser rodado. Na ocasião, ela transmite ao pai a sua dor de ter vivido tão próximo dele em momento em que atuou num dos filmes do pai, ainda criança, e depois ter sido impactada pelo abrupto abandono. A personagem de Agnes tem um traço de maior serenidade com respeito a Nora, mas é mais uma “serenidade” de renúncia e fadiga[3]. Ela prefere evitar um embate mais direto e violento com o pai, seguindo uma tradição que é típica da Escandinávia, onde as pessoas seguram mais suas emoções.

 

Numa das mais belas cena do filme, há um diálogo denso entre Agnes e Nora. A irmã mais nova estava sempre preocupada com a fragilidade emocional de Nora, que em certo momento da vida tentou o suicídio. Diante das inúmeras tentativas de comunicação telefônica com a irmã, Agnes resolve ir pessoalmente ao encontro de Nora e as duas conversam desarmadas, com serenidade e transparência. Nora volta-se para Agnes e sublinha que ela conseguiu formar família e driblar a dor. A irmã responde dizendo que também sofreu, mas que certo equilíbrio veio preservado em razão do cuidado dedicado por Nora a ela. Agnes relembra que foi a irmã que estava ali junto dela em todas as ocasiões, tanto as alegres como as difíceis. Era a irmã que ajudava no banho, que penteava os cabelos e que levava a menor para a escola. Foi quem serviu de barreira para o duro embate existencial que as duas viveram depois do abandono do pai.

 

Com seu temperamento egocêntrico e narcisista, Gustav simplesmente toma uma decisão de ir para a Suécia sem se dar conta de mensurar todo o dano que ele causou nas filhas. Na verdade, ele estava mais preocupado com a sua arte, deixando em segundo plano o cuidado e atenção com suas filhas. Gustav traduz de forma viva aqueles que usam de seu trabalho ou arte como um escudo contra a intimidade da vida concreta e real, com todos os seus desdobramentos. Em mesa redonda realizada no Festival de Cannes, o diretor do filme sublinhou: “A vida é bela, há palmeiras e sol, mas nós achamos difícil nos comunicarmos, até mesmo em relacionamentos próximos, no amor, nas famílias. Muitos silêncios nos afetam tremendamente, nos machucam”[4].

O filme escava essa dolorosa carência de comunicação entre as partes, com potência e precisão. Num lar cheio de memórias, há a presença de “ecos tênues” de uma tragédia que ocorreu em décadas anteriores: o suicídio da mãe de Gustav, que viveu tempos difíceis da repressão nazista, com forte impacto na sua vida.

 

O reencontro do pai com as filhas ocorre por ocasião da morte de sua ex-esposa, Sissel. As filhas reúnem os amigos num memorial em homenagem à mãe, depois de sua morte. Para a surpresa de todos, Gustav aparece no encontro. E ressurge tranquilo, como se nada tivesse acontecido antes. A reação das filhas é de surpresa e espanto. Talvez ele buscasse uma nova conexão, e escolheu o caminho da arte, que era o “único” que conhecia e acreditava. Como cineasta reconhecido, buscava agora retomar o caminho do cinema, e já não realizava essa arte há 15 anos. Surgia agora a oportunidade. 

 

Ao reencontrar Nora, a filha mais velha, propõe a ela um papel protagonista no novo filme que planeja rodar na própria casa da família. O projeto visava “transformar o lugar do trauma em um espaço de criação”[5]. Significava também um caminho de reaproximação com a família através da arte. O cinema era para ele a linguagem possível para romper o bloqueio e criar condições para uma distinta comunicação com as filhas. 

 

Os dois, pai e filha (Nora), se reúnem num bar e ele lança sua ideia, propondo à filha a leitura do roteiro previsto. Ela reage negativamente. O desconforto foi o traço marcante na conversa entre os dois, com a emergência de velhos traumas e dores. E ali, junto à sua filha, Gustav expôs suas dificuldades com o teatro e com alguns dos trabalhos realizados por ela. Via na proposta apresentada a possibilidade de uma nova e prodigiosa ascensão artística de sua filha. Não houve solução satisfatória, e Nora sai do bar aborrecida e desencantada.[6]

 

O projeto não morre com a negação da filha, Gustav logo encontra uma possível substituta para o papel. A oportunidade surge num festival de cinema, quando Gustav decide chamar para o papel uma reconhecida atriz americana, Rachel Kemp (Elle Fanning). Ela aceita inicialmente o papel e chega a participar de alguns ensaios. Aos poucos vai se dando conta que não estava ao alcance do projeto previsto por Gustav. Era muito difícil representar o papel que estava previsto para Nora. Era muito desconfortável para ela representar um drama doméstico não vivenciado por ela. Em certo momento, Rachel recorre a Nora, numa visita à sua casa. As duas conversam sobre o filme. Rachel busca indagar as razões da recusa de Nora em assumir o papel. Ela simplesmente diz que os dois não conseguem conversar. Não há entendimento possível. Na verdade, porém, há pontos de contato e similitudes entre o pai e a filha. De forma sábia, que nos faz recordar o filme Persona de Bergman, há um momento em que o diretor de fotografia sincroniza as imagens do pai e da filha numa única imagem, mostrando a realidade de uma intimidade oculta.

 

Com grande nobreza, Rachel vai certa noite ao encontro de Gustav, e numa conversa sincera declina do papel a ela conferido. É uma cena muito bonita, num dos ricos diálogos presentes no filme . Depois de se despedir amistosamente de Rachel, Gustav vive um momento de apreensão, com o estreitamento das possibilidades de sua produção. Ele recorre, como sempre, à bebida e, num aperto interior, resolve sair de casa e ficar ao relento pensativo e perdido. Acaba adormecendo por ali mesmo. A cena vem recortada, e ele reaparece já no hospital, em processo de recuperação. Recebe ali a visita da filha Nora, que se coloca em prontidão para os cuidados com o pai. Temos uma outra cena bonita, no hospital, quando as duas irmãs flagram o pai em conversa  brincalhona com a enfermeira que estava no quarto. As duas irmãs sorriem, felizes, com a pronta recuperação do pai. 

 

Em síntese, a filha Nora acaba fazendo o papel previsto, assim como o filho de Agnes. É muito singela a cena final do filme, com Nora atuando no momento decisivo, em que está para acontecer algo de grave na filmagem. Trata-se da cena em que a mãe despede-se do filho, que está indo para a escola. Quando vai ocorrer o desfecho, o menino bate na porta, pois tinha esquecido o seu celular. A mãe retorna à sala, despede-se novamente dele, que a olha de uma forma diferente, e quando o episódio nodal vai acontecer, o diretor manda cortar a cena, e o filme se conclui. Logo após o corte, o que vemos é uma cena maravilhosa e única, em que a câmera se fixa lentamente no rosto do pai, e retorna ao rosto da filha. Há ali um pacto de silêncio, e um olhar de ternura, que preserva a intimidade. Não há propriamente uma resolução da incomunicabilidade, mas ao menos uma reorganização da afetividade. Tudo de forma simples, bonita, singela e muito amorosa.

 

Estamos, assim, diante de um filme magnífico, que revela novas facetas a cada nova visualização. Aborda algo que está sempre aí, presente no cotidiano de muitas famílias. É quando o abandono se acumula, como a fresta intermitente numa casa, e molda as escolhas e afetos de todos os envolvidos. O filme Valor sentimentalvem regido por esse “controle interno de sensações”, que “guardam traumas, medos e desejos no íntimo. Quando eles são finalmente exteriorizados, vem a avalanche. Uma avalanche que ameaça a relação central da história, entre um pai e as duas filhas”[7]. Em entrevista concedida por Trier ao colunista Leonardo Sanches no festival de Cannes, ele justifica a razão de certos comportamentos vividos pelos escandinavos: "Você pode nadar no oceano no verão e depois não conseguir sair de casa no inverno. Eu acho que isso nos afeta muito, afeta a maneira como expressamos nossos sentimentos, a depender da época do ano"[8].

 

Valor sentimental é, sem dúvida, um filme de fricção. Mas, assim como nos filmes de Bergman, há zonas de respiro e de alegria, que garantem ao espectador um momento mais suave, para então retornar ao cotidiano doloroso. Saímos do filme com a convicção de que apesar de esforços louváveis, a arte não consegue reparar o que a vida fraturou. É como ocorre na arte japonesa do Kintsugi, que consiste em colar com laca e pó de ouro os objetos cerâmicos quebrados. Como indicou com precisão Adriana Lisboa, a cicatriz sempre permanece: “Não se cola um vaso quebrado de cerâmica de modo a fazer sumir as marcas do acidente”[9]. A arte simplesmente possibilita um olhar diferencial. 

 

O grande aprendizado que se dá com o filme Valor sentimental diz respeito ao processo de aceitação da ambiguidade de cada ser humano. Como bem lembrou Tas Zago em resenha sobre o filme, 

 

“O verdadeiro encanto de Valor Sentimental parece-me ser a forma como ele nos devolve a nós mesmos. Não é apenas um filme sobre uma família quebrada, mas um filme sobre o que sobra de nós depois que o amor se escondeu nas dobras do tempo. Trier nos lembra que a intimidade pode ser um lugar perigoso, mas é também o único onde vale a pena se perder.[10]



[1] Enoe Lopes Pontes. Joaquim Trier fala sobre valor sentimental... Coisa de Cinéfilo, 16/01/2026: https://coisadecinefilo.com.br/joachim-trier-fala-sobre-valor-sentimental-em-conversa-exclusiva-com-o-coisa-de-cinefilo/ (acesso em 29/01/2026).

[3] Kevin Rick. A arte como meio de reconciliação. Plano crítico, 25/12/2025:

https://www.planocritico.com/critica-valor-sentimental/ (acesso em 29/12/2025).

[5] Daniel Oliveira. “Valor sentimental”: quem tem medo de Ingmar Bergman. Cinematório, 26/12/2025:

https://www.cinematorio.com.br/2025/12/valor-sentimental-quem-tem-medo-de-ingmar-bergman/ (acesso em 26/12/2025).

[6] Ibidem.

[7] Leonardo Sanchez. “Valor sentimental” mira o oscar... Folha de São Paulo, 17/12/2025:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/12/valor-sentimental-mira-o-oscar-com-dramalhao-que-faz-frente-a-agente-secreto.shtml(acesso em 29/01/2026).

[8] Ibidem.

[9] Adriana Lisboa. Todo o tempo que existe. Belo Horizonte: Relicário, 2022, p. 88.

[10] Tais Zago. “Valor sentimental”: um filme como memória ferida. Café História, 14/01/2026:

https://www.cafehistoria.com.br/valor-sentimental/ (acesso em 29/01/2026).

Nenhum comentário:

Postar um comentário