sexta-feira, 12 de agosto de 2022

As experiências-ápice segundo Abraham Maslow

 As experiências-ápice segundo Abraham Maslow

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

Muito interessante o livro de Abraham Maslow, Religiones, valores y experiências cumbre(Barcelona: La Llave, 2013). O autor é um dos nomes importantes da psicologia humanista e da psicologia transpessoal. Nasceu em Nova York em 1908 e faleceu em 1970. Foi professor no Brooklyn College e na Western Behavioral Institute. Desenvolveu ao longo da vida reflexões bem significativas em torno da temática da “pirâmide da necessidade”, ou seja, uma teoria que se dedica ao estudo das motivações humanas e da “fé na tendência inata das pessoas em tirar o maior partido possível de seus próprios talentos e possibilidades”. Algo que tem profundamente a ver com a auto-realização.

 

O livro apresentado no início foi publicado originalmente em inglês em 1964 e traduzido para diversos países. Interessante a presença do teólogo Paul Tillich na base de suas reflexões que envolvem o tema da fé, em particular a questão da experiência de Deus como experiência da profundidade. Para Maslow as questões religiosas relacionam-se com as “preocupações últimas”, intensas e profundas que marcam a psicologia profunda de qualquer pessoa.

 

Maslow sublinha a importância daqueles que vivem a dimensão religiosa em profundidade, que se mostram mais capazes de uma experiência holística e integradora. Mas sublinha que essa experiência não tem necessariamente a que ver com integração nas religiões estabelecidas, mas na captação da profundidade do mundo interior, com o resgate de valores que se mostram essenciais. 

 

Ele faz uma importante distinção entre a mística individual e a perspectiva legalista e organizativa. Fundamental para ele é a definição do que chamou de “experiência ápice” (peack experience). Trata-se de uma experiência de intensidade única e estremecedora, como se fosse uma “pequena morte”.

 

Esta experiência pode ocorrer com qualquer um, e em muitas passagens de nossa vida podemos viver “vislumbres” provisórios disso, enquanto outras pessoas singulares podem permanecer acesas para essa elevada faceta da consciência unitiva. É algo que requer do buscador “tempo, trabalho, disciplina, estudo e compromisso”. Aqueles que viveram similar experiência são capazes de perceber no universo uma bonita dimensão de “totalidade integrada e unificada”; são igualmente pessoas que se sentem mais desapegadas, tendo um potencial singular para perceber a relação íntima que vincula o sujeito com o mundo, para além das dicotomia empobrecedoras. A experiência-ápice, como lembra Maslow, favorece ao que a vivencia um olhar mais elevado sobre a dinâmica da realidade.

 

Em suas reflexões, Maslow mostrou com pertinência que os valores espirituais têm uma valência natural, não sendo, absolutamente, propriedade exclusiva das igrejas organizadas. Tais valores não requerem, necessariamente, conceitos sobrenaturais, podendo ocorrer com base na experiência do cotidiano da vida, onde se irradiam valores de nobreza que possibilitam uma vida reta, de pureza, bondade e justiça. O autor foi também pioneiro e, talvez, precursor de uma mística do cotidiano, que resgata esta dimensão terrenal da espiritualidade. É algo que pode ocorrer com qualquer um, e que está firmado em acontecimentos subjetivos: uma experiência que ocorre também sem referência a “princípios alheios à natureza, ou à natureza humana”.

 

Maslow foi pioneiro também na busca de uma percepção mais ampla de ciência, capaz de envolver em seu bojo questões religiosas básica, ligadas à experiência de profundidade. Assim como faz uma contundente crítica às visões religiosas institucionais que se apegam exclusivamente a fundamentos sobrenaturais, deixando à margem experiências da natureza humana, volta igualmente sua crítica implacável contra a ciência dogmática  e positivista, que exclui de seu campo investigativo as experiências transcendentes. Em sua visão, “um dos aspectos mais irritantes da ciência positivista é seu excesso de confiança, ou melhor, sua falta de humildade”. Os assim chamados “cientistas puros” pecam pela arrogância, sentindo-se demasiadamente seguros, carecendo da humildade necessária para perceber dimensões do ilimitado.

 

Em suas argumentações pertinentes, Maslow dedica-se à reflexão sobre a “experiência religiosa básica”. Faz uma distinção entre o profeta e o tipo puro do legalista eclesiástico. Sublinha que nem todos religiosos deixam-se habitar pelas experiências-ápice, permanecendo satisfeitos e protegidos pelo mundo tranquilo da estabilidade. Preferem estar sempre garantidos pela experiência controlada, que é aquilo que Maslow designou como experiência de “não-ápice”. Não só preferem manter-se assim garantidos, como reagem criticamente aos que buscam ousar em experiências singulares. Maslow entende que “a maior parte da linguagem utilizada pela teologia e pela religião ao longo da história e no mundo inteiro, constitui um esforço mais ou menos vão, de transmitir – mediante palavras, fórmulas comunicáveis, rituais e cerimônias simbólicas – a experiência mística do profeta original”. São “autoridades” que acabem desclassificando como heréticos aqueles que ousam para além dos limites proclamados.

 

Maslow sublinha que as experiências-ápice , com sua dinâmica de iluminação, desempenhou um papel importante na história das religiões. Reconheceu também que tais experiências foram propiciadas por drogas psicodélicas, em especial o LSD e a psilocibina. Foram drogas que favoreceram “alguma possibilidade de controle no reino das experiências-ápice”. O autor chega inclusive a afirmar, com base em Jung, que em casos específicos a inserção em estruturas organizadas acaba por constituir um empecilho para experiências mais puras no campo do profundamente religioso. Pontua que “a experiência transcendente parece atuar com mais frequência aqueles que rechaçaram a religião herdada”.

 

Aquele que conseguiu viver momentos de experiência-ápice é capaz de desocultar a beleza que existe no mundo, mas igualmente, em certa medida, reconhecer a presença do mal no mundo e, de certa forma, reconciliar-se com ele. Isto é mais difícil perceber. Não se trata de uma defesa do mal, mas de um reconhecimento de sua presença no tempo e nas pessoas. O autor indica que aqueles que passam pela experiência-ápice são capazes de reconhecer o lugar que o mal “ocupa na totalidade”, como um traço que pertence ao aqui, “inevitável, necessário e, em consequência, apropriado”.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Uma festa da amizade

 Uma festa da amizade – Juiz de Fora, julho de 2022 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

Estar aqui na Faixa de Gaia, em Juiz de Fora, com esta gente querida provoca em mim uma emoção oceânica. Passamos juntos nesta tremenda pandemia fazendo das coisas mais bonitas que é debater literatura. O caminho escolhido não podia ser melhor: Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Com esses dois mestres da reflexão pudemos mergulhar no vasto oceano do real, debatendo temas que são essenciais e muitas vezes esquecidos: o mergulho interior, a ambiguidade do humano, a maldade que nos abate, os enigmas das relações, o chamado ancestral.

 

As aulas seguiam-se de aprofundamentos no grupo menor, que se reunia on-line depois da reflexão e então começava um momento bonito de trocas, de intimidade, de abertura do coração e de fortalecimento de uma amizade com gente bonita de todo lugar. Muito comovente para mim ter vivido esses momentos tão especiais. Vejo hoje com clareza que pude crescer interiormente nessa troca singela, gratuita e desarmada. 

 

Todos sabemos que vivemos tempos bicudos, de fechamentos identitários e fundamentalismos que graçam por todo canto. Construímos nos debates diques de fraternidade e amor, “gestos barreira”, como diz Latour. Que alegria ver os rostos de cada um, numa simpatia contagiante, numa sede de entendimento que ultrapassou o mero interesse acadêmico. Era um encontro de amigos que se abriam, que ousaram partilhar santuários de reflexões que não ocorrem no cotidiano normal.

 

Não era só sede de conhecimento ou ânsia de penetrar em domínios difíceis, era também vontade de estar junto, de sorrir em comum, de partilhar dores, às vezes profundas, apoiar-se mutuante, tudo suscitado pelas aulas semanais. Criamos um bonito “aparelho de conversa”, onde cada palavra, gesto, silêncio ocupavam o seu lugar de reverência e acolhida. 

 

Sim, acolhida, talvez tenha sido o mais bonito que aconteceu nessa ciranda que nos motivou a viver em profundidade uma amizade singular. 

 

Ao longo desse tempo de vivência comum, mesmo à distância, pude ganhar o impulso para refletir temas de profundidade inaudita; também a coragem para partilhar sentimentos e ideias nas redes comuns, coisa que não é fácil. 

 

Sinto que cresci nestes tempos de partilha e comunhão. Saio fortalecido para adentrar-me em veredas complexas, delicadas e difíceis. No grupo encontrei o importante apoio para aventurar-me em searas complicadas e resistentes, buscando vencer ou, pelo menos, lidar com as barreiras quase intransponíveis dos nefastos identitarismos.

 

Agradeço de coração a todas e todos queridos que estão aqui, ou aqueles que nos acompanharam generosamente nesta viagem de vida, mas não puderam estar conosco nestes dois dias maravilhosos. Sairei, certamente, com o brilho do olhar de cada um de vocês, desta vez podendo penetrar com mais beleza no mundo interior de cada um... e poder abraçar, dar as mãos, tão lembradas nos nossos cursos, e ver com a ocular sedenta, que cada um existe de fato, com a vocação de fazer a vida cada vez mais bela, acreditando que um novo mundo é possível, apesar de.

 

Relendo aqui as contribuições de todos que enviaram seus textos ecoando a riqueza da experiências desses anos, fiquei realmente emocionado. Nos dois dias em que estivemos juntos em Juiz de Fora, pudemos sorver que emoção cada palavra das mensagens redigidas pelos participantes das aulas. 

 

Alguns disseram que com todo o saldo negativo da pandemia, os encontros semanais proporcionavam um saldo de alegria e um caminho profundo para reflexões vitais. Disseram que com Clarice visitaram a Cidade Sitiada, e beberam também com emoção da Água Viva. A cada encontro um “novo acorde” para tecer a canção do amor, da fraternidade, da solidariedade, da hospitalidade e da delicadeza. 

 

As palavra de Clarice e Rosa eram música para o coração; palavras que teciam instantes mágicos de olhares sedentos. Alguém lembrou que a inquietude de Clarice contaminou a peregrinação, ecoando viva nos corações. A partir dos encontros, tudo virou motivo de atenção: os mínimos detalhes, nos sons da natureza, dos animais e das plantas. 

 

Durante os cursos, estávamos distantes, mas no encontro de Juiz de Fora, os corações ganharam uma proximidade inusitada, calorosa, vibrante... “Amizades e carinhos, distantes em quilometragem da Terra, mas perto, tão perto que operaram mudanças” nas agendas de cada um. Foi mesmo um “bálsamo” na vida de todos... tudo sendo pacientemente preparado nas aulas semanais e nos debates que se seguiam no grupo menor: foi “uma acolhedora companhia no isolamento social”; “momentos de leveza e doçura no meio do turbilhão da vida”. 

 

Muitos relataram suas transformações pessoais aos longos desse tempo, desde 2020, quando os cursos começaram. Alguém disse que Rosa ajudou a entender o seu passado e ancestralidade. Ajudou a situar os sobrenomes que se firmaram nos campos gerais, a reconhecer com alegria a “linguagem mineira”. Disseram ainda que não foi o grupo que escolheu o livro, mas o livro que escolheu o grupo, tocando a alma de cada um. Sobre o Grande Sertão: Veredas, disseram que é um livro precioso, em que se retorna sempre nos momentos de precisão, nos instantes importantes da vida. Um livro que projeta luz e esperança. Sem que se perceba bem, ele irradia “veredas verdejantes” que desanuviam “as tensões dos dilemas da vida”. 

 

Alguém chegou a falar em “tsunami” na vida. Na companhia de Riobaldo e do compadre Quelemém, muitos foram se abrindo para uma espiritualidade plural, onde o coração é capaz de acolher muitos amores: “muita religião, seu moço!”. Fora mesmo encontros maravilhosos, que agora continuam com os contos de Rosa. Debatendo Rosa e Clarice, cada um pode partilhar a vida pulsando, a música tocando, o sol se pondo... E ao final, pudemos todos verificar com alegria, que a vida segue, apesar de, segue nos rastros da luz... O desafio estar em viver cada dia sem maiores preocupações, enfrentando com dignidade e altivez os problemas, e sabendo levantar com garbo a cada queda no caminho: “Cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta... O que a vida quer da gente é coragem”.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Viver na Presença, entre as coisas

Viver na Presença, entre as coisas

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

Numa das leituras da liturgia do dia 31 de julho de 2022  há uma passagem da carta de Paulo aos Colossenses que me fez refletir e discernir de modo crítico.

Dizia: "Aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres" (Cl 3,2)

No contexto da leitura podemos entender que o apóstolo fala das coisas negativas que estão ao nosso redor no tempo: "a imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça"

Vendo sob esse ângulo, podemos até entender. O perigo, porém, é cair no dualismo problemático que nos faz rechaçar o chamado da terra. Não acredito que devamos fazer morrer o que em nós pertence à terra. O que precisamos, sim, é saber reconhecer na Terra o bonito espaço da experiência de Deus, do Mistério ou do Nada, como nos dizem os budistas e místicos.

Teilhard de Chardin, em seu Meio Divino, fala-nos da importância da educação do olhar: saber ver[1]. O místico nos convoca a perceber com serenidade que o grande Mistério "nos espera a cada instante da ação, na obra do momento"[2]. 

Na sua Missa sobre o Mundo, Teilhard agrade a Deus por conduzir seu olhar "à imensa simplicidade das coisas"[3], das coisas que estão aí, que tem seu grande valor em si, mas que podem também expressar as grandezas de Deus. De forma tão linda, ele diz que sobe para o Espírito que lhe sorri "vestido com o esplendor concreto do Universo"[4]. O místico jesuíta tinha uma simpatia profunda, irresistível, por tudo aquilo que se movia na matéria obscura[5].

Daí a beleza de, na contramão do problemático dualismo grego, recuperar a ideia de Diafania de Deus no universo, que possibilita perceber "na profundidade de todo fato e de todo elemento o calor luminoso de uma mesma Vida"[6]. 

A pureza, nos diz Teilhard, "não está na separação, mas numa penetração mais profunda no Universo". É preciso, diz ele, "ver, tocar, viver na presença, beber a existência quente no próprio seio da Realidade"[7].

Ainda tocado pela inconformidade da expressão paulina, recorri também a Rubem Alves, no lindo texto "Sobre Deuses e caquis"[8]. Para ele, a teologia "é uma brincadeira, parecida com o jogo encantado das contas de vidro"[9], como trabalhado por Hermann Hesse. 

Beleza é poder sentir com o "tremor na carne" quando nela acontece a magia da presença do poema. Não há como falar de Deus, nos lembra Rubem Alves, "mas podemos falar sobre as coisas humanas". A teologia não são senão "os poemas que tecemos como redes sobre a saudade de algo cujo nome esquecemos"[10].

Nós teólogos devemos ser contagiados pela humildade: não ser como o galo que imagina que com seu canto é que brota a verdade. Deus, em verdade, está muito além dos seus discursos movediços. Deus não é uma realidade "que muda de ideia ou muda de ser ao sabor das coisas que nós pensamos e dizemos"[11]. Deus é sempre maior, alertam-nos os místicos sufis.

Ainda com base no texto de Rubem Alves, sabemos que o que Deus mais admira é essa Terra. Citando Adélia Prado, Alves sublinha: "Depois da morte... eu vou querer o prato e a fome, um dia sem tomar banho, a gravata pro domingo de manhã... Quando eu ressuscitar, o que quero é a vida repetida sem o perigo da morte, os riscos todos, a garantia; de noite estaremos juntos, a camisa no portal. Descansaremos porque a sirene apita e temos que trabalhar, comer, passar dificuldades, com o temor de Deus, para ganhar o céu"[12]. 

 



[1]Pierre Teilhard de Chardin. O meio divino. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 33.

[2]Ibidem, p. 32.

[3]Pierre Teilhard de Chardin. Hino do universo.  São Paulo: Paulus, p. 27.

[4]  Ibidem, p. 29.

[5]Ibidem, p. 21.

[6]Ibidem, p. 29.

[7]Ibidem, p. 68.

[8]Rubem Alves. Sobre deuses e caquis. In: Edin Sued Abumnsur et alii. Sobre deuses e caquis.Teologia, política e poesia em Rubem Alves. Comunicações do ISER, n. 32, 1988.

[9]Rubem Alves. Sobre deuses e caquis, p. 10.

[10]Ibidem, p. 11.

[11]Ibidem, p. 13.

[12]Ibidem, p. 18.

sábado, 23 de julho de 2022

O morrer com dignidade

 O morrer com dignidade

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

Tenho refletido muito sobre a morte nesses tempos difíceis. A pandemia trouxe sofrimento para muitas famílias, que experimentaram a dor em grau extremo, a perda de seus queridos... Penso igualmente na dor daqueles que resistem a manter aceso o brilho no olhar, mas que encontram barreiras pelo caminho. Às vezes são empecilhos de uma doença terminal ou crônica, às vezes de uma idade que não permite mais tantas alegrias. Penso que teríamos que encontrar um caminho possível de alento para as pessoas, que não se resumiria a "tratamentos paliativos". 

 

Quando li o livro de Hans Küng, "Uma batalha ao longo de uma vida" (2014)[1], e já faz tempo, pude refletir com cuidado sobre o tema da morte digna. Quando o teólogo escreveu o livro, ele ainda podia ler ou escutar a música que lhe agradava. Na ocasião já reclamava, porém, das dificuldades que tinha para escrever ou se locomover, com os passos cada vez mais curtos e titubeantes. 

 

Com a coragem que sempre o caracterizou Küng refletiu, com base no livro do Eclesiastes, que “há um tempo de nascer e um tempo de morrer” (Eclo 3,2). Argumentou que “o ser humano tem o direito de morrer quando não vê mais esperança de uma vida humana conforme os próprios critérios pessoais, quando o sentido da vida se completa e ele deseja a morte”[2].

 

Estava na ocasião com quase noventa anos, mas tinha plena consciência de que ele deveria ser o sujeito de sua vida, mas também de sua morte. Dizia: "Continuo a pensar que a questão de quando e de como deva morrer é uma questão de minha responsabilidade, a não ser que seja colhido por uma ´morte imprevista`, como um acidente ou um golpe do destino"[3]. 

 

Agora, porém, quando diminui a temperatura vital, tudo fica tão diverso... No caso de Kung, que já faleceu, ele estava sofrendo com o mal de Parkinson, artrose, e uma degeneração macular extremamente complicada para o desdobramento de sua vida. Ele morreu, sem precisar usar mão de sua decisão em favor de uma morte assistida... Mas foi seu desejo último.

 

Küngdizia, com razão, que sua decisão final era como "a última aventura da liberdade". É o tempo kairológico que marca um caminho para a interioridade, em direção “a um novo liame ainda escondido: vita mutatur, non tollitur. A vida não é tirada, mas transformada”[4]. É quando se dá o passo “no infinito da pessoa finita”, na decisiva estrada, não só em direção ao cosmos mas ao “núcleo da realidade”, ocorrendo a bonita acolhida nos braços dos Deus misericordioso.

 

Ao final do livro, Küng faz uma linda oração onde agradece com alegria a Deus, omnicompreensivo, sentido originário do ser, por ter possibilitado a ele viver com tanta intensidade[5]. 

 

Ouvindo nesses dias a maravilhosa música de Michael Jackson, Heal the World, fixei-me numa passagem em que ele diz ser necessário deixar de existir para passar a viver. No caso, sinto com dor que muitas pessoas são "jogadas" nessa condição de um existir onde falta o viver. É um tema que deveria ser objeto de mais estudos de especialistas da questão. 

 

Recentemente refletimos também no Paz e Bem sobre o belo filme de Hal Asbhby, Being There, que ganhou a tradução brasileira de "Muito além do jardim"[6], com o o fantástico ator Peter Sellers. Aproveitei para ler o livro que inspirou o diretor, "O videota", de Jerzy Kosinsky[7]. Um título a meu ver injusto para mostrar toda a complexidade de um personagem que não era só determinado pela visão da televisão, mas igualmente pelo jardim, ao qual se dedicou a vida inteira. Não um "idiota", mas um "menino", vejo muito mais assim.

 

No livro e no filme, o personagem Chance, vivido por Peter Sellers, aproxima-se existencialmente do rico empresário americano, que era presidente do Conselho da First American Financial Corporation. O empresário viu no jardineiro um exemplo de vida, Alguma coisa presente ali no mundo interior do jardineiro o agradava e animava. O empresário, Rand, já estava muito doente, com uma anemia aplástica e o horizonte vital se fechava para ele. Como diz o autor do livro, era alguém "como uma árvore com as raízes na superfície", e tudo o que restava para ele era aguardar "o quarto lá de cima"[8].

 

E aí me deparo com uma lamentável entrevista de dois médicos da UFJF em jornal da cidade de Juiz de Fora, questionando o uso medicinal do Canabidiol[9]. Toda a reflexão movida por eles, que trabalham com o tema "espírita" da vida além morte, vinha sustentada pela ideia da ausência de evidências científicas para corroborar a utilização do canabidiol. 

 

Fiquei revoltado, pois vislumbrei na entrevista uma tremenda falta de respeito a outros tantos profissionais de gabarito que estão contribuindo com ajuda inestimável a tantos pacientes deste nosso país que sofrem de inúmeros males e que no medicamento encontram o alívio de que precisam.

 

São tantas coisas, tantas ideias que me vêm a mente... Penso que é hora de reunirmos esforços para tratar com mais cuidado de um tema tão candente como este.

 



[1]Hans Küng. Una Bataglia lunga una vita. Idee, passioni, speranze. Il mio raccconto del secolo. Milano: Rizzoli, 2014.

[2]Ibidem, p. 1085.

[3]Ibidem, p. 1110.

[4]Ibidem, p. 1086.

[5]Ibidem, p. 1111.

[6]Muito além do Jardim. Direção de Hal Ashby. Warnes Bros Pictures, 1979. O debate no Canal Paz e Bem e no IHU ocorreu no dia 20 de julho de 2022, com a minha presença e também de Angelo Atalla e Mauro Lope.

[7]Jerzy Kosinsky. O videota. Rio de Janeiro: Artenova, 1971.

[8]Ibidem, p. 44-45.

[9]Professores questionam potencial terapêutico de derivados da cannabis. Entrevista com Alexander Moreira Almeida e Alexander de Rezende Pinto. Jornal Tribuna de Minas. Juiz de Fora, 23-24 de julho de 2022, p. 4.

terça-feira, 12 de julho de 2022

Contaminados pelos Encontros: caminhos dialogais

Contaminados pelos Encontros: caminhos dialogais

 

Faustino Teixeira

IHU/Paz e Bem

 

 

Incrível como o tema do diálogo aparece em tantos lugares. Estudando os fungos, vejo pistas muito interessantes para ajudar nessa reflexão. Como exemplo, vemos que os cogumelos matsutake "são os corpos frutificados de um fungo subterrâneo que se associa a certas árvores da floresta"[1]. São cogumelos muito apreciados, e que são encontrados poucos centímetros abaixo da superfície. Só os catadores experientes conseguem perceber a sua presença, olhando com atenção as sutis elevações do solo. São cogumelos extremamente resistentes. Basta saber que depois da destruição de Hiroshima, o primeiro ser vivo que emergiu das ruínas foi um cogumelo matsutake.

 

A vida dos cogumelos é um exemplo concreto da “abundância de vida” que existe abaixo de nossos pés. No mundo subterrâneo invisível processam-se outras formas de fazer mundo, que quebram com a ideia de que as histórias bonitas são sempre regidas por “heróis humanos”. Ao contrário, existe muita vida em movimento. Anna Tsing abre uma pista importante: “Siga os fungos até essa cidade subterrânea e você encontrará os estranhos e múltiplo prazeres da vida interespécies”[2]. Temos aqui um aprendizado importante nesse entrelaçamento interespécies: a vida sempre está a requerer a interação entre os seres.

 

Abaixo de nossos pés temos uma verdadeira metrópole cosmopolita habitada por um emaranhado de relações micorrízicas. São as micorrizas que facultam a "infraestrutura de interconexão entre as espécies", como aponta a antropóloga Anna Tsing em seu livro: O cogumelo no fim do mundo. Os fungos que se frutificam em cogumelos obtêm “seus carboidratos a partir de relações mutualísticas com as raízes de suas árvores hospedeiras, param quem eles também fornecem nutrientes”[3]. São eles, junto com as bactérias, que propiciam o solo necessário para o crescimento das plantas.

 

Enquanto o ser humano não pode desenvolver novos membros, os fungos, ao contrário, são marcados por indeterminação. Eles continuam sempre crescendo, e mudam de forma dependendo de seus encontros e ambientes[4]. Trata-se de um tema que se mostra muito importante para pensar o diálogo. 

 

O estudo dos fungos nos ajuda a perceber que "somos contaminados por nossos encontros"[5]. Não é possível a "pureza". O que ocorre sempre é a presença de uma precariedade que nos convoca ao outro. Somos todos vulneráveis e precisamos das relações. Sobretudo em tempos marcados pela perturbação humana, o tempo do antropoceno, somos tomados pela desorientação e angústia. Caminhos dialogais se fazem cada vez mais necessários.

 

Não há como escapar dessa precariedade, que é em verdade um "estado de reconhecimento de nossa vulnerabilidade aos outros". Não há como sobreviver sozinhos. Estamos ligados a uma rede fundamental. Como indica Tsing, “a sobrevivência sempre envolve alteridade”[6].

 

É rico o conceito de assembleia para nos ajudar a compreender a dinâmica de tecer mundos. Para além da ideia de uma "comunidade ecológica", que ainda carrega algo de fixo e limitado, a noção de assembléia evoca agrupamentos mais abertos[7], o que é bem interessante.



[1]Anna Lowenhaupt Tsing. O cogumelo no fim do mundo. Sobre as possibilidades de vida nas ruínas do capitalismo. São Paulo: N-1 Edições, 2022, p. 89.

[2]Ibidem, p. 211.

[3]Ibidem, p. 89.

[4]Ibidem, p. 97.

[5]Ibidem, p. 73.

[6]Ibidem, p. 75.

[7]Ibidem, p. 67.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Gil no Roda Viva de maio de 2022

 Gil no Roda Viva de 23 de maio de 2022


Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem 

 

Foi uma experiência bonita assistir ao Gilberto Gil na Roda Viva de 23 de maio de 2022. Na beira de completar os 80 anos, em 26 de junho de 2022, Gil continua a brilhar e irradiar ternura e esperança. O programa foi todo marcado por uma delicadeza singular. Recém empossado na Academia Brasileira de Letras, Gil vive um momento de maturidade, mas também de muito atividade. Em junho, a partir do dia 24, teremos um evento bonito, uma série documental, na Amazon Prime Vídeo, abordando a experiência do compositor e cantor em “casa com os Gil”. A família Gil, que fez uma turnê por vários países, segue agora com apresentações no Brasil. Seremos ainda brindados proximamente com todo o acervo musical de Gil pelo Google, bem como a edição ampliada do livro com todas as letras de Gil, com comentários, organizado por Carlos Rennó.

 

Quero destacar nesse meu olhar sobre o programa Roda Viva com Gil duas questões que estiveram presentes: a questão religiosa e a questão política. Em primeiro lugar, a questão da fé. Gil sublinhou ao longo do programa que esse é um tema que vem refletindo muito no momento. Vem demonstrando uma preocupação com a “utilidade da fé”, para que ela serve? Sinalizou no programa que percebe hoje dois modos básicos de se colocar diante da fé: o modo da súplica e o modo da confiança. Confessou que, de vez em quando, o motivo da súplica ocorre na sua vida. Argumentou que de vez em quando há que se fazer um pedido qualquer: “Oh, meu Deus, me socorra!”. Falou também da intercessão de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Pontuou, porém, que o modo mais seguido por ele no momento relaciona-se com a confiança. 

 

Perguntado sobre o influxo das religiões em sua vida, falou sobre a presença do influxo oriental, em particular do Yoga, que vem o acompanhando desde a prisão. De sua atenção ao mundo da macrobiótica, bem como do influxo de reflexões vindas do Taoísmo e do Budismo. O programa refletiu um modo de ser peculiar de Gil, aberto e atento a todas as manifestações religiosas e contribuições recebidas da beleza da diversidade religiosa.

 

Uma segunda questão que pude observar tem a ver com o modo harmônico de Gil lidar com a questão política. Retomou no programa o mote que vem defendendo nos últimos tempos: “O justo meio está na igual possibilidade dos extremos”. É um mantra que o anima diante das questões concretas. Gil enfatiza que o fundamental é “estar aí”, com o olhar atento de observador. Sua intenção está sempre voltada para o diálogo, com seu espírito de mansidão e pacificação, num caminho que prioriza o entendimento e a conversa. Em casos concreto, não há dúvida, pode ocorrer, no terreno da ação política, uma decisão que exija a escolha por um extremo.

 

Ao falar sobre a morte, aquele momento de reconfiguração do corpo numa situação distinta, lembrou do céu. E sublinhou que mesmo ali, naquele momento derradeiro, quando chegar seu momento, estará diante de Deus e do Diabo, mantendo viva sua disposição de conversar com os dois.

 

Seu jeito, porém, é do compositor pacífico, consciente de sua pequenez e fragilidade, que requer de si a humildade essencial. Também a consciência viva de que nem sempre se ganha no jogo político ou em qualquer atividade humana. Faz parte do jogo, enfatiza, saber perder de vez em quando. O risco está sempre presente no caminho humano, e muitas vezes, como diz na canção, “há que morrer para germinar”. Gil enfatiza essa ideia de saber também abraçar a perda, pois todos os gestos humanos envolvem tanto a possibilidade do sim, como também do não. Trata-se de algo que também é fundamental na arte.

 

Um momento rico no programa foi quando ele pontuou o clima de “vaporização” que marca a sua perspectiva atual. Indicou para os participantes do programa que o que permanece vivo para ele hoje é “esse vapor”, que paira acima da solidez que marca as estruturas e pessoas nesse tempo da busca de eficiência. Reagiu contra essa tendência de petrificação, de idealização de tudo o que é útil ou importante, do que deve ser. Essa visão dicotômica do certo e do errado. Para ele, tudo isso vai ficando hoje mais vago.

 

Tais reflexões, maduras e serenas, me fizeram lembrar de trechos de sua música Ok Ok Ok, que partilho aqui:

 

"Já sei que querem a minha opinião

Um papo reto sobre o que eu pensei

Como interpreto a tal, a vil situação

Dos tantos que me preferem calado

Poucos deles falam em meu favor

A maior parte adere ao coro irado

Dos que me ferem com ódio e terror

Já para os que me querem mais ativo

Mais solidário com o sofrer do pobre

Espero que minh'alma seja nobre

O suficiente enquanto eu estiver vivo 

 

OK OK OK, OK OK OK (...)

 

Então não falo, músico e poeta

Me calo sobre as certezas e os fins

Meu papo reto sai sobre patins

A deslizar sobre os alvos e as metas"

 

Esse é o Gil, com sua humildade e nobreza. O cantor e compositor que nos encanta, celebrando sempre as alegria da vida e nunca perdendo a esperança. O Gil da Tropicália, da abertura permanente ao novo e ao diverso, sempre disponível para novos e instigantes desafios, sem perder a leveza jamais. Com ele, partilhamos a simplicidade dos tobogãs e essa bonita consciência de uma ligação maior com tudo o que existe, pois

 

“Nós também somos do mato 
Como o pato e o leão 
Aguardaremos 
Brincaremos no regato 
Até que nos tragam frutos 
Teu amor, teu coração”.

 

domingo, 22 de maio de 2022

Tramas invisíveis de colaboração na teia vital

 Tramas invisíveis de colaboração na teia vital

 

Faustino Teixeira

IHU/Paz e Bem

 

 

No dia 21 de maio de 2022, tivemos mais um encontro do Grupo de Emaús para debater a conjuntura nacional. Foram muito ricas as provocações levantadas por Pedro Assis Ribeiro de Oliveira (sociólogo) e Manfredo de Oliveira (filósofo). Os debates foram novidadeiros e provocadores. 

 

Na semana anterior ao encontro tinha lido um livro que me marcou profundamente: A trama da vida - como os fungos constroem o mundo, de Merlin Sheldrake (UBU 2021). O autor tinha participado de forma brilhante da última Flip (2022), que aconteceu virtualmente. Assisti sua conferência e me encantei[1].

 

Em tempos passados tinha lido o livro de Humberto Maturana sobre a Ontologia da Realidade, em publicação da UFMG[2], e tinha me despertado para o tema da colaboração em vez da competição. Era o tema da lógica do amor no âmbito da evolução. Ao contrário da ideia comum de que vão adiante os que são mais fortes, passa a vigorar a ideia de que avançam os que melhor colaboram e se articulam. Como diz o autor, “a origem antropológica do Homo sapiensnão se deu através da competição, mas sim da cooperação, e a cooperação só pode se dar como uma atividade espontânea da aceitação mútua, isto é, através do amor”[3]. O tema ficou impresso em minhas reflexões.

 

Lendo agora o livro de Merlin Sheldrake, a questão retoma com um vigor inusitado. O autor trata dos fungos que estão em toda parte, e sublinha que essa questão "fornece a chave para compreender o planeta em que vivemos e a maneira como pensamos, sentimos e nos comportamos"[4]. Ele fala desse mundo que vive "longe dos nossos olhos" e que não conseguimos ainda descrever, no caso de 90% das espécies. O autor lembra que "mais de 90% das plantas dependem de fungos micorrízicos, que conseguem ligar árvores em redes compartilhadas, chamadas de ´internet das árvores`"[5]. Estamos diante de um fenômeno que envolve “quatrilhões de quilômetros de fungos micorrízicos que se enredam no solo”[6].

 

Os fungos têm uma vitalidade impressionante, sobrevivendo nas condições mais adversas, como nos canteiros de Chernobyl. Identificou-se uma espécie que está presente em rejeitos de mineração, super resistente à radiação, que ajuda a "limpar locais com resíduos radioativos"[7]. Mesmo depois da explosão do reator nuclear em Chernobyl, essa espécie poderosa vem ocupando a região.

 

Junto com os fungos, as micorrizas (do grego mykes - fungo e rhiza - raiz). Na sua maioria, eles formam redes conhecidas como hifas, que são "estruturas tubulantes finas que se ramificam, se fundem e se entrelaçam formando a filigrana anárquica do micélio"[8].

 

As estatísticas nos mostram que existem "entre 2,2 milhões e 3,8 milhões de espécies de fungos - de seis a dez vezes o número de espécies de plantas", sendo que somente 6% deles foram descritos até agora[9]. É um mundo invisível impressionante.

 

É uma ilusão acharmos que nós humanos estamos no comando da floresta e seus habitantes. Mais do que nunca se impõe a humildade necessária. A vida dos fungos é mesmo surpreendente para nós, e dribla os nossos preconceitos. Trata-se de uma trama que quebra radicalmente nossas definições antropocêntricas e nossa percepção do que é inteligência. Esses pequenos organismos nos dão continuamente lições e nos ajudam a "repensar o significado de ´resolução de problemas`, ´comunicação`, ´tomada de decisão`, ´aprendizado` e ´memória`"[10].

 

É impressionante ver o que é uma rede micelial. Já tínhamos visto isto também com Deleuze e Guatari, quando falaram de rizomas num dos volumes de Mil Platôs[11]. Como assinalam, os rizomas são constituídos de linhas com direções movediças. São linhas de fuga ou de desterritorialização, não tendo nem começo nem fim, mas sim um meio pelo qual crescem e transbordam[12].  São verdadeiros "labirintos vivos". Vemos coisas incríveis como uma ponta se tornar duas, depois quatro, oito e assim por diante. São verdadeira teias interligadas pelo solo, num "emaranhado de trilhas entrelaçadas"[13]. É nesse entrelaçamento que se firma a “textura do mundo”.

 

As redes de micélios estão em toda parte: "centenas de metros abaixo da superfície do oceano, ao longo dos recifes de coral, atravessando o corpo das plantas e animais vivos e mortos, em lixões, carpetes, piso de madeira, livros antigos em bibliotecas, partículas de poeira doméstica e telas de pintura de antigos mestres penduradas em museus"[14]. 

 

O micélio tem um dom fugidio, sendo uma "entidade única interconectada". É também extravagante, pois vaga "para fora ou além".  Trata-se de um corpo sem contorno, sem início ou fim. Resistente a qualquer previsão de direcionamento. É pelos micélios que os fungos se nutrem. Os fungos "digerem o mundo em que vivem e o absorvem. Suas hifas são longas e ramificadas, e com uma única célula de espessura - entre dois e vinte micrômetros de diâmetro, mais de cinco vezes mais finas que um fio de cabelo humano médio"[15].

 

O que difere os fungos dos animais é que "os animais colocam comida em seus corpos, enquanto os fungos colocam seus corpos na comida"[16]. Até meados do século XIX as bactérias e fungos eram classificados como plantas. Hoje já se encontram inseridos em classificação própria, conquistando a independência em meados de 1960[17]. 

 

Num mundo imprevisível, os animais enfrentam as incertezas em seus deslocamentos, na busca dos alimentos. Para "vencer" a vida, os micélios usam de estratégias impressionantes, com crescimento super oportunista. O que vemos no mundo das hifas de determinadas espécies, é um impressionante crescimento: "suas pontas precisam formar material novo à medida que avançam"[18].

 

Os animais, plantas e fungos indicam-nos que a natureza é sobretudo um evento que nunca para. Animais e plantas "são sistemas pelos quais a matéria passa continuamente"[19]. 

 

No mundo dos micélios o que existe é uma "polifonia corporificada". Cada uma das vozes é livre para vagar e "suas andanças não são separadas das demais. Não há voz principal. Não há melodia principal. Não existe um planejamento central. No entanto, uma forma emerge"[20].

 

Quando olhamos um cogumelo, o que vemos é um esporoma, "que equivale aos frutos de uma planta"[21]. Como os micélios, os cogumelos são feitos de hifas, que são as células dos micélios, sua “filigrana anárquica”.  Elas, as hifas, "são sensíveis a estímulos e, a todo momento são confrontadas com um mundo de possibilidades. Em vez de se esticarem em linha reta a uma taxa constante, elas se dirigem para locais com perspectivas atraentes e se afastam de locais de pouco interesse"[22].

 

Como mostra Sheldrake, "muitos tipos de organismos sem cérebro - plantas, fungos, mixomicetos - respondem a seus ambientes de forma flexível, resolvem problemas e tomam decisões entre caminhos alternativos de ação"[23]. Não estamos, assim, fugindo da noção latina da palavra inteligência, que significa "escolher entre". Não há como desconsiderar um tipo específico de cognição nesta dinâmica. Estamos diante de muitos organismos “capazes de comportamentos sofisticados”[24]. Mesmo não tendo um cérebro ou intelecto específico, as plantas e fungos “vivem enredados e precisam desenvolver maneiras de administrar seus assuntos complexos”[25].

 

Os micélios constituem "um dos primeiros passos conhecidos em direção à vida multicelular complexa, um emaranhado original, uma das primeiras redes vivas. Notavelmente inalterado, o micélio persiste por mais da metade dos 4 bilhões de anos de história de vida, atravessando incontáveis cataclismas e transformações globais catastróficas"[26].

 

Alexander von Humboldt, já em 1845, pôde observar que "cada passo que damos no conhecimento mais profundo da natureza" esbarramos com novos labirintos[27]. Daí entendermos que uma compreensão mais profunda dos micélios ainda está para ocorrer na ciência. 

 

O mundo dos líquens é também para nós um mistério, e fornece uma quadro bonito de compreensão da "colaboração entre reinos". Eles estão "incrustados em até 8% da superfície do planeta, uma área maior do que a coberta pelas florestas tropicais"[28]. Eles estão por todo lado revestindo rochas, árvores, telhados, cercas, penhascos e a superfície dos desertos. Formam mundos maravilhosos, "ilhas de vida num mar de rocha"[29]. Eles são os intermediários "que habitam a fronteira entre a vida e a não vida". Mostram-se também vigorosos para sobreviver no espaço. Ninguém sabe quando eles surgiram. Os fósseis mais antigos remontam a 400 milhões de anos[30].

 

Temos a palavra holobionte para descrever o "conjunto de organismos diferentes que se comportam como uma unidade". O termo deriva do grego holos, que diz respeito ao todo. Eles são "os líquens deste mundo"[31]. Não se trata de um conceito utópico, mas de algo que indica a presença de uma colaboração inaudita. Colaboração que reúne simultaneamente competição e cooperação.

 

Como indica Sheldrake em seu precioso livro, as algas foram as ancestrais de todas as plantas terrestres, tendo saído das águas rasas há 600 milhões de anos. As plantas, hoje, "representam 80% da massa de toda a vida na Terra e são a base das cadeias alimentares que sustentam quase todos os organismos terrestres"[32].

 

As algas chegaram à terra e estabeleceram relações com os fungos, e tudo isso evoluiu para as "relações micorrízicas". Temos hoje "mais de 90% das espécies vegetais" dependendo "de fungos micorrízicos". As algas e fungos se associam e cooperam entre si[33].

 

Alexander von Humboldt foi um dos primeiros a falar dessa "rede emaranhada"[34]. Vivemos num mundo de inter-conexões. É o que ocorre abaixo de nós, nas conexões presentes no subsolo. Existe ali uma rede maravilhosa, uma "cidade cosmopolita"[35]. Os organismos ali embaixo se comunicam e relacionam, compondo o "todo vivo" do mundo natural.

 

Curiosamente percebemos como James Cameron, com seu fabuloso filme Avatar, conseguiu de forma lúdica mostrar essa "rede viva e brilhante que ligava as plantas ao subsolo". E agora, aguardamos com ansiedade a continuidade do filme, já em andamento.

 

Em seu livro, Sheldrake revelou um estudo, publicado em 2016, que indica que "280 quilos de carbono por hectare de floresta poderiam ser transferidos entre árvores por meio de conexões fúngicas"[36]. Daí a essencial importância das redes micorrízicas para a vida ecológica.

 

Há que estar atentos ao mundo dos fungos, junto com a atenção ao mundo dos animais e vegetais: "prestar mais atenção às plantas que aos fungos nos torna cegos aos fungos"[37]. Devemos estar atentos para não nos restringirmos ao fitocentrismo, embora isso seja mais óbvio, em razão da relevância das plantas para a nossa vida. Há, porém, algo mais, escondido de nossa ocular, que é também imprescindível: os fugidios fungos micorrízicos. Eles não são "cabos passivos", mas tecem teias vitais emaranhadas. Eles "formam e reformam suas conexões com as plantas, emaranhando-se, desembaraçando-se e voltando a se emaranhar"[38]. Eles “driblam nossas preconcepções. Sua vida e seu comportamento são surpreendentes”[39].

 

Em parte singular do livro, onde o autor aborda a micologia radical, percebemos esse potencial de sobrevivência e artimanha dos fungos. Eles são "sobreviventes veteranos das perturbações ecológicas. Sua capacidade de perseverar - e muitas vezes prosperar - em períodos de mudanças catastróficas é uma de suas características definidoras. Eles são criativos, flexíveis e colaborativos"[40]. Estão sempre em dinâmica de transformação, sustentando a rede vital. Estão dentro de nós e ao nosso redor, “decompondo rocha, fazendo solo, desestabilizando poluentes, nutrindo e matando plantas, sobrevivendo no espaço, induzindo visões, produzindo alimentos, fazendo remédios, manipulando o comportamento animal e influenciando a composição da atmosfera”[41].

 

Assim como Eduardo Viveiros de Castro apontou-nos o caminho da sabedoria dos povos originários para que saibamos lidar com os tempos difíceis que vivemos, podemos igualmente aprender com essa capacidade incrível desse mundo invisível para apontar caminhos de sobrevivência e colaboração.

 

Apesar da "bagunça dos humanos", de sua violenta "pegada" sobre a terra, há o que aprender com os fungos que sobrevivem. Eles são vencedores com suas artimanhas: "persistiram depois dos cinco principais eventos de extinção da Terra, que eliminaram entre 75% e 95% das espécies do planeta a cada vez. Alguns fungos até prosperaram durantes esses episódios calamitosos"[42]. Sheldrake nos lembra que depois do que ocorreu em Hiroshima, "a primeira coisa viva a emergir da devastação foi um cogumelo matsutake"[43].

 

Esse precioso livro aqui descrito traz para nós, nesses tempos difíceis, que alguns identificam como tempos derradeiros, um caminho novo e surpreendente: somos capazes de "dançar sobre escombros", de vislumbrar brechas de vida no horizonte, se soubermos aprender com os saberes dos povos originários e com essas teias invisíveis, o caminho da artimanha e da colaboração. A natureza mostra-nos com grande beleza a possibilidade de um caminho alternativo: da solidariedade e da cooperação.

 

Há que levar hoje mais a sério esse aprendizado com o mundo natural e sua capacidade de resistência. Ou seja, "levar mais a sério a questão da coexistência no mundo em geral"[44]. Bruno Latour fala também em diplomacia, outra palavra essencial para o nosso presente sombrio.

 

Como diz Sheldrake, "hoje, o estudo das redes micorrízicas compartilhadas é um dos campos mais afetados por inclinações políticas. Alguns retratam esses sistemas como uma forma de socialismo pela qual a riqueza da floresta pode ser redistribuída"[45].

 

A antropóloga Donna Haraway fala em saber seguir com o problema e ser capaz de gerar novos parentescos entre as espécies companheiras, para além do excepcionalismo humano[46]. Vivemos tempos marcados pela precariedade generalizada, pelo abuso do poder, pela destruição do campo vital. Tudo visando o lucro e a supremacia do homem-humano. Há que buscar ou captar as ressurgências em curso, como fala Anna Tsing[47]. Vislumbrar as "erupções de vitalidade inesperada" que emergem pelas margens da vida. Caminhos inesperados para saber viver entre as ruínas. 

 

Acho bem interessante a pista aberta por Donna Haraway quando se define como uma "compostista" em vez de "pós-humanista"[48]. Ela insiste na sua tese, singular, da importância hoje de sabermos gerar parentes e não apenas filhos. O mundo dos vermes, como mostra Sheldrake, tem o que nos ensinar nesse campo da lida com a decomposiçã[49]. A criatividade passa também por esse aprendizado: saber "mexer, misturar e dissolver uma coisa na outra". Isso fazem os fungos: eles fazem de tudo e também desfazem. E o mundo vai sobrevivendo assim...

 



[1]O autor participou na mesa 7 da FLIP 2022, no dia 30/11/2022, debatendo o tema: Micélios: 

https://flip.org.br/2021/evento_principal/mesa-7-ze-kleber-micelios/(acesso em 22/05/2022).

[2]Humberto Maturana. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1997.

[3]Ibidem, p. 185.

[4]Merlin Sheldrake. A trama da vida. Como os fungos constroem o mundo. São Paulo: UBU, 2021, p. 11.

[5]Ibidem, p. 12.

[6]Ibidem, p. 156.

[7]Ibidem, p. 13.

[8]Ibidem, p. 14.

[9]Ibidem, p. 18-19.

[10]Ibidem, p. 25.

[11]Gilles Deleuze & Félix Guatari. Mil platôs. v. 1. São Paulo: Editora 34, 1995. 

[12]Ibidem, p. 43.

[13]Tim Ingold. Estar vivo. Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 120; Merlin Sheldrake. A trama da vida, p. 192.

[14]Merlin Sheldrake. A trama da vida, p. 56.

[15]Ibidem, p. 61.

[16]Ibidem, p. 61.

[17]Ibidem, p. 232.

[18]Ibidem, p. 63.

[19]Ibidem, p. 64.

[20]Ibidem, p. 65.

[21]Ibidem, p. 66.

[22]Ibidem, p. 68.

[23]Ibidem, p. 78.

[24]Ibidem, p. 25.

[25]Ibidem, p. 153.

[26]Ibidem, p. 80.

[27]Ibidem, p. 81.

[28]Ibidem, p. 86.

[29]Ibidem, p. 86-87.

[30]Ibidem, p. 99.

[31]Ibidem, p. 105-106. Ver também: Donna Haraway. Seguir con el problema. Generar parentesco en el Chthuluceno. Bilbao: Edición Consonni, 2020, p. 101.

[32]Merlin Sheldrake. A trama da vida, p. 140.

[33]Ibidem, p. 141.

[34]Ibidem, p. 168.

[35]Anna Tsing. Viver nas ruínas. Paisagens multiespécies no Antropoceno. Brasília: IEB Mil Folhas, 2019, p. 43-44.

[36]Merlin Sheldrake. A trama da vida, p. 174.

[37]Ibidem, p. 180.

[38]Ibidem, p. 192 e 180.

[39]p. 23.

[40]Anna Tsing. Viver nas ruínas, p. 226.

[41]Merlin Sheldrake. A trama da vida, p. 11.

[42]Ibidem, p. 202-203.

[43]Ibidem, p. 203.

[44]Ibidem, p. 236.

[45]Ibidem, p. 236.

[46]Donna Haraway. Seguir con el problema, p. 24.

[48]Ibidem, p. 157.

[49]Merlin Sheldrake. A trama da vida, p. 250.