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sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Ainda sobre os Pentecostais

 Ainda sobre os Pentecostais

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

Escrevi recentemente aqui no Face reagindo às palavras de Leonardo Boff a respeito da presença dos neo-pentecostais no Brasil, particularmente nas eleições que se aproximam. Dentre os comentários que recebi, gostei da abordagem feita pelo amigo sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira. Ele mencionou, com razão, que na minha reflexão elenquei reflexões provenientes de artigos mais antigos, o que tem razão. Fui então buscar novos elementos em reflexões mais recentes e percebi que por parte de autores sérios, a perspectiva não tinha se alterado substancialmente.

 

Vejo que trabalhos importantes continuam sendo feitos por autores como Regina Novaes e Ronaldo de Almeida, bem como as reflexões do pessoal do ISER, no Rio de Janeiro. É o caso de Ana Carolina Evangelista, pesquisadora naquela ONG. Li com carinho o seu artigo: Desvendando o voto evangélico. Ela nos chama a atenção para um detalhe nem sempre percebido. Não há como pensar que todo o bloco evangélico voto como se fosse um rebanho. É uma visão curta e problemática. Diante da orientação de um pastor, não significa que todos os que participam de sua comunidade partilhem de sua influência, embora esta não seja negada. Algumas igrejas em particular, como as Assembleias de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus, como mostra a autora, vêm se organizando para firmar presença de candidatos definidos pelas lideranças dessas igrejas. 

 

Não se pode negar o “ativismo de fé” exercido pelos pentecostais , também fora dos templos. É de impressionar a estratégia adotada por segmentos dessas igrejas em ocupar cargos importantes no governo federal atual: Ministério da Mulher, Casa Civil, Advocacia Geral da União, Ministério do Turismo e Secretaria do Governo. Os dados estão aí para comprovar. A busca de um alinhamento religioso dos setores conservadores está em curso, mas não envolve apenas o mundo evangélico, mas também o católico, não nos esqueçamos disso. O importante é entender claramente que não há voto homogêneo no campo evangélico, e isso a Ana Carolina mostrou com pertinência.

 

As pesquisas realizadas pelo antropólogo da Unicamp, Ronaldo de Almeida, indicam que além da visibilidade da presença evangélica no Congresso Nacional, temos também hoje o crescimento de presença católica conservadora, de parlamentares vinculados à Renovação Carismática Católica. Ele lembra também que começam a se articular os núcleos de parlamentares com ligação com a matriz afro-brasileira, com a irradiação da Frente Parlamentar dos Terreiros. É uma frente nova e importante, com um trabalho significativo voltado para reagir às ações violentas hoje em curso no Brasil contra o povo de santo, o que envolve também a violência dos chamados “traficantes evangélicos”.

 

Não podemos desconhecer, lembra Ronaldo de Almeida, que o “campo dito progressista” procura ganhar espaço no mundo legislativo, embora com menos visibilidade e amplitude, mas com presença importante de resistência contra os conservadores. Veja o seu artigo: Religião e política (em parceria com Clayton Guerreiro - 2022).

 

 

Segundo pesquisa recente do Datafolha, verificamos que o desempenho de Lula entre os evangélicos de baixa renda ainda é frágil, embora os dados apontem um “empate técnico” entre ele e Bolsonaro no apoio desses segmentos evangélicos mais pobres. É o que não ocorre entre os eleitores evangélicos de renda média e alta, onde o apoio a Bolsonaro é maior.

 

Li também com grande interesse o livro publicado por Christina Vital da Cunha, Oração de traficante(Garamond/Faperj, 2015), onde ela divulga os dados de sua longa pesquisa realizada por mais de 13 anos no conjunto de favelas de Acari (Rio de Janeiro).

 

Num dos capítulos de seu livro, ela fala da importância que as igrejas pentecostais exercem no campo da afirmação da cidadania dos pobres. Fala, por exemplo, do significativo empenho em favor do lazer, com as inúmeras atividades exercidas para as crianças, jovens e adultos. Fala também da “preservação de redes de solidariedade”, bem como dos mecanismos implementados em favor da preservação e cuidado com a segurança dos fiéis, num território marcado por um quadro de viva insegurança.

 

O autora toca igualmente no tema da teologia da prosperidade, objeto de tantos questionamentos. Ela sinaliza que esta teologia serve, muitas vezes, como artimanha de socorro aos pentecostais, pensando aqui em particular na Igreja Universal. Segundo Christina, essa teologia é responsável por grande motivação dos frequentadores dos cultos, sendo fundamental para “o enfrentamento de problemas emocionais, materiais e/ou espirituais”. 

 

Christina desenvolve também na sua obra a delicada questão dos traficantes e evangélicos. Sublinha que nas favelas, em áreas de presença do tráfico, os evangélicos são muito respeitados. Eles “desfrutam de um lugar privilegiado no imaginário local”. As lideranças evangélica são respeitadas entre os traficantes, por serem “identificadas como portadoras de um poder” e “mediadoras privilegiadas de uma mensagem”. 

 

E houve mudanças importantes com respeito ao posicionamento religioso dos traficantes nas favelas cariocas. Se antes eles se identificavam mais com as religiões de matriz africana (décadas de 1980 e 1990), hoje a situação mudou drasticamente, com a transferência de influxo para as igrejas pentecostais e neo-pentecostais. Hoje verificamos, com tristeza, a prática recorrente de “destruição” das imagens e símbolos identificados com a matriz afro e sua substituição por símbolos evangélicos: imagens de Jesus Cristo. 

 

Os convertidos evangélicos falam que sentem agora um clima de maior paz e segurança: de tranquilidade vivida na favela. Quando a autora fala em “traficantes evangélicos” ela quer falar do “conjunto de atores sociais, os traficantes, que estabelecem com a religião evangélica e com as redes que as compõem no território múltiplas formas de aproximação/relação”. São núcleos que frequentam os cultos, participam das campanhas das igrejas, financiam eventos programados pelas igrejas, promovem cultos de ação de graça, pintam muros com mensagens evangélicas etc.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Jesus e as outras religiões

 Jesus e as outras religiões

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

Sou um profundo admirador do papa Francisco, todos sabem. Semanalmente posto mensagens suas, seja as da Audiência Geral, como a Angelus. Suas palavra encantam e provocam: trazem um sentido de vida que é simplesmente fantástico.

 

No campo do diálogo com as religiões, há momentos ricos em reflexões tecidas ao longo do seu pontificado.

 

Ontem, 21/08/22, porém, ele marcou presença numa perspectiva mais tímida, se pensarmos no desafio da abertura inter-religiosa. Sua fala no Angelus provoca dificuldades para os que trabalhamos com o tema do diálogo inter-religioso. Se for entendida como uma mensagem específica para os cristão, é possível celebrar sua fala, mas como a mensagem teve um tom universalista, já tendo a discordar, com todo o respeito. A reflexão é a seguinte:

 

"Pensemos então em quando Jesus diz: ´Eu sou a porta: se alguém entrar por mim, será salvo` (Jo 10, 9). Significa que para entrar na vida de Deus, na salvação, é preciso passar por Ele, e não por outro, por Ele; acolher a Ele e à sua Palavra. Assim como para entrar na cidade era preciso ´medir-se` com a única porta estreita deixada aberta, também aquela do cristão é uma vida ´à medida de Cristo`, fundada e modelada n’Ele. Significa que a medida é Jesus e o seu Evangelho: não o que pensamos, mas o que Ele nos diz."

 

Vejo como algo extremamente complicado nesse tempo de pluralismo religioso dizer, sem mais, que "para entrar na vida de Deus, na salvação, é preciso passar por Ele, e não por outro". A frase, dita assim, sem um traço de maior precisão, acaba sendo ofensiva para com as outras religiões não cristãs. O cristão, sim, pode dizer que para ele, Jesus é o horizonte fundamental de referência para o acesso a Deus, mas não estender essa perspectiva universalmente para todos os outros crentes.

 

O meu orientador de pós-doutorado, o jesuíta Jacques Dupuis, dizia em sua obra fundamental, "Rumo a uma teologia cristã das religiões" (1997), que não se pode entender Jesus como "absoluto", e muito menos o cristianismo como único caminho de salvação. O atributo "Absoluto" só pode ser aplicado a Deus, à Realidade última. Deus, como Ser Infinito, está para além de toda realidade finita, incluindo aqui "a existência humana do Filho-de-Deus-feito-homem". Não se pode, portanto, atribuir a Jesus o qualificativo de salvador absoluto.

 

Outro jesuíta que trabalhou com pertinência essa delicada questão foi Roger Haight, em seu livro "Jesus símbolo de Deus" (2003). Haight pontua que aqueles que não conseguem "reconhecer a verdade salvífica de outras religiões podem implicitamente estar operando com uma concepção de Deus distante da criação". Isso é muito sério e exige de nós um olhar mais ampliado e respeitoso a propósito de outros caminhos de busca religiosa. Segundo Haight, "Jesus não é constitutivo da salvação em termos universais".

 

Hoje sabemos com clareza teológica que o pluralismo religioso deve ser abraçado como um valor essencial. Sabemos também que nenhuma religião específica detém o primado da salvação, e que toda tradição religiosa, incluindo o cristianismo, é capaz "de aprender mais acerca da realidade última e da existência humana do que se acha disponível em uma única tradição". Há que ter muita humildade nesse campo. Entender também que não se "perde" passos da densidade salvífica quando se reconhece autenticamente a presença de Deus, de outras formas, nas outras religiões. Caso contrário, estimula-se não a comunhão mas a competição entre as religiões. 

 

Há que reconhecer hoje, com nitidez, que em determinadas tradições religiosas, Jesus não aparece como "o" caminho, na medida em que o Mistério Maior Inominado manifesta-se por outras formas e mediações. Reduzir todo o espaço salvífico em Jesus é, a meu ver, restringir o campo da salvação. Os amigos de outras tradições religiosas são capazes de responder ao Mistério Maior na prática mesmo de suas tradições, com as mediações específicas que ali são reconhecidas e validadas.

 

O mesmo vale para a igreja. Não se pode considerá-la, sem mais, como "sacramento universal da salvação". É outro equívoco. O fato dela ser "sacramento do Reino" não implica - como diz Dupuis - necessariamente que ela “exerça uma atividade de mediação universal da graça em favor dos membros das outras tradições religiosas que entraram no Reino de Deus respondendo ao convite de Deus pela fé e pelo amor".

 

sábado, 20 de agosto de 2022

Amor à flor da pele - Filmes em Perspectiva

 Amor à flor da pele - Filmes em Perspectiva – 17/08/2022

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

Fui tocado de forma muita particular por esse filme do cineasta chinês de Honk Kong, Wong Kar-Wai: Amor à flor da pele (Fa Yeung Nin Wa – In the Mood for Love). Trata-se do sétimo longa metragem desse importante diretor, que integra o movimento chamado de Segunda Nova Onda do Cinema de Hong Kong. Além dessa obra prima, o cineasta fez ainda outros trabalhos importantes como: Amores expressos (1994), Anjos Caídos (1995),  Felizes Juntos (1997) e Cinzas do Passado (2009).

 

Saiu no Brasil com o título de Amor à flor da pele, com data de 2000. O filme ganhou em Cannes o prêmio de melhor ator (Tony Leung Chiu Wai), bem como o Technical Grand Prize (pela edição e fotografia). Numa tradução mais fiel ao original mandarim, o título poderia ser algo como Anos com flores. Com base na tradução inglesa, o mais preciso seria Clima de amor. As filmagens, realizadas em película, duraram 15 meses.

 

Destaco algumas coisas que em particular me tocaram. Começo pelos  dois lindos intérpretes, movidos por delicadeza impecável: Su Li-Zhen (no papel de Chan) e Tony Leung Chiu Wai (no papel de Chow). 

 

Maravilhosa também a trilha sonora, em particular a canção de Shigeru Umebayashi, Yumeji´s Theme, com o diálogo exemplar de violinos e violoncelos, que dão um toque de sensualidade e neblina. Admiráveis também as interpretações de Nat King Cole: Aquellos ojos verdes, Quizas, quizas, quizas, Te quiero Dijiste. Há também as composições de Michael Galasso: Angkok what Theme Finale e Blue.

 

A fotografia de Christopher Doyle, retomada depois por Mark Lee Ping Bin nos últimos meses de filmagem, revela-se  igualmente preciosa: num jogo de cores que transita de um verde singular em contraponto com um vermelho vivo. Fiquei muito impressionado com a dança da fumaça que escorria fluida do intérprete principal em vários trechos do filme, expressando um cuidado particular, e indicando, talvez, a fragilidade e a contingência da passagem do tempo.

 

O zelo com o figurino dos dois intérpretes principais, assinados por William Chang, é também um traço importante a se destacar. Como sublinha Dalmo de Oliveira Souza e Silva em análise minuciosa, “a câmara segue a Sra. Chan a cada plano revelando suas formas, seu caminhar e sua feminilidade – como se o desejo do Sr. Chow estivesse na lente. A visão da bela mulher caminhando, suas costas, seu vestido justo (...) é sem dúvida, um plano lírico”[1]. Os vestidos da atriz são simplesmente maravilhosos: nos fazem pensar na música de Fito Paes: Un vestido y un amor:  “Só tinhas um vestido e um amor... E eu simplesmente te vi”.

 

O filme se passa em Hong Kong, em 1962, num período que coincide com o auge da Revolução Cultural na China de Mao Tse Tung, quando importantes transformações políticas e sociais ocorreram no país, com impactos precisos nas vidas das famílias. Foi um tempo de muita movimentação de pessoas e também de contenção de despesas, quando muitos tiveram que dividir sua moradia com outras famílias. Isto se vê claramente no filme.

 

O cenário apresentado é muito marcado pelos espaços apertados, num clima claramente claustrofóbico. O encontro dos dois personagens ocorre no momento em que buscam residência num apartamento de subúrbio, e alugam dois quartos contíguos para acolher os cônjuges. São quartos pequenos e sem muita privacidade. A Sra. Chan e o Sr. Chow acabam se aproximando, sem imaginar, a princípio, que seus cônjuges  estivessem vivendo uma experiência amorosa, que na sequência descobrirão:

 

“Naquele prédio, homem e mulher se tornam próximos pela dor e, ao mesmo tempo, estão separados pelas convenções morais, afinal, eles são casados. Da condição de traídos, gradativamente, tomam ações de traidores (sem a consumação do fato). Assombrados pelo pejo, os traídos/traidores resistem em assumir aquilo que um sente pelo outro – o roteiro do filme dá ênfase à situação”[2].

 

Na visão de Ayelen Indra Lago, em sua resenha[3], o filme traduz um sentimento: “delicado e suave como um beijo de despedida”. Toda a movimentação da película é marcada por delicadeza: câmara lenta e tons avermelhados. A atmosfera é tecida por planos curtos. O traço sensorial do filme é como uma “carícia tímida”. Os momentos de maior aproximação são poucos: reduzidos a tímidos toques de mãos.

 

Leung e Cheung fazem um par singular, completam-se, irradiando uma ternura única: conseguem transmitir para os que assistem o filme uma “delicadeza do não toque, ou do quase toque”, que pontuam calor e sentimento. No percurso dos encontros, o jogo singelo de expressões e comportamentos simples. Tudo, porém, regado igualmente por muito silêncio. O desejo se manifesta num sentir que transborda cada olhar, e o diretor consegue transmitir tudo isso também no que ali “se cala”. Evitam a transgressão para não repetir o equívoco dos cônjuges, mas o fazem com muita dor. 

 

O cenário é incômodo, com corredores e escada apertados, lugares entulhados, que aproximam os personagens de forma difícil: A vizinhança se torna inevitável, num ambiente claustrofóbico: “Sempre é um bom dia para ir comprar macarrão ou ir ao cinema e sair do confinamento, sempre é bom colocar um vestido bonito, se encontrar e dividir (...). Os vizinhos são um ruído constante, às vezes uma interrupção justa, como esse lamento de solidão, e outras vezes incômodo como as leis morais da sociedade”[4].

 

Como assinalou Rodrigo Rodrigues, “o diretor criou, de maneira delicada como de praxe, um manifesto de amor, o desejo de expor seus sentimentos diante da paixão ao lado, mas magistralmente velados, contidos e proibidos”. Os dois vivem num “ambiente em que se sentem enclausurados, mesmo estando tão próximos”[5].

 

No filme, há pouco diálogo e muito sentimento: “Os protagonistas esperam, escutam e dizem o necessário”. Os dois vizinhos vivem um momento particular de dor, com o distanciamento de seus cônjuges, que em verdade vivem um romance. Eles aparecem como neblinas, sempre fora do quadro. Nós espectadores não conseguimos conhecer suas faces, e toda a concentração do diretor está fixada no casal principal.

 

Eles evitam a aproximação maior: não querem ser como seus companheiros... O que assistimos, em verdade, é a força do instante de um encontro, de sinceridade e cumplicidade, de um “silêncio compartilhado e inesperado”. O amor estava ali, tão próximo, detrás da parede do quarto, detrás da traição. Tão próximo e tão longe, “Como se a aproximação inevitável fosse uma penitência”.

 

A verdade, expressa por Leung ao final do filme, está contida naquele oco das ruínas no Camboja, onde ele traduz no pequeno buraco o sentimento guardado, repetindo um gesto tradicional presente em sua memória.  O segredo ficou ali ficou contido e tapado com lama e folhagem.

 

Estamos diante de algo que é mais que um filme, mas um sentimento, a gana do amor interrompido: “Cada cena, cada plano é um intenso sentir. O tempo se congela, as vozes estão em planos distantes, nada importa mais que o amor. Está aí a semelhança com a própria vida”[6]. Ele porém se estanca... Em sua fragilidade, transborda em cada olhar numa chamada silenciosa.

 

Como bem sublinhou Isadora Sinay, há no filme um brilhante jogo entre imagem, música e interpretações, presencializando um exemplo fantástico de linguagem cinematográfica[7]. Fica para o expectador, ao final do espetáculo, a sensação de que o passado é fugidio, algo que não se pode tocar, e que se borra indistintamente quando focado pelo olhar.

 



[1]Dalmo de Oliveira Souza e Silva. Sob o signo do silêncio no amor à flor da pele. XII EHA – Encontro de história da arte, UNICAMP:

https://www.ifch.unicamp.br/eha/atas/2017/Dalmo%20de%20Oliveira%20Souza%20e%20Silva.pdf(acesso em 25/08/2022).

[2]Ibidem.

[3]Ayelen Indra Lago. Um filme, um sentimento: In the Mood for Love, Wong Kar Wai (2001). R.Nott Magazine, 19/03/2021:

https://rnottmagazine.com/blog/2021/03/19/um-filme-um-sentimento-in-the-mood-for-love-wong-kar-wai-2000/(acesso em 25/08/2025).

[4]Ibidem.

[5]Rodrigo Rodrigues. Amor à flor da pele. Maxiverso, 04/07/2021:

https://maxiverso.com.br/blog/2021/07/14/critica-amor-a-flor-da-pele-in-the-mood-for-love/(acesso em 25/08/2022).

 

[6]Ayelen Indra Lago. Um filme, um sentimento.

[7]Isadora Sinay. Crítica – Amor à flor da pele. Vortex Cultural, 08/06/2012:

https://vortexcultural.com.br/cinema/critica-amor-a-flor-da-pele/(acesso em 25/08/2022).

 

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Sobre o amor

 Sobre o amor

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

No percurso de minhas leituras sobre o Grande Sertão: Veredas, uma questão que brotou nas minhas reflexões envolveu a temática do amor. Foram raras as obras que suscitaram tantas meditações sobre o tema. Esta foi, certamente, uma delas. Com a preciosa ajuda do livro de Kathrin Rosenfield, Os descaminhos do demo[1](Imago/Edusp, 1993), fui tomando ciência da experiência de Diadorim, que segundo a autora, “nunca manifesta um amor feminino ou sensual” por Riobaldo. Vemos, sim, pistas de sua feminilidade ao longo do livro, mas não um amor que visaria um “corpo sexuado”. Em mais de uma vez, ele manifesta a Riobaldo o desejo de ser apenas amigo ou parente. É alguém que “evita a necessidade de dar forma e significado ao seu amor através da palavra ou do gesto que afirma ou nega simbolicamente a dimensão física e sexual do amor”[2]. Num mundo jagunço marcado pelo machismo incontestável, Diadorim se protege, evitando o ciúme e a violência. 

 

A trilha aberta pela interpretação de Kathrin, ajudou-me a trabalhar outras questões ligadas ao tema. Foi importante para lidar com a questão do amor maduro, que vivo agora nos meus 68 anos de idade. Revendo a letra da canção de Gilberto Gil, A faca e o queijo, de 1995[3], vejo uma bonita identificação. Ajuda a entender as mudanças que sofrem a vida amorosa, quando a “chama da paixão” vem temperada pelo amor sereno e delicado. Isto é estar diante do que Gil chama de transformações do amor, quando as mãos ganham um jeito novo e peculiar de lidar com o outro. Tornam-se mais sutis, garantida agora por “novos desejos”; também os beijos ganham um tom mais azul e menos carmim. Estamos diante de uma letra poderosa para ilustrar o amor maduro.

 

Em seu aprendizado amoroso, Gil conseguiu uma ampliação do olhar com a ajuda de Caetano Veloso, que o favoreceu captar “o traço feminino como complementação do masculino”. Foi o bonito aprendizado “de uma arte e de uma cultura mais doce, o mundo de ternura e leveza”. Vemos isso com muita clareza na canção Super Homem, de 1979[4]. É quando Gil expressa o traço de sua “porção mulher”, até então resguardada, e assinala que ela é o que de melhor traz em si e o ajuda a viver com esse amplo horizonte que assistimos em suas canções e em sua presença no tempo.

 

Numa bonita canção de Caetano Veloso, Tiranizar, musicada por César Mendes, ele toca no tema do amor, sinalizando a importância do respeito e liberdade que a vida em comum supõe. A garantia de um amor profundo está na capacidade que ele tem de gerar respeito, confiança, delicadeza. O amor não pode frutificar num ambiente nocivo de controle e ciúme. Diz Caetano na letra, que quando o amor vem construído na prisão, ele já começa a fenecer, se, ao contrário, vem regado com a liberdade, tem muita chance de durar: “Me deixe solto e eu sou todo seu”.

 

Num livro precioso de Lya Luft, Mar de dentro(ARX, 2002), ela sublinha que há um “espaço de silêncio intransponível mesmo nos mais íntimos amores”[5]. Nas famosas Cartas a um jovem poeta, Rilke assinala que muitos jovens acabam tropeçando no amor por não respeitarem esse espaço de silêncio e solidão que habita o mundo do parceiro[6]. O amor, segundo o poeta, vem resguardado quando se respeita esse limite do outro e o espaço de sua solidão vem acolhido e saudado. Na visão de Rilke, “o amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer”. Ele requer momentos preciosos de solidão e de respeito à impermeável alteridade. O poeta sublinha que o amor entre duas pessoas constitui “a tarefa mais difícil”, mas também mais nobre, desde que se respeite o espaço do outro. Diante desta tarefa, “todas as outras são apenas uma preparação”[7].

 

O amor requer o respeito profundo ao “mundo interior” do outro, a paciência nobre de entender a complexidade e mistério que habitam a alteridade. Em outra obra importante, Elegias de Duíno, Rilke fala do complexo mundo dos amantes, que junto com as crianças e os moribundos, são os que mais se aproximam do Aberto e do espaço puro. Através do gozo, eles conseguem atingir quase o ápice da felicidade, mas como tudo que é humano, eles acabam retornando do gozo ao tempo, por receio a um “estado de graça” inalcançável. Vislumbra-se o “espaço livre”, mas o temor ou o limite acendem as luzes de alerta, e se escapa ao passo maravilhoso do desabrochar das flores. Os amantes chegam a participar, por aproximação, da dinâmica do inefável: eles sentem “a obscura presença e se espantam”[8].

 

Todas essas questões vêm acompanhando minha jornada, seja na forma de meditação pessoal, seja no encontro com os amigos, nas conversas com minha companheira querida, ou nos cursos que venho ministrando sobre Rosa e Clarice Lispector. Num bonito texto que li no dia 13 de agosto, de autoria de Pedro Mairal[9](FSP), ele faz uma comparação do amor com os acordes da música. Diz que às vezes temos a grande sorte de encontrar uma rica “sucessão de acordes”. Não estamos livres das notas dissonantes, dos conflitos e tensões que marcam qualquer relação. Mas se esta vem pontuada pelo cuidado e delicadeza, há maiores chances de provocar alegria e fruição. 

 

Como mostra Mairal, “somos uma sucessão de acordes bem encaixados, que combina harmoniosamente as tensões, as surpresas, a satisfação do já conhecido, a variações. Funcionam bem”. Isso não acontece, assim, de repente, mas leva tempo e requer maturidade. Ninguém está protegido dos “momentos obscuros” ou “acordes menores e tristes”. Eles também fazem parte da sinfonia da vida, mas podem passar e revelar o outro lado da musicalidade, numa linda sequência de acordes novidadeiros. O autor nos adverte para estar atento ao andar na rua e não observar apenas as demolições em curso, mas captar igualmente as construções que vão se operando. É também muito bonito, continua ele, poder verificar o “esforço gradual” que acompanha a dinâmica de escorar aquilo que cresce aos poucos, e que é musical.

 

Toda essa dinâmica reflexiva que me habita no momento tem também a ver com o meu olhar sobre o mundo circundante. Tenho visto e em alguns casos acompanhado muitos casais que estão passando por crises no relacionamento, o que me entristece muito. Tive a sorte e a alegria de ter encontrado uma companheira no meu caminho que foi sempre apoio, presença, delicadeza e incentivo. São já quase 45 anos de união que se recria a cada dia, no respeito e na amizade. Vejo, porém, que relações assim são hoje exceção e não regra. 

 

Acho que com minha experiência e vontade posso dar uma contribuição importante nesse campo para muitas pessoas queridas da minha convivência e que passam por situações dolorosas. Lendo hoje o jornal O Globo, deparei-me com uma bonita entrevista de Maria Fortuna com o ator Caio Blat[10]. O ator e Luisa Arraes fazem um par bem interessante, com uma escolha relacional inovadora. Pude conhecer os dois na peça de Bia Lessa: Grande Sertão: Veredas. Fiquei tão comovido e impressionado com o espetáculo, que assisti três vezes. Os dois agora darão continuidade ao mesmo tema em filme que deverá sair em breve. 

 

Caio Blat estará também atuando na próxima novela das seis, Mar do sertão, cujo tema promete. Em sua entrevista, Caio comenta o novo filme em que ele estreia na direção, O debate, que conta com a presença de dois atores experientes: Debora Bloch e Paulo Betti. Os dois vivem a experiência de um casal que ama, mas que depois de 17 anos de casados resolvem se separar. Foi um processo difícil, como indica o roteiro. Eles resolvem romper a aliança “não sem antes expor as entranhas divergindo sobre monogamia, sexo, desejo, ciúme e liberdade”. A separação ocorre num clima de respeito mútuo, com maturidade e afeto. Bem diferente do que costuma ocorrer nesses casos, quando a separação vem acompanhada de raiva ou mesmo ódio, e as pessoas envolvidas acabam perdendo a sanidade. Caio Blat se inspirou em Domingos de Oliveira, que viveu recentemente as dores de uma separação.

 

Conforme expressou o ator, esse tempo da pandemia foi também um tempo difícil para os casais. Ele diz: “Perdemos a capacidade de ouvir o outro. Famílias brigaram, casais se separaram. O diálogo se rompeu na política e nos relacionamentos”. Atento aos novos tempos e também ao risco do esgarçamento nas relações, Caio Blat buscou junto com Luisa Arraes, sua companheira, um caminho diferente, que me faz lembrar Sartre e Simone de Beauvoir. Cada um tem seu apartamento próprio, no mesmo andar do edifício. Os dois moram “porta com porta” em um prédio da Zona Sul do Rio. Estão divididos apenas por um corredor, e “as portas vivem abertas, mas quando o bicho pega, cada um vai para o seu canto. Para evitar climão, eles mantêm diálogo franco e reveem acordos com frequência”. Busca-se respeitar o momento singular e o espaço de cada um, sem querer uma “fusão” que ofusque as identidades. Como ele assinala: “A gente ajusta de acordo com o momento, encontrando a liberdade e o desejo de cada um”.

 

Cada casal deve encontrar o seu melhor caminho, no respeito da companheira ou companheiro. E o que é muito importante: evitar deixar que o “vapor do mal” tome conta da relação. É sempre bom prevenir as situações mais difíceis com conversas maduras. E seguir sempre o sábio conselho de santo Inácio: nunca decidir abruptamente nos momentos de maior paixão. Os místicos sempre aconselham o caminho da paciência e da temperança. São conselhos sábios, de quem passou muito tempo trabalhando o mundo interior. 

 

O mestre vietnamita Tich Nhat Hanh, em seu livro Paz a cada passo(Rocco, 1993) alerta-nos para o risco das “formações internas” que podem nascer e crescer quando não abrimos espaços para a auto-crítica. Devemos evitar o máximo que “nós” interiores se firmem, provocando tumultos perigosos para o desenvolvimento de qualquer relação ou diálogo. Há que saber, diuturnamente, desatar nós, e isto pode ocorrer com um ritmo diferente na relação: de acolhida, gentileza, generosidade e cortesia. Não é difícil buscar esse equilíbrio interior e na relação. Diz o monge budista que “se não desfizermos esses nós enquanto eles estão se formando, eles ficarão cada vez mais fortes e apertados”[11].

 

 

 

 

 

 



[1]Kathrin H. Rosenfield. Os descaminhos do demo. Tradição e ruptura em Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro / São Paulo: Imago, 1993.

[2]Ibidem, p. 97.

[3]Carlos Rennó (Org.). Gilberto Gil. Todas as letras. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 433.

[4]Ibidem, p. 266 e 268.

[5]Lya Luft. Mar de dentro. 3 ed. São Paulo: ARX, 2002, p. 30.

[6]Rainer Maria Rilke. Cartas a um jovem poeta. 4 ed. São Paulo: Globo, 2013, p. 56.

[7]Ibidem, p. 54-55.

[8]Rainer Maria Rilke. Elegias de Duíno. 6 ed. São Paulo: Globo, 2013, p. 69.

[9]Pedro Mairal. Nosso estranho amor. O Globo, 13/08/2022.

[10]Maria Fortuna. “Perdemos a capacidade de ouvir o outro”. O Globo, 16/08/2022. Segundo Caderno, p. 1 e 3.

[11]Thich Nhat Hanh. Paz a cada passo. Como manter a mente desperta em seu dia-a-dia. 3 ed.  Rio de Janeiro: Rocco, 1996, p. 87-88.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Uma festa da amizade

 Uma festa da amizade – Juiz de Fora, julho de 2022 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

Estar aqui na Faixa de Gaia, em Juiz de Fora, com esta gente querida provoca em mim uma emoção oceânica. Passamos juntos nesta tremenda pandemia fazendo das coisas mais bonitas que é debater literatura. O caminho escolhido não podia ser melhor: Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Com esses dois mestres da reflexão pudemos mergulhar no vasto oceano do real, debatendo temas que são essenciais e muitas vezes esquecidos: o mergulho interior, a ambiguidade do humano, a maldade que nos abate, os enigmas das relações, o chamado ancestral.

 

As aulas seguiam-se de aprofundamentos no grupo menor, que se reunia on-line depois da reflexão e então começava um momento bonito de trocas, de intimidade, de abertura do coração e de fortalecimento de uma amizade com gente bonita de todo lugar. Muito comovente para mim ter vivido esses momentos tão especiais. Vejo hoje com clareza que pude crescer interiormente nessa troca singela, gratuita e desarmada. 

 

Todos sabemos que vivemos tempos bicudos, de fechamentos identitários e fundamentalismos que graçam por todo canto. Construímos nos debates diques de fraternidade e amor, “gestos barreira”, como diz Latour. Que alegria ver os rostos de cada um, numa simpatia contagiante, numa sede de entendimento que ultrapassou o mero interesse acadêmico. Era um encontro de amigos que se abriam, que ousaram partilhar santuários de reflexões que não ocorrem no cotidiano normal.

 

Não era só sede de conhecimento ou ânsia de penetrar em domínios difíceis, era também vontade de estar junto, de sorrir em comum, de partilhar dores, às vezes profundas, apoiar-se mutuante, tudo suscitado pelas aulas semanais. Criamos um bonito “aparelho de conversa”, onde cada palavra, gesto, silêncio ocupavam o seu lugar de reverência e acolhida. 

 

Sim, acolhida, talvez tenha sido o mais bonito que aconteceu nessa ciranda que nos motivou a viver em profundidade uma amizade singular. 

 

Ao longo desse tempo de vivência comum, mesmo à distância, pude ganhar o impulso para refletir temas de profundidade inaudita; também a coragem para partilhar sentimentos e ideias nas redes comuns, coisa que não é fácil. 

 

Sinto que cresci nestes tempos de partilha e comunhão. Saio fortalecido para adentrar-me em veredas complexas, delicadas e difíceis. No grupo encontrei o importante apoio para aventurar-me em searas complicadas e resistentes, buscando vencer ou, pelo menos, lidar com as barreiras quase intransponíveis dos nefastos identitarismos.

 

Agradeço de coração a todas e todos queridos que estão aqui, ou aqueles que nos acompanharam generosamente nesta viagem de vida, mas não puderam estar conosco nestes dois dias maravilhosos. Sairei, certamente, com o brilho do olhar de cada um de vocês, desta vez podendo penetrar com mais beleza no mundo interior de cada um... e poder abraçar, dar as mãos, tão lembradas nos nossos cursos, e ver com a ocular sedenta, que cada um existe de fato, com a vocação de fazer a vida cada vez mais bela, acreditando que um novo mundo é possível, apesar de.

 

Relendo aqui as contribuições de todos que enviaram seus textos ecoando a riqueza da experiências desses anos, fiquei realmente emocionado. Nos dois dias em que estivemos juntos em Juiz de Fora, pudemos sorver que emoção cada palavra das mensagens redigidas pelos participantes das aulas. 

 

Alguns disseram que com todo o saldo negativo da pandemia, os encontros semanais proporcionavam um saldo de alegria e um caminho profundo para reflexões vitais. Disseram que com Clarice visitaram a Cidade Sitiada, e beberam também com emoção da Água Viva. A cada encontro um “novo acorde” para tecer a canção do amor, da fraternidade, da solidariedade, da hospitalidade e da delicadeza. 

 

As palavra de Clarice e Rosa eram música para o coração; palavras que teciam instantes mágicos de olhares sedentos. Alguém lembrou que a inquietude de Clarice contaminou a peregrinação, ecoando viva nos corações. A partir dos encontros, tudo virou motivo de atenção: os mínimos detalhes, nos sons da natureza, dos animais e das plantas. 

 

Durante os cursos, estávamos distantes, mas no encontro de Juiz de Fora, os corações ganharam uma proximidade inusitada, calorosa, vibrante... “Amizades e carinhos, distantes em quilometragem da Terra, mas perto, tão perto que operaram mudanças” nas agendas de cada um. Foi mesmo um “bálsamo” na vida de todos... tudo sendo pacientemente preparado nas aulas semanais e nos debates que se seguiam no grupo menor: foi “uma acolhedora companhia no isolamento social”; “momentos de leveza e doçura no meio do turbilhão da vida”. 

 

Muitos relataram suas transformações pessoais aos longos desse tempo, desde 2020, quando os cursos começaram. Alguém disse que Rosa ajudou a entender o seu passado e ancestralidade. Ajudou a situar os sobrenomes que se firmaram nos campos gerais, a reconhecer com alegria a “linguagem mineira”. Disseram ainda que não foi o grupo que escolheu o livro, mas o livro que escolheu o grupo, tocando a alma de cada um. Sobre o Grande Sertão: Veredas, disseram que é um livro precioso, em que se retorna sempre nos momentos de precisão, nos instantes importantes da vida. Um livro que projeta luz e esperança. Sem que se perceba bem, ele irradia “veredas verdejantes” que desanuviam “as tensões dos dilemas da vida”. 

 

Alguém chegou a falar em “tsunami” na vida. Na companhia de Riobaldo e do compadre Quelemém, muitos foram se abrindo para uma espiritualidade plural, onde o coração é capaz de acolher muitos amores: “muita religião, seu moço!”. Fora mesmo encontros maravilhosos, que agora continuam com os contos de Rosa. Debatendo Rosa e Clarice, cada um pode partilhar a vida pulsando, a música tocando, o sol se pondo... E ao final, pudemos todos verificar com alegria, que a vida segue, apesar de, segue nos rastros da luz... O desafio estar em viver cada dia sem maiores preocupações, enfrentando com dignidade e altivez os problemas, e sabendo levantar com garbo a cada queda no caminho: “Cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta... O que a vida quer da gente é coragem”.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Viver na Presença, entre as coisas

Viver na Presença, entre as coisas

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

Numa das leituras da liturgia do dia 31 de julho de 2022  há uma passagem da carta de Paulo aos Colossenses que me fez refletir e discernir de modo crítico.

Dizia: "Aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres" (Cl 3,2)

No contexto da leitura podemos entender que o apóstolo fala das coisas negativas que estão ao nosso redor no tempo: "a imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça"

Vendo sob esse ângulo, podemos até entender. O perigo, porém, é cair no dualismo problemático que nos faz rechaçar o chamado da terra. Não acredito que devamos fazer morrer o que em nós pertence à terra. O que precisamos, sim, é saber reconhecer na Terra o bonito espaço da experiência de Deus, do Mistério ou do Nada, como nos dizem os budistas e místicos.

Teilhard de Chardin, em seu Meio Divino, fala-nos da importância da educação do olhar: saber ver[1]. O místico nos convoca a perceber com serenidade que o grande Mistério "nos espera a cada instante da ação, na obra do momento"[2]

Na sua Missa sobre o Mundo, Teilhard agrade a Deus por conduzir seu olhar "à imensa simplicidade das coisas"[3], das coisas que estão aí, que tem seu grande valor em si, mas que podem também expressar as grandezas de Deus. De forma tão linda, ele diz que sobe para o Espírito que lhe sorri "vestido com o esplendor concreto do Universo"[4]. O místico jesuíta tinha uma simpatia profunda, irresistível, por tudo aquilo que se movia na matéria obscura[5].

Daí a beleza de, na contramão do problemático dualismo grego, recuperar a ideia de Diafania de Deus no universo, que possibilita perceber "na profundidade de todo fato e de todo elemento o calor luminoso de uma mesma Vida"[6]

A pureza, nos diz Teilhard, "não está na separação, mas numa penetração mais profunda no Universo". É preciso, diz ele, "ver, tocar, viver na presença, beber a existência quente no próprio seio da Realidade"[7].

Ainda tocado pela inconformidade da expressão paulina, recorri também a Rubem Alves, no lindo texto "Sobre Deuses e caquis"[8]. Para ele, a teologia "é uma brincadeira, parecida com o jogo encantado das contas de vidro"[9], como trabalhado por Hermann Hesse. 

Beleza é poder sentir com o "tremor na carne" quando nela acontece a magia da presença do poema. Não há como falar de Deus, nos lembra Rubem Alves, "mas podemos falar sobre as coisas humanas". A teologia não são senão "os poemas que tecemos como redes sobre a saudade de algo cujo nome esquecemos"[10].

Nós teólogos devemos ser contagiados pela humildade: não ser como o galo que imagina que com seu canto é que brota a verdade. Deus, em verdade, está muito além dos seus discursos movediços. Deus não é uma realidade "que muda de ideia ou muda de ser ao sabor das coisas que nós pensamos e dizemos"[11]. Deus é sempre maior, alertam-nos os místicos sufis.

Ainda com base no texto de Rubem Alves, sabemos que o que Deus mais admira é essa Terra. Citando Adélia Prado, Alves sublinha: "Depois da morte... eu vou querer o prato e a fome, um dia sem tomar banho, a gravata pro domingo de manhã... Quando eu ressuscitar, o que quero é a vida repetida sem o perigo da morte, os riscos todos, a garantia; de noite estaremos juntos, a camisa no portal. Descansaremos porque a sirene apita e temos que trabalhar, comer, passar dificuldades, com o temor de Deus, para ganhar o céu"[12]

 



[1]Pierre Teilhard de Chardin. O meio divino. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 33.

[2]Ibidem, p. 32.

[3]Pierre Teilhard de Chardin. Hino do universo.  São Paulo: Paulus, p. 27.

[4]  Ibidem, p. 29.

[5]Ibidem, p. 21.

[6]Ibidem, p. 29.

[7]Ibidem, p. 68.

[8]Rubem Alves. Sobre deuses e caquis. In: Edin Sued Abumnsur et alii. Sobre deuses e caquis.Teologia, política e poesia em Rubem Alves. Comunicações do ISER, n. 32, 1988.

[9]Rubem Alves. Sobre deuses e caquis, p. 10.

[10]Ibidem, p. 11.

[11]Ibidem, p. 13.

[12]Ibidem, p. 18.