sexta-feira, 22 de março de 2013

A retomada do Espírito de Assis


A retomada do Espírito de Assis

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF

A igreja católica vive um momento importante de retomada das grandes inspirações do Concílio Vaticano II. O novo bispo de Roma, Francisco, inaugura com alegria um momento novo para a comunidade católica mundial, anunciando a vitalidade de uma “igreja da ternura”, atenta à criação, ao mundo do outro e a todo o ambiente. De uma igreja que busca resgatar o sonho ilustrado por Giotto: “Francisco, restaura a minha casa”. Nessa tremenda e difícil tarefa de fazer renascer a igreja a partir de suas bases evangélicas, Francisco insere também o precioso trabalho de abertura às diversas tradições religiosas.
A abertura ecumênica e o diálogo interreligioso constituem dois fundamentais legados do Concílio Vaticano II. Vale aqui lembrar o mote apontado na declaração conciliar sobre as relações da igreja com outras religiões: de que todos os povos “constituem uma só comunidade” e bebem na mesma matriz de um Mistério sempre maior. A mesma declaração sinaliza que não se pode invocar a Deus como pai de todos a não ser numa perspectiva de “tratamento fraterno” aos diversos caminhos de busca do sagrado.  E esses caminhos devem ser acolhidos com alegria e com respeito, pois são frutos do livre exercício da consciência em sua busca da verdade. Cresce a cada dia a consciência da “dignidade da diferença”, da acolhida positiva do pluralismo e do imperativo dialogal. O Vaticano II abriu novas veredas nesse campo dialogal.
No âmbito do magistério eclesial cabe registrar a importância de dois documentos inaugurais: A igreja e as outras religiõesDiálogo e Missão (1984 – Secretariado para os não-cristãos) e Diálogo e Anúncio (1991 – Pontifícia Comissão para o Diálogo Interreligioso). Há que sublinhar a presença e o influxo de um importante teólogo nesse clima de abertura: Pietro Rossano. Foi professor de teologia das religiões na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, bem como nas universidades Urbaniana e Lateranense. Teve também singular atuação no Secretariado para os Não-Cristãos, a partir de 1973, quando foi designado como secretário desse dicastério romano. Foi talvez um dos nomes marcantes na defesa de um novo “estilo dialogal” para a igreja católica, pontuado pela abertura fraterna, de respeito e atenção cuidadosa ao outro, sobretudo aos caminhos inusitados do Espírito.
O documento Diálogo e Missão (1984) sinaliza esse caminho de abertura, tendo continuidade em outra instrução, Diálogo e Anúncio (1991). Na redação desse último documento teve Pietro Rossano um decisivo papel, com a colaboração preciosa do teólogo jesuíta belga, Jacques Dupuis. Mas as resistências contra uma linha de abertura já se faziam sentir na ocasião. Esse último documento passou por cinco redações, e mudanças substantivas ocorreram no texto por influxo da Congregação para a Evangelização dos Povos (em particular o cardeal Josef Tomko), mais reticente com as aberturas aventadas.
Em semelhante clima dialogal tinha ocorrido o evento mundial de oração em favor da paz, em Assis, no ano de 1986. Pietro Rossano também contribuiu para a realização desse evento, estimulando o então papa Wojtyla a lançar-se com entusiasmo nesse empreendimento do espírito. A jornada interreligiosa de oração teve um impacto mundial, chamando a atenção para uma uma “outra dimensão da paz” tecida pelo caminho de uma oração comum que reconcilia as várias tradições religiosas. Na ocasião, o papa Wojtyla mencionava Francisco como o grande símbolo da paz, da reconciliação e da fraternidade entre os povos.  Ocorre que esse evento causou mal estar entre segmentos da cúria romana, inclusive no cardeal Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Em linha de sintonia com suas reflexões sobre o tema, Ratzinger via com certa perplexidade o evento em razão de seus possíveis riscos teológicos. Já assinalara em clássico livro de 1985 (Rapporto sulla fede) a tendência teológica pós-conciliar de enfatizar excessivamente as religiões não-cristãs, o que poderia ocasionar, a seu ver, o risco de enfraquecer a “essencialidade do batismo” e o esvaziamento da “tensão missionária”. Ainda com respeito à iniciativa de Assis, via com reservas a experiência, na medida em que ela poderia suscitar uma ruptura definitiva com os lefebvrianos. O papa Wojtyla teve que se explicar junto à cúria romana no final de 1986, mas reforçou a importância do evento. Tratava-se para ele de uma “ilustração visível, uma lição dos fatos, uma catequese inteligível a todos, do que pressupõe e significa o empenho ecumênico em favor do diálogo interreligioso recomendado e promovido pelo Concílio Vaticano II”. Infelizmente, o espírito de Assis veio violentamente refreado pela declaração Dominus Iesus (2000), da Congregação para a Doutrina da Fé, assinada pelo cardeal Ratzinger.  Essa declaração deixou um rastro de sombra e desconfiança na trajetória eclesial com respeito ao diálogo. Não só iniciativas de abertura foram coibidas, como também os teólogos que se dedicavam ao tema encontraram vivas reações do magistério, e muitos deles foram punidos ou notificados em razão de suas pesquisas e reflexões sobre o tema: Jacques Dupuis, Roger Haight, Tissa Balasuriya, Anthony de Mello, Elizabeth Johnson, Ivone Gebara e tantos outros.
O novo bispo de Roma, Francisco, anuncia a retomada desse espírito de Assis, para a alegria de todos os que se dedicam com entusiasmo ao projeto ecumênico e interreligioso. Coloca no centro de sua atenção o tema do “cuidado”: do cuidado com toda a criação, do cuidado com os mais excluídos, e do cuidado e atenção aos outros. Para além da cantilena tradicional que apenas reitera a ladainha continuísta do catecismo romano, Francisco resgata os valores essenciais do Vaticano II. Sublinha sua firme vontade de prosseguir o caminho ecumênico e dialogal do último concílio. Enfatiza a irrevogabilidade dessa opção fundamental da igreja, de “promoção da amizade e do respeito entre homens e mulheres das diversas tradições religiosas”. Em sua missa inaugural, já havia enfatizado a importância da acolhida fraterna de toda a humanidade, da abertura pastoral da igreja aos sinais dos tempos. No recente encontro com os representantes das diversas igrejas cristãs e das outras religiões, ocorrido na Sala Clementina (20/03/2013), fala da responsabilidade comum das distintas religiões em favor da salvaguarda da criação e do cuidado e atenção aos mais pobres. São causas muito nobres. Fala também da importância de manter acesa no mundo a “sede do Absoluto”. São desafios essenciais para as religiões. O encontro reúne importantes lideranças religiosas como o patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, o metropolita Hilarion do patriarcado de Moscou, o secretário do Conselho Ecumênico das Igrejas, Olav Fykse Tveit, os rabinos Riccardo Di Segni (Roma) e David Rosen (responsável pelas relações entre fés do Comitê Judaico Americano), bem como outras lideranças do islã, do budismo, do sikhismo, jainismo etc. Com o patriarca Bartolomeu I teve antes um encontro reservado. Novidadeira a presença de um patriarca de Constantinopla em Roma, sinalizando a abertura de importantes canais de comunicação com a igreja ortodoxa. Francisco o acolhe com alegria chamando-o de “irmão André”, uma referência ao irmão do apóstolo Pedro. Com os amigos e irmãos judeus presentes, Francisco evoca o grande “vínculo espiritual” que une os dois povos de Deus. Sinaliza a alegria com a presença muçulmana, que também marca uma irmandade singular, daqueles que partilham a crença no Deus vivente e misericordioso. Mas aponta também a proximidade da igreja com todos os outros homens e mulheres de boa vontade: de todos aqueles que “embora não se reconhecendo pertencentes a nenhuma tradição religiosa, todavia se sentem em busca da verdade, da bondade e da beleza”. Eles também, sinaliza Francisco, “são nossos preciosos aliados no compromisso em defesa da dignidade humana, na construção de uma convivência pacífica entre os povos e na guarda cuidadosa da criação”.
Os gestos inaugurais de Francisco em seu novo exercício pastoral são portadores de viva esperança para a comunidade cristã, mas também um alento vital para todas as outras comunidades religiosas e buscadores espirituais. Não há dúvida que estamos diante de uma nova primavera, pontuada por um novo espírito e uma nova energia, depois do longo inverno que marcou as últimas décadas.

Publicado no IHU-Notícias de 22/03/2012:

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/518629-a-retomada-do-espirito-de-assis

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Igreja em tempo de espera


A Igreja em tempo de espera

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF

A Igreja Católica Romana viveu nesses dias uma situação inusitada com o anúncio da renúncia do Papa Bento XVI, prevista para o dia 28 de fevereiro. Dentre os argumentos apontados para esse gesto corajoso, destacou-se a princípio a fragilidade da saúde do pontífice, mas crescem também os indícios de que conflitos internos na Cúria romana, de “lutas fratricidas”, tenham contribuído para a decisão de Bento XVI. Num pontificado marcado por turbulências, algumas iniciativas tomadas em favor da transparência eclesial e da purificação de posturas problemáticas, como as relacionadas à pedofilia na Igreja, provocaram irritação nos segmentos mais conservadores, levando o papa a uma situação de solidão e a um “tormento” interior que acabaram incidindo na sua tomada de posição. Mas como sublinhou o vaticanista Marco Politi, citando Paulo VI, não há como fugir da solidão no papado. A questão mais séria relaciona-se com a escolha dos colaboradores e a eficiência das estratégias definidas. Nesse ponto, como em outros, fraquejou o pontificado. Como sinaliza Politi, “Ratzinger experimenta o fracasso de decisões que imaginava profícuas, dá-se conta da ineficiência de quem na Cúria deveria sustentá-lo e assiste impotente a uma revolta que se propaga nos meios de comunicação”. A renúncia do papa é apenas sintoma de algo muito mais grave que ocorre no tecido eclesial, de “crise de um sistema de governo e de uma forma de papado”. Com o gesto ousado do papa, talvez sua “única grande reforma”, abre-se agora um campo novo para as mudanças necessárias na vida da Igreja Católica, para que possa se reinventar a partir do fermento evangélico. Trata-se do grande desafio que se apresenta para o conclave que vai eleger o novo papa. Os caminhos de abertura estão embaçados, pois na atual composição do colégio de cardeais que vai eleger o novo papa, todos foram escolhidos nas gestões dos dois últimos pontífices: 51 no pontificado de João Paulo II e 67 no de Bento XVI. E a grande maioria está bem alinhada na dinâmica restauradora que marcou os últimos decênios. Mas tudo pode acontecer num conclave que se anuncia complexo e demorado. A maior parte dos eleitores procede do Norte, enquanto a maioria dos fiéis católicos encontra-se no Sul. O desafio que se anuncia para o novo papa é de índole pastoral: saber responder com dignidade, ousadia e profecia aos grandes reptos de nosso tempo. Não faz mais sentido continuar na tradicional cantilena da defesa de princípios não negociáveis. Há que saber ousar com criatividade e liberdade. Como bem sinalizou Juan Arias, “o importante é que o sucessor de Bento XVI seja capaz de entender que o mundo está mudando rapidamente e que de nada servirá à Igreja continuar levantando muros para impedir que lhe cheguem os gritos de mudança que provêm de boa parte da própria cristandade”.

(Publicado no Jornal Tribuna de Minas – Juiz de Fora, em 17/02/2013)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Rasgar os corações para reinventar a Igreja


Rasgar os corações para reiventar a Igreja

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF

Em sua primeira missa depois da renúncia, na cerimônia de quarta feira de cinzas, Bento XVI serve-se da leitura do profeta Joel para sinalizar a presença de difíceis conflitos e divisões na vida da igreja católica romana. O profeta diz: “Rasgai os vossos corações e não as vossas roupas” (Jl  2,13). Diz o papa: “Mesmo nos nossos dias, muitos estão prontos para rasgar-se as vestes diante de escândalos e  injustiças, naturalmente cometidas por outros, mas poucos parecem disponíveis para agir sobre seu próprio coração”.  Tudo indica que entre as razões de sua renúncia não esteja apenas as referidas razões de saúde, mas também o esgotamento provocado pelas “lutas de poder internas” que contaminam a cúria romana.
Em editorial do jornal italiano Corriere della Sera (13/02/2013), seu diretor, Ferrucio de Bortoli trata do anúncio da renúncia de Bento XVI. O título é forte: “Uma frágil grandeza”. Aborda o delicado tema do “tormento interior” que também contribuiu para a decisão de Bento XVI. Teólogo de relevo, mas de gabinete, o papa Ratzinger não estava preparado para lidar com as querelas cotidianas da cúria romana e das espinhosas questões da vida da igreja. O autor sugere que nos últimos tempos, o sentimento de solidão deve ter sido “devastador” para ele. Foi se sentindo cada vez mais só...  Em clássica obra sobre o pontificado do papa Ratzinger, Marco Politi sublinha que o papa “experimenta o fracasso de decisões que imaginava profícuas, dá-se conta da ineficiência de quem na cúria deveria sustentá-lo e assiste impotente à uma revolta que se propaga nos meios de comunicação. Coisa ainda mais amarga: é obrigado a abrir os olhos para a rachadura radical do mundo católico com respeito à sua linha”.  Encorajado pela insensibilidade de uma cúria mais voltada para os “jogos de poder” e pelas “lutas fratricidas”, acabou firmando sua decisão de renunciar ao cargo.
As resistências da cúria foram crescendo na medida em que o papa assumiu para si a responsabilidade de questionar certos abusos em curso na igreja, sobretudo no âmbito da pedofilia. Num dos documentos mais contundentes de seu pontificado, a carta aos católicos da Irlanda, em março de 2009, resolve denunciar “o grito dos inocentes” e reconhecer os graves pecados da igreja nesse campo dos abusos sexuais. Expressa com vigor, em nome da igreja, sua “vergonha e remorso”. É a primeira vez que um papa reconhece coletivamente a culpa da instituição eclesiástica pelos  abusos cometidos ao longos dos anos por seus membros. Bento XVI rompe também com outro “muro de silêncio” ao ordenar uma investigação mais séria sobre o fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel Degollado, acusado de abusos  sexuais reincidentes contra seminaristas. Tudo isso irritou segmentos conservadores da cúria, que preferiam manter o tradicional silêncio a respeito.
 Mas como diz com acerto Marco Politi, em artigo publicado no dia 14/02/2013 no Il Fatto Quotidiano, a solidão em que o papa se viu envolvido, tem a ver com os colaboradores que ele próprio escolheu ao longo de sua atuação no Vaticano e a carência de eficiência nas estratégias de realização de seu projeto. Como diz o adágio espanhol: “Cria cuervos que ellos te sacarán los ojos”. Essa é a verdade. O que acabou ocorrendo em âmbito mundial, foi uma crescente desafeição dos fiéis e da opinião pública com respeito à instituição igreja e também ao seu líder, como também mostrou Politi em seu ousado artigo.
Trata-se de um pontificado turbulento, dizem os analistas, pontuado por muitas indefinições e gafes: envolvendo posicionamentos negativos sobre os gays e os preservativos, sobre o celibato eclesial, a atuação das mulheres, de impasses na relação com o islã, titubeios ecumênicos, concessões aos lefebvrianos, infeliz reedição da oração de sexta feira santa que tanto desagradou segmentos do judaísmo e posicionamentos críticos contra o pensamento teológico mais aberto. Politi sublinha que a obsessiva repetição dos “princípios não negociáveis” provocou, na verdade, “um cisma subterrâneo, silencioso mas profundo, no âmbito do Povo de Deus”.
A renúncia do papa foi talvez sua “única grande reforma”, como salientou Politi. Não foi um gesto qualquer, mas um ato de governo de grande alcance, um profundo ato de “magistério spiritual”. Daí ter provocado novamente a irritação da ala conservadora da igreja. Um ato que guarda consigo um significado preciso, de “dessacralização” de um cargo, de visualização de seu limitado alcance. Como pontuou Ernesto Galli em editorial do jornal Corriere della Sera (13/02/2013), o gesto de Bento XVI coloca em discussão “o modo de ser da estrutura central do governo da igreja”, abrindo também espaço para sinalizar os limites da própria instituição, os costumes arraigados e os sombrios jogos de poder.
Com a renúncia abrem-se novas possibilidades de mudança no campo eclesial, como mostrou John L. Allen Jr, em artigo publicado na Folha de São Paulo (14/02/2013). Ela pode, “na realidade, abrir espaço para um conclave mais inclinado a colocar a igreja num rumo diferente”, e ele indica três razões: a quebra de normalidade, com a possibilidade de surpresas no âmbito de uma tradição tão conservadora; o indício de que “a igreja precisa de um reinício”; e a realização de um conclave “livre do efeito funeral”, favorecendo um espaço de mais liberdade para decisões novidadeiras.
Coloca-se agora em evidência a necessidade de uma reinvenção da igreja, de um novo tonus spiritual que illumine a instituição e seus fiéis para fazer frente à crise atual da cristandade. Trata-se de um aceno importante para o conclave que se anuncia. A necessidade da presença de um pastor autêntico para guiar a comunidade dos cristãos, de alguém que saiba comunicar, antes de tudo, vida e esperança, mais que simples conhecimento teológico. Que saiba erguer sua voz ativa e profética contra as dores do mundo e mostrar a dignidade de todos, sobretudo dos mais excluídos e espoliados. O novo pontífice deve ser alguém, como mostrou com acerto Juan Arias, “capaz de entender que o mundo está mudando rapidamente e que de nada serve à igreja continuar levantando muros para impeder que lhe cheguem os gritos de mudança que provêm de grande parte da própria cristandade”.

(Publicado no Boletim REDE – Rede de Cristãos – Ano 18, 15/02/2013)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Reflexões em torno da renúncia de Bento XVI


Reflexões em torno da renúncia de Bento XVI

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF


Partilho aqui algumas reflexões que fiz no Facebook  em torno da renúncia de Bento XVI

Muito complexa a situação da Igreja Católica Romana (ICAR). Lemos hoje, 13/03/2013, na FSP, em reportagem de Patrícia Britto, que o cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo (e que participará do próximo conclave) sublinhou que “dificilmente o papa que substituirá Bento XVI mudará a forma como a igreja lida com temas considerados polêmicos” e “que será difícil simplesmente dizer sim àquilo que é proposto pela sociedade ou pelos legisladores”[1]. Essa é, infelizmente, a cantilena que sempre estamos a ouvir por parte de segmentos da hierarquia atual. Uma dificuldade incrível de ousadia e profetismo.

Impressionei-me hoje ao ler algumas notícias dos periódicos internacionais sobre a atual crise no Vaticano, em particular as reflexões de Massimo Franco no Corriere della Sera[2]. Na sua avaliação, o que assistimos hoje é o “sintoma extremo, final, irrevogável da crise de um sistema de governo e de uma forma de papado”. E fala da deriva de uma igreja-instituição que em poucos anos passou da condição de “mestra de vida” para “pecadora”, de “ponto de referência moral da opinião pública ocidental, a uma espécie de ´acusada global`, agredida e pressionada por segmentos diversificados.

 Clovis Rossi chega a falar em sua coluna na FSP de uma “guerra civil no Vaticano” [3]. E o filósofo italiano Gianni Vattimo, em seu blog – reproduzido no jornal Il fato quotidiano (13/02/2013) – sublinha que a demissão era a única coisa que um papa poderia seriamente fazer. Ele acrescenta que se Jesus vivesse hoje entre os seus pseudo-sucessores “abandonaria imediatamente o Vaticano, e talvez retornasse à Palestina para estar junto aos perseguidos e expropriados daquele lugar, e não perderia mais seu tempo, e alma, seguindo as vicissitudes da política italiana (...)”. Para Vattimo, a renúncia papal indica um distanciamento das “funcionalidades terrenas” e a necessidade de apontar, talvez, a “face anárquica, e autenticamente sobrenatural, do Evangelho”, abrindo a possibilidade para o cristianismo de se tornar novamente “uma escolha de vida possível para as pessoas de nosso tempo”[4].

Leonardo Boff fala também no último texto de seu blog[5] sobre a importância de retomada de um modelo dialogal para a igreja, de sintonia com o Vaticano II, Medellin e Puebla, de uma “Igreja-aprendiz e aberta ao diálogo com todos”, de liberdade e criatividade. E Hans Kung em seu recente livro – Salviamo la Chiesa -, indica a necessidade de um tratamento para a igreja, de uma “terapia ecumênica” que ajude a vencer a “osteoporose do sistema eclesiástico”[6]. E coloca o dedo na ferida, ao falar da necessidade imperiosa de uma reforma da cúria romana à luz do Evangelho. Uma reforma que deverá contemplar: humildade evangélica (com renúncia de todos os títulos honoríficos estranhos à Bíblia), simplicidade evangélica, fraternidade evangélica e liberdade evangélica.

Nesse delicado momento de preparação do conclave que escolherá o novo papa, os analistas chamam a atenção para problemas internos da cúria romana, que também pressionaram a decisão de renúncia de Bento XVI. Em entrevista publicada hoje no O Globo, o renomado teólogo espanhol, José Ignacio González Faus faz menção a tais pressões. Ele sinaliza: "Não estranharia que a renúncia estivesse ligada a problemas com a Cúria". O papa "já arrastava problemas com a Cúria desde que afastou do sacerdócio Marcial Maciel, acusado de abusos sexuais"[7]. Chama a atenção para aquela oração proferida pelo então cardeal Ratzinger na cerimônia da sexta feira santa em Roma, em comentário da IX estação da via sacra. Reproduzo aqui o que ele disse no ocasião:

"Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta auto-suficiência! Senhor, muitas vezes a vossa Igreja parece-nos uma barca que está para afundar, uma barca que mete água por todos os lados. E mesmo no vosso campo de trigo, vemos mais cizânia que trigo. O vestido e o rosto tão sujos da vossa Igreja horrorizam-nos. Mas somos nós mesmos que os sujamos! Somos nós mesmos que Vos traímos sempre, depois de todas as nossas grandes palavras, os nossos grandes gestos."

Segundo González Faus, os intérpretes em avaliação feita na época, achavam que ele estivesse se referindo à pedofilia na igreja, mas em verdade, os indícios apontam que poderia ser uma alusão à Cúria romana, essa mesma cúria que terá voz ativa na eleição do próximo papa em 2013.




[5] L.Boff. Que tipo de papa? As tensões internas da Igreja atual: http://leonardoboff.wordpress.com/2013/02/12/que-tipo-de-papa-as-tensoes-internas-da-igreja-atual/ (acesso em 13/03/2013)
[6] Hans KUNG. Salviamo la chiesa. Milano: Rizzoli, 2011.
[7] José Ignacio GONZÁLEZ-FAUS. “Sua maior contribuição foi a renúncia”. O Globo, 13/02/2013, p. 26 (Mundo).