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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Frestas para pensar num para além do excepcionalismo humano

Frestas para pensar num para além do excepcionalismo humano

Faustino Teixeira

           Se estamos desejando pensar para além do antropocentrismo, o estudo que envolve a percepção do valor característico dos animais se faz mais do que necessário. Lembro aqui os trabalhos essenciais de Donna Haraway e Vinciane Despret. Essa última autora tem se dedicado a refletir sobre o traço da inteligência e sensibilidade dos animais. Ela sublinha que temos hoje uma etologia dos golfinhos, ursos, lobos, elefantes e pássaros. Mas falta ainda, diz ela, estudos mais aprofundados sobre as vacas e os porcos. Indica a existência de uma “impressionante reserva de saber” a ser desenvolvida sobre os animais. Cito aqui o seu belo livro: “Être Bête”  (Actes Sud, 2007), publicado em colaboração com Jocelyne Porcher.

            No Brasil, acompanho de perto o excelente trabalho realizado por Maria Esther Maciel, que organizou o livro, “O animal – Ensaios de zoopoética e biopolítica”(Editora UFSC, 2011). Ao final do livro ela recolhe uma longa entrevista realizada por Sandra Azerêdo com Donna Haraway. Na entrevista aparece o belo conceito introduzido pela antropóloga americana: “espécies companheiras” (companion species). Ao longo da conversa, Vinciane Despret vem citada, em razão de assinalar o traço de subjetividade dos animais. Ela diz: “a capacidade para a subjetividade não é algo a ser procurado na natureza de um ser (...), mas algo tornado possível, talvez inventado, nos processos através dos quais os seres ´tornam uns aos outro capazes` de alguma coisa que é talvez nova no planeta Terra”. É o caminho que se abre, fabuloso, para romper com a ideia da excepcionalidade humana. Haraway sublinha, admirada, o fato de estarmos implicados e emaranhados na teia da vida: nós com todas as criaturas da Terra. E acrescenta: “Ainda me faz vibrar o fato de que a folha da ameixeira e minha carne compartilham uma grande parte de nossos genomas e também seguem nossos próprios caminhos inimitáveis geneticamente e em outros aspectos”.

            Em outro livro de Maria Ester Maciel, Literatura e animalidade (Civilização Brasileira, 2016), ela aborda de forma esplêndida a presença dos animais na literatura brasileira. Ela chama de zooliteratura. Recorrendo à ficção minimalista de Rosa, Maciel chama a atenção para o lugar dos bois em sua literatura. Cita, por exemplo, o conto “Entremeio com o vaqueiro”, que está inserido no livro póstumo, “Estas histórias” (1969). São magníficas as conversas relatadas entre Rosa e José Mariano da Silva, por ocasião de uma viagem de Rosa ao Pantanal do Mato Grosso em 1952. Mariano era alguém que conhecia os nomes de cada boi ou vaca, e fala deles como se falasse de grande amigos. Chega a dizer em certo momento: “Aqui o gado é que cria a gente”. 

            Maciel louva Rosa pelo carinho com que aborda os animais em seus contos e romances, inclusive considerando-os como “sujeitos dotados de sensibilidade, inteligência e conhecimentos sobre o mundo”. Não é sem razão que vem reconhecido como “o maior animalista da literatura brasileira do século 20”. Dizia Rosa que “amar os animais é aprendizado de humanidade”. Exemplar também é o conto “Meu tio Iauaretê”, que trata da estória de um onceiro que, “de tanto conviver com as onças, acaba por interagir com elas, assumindo suas características (unhas, cheiro, braveza etc.)”. Relato aqui uma das passagens mais interessantes do conto:

“Onça pensa só uma coisa – é que tá tudo bonito, bom, bonito, bom, sem esbarrar. Pensa só isso, o tempo todo, comprido, sempre a mesma coisa só, e vai pensando assim, enquanto que tá andando, tá comendo, tá dormindo, tá fazendo o que fizer... Quando algûa coisa ruim acontece, então de repente ela ringe, urra, fica com raiva, mas nem que não pensa nada: nessa horinha mesma ela esbarra de pensar. Daí, só quando tudo tornou a ficar quieto outra vez é que ela torna a pensar igual, feito em antes...”

            Se Rosa foi grande animalista, Machado de Assis foi seu precursor, como lembra Maciel. Foi ele um dos primeiros no Brasil a elogiar o vegetarianismo e nos advertir sobre nossa tremenda dificuldade em falar sobre os animais. Maciel cita uma passagem do romance Quincas Borba, onde o narrador tenta captar o fundo do olhar de um cão.  É um olhar que “parece traduzir alguma coisa, que brilha lá dentro, lá muito no fundo de outra coisa que não sei como diga, para exprimir”. Isto me fez lembrar um poema de Rilke, belíssimo, que fala do olhar da pantera no Jardin des Plantes de Paris. Rilke sublinha: “De tanto olhar as grades seu olhar / esmoreceu e nada mais aferra. / Como se houvesse só grades na terra: / grades, apenas grades para olhar”. Em outro conto, lembrado por Maciel, “Idéias de Canário” (1963), Machado descreve a conversa de um ornitólogo com um canário preso na gaiola. A conversa gira em torno de uma pergunta feita pelo narrador, indagando se o canário tinha saudade do espaço azul e infinito. O canário não conseguia decifrar para o especialista o que era o “espaço azul e infinito”. O ornitólogo então compra uma nova gaiola, ampla e arejada, e mais tarde repete-lhe a pergunta. O canário responde dizendo que para ele o espaço era “um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima”. A visão tinha se ampliado... Ocorre que depois o pássaro foge, e mais tarde o ornitólogo encontra-o e repete a pergunta. Como resposta, ouviu: “O mundo, conclui solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima”.

            Outros grandes nomes da literatura brasileira, como Clarice Lispector, debruçam-se sobre a riqueza da animalidade e apontam caminhos importantes e novidadeiros para a reflexão sobre o tema. Vemos assim toda uma linhagem de escritores, de toda parte, que estão “atentos à complexidade das relações entre homens e animais”, direcionando nosso olhar e reflexão para aquilo que Deleuze e Guattari tão admiravelmente definiram como “devir animal”.

            

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O cuidado com o cuidador

O cuidado com o cuidador

Faustino Teixeira

A questão do cuidado vem ganhando a cada dia maior importância na reflexão contemporânea: cuidar de si, dos outros, dos animais, do ambiente e do planeta. Aqui no Brasil quem vem se dedicando ao tema há muitos anos é Leonardo Boff, que inaugurou essa reflexão em livro que se tornou um clássico: Saber cuidar(1999). Voltou ao tema em outra obra, O cuidado necessário(2012). Nesse trabalho tratou de um tema que hoje torna-se fulcral neste tempo da pandemia do coronavírus: o cuidado com o cuidador. Dizia com razão que o operador de saúde lida com algo extremamente delicado, a saúde dos outros, e nesse sentido está sempre diante da vulnerabilidade humana. 

Em tempos normais isso já é difícil, mas em tempos de pandemia, diante de mortes que se sucedem a cada momento, o desafio torna-se muito mais difícil. Estar diante da dor do outro, das mortes em sequência, das precárias condições instrumentais, da falta de leitos ou de apetrechos para o trabalho que se exige, provoca uma profunda ansiedade, por mais que o profissional esteja preparado psicologicamente para enfrentar esses percalços. 

Nenhum profissional é onipontente, como assinalou Boff; como todos mortais, estão “sujeitos ao cansaço, ao estresse e à vivência dos pequenos fracassos e decepções”. Com o coronavírus, nada se revela pequeno, mas ganha uma dimensão tremenda, que desconcerta qualquer profissional, por mais gabaritado que seja. Daí a importância de se dedicar uma atenção muito particular ao cuidado com esses cuidadores. Diz Boff: eles precisam “se sentir acolhidos e revitalizados, exatamente como as mães fazem em relação aos seus filhos e suas filhas”. 

Firma-se a urgência de um aparato de apoio, o que Winnicot chamava de holding. Os profissionais da saúde precisam de mãos que os assegurem, que os confortem e animem. É um tratamento que singulariza a presença das mãos que afagam e sustentam. No alemão, a palavra tratamento, Behandlung, indica o exercício da mão, o acarinhamento, o cafuné espiritual. Todo tratamento, diz com acerto o filósofo Gadamer, começa com a mão. Os profissionais de saúde serão mais competentes e inteiros em seu sagrado trabalho se abrirem um espaço essencial para o cuidado de si, a busca de equilíbrio. Há que caçar essa “harmonia invisível”, a qual Heráclito percebeu uma força poderosa. Toda perturbação da saúde, que hoje está ocorrendo também com os profissionais da área, necessita de atenção e cuidado: saber o momento exato de buscar ajuda para o balanço de devido equilíbrio.

É não se deixar levar pela ideia de domínio absoluto da arte. Há que ter humildade e paciência diante do “caráter oculto da saúde”, dar-se conta de que “há limites para o ser-capaz-de-fazer”. E outra aporia importante: saber cavar o espaço de esquecimento. É necessário, para o equilíbrio interior, garantir momentos de esquecimento salutar, inclusive para favorecer um dos traços mais curativos da vida que é o de poder adormecer toda noite, sem ser tomado exclusivamente por perturbações ou preocupações. Saber perceber o momento certo para acolher  “o sono curativo do esquecer”.

domingo, 26 de abril de 2020

O Zen e o tiro com arco

O Zen e o tiro com arco – Uma leitura da obra de Eugen Herrigel

Faustino Teixeira
PPCIR/UFJF


Considerações Iniciais: as artes na tradição zen

            Aqueles que buscam entrar na atmosfera zen, captar os traços fundamentais que marcam sua perspectiva, não podem desconhecer o influxo zen sobre as artes tradicionais. Como indicou Raquel Bouso, estudiosa da Escola de Kyoto, as “manifestações artísticas surgiram especificamente como meios de articulação da experiência zen da realidade”[1]. A expressão japonesa para traduzir esse caminho da arte é geido. Trata-se de uma expressão que recolhe os gêneros artísticos tradicionais cultivados no Japão. O processo de criação presente nesta arte tradicional favorece uma penetração profunda no objeto, favorecendo uma rica identificação do artista com o motivo de sua arte. Como dizia Matsuo Basho (1644-1694), “o que diz respeito ao pinheiro aprenda do pinheiro; o que diz respeito ao bambu, aprenda do bambu”[2]. Em sua singular aventura, o artista se perde no cotidiano para captar o que é maravilhoso, ainda mais, ele se identifica com esse cotidiano, de forma a quebrar as dicotomias do sujeito com o objeto. Tudo isso é fruto de um complexo aprendizado de observação direta visando superar a “visão particular” (shi-i).

            Há uma atenção peculiar para o que é imediato, o passo de cada instante, captado em suas finas e delicadas filigranas. Não são artes que visam dissolver a forma, mas “criar uma forma a partir do vazio”, ou como assinala Kitaro Nishida, penetrar “a forma do que não tem forma e escutar o som do silêncio”[3]. O que se busca na arte zen não é a regularidade ou perfeição, mas a “beleza do fragmentário em sua assimetria ou aspereza”[4]. Cada elemento no trabalho artístico busca garantir o que é essencial. 

            Entre as várias expressões artísticas, temos a que se refere ao cuidado com o jardim (kado). O jardim, como indicou Byung-Chul Han, é um “lugar de redenção”. O que ele faculta é a singularidade do maravilhamento, de um aprendizado de ser “tocado” pelas coisas e refazer com essa beleza o tecido do mundo interior. O jardim é lugar de “redenção” pois favorece uma experiência de “salvação”, ou seja, possibilita que “algo seja livre em sua essência”[5]. Aquele que cuida do jardim ouve o imperativo da terra, que é o de cuidá-la com delicadeza e esmero, e respeitar significa “louvar”. Trata-se de um sentimento nobre que veio sendo esquecido, mas que está vivo na arte tradicional japonesa. Quem visita os jardins de templos budistas percebe o cuidado com os jardins. A vida é reclusa, mas o contato com a natureza permeia as práticas de meditação, as caminhadas e o cultivo da terra. Outra forma artística tradicional que se relaciona com a natureza é o ikebama, que expressa uma grande habilidade de composição floral. Todo o material de composição vem trabalhado com elementos da natureza. Nesta arte vislumbra-se o passo da finitude, enquanto as flores ficam desprovidas de suas raízes: “a temporalidade desvela a absoluta e eterna vacuidade oculta nas profundidades de sua existência”[6]. A noção budista de impermanência está igualmente presente na cerimônia do chá (sado), outra arte tradicional que envolve harmonia, respeito, pureza e tranquilidade. O próprio espaço onde se desenvolve o ritual é despojado e destituído de tudo o que é supérfluo. No vazio da sala cria-se o clima essencial e a disposição mental para o relaxamento e a atenção. E todas as ações envolvidas na cerimônia são expressões da vida cotidiana: ferver a água, escolher e depositar o chá no recipiente adequado, atuar para dissolvê-lo na água quente e servir com delicadeza aos convidados.

            Outra expressão artística tradicional relaciona-se com a escritura, como é o caso da arte da caligrafia (shodo). O calígrafo é alguém que

“sabe captar a presença da energia vital das coisas e transmiti-la, e por isto, antes de recorrer ao pincel, deve livrar-se de todos os obstáculos – preconceitos, conceitos, opiniões, paixões e teorias – todos os canais físicos, psíquicos e racionais por onde circula essa energia”[7].

Da China esta arte foi transplantada para o Japão, onde ganhou grande expressividade, e as energias vitais a ela relacionadas receberam uma conformação singular com o influxo da reflexão sobre a vacuidade da tradição budista. Há que se mencionar ainda o caminho poético traçado pelos tradicionais Haikais, ou Haiku, um forma concisa e delicada de poema que “rompe com o fluxo narrativo e a ordem descritiva e introduz o vazio na composição mediante recursos formais e linguísticos”, que  suspendem ou quebram o fluxo da linguagem comum. 

Pode-se ainda acrescentar as artes cênicas, em  particular o teatro No, que de forma exemplar articular o drama, o canto, a dança e a música. É certamente uma expressiva habilidade artística, com uma nuance espiritual certeira, traduzida na expressão corporal. A vacuidade zen marca também sua presença na dança, numa ação que privilegia os pequenos detalhes, a calma e a paciência: “a ação se reduz ao mínimo”, produzindo uma tensão criativa, onde um passo pode significar ou expressar um longo caminho. É uma arte que requer singular prática e habilidade.

E aí chegamos nas artes marciais (budo), onde se insere a habilidade do tiro com arco (kyudo), também muito ligado à tradição zen. Deve-se lembrar que o zen foi amplamente acolhido no Japão entre os guerreiros samurais, conformando uma dimensão ascético-espiritual de disciplina na prática exercida, particularmente na psicologia e disciplina mental. O guerreiro “tinha necessidade de alcançar um estado de imperturbabilidade e de alerta só acessíveis mediante um elevado grau de concentração”[8]. Na tradição Rinzai, destaca-se a presença única do mestre Takuan Soho (1573-1645) na arte da espada; bem como o lendário Miyamoto Musashi (1584-1645), que se revelou o mais famoso samurai do Japão. Dele é o clássico Livro dos cinco anéis, um best sellerenvolvendo a estratégia samurai[9]. Entre as regras aventadas por Musashi para o exercício de sua arte marcial, destacam-se o conhecimento do caminho, o treinamento de um olhar de discernimento em todos os assuntos e a atenção desperta para as pequenas coisas[10].



A arte zen do tiro com arco

            Na clássica introdução ao livro de Eugen Herrigel (1884-1955), sobre A arte cavalheiresca do arqueiro zen(1948), Daisetz T. Suzuki sublinhou que “o zen é a ´consciência cotidiana`”[11], utilizando-se de uma expressão de Baso Matsu, que morreu em 788. O peculiar dessa consciência cotidiana é responder com tranquilidade ao ritmo da vida: “dormir quando se tem sono e comer quando se tem fome”. Nada muito complexo, mas simplesmente deixar-se envolver no fluxo do cotidiano, sem nostalgia. Em sua obra sobre a Filosofia do zen budismo, Byung-Chul Han ressalta que a iluminação (satori) não é uma experiência de êxtase ou arrebatamento, mas simplesmente o “despertar para o comum”[12]. Deste estar presente no cotidiano, sem nostalgia, é que brotam os passos da arcaica gentileza ou afabilidade. Ela surge não de uma experiência de plenitude, mas de despojamento que envolve a dinâmica do vazio[13].

            O autor da clássica obra sobre o tiro com o arco, Eugen Herrigel, foi um dos divulgadores do zen no Ocidente, particularmente na Alemanha, onde fez sua formação e atuou profissionalmente. Como filósofo ensinou inicialmente em Heidelberg, tendo em seguida exercido seu ministério na universidade imperial Tôhoku de Sendai, entre os anos de 1924 e 1929. Durante sua estadia no Japão, seguiu o aprendizado da arte japonesa do tiro com arco(Kyudo) sob a supervisão do mestre Awa Kenzo (1880-1939), durante cinco anos. Ao retornar para a Europa dedicou-se a escrever o livro que o fez conhecido e que teve uma grande aceitação por toda parte.

            A técnica essencial do tiro com arco requer um exercício de concentração que é fundamental, e para isso o treinamento zen fornece elementos que são fundamentais, como o próprio Suzuki expressou para o amigo Herrigel, depois de ler o seu manuscrito. Na técnica desta arte compenetram-se elementos que são muito importantes como a respiração, o treinamento dos músculos, a postura corporal e, sobretudo, a integração do sujeito com o seu instrumento. O arqueiro e seu arco formam uma unidade essencial, e o lançamento do dardo passa a ocupar um lugar secundário numa experiência que ganha um significado bem mais amplo. Estamos aqui diante da superação da barreira entre o sujeito e o objeto, tema que foi abordado com maestria por Kitaro Nishida, fundador da Escola de Kyoto, que escreveu um livro precioso em torno do que denominou “experiência pura”[14]. Esta experiência precede todo discernimento reflexivo. Ela está presente antes, naquele átimo que se percebem as cores e os sons na sua pureza matriz. O estado “puro” sinaliza uma anterioridade isenta de juízos. É algo que envolve uma experiência imediata, anteriormente à cisão entre sujeito e objeto. No momento inicial não há ainda sujeito ou objeto, mas simplesmente um “modo puro de experiência”[15]. Como mostra Nishida, “a verdadeira experiência pura não tem nenhum sentido, é simplesmente a consciência no presente do real concreto assim como se dá”[16].

            Esse tema foi igualmente trabalhado por Toshihiko Izutsu, em sua obra Para uma filosofia do budismo zen(1977). Fala igualmente de uma pura subjetividade, ou “subjetividade elemental”, para usar uma expressão de Nishitani, outro filósofo da Escola de Kyoto[17]. É quando o sujeito toca a profunda “euidade”, ou seja, quando se rompe a distinção entre sujeito e objeto, alcançando-se um “estado epistemológico em que o ´eu` identifica-se tão plenamente consigo mesmo, tão uno consigo mesmo, que transcende mesmo o fato de ser ´eu`[18]”. Isto foi bem expresso pelo mestre Dôgen quando fala em “deixar cair corpo e mente”. É quando o corpo e mente precipitam-se no nada e alcançam a “não mente” (mu-shin), o “não pensamento”[19].

            Através da arte do tiro com arco podemos captar com mais acuidade a virada radical do zen para a imanência[20], e entender o “espírito do cotidiano” que delineia o zen. Um caminho propício para captar igualmente o traço fundamental do “sem porque”, da experiência livre de todo clamor ou nostalgia. A iluminação, como vimos, não é algo assim excepcional, de arrebatamento, mas simplesmente o despertar para o que há de mais comum, como na décima figura da tradicional história zen do boi e do pastor, quando o velho que passou pelo caminho entra despojado no mercado e faz as perguntas mais simples e singelas[21].

            Como já foi assinalado, o objetivo do arqueiro zen não é simplesmente atingir o alvo, mas unir consciente e inconsciente, de forma análoga ao que ocorre com o samurai com sua espada. A singularidade da arte está intimamente ligada a uma compreensão nova, relacionada com o “estado de não consciência”, de “não-mente”. Trata-se do estado de mushin, que desperta o prajna, que é o conhecimento “transcendental ou não discriminante”[22]. Não é fácil atingir essa percepção que rompe com o mundo das dualidades e retorna ao que Hui-neng nomeou como natureza-própria. A uma tal consciência só é possível acessar o arqueiro que desprende-se de si mesmo, sem, porém, romper com sua habilidade e preparo técnico[23].

            Em sua obra sobre a filosofia do zen budismo, Izutsu dá um exemplo interessante para mostrar o significado do estado da não-mente. Ele recorre ao equilíbrio do músico com seu instrumento. O artista, no exercício de sua execução, fica de tal modo envolvido e absorto no ato mesmo de tocar, que deixa de se distinguir de seu instrumento. A música flui de tal forma natural que ele deixa de ser consciente dos movimentos que realiza com seus dedos, como no casa da harpa, nem mesmo se dá conta de que está tocando. Nesse sentido, “a tensão estética da sua mente recorre tão intensamente em todo seu ser que ele mesmo transforma-se na música que está tocando”[24].

            Ao abordar a arte do tiro com arco, Herrigel busca desnudar a “natureza misteriosa dessa arte”, que na prática expressa um “combate do arqueiro contra ele mesmo”[25]. Como ocorre nas grandes obras da mística inter-religiosa, a aproximação da realidade só vem favorecida quando o praticante aconchega-se com o “coração puro, despido de qualquer preocupação” (AAZ, 17). No tiro com arco, e também nas outras artes japonesas, o que está pressuposto é uma “atitude espiritual”, que é característica do budismo” (AAZ, 18).

            Ao falar de budismo, Herrigel tem em mente sobretudo o budismo zen, o budismo dhiana, cuja compreensão exige um salto com respeito ao pensamento meramente especulativo, visando captar uma experiência que é única, para além do intelecto. Na busca da vivência de semelhante experiência o budismo zen percorre um caminho de “recolhimento metódico e sistemático”, e o resultado dessa busca é o encontro da intimidade de si com algo inefável, que “carece de fundo e de forma” (AAZ, 19). Nesse sentido, o objetivo da arte do arco e flecha é uma “experiência interior”. Os instrumentos utilizados são unicamente pretexto “para o arqueiro dar o salto último e decisivo” (AAZ, 19).

            Herrigel expressa sua sintonia com os clássicos Ensaios sobre o budismo zen, de Suzuki, publicados em três volumes nos anos de 1927, 1933 e 1934. Pontua que apesar dos esforços de divulgação do zen realizados no Ocidente, a começar por Suzuki, a tradição ainda carece de uma melhor apreensão (AAZ, 20). O que Herrigel tenta expressar é que o zen traduz como “o mais puro e contemplativo misticismo” (AAZ, 21).

            O autor relata em seu livro, que sua formação prática nessa arte do tiro com arco se deu durante quase seis anos, que coincide com o período em que esteve no Japão. Apesar de todo esforço durante o aprendizado, no início a percepção ainda estava embaçada: “Eu era capaz, é verdade, de compreender o que se pode chamar de fenômeno místico primário, mas não me era possível transpor o círculo que, como uma alta muralha, cerca o misterioso” (AAZ, 25). Não se tratava de uma tarefa simples para um europeu, como informaram a ele. O desafio de “penetrar no âmbito da vida espiritual asiática”. Isto o assustou no início, como relata (AAZ, 27). Foi quando então recomendaram-no pedir ajuda ao célebre mestre Kenzo Awa. Apesar de resistências iniciais, o mestre acabou aceitando a tarefa complexa de ser o preceptor, sobretudo quando Herrigel sinalizou que seu objetivo não era o de divertir-se, mas de “penetrar na Doutrina Magna” (AAS, 28).

            O itinerário que tinha pela frente era árduo, envolvendo toda uma ascética particular, visando captar a “arte sem arte” do tiro com arco. Foram várias fazes de aprendizado, a começar pelo entendimento das características plásticas do bambu, de sua maleabilidade. A atenção desdobrou-se também para a peculiaridade do arco, com seus quase dois metros de comprimento, em sua “forma nobre”. Quanto mais estirado o arco, dizia seu mestre, mais ele seria capaz de abarcar o universo. Daí a necessidade de “saber curvá-lo adequadamente” (AAZ, 30).

            O grande objetivo da arte, dizia o mestre, era o de entender a dinâmica espiritual envolvida no trabalho. Só a partir de um estado particular de concentração e relaxamento permite-se entender a espiritualização do tiro (AAZ, 30). Os primeiros esforços de Herrigel em seu aprendizado não surtiam o efeito desejado, como ele indicou: “O gesto de estirar o arco continuou a exigir de mim grande esforço e, por mais que eu me exercitasse, não chegou a espiritualizar-se” (AAZ, 31). Na advertência do mestre, em torno das dificuldades implicadas, o segredo da arte ganhava uma pista importante: o exercício da respiração. Dizia o mestre: “Se o senhor não consegue, é porque respira de maneira inadequada” (AAZ, 32).

            Há uma íntima relação entre o ato de atirar e a prática da respiração. A ação implicada envolvia várias fases: “segurar o arco, colocar a flecha, levantar o arco, estirá-lo e mantê-lo no máximo de tensão e disparar” (AAZ, 33). No princípio, como lembra Herrigel, não foi fácil apreender o ritmo exigido para a respiração, aproximando-se do que o mestre havia indicado. Faltava uma “base firme de apoio”, que só viria aos poucos, com exercício de muita paciência e labor. Apesar dos esforços empreendidos, o mestre mostrava que a dinâmica estava equivocada, e equivocada por justamente envolver “esforço”. O problema estava em concentrar a mente para esse esforço e objetivo. O caminho tinha que ser mais leve. Isto me fez lembrar um aprendizado importante do taoísmo: o caminho da maleabilidade e suavidade. Diz o Tao Te Ching (ou Dao de Jing), em seu número 76, que aqueles que são suaves e adaptáveis são discípulos da vida, enquanto os que são rígidos e inflexíveis, são discípulos da morte[26]. Num belo poema de Chuang Tzu, vislumbramos algo bem semelhante à advertência feita por mestre Kenzo a Herrigel:

            “Quando um arqueiro atira sem alvo nem mira
Está com toda a sua habilidade.
Se atira para ganhar uma fivela de metal
Já fica nervoso.
Se atira por um prêmio em ouro
Fica cego
Ou vê dois alvos –
Está louco!

Sua habilidade não mudou. Mas o prêmio
Cria nele divisões. Preocupa-se.
Pensa mais em ganhar
Do que em atirar –
E a necessidade de vencer
Esgota-lhe a força[27].

            Retornando ao livro de Herrigel, verificamos então que o quidda questão, seu cerne, estava na atitude que acompanhava o arqueiro, ou seja, o desafio de “esticar o arco espiritualmente” (AAZ, 35). E para isso, toda uma técnica de respiração se fazia necessária. Tudo foi sendo realizado durante o primeiro ano de exercícios, voltado para a preparação do arqueiro em “estirar o arco de forma espiritual”. Estava-se diante de uma arte singular, uma “arte gentil” (que é tradução literal de jiu-jitsu). O símbolo de referência era a água, que “sempre cede, mas jamais é vencida” (AAZ, 36).

            Durante todo o aprendizado o mestre assinalava que as dificuldades estavam previstas, e aquele que não passava por elas, iria encontrá-las muito mais fortes posteriormente. Não era simples chegar ao objetivo proposto, e por mais cuidados que se cercasse, os disparos ainda vinham acompanhados de sacudidelas e trepidações (AAZ, 38). O aprendizado envolvia uma extrema atenção à postura do mestre, aos detalhes que acompanhavam a sua arte. Como exemplo, a destreza e leveza com que a abertura de sua mão direita, liberada de toda tensão, disparava com seu arco. Não havia movimento brusco, mas leveza e suavidade. Esse era o segredo!

            Em seu aprendizado, Herrigel foi se dando conta da importância do relaxamento e da respiração. A ação feita com espontaneidade surtia um efeito bem melhor. O mestre voltava a advertir: “O tiro justo no momento justo não ocorre porque o senhor não sabe desprender-se de si mesmo, um acontecimento que deveria ocorrer de maneira independente”, como o realizado por uma criança (AAZ, 41). Um passo a mais se fazia necessário: ultrapassar a ideia de que “sou eu” que atiro. A presença desse “eu” que estira o arco e atira era um empecilho. A arte genuína, advertia o mestre, não pode ocorrer pautada por uma finalidade ou intenção. Tem que ser gratuita. A obstrução do caminho está justamente na presença de uma “vontade demasiadamente ativa” (AAZ, 42).

            O processo exigia paciência, muita paciência. E também perseverança. Herrigel perguntava ao mestre: “O que devo fazer”. Recebia como resposta: “Tem que aprender a esperar”. E esse aprendizado só se realiza quando se dá o desprendimento (AAZ, 43). Se não houver desprendimento só restará a tensão, e o resultado não será satisfatório. O relaxamento físico tinha que ser acompanhado pelo relaxamento psico-espiritual. O caminho se fazia na abertura da libertação do espírito (AAZ, 45). Um novo nível devia se alcançado, para além do relaxamento psíquico, no sentido de uma liberdade espiritual. A ruptura do “eu” só seria alcançada com a quebra de todas as amarrar e apegos. Só assim se poderia alcançar o passo de um “poder” novo. Nesse caminho emergia novamente a importância e centralidade da respiração: superar a percepção de que estamos respirando, de forma que essa atividade se dê espontaneamente e com leveza. O estado de perturbação, que muitas vezes dificulta a serenidade, é um obstáculo a ser vencido, e o processo deve ser movido com tranquilidade: continuar “respirando tranquila e serenamente, aceitando-se de maneira agradável o que acontece, acostumando-se à perturbação, aprendendo-se a contemplá-la com indiferença e, finalmente, cansando-se de acompanhá-la” (AAZ, 47).

            Em seu estudo do zen na artes, Alan Watts fala sobre a superação da respiração errática em favor da liberação da respiração. Não se trata simplesmente de inalar o ar, mas de criar as condições para que o ar venha com naturalidade. A respiração, assinala,

“não é apenas um dos ritmos fundamentais do corpo; é também um processo no qual o controle e a espontaneidade, ação voluntária e involuntária, encontram suas identidades mais óbvias. Muito antes das origens da Escola Zen, tanto a Yoga indiana quanto o Taoísmo chinês praticavam o ´assistir a respiração`, com uma visão de deixá-la – sem forçá-la - se tornar mais vagorosa e silenciosa possível”[28].

A espiritualização profunda vem acompanhada por aquilo que na tradição taoísta vem nomeado como wu-wei, ou seja, uma vontade passiva, um vazio pleno. A passividade aqui vem entendida no seu sentido técnico, que encontramos, por exemplo, na mística de João da Cruz: passividade como receptividade. Trata-se da renúncia a tudo aquilo que dificulta a ação do espírito. A passividade aqui não é inatividade, mas “preparação para receber um dom”[29].

            Na experiência de Herringel, foi fundamental a presença do mestre. Essa relação mestre/discípulo ganha um significado único no mundo oriental. É algo que pertence “às relações elementares da vida e ultrapassa muito os limites da matéria que ensina” (AAZ, 51). É o que mostrou com muita pertinência o pensador da Escola de Kyoto, Shizuteru Ueda, a respeito da figura de Suzuki. Assinalou que o que há de mais importante no mestre não são seus livros ou conferências, mas fundamentalmente a sua presença. Trata-se de algo que se percebe no mestre e que ilumina o cenário da vida[30].

            Em página das mais felizes de seu livro, Herrigel aborda esta relação entre o mestre e o discípulo. Vale transcrevê-la integralmente pela riqueza de seu conteúdo:

“Áspero é o caminho do aprendizado. Muitas vezes, a única coisa que mantém  o discípulo animado é a fé no mestre, em que só agora reconhece o domínio absoluto da arte: com sua vida, dá-lhe o exemplo do que seja obra interior, e convence-o apenas com a sua presença. Nessa etapa, a imitação do discípulo atinge a maturidade, conduzindo-o a compartilhar com o mestre o domínio artístico. Até onde o discípulo chegará é coisa que não preocupa o mestre. Ele apenas lhe ensina o caminho, deixando-o percorrê-lo por si mesmo, sem a companhia de ninguém” (AAZ, 57).

            Com o passar do tempo, sob a supervisão do mestre, Herrigel foi se afeiçoando à arte, sendo por ela cativado (apprivoiser). É como se o discípulo seguisse a indicação de Rilke numa de suas belas reflexões. Ele falava sobre a importância da paciência no processo criativo. As respostas não aparecem imediatamente, elas precisam de seu tempo. Há que ter “paciência com tudo que é insolúvel” no coração; há que “se afeiçoar às próprias questões”, sem pressa de alcançar resultados. É com o tempo e a serenidade que elas podem surgir, quem sabe, num dia distante[31].

            E esse dia chegou, finalmente, para Herrigel, para a alegria de seu mestre. Surpreso, ele pede ao discípulo que atire mais uma vez, depois de surpreendido com o sucesso da empreitada. O segundo tiro teve ainda um sucesso maior (AAZ, 61). O aprendizado continuou, e em certo momento, Herrigel ouviu a palavra-chave, que abria o horizonte da compreensão: não sou “eu” que disparo mas “algo dispara!” (AAZ, 63)[32]. Num certo dia, depois de executar o tiro, o mestre sinalizou reverência e deu a aula por encerrada. Para a surpresa de Herrigel, exclamou: “algo acaba de atirar”. Era a senha para indicar a espiritualização do tiro. E o mestre acrescentou: “O mérito desse tiro não lhe pertence, pois o senhor permanece esquecido de si mesmo e de toda intenção, tal qual uma fruta madura. Agora, continue praticando, como se nada tivesse acontecido”. A passagem me fez lembrar um dito fabuloso do poeta e místico Rûmî no seu clássico Masnavi, citando o livro do Corão: “Não fostes tu que atiraste quando atiraste”[33].

            O aprendizado ganhava, assim, o seu precioso remate, se é que se pode falar em realização no processo amplo de caminhada. Mas, de fato, ocorreu uma iluminação interior, provocando uma sensação única de alegria, semelhante à provocada pelo início da luz do dia (AAZ, 65). Depois disso, “o arqueiro se sente apto a praticar toda espécie de ação perfeita ou a mergulhar no mais puro ócio” (AAZ, 65). O tiro, como lembra Herrigel, já ao final de seu trabalho, “não depende do arco, mas da presença de espírito, da vivacidade e da atenção com que é manejado” (AAZ, 66). A alegria do ato realizado com primor é como “dançar a cerimônia”, com a transmissão de uma energia diversa do mundo interior (AAZ. 67). Diante da alegria do discípulo, o mestre dá o exemplo da aranha: 

“A aranha dança sua rede sem pensar nas moscas que se prenderão nela. A mosca, dançando despreocupadamente num raio de sol, se enreda sem saber o que esperava. Mas tanto na aranha, como na mosca, algo dança, e nela o exterior e o interior são a mesma coisa” (AAZ, 69)

            Na sequência da experiência, ocorreu a cerimônia do chá reunindo o mestre e o discípulo, um diante do outro. Como único ruído, o “do vapor fervendo na chaleira” e a presença da haste de incenso. Mais que um encontro, foi uma cerimônia dançada. Ao refletir sobre todo o processo, Herrigel sublinhou que as flechas disparadas causaram nele um impacto, como se tivesse passado por uma “transformação profunda” e imarcescível. Pôde então constatar com vitalidade o que significa uma comunicação direta com o mestre. 

Depois daqueles anos, o aprendizado tomou um novo rumo, quando o mestre e o discípulo, deixam de ser dois e passam a ser um. Mesmo que se separem por vastos oceanos, o sentimento de presença permanecerá aceso. Este é o resultado do tiro com arco: “uma luta do arqueiro contra si mesmo, que lhe penetra nas últimas profundidades” (AAZ, 78). Ao final, Herrigel recorda o importante tratado do mestre zen, Takuan, em torno da arte da espada: A impossível compreensão(AAZ, 80). Na visão de Takuan, lembrada por Herrigel, a perfeição da arte da espada só vem alcançada “quando o coração do espadachim não for mais afetado por nenhum pensamento a respeito do ´eu` e do ´outro`, do adversário e da sua espada, da sua própria espada e da maneira de usá-la nem sequer sobre a vida e a morte” (AAZ, 85). O que permanece é o vazio, a plenitude do vazio. O que vale para a esgrima, vale também para as outras artes tradicionais, como na arte do nanquim. A habilidade se manifesta quando a mão que executa é movida pelo espírito. A bela pintura ocorre de forma automática, espiritualizada. A mão que contempla o bambu durante anos converte-se nele, e tudo cai no esquecimento (AAS, 86).

            O espírito zen é um espírito singular, diz Herrigel, que nos possibilita estar no mundo, viver o cotidiano, mas sempre pronto para acolher a impermanência derradeira. Cada um deve estar pronto para também abandonar o mundo. Rompe-se com a sensação do medo: a vida e a morte vencem todo temor. Para usar a terminologia de Yagyu Tajima-no-kami, mestre-espadachin, “o último segredo da arte da espada é atingir a libertação da ideia da morte”.
            

            



[1]Raquel BOUSO. Zen. Barcelona: Fragmenta Editorial, 2012, p. 67.
[2]Paulo FRANCHETTI & Elza Taeko DOI. Haikai. Antologia e história. 3 ed. Campinas: Editora Unicamp, 1996, p. 25.
[3]Apud. Raquel BOUSO. Zen, p. 70.
[4]Ibidem, p. 71.
[5]Biung-Chul HAN. Loa a la tierra. Un viaje al jardín. Barcelona: Herder, 2019, p. 33. 
[6]Raquel BOUSO. Zen, p. 77.
[7]Ibidem, p. 80.
[8]Ibidem, p. 85.
[9]Miiyamoto MUSASHI. O livro dos cinco anéis. O verdadeiro sentido da estratégia. 3 ed. São Paulo: Clio Editora, 2010; William Scott Wilson. O samurai. A vida de Miyamoto Musashi. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.
[10]William Scott Wilson. O samurai, p. 160.
[11]Eugen HERRIGEL. A arte cavalheiresca do arqueiro zen. São Paulo: Pensamento, 1998 ( o original alemão é de 1975). Ver ainda. Passe sans porte, um texto essencial do zen, em sua regra 19: “O coração cotidiano é o caminho”: Passe sans porte(wou-men-kouan). Paris: Villain et Belhomme, 1968, p. 79 (traduzido por Masumi Shibata).
[12]Byung-Chul HAN. Filosofia do zen budismo. Petrópolis: Vozes, 2019, p. 43.
[13]Ibidem, p. 168.
[14]Nishida KITARO. Uno studio sul bene. Torino: Bollati Boringhiere, 2007.
[15]Ibidem, p. 11.
[16]Ibidem, p. 12.
[17]Keiji NISHITANI. La religione e il nulla. Roma: Città Nuova, 2004, p. 100.
[18]Toshihiko IZUTSU. Hacia una filosofia del budismo zen. Madrid: Trotta, 2009, p. 15.
[19]D.T. SUZUKI. A doutrina zen da não-mente. São Paulo: Pensamento, 1993 (O original inglês é de 1969).
[20]Nishitani vai identificar o budismo como a “religião” do “aldiquà assoluto”, ou seja, da celebração do aquém: Keiji NISHITANI. La religione e il nulla, p. 140.
[21]Migi AUTORE (Ed.). Le dieci icone del bue. Storia zen in dieci quadri. Città di Castello: Lantana, 2012, p. 102-105.
[22]Toshihiko IZUTSU. Hacia una filosofia del budismo zen, p. 22; D.T. SUZUKI. A doutrina zen da não-mente, p. 101.
[23]Eugen HERRIGEL. A arte cavalheiresca do arqueiro zen, p. 10 (Introdução de Suzuki).
[24]Toshihiko IZUTSU. Hacia una filosofia del budismo zen, p. 25.
[25]Ibidem, p. 17. Em seguida, o livro será citado no texto mesmo com a abreviação AAZ (Arte do Arqueiro Zen) e o número da página.
[26]LAO TSU. Tao Te Ching. Madrid: Gaia Eticiones, 1999, n. 76.
[27]Thomas MERTON. A via de Chuang Tzu. Petrópolis: Vozes, 1977, p. 139.
[29]Colin P. THOMPSON. Canciones en la noche. Estudio sobre san Juan de la Cruz. Madrid: Trotta, 2002, p. 209.
[30]Shizuteru UEDA. Zen e filosofia. Palermo: L´Epos, 2006, p. 64.
[31]Rainer Maria RILKE. A melodia das coisas. São Paulo: Estação Liberdade, 2011, p. 152.
[32]Nesse enigmático conceito de “algo” percebe-se a presença da assimilação zen budista do conceito taoíta de wu-wei(AAZ, 64, nota 13).
[33]Jalaluddin RUMI. Masnavi.São Paulo: Attar,1992, p. 103 (Livro II).

sábado, 11 de abril de 2020

Os mistérios do amor

Os mistérios do Amor

Faustino Teixeira


Tenho refletido muito esses tempos sobre o mistério do amor, de sua complexidade, mas também delicadeza; dos ritmos que marcam a sua narrativa; dos medos e riscos que envolvem sua tessitura. Ao longo de minhas reflexões, fui me deparando com rebentos que despertaram ainda mais forte a minha observação. 

Quando pesquisei sobre a mística de Gilberto Gil ganhei novos aprendizados, como o de estar atento para a dimensão feminina que nos habita. Observar com muita atenção o que está por trás dos dizeres de Gil quando sublinha que sua “porção mulher” é o que ele traz de melhor em si[1]. Ao explicar a canção, sinaliza que este aprendizado se deu com Caetano Veloso, do feminino como complementação do masculino. Falou que a mudança que ocorrera foi proporcionada por Caetano, com quem teve a felicidade de encontrar num “momento crucial” de sua vida. E diz Gil: “O mundo que aprendi com ele foi de uma arte e de uma cultura mais doce, o mundo de ternura e leveza”[2].

Essa mudança também se passou em mim, podendo perceber mais a fundo esta dimensão essencial do ser humano. Um jeito também feminino de olhar o mundo, com sua peculiar ternura e também cortesia e cuidado. No mesmo mundo de Gil aprendi tantas outras coisas, como igualmente algo de essencial: que o amor vai tomando formas distintas, mas igualmente belas. Refiro-me aqui ao influxo maravilhoso da canção, A faca e o queijo, de 1995, onde ele aborda as mudanças na experiência do amor:

E o amor produz transformações
A velha chama
Acende novas ilusões
Com mãos bem mais sutis
Novos desejos
Vão tornando nossos beijos
Mais azuis, menos carmins

Fui tocado pela força imagética desta letra, que me proporcionou vislumbrar com clareza singular esses toques de mudança na experiência que perdura, com igual maravilha, ainda que de forma mais distinta e sutil. Com sua arte, Gil foi indicando novas veredas, sinalizando que poesia “é leveza, é delicadeza, mesmo quando ela está falando do peso bruto, da brutalidade; porque ela quer fazer com que o pesado voe”[3].

Esse aprendizado com Gil foi para mim um REBENTO, no sentido que o próprio Gil confere à expressão, como tudo que nasce, que brota, que vinga e que medra. Rebento raro “como flor na pedra” e como o “trigo ao vento”[4].

Em seguida veio a experiência fortíssima da releitura do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, durante uma travessia do Oceano Atlântico. Foi uma leitura abissal, reveladora de horizontes impensados. Dali surgiu a ideia de um curso sobre o tema, que se realizou no segundo semestre de 2019, no programa de pós-graduação em ciência da religião da UFJF. Foram momentos de muita alegria, riqueza, descobertas, numa turma realmente especial.

Um dos temas recorrentes nos debates daquele semestre foi o amor entre Riobaldo e Diadorim. As discussões foram vivas, mas também difíceis. Pudemos verificar como nem tudo é tão simples no amor. Em torno dele podem se firmar também a violência, o ciúme doentio... e não sou poucos os casos de feminicídio ao nosso redor para exemplificar experiências doentias de amar. No livro de Guimarães Rosa, o personagem Diadorim busca todo o tempo se proteger do assédio de Riobaldo, mesmo tendo por ele um amor inesgotável. Como mostra Kathrin Rosenfield, “Diadorim nunca manifesta um amor feminino ou sensual que visaria no amigo um corpo sexuado, mas articula apenas saudades de parentesco”[5]. Na expressão de seu amor, resistente às relações eróticas evidentes, Diadorim evita dar forma e significação ao seu amor mediante a dimensão física e sexual. Com isso se protege e mantem acesa a amizade com seu grande amigo, Riobaldo.

O tema do amor volta à ribalta por ocasião da defesa doutoral de minha orientanda, Elisângela Alves, que trabalhou o tema do amor na poesia do místico nicaraguense Ernesto Cardenal. O poeta viveu permanentemente o drama de ter que escolher entre as muchachas e Deus. Este último acabou vencendo e as muchachas ficaram num segundo plano, se é possível falar assim. Cardenal optou por um “erotismo sem os sentidos”, mas em razão disto clama a Deus: “Me quitaste todo, dáteme todo pues”. 

Durante o debate na defesa, o professor Marcus Reis, da UFF, lança uma questão muito pertinente, em torno da “imaturidade” amorosa de Cardenal, incapaz de compreender que o verdadeiro amor perdura mesmo com o passar dos anos. Esta foi, segundo Marcus Reis, a ingenuidade de Cardenal em querer conquistar uma beleza pontuada unicamente pela juventude, um ser amoroso que não envelheça jamais. Na verdade, essa é uma ilusão, uma trápola em que caiu Cardenal. E ele reconhece, fazendo menção a um antigo epigrama, que entre Deus e ele, ele foi quem perdeu mais.

Por fim, ao ver recentemente o belíssimo filme Lolita, de Adrian Lyne, baseado no perturbador romance do escritor russo Vladimir Nabokov (1997), vejo o tema aflorar novamente, com uma perspectiva interessante. O tumultuado amor que une um professor de meia idade, Humbert, com uma ninfeta, Lolita. O filme ganha ainda maior beleza com a trilha sonora de Ennio Morricone. A paixão do professor pela menina nasceu logo no início, naquela “gloriosa primeira manhã em que ela se estirou em seu tapete de grama, em seu mar de luz solar”[6]. Entre os dois nasceu um amor frenético, mas também doído. 

Não é meu objetivo aqui abordar o romance em suas ricas nuances, mas sinalizar algo que percebi ao final do filme, quando o professor Humbert, já separado de Lolita, agora casada com outro homem e grávida de uma criança, vai ao seu encontro para levar uma ajuda financeira, mas não só isso... Não estava mais diante da espevitada Lolita, mas diante da senhora Dolly Schiller que habitava então num casebre em Coalmont. Sigo aqui o relato de Nabokov. Depois de aberta a porta, vagarosamente,

“lá estava ela com a beleza arruinada e as estreitas mãos adultas de veias engrossadas, os braços brancos arrepiados, e as orelhas rasas, e as axilas malcuidadas, lá estava ela (minha Lolita!), definitivamente acabada aos dezessete anos... e eu não conseguia parar de olhar para ela, e soube tão claramente como sei agora, que estou prestes a morrer, que a amava mais que tudo que já vi ou imaginei na Terra, ou esperei descobrir em qualquer outro lugar”[7].

            No filme o texto do roteiro é de uma beleza impar e a cena onde se dá a descrição é maravilhosa. O olhar penetrante do professor, interpretado magnificamente por Jeremy Irons, voltado para aquela menina-adulta, interpretada por Dominique Swain. Ocorre um enlace simbólico, desapegado, quando então ela renuncia com tranquilidade a seguir com o professor. A trilha sonora de Morricone insere-se como o selo na cera. O texto diz:

            Eu a olhava intensamente
sabia, com tanta certeza
como sei que hei de morrer...
que a amava mais do que tudo
que eu jamais vira ou imaginara.
Ela era só o eco débil
da ninfeta de outros tempos...
mas eu a amava, esta Lolita
pálida e poluída...
grávida do filho de outro homem.
Ela podia fenecer, murchar...
não fazia diferença.
Ainda assim me inundaria
De ternura...
Sempre que lhe olhasse
o rosto.

            Tudo se enriquece com o poder narrativo de Nabokov, o mestre da observação, da alegria e da felicidade. Como diz Lila Azam Zanganeh, “a felicidade em Vladimir Nabokov é um modo singular de ver, de maravilhar-se e entender, ou, em outras palavras, de enredar as partículas de lucidez piscando ao nosso redor”. Em verdade, “mesmo na escuridão e na queda, Nabokov nos diz, as coisas se agitam com o brilho da beleza”[8].

            Na narrativa do professor no filme, vemos algo bem diferente da reflexão poética de Cardenal: o reconhecimento do valor irrenunciável do amor, seja em que fase estiver. Como mostra tão bem o livro do Cântico dos Cânticos, o coração vem roubado com um único olhar. Depois de cativado, não há como escapar desta sedução, que fica gravado como um selo: “o amor é forte, é como a morte (...). As águas da torrente jamais poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo” (Ct, 8, 6-7).

            O que escrevi foi expressão desses flashes que marcaram momentos de minha reflexão sobre o amor, no aprendizado de cada dia, de cada experiência e de cada leitura. Cada parágrafo abre margens importantes para meditação pessoal e o debate. Fica, porém, marcada essa ideia da complexidade do tema, da ampla variedade de possibilidades de sua abordagem. Mas sobretudo a convicção da riqueza, da ternura e da delicadeza que envolve essa experiência enigmática e saborosa.

Juiz de Fora, 11 de abril de 2020, um sábado de páscoa





[1]Super-Homem – a Canção (1979).
[2]Carlos RENNÓ (Org.). Gilberto Gil. Todas as letras. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 268.
[3]Ibidem, p. 433.
[4]Ibidem, p. 269.
[5]Kathrin H. ROSENFIELD. Os descaminhos do demo. Rio de Janeiro/São Paulo: Imago/EDUSP, 1993, p. 97.
[6]Lila Azam ZANGANEH. O Encantador. Nabokov e a felicidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 88. 
[7]Vladimir NABOCOV. Lolita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
[8]Lila Azam ZANGANEH. O Encantador, p. 21.