quinta-feira, 23 de abril de 2020

Um mundo cindido pelo fogo do amor

Um mundo cindido pelo fogo do amor

Faustino Teixeira

Escrevi em meu blog um breve texto sobre os mistérios do amor. O texto foi também motivado pela segunda versão cinematográfica de Lolita, dirigido magnificamente por Adrian Lyne, com roteiro de Stephen Schiff, baseado no romance de Vladimir Nabokov. O filme é de 1997, a cores. Nos papeis principais, os atores Dominique Swain (Lolita) e Jeremy Irons (Humbert). Para coroar a beleza do filme, a trilha sonora de Ennio Morricone. 

Depois vi a primeira versão, mais antiga, de 1962, dirigida por Stanley Kubrick, em preto e branco. Além de Peter Sellers, temos no elenco James Mason (Hubert) e Sue Lyon (Lolita). O filme não tem a mesma pujança e sensibilidade da versão mais nova, mas algumas imagens são muito belas, envolvendo a personagem Lolita, cuja intérprete, aliás, foi indicada pelo próprio Nabokov. Ele dizia que Sue Lyon, na época com 14 anos, era a única que podia interpretar a personagem na telona. A cena inicial, com o professor Humbert pintando suas unhas, é de rara delicadeza; bem como a cena clássica de Lolita à beira da piscina, chupando pirulito, com óculos escuros. Vale lembrar que Sue Lyon foi premiada com o Globo de Ouro, como atriz revelação, por sua interpretação de Lolita. A artista faleceu recentemente, no final de dezembro de 2019. No ano de 1997, quando a nova versão de Lolita de Adrian Lynne estreou nos cinemas, Sue Lyon disse à Reuters: “Estou horrorizada com a ideia de que querem ressuscitar o filme que causou minha destruição como pessoa”.

Das cenas mais bonitas do filme na segunda versão é quando o professor Hubert revê Lolita para atender uma solicitação de ajuda financeira. Ele estava casada com outro homem e grávida. Quando os dois se encontram, destaca-se o olhar adolorado e singele dele para ela:

Eu a olhava intensamente
sabia, com tanta certeza
como sei que hei de morrer...
que a amava mais do que tudo
que eu jamais vira ou imaginara.
Ela era só o eco débil
da ninfeta de outros tempos...
mas eu a amava, esta Lolita
pálida e poluída...
grávida do filho de outro homem.
Ela podia fenecer, murchar...
não fazia diferença.
Ainda assim me inundaria
De ternura...
Sempre que lhe olhasse
o rosto.[1]

No livro, a passagem vem descrita com cores vivas por Nabokov:

“Para além do barranco de Bill, um rádio depois do expediente começara a cantar sobre o destino e a dor, e lá estava ela com a beleza arruinada e as estreitas mãos adultas de veias engrossadas, os braços brancos arrepiados, e as orelhas rasas, e as axilas malcuidadas, lá estava ela (minha Lolita!), definitivamente acabada aos dezessete anos, com aquele bebê que já sonhava dentro dela com um destino de ricaço e a aposentadoria lá por 2020 d.C. – e eu não conseguia parar de olhar para ela, e soube tão claramente como sei agora, que estou prestes a morrer, que a amava mais que tudo que já vi ou imaginei na Terra, ou esperei descobrir em qualquer outro lugar. Ela era só um eco de aroma tênue de violeta e folhas mortas da ninfeta sobre quem eu rolara no passado com tantos gritos; um eco à beira de uma ravina rubra, com um arvoredo esparso sob um céu branco, folhas castanhas entupindo o leito do riacho, e um último grilo perdido em meio à relva ressecada... mas graças a Deus não era só esse eco que eu adorava. O que antes eu acalentava nos cipós emaranhados do meu coração, mon grand pêche radieux, minguara de volta à sua essência: o vício estéril e egoísta, tudo aquilo eu cancelava e maldizia. Podem rir de mim, podem ameaçar esvaziar o tribunal, mas enquanto não me amordaçarem e garrotearem insistirei em proclamar minha pobre verdade. Faço questão de que o mundo saiba o quanto amei minha Lolita, aquela Lolita pálida e poluída e prenhe de um filho alheio, mas com os olhos ainda cinzentos, os cílios ainda fuliginosos, ainda acaju e amêndoa, ainda Carmencita, ainda minha; Changeons de vie, ma Carmen, allons vivre quelque part où nous ne serons jamais séparés; Ohio? As matas de Massachusetts? Não fazia diferença, mesmo que os olhos dela desbotassem transformando-se em peixes míopes, que seus mamilos inchassem e rachassem e seu jovem e delicado delta de veludo se corrompesse e se rasgasse – mesmo assim eu sempre enlouqueceria de ternura à mera visão de seu querido rosto muito branco, ao mero som de sua jovem e rouca, minha Lolita”.
(Vladimir NABOKOV. Lolita. Rio de Janeiro: Objetiva/Alfaguara, 2011, p. 323-324 – tradução de Sergio Flaksman)

Ele sugere então que ela o acompanhe, mas ela recusa. E sublinha com os “traços do rosto convulsionados”:  “Você é louco”. É quando então ele entrega um envelope com quatrocentos dólares em dinheiro, além de um cheque de mais três mil e seiscentos. Incerta, ela pega o envelope, e seu rosto “adquiriu um lindo matiz rosado”. O professor derramou-se em lágrimas, as mais quentes que jamais verteu. Foi quando ela tentou tocar o seu pulso e ele rechaçou:

“Se você me tocar eu morro”

Mais uma vez sugeriu que ela o acompanhasse e recebeu como resposta: “Não, meu amor, não”.

Citei esse última frase dele, pois me fez lembrar vivamente a expressão de Layla, ao se aproximar, finalmente, de Majnum no clássico romance de Nizami (século XII), Layla & Majnum. Layla interrompe sua caminhada em direção ao Amado. Seu corpo inteiro tremia e “parecia que ela estava profundamente enferma. Não mais que vinte passos separavam-na de seu amado, mas era como se um feiticeiro tivesse delineado um círculo mágico no chão cujo limite ela não deveria ultrapassar”.

O velho que a acompanhava, tentou conduzi-la pelo braço e ela recusou: “Nobre senhor, nem tão longe, mas nem tão perto. Agora sou igual a uma vela ardente; um passo mais perto do fogo e eu serei consumada completamente. A proximidade traz o desastre, pois os amantes só estão seguros separados”.  O amante, Majnum, permaneceu quieto sob a palmeira, totalmente pálido, “mirando com os olhos vidrados, as lágrimas escorrendo pelas faces”. 

A visão do filme sobre Lolita e a leitura de Nabokov fizeram-me lembrar desta passagem do livro de Nizami, que nunca mais deixou minha memória, provocando reflexões profundas sobre esse complexo mistério do amor.

.....


            











[1]No roteiro cinematográfico.

sábado, 11 de abril de 2020

Os mistérios do amor

Os mistérios do Amor

Faustino Teixeira


Tenho refletido muito esses tempos sobre o mistério do amor, de sua complexidade, mas também delicadeza; dos ritmos que marcam a sua narrativa; dos medos e riscos que envolvem sua tessitura. Ao longo de minhas reflexões, fui me deparando com rebentos que despertaram ainda mais forte a minha observação. 

Quando pesquisei sobre a mística de Gilberto Gil ganhei novos aprendizados, como o de estar atento para a dimensão feminina que nos habita. Observar com muita atenção o que está por trás dos dizeres de Gil quando sublinha que sua “porção mulher” é o que ele traz de melhor em si[1]. Ao explicar a canção, sinaliza que este aprendizado se deu com Caetano Veloso, do feminino como complementação do masculino. Falou que a mudança que ocorrera foi proporcionada por Caetano, com quem teve a felicidade de encontrar num “momento crucial” de sua vida. E diz Gil: “O mundo que aprendi com ele foi de uma arte e de uma cultura mais doce, o mundo de ternura e leveza”[2].

Essa mudança também se passou em mim, podendo perceber mais a fundo esta dimensão essencial do ser humano. Um jeito também feminino de olhar o mundo, com sua peculiar ternura e também cortesia e cuidado. No mesmo mundo de Gil aprendi tantas outras coisas, como igualmente algo de essencial: que o amor vai tomando formas distintas, mas igualmente belas. Refiro-me aqui ao influxo maravilhoso da canção, A faca e o queijo, de 1995, onde ele aborda as mudanças na experiência do amor:

E o amor produz transformações
A velha chama
Acende novas ilusões
Com mãos bem mais sutis
Novos desejos
Vão tornando nossos beijos
Mais azuis, menos carmins

Fui tocado pela força imagética desta letra, que me proporcionou vislumbrar com clareza singular esses toques de mudança na experiência que perdura, com igual maravilha, ainda que de forma mais distinta e sutil. Com sua arte, Gil foi indicando novas veredas, sinalizando que poesia “é leveza, é delicadeza, mesmo quando ela está falando do peso bruto, da brutalidade; porque ela quer fazer com que o pesado voe”[3].

Esse aprendizado com Gil foi para mim um REBENTO, no sentido que o próprio Gil confere à expressão, como tudo que nasce, que brota, que vinga e que medra. Rebento raro “como flor na pedra” e como o “trigo ao vento”[4].

Em seguida veio a experiência fortíssima da releitura do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, durante uma travessia do Oceano Atlântico. Foi uma leitura abissal, reveladora de horizontes impensados. Dali surgiu a ideia de um curso sobre o tema, que se realizou no segundo semestre de 2019, no programa de pós-graduação em ciência da religião da UFJF. Foram momentos de muita alegria, riqueza, descobertas, numa turma realmente especial.

Um dos temas recorrentes nos debates daquele semestre foi o amor entre Riobaldo e Diadorim. As discussões foram vivas, mas também difíceis. Pudemos verificar como nem tudo é tão simples no amor. Em torno dele podem se firmar também a violência, o ciúme doentio... e não sou poucos os casos de feminicídio ao nosso redor para exemplificar experiências doentias de amar. No livro de Guimarães Rosa, o personagem Diadorim busca todo o tempo se proteger do assédio de Riobaldo, mesmo tendo por ele um amor inesgotável. Como mostra Kathrin Rosenfield, “Diadorim nunca manifesta um amor feminino ou sensual que visaria no amigo um corpo sexuado, mas articula apenas saudades de parentesco”[5]. Na expressão de seu amor, resistente às relações eróticas evidentes, Diadorim evita dar forma e significação ao seu amor mediante a dimensão física e sexual. Com isso se protege e mantem acesa a amizade com seu grande amigo, Riobaldo.

O tema do amor volta à ribalta por ocasião da defesa doutoral de minha orientanda, Elisângela Alves, que trabalhou o tema do amor na poesia do místico nicaraguense Ernesto Cardenal. O poeta viveu permanentemente o drama de ter que escolher entre as muchachas e Deus. Este último acabou vencendo e as muchachas ficaram num segundo plano, se é possível falar assim. Cardenal optou por um “erotismo sem os sentidos”, mas em razão disto clama a Deus: “Me quitaste todo, dáteme todo pues”. 

Durante o debate na defesa, o professor Marcus Reis, da UFF, lança uma questão muito pertinente, em torno da “imaturidade” amorosa de Cardenal, incapaz de compreender que o verdadeiro amor perdura mesmo com o passar dos anos. Esta foi, segundo Marcus Reis, a ingenuidade de Cardenal em querer conquistar uma beleza pontuada unicamente pela juventude, um ser amoroso que não envelheça jamais. Na verdade, essa é uma ilusão, uma trápola em que caiu Cardenal. E ele reconhece, fazendo menção a um antigo epigrama, que entre Deus e ele, ele foi quem perdeu mais.

Por fim, ao ver recentemente o belíssimo filme Lolita, de Adrian Lyne, baseado no perturbador romance do escritor russo Vladimir Nabokov (1997), vejo o tema aflorar novamente, com uma perspectiva interessante. O tumultuado amor que une um professor de meia idade, Humbert, com uma ninfeta, Lolita. O filme ganha ainda maior beleza com a trilha sonora de Ennio Morricone. A paixão do professor pela menina nasceu logo no início, naquela “gloriosa primeira manhã em que ela se estirou em seu tapete de grama, em seu mar de luz solar”[6]. Entre os dois nasceu um amor frenético, mas também doído. 

Não é meu objetivo aqui abordar o romance em suas ricas nuances, mas sinalizar algo que percebi ao final do filme, quando o professor Humbert, já separado de Lolita, agora casada com outro homem e grávida de uma criança, vai ao seu encontro para levar uma ajuda financeira, mas não só isso... Não estava mais diante da espevitada Lolita, mas diante da senhora Dolly Schiller que habitava então num casebre em Coalmont. Sigo aqui o relato de Nabokov. Depois de aberta a porta, vagarosamente,

“lá estava ela com a beleza arruinada e as estreitas mãos adultas de veias engrossadas, os braços brancos arrepiados, e as orelhas rasas, e as axilas malcuidadas, lá estava ela (minha Lolita!), definitivamente acabada aos dezessete anos... e eu não conseguia parar de olhar para ela, e soube tão claramente como sei agora, que estou prestes a morrer, que a amava mais que tudo que já vi ou imaginei na Terra, ou esperei descobrir em qualquer outro lugar”[7].

            No filme o texto do roteiro é de uma beleza impar e a cena onde se dá a descrição é maravilhosa. O olhar penetrante do professor, interpretado magnificamente por Jeremy Irons, voltado para aquela menina-adulta, interpretada por Dominique Swain. Ocorre um enlace simbólico, desapegado, quando então ela renuncia com tranquilidade a seguir com o professor. A trilha sonora de Morricone insere-se como o selo na cera. O texto diz:

            Eu a olhava intensamente
sabia, com tanta certeza
como sei que hei de morrer...
que a amava mais do que tudo
que eu jamais vira ou imaginara.
Ela era só o eco débil
da ninfeta de outros tempos...
mas eu a amava, esta Lolita
pálida e poluída...
grávida do filho de outro homem.
Ela podia fenecer, murchar...
não fazia diferença.
Ainda assim me inundaria
De ternura...
Sempre que lhe olhasse
o rosto.

            Tudo se enriquece com o poder narrativo de Nabokov, o mestre da observação, da alegria e da felicidade. Como diz Lila Azam Zanganeh, “a felicidade em Vladimir Nabokov é um modo singular de ver, de maravilhar-se e entender, ou, em outras palavras, de enredar as partículas de lucidez piscando ao nosso redor”. Em verdade, “mesmo na escuridão e na queda, Nabokov nos diz, as coisas se agitam com o brilho da beleza”[8].

            Na narrativa do professor no filme, vemos algo bem diferente da reflexão poética de Cardenal: o reconhecimento do valor irrenunciável do amor, seja em que fase estiver. Como mostra tão bem o livro do Cântico dos Cânticos, o coração vem roubado com um único olhar. Depois de cativado, não há como escapar desta sedução, que fica gravado como um selo: “o amor é forte, é como a morte (...). As águas da torrente jamais poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo” (Ct, 8, 6-7).

            O que escrevi foi expressão desses flashes que marcaram momentos de minha reflexão sobre o amor, no aprendizado de cada dia, de cada experiência e de cada leitura. Cada parágrafo abre margens importantes para meditação pessoal e o debate. Fica, porém, marcada essa ideia da complexidade do tema, da ampla variedade de possibilidades de sua abordagem. Mas sobretudo a convicção da riqueza, da ternura e da delicadeza que envolve essa experiência enigmática e saborosa.

Juiz de Fora, 11 de abril de 2020, um sábado de páscoa





[1]Super-Homem – a Canção (1979).
[2]Carlos RENNÓ (Org.). Gilberto Gil. Todas as letras. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 268.
[3]Ibidem, p. 433.
[4]Ibidem, p. 269.
[5]Kathrin H. ROSENFIELD. Os descaminhos do demo. Rio de Janeiro/São Paulo: Imago/EDUSP, 1993, p. 97.
[6]Lila Azam ZANGANEH. O Encantador. Nabokov e a felicidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 88. 
[7]Vladimir NABOCOV. Lolita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
[8]Lila Azam ZANGANEH. O Encantador, p. 21.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Os Povos de Gaia contra os "adeptos da globalização"

Os Povos de Gaia contra osadeptos da globalização

Faustino Teixeira

Em 29 de março tinha postado aqui no Face um texto de Bruno Latour, traduzido por Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro: Imaginar gestos que barrem o retorno da produção pré-crise[1]. Volto ao texto, pois acho que ele traz algo de extremamente importante para a nossa reflexão.
É conhecido o "pessimismo" de Bruno Latour, sua descrença numa reação ativa dos Povos de Gaia contra os Humanos. Em sua clássica obra, "Enquête sur les modes d´existence" (2012), ele dizia já ao final do livro que estamos diante de uma "estranha guerra", que não podemos senão perder. Quem? Os Povos de Gaia.
Em outra obra, "Face à Gaia" (2015), ele volta a falar da guerra entre Humanos e Terranos(Povos de Gaia). Afirma: "Os Humanos que vivem na época do Holoceno estão em conflito com os Terranos do Antropoceno". Sua crítica aos Humanos é impiedosa: Os Humanos, diz ele, "não são dignos de confiança porque não sabemos jamais para onde se dirigem, nem qual é o princípio que delimita as fronteiras de seus povos". Há entre os Humanos uma "carência de localização". Os Humanos são "INDIFERENTES às consequências de suas ações".
E eis que aporta no mundo o CORONAVÍRUS, e consegue uma façanha que nenhum coletivo ecológico conseguiu com toda a sua diuturna luta. O novo vírus conseguiu parar a produção. E aqui retomo o texto de Latour, já citado anteriormente.
A chegada do novo vírus convoca novamente a luta dos Povos de Gaia: "É agora que devemos lutar para que, uma vez terminada a crise, a retomada da economia não traga de volta o mesmo velho regime climático que temos tentado combater, até hoje em vão".
A crise sanitária está aí, diz Latour. Dela temos condições de sair, ainda que capengas. Mas da outra crise, GRAVÍSSIMA, não temos "nenhuma chance de sair".
Com o novo vírus pudemos testemunhar com alegria que "é possível, em questão de semanas, suspender, em todo mundo e ao mesmo tempo, um sistema econômico que até agora nos diziam ser impossível desacelerar ou redirecionar".
E isto mesmo sabendo de que já havia no sistema econômico mundial um alarme vermelho com a questão climática. Nenhum chefe de Estado teve, porém, a ousadia de frear a "locomotiva do progresso". Nenhum deles quis ouvir "o estridente guincho dos freios". O vírus sim...
Latour fala dos "ADEPTOS DA GLOBALIZAÇÃO", com sua sede irrefreável. São eles que estão desesperados com esse choque na produção. São esses segmentos, que "em meados do século XX, inventaram a ideia de escapar das restrições planetárias". 
Os "adeptos da globalização", os Humanos declarados, estão adestrados para nos tentar fazer acreditar na plausibilidade de seus sonhos, "frutos do progresso". Mas "querem ir ainda mais longe em sua fuga para fora do mundo planetário". 
Eles estão nos jogando, muito mais decisivamente que o novo vírus, numa situação irremediavelmente necrófila. Esses adeptos do progresso são "perigosos", diz Latour, pois "sabem que a negação das mudanças climáticas não poderá continuar indefinidamente, que não há mais nenhuma chance de conciliar seu ´desenvolvimento` com os vários ´envelopes`do planeta com os quais a economia terá que se haver mais cedo ou mais tarde".
Com esse novo clima pontuado pela presença do Coronavírus ocorre a possibilidade de uma reação: "É aqui que devemos agir. Se a oportunidade serve para eles, serve para nós também. Se tudo pára, tudo pode ser colocado em questão, infletido, selecionado, criado, interrompido de vez, ou pelo contrário, acelerado".
Latour toca aqui no nó da questão: "Agora é que é A HORA de fazer o balanço de fim de ano. À exigência do bom senso: ´Retomemos a produção o mais rápido possível`, temos que responder com um GRITO: ´DE JEITO NENHUM!`. A última coisa a fazer seria voltar a fazer tudo o que fizemos antes”.
O trabalhos dos Terranos agora é o trabalho de barrar essa dinâmica de produtividade: "O que o vírus consegue com a humilde circulação boca a boca de perdigotos - a suspensão da economia mundial - nós começamos a poder imaginar que nossos PEQUENOS E INSIGNIFICANTES GESTOS, acoplados uns aos outros, conseguirão: SUSPENDER O SISTEMA PRODUTIVO."
O momento é propício para a criatividade e imaginar novos "GESTOS DE BARREIRA", mas "não apenas contra o vírus: contra cada elemento de um modo de produção que não queremos que seja retomado".
O desafio, radical, lançado por Latour é o de "abandonar a produção como o único princípio de relação com o mundo".
Não se trata de revolução, diz Latour, mas de "dissolução". Um momento propício para "inventar um socialismo que conteste a própria produção"
E isso não significa "decrescer", "viver de amor ou de brisa", mas de "aprender a selecionar cada segmento deste sistema pretensamente irreversível, a questionar cada uma das conexões supostamente indispensáveis e a experimentar, pouco a pouco, o que é desejável e o que deixou de sê-lo".
Latour levanta seis questões, e aqui vou simplesmente retomar o que ele disse:
"1ª pergunta: Quais as atividades agora suspensas que você gostaria de que não fossem retomadas?
2ª pergunta: Descreva por que essa atividade lhe parece prejudicial/ supérflua/perigosa/sem sentido e de que forma o seu desaparecimento/suspensão/substituição tornaria outras atividades que você prefere mais fáceis/pertinentes. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 1).
3ª pergunta: Que medidas você sugere para facilitar a transição para outras atividades daqueles trabalhadores/empregados/agentes/empresários que não poderão mais continuar nas atividades que você está suprimindo?
4ªpergunta: Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que fossem ampliadas/ retomadas ou mesmo criadas a partir do zero?
5ª pergunta: Descreva por que essa atividade lhe parece positiva e como ela torna outras atividades que você prefere mais fáceis/ harmoniosas/ pertinentes e ajuda a combater aquelas que você considera desfavoráveis.
(Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 4).
6ª pergunta: Que medidas você sugere para ajudar os trabalhadores/empregados/agentes/empresários a adquirir as capacidades/meios/receitas/instrumentos para retomar/ desenvolver/criar esta atividade?"




[1]https://laboratoriodesensibilidades.wordpress.com/2020/03/31/bruno-latour-imaginar-gestos-que-barrem-o-retorno-da-produção-pre-crise-quais-as-atividades-agora-suspensas-que-você-gostaria-de-que-não-fossem-retomadas/

quinta-feira, 26 de março de 2020

Essas pessoas na sala de jantar

ESSAS PESSOAS NA SALA DE JANTAR

Faustino Teixeira

Fico extremamente feliz ao perceber que os articulistas brasileiros começam a explicitar que esse problema do coronavírus tem a ver com nossa ação predatória sobre a Terra. Não há há como dissociar o que vem ocorrendo com essa expansão do vírus com a dinâmica do Antropoceno.

Nesse sentido, o fabuloso livro de Isabelle Stengers, "No tempo das catástrofes" (2009) ganha uma atualidade impressionante. O seu grande valor foi apontar um outro lado de "Gaia" que nem sempre está presente na nossa visão romântica: da Gaia Mãe, da Gaia Protetora. O que Stengers nos apresenta é uma face bem mais complexa e "ameaçadora":

Gaia, diz Stengers, é uma mãe mais "irascível, que não se deve ofender. E ela é anterior à época em que os gregos conferem a seus deuses o sentido do justo e do injusto, anterior à época em que eles lhe atribuem um interesse particular por seus próprios destinos. Tratava-se, antes, de ter cuidado para não ofendê-los, para não abusar de sua tolerância".

Gaia, na verdade, vem hoje abordada por um grupo de filósofos, antropólogos e biólogos, como "um ser". E a autora continua: "Já não estamos lidando com uma natureza selvagem e ameaçadora, nem com uma natureza frágil que deve ser protegida, nem com uma natureza que pode ser explorada à vontade."

Como relata Stengers, "a hipótese é nova. Gaia, a que FAZ INTRUSÃO, NÃO NOS PEDE NADA, sequer uma resposta para a questão que se impõe. Ofendida, Gaia é INDIFERENTE à pergunta ´quem é responsável?`e não age como justiceira - parece que as primeiras regiões da Terra a serem atingidas serão as MAIS POBRES DO PLANETA, sem falar de todos esses viventes que não têm nada a ver com a questão".

Mais adiante, Stengers sublinha que "teremos que responder incessantemente pelo que fazemos diante de um ser implacável, surdo às nossas justificativas (...). Não haverá resposta se não aprendermos a articular luta e engajamento nesse processo de criação, por mais hesitante e balbuciante que ele seja".

Em linha de fina sintonia com a reflexão de Stengers, Eliane Brum em artigo do El Pais (25/03/2020), toca na nervura da questão:

"A forma como vivemos neste planeta nos tornou vítimas de pandemias. O INIMIGO SOMOS NÓS. Não exatamente nós, mas o capitalismo que nos submete a um modo mortífero de viver. E, se nos submete, é porque, com maior ou menor resistência, o aceitamos. Escapar do vírus da vez poderá não nos salvar do próximo. O modo de viver precisa mudar. Nossa sociedade precisa se tornar outra."

Vamos então, gente, tentar tratar essa complexa e dolorosa questão do coronavírus a partir desta nova perspectiva. Temos, sim, que mudar o nosso modo de habitar a Terra, pois senão outras epidemias, ainda mais violentas e necrófilas, estarão nos aguardando...

E outras quarentenas virão, ainda mais longas, para serem vividas em nossas salas de jantar:

"Essas pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas da sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer"

sábado, 21 de março de 2020

Tempo de Solidariedade

Tempo de solidariedade 

Faustino Teixeira
PPCIR/UFJF



O que estamos vivendo no Brasil nesses dias e que vai se acentuar no mês de abril é um TEMOR fora do controle. Agora é que vai caindo a ficha na população, sobre a gravidade da situação. As imagens que vemos da Itália são atemorizantes e muito tristes. O número de mortos ali já passa de 4.032. Só ontem, dia 20, morreram 627. Não há quem não se comova diante daquele corteja de caminhões militares transportando os mortos... Está faltando terreno para enterrar os que faleceram. Tudo é muito triste. 

Escrevia num texto recente sobre o temor da peste que sempre ameaçou a humanidade. Em tempos passados a situação foi bem difícil, como na Idade Média, com o medo das epidemias, particularmente a peste. Como dizia o historiador Georges Duby:

“É o fogo do mal dos ardentes que queima as populações do ano 1000 Uma doença desconhecida que provoca um terror imenso. Mas o pior está por vir: a peste negra devasta a Europa e ceifa um terço de sua população durante o verão de 1348”.

                  Em artigo no El País, de 18/03/2020, o escritor Mario Vargas Llosa falava desse temor da peste, como um dos “maiores pesadelos da humanidade”. Naquela ocasião, porém, a peste era vista como coisa do demônio, que deixava os seres humanos desarmados e afogados no caos do sem sentido. O velho terror, como diz o escritor, não desapareceu jamais. Vira e volta ele retorna com alguma epidemia universal, como é o caso hoje do Coronavírus. Assis como ocorreu com outros vírus que tomaram conta de regiões da humanidade, esse também vai passar, mas o que não passará jamais é o “medo da morte”. Esse permanece, como tão bem mostrou Ingmar Bergman no filme “O sétimo selo”. A gente pode brigar com ela, buscar razões plausíveis para esvaziar a mente de sua presença desinstaladora, mas ela retorna com vigor. É um temor que se aninha no coração. Como diz Llosa, a religião busca aplacar esse medo, e às vezes consegue, de forma impressionante. Como indica Berger, numa de suas frases mais célebres da obra “O dossel sagrado”, “a religião é a ousada tentativa de conceber o universo inteiro como humanamente significativo”. Émile Durkheim também mostrou em sua obra sobre “As formas elementares da vida religiosa” o poder da religião, um poder de enfrentar e vencer o sofrimento, com sua força dinamogênica. Tem em verdade um “poder” especial para lidar com o “mundo em pedaços” (Geertz).

            Quando dei meu curso sobre o Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, no segundo semestre de 2019, defrontamos com essa questão ao tratar o momento do livro, fortíssimo, que fala da epidemia de varíola que tomou conta de uma região do sertão. A descrição do romancista sobre o episódio é impressionante. Aquele povoado – a gente do Pubo – ficou isolado com a peste e o preconceito. As estradas que levavam à região estavam também resguardadas, como hoje... A coisa era tão grave, que eles nem estavam enterrando mais os defuntos. O que Riobaldo mais queria era sair daquele inferno, passar adiante; o “inferno feio deste mundo: que nele não se pode ver a força carregando nas costas a justiça, e o alto poder existindo só para os braços da maior bondade”. Aquela “horrorosa doença” reinava “por cima da pior miséria”. É o que também poderá ocorrer aqui no Brasil em breve se não houver uma decisão política, pública, de defesa da saúde. Ainda no romance de Guimarães Rosa, o personagem Riobaldo refletia: “Eu queria poder sair depressa dali, para terras que não sei, aonde não houvesse sufocação em incerteza, terras que não fossem aqueles campos tristonhos”.

            Para enfrentar tudo isso Riobaldo se cercou da proteção de todos os santos e rezas, e conseguir fazer a travessia. Tinha no fundo da alma uma convicção: “Deus é paciência. O contrário é o diabo”. Tinha certeza da força da religião, da “reza que sara da loucura”, e então deixou-se envolver pelo diversificado repertório delas: “Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas”. Para enfrentar a diversidade, sabia da força singular de Deus, que “faz é na lei do mansinho” e “ataca bonito, se divertindo”.

            Para enfrentar essa adversidade que nos acomete hoje com o coronavírus, vale também o sábio conselho do papa Francisco, talvez uma das poucas lideranças no tempo atual que está lidando de frente com o sufoco desse vírus implacável. Sua presença e sua fala estão tendo um impacto de serenidade que é essencial para todos nós. Não se fecha no seu mundo, mas vai para rua, evidenciando sua tese de uma “igreja em saída”. E vem nos convocar para a atenção aos pequenos gestos, nesse momento duro de confinamento:

"Precisamos reencontrar a concretude das pequenas coisas, das pequenas atenções em relação aos que estão próximos, familiares, amigos. Entender que nas pequenas coisas existe o nosso tesouro. Existem gestos mínimos, que às vezes se perdem no anonimato da vida cotidiana, gestos de ternura, de afeto, de compaixão, que, no entanto, são decisivos, importantes. Por exemplo, um prato quente, um carinho, um abraço, um telefonema ... São gestos familiares de atenção aos detalhes do dia a dia que fazem a vida ter sentido e que exista comunhão e comunicação entre nós (...) Às vezes, vivemos entre nós apenas uma comunicação virtual. Em vez disso, deveríamos descobrir uma nova proximidade. Uma relação concreta feita de atenção e paciência."

            Para este tempo de quaresma, de preparação para a Páscoa – festa central para os cristãos – Francisco aconselha “penitência, compaixão e esperança”. E também muita humildade. Um tempo também de oração, onde possamos viver de frente, e sem temor, nossa situação de vulnerabilidade e finitude. Não é, porém, motivo ou razão, para fechamento ou ensimesmamento, mas tempo kairológico de exercício de compaixão e solidariedade. Neste tempo propício não há separação entre crentes e não crentes, mas uma corrente igualitária de solidariedade que rompe as fronteiras de crença, raça e gênero, e nos lança ao desafio essencial de serviço ao outro. Francisco sinaliza que estamos diante de uma “emergência planetária” e ninguém pode ficar fora do compromisso comum com os mais sofridos.
            

quinta-feira, 19 de março de 2020

A dimensão espiritual da crise do coronavírus

A dimensão espiritual da crise do coronavírus

Faustino Teixeira
PPCIR/UFJF


"Eles passavam em multidões, olhando para o céu. Seus olhos eram como abismos jubilantes, e nesses olhos vi a síncopa do voo. Vinham com passo deslizante, cobertos de flores (...). Eu, um mendigo cego e trêmulo, parado à beira da estrada, e dentro da minha alma de mendigo a mesma ideia continuava repetindo: grite para eles, conte - oh , conte que na mais esplêndida das estrelas de Deus existe uma terra - que está morrendo em agonizante escuridão"[1].

Introdução

            Estamos vivendo hoje em ordem planetária um momento de crise muito forte. A presença irradiadora do Coronavírus desestruturou todos os mundos socialmente construídos. O Ser humano, como diz Peter Berger, precisa de um mundo socialmente ordenado. O que ocorre nos últimos meses em âmbito mundial é uma desestruturação de mundo. O universo simbólico vem balançado como um furacão, levando grupos inteiros à experiência da anomia. O medo volta a tomar conta da sociedade, desequilibrando todos os mecanismos de engenharia social voltados para manter o mundo significativamente em pé. As estruturas de plausibilidade se vêm abalados pelo “caos”. Na visão de Berger, que compartilho, “a constante possibilidade do terror anômico torna-se atual sempre que as legitimações que obscurecem esta precariedade são ameaçadas ou entram em colapso”[2]. Em momentos de forte crise, como a que estamos vivendo, fica muito mais difícil o exercício de canais legitimadores do campo da plausibilidade do sentido, uma vez que ficam fragilizadas as práticas normais destinadas “a silenciar dúvidas e prevenir lapsos de convicção”[3]. Com a entrada irrompente e impetuosa do Coronavírus no cenário mundial, reaparece com energia inusitada o medo, que ronda os países, as cidades, as casas e as pessoas. 

O quadro das pandemias que assolaram o nosso tempo

Essa não é a primeira nem será a última pandemia vivida em nosso tempo. Em 1918 tivemos a gripe espanhola, que contaminou 500 milhões de pessoas[4]e ceifou entre 17 e 50 milhões de vítimas. Em 1957, foi a vez da gripe asiática, com outros milhões de mortes. Em seguida outras tantas epidemias quebraram o ritmo cotidiano da vida das pessoas, como a gripe de Hong Kong (1968), a gripe suína (2009), a SARS (2003), o HIH-Aids (a partir de 1981), o Ebola (2013), e a Zica (2015)[5]

Em tempos mais remotos, como relata o historiador Jean Delumeau,  outras epidemias que acometeram a humanidade geraram muito pânico, como a peste entre os séculos XIV e XVIII. Mas outros contágios estiveram presentes: o Tifo nos exércitos da Guerra dos Trinta Anos; também a Varíola, a Gripe Pulmonar e a Disenteria, todas ativas no século XVIII) Também o Cólera, que marcou presença no século XIX [6].

            Outro historiador francês, Georges Duby, fala do medo das epidemias que marcou períodos importantes de nossa história, como no ano mil. Ele relata:

“É o fogo do mal dos ardentes que queima as populações do ano 1000. Uma doença desconhecida que provoca um terror imenso. Mas o pior está por vir: a peste negra devasta a Europa e ceifa um terço de sua população durante o verão de 1348. Como a Aids para alguns, essa epidemia é vivida como uma punição do pecado”[7].

            E quando um terço da população vem dizimada por epidemias, como mostra Duby, as consequências sociais e psicológicas são imensas, com repercussões vivas no campo cultural. Foi, porém, a partir do século XIV que grandes catástrofes sanitárias começaram a ocorrer, como no caso da peste negra: “Ela era transmitida essencialmente pelos parasitas, principalmente as pulgas e os ratos. Era uma doença exótica, contra a qual os organismos dos europeus não tinham defesas”. Ela vinha da Ásia pela rota da seda e foi devastadora. Era um dos efeitos do progresso e do crescimento[8].

Hoje vamos nos dando conta com cada vez mais clareza sobre o traço da terra como Gaia, mas a Gaia intrusa que provoca mal-estar. Gaia como um “chamado a resistir ao Antropoceno”. Na verdade, “o inimigo somos nós”, os “humanos”[9]. Como dizem Danowski e Viveiros de Castro, “há sobretudo, gente de menos com mundo demais e gente demais com mundos de menos”[10]. Dizem ainda esses autores que já podemos ter saído da zona de segurança em pelo menos três processos – a taxa da perda da biodiversidade, a interferência humana no ciclo do nitrogênio e as mudanças climáticas,  estando perto de outros limites relacionados ao uso da água doce, da mudança no uso da terra e a acidificação dos oceanos[11].

Como diz Daniel Teixeira, em texto publicado no IHU, nessa crise global que vivemos temos uma oportunidade única de “repensar radicalmente nossas práticas e modos de estar no mundo, quando mais do que nunca o indivíduo como categoria não dá conta dos seres sociais que somos”[12].

Os temores que rondam o Coronavírus

            O colunista do jornal Folha de São Paulo, Antonio Prata, traduz em seu texto o dado que todos temiam: “A grande ficha cósmica finalmente caiu: habemus pandemia[13]”. Com o novo vírus o panorama se transforma. As universidades se fecham, os restaurantes se esvaziam, os grandes shoppings mudam drasticamente o seu ritmo, os controles sobre circulação de pessoas apertam, e ocorre o passo difícil do recolhimento dos indivíduos no “antiisséptico aconchego do lar”. Na nova conjuntura, as redes sociais ganham importância singular: são sete bilhões e setecentos milhões de pessoas se comunicando em rede, vinte e quatro horas por dia. Talvez o mais difícil será mesmo as primeiras semanas de confinamento, sobretudo para aqueles que não estão acostumados à experiência de retirada do mundo social. Em seguida, pode até ocorrer, positivamente, como alerta Prata, a emergência de habítos antigos e salutares do século passados, já esquecidos, como as conversas em família, a leitura de livros, a prática de jogos caseiros como o War. Uma ocasião propícia, igualmente, para o refazimento dos laços e contatos.

            O que assistimos hoje em muitos países é o que o antropólogo Bruno Latour definiu como “o sentimento de perder o mundo”. Fazia menção ao sentimento que ganha terreno na população mundial em razão dos acontecimentos relacionados à mudança climática, mas pode muito bem ser aplicado à atual catrástrofe epidemiológica. Sublinha Latour,

“Antes, a angústia que a natureza nos causava vinha do fato de que éramos pequenos demais, e a natureza era imensa. Agora temos o mesmo tamanho, influímos em como a Terra se comporta. E é desorientador, por exemplo, para os jovens que se manifestam [contra a mudança climática]. Da extrema esquerda à extrema direita, todas as posições políticas estão marcadas pela angústia.[14]” 

                  Assim como Bruno Latour fala em sentimento de “perda do mundo”, Luis Nacif fala em “tempo de incertezas” e Zizek em “estado de medo”. A médica e psicanalista italiana, Simona Argentieri, professora da Associação Italiana de Psicanálise, explica como todos fomos pegos de surpresa com essa crise no Covid 19, estando “despreparados para a emergencia”[15]. Estudiosa do campo da família, a especialista italiana fala sobre as repercussões da quarentena forçada a que estão submetidas as pessoas:

“Imagino que vamos ver de tudo. Por um lado, há a esperança de que este seja um momento de redescoberta da intimidade, dos valores primários, do diálogo e da união; por outro lado, a família pode se tornar o local máximo da intolerância, o ambiente onde descarregar a raiva, lançar acusações mútuas. Para muitos de nós, o ´fora` era um meio importante de equilíbrio; de investimento intelectual e emocional, essencial para não colocar na linha de frente os déficits dos relacionamentos de casal ou as dificuldades entre pais e filhos. Faltará também aquela preciosa ´zona intermediária`, que são os relacionamentos com os amigos. Não vamos esconder que a situação é muito difícil.[16]

                  O tema também foi objeto do recente livro da estudiosa italiana, Nicoletta Gosio, Nemici miei. La pervasiva rabbia quotidiana (Inimigos meus. A disseminada raiva cotidiana), publicado pela editora Einaldi (2020). Ela aborda ali o clima de intolerância que vem marcando as relações quotidianas, incluindo as relações familiares. Com a reclusão imposta pelo coronavírus, as relações familiares vão sofrer, certamente, impactos importantes, com a irrupção de desequilíbrios e tensões que vinham amortecidos com as “fugas” providenciais que acabavam por ajustar as tensões e o desequilíbrio no campo familiar. 

            Junto com a irradiação do coronavírus, o risco crescente da xenofobia. É o que mostra Donatella di Cesare no cotidiano comunista, Il Manifesto(01/03/2020)[17]. Trata-se do “medo do estrangeiro, da xenofobia, que impulsiona a erigir barreiras e muros, do medo de tudo que vem de fora, e que obriga as pessoas a fecharem-se em seus nichos, a imunizar-se e proteger-se”. É o que o psicanalista italiano, Massimo Recalcati, chama de “retirada fóbica do mundo”. Toda a crise instalada servirá, também, de pretexto para um novo tempo de demarcação de fronteiras e protecionismo, com consequências sociais nefastas.

As possibilidades oferecidas pelo coronavírus

            O Covid-19 não encerra apenas temores, mas oferece igualmente possibilidades singulares para o nosso tempo. Como indicou o historiador Massimo Faggioli, trata-se também de um “momento extraordinário para o mundo”[18]:

“´Se você tem um diário, continue escrevendo. Se você não tem, comece um. Este é um momento extraordinário.` Foi o que eu disse aos meus alunos de graduação no início da nossa última aula presencial no dia 11 de março, pouco antes do intervalo de cinco semanas decidido pela Villanova University.[19]

É um momento kairológico, extraordinário, que pode possibilitar um campo novo de reflexão para as religiões, igrejas e espiritualidades do mundo. É um tempo que provoca também humildade, como sinalizou o psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP, Christian Dunker:

“Do ponto de vista de de nossa angústia, o coronavírus não poderia ter um nome melhor: ele nos tira do trono de nós mesmos e coloca a coroa de nossas vidas em sua justa dimensão. É a coroa de espinhos que convoca uma experiência escassa em nossa época: a humildade. Diante desta pequena e destrutiva força da natureza, nosso narcisismo se dobra como um vassalo encurralado. Apesar de dolorosa como um espinho na alma, esta pode ser uma experiência profundamente transformadora. Descobrir que podemos muito menos do que pensamos, aceitar o imponderável que nos governa e acolher com humildade o que ainda não dominamos pode ser muito benéfico. Pode ser uma verdadeira terapia para aqueles que precisam descansar a cabeça do peso de sua coroa de espinhos narcísicos.[20]

            É igualmente uma oportunidade de “novas sociabilidades”, como apontou Marco Lucchesi, presidente da Academia Brasileira de Letras, em entrevista ao jornal O Globo:

"A epidemia vai trazer novas sociabilidades. É o momento de reconfigurar novos fluxos, novas biopolíticas. Esta ´peste` metafórica, por assim dizer, nos ajudará bastante a reinventar o nosso lugar, a nossa janela, a nossa relação social e as nossas instituições culturais. Não vai faltar essa capacidade, seja com trabalhos online, seja diálogos compartilhados de forma mais ampla”[21].

Curiosamente, o terremoto do coronavírus acabou favorecendo a diminuição do aquecimento global, na medida em que a situação gerada pelo vírus diminuiu menos um milhão de toneladas de dióxido de carbono (CO2)  por dia. Pelo que se pode observar, “as emissões mundiais de CO2 podem reduzir-se este ano em cerca de 7%, um valor próximo do que o planeta deve atingir em 2020 com os esforços dos países para cumprir o Acordo de Paris sobre alterações climáticas”[22].

            Vislumbra-se ainda uma possibilidade bonita, de emergência do sentido nobre da solidariedade. Como indicou o pensador italiano Massimo Recalcati, “a liberdade separada da solidariedade é puro arbítrio”. O que nos vem à mente de forma singela, é o exemplo do papa Francisco, abençoando todos numa Praça de São Pedro vazia, e depois caminhando na Via del Corso, em Roma, em direção à Igreja de São Marcelo, onde está o crucifixo milagroso que em 1522 foi levado em procissão pelos bairros de Roma para abençoar a cidade tomada pela Grande Peste. O gesto de Francisco foi lembrado por muitos pensadores e articulistas, como Claudio Monge, Enzo Bianchi, Luiz Alberto Gómez de Souza e também o vaticanista Marco Politi. Este último, em artigo no jornal Il Fatto Quotidiano, de 17/03/2020, sublinhou que Francisco, como bispo de Roma, quis “romper o assédio do vírus”, e convocou a abertura de todas as igrejas romanas para o acolhimento do povo[23]. Queria indicar que a igreja “respeita todas as normas sanitárias, mas não fecha”, não pode fechar. É verdadeiramente uma “Igreja de saída”, aberta aos excluídos e que sofrem. Ao final do Angelus de 15 de março de 2020, Francisco bradou: “Nessa situação de pandemia, em que estamos a viver mais ou menos isolados, somos convidados a redescobrir e aprofundar o valor da comunhão que une todos os membros da Igreja”[24]. Nas recentes celebrações de Francisco na capela de Santa Marta, Francisco tem fornecido um apoio essencial, convocando os fiéis a recuperarem a verdadeira solidariedade, afetividade e a criatividade em família; uma presença terna nesses momentos de isolamento e dor, de “globalização da indiferença”.

Um tempo propício para a Espiritualidade

            O Coronavírus tem obrigado as pessoas a ficarem reclusas e isoladas. Nem todos têm esse hábito de recolhimento e solidão. É uma realidade que pode, positivamente, suscitar uma “chispa” de vida espiritual, de entrada no mundo interior e retomada de um caminho distinto para a vida. Um tempo propício para começar a “desintoxicar o nosso modo de vida”, para além do fechamento egoísta e da fixação identitária,  como mostrou Edgar Morin[25]. Temos assim a possibilidade única de buscar uma “vida de baixa definição”, para utilizar uma expressão de Thomas Merton; de romper o ritmo frenético de nossas atividades, dessa sede de produtividade e consumo para auscultar o mundo interior. A felicidade, diz Merton, “não é questão de intensidade, mas de equilíbrio, de ordem, de ritmo e de harmonia”[26].

            Os tempos de crise são favoráveis à vida espiritual, pois convocam as pessoas ao ritmo de adentramento. Abre-se a rota do caminho interior, do “ponto virgem”, suscitando energias singulares para enfrentar o ritmo sombrio das dificuldades e recuperar o tecido da alegria. A espiritualidade, como diz Leonardo Boff, é inspiração para um “horizonte de esperança e de capacidade de auto-transcendência”. Ela é capaz de provocar em nós mudanças substantivas e apontar caminhos jamais traçados e que são essenciais para a nossa sanidade. A espiritualidade é o momento “necessário para o pleno desabrochar de nossa individuação” e o “espaço da paz no meio dos conflitos e desolações sociais e existenciais”[27].

            A espiritualidade convoca-nos ainda para algo que é essencial e que estamos perdendo nos tempos atuais: a reverência para com a natureza e todas as criaturas. Ela nos ajuda a repensar nossa postura no mundo, a reconduzir o nosso olhar e suscitar uma nova atenção e sensibilidade. Como diz o grande Ailton Krenac,

"Há centenas de narrativas de povos que estão vivos, contam histórias, cantam, viajam, conversam e nos ensinam mais do que aprendemos nessa humanidade. Nós não somos as únicas pessoas interessantes no mundo, somos parte do todo. Isso talvez tire um pouco da vaidade dessa humanidade que nós pensamos ser, além de diminuir a falta de reverência que temos o tempo todo com as outras companhias que fazem essa viagem cósmica com a gente"[28].

                  Como dissemos anteriormente, essa epidemia vai passar, mas não vai ser a última. Muitos morrerão, não há dúvida. E os que ficarão bebem dessa oportunidade de refletir sobre a impermanência e a não substancialidade do ser humano. É uma pandemia que nos ajuda a endender a nossa limitação e a precariedade de qualquer posição que defenda arrogâncias, excepcionalismos e auto-suficiências. Ninguém é e nem poderá ser auto-suficiente. Precisamos medularmente dos outros. Como diz Rilke na segunda elegia de Duíno:

“E aqueles que são belos, oh, quem os deteria? A aparência transita sem descanso em seu rosto e se dissipa. Tal o orvalho da manhã e o calor do alimento, o que é nosso flutua e desaparece”[29].

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[1]Vladimir Nabokov. Contos reunidos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013, p. 786.
[2]Peter L. Berger. A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 1973, p. 141.
[3]Peter L. Berger. Rumor de anjos. A sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 66.
[4]27% da população mundial na época.
[5]Glauce Cavalcante. O Globo – 27/03/2020 - Economia, p. 23.
[6]Jean Delumeau. História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 107.
[7]Georges Duby. Ano 1000 ano 2000 na pista de nossos medos. São Paulo: Editora Unesp, 1998, p. 78.
[8]Ibidem, p. 81.
[9]D.Danowski e E. Viveiros de Castro. Há mundo por vir? Ensaio sobre os meios e os fins. Cultura e Barbárie, 2014, p. 145.
[10]Ibidem, p. 129
[11]Ibidem, p. 20-21.
[12]Daniel Bustamante Teixeira. O novo coronavírus e as ecologias da plantation. IHU-Notícias, 18/03/2020:
[13]Antonio Prata. Quarentena on-line apocalíptica. Folha de São Paulo, 15/03/2020:
[16]Ibidem
[19]Ibidem.
[20]Christian Dunker. O tolo, o confuso, o desesperado e a coroa de espinhos. O Globo, 17/03/2020 – Segundo Caderno, p. 2.
[21]Marco Lucchesi. “A epidemia nos ajudará a reinventar o nosso lugar”. O Globo,15/03/2020 – Segundo Caderno, p. 6.
[23]Marco Politi. Coronavirus, il gesto de Francesco segna una distanza siderale dall irresponsabile Trump. Il Fatto Quotidiano, 16/03/2020: 
 (acesso em 18/03/2020).
[26]Thomas Merton. Homem algum é uma ilha. Rio de Janeiro: Verus, 2003, p. 117. Ver também a reflexão feita por Zizek a respeito: 
[27]Leonardo Boff. Reflexões de um velho teólogo e pensador. Petrópolis: Vozes, 2018, p. 166.
[28]Ailton Krenak. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 30-31.
[29]Rainer Maria Rilke. Elegias de Duíno. 6 ed. São Paulo: Biblioteca Azul, 2013, p. 21.