quarta-feira, 26 de abril de 2023

Uma mística de acolhida aos cosmos: Hildegarda de Bingen

 Uma mística de acolhida ao cosmos: Hildegarda de Bingen

            

Faustino Teixeira

PPCIR/UFJF e IHU/Unisinos

 

 

“Ó belíssima forma,

ó suavíssmo perfume

de desejáveis delícias”

 

Sumário

 

Entrar em contato com Hildegarda de Bingen é conhecer uma das mais importantes personalidades da Idade Média, que enriqueceu o cenário teológico com uma rica e diversificada produção, com atuação em várias áreas singulares como a teologia, a mística, a medicina, a pintura e a música. Discute-se no âmbito acadêmico se ela foi de fato mística ou uma visionária e profeta. É um campo onde o debate permanece aberto, dada a complexidade da questão. Nossa reflexão vai no sentido de situá-la na história do misticismo cristão ocidental, como uma figura peculiar.

 

Palavras-Chave: Mística; Teologia; Profetismo; Cristianismo; Mulher

 

Introdução

 

            O estudo da mística feminina é um dos temas mais fascinantes para os estudiosos de ciências da religião e teologia. Adentrar-se nessas águas é sorver de experiências únicas e singulares, que ampliam o olhar e enriquecem a reflexão. É um campo trabalhado por pesquisadoras e pesquisadores brasileiros, sobretudo nos núcleos de pesquisa que se desenvolvem no circuito de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O empenho maior vem recaindo sobre as místicas medievais, sobretudo as beguinas, do século XIII e início do século XIV, sobretudo Marguerite Porete[1], Hadewijch d´Anvers e Mechthild von Magdeburg. O movimento das beguinas, que começou na diocese de Liège, espalhou-se em seguida por diversas outras dioceses da atual Bélgica e Norte da França, bem como na atual Holanda e Alemanha, ao longo do Reno. As beguinas inauguraram um traço peculiar na mística cristã ocidental, ou seja, a Minne-mystique, que se dedica aos temas do fin´amourcortesão, e provoca uma inaugural inversão de gênero no tratamento de Deus. Vemos, naquele tempo, a narrativa ousada de atribuir um nome feminino a Deus, como Minne, e uma reflexão mística que leva quase ao extremo os “devastadores efeitos da loucura do amor”[2]. É quando a alma “atinge uma condição de proximidade a Deus que lhe permite experimentar a força, a pureza, a doçura e a liberdade divinas, e também ganhar a ´intimidade de Deus`”[3]. Essa perspectiva mística faculta um olhar altamente positivo à existência corpórea e uma compreensão da relação com Deus pontuada por toques eróticos singulares. A alma, “com sua carne, consegue participar da mais alta união com Deus, superior à dos anjos, que permanecem puro espírito”[4].

 

            Antes mesmo no movimento beguinal, encontramos na Alemanha uma mística excepcional, conhecida como a “sibila do Reno”. Trata-se de Hildegarda de Bingen (1098-1179), uma das personagens mais excepcionais na cultura latina medieval, amplamente dominada pelos homens. Nada mais raro no início da Idade Média encontrar mulheres escritoras, como no caso dessa monja pioneira e ousada. Ela se reconhecia como alguém “frágil e simples”, mas o que identificamos, com base na Carta aos Coríntios, é que que sua fraqueza foi o passo escolhido por Deus para “confundir” os sábios e fortes (1 Cor 2, 27-28). Não sem razão, foi “uma das vozes mais escutadas da Alemanha na segunda metade do XII século”[5]. Conseguiu firmar-se como uma grande autoridade em seu tempo, possibilitando uma “liberdade de movimentos” dificilmente encontrada entre as mulheres na ocasião.

 

            A obra de Hildegarda vem marcada por grande amplitude e profundidade. Sua presença criativa ocorreu em campos pluriformes, como na mística, na teologia, na medicina, na música e na pintura. Era conhecida igualmente como grande profeta e visionária, que deixou rastros fundamentais em seu tempo, influenciando teólogos, místicos, coroados e pontífices. Sua fragilidade possibilitou abrir brechas singulares no campo da percepção sensorial e imaginal, com uma encantadora amplitude visionária, capaz de abarcar com sensibilidade todo os cosmos.

 

            Foi também uma monja exemplar, atuando com autonomia no seu trabalho de abadessa que irradiou a dinâmica evangélica por toda parte, com uma vida ativa substantiva, presentificada com importantes viagens onde pôde difundir com alegria a sua doutrina. Como superiora dedicada, e com grande capacidade de governo, devotou-se a assegurar o bem estar de sua comunidade, irradiando também virtudes fundamentais como a humildade, a discrição e a obediência. Como herdeira da tradição de são Bento, prezava também a vida de oração e o cuidado litúrgico. Gastava horas preciosas no “trabalho de cela”, dedicando-se horas a fio ao zelo com o mundo interior.

 

O ato de falar numa ordem escriturária masculina

 

            No período complexo em que viveu, Hildegarda inaugurou algo de excepcional que é o direito à fala feminina. Nada mais expressivo e simbólico do que isto. Mesmo tendo como referência outro período histórico e outros personagens, quem conseguiu traduzir essa novidade de forma singular foi Michel de Certeau em sua Fábula mística[6]. Assim como ocorrerá depois com Teresa de Ávila, Hildegarda de Bingen vai recorrer aos “letrados” no processo de seu aperfeiçoamento pessoal, mas aos poucos vai se apoderando de sua autoridade e certificado em suas visões particulares. Não há dúvida de que receber “aprovação” é um consolo que alivia a todos, mas o direito de consciência é ainda mais essencial. Vamos observar também no caso de Hildegarda uma “tensão entre o corpo falante e a ordem escriturária”, sob o domínio masculino[7]. Igualmente na Idade Média, o “espaço católico” vem delimitado pela presença masculina. São sempre homens, letrados ou não, “que fazem a encomenda e que examinam o produto”[8]. O “ato feminino de falar” ocorre nesse mesmo processo de encomenda da escrita e sua apreciação. Ele, porém, se faz fundamental e firma uma autoridade. É o que vemos com muita clareza no processo redacional de Hildegarda. Sobretudo em suas obras de maturidade nos damos conta da autoridade que ela mesma reivindica para os seus ensinamentos, que são “largamente místicos”[9].

 

            São inúmeros os estudiosos que reconhecem esse papel pioneiro de Hildegarda como precursora das vozes autônomas de místicas posteriores. Com ela, temos a “rara voz feminina” que “plaina acima dos coros patriarcais”, com uma peculiar “abordagem integrada, holística de Deus e da humanidade”[10]. Hidelgarda falou sobretudo para comunidades monásticas, mas também para o clero e os leigos, com um traço de coragem impressionante. A mística e visionária via sua escritura como inevitável, e recorreu à sua pena com firmeza, sem que as autoridades de seu tempo pudessem controla-la ou freá-la[11]. Com uma capacidade intelectual conjugada com uma expertise estratégica singular, conseguia a devida maleabilidade para se impor com autoridade. Em estudos eruditos mais recentes, evidencia-se em Hildegarda o vigor de uma profunda e frutífera experiência feminina. 

 

Breves traços biográficos

 

            Hildegarda de Bingen viveu em tempos difíceis na vida da Igreja Católica. Era tempo das Cruzadas. No século anterior à sua atuação pública, o clima beligerante era intenso com o afã cristão de retomar a cidade santa de Jerusalém, o que aconteceu em 1099. Havia também o grave conflito entre o poder papal e o imperial. 

 

            No âmbito da vida monástica, temos em 1115, a fundação da Abadia de Claraval, fundada por São Bernardo, que também atuou na Segunda Cruzada, em 1146. Hildegarda nasce em 1098, no tempo de transição do papado, já que Urbano II morreu em 1099, sendo substituído pelo papa Pasqual II. A vida pública de Hildegarda ocorreu sobretudo durante o papado de Inocêncio II e Eugênio III, que terá um papel importante na salvaguarda e legitimação da experiência visionária e produção de Hildegarda, com o aporte de são Bernardo de Claraval. Hildegarda envia uma carta a Bernardo em 1147, solicitando a ele a confirmação de seu dom visionário, e recebe resposta positiva do grande místico, que interveio em seu favor junto ao papa.

 

            Hildegarda nasce em 1098 em Bermersheim, cidade vizinha a Alzey, na região do Reno. Vinha de uma família numerosa da pequena aristocracia. Vem ao mundo num tempo de florescimento da vida monástica, cuja primeira raiz foi a reforma de Cluny, em 910. Os cartuxos tinham sido fundados por são Bruno em 1104 e os premonstratenses em 1120. Ainda menina, com oito anos, Hildegarda foi “ofertada a Deus” como dom espiritual, passando aos cuidados de Jutta, uma jovem de família nobre, que tinha optado viver sua vida religiosa em limites domésticos. Naquele período era de uso comum confiar uma criança, já desde cedo, a um mosteiro para as primeiras instruções. Aos quinze anos Hildegarda ingressa no mosteiro beneditino na colina de Disibodenberg, ainda sob os cuidados de Jutta, que veio oficialmente acolhida como “reclusa” em novembro de 1112[12].

 

            Em sua formação pessoal esteve também presente o monge Volmar, seu primeiro confessor, que teve papel importante em todo o processo de tradução das visões de Hildegarda. Ele era monge beneditino no mosteiro de Disibodenberg, que acolheu a visionária.  O convívio entre os dois perdurou por mais de trinta anos, até o falecimento do monge em 1173. Sua fidelidade a Hildegarda foi notória, tendo também um papel essencial de mediação no momento em que os escritos da mística foram apresentados ao abade de Disibodenberg e ao bispo de Mogúncia (Mainz).  Posteriormente, os escritos de Hildegarda foram apreciados e legitimados por Bernardo de Claraval e o papa Eugênio III. Como sublinhou Michela Pereira, “o papa reconheceu o caráter profético das visões, aprovando os escritos e sua difusão”. A partir de então, Hildegarda vem “reconhecida como interlocutora direta das revelações divinas”[13].

 

            As primeiras visões de Hildegarda ocorreram durante sua primeira infância, por volta dos três anos de idade, como ela mesma relatou, quando viu uma luz “que estremeceu a sua alma”, mas guardou a experiência consigo[14]. Foi uma experiência que a acompanhou a longo da vida. Relata que quando vinha tomada pelas visões dizia coisas que produziam estranhamento nos outros[15].  

 

            Hidelgarda tinha algo de especial, que desde sua tenra idade causava impressão em sua família. Era portadora de uma capacidade transbordante. Um potencial, porém, guardado em recipiente delicado. Tinha uma saúde frágil e precária, que demandava cuidados. Era algo que a colocava em alerta, mas que posteriormente serviu para moldar sua espiritualidade, com paciência e humildade, revelando que o poder divino se aperfeiçoa na fraqueza. Vai reconhecer aos poucos que essa carência vinha revestida unicamente da iluminação de Deus.

 

            Essa menina que experimentou a luz divina tão cedo, sendo oferecida a Deus aos oito anos, teve uma infância diferencial com respeito às outras de sua época. Alguns se perguntam: “Que infância era essa que a conduzia a jardins tão escondidos, a clareiras apenas segredadas, onde o invisível assoma na sua dança de vento e de desígnios, mesmo quando só desenha um improvável, aéreo funil de folhas?”[16]

 

            É um equívoco imaginar que a formação recebida por Hildegarda era precária. Ao contrário, na sua vida monástica recebeu uma profunda instrução, favorecendo simultaneamente um crescimento espiritual e intelectual, como prevê a regra de são Bento. Foi uma formação nutrida pelos textos bíblicos e autores latinos, da filosofia de Agostinho, bem como do Neo-Platonismo e das Ciências Naturais[17]. Uma vida igualmente marcada pelo ritmo cotidiano da oração e ruminação das ricas leituras realizadas durante as refeições. Há que acrescentar outro elemento importante presente na vida monástica, que é a relação com a natureza e seus elementos essenciais, como a terra, o ar e a água. 

 

            Foram ricos anos de aprendizado na pequena comunidade que estava sob a direção de Jutta. As religiosas estavam reclusas, mas mantinham contato com a comunidade beneditina masculina, e também com o mundo exterior. Com a morte de Jutta, ocorrida em 1136, Hildegarda assume o papel de superiora das monjas de Disibodenberg. Na tarefa de abadessa da pequena comunidade, destacou-se pelo cuidado com a vida comunitária, atenta à vida litúrgica e ao ritmo de oração. Não exigia das religiosas práticas excessivas, como jejuns rigorosos e mortificações. Seu objetivo pastoral era aplicar com humildade as grandes virtudes da tradição beneditina: a humildade, a obediência e a discrição. Essa última virtude, tão apreciada também por Teresa de Ávila – a malamati cristã -, vinha definida por são Bento como “a mãe das virtudes”. Teresa assumia com garbo a sua autoridade, sempre opondo-se vigorosamente contra o seu abuso e defendendo a sua natureza. Era uma superiora zelosa e terna, com grande capacidade de governo.

 

            Nas querelas que opunham o papa ao imperador Frederico Barba Roxa, Hildegarda optava pela fidelidade ao papa. Com o amadurecimento da comunidade, e dúvidas que a consternavam, decide deixar a comunidade de Disibodenberg e, com a ajuda de Volmar, funda a comunidade de Rupertsberg, em 1150, depois de anos de contendas com os monges do mosteiro anterior, que resistiam duramente contra a decisão tomada. Não foi simples o processo de busca de autonomia em favor do mosteiro de Rupertsberg, dada a resistência atroz dos monges do antigo mosteiro[18]. Mesmo na nova morada, ocorreram resistências de religiosas que não estavam a favor da mudança ou resistiam ao regulamento instaurado.

 

            Com a morte do grande apoiador, monge Volmar, em 1173, Hildegarda passou a receber a orientação de Gottfrid de São Disibod e depois de Guibert de Gembloux, um monge belga que teve um papel extraordinário junto à mística e visionária. Em momentos decisivos ela recorreu à sua ajuda, e a ele dedicou uma de suas cartas mais inspiradas, datada de 1175, quando fala da presença em sua alma de uma luz profunda e intensamente viva, que rompe com toda tristeza e sofrimento[19]. O monge Guibert viveu entre os anos de 1177 a 1180 no mosteiro de Rupertsberg, apoiando o trabalho de Hildegarda.

 

            Após uma vida de intensidade espiritual e grande labor intelectual, ao final marcada por singular atividade apostólica com viagens importantes[20], a fragilidade manifesta-se mais intensamente, e vem a falecer em setembro de 1179, com a idade de 81 anos, bem acima do comum para as pessoas de seu tempo.      

 

A trilogia visionária e o apoio redacional

 

            Toda a reflexão de Hildegarda de Bingen insere-se na tradição do monaquismo do século XII. No âmbito da experiência mística, profética e visionária, há que ressaltar a centralidade de sua grande trilogia teológica, que reflete o essencial de sua produção. Para a sua redação contou com o precioso apoio do monge Volmar e de sua discípula dileta, Richardis, filha da marquesa de Stade, da auto aristocracia local. 

 

Richardis era uma jovem monja, com quem Hildegard estabeleceu fortes vínculos afetivos[21]. Ela esteve presente e atuante em toda a dinâmica da redação de Scivias, e posteriormente, em 1151, decidiu sair da comunidade quando foi escolhida abadessa no mosteiro de Saxe, na diocese de Bremen, onde o seu irmão era arcebispo. Essa saída provocou forte resistência de Hildegarda, e sofrimento intenso nas duas[22]. Em carta de Hildegarda para a discípula, ela relata: “Eu amava a nobreza de vosso comportamento, a sabedoria e a pureza de vossa alma e de todo o vosso ser”[23]. Trata-se de uma afinidade precariamente rompida e que provocou uma dilacerante dor.  Richardis morreu precocemente no final do ano seguinte e Hidelgarda vem comunicada da morte pelo irmão da discípula.

 

Tomando a cronologia de sua redação, temos em primeiro lugar sua primeira obra, Scivias (Scito Vias Domini), iniciada em 1141 e concluída em 1151, ou seja, dez anos de redação, apresentando vinte e quatro visões, divididas em três segmentos. Essa obra, com as visões nela inseridas, veio reconhecida e aprovada pelo papa Eugênio III, em 1147, antes mesmo de sua finalização. A segunda obra, O livro dos méritos da vida, foi iniciada em 1158 e finalizada em 1163. A terceira, O livro das obras divinas, foi iniciada em 1163 e concluída em 1173, apresentando dez visões. As duas primeiras obras vêm acompanhadas por ilustrações das visões que sustentam a sequencial exposição teológica. Na terceira obra, que expressa maior maturidade da autora, com idade de 65 anos, tomamos contato com sua avassaladora visão do amor divino, e da abrasadora operação de Deus no homem divinizado por Cristo[24].

 

            Firma-se, então, uma singular antropologia espiritual, onde o homem situa-se no centro de uma roda gigante, alimentado perpetuamente pelo Deus-movimento e pelo sopro do Espírito que nada deixa escapar dos dons impressos em sua natureza. Ele é “vida da vida de toda criatura”, que vivifica as formas e expressa a “fragrância suave” de todas as virtudes[25]. Deus vem visto numa dinâmica de contínua operação, sendo o homem um microcosmo agraciado pelas energias divinas. 

 

É impressionante o relato visionário dessa força divina que tudo abarca: “Eu sou a energia suprema, a energia ígnea. Sou eu que inflama cada célula da vida... Vida ígnea da essencialidade divina, eu inflamo a beleza das terras, eu resplandeço nas águas, eu queimo no sol, na lua, nas estrelas”[26]. Nessa dinâmica energética, os anjos têm um papel singular, enquanto aqueles que acessam ao verdadeiro conhecimento e esplendor de Deus[27]. É nessa terceira obra que se firma o significado mais profundo da virtude. De forma ainda mais explícita aparece ali “o cosmo e o homem, o macrocosmo e o microcosmo, enquanto virtuosos, pelo fato de serem o campo de ação de um espírito que a eles dá forma e força”[28].

 

            Esta engenhosa trilogia teológica insere-se mais pertinentemente no modelo de teologia monástica, que é uma das três categorias correntes para se compreender a teologia medieval, que vem também pontuada pelo modelo escolástico e o modelo vernacular. Suas obras estão escritas em latim, e sua perspectiva é “largamente tributária das tradições da teologia monástica”, com um traço tridimensional: “exegética de método, aberta para a história da salvação em sua concepção, e contemplativa em seu objeto”[29]. É uma obra caracterizado por seu traço exegético, de abertura peculiar ao mundo e fundada numa rica experiência pessoal.

 

A peculiaridade de sua mística

 

            Importantes estudiosos da mística cristã levantam a questão se a reflexão de Hildegarda de Bingen poderia ser classificada como mística. Eles preferem situá-la mais como visionária e profética. É o caso de Bernardo McGinn e Kurt Ruh. Como indica McGinn, Hildegarda pode ser considerada “a primeira grande teóloga da história cristã” e uma grande visionária, cujo modo de perceber os mistérios divinos não se enquadra nitidamente em nenhuma das “categorias herdadas disponíveis para ela”[30].

 

            Reconhecemos a plausibilidade de tais considerações, mas não há como desconhecer um dado místico importante no pensamento e experiência visionária de Hildegarda. Tem razão Peter Dronk, citado por McGinn, quando desentranha a “disposição mística” presente no pensamento da visionária, com um profundo “senso da presença divina”. McGinn não deixa de reconhecer que estamos diante de um “paradoxo fundamental”, que não fecha as portas para outras possibilidades interpretativas. Mesmo que ela não tenha desenvolvido explicitamente “um programa de práticas místicas e de contemplação” visando uma “experiência pessoal mais profunda” de união com o Amado do Cântico dos Cânticos, ela, sem dúvida, pertence “à história do misticismo”, sobretudo por recorrer com autoridade às suas visões para fundar com rigor a sua mensagem[31].

 

            Fiel seguidora de Agostinho de Hipona, Hildegarda em sua experiência pessoal e em sua vida de oração, concedeu lugar singular ao mergulho interior, ao cultivo dedicado a esse espaço íntimo onde se celebra o encontro com o Amado. O próprio McGinn destaca “as raízes mística de sua teologia”[32], e passos místicos fundamentais na sua experiência visionária, que demonstram a consciência viva de uma pessoa “frágil”, mas forte, em razão de reconhecer em si a presença de uma luz fulgurante e viva que provém da fonte do Amor. É uma mística também devedora a são Bento, fazendo jus à sua regra, quando vive em profundidade a escuta do coração (aurem cordis)[33]. São clássicas as palavras de Hildegarda: “Olhe em ti; tu tens em ti o céu e a terra”. Há, de fato, jardins preciosos no mundo interior, ou aquele “braseiro” irradiante, que lança os mais finíssimos perfumes, como fala Teresa de Ávila em suas Moradas (IV Moradas, 2,6).

 

            Hildegarda partilha com os grandes místicos o desafio desse mergulho interior, numa viagem que leva constantemente o buscador ao único centro capaz de encontrar e promover os frutos do amor. Hildegarda é a mística que adorna a sua vida com o sentido do Ver. Desde cedo, como vimos, ela teve como companheira de viagem a Luz vivente, estando sempre próxima e atenta a esse encontro direto e maravilhoso com a presença divina, com a presença espiritual, como diria Paul Tillich.

 

            Na bela abertura de seu livro Sciviasela relata a maravilhosa experiência mística que viveu no ano de 1141, quando tinha quarenta e dois anos e sete meses. Relata  que na ocasião viu o céu se abrir em luz fulgurante, de um brilho único e sedutor. Foi quando então teve a compreensão das Escrituras, ou seja, “do Saltério, do Evangelho e de outros livros católicos, tanto do Antigo como do Novo Testamento”[34]. Interessante fazer uma analogia com Teresa de Ávila, quando durante um momento difícil da inquisição espanhola, momento em que livros preciosos que utilizava foram colocados no Index, ela ouviu de Deus uma voz: “Não sofras, que te darei livro vivo” (Livro da Vida 26, 5).

 

            Aquilo por que passou Hildegarda em 1141 foi de tal grandeza que ela não conseguiu partilhar, quardando aquele segredo “em tranquilo silêncio”. Bernardo de Claraval indica que experiências semelhantes são muito potentes, e não podem durar muito. São experiências que ocorrem em “breve tempo e rara hora”, e devem passar para não afogar o sujeito em tamanho deleite. Por isso que aqueles que vivem algo semelhante não encontram as devidas palavras para expressar o que ocorreu no mundo interior. E curioso é que Hildegarda participou desta visão em estado de alerta e desperta, “enxergando com mente pura e com os olhos e ouvidos do ser interior, em lugares abertos, conforme Deus o queria”[35].

 

            Essa “Luz vivente” vibrou em seu coração, iluminando a escuridão e abrindo frestas fundamentais para o seu caminho. Uma Luz que recobrou em Hildegarda o senso fundamental da humildade. A experiência de poder não provinha dela, mas da Luz ofuscante. O que ali passou a mística só foi revelando aos poucos, para os que estavam mais próximos dela, como Jutta, Volmar e Richardis. Recusou-se a escrever a respeito “por muito tempo”, como ela mesma sublinha. 

 

            Diferente de outros visionários que buscavam deliberadamente suas visões, Hildegarda não, ela era apenas o frágil vaso de argila que recebia de forma gratuita uma presença transformante. Toda a abertura cósmica que veremos acontecer nos trabalhos de Hildegarda estão relacionados a essa riqueza da experiência interior. O mergulho na interioridade, quando vivido com intensidade e sensibilidade atenta, provoca, necessariamente a “dilatação da visão da realidade”[36]. E igualmente a ressonância na caridade:

 

                  “Em tudo transborda a caridade:

                  notável desde os abismos aos céus mais altos,

                  mais amável dos bens,

                  o Rei supremo

                  ela beijou”[37].

 

Isto também ocorreu com Hildegarda. No contato vivo com a “Luz vivente”, Hildegarda pôde também identificar o toque misericordioso e curador de Deus como amor. O contato com esse Deus que ama, faz com que toda a realidade envolvente seja tocada pelo ritmo “verdejante” de Deus. Toda a natureza vem redimensionada com essa presença amorosa, e tudo ao redor “vem destinado à plenitude da vida e invadida pelo amor divino”. Essa presença abrangente e revigoradora tem o dom de acolher com alegria a diversidade e encontrar as brechas de união. O dom de manter e celebrar a diversidade na unidade, numa reveladora experiência na unidade[38].

 

            Com suas visões, Hildegarda vem envolvida por nova atmosfera, com a viva impressão de mudança no ar, pelo vigor do movimento do Espírito. Ganha um novo modo de ver, que terá implicações precisas no seu cuidado com a natureza e em suas pesquisas no campo da medicina, sobretudo na temática do cuidado com a melancolia. Trata-se de uma preciosa intuição que reverbera no psiquismo e no modo de entender a ciência. A partir da consciência de si, iluminada pelas visões, Hildegarda vem habitada por um novo sentimento de unidade com o cosmos. A consciência de si firma-se como “fundamento de toda consciência”[39].

 

            Outro passo importante para se compreender o universo místico de Hildegarda encontra-se na importante carta que ela escreveu para monge belga Guibert de Gembloux, em 1175. Ela retoma ali alguns traços da preciosa visão de 1141, e narra para o monge-colaborador o vigor da presença da Luz viva. Fala da visão que elevou seu espírito para rincões distantes, numa perspectiva cósmica exemplar. E o que vivenciou não aconteceu em seus sentidos exteriores, mas no fundo da alma. Só ela, amparada pela presença de Deus, poderia dar conta de tamanho êxtase. Com a força dessa Luz conseguiu captar a dinâmica de uma ressurgência que derruba qualquer tristeza ou sofrimento[40]. A mística revela não conseguir dar-se conta da dimensão da experiência, do conhecimento de sua forma. Fala igualmente de sua fragilidade em olhar perfeitamente aquela esfera que obnubilou sua visão. Sente-se, porém, confortada com a sua presença, abandonando-se no regato do Deus vivo. A leitura dessa carta de Hildegarda encontra uma similaridade bonita com uma carta escrita pelo místico persa Rûmî (1207-1273) :

 

“Um dia, um homem chegou diante de uma árvore. Viu folhas, ramos, frutos estranhos. A cada um perguntou o que eram essas árvores e esses frutos. Nenhum jardineiro o compreendeu, nem sabia o nome da árvore, nem lhe pôde indicar o que ela poderia ser. O homem disse a si mesmo: Se não posso compreender que árvore  é essa, contudo sei que, depois que deitei meu olhar sobre ela, meu coração e minha alma se tornaram  frescos e verdes. Vou então me colocar a sua sombra”[41].

 

                  Com respeito às suas visões, Hildegarda as compreendia como “gotas de suave chuva da inspiração de Deus”[42]em sua alma. Havia dois tipos de visões distintas. Uma primeira pode ser identificada como “sombra da luz vivente” e a segunda “luz vivente”. A primeira ainda é difusa, estando envolvida como nuvem na luminosidade superabundante de Deus. A segunda, sim, é mais nítida, mas não ocorre com frequência, como indica Hildegarda.[43]Essas visões fazem a mediação entre o mundo sensível e o mundo inteligível, por isso alguns identificaram a experiência com o tema da imaginação criadora do místico sufi Ibn- Arabi, tão bem relatada por Henri Corbin[44]. O que mostram os estudiosos de Hildegarda, é que ela podia ver coisas que os outros não podiam visualizar, e tinha igualmente capacidade de prever o futuro, com um campo visual todo pontuado por “estranha luminosidade”. Em momentos excepcionais, chegou mesmo – segundo comentários – a ter um envolvimento direto com a presença divina. Essas visões perduraram em sua vida por quarenta anos, exercendo um papel propedêutico para a sua atividade profética posterior. Foram poucos aqueles que ouviram de sua voz esta inédita e irradiante experiência, como Jutta, Volmar, Richardis e Guibert. Tudo muito excepcional para uma mulher de seu tempo.

 

Outras obras de Hildegarda de Bingen

 

            O que muito impressiona em Hidelgarda de Bingen é a sua abertura ocular, seu domínio multidisciplinar e sua importante correspondência com o mundo laico e clerical. Foram mais de 300 as cartas emitidas por ela, com grande riqueza de conteúdo[45]. A irradiação e fama de seus pensamentos provocaram uma corrente de peregrinos e buscadores de consolo, que esperavam dela o conforto e a cura. 

 

Seus livros sobre medicina tiveram um grande impacto no período, e até hoje servem de auxílio a pesquisadores. Escreveu duas obras importantes sobre   o tema. O primeiro: O livro da medicina simples, também conhecido como Nove livros sobre as sutilezas dos diferentes tipos de criatura; o segundo: O livro da medicina compósita ou causas e curas.[46]Esse segundo livro foi pensado para uso pessoal e de sua comunidade. Como é sabido, nos diversos mosteiros a medicina vinha exercida informalmente, e muitos monges ou monjas tinham um importante conhecimento das ervas medicinais. É o caso de Hidelgarda, que se dedicou bastante a respeito. Ela se dava conta do valor benéfico e curativo das ervas e plantas, e colocou o seu conhecimento prática à serviço da comunidade. 

 

Sua grande preocupação era com o equilíbrio das pessoas numa saúde harmonizada. Sabia bem da singular e inesgotável reserva curativa presente entre os elementos da natureza. E isso não se restringia unicamente às ervas, mas também às pedras e seu poder milagroso. Estava atenta aos mistérios sutis envolvidos no mundo natural. Diríamos hoje que sua preocupação era realmente holística. 

 

            Verificamos hoje em pesquisas científicas realizadas na medicina, uma atenção particular às ervas medicinais, aos fungos e cogumelos. Uma atenção que se desdobra igualmente  para as substâncias psicodélicas e seu potencial terapêutico. É o caso, por exemplo, das pesquisas com a psilocibina, voltadas sobretudo para o apoio fundamental às doenças complexas, como as depressões profundas[47]. As terapias psicodélicas estão hoje em pleno crescimento, com a utilização preciosa de elementos da natureza.

 

            Hidelgarda, naquele tempo, já se dava conta do potencial da natureza para o tratamento de doenças que afetam o mundo interior. Estava bem atenta ao equilíbrio alimentar, às dietas harmonizadoras, bem como a eliminação dos fatores de risco envolvidos nos processos de melancolia, dentre outros. Mattheo Fox realça a importância das reflexões de Hildegarda a respeito das amarras da raiva que envolvem negativamente a pessoa, levando-a a uma perigosa espiral de violência[48].

 

Foi, sem dúvida, pioneira nos estudos que relacionam a saúde com o meio ambiente e toda a dinâmica preventiva que garante uma vida salutar. Os estudiosos que pesquisam a cerveja são unânimes em reconhecer o valor das pesquisas realizadas pela mística com o lúpulo. Talvez tenha sido ela a primeira pesquisadora que reconheceu as propriedades conservantes e aromatizantes do lúpulo.

 

            Outro campo de pesquisa e criação maravilhoso assumido por Hildegarda foi na área musical. São inúmeras as canções reconhecidas e admiradas pelos especialistas da área. A mística tinha um dom muito peculiar para a arte musical, que ela recorria sobretudo para o uso litúrgico na sua comunidade. Entre as obras primas do canto gregoriano está uma composição sua: Symphonia celestium revelationum(Sinfonia das revelações celestes). Hildegarda vai confidenciar a Godofredo, seu biógrafo: “Compus também poemas e melodias para louvor de Deus e dos santos, sem que alguém me ensinasse, e cantava-os, mesmo se ninguém me tivesse ensinado a notação musical ou o canto”[49]. Como mostram Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino Mendonça, “na Idade Média, sobretudo a partir do século XII, período que coincide com a composição das sequências hildegardianas, assistiu-se a uma grande difusão destes cânticos poéticos com melodia popular e número variável de estrofes”[50]. No caso de Hildegarda, temos o rico corpuseucológico, envolvendo as antífonas, responsórios, hinos e sequências. Uma mostra desse  trabalho veio apresentado no livro organizado por Carvalho e Mendonça, já citado. 

 

Conclusão

 

            O que se pode constatar depois de apreciar algumas das reflexões de Hildegarda de Bingen é a presença de uma mística única e singular, de abertura fabulosa e sensibilidade cósmica. Não se trata de um pensamento enrijecido pelos ares da ortodoxia, mas de reflexões que reverberam um clima de liberdade e acolhida do Espírito fantásticos. E nem entramos em detalhes sobre a sua arte na pintura, que também é eloquente.

 

 A experiência mística e amorosa de Hildegarda traz no coração esse interesse de ordem cósmica. É todo o universo que vem incorporado no ventre da divindade. Fala-se, por exemplo, em “ontologia pan-crística”[51]. Mesmo reconhecendo que a mística desenvolve uma rica antropologia espiritual, há que sublinhar que a perspectiva de sua reflexão rompe com as barreiras de um antropocentrismo restrito. Como diz com razão Mattheo Fox, ela não se deixa assombrar por isso[52].

 

            Estudiosos de Hildegarda reconhecem uma bonita similaridade entre a sua teologia da criação e a Laudato si de Papa Francisco, que trata do cuidado da casa comum[53]. Assim como Francisco, de forma singela e terna, desentranha a presença do mistério numa folha, vereda ou orvalho, Hildegarda reconhece a vida ígnea da sabedoria divina resplandecendo no verde da Terra, na chuva do orvalho e no júbilo do gramado.

 

            Estamos, assim, diante de uma exemplar visionária e uma mística singular, a “sibila do Reno” que vem cada vez mais reconhecida pelos estudiosos da mística no tempo atual. No âmbito eclesial, veio canonizada em maio de 2012, no pontificado de Bento XVI, que também a reconheceu como doutora da Igreja em outubro do mesmo ano.

 

(Publicado na Revista REB, v. 83, n. 324, 2023)



[1]Do núcleo de estudos do PPCIR da UFJF, veio a tradução para o português da única obra de Marguerite PORETE: O espelho das almas simplese aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo de amor (tradução de Silvia Schwartz – Vozes: Petrópolis, 2008).

[2]Mesmo antes das beguinas, Hildegarda falava em trindade feminina: PEREIRA, Michela. Idelgarda di Bingen. Maestra di sapienza nel suo tempo e oggi. Verona: Gabrielli Editori, 2017, p. 106 e também 88.

[3]MCGINN, Bernard. O florescimento da mística. Homens e mulheres da nova mística (1200-1350). São Paulo: Paulus, 2018, p. 263.

[4]Ibidem, p. 348.

[5]GORCEIX, Bernard. Présentation. In: BINGEN, Hildegarde de. Le livre des ouvres divines. Paris: Albin Michel, 2011, p. 11.

[6]DE CERTEAU, Michel. A fábula mística. Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Gen/Forense, 2015.

[7]Ibidem, p. 302.

[8]Ibidem, p. 303.

[9]McGINN, Bernardo; McGINN, Patricia Ferris. La transformation en Dieu. Douze grands mystiques. Paris: Cerf, 2006, p. 98.

[10]BYNUM, Caroline Walker. Prefácio. In: BINGEN, Hildegarda de. Scivias(Scito Vias Domini). Conhece os caminhos do Senhor. São Paulo: Paulus, 2005, p. 23; AMARAL, Maria José Caldeira do. Hildegarda de Bingen. In: LOSSO, Eduardo Guerreiro; BINGEMER, Maria Clara; PINHEIRO, Marcus Reis (Orgs). A mística e os místicos. Petrópolis: Vozes, 2022, p. 307.

[11]CIRLOT, Victoria. La explosión de las imágenes: Hildegard Von Bingen y Max Ernst. In: PUJOL, Óscar; VEGA,  Amador (Eds). Las palavras del silencio. El linguaje de la ausencia en las distintas tradiciones místicas. Madrid: Trotta, 2006, p. 95.

[12]PEREIRA, Michela. Idelgarda di Bingen. Maestra di sapienza nel suo tempo e oggi. Verona: Gabrielli Editori, 2017, p. 27.

[13]PEREIRA, Michela . Ildegarda di Bingen, p. 31.

[14]PERNOUD, Régine. Hildegard de Bingen, p. 12.

[15]PEREIRA, Michela . Ildegarda di Bingen, p. 19.

[16]CARVALHO, Joaquim Félix; MENDONÇA, José Tolentino de.Hildeggard Von Bingen. Flor brilhante. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 12.

[17]Ainda em sua formação, o aperfeiçoamento na grammatica, que envolvia o estudo do latim, da música, da aritmética e história eclesiástica: PEREIRA, Michela. Ildegarda di Bingen, p. 28.

[18]PERNOUD, Régine. Hildegard de Bingen, p. 24.

[19]McGINN, Bernardo; McGINN, Patricia Ferris. La transformation en Dieu, p. 99-100.

[20]Foram quatro importantes viagens, iniciadas em 1158, até 1170, sendo a primeira movida por uma experiência visionária: McGINN, Bernardo; McGINN, Patricia Ferris. La transformation en Dieu, p. 91; PEREIRA, Michela . Ildegarda di Bingen, p. 85.

[21]ELIZONDO, Felisa. La mística en feminino: imagines de Dios en dos místicas medievales. In: VELASCO, Juan Martin (Ed). La experiencia mística. Estudio interdisciplinar. Madrid: Trotta, 2004, p. 268-269. A relação entre as duas foi abordada de forma muito feliz no filme Visão, de Margareth von Trotta, de 2009.

[22]PERNOUD, Régine. Hildegard de Bingen, p. 44-45. Hildegarda ainda tentou barrar a decisão em carta redigida à poderosa mãe de Richardis, em que disse: “Não vá subtrair minha alma e fazer com que lágrimas amargas rolem de meus olhos...”. Ela tentou recorrer a todo seu prestígio para impedir o hiato na relação com a discípula acalentada nos anos de redação de Scivias.

[23]Ibidem, p. 45.

[24]BROSSE, Jacques. Les maîtres spirituels. Paris: Albin Michel, 2005, p. 356.

[25]BINGEN, Hildegard von. Flor brilhante, p. 53.

[26]BINGEN, Hildegarde. Li livre des oeuvres divines. Paris: Albin Michel, 1982, p. 65. Ver ainda: ibidem, p. 122-123.

[27]Ibidem, p. 78.

[28]ROMAGNOLI, Alessandra Bartolomei; DEGLI´INOCENTE, Antonella; SANTI, Francesco. Scrittrici mistiche europee. Secoli XII-XIII. Firenze: Edizioni del Galuzzo, 2015, p. 12.

[29]McGINN, Bernardo; McGINN, Patricia Ferris. La transformation en Dieu, p. 93.

[30]McGINN, Bernard. O desenvolvimento da místicade Gregório Magno até 1200. São Paulo: Paulus, 2017, p. 487. Ver também: RUH, Kurt. Storia della mistica occidentale. Volume 1. Le basi patristiche e la teologia monástica del XII secolo. Milano: Vita e Pensiero, 1995, p. 15.

[31]McGINN, Bernard; McGINN, Patricia Ferris. La transformation en Dieu, p. 96.

[32]Ibidem, p. 104.

[33]CARVALHO, Joaquim Félix; MENDONÇA, José Tolentino de.Hildeggard Von Bingen. Flor brilhante, p. 13.

[34]BINGEN, Hildegarda de. Scivias, p. 96.

[35]Ibidem, p. 96.

[36]LÓPEZ-BARALT, Luce. Repensando la experiencia mística desde las ínsulas extrañas. Madrid: Trotta, 2013, p. 53-54.

[37]BINGEN, Hildegard von. Flor brilhante, p. 199.

[38]ROMAGNOLI, Alessandra Bartolomei; DEGLI´INOCENTE, Antonella; SANTI, Francesco. Scrittrici mistiche europee, p. 11.

[39]DAVY, Marie-Madeleine. Encyclopédie des mystiques/II. Paris: Payot & Rivages, 1996, p. 224-225. 

[40]McGINN, Bernard; McGINN, Patricia Ferris. La transformation en Dieu, p. 99-100. E ainda: VELASCO, Juan Martin (Ed). La experiencia mística, p. 272-273.

[41]RÛMÎ, Djalâl-od-Dîn . Lettres. Paris: Éditions Jacqueline Renard, 1990, p. 149-150 (Lettre 127).

[42]CIRLOT, Victoria. La explosión de las imágenes: Hildegard Von Bingen y Max Ernst. In: PUJOL, Óscar; VEGA,  Amador (Eds). Las palavras del silencio, p. 97.

[43]PEREIRA, Michela . Ildegarda di Bingen, p. 20-21, 39 e 46.

[44]CORBIN, Henry. L´imagination créatrice dans le soufisme d´Ibn Arabî. Paris: Aubier, 1993.

[45]Dentre as cartas mais emocionantes estão aquelas endereçadas a uma grande figura espiritual daquele tempo, a visionária e mística Elisabeth de Shönau, da diocese de Trèves: GORCEIX, Bernard. Présentation. In: BINGEN, Hildegarde de. Le livre des ouvres divines, p. 14.

[46]Veja a respeito: HERTZKA, Gottfried; STREHLOW, Wighard. Manuale della medicina di Santa Ildegarda. Roma: Mediterranee, 1992.

[47]POLAN, Michael. Il renascimento della terapia psichedelica. In: STAMETZ, Paul. Funghi fantastici. Bergamo: Piano B, 2021, p. 122-123. Na mesma obra: ROSS, Sthepen. Una buona morte, p. 146-147.

[48]FOX, Matthew. Pecados do espírito, bênçãos da carne. Campinas: Verus, 2004, p. 211-212. O autor fala ainda, de forma interessante, sobre o trabalho de Hildegarda contra a acídia, que é “a languidez oriunda do tédio” ou da preguiça. A ela, antepõe caminhos alternativos de fortalecimento da alma: ibidem, p. 150-151.

[49]CARVALHO, Joaquim Félix; MENDONÇA, José Tolentino de.Hildeggard Von Bingen. Flor brilhante, p. 12.

[50]Ibidem, p. 19.

[51]McGINN, Bernard; McGINN, Patricia Ferris. La transformation en Dieu, p. 102.

[52]FOX, Matthew. A vinda do Cristo Cósmico. São Paulo: Record, 1995, p. 160-161.

[53]PEREIRA, Michela . Ildegarda di Bingen, p. 166.

terça-feira, 25 de abril de 2023

Pregar e Predar

 Pregar e Predar

 

Faustino Teixeira

 

 

O tema da missão evangelizadora junto aos povos originários tem sido um campo de muito debate na antropologia brasileira hoje. No livro que estou organizando junto com Renata Menezes, de Antropologia da Religião (a sair pela Vozes em breve) há dois textos que o tema vem abordado. Um que é mais direto, de autoria de Paula Montero: Antropologia e missão: reflexões teórico-metodológicas. E outro, que trata o tema do xamanismo, religião e espiritualidade, de Beth Pissolato. 

 

Como indicou Paula, com acerto, “não é possível narrar uma história nativa sem narrar, ao mesmo tempo, uma história colonial”. Ela mostra como uma antropologia das missões “precisa sempre levar em conta que todo o discurso sobre o Outro se organiza, necessariamente, em condições históricas nas quais a conjunção/interação de universos culturais distintos já está dada”. Em todo esse processo, que é dinâmico, há sempre “um ´outro` modificado por um ´nòs`”. Não é possível fugir disso, mesmo que a intenção missionária seja aberta e respeitosa da diversidade.

 

No texto de Beth Pissolato ela cita o importante livro da antropóloga Aparecida Vilaça, que recobre uma etnografia de longa duração com os Wari` no sudoeste amazônica. O seu livro, infelizmente, não está disponível em português, mas o título já é profundamente significativo: Rezar e Predar (Pray and Prey – 2016). Não há nenhuma dúvida com respeito ao que aponta Aparecida: não há como exercer a dinâmica missionária, com seu repertório subjacente, sem que alguma predação ocorra. 

 

Em livro mais recente e muito precioso, Paletó e eu (2018), há um capítulo específico dedicado por Aparecida à conversão evangélica dos Wari`. Mesmo Paletó, pai espiritual de Aparecida, acabou se convertendo à religião dos crentes. E segundo a narração de Aparecida, Paletó tornou-se crente por “medo do fim do mundo”, e, por consequência, “ser abandonado pelos seus conterrâneos e parentes, muitos deles crentes desde o fim dos anos de 1960”. Aqueles que não se convertessem, segundo o discurso dos missionários, estariam condenados a ficarem na terra da onça e servirem de alimento para elas. Esse era o dicurso da predação. 

 

Estamos diante de uma tradição missionária desencantadora do universo simbólico dos povos originários. Uma pregação que esvazia de sentido a beleza de como esses povos vêem a vida e o destino. Em seu lugar vem proposto um céu como “um lugar meio sem graça, onde todos são iguais, não fazem sexo nem festas, bebem água, comem pão e passam todo o tempo a escrever”. Em verdade, é por causa do medo do inferno, incutido nesses povos, que se dá a conversão.

 

Não há dúvida que toda essa situação incomodou e incomoda Aparecida Vilaça, e outros tantos antropólogos e antropólogas. Ela diz nesse livro sobre Paletó, que se coloca radicalmente contrária “ao trabalho de conversão religiosa” em curso entre os Wari`, mas sublinha também que sempre se manteve respeitosa face a opção por eles escolhida. Mas estranha o que ocorreu e ainda está em curso, pois é algo que vem contrariar radicalmente o dado de acolhida da multiplicidade que sempre marcou a cosmovisão dos Wari`. Eles são “radicalmente não dogmáticos”, e sofrem um violento processo de dogmatização que vem de fora.