quinta-feira, 13 de março de 2014

Teólogo mineiro analisa o primeiro ano do papa Francisco à frente da Igreja

Teólogo mineiro analisa o primeiro ano do papa Francisco à frente da Igreja
(Entrevista concecida a Álvaro Castro – Jornal Hoje em Dia, 13/03/2014)
Há um ano os olhos do mundo estavam voltados para a chaminé da capela Sistina no Vaticano, esperando que uma fumaça branca fosse lançada, indicando que o novo pontífice da Igreja Católica havia sido escolhido. Após a saída de Bento XVI no dia 28 de fevereiro, de maneira repentina e contrariando as tradições católicas em abandonar o posto que é vitalício, muito se debateu sobre quem seria o novo papa e se ele seria capaz de resgatar fieis cada vez mais distantes. E contrariando as expectativas de que o novo líder seria um europeu, um argentino foi escolhido para assumir o cargo mais alto dentro da hierarquia católica. Jorge Mario Bergoglio foi então anunciado, escolhendo o nome Francisco (o primeiro usar este nome em homenagem ao santo conhecido por sua humildade), e já chegou fazendo história, ao ser o primeiro latino-americano e o primeiro jesuíta a ocupar o posto.

De jeito simples, bastante simpático e torcedor de carteirinha do San Lorenzo (literalmente), foi aos poucos mudando o tom duro e, em certo ponto, obscuro que a Santa Sé havia tomado nos últimos anos, sob o comando de Joseph Alois Ratzinger. Ele assumiu publicamente a luta contra denúncias de irregularidades que atingiram a Santa Sé e se pronunciou de forma contundente sobre acusações de pedofilia e questões tratadas até então como tabu aos católicos, como o aborto e o homossexualismo. "Se uma pessoa é gay e se está em busca do Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?", disse sobre o tema.

Aos brasileiros, trouxe a marca da humildade ao desfilar pelo Rio de Janeiro em carro simples, com as janelas abertas, quebrando mais uma série de protocolos e tradições, se aproximando do povo e ganhando novamente a simpatia dos fiéis, que aos poucos se afastaram da Igreja com a morte de João Paulo II e que não retornaram com Bento XVI.

Para entender melhor o significado de seu primeiro ano à frente da Igreja, seus desdobramentos e consequências para os católicos de Minas, o Hoje em Dia conversou com o teólogo mineiro (*) Faustino Teixeira, doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma), pesquisador e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
 1 - Como você avalia de forma geral este primeiro ano do papado de Francisco? Quais seus aspectos positivos e seus aspectos negativos?

Acredito que essa presença do papa Francisco na vida da Igreja católica significou um impacto da maior grandeza. A mudança mais importante ocorreu no estilo de sua atuação, assumindo um papel novidadeiro de pastor. O que mais impressiona em seu trabalho pastoral é o exercício de acolhida, de escuta, de ampliação dos canais de conversação e de mudança radical no trabalho evangelizador. É todo um projeto que está em curso, no sentido de retomada da perspectiva evangélica original, de cuidado e atenção para com os pobres, na linha do seguimento de Jesus. O que está em jogo não é a ampliação quantitativa dos quadros católicos, mas a afirmação de um novo modo de ser igreja, em que a centralidade está no testemunho de vida, mais do que na dinâmica disciplinadora da vida ecclesial. Com respeito aos aspectos negativos, prefiro falar em desafios em aberto: a questão da mulher na igreja, da descentralização da vida ecclesial, da ampliação da colegialidade na igreja, do exercício de maior sintonia da igreja com os desafios do tempo e a reforma viva da cúria romana.


2 - Ao contrário do que muitos imaginavam, a Igreja consagrou um papa argentino em um momento em que se projetava o retorno de um italiano ao Vaticano. Quais os reflexos dessa escolha do papado para nós brasileiros e, sobretudo, para os católicos mineiros, com o sumo pontífice oriundo da América Latina?

O que mais encanta os latino-americanos no papa Francisco é o seu despojamento e a sua alegria. É alguém que favoreceu um novo alento para uma igreja que passava por momentos de forte desencantamento. Diria ainda mais, de uma igreja que alimentava, com sua prática e orientação, um sentimento crescente de desafeição, sobretudo entre os jovens. O papa Francisco veio trazer uma nova energia espiritual, e o que encanta, um testemunho de uma igreja servidora e acolhedora. Para a América Latina, que foi o berço da teologia da libertação, a sintonia com o papa Francisco é muito forte. É um papa que traz consigo uma mensagem evangelizadora que foi um traço comum na prática eclesial do continente em décadas passadas, desestimulada em seguida por toda uma dinâmica centralizadora que marcou as últimas décadas. Francisco despertou novamente a esperança.


3- Minas Gerais tem um grande contingente de católicos, com mais de 14 milhões de fiéis. De que forma que as posturas de Francisco tem refletido nas decisões e posturas da Igreja Católica em Minas Gerais?

Os reflexos ainda são pequenos, pois ainda temos um corpo eclesial que foi moldado por outra dinâmica evangelizadora, dos dois últimos papas. A mudança no papado não se refletiu ainda na mudança do ritmo eclesial. É uma questão de tempo, e creio que isto ainda vai demorar, pois as teias de uma nova dinâmica evangelizadora exigem transformações bem precisas: no modo de pensar a igreja, na assunção de uma nova perspectiva de serviço, de quebra de comportamentos restritivos arraigados e tantas outras coisas. Temos ainda uma igreja em estado de choque, diria, pois convocada a um novo modo de ser, bem diferente do que estava acontecendo nas últimas décadas. É o que Francisco vem dizendo nos últimos tempos: a necessidade de romper comportamentos tradicionais, de ir ao encontro do outro, de quebrar práticas de acomodação, de adequar os discursos e práticas às novas exigências evangelizadoras. E sobretudo ouvir os clamores do tempo. Nossa igreja estava mais acostumada a ditar as normas… Agora deve entrar num ritmo diferente, de mais humildade e vocação ao serviço.


4- No começo deste ano, a BBC Brasil defendeu uma "revolução suave" de Francisco à frente da Igreja. É possível corroborar esta afirmação? O papado de Francisco realmente vem trazendo mudanças à Igreja da magnitude um processo revolucionário? Esse processo pode ser sentido na igreja mineira?

Como bom jesuíta, o trabalho de Francisco é feito com muito discernimento, sem muita pressa. O traço da paciência marca o seu projeto. Mas as mudanças estão em curso. Diz Francisco na longa entrevista concedida ao pe. Antonio Spadaro, em agosto de 2013: “O discernimento no Senhor guia-me no meu modo de governor”. Mas vai sempre em frente, com a tranquilidade que a gravidade da situção exige. Diz ainda: “Tenho de esperar, avaliar interiormente, tomando o tempo necessário. A sabedoria do discernimento resgata a necessária ambiguidade da vida e faz encontrar os meios mais oportunos, que nem sempre se identificam com aquilo que parece grande ou forte”. Os reflexos das mudanças já se fazem sentir, também na igreja mineira, não há dúvida.


5- O papa Bento XVI, antecessor de Francisco, foi muito criticado durante todo seu pontificado pela falta de carisma e um certo endurecimento da Igreja. É possível afirmar que Francisco quebrou essa "marca", dando um tom mais brando e "próximo" aos fiéis durante  seu primeiro ano à frente da Igreja Católica?

Sem dúvida alguma, Francisco traz consigo uma marca de pastor, pontuado pela humildade, pela alegria e pela dinâmica da escuta. O papa Ratzinger vinha habitado por ares mais sombrios, talvez em razão do influxo agostiniano. Era um papa-teólogo e disciplinador. Muito preocupado com a restauração na igreja e muito crítico diante dos caminhos do pós-concílio. Suas atitudes com respeito ao diálogo eram também muito restritivas. Francisco marca, sem dúvida, uma mudança significativa. E o seu tom é muito claro: de retomada de uma igreja mais preocupada em “curar as feridas e aquecer o coração dos fiéis”, numa perspectiva de maior proximidade. E outro traço importante: é portador de um discurso simples, de fácil acesso, pontuado pelo tempero da alegria e da esperança. E um discurso que vem acompanhado de uma prática de testemunho efetivo, com sinais vivos e precisos. É disso que a comunidade cristã está precisando mais nesses tempos de apatia e desencanto.   

6- Durante seu primeiro ano à frente da Santa Sé, Francisco vem lutando para combater as irregularidades burocráticas dentro do Vaticano. Como está sendo seu desempenho na prática e também com relação à imagem da igreja após sua entrada? Além disso, ao admitir  que há problemas relacionados a pedofilia e a corrupção no banco do Vaticano, por exemplo, o papa se indispõe de alguma forma com a cúria, que durante séculos tentou abafar esses escândalos?

A colegialidade foi o caminho escolhido por papa Francisco para lidar com essa difícil questão, e com todos os escândalos que marcaram os últimos anos no Vaticano, que apressaram a renúncia do papa Ratzinger. Logo no início de seu pontificado criou uma comissão de cardeais para tratar da reforma da cúria, tendo como coordenador o arcebispo de Tegucigalpa (Honduras), Oscar Andrés Rodriguez Maradiaga. Os trabalhos dessa comissão já mostram frutos importantes, indicando que o projeto de Francisco não é brincadeira ou apenas retórica, mas expressa uma vontade viva de transformação no seio da igreja. Longe de querer abafar os problemas, o que se verifica é uma vontade de mudança e de transformar esse terreno minado por tristes escândalos.


7- Chamou muito a atenção a imagem do papa no Rio de Janeiro em carro mais popular, percorrendo as ruas da cidade de janela aberta, dando mais espaço para a aproximação do povo. Pode-se esperar que essa imagem mais "humana" e menos ostentativa se mantenha?  De que forma isso se reflete nas escolhas dos temas abordados pelo papa até este momento?

A viagem ao Rio de Janeiro, assim como a presença de Francisco em Lampeduza, forneceram a marca desse papado. Foram visitas que deram o toque evangelizador de Francisco, como porta de entrada de uma nova forma de presença da igreja. Essa imagem mais “humana” é o que confere a grandeza desse novo profeta na linhagem do poverello de Assis. A razão mais forte de seu encanto está neste seu testemunho, que certamente amplia as possibilidades de sua indicação para o prêmio nobel da paz. O nosso tempo precisa, sim, de palavras e gestos de esperança, e isso Francisco traz em sua vida como uma tatuagem.

8- Apesar de uma imagem mais branda e "progressista", pode-se esperar que a Igreja apresente abordagens mais "abertas" a questões chave como o homossexualismo, aborto e o uso de anticoncepcionais? A postura agregadora em relação a homossexuais e a outras religiões, dentre outros temas espinhosos para a igreja, tem potencial para mudar a forma como as pessoas, principalmente os jovens, enxergam a igreja católica?

O que marca a atuação de papa Francisco é a capacidade de acolhida. Assinalou por diversas vezes nesse primeiro ano de pontificado que a tarefa fundamental da comunidade eclesial é “curar as feridas” e escutar a dor daqueles que sofrem e são excluídos. No campo da sexualidade existem aqueles que foram excluídos da atenção da igreja, e Francisco lamenta isso. Durante o voo de regresso a Roma, depois de sua visita ao Brasil, ele falou que a igreja não está para julgar os homossexuais “de boa vontade”, não cabendo à igreja intervir nesse campo da intimidade. Assinala que não pode haver “ingerência espiritual na vida pessoal”. É tarefa da igreja estar presente também nesse campo, com escuta e atenção. Francisco fala no mistério do ser humano, e assinala: “Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhar com misericórdia. Quando isso acontece, o Espírito Santo inspira o sacerdote a dizer a coisa mais apropriada”. Ou seja, Francisco faz a opção de discernimento e não de julgamento precipitado. Isso faz parte de sua trajetória de pastor, que é convocado a avaliar caso a caso. Isso vale para todas as outras situações que envolvem a sexualidade. Para ele, Francisco, o confessionário não pode ser uma “sala de tortura”, mas um “lugar de misericórdia”.


9- Qual traço ou característica você acredita que poderia resumir o primeiro ano de Francisco como pontífice?

O que resume de forma mais bonita sua presença na vida da igreja neste primeiro ano de pontificado é a forma de sua presença e de seu testemunho, pontuados pela humildade, abertura, alegria e esperança. São esses traços essenciais que conferem a Francisco um carisma muito especial, favorecendo um aroma evangelizador novidadeiro. Desse testemunho que conjuga simplicidade e profecia nasce uma fragrância singular, que ilumina e seduz.



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Prefácio - Imitação de Cristo

Prefácio – Imitação de Cristo

(Henrique Cristiano José Matos. Imitação de Cristo. Caminhos de crescimento espiritual. Belo Horizonte: O Lutador, 2014)

É com grande alegria que apresento essa edição bilíngue da obra de Tomás de Kempis, Imitação de Cristo, este clássico livro que traduz o cerne da espiritualidade da Devoção Moderna. Outras traduções foram publicadas no Brasil, mas esta tem uma característica peculiar, expressando uma preciosa pesquisa de investigação histórica e de cuidado literário. Com o trabalho realizado por Frater Henrique Cristiano José de Matos, o leitor consegue acessar o conteúdo da obra com a base necessária de compreensão do contexto histórico e da inspiração que moveu esse grande espiritual do século XIV.

Como traço novidadeiro, a partilha de uma rica pesquisa realizada junto ao Instituto de Espiritualidade “Titus Brandsma”, vinculado à Universidade de Nimega (Holanda), e em particular ao trabalho realizado por Frei Rudolf van Dijk, da ordem carmelita, responsável pela mais rica edição bilíngue da Imitação de Cristo, publicada em 2008. É este instituto de pesquisa, fundado pela Província Neerlandesa da Ordem dos Carmelitas da Antiga Observância, que vem realizando nos últimos tempos as mais importantes investigações científicas sobre a Devoção Moderna, trazendo pistas inovadoras para a compreensão da clássica obra de Tomás de Kempis.

            O resultado mais preciso das investigações realizadas, e assumidas nesta edição, é uma nova ordenação dos livros que compõem a Imitação de Cristo. Nas edições tradicionais, a obra finalizava com o livro de exortação à sagrada comunhão, sendo precedido pelo livro sobre a consolação interior. Dava-se, assim, uma importância fundamental à comunhão eucarística, entendida como coroamento do caminho espiritual. Na nova edição há uma mudança de ordem, e de compreensão teológica, favorecendo uma melhor percepção da dimensão mística deste livro tão popular. Com a nova visão, o livro apresenta-se como um manual religioso dividido em quatro etapas: iniciando com a convocação ao abraço da vida espiritual e concluindo com a união deificante proporcionada pelo diálogo intradivino. A nova sequência, na verdade, vem retomar a ordem original do livro, traduzindo uma “surpreendente articulação interna” e uma “progressividade do itinerário espiritual”.

            Em sua preciosa introdução, Frater Henrique desoculta esse traço místico essencial do livro de Thomas Kempis, sublinhando que a meta final do percurso espiritual não é o Cristo, celebrado na Eucaristia, mas o Pai celeste. A Eucaristia acena para um horizonte que é mais amplo e que expressa a íntima união com Deus. Para utilizar uma imagem de João da Cruz, a Eucaristia acena para uma ceia maior, que “deleita e enamora”, o panis angelicum que é o alimento do “próprio Amado”.

            Com a reflexão sugerida, a obra apresentada revela-se como um “guia mistagógico”, indicando uma precisa pedagogia religiosa que privilegia um caminho interior de crescimento espiritual. Em linha de sintonia com a inspiração traçada pela devoção moderna, a Imitação de Cristo sublinha a centralidade da interioridade, mas pontuada pelo seguimento de Jesus. Trata-se de uma “interiorização do espírito de Jesus” e um convite a uma vida cristiforme que se abre ao horizonte maior do Mistério de Deus. Ou como indicou Frater Henrique, a “busca de Deus, seguindo o Cristo, na perspectiva da união definitiva no amor trinitário”.

            É toda uma linha de reflexão que expressa um singular influxo da linhagem mística que começa com Agostinho, e que passa por autores como Jan van Ruusbroec, Mestre Eckhart e outros espirituais vinculados aos Cartuxos e Cisterciences. De modo particular, esse movimento em direção à interioridade, ao lado interior da existência humana (o dedans), como questionamento vivo ao projeto habitual de vinculação quase exclusiva ao mundo da superficialidade (o dehors), que situa o “ego” no centro de todo movimento existencial. Um momento decisivo ocorre quando a pessoa “interiorizada” responde ao desafio de viver o discipulado de Jesus, sem impor resistência à ação da graça. E esse seguimento joga a pessoa no mundo, na experiência agápica essencial. Daí a missionaridade que envolve essa obra prima de Tomás de Kempis, rompendo com esquemas interpretativos que confinam a interpretação do livro numa linha meramente intimista e subjetivista. Como salienta Frater Henrique, “o próprio testemunho da vida de seu autor comprova o contrário, como também a irradiação apostólica da Devoção Moderna, da qual fazia parte”.

            Por fim, vale perguntar sobre as razões que motivam a grande sedução exercida por esse livro desde sua primeira irradiação, com uma popularidade só ultrapassada pela Bíblia. Buscar entender sua “estranha atração” sobre tantas pessoas é algo que motiva muitos de seus intérpretes, entre os quais Frater Henrique. E ele consegue passar para o leitor, de forma admirável, esse toque sedutor. E sua resposta é clara: trata-se de um livro que “fala, antes de tudo, ao coração”, que “toca diretamente ao ser humano: o próprio sentido da existência”. É um livro que fala ao coração dos leigos, e neles sempre encontrou sua mais preciosa ressonância. Talvez o segredo maior dessa atração esteja na capacidade de trazer à tona valores tão esquecidos na cultura atual, pontuada pela lógica da competitividade, da produtividade e da centralidade egoica. Há hoje, por todo lado, uma sede de humanização que encontra eco em livros dessa natureza, que traduzem um caminho alternativo: de “descentramento de si”, de busca da simplicidade, da gratuidade, do despojamento e liberdade interior. E Frater Cristiano conclui sua reflexão com um toque bem latino-americano: “A intimidade com o Senhor inclui, necessariamente, uma decidida solidariedade com os outros, particularmente com os excluídos e todos os que se encontram ´à beira da estrada da vida`”.

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF

           


            

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Etty Hillesum: o canto da vida

Etty Hillesum: o canto da vida

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF

            No dia 15 de janeiro de 2014 Etty Hillesum estaria completando 100 anos. Embora pouco conhecida no Brasil, esta mística neerlandesa foi uma das personalidades mais luminosas do século XX, sobretudo em razão de seu exemplo de vida e esperança. Ela nasceu na pequena cidade de Middelburg, no sudoeste dos Países Baixos, na província da Zelândia. Seu pai, Louis Hillesum, era professor e um erudito, com formação em línguas clássicas. Sua mãe, Riva Hillesum-Bernstein, era russa e dotada de um firme caráter. Além de Etty, os pais tiveram ainda dois filhos, Jaap Hillesum e Mischa Hillesum. O primeiro com formação em medicina e o segundo dotado de um grande talento musical, mas ambos frágeis em âmbito psicológico.

            Depois de fazer o ginásio na cidade de Deventer, seguiu seus estudos superiores em Jurisprudência, em Amsterdã, num ambiente estudantil pontuado por influências de esquerda e anti-fascista. Ali também estudou línguas eslavas, e em particular língua e literatura russa. Motivo importante de recordação foi sua presença na casa de Han Wegerif, em Amsterdã, a partir de 1937. Com ele chegou a ter uma relação de maior proximidade e uma experiência dolorosa de aborto, relatada num dos cadernos de seu diário, com data de 8 de dezembro de 1941. Na mesma casa conviveu com um estudante de química, Bernard Meylink, que acabou servindo de ponte para o seu contato com Julius Spier, um psicoquirólogo, especializado na leitura de mãos. Etty Hillesum, muito impressionada com a personalidade de Spier,  decidiu fazer terapia com ele e logo a experiência desdobrou numa relação amorosa intensa.

            O contato com Spier foi também importante para o processo de amadurecimento de Etty, como ela relatou em página de seu diário, em maio de 1941. Abriu também portas singulares para o seu crescimento interior, com o aconselhamento de leituras fundamentais que a acompanharão por toda a vida, como a Bíblia e Santo Agostinho. Também outros autores, como Rilke e Dostoievski, que já faziam parte de seu repertório de leitura, ganham agora um significado mais profundo. Possivelmente é sob o impulso de Spier, e como parte de sua terapia, que Etty inicia o seu diário em março de 1941, aos 27 anos. E o trabalho redacional vem animado por singular “fogo interior”, com páginas de impressionante vitalidade e copiosidade. Na recente edição integral italiana o trabalho soma 922 páginas (Adelphi, 2012). Ali busca organizar o seu mundo interior. Aos poucos vai encontrando um eixo norteador de sua busca pela verdade e pela fidelidade a si: “Encontrei o contato comigo mesma, com a parte melhor e mais profunda de meu ser, aquela que chamo Deus” (Diário, 10 de agosto de 1941). A soma dos cadernos veio entregue por Etty à sua amiga Maria Tuising, antes de sua partida para o campo de concentração. Além do diário, há a riqueza das cartas, cobrindo os anos de 1942 a 1943, cuja primeira edição parcial foi publicada na Holanda em 1982. Na Itália, esta obra ganhou sua nona edição, em fevereiro de 2012 (Adelphi).

            O cerco nazista contra os judeus na Holanda ganhou novos contornos em 1942, quando foram obrigados a portar no peito a estrela amarela, e a Holanda foi declarada “Judenrein”, ou seja “limpa dos judeus”. Neste mesmo ano, Etty foi indicada para o Conselho Hebraico, um organismo ad hoc criado pelos alemães com o intuito de organizar a saída dos judeus. Os judeus considerados “idôneos” eram transferidos para “campos de trabalho”. Um desses campos foi Westerbork, instituído no final de 1939 pelos holandeses com a finalidade de abrigar os judeus fugitivos da Alemanha antes da guerra. Este campo ficava na província de Drenthe, nas proximidades de Assen (Holanda norte-oriental). No ano de 1942, o lugar transforma-se em campo de concentração, onde cerca de cem mil judeus holandeses encontraram sua última parada antes de serem exterminados na Polônia, em Auschwitz. O trabalho de Etty no mencionado Conselho a isentava de internamento em Westerbork, mas um pouco depois de conseguir esse cargo, solicitou sua transferência para esta localidade, assumindo ali a tarefa de “assistente social”, justamente no momento em que começava o programa de deportação para Auschwitz. Entre julho de 1942 a setembro de 1944, a cada semana, foram cerca de noventa e três trens carregados de judeus com o sombrio destino da morte. Em carta de dezembro de 1942, que acabou sendo publicada pela resistência holandesa em 1943, Etty descreve para duas amigas as tristes condições desse “campo de trânsito”. Dentre as carências mais graves, a “falta de espaço”, bem como as terríveis condições de higiene, que incidiram nos inúmeros casos de doença entre os deportados. Ainda mais duro que o trabalho forçado, era a tensão presente entre os judeus, a cada semana, com a leitura da lista dos indicados para tomar o trem e dar prosseguimento à sua “interminável via crucis”. Em correspondência de 10 de julho de 1943, Etty relata a Maria Tuinzing o clima de tensão num campo que viu partir dez mil pessoas, entre velhos e jovens, doentes e sãos. E assinalava ser mais fácil rezar para os que estavam distantes, mas muito difícil para aqueles que estavam ali bem próximos, com seu sofrimento exposto. E dentre eles, seus pais e irmãos, que também foram encaminhados para o mesmo campo.

Foi ali em Westerbork que Etty Hillesum pôde mostrar toda a força e o potencial de sua esperança. Suas vivas reservas interiores tinham sido reforçadas antes, num trabalho pessoal de harmonização. Foi familiarizando-se com essa escuta interior, esta atenção ao mundo da profundidade (Hineinhorchen). Dizia em página de seu diário, em 17 de setembro de 1942:

“No fundo, a minha vida é um ininterrupto escutar dentro de mim mesma, os outros, Deus. E quando digo que escuto dentro, é em realidade Deus que escuta dentro de mim. A parte mais essencial e profunda de mim que presta atenção à parte mais essencial do outro. Deus a Deus”.

 A acolhida e escuta da voz interior (Sich versenken) foi marcando sua trajetória de vida. Dizia que a cada manhã todos deveriam abrir esse espaço interior, nessa “hora tranquila” (stille Stunde) de renovação do ser, de forma a poder escutar o mundo da profundidade e renovar o dia com essa iluminação (Diário, 8 e 10 de junho de 1941).

Com a experiência no campo de concentração, o seu “núcleo interior” tornou-se ainda mais sólido e forte. Suas reservas vitais mostram agora toda a sua densidade. Em linda página de carta escrita a amigos, em 3 de julho de 1943, sublinha:

“Queria dizer apenas o seguinte: a miséria aqui é verdadeiramente terrível e, ainda assim, à noite, quando o dia caiu num abismo atrás de nós, costumo caminhar a passos largos ao longo do arame farpado, e então, do coração alça sempre uma voz - não posso fazer nada, é assim, é de uma força elementar -, e esta voz diz: a vida é uma coisa esplêndida e grande, mais tarde deveremos construir um mundo completamente novo. A cada novo crime ou horror, devemos opor um novo segmento de amor e de bondade, conquistados em nós mesmos”.

            Dentre os confinados no campo de Westerbork, Etty era reconhecida como o “coração pensante”, a “personalidade luminosa”. Foi um testemunho de fé, esperança e amor entre aqueles deserdados. O seu trabalho essencial foi o de erigir um “barreira interior” para evitar que a apatia ou o desânimo tomassem conta de seus companheiros. Estavam ali naquele “verdadeiro manicômio”, motivo de “vergonha para três séculos”. Sua voz erguia-se das sombras, como brasa nas cinzas e reinventava a esperança: “Constato cada vez em mim mesma, quando se toca o limite do desespero e se acredita não poder mais avançar, eis que a balança pende para o outro lado, e se pode então rir e retomar a vida” (Carta de 5 de julho de 1953).

            Com Rilke apreendeu a amar a vida nos seus mais rotineiros detalhes, a cantar com alegria, com o brilho nos olhos, o desafio do mundo em aberto, com as “veias cheias de existência”. Com ele soube reconhecer que o mundo não poderá se firmar a não ser no interior e que a vida aqui, sim, é o que há de grandioso. Essa esperança foi a força singela que tomou de assalto o coração dessa jovem neerlandesa.

            Talvez o segredo maior dessa esperança tenha sido seu sentimento da Presença de Deus. Sua vida, como ela mesma relatou em carta de 18 de agosto de 1943, foi sempre um ininterrupto colóquio com Deus. Ainda mais: seu “único grande colóquio”. Deus, esse mistério maior que a ajudou perceber que por trás de todo esse campo de dor existe um “ritmo mais profundo” que deve animar a escuta e irrigar a esperança. Apesar de tudo, jamais entrou em combate com Deus, como ocorreu com Jó, mas junto a Ele encontrou a segurança que precisava. Foi nesse “colóquio interior” com Ele que reuniu as forças criativas para levar em frente o seu sonho de amor; foi com Ele que as ondas de seu coração ganharam maior amplidão, podendo hospedar de forma singular os outros.

            O potencial de hospitalidade foi um dos grandes valores presentes na trajetória de Etty Hillesum: deixar-se hospedar pelo outro no espaço mais íntimo da vida, ali florescendo e irradiando. Em página de seu diário, no dia 13 de março de 1942, ela dizia: “Acolher o outro no próprio espaço interior e deixar que ali floresça, dar-lhe um lugar onde possa crescer e se desenvolver”. Esta sim é a grande responsabilidade que toca aos humanos.

            Esse foi o caminho místico de Etty Hillesum, o caminho da doação, da irradiação da alegria e esperança, da hospitalidade. Há místicos, como Teresa de Ávila, que sinalizaram que o acesso ao Castelo Interior se dá através da oração. No caso da jovem mística neerlandesa, a porta de acesso a essa Morada foi sua própria vida. É o que indicou com acerto a pesquisadora e carmelita Cristina Dobner, em  singular obra italiana sobre as páginas místicas de Etty Hillesum (Ancora, 2007).

            Em sua última carta, datada de 7 de setembro de 1943, Etty Hillesum relata sua partida, junto com sua família, no trem que os levaria para a morte em Auschwitz. Viajaram em vagões diferentes, e é possível que seus pais tenham morrido ainda durante a viagem de três dias. Estavam todos “fortes e calmos”: ela, seus pais e seu irmão Mischa. Relata ainda que todos deixaram “o campo cantando”. Segundo a indicação da Cruz Vermelha, Etty morreu em Auschwitz em 30 de novembro de 1943, aos 29 anos de idade.

            Para celebrar o acontecimento dos 100 anos de nascimento dessa mística contemporânea da alegria, a poeta brasileira, Mariana Ianelli, escreveu essas linhas em sua homenagem:
           
Trabalhava. Trabalhava numa primavera fria
esperando ser como a lua, ser como um pasto:
uma vasta paisagem tranquila –
e desenterrava Deus de sob pedras e cascalhos.
O caminho até o cais era feito entre soldados
(todos tão pequenos por trás de seus crimes).
E trabalhava mais: era uma estaca no mar,
era um pedaço de granito, era o próprio mundo
prestes a ser destruído. E trabalhava mais:
estava com os deportados, com os desaparecidos,
estava com uma flor num retângulo de jardim.
De minuto a minuto, forjando a calma em pessoa,
o sorriso de Buda, um terreno baldio.
E já havia partido, muito antes de partir, debaixo
de um céu sem palavras: era uma estrela nos campos,
era a mulher já sem nome do vagão número 12,

na direção do Leste, cantando de alegria.