quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Prefácio - Imitação de Cristo

Prefácio – Imitação de Cristo

(Henrique Cristiano José Matos. Imitação de Cristo. Caminhos de crescimento espiritual. Belo Horizonte: O Lutador, 2014)

É com grande alegria que apresento essa edição bilíngue da obra de Tomás de Kempis, Imitação de Cristo, este clássico livro que traduz o cerne da espiritualidade da Devoção Moderna. Outras traduções foram publicadas no Brasil, mas esta tem uma característica peculiar, expressando uma preciosa pesquisa de investigação histórica e de cuidado literário. Com o trabalho realizado por Frater Henrique Cristiano José de Matos, o leitor consegue acessar o conteúdo da obra com a base necessária de compreensão do contexto histórico e da inspiração que moveu esse grande espiritual do século XIV.

Como traço novidadeiro, a partilha de uma rica pesquisa realizada junto ao Instituto de Espiritualidade “Titus Brandsma”, vinculado à Universidade de Nimega (Holanda), e em particular ao trabalho realizado por Frei Rudolf van Dijk, da ordem carmelita, responsável pela mais rica edição bilíngue da Imitação de Cristo, publicada em 2008. É este instituto de pesquisa, fundado pela Província Neerlandesa da Ordem dos Carmelitas da Antiga Observância, que vem realizando nos últimos tempos as mais importantes investigações científicas sobre a Devoção Moderna, trazendo pistas inovadoras para a compreensão da clássica obra de Tomás de Kempis.

            O resultado mais preciso das investigações realizadas, e assumidas nesta edição, é uma nova ordenação dos livros que compõem a Imitação de Cristo. Nas edições tradicionais, a obra finalizava com o livro de exortação à sagrada comunhão, sendo precedido pelo livro sobre a consolação interior. Dava-se, assim, uma importância fundamental à comunhão eucarística, entendida como coroamento do caminho espiritual. Na nova edição há uma mudança de ordem, e de compreensão teológica, favorecendo uma melhor percepção da dimensão mística deste livro tão popular. Com a nova visão, o livro apresenta-se como um manual religioso dividido em quatro etapas: iniciando com a convocação ao abraço da vida espiritual e concluindo com a união deificante proporcionada pelo diálogo intradivino. A nova sequência, na verdade, vem retomar a ordem original do livro, traduzindo uma “surpreendente articulação interna” e uma “progressividade do itinerário espiritual”.

            Em sua preciosa introdução, Frater Henrique desoculta esse traço místico essencial do livro de Thomas Kempis, sublinhando que a meta final do percurso espiritual não é o Cristo, celebrado na Eucaristia, mas o Pai celeste. A Eucaristia acena para um horizonte que é mais amplo e que expressa a íntima união com Deus. Para utilizar uma imagem de João da Cruz, a Eucaristia acena para uma ceia maior, que “deleita e enamora”, o panis angelicum que é o alimento do “próprio Amado”.

            Com a reflexão sugerida, a obra apresentada revela-se como um “guia mistagógico”, indicando uma precisa pedagogia religiosa que privilegia um caminho interior de crescimento espiritual. Em linha de sintonia com a inspiração traçada pela devoção moderna, a Imitação de Cristo sublinha a centralidade da interioridade, mas pontuada pelo seguimento de Jesus. Trata-se de uma “interiorização do espírito de Jesus” e um convite a uma vida cristiforme que se abre ao horizonte maior do Mistério de Deus. Ou como indicou Frater Henrique, a “busca de Deus, seguindo o Cristo, na perspectiva da união definitiva no amor trinitário”.

            É toda uma linha de reflexão que expressa um singular influxo da linhagem mística que começa com Agostinho, e que passa por autores como Jan van Ruusbroec, Mestre Eckhart e outros espirituais vinculados aos Cartuxos e Cisterciences. De modo particular, esse movimento em direção à interioridade, ao lado interior da existência humana (o dedans), como questionamento vivo ao projeto habitual de vinculação quase exclusiva ao mundo da superficialidade (o dehors), que situa o “ego” no centro de todo movimento existencial. Um momento decisivo ocorre quando a pessoa “interiorizada” responde ao desafio de viver o discipulado de Jesus, sem impor resistência à ação da graça. E esse seguimento joga a pessoa no mundo, na experiência agápica essencial. Daí a missionaridade que envolve essa obra prima de Tomás de Kempis, rompendo com esquemas interpretativos que confinam a interpretação do livro numa linha meramente intimista e subjetivista. Como salienta Frater Henrique, “o próprio testemunho da vida de seu autor comprova o contrário, como também a irradiação apostólica da Devoção Moderna, da qual fazia parte”.

            Por fim, vale perguntar sobre as razões que motivam a grande sedução exercida por esse livro desde sua primeira irradiação, com uma popularidade só ultrapassada pela Bíblia. Buscar entender sua “estranha atração” sobre tantas pessoas é algo que motiva muitos de seus intérpretes, entre os quais Frater Henrique. E ele consegue passar para o leitor, de forma admirável, esse toque sedutor. E sua resposta é clara: trata-se de um livro que “fala, antes de tudo, ao coração”, que “toca diretamente ao ser humano: o próprio sentido da existência”. É um livro que fala ao coração dos leigos, e neles sempre encontrou sua mais preciosa ressonância. Talvez o segredo maior dessa atração esteja na capacidade de trazer à tona valores tão esquecidos na cultura atual, pontuada pela lógica da competitividade, da produtividade e da centralidade egoica. Há hoje, por todo lado, uma sede de humanização que encontra eco em livros dessa natureza, que traduzem um caminho alternativo: de “descentramento de si”, de busca da simplicidade, da gratuidade, do despojamento e liberdade interior. E Frater Cristiano conclui sua reflexão com um toque bem latino-americano: “A intimidade com o Senhor inclui, necessariamente, uma decidida solidariedade com os outros, particularmente com os excluídos e todos os que se encontram ´à beira da estrada da vida`”.

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF

           


            

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Etty Hillesum: o canto da vida

Etty Hillesum: o canto da vida

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF

            No dia 15 de janeiro de 2014 Etty Hillesum estaria completando 100 anos. Embora pouco conhecida no Brasil, esta mística neerlandesa foi uma das personalidades mais luminosas do século XX, sobretudo em razão de seu exemplo de vida e esperança. Ela nasceu na pequena cidade de Middelburg, no sudoeste dos Países Baixos, na província da Zelândia. Seu pai, Louis Hillesum, era professor e um erudito, com formação em línguas clássicas. Sua mãe, Riva Hillesum-Bernstein, era russa e dotada de um firme caráter. Além de Etty, os pais tiveram ainda dois filhos, Jaap Hillesum e Mischa Hillesum. O primeiro com formação em medicina e o segundo dotado de um grande talento musical, mas ambos frágeis em âmbito psicológico.

            Depois de fazer o ginásio na cidade de Deventer, seguiu seus estudos superiores em Jurisprudência, em Amsterdã, num ambiente estudantil pontuado por influências de esquerda e anti-fascista. Ali também estudou línguas eslavas, e em particular língua e literatura russa. Motivo importante de recordação foi sua presença na casa de Han Wegerif, em Amsterdã, a partir de 1937. Com ele chegou a ter uma relação de maior proximidade e uma experiência dolorosa de aborto, relatada num dos cadernos de seu diário, com data de 8 de dezembro de 1941. Na mesma casa conviveu com um estudante de química, Bernard Meylink, que acabou servindo de ponte para o seu contato com Julius Spier, um psicoquirólogo, especializado na leitura de mãos. Etty Hillesum, muito impressionada com a personalidade de Spier,  decidiu fazer terapia com ele e logo a experiência desdobrou numa relação amorosa intensa.

            O contato com Spier foi também importante para o processo de amadurecimento de Etty, como ela relatou em página de seu diário, em maio de 1941. Abriu também portas singulares para o seu crescimento interior, com o aconselhamento de leituras fundamentais que a acompanharão por toda a vida, como a Bíblia e Santo Agostinho. Também outros autores, como Rilke e Dostoievski, que já faziam parte de seu repertório de leitura, ganham agora um significado mais profundo. Possivelmente é sob o impulso de Spier, e como parte de sua terapia, que Etty inicia o seu diário em março de 1941, aos 27 anos. E o trabalho redacional vem animado por singular “fogo interior”, com páginas de impressionante vitalidade e copiosidade. Na recente edição integral italiana o trabalho soma 922 páginas (Adelphi, 2012). Ali busca organizar o seu mundo interior. Aos poucos vai encontrando um eixo norteador de sua busca pela verdade e pela fidelidade a si: “Encontrei o contato comigo mesma, com a parte melhor e mais profunda de meu ser, aquela que chamo Deus” (Diário, 10 de agosto de 1941). A soma dos cadernos veio entregue por Etty à sua amiga Maria Tuising, antes de sua partida para o campo de concentração. Além do diário, há a riqueza das cartas, cobrindo os anos de 1942 a 1943, cuja primeira edição parcial foi publicada na Holanda em 1982. Na Itália, esta obra ganhou sua nona edição, em fevereiro de 2012 (Adelphi).

            O cerco nazista contra os judeus na Holanda ganhou novos contornos em 1942, quando foram obrigados a portar no peito a estrela amarela, e a Holanda foi declarada “Judenrein”, ou seja “limpa dos judeus”. Neste mesmo ano, Etty foi indicada para o Conselho Hebraico, um organismo ad hoc criado pelos alemães com o intuito de organizar a saída dos judeus. Os judeus considerados “idôneos” eram transferidos para “campos de trabalho”. Um desses campos foi Westerbork, instituído no final de 1939 pelos holandeses com a finalidade de abrigar os judeus fugitivos da Alemanha antes da guerra. Este campo ficava na província de Drenthe, nas proximidades de Assen (Holanda norte-oriental). No ano de 1942, o lugar transforma-se em campo de concentração, onde cerca de cem mil judeus holandeses encontraram sua última parada antes de serem exterminados na Polônia, em Auschwitz. O trabalho de Etty no mencionado Conselho a isentava de internamento em Westerbork, mas um pouco depois de conseguir esse cargo, solicitou sua transferência para esta localidade, assumindo ali a tarefa de “assistente social”, justamente no momento em que começava o programa de deportação para Auschwitz. Entre julho de 1942 a setembro de 1944, a cada semana, foram cerca de noventa e três trens carregados de judeus com o sombrio destino da morte. Em carta de dezembro de 1942, que acabou sendo publicada pela resistência holandesa em 1943, Etty descreve para duas amigas as tristes condições desse “campo de trânsito”. Dentre as carências mais graves, a “falta de espaço”, bem como as terríveis condições de higiene, que incidiram nos inúmeros casos de doença entre os deportados. Ainda mais duro que o trabalho forçado, era a tensão presente entre os judeus, a cada semana, com a leitura da lista dos indicados para tomar o trem e dar prosseguimento à sua “interminável via crucis”. Em correspondência de 10 de julho de 1943, Etty relata a Maria Tuinzing o clima de tensão num campo que viu partir dez mil pessoas, entre velhos e jovens, doentes e sãos. E assinalava ser mais fácil rezar para os que estavam distantes, mas muito difícil para aqueles que estavam ali bem próximos, com seu sofrimento exposto. E dentre eles, seus pais e irmãos, que também foram encaminhados para o mesmo campo.

Foi ali em Westerbork que Etty Hillesum pôde mostrar toda a força e o potencial de sua esperança. Suas vivas reservas interiores tinham sido reforçadas antes, num trabalho pessoal de harmonização. Foi familiarizando-se com essa escuta interior, esta atenção ao mundo da profundidade (Hineinhorchen). Dizia em página de seu diário, em 17 de setembro de 1942:

“No fundo, a minha vida é um ininterrupto escutar dentro de mim mesma, os outros, Deus. E quando digo que escuto dentro, é em realidade Deus que escuta dentro de mim. A parte mais essencial e profunda de mim que presta atenção à parte mais essencial do outro. Deus a Deus”.

 A acolhida e escuta da voz interior (Sich versenken) foi marcando sua trajetória de vida. Dizia que a cada manhã todos deveriam abrir esse espaço interior, nessa “hora tranquila” (stille Stunde) de renovação do ser, de forma a poder escutar o mundo da profundidade e renovar o dia com essa iluminação (Diário, 8 e 10 de junho de 1941).

Com a experiência no campo de concentração, o seu “núcleo interior” tornou-se ainda mais sólido e forte. Suas reservas vitais mostram agora toda a sua densidade. Em linda página de carta escrita a amigos, em 3 de julho de 1943, sublinha:

“Queria dizer apenas o seguinte: a miséria aqui é verdadeiramente terrível e, ainda assim, à noite, quando o dia caiu num abismo atrás de nós, costumo caminhar a passos largos ao longo do arame farpado, e então, do coração alça sempre uma voz - não posso fazer nada, é assim, é de uma força elementar -, e esta voz diz: a vida é uma coisa esplêndida e grande, mais tarde deveremos construir um mundo completamente novo. A cada novo crime ou horror, devemos opor um novo segmento de amor e de bondade, conquistados em nós mesmos”.

            Dentre os confinados no campo de Westerbork, Etty era reconhecida como o “coração pensante”, a “personalidade luminosa”. Foi um testemunho de fé, esperança e amor entre aqueles deserdados. O seu trabalho essencial foi o de erigir um “barreira interior” para evitar que a apatia ou o desânimo tomassem conta de seus companheiros. Estavam ali naquele “verdadeiro manicômio”, motivo de “vergonha para três séculos”. Sua voz erguia-se das sombras, como brasa nas cinzas e reinventava a esperança: “Constato cada vez em mim mesma, quando se toca o limite do desespero e se acredita não poder mais avançar, eis que a balança pende para o outro lado, e se pode então rir e retomar a vida” (Carta de 5 de julho de 1953).

            Com Rilke apreendeu a amar a vida nos seus mais rotineiros detalhes, a cantar com alegria, com o brilho nos olhos, o desafio do mundo em aberto, com as “veias cheias de existência”. Com ele soube reconhecer que o mundo não poderá se firmar a não ser no interior e que a vida aqui, sim, é o que há de grandioso. Essa esperança foi a força singela que tomou de assalto o coração dessa jovem neerlandesa.

            Talvez o segredo maior dessa esperança tenha sido seu sentimento da Presença de Deus. Sua vida, como ela mesma relatou em carta de 18 de agosto de 1943, foi sempre um ininterrupto colóquio com Deus. Ainda mais: seu “único grande colóquio”. Deus, esse mistério maior que a ajudou perceber que por trás de todo esse campo de dor existe um “ritmo mais profundo” que deve animar a escuta e irrigar a esperança. Apesar de tudo, jamais entrou em combate com Deus, como ocorreu com Jó, mas junto a Ele encontrou a segurança que precisava. Foi nesse “colóquio interior” com Ele que reuniu as forças criativas para levar em frente o seu sonho de amor; foi com Ele que as ondas de seu coração ganharam maior amplidão, podendo hospedar de forma singular os outros.

            O potencial de hospitalidade foi um dos grandes valores presentes na trajetória de Etty Hillesum: deixar-se hospedar pelo outro no espaço mais íntimo da vida, ali florescendo e irradiando. Em página de seu diário, no dia 13 de março de 1942, ela dizia: “Acolher o outro no próprio espaço interior e deixar que ali floresça, dar-lhe um lugar onde possa crescer e se desenvolver”. Esta sim é a grande responsabilidade que toca aos humanos.

            Esse foi o caminho místico de Etty Hillesum, o caminho da doação, da irradiação da alegria e esperança, da hospitalidade. Há místicos, como Teresa de Ávila, que sinalizaram que o acesso ao Castelo Interior se dá através da oração. No caso da jovem mística neerlandesa, a porta de acesso a essa Morada foi sua própria vida. É o que indicou com acerto a pesquisadora e carmelita Cristina Dobner, em  singular obra italiana sobre as páginas místicas de Etty Hillesum (Ancora, 2007).

            Em sua última carta, datada de 7 de setembro de 1943, Etty Hillesum relata sua partida, junto com sua família, no trem que os levaria para a morte em Auschwitz. Viajaram em vagões diferentes, e é possível que seus pais tenham morrido ainda durante a viagem de três dias. Estavam todos “fortes e calmos”: ela, seus pais e seu irmão Mischa. Relata ainda que todos deixaram “o campo cantando”. Segundo a indicação da Cruz Vermelha, Etty morreu em Auschwitz em 30 de novembro de 1943, aos 29 anos de idade.

            Para celebrar o acontecimento dos 100 anos de nascimento dessa mística contemporânea da alegria, a poeta brasileira, Mariana Ianelli, escreveu essas linhas em sua homenagem:
           
Trabalhava. Trabalhava numa primavera fria
esperando ser como a lua, ser como um pasto:
uma vasta paisagem tranquila –
e desenterrava Deus de sob pedras e cascalhos.
O caminho até o cais era feito entre soldados
(todos tão pequenos por trás de seus crimes).
E trabalhava mais: era uma estaca no mar,
era um pedaço de granito, era o próprio mundo
prestes a ser destruído. E trabalhava mais:
estava com os deportados, com os desaparecidos,
estava com uma flor num retângulo de jardim.
De minuto a minuto, forjando a calma em pessoa,
o sorriso de Buda, um terreno baldio.
E já havia partido, muito antes de partir, debaixo
de um céu sem palavras: era uma estrela nos campos,
era a mulher já sem nome do vagão número 12,

na direção do Leste, cantando de alegria.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A mística nos rastros do cotidiano

 A mística nos rastros do cotidiano

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF

1.    Como podemos compreender o que é a mística?

Buscando sua derivação etimológica, a mística vem de myein, que significa fechar os olhos e os lábios, daí também a possibilidade de outra transposição metafórica que indica a ideia de iniciação: mystes (iniciado) ou mystikôs (que diz respeito à iniciação). Buscando captar o seu sentido original, Henrique Cláudio de Lima Vaz, em sua obra Experiência mística e filosofia na tradição occidental (Loyola, 2000), indica que tanto o termo como seus derivados dizem respeito “a uma forma superior de experiência, de natureza religiosa, ou religioso-filosófica (Plotino), que se desenrola normalmente num plano transracional – não aquém, mas além da razão -, mas por outro lado, mobiliza as mais poderosas energias psíquicas do indivíduo”. A experiência mística faculta a possibilidade de uma presença que é proximidade que fala, e que desloca o sujeito de sua inserção superficial. São janelas que se abrem, permitindo um novo respiro, no lugar mesmo onde o sujeito se situa. Algo decisivo acontece, indissociado de um lugar, de um encontro, de uma leitura, que transfigura o coração, redimensiona a visão e transforma a vida. Trata-se de uma experiência iluminadora, mas sobretudo portadora de uma liberdade essencial, que transporta o sujeito para além dos limites indizíveis que rompem o cerco dos textos e instituições ortodoxas, podendo ocorrer também fora da crenças. Quem passa por tal experiência é envolvido por uma singular voracidade de penetrar os meandros do real e atravessar os umbrais da vida, num “desaforado amor pelo todo” (M.Zambrano). Sem negar seu traço de interioridade e recolhimento, a experiência mística não se traduz em reclusão, mas envolve a abertura dos olhos , uma inserção distinta no cotidiano, na vida concreta do dia a dia, a única que “Deus ama na sua totalidade” (J.Moltmann).

2.    O que caracteriza uma experiência dessa natureza?

A experiência mística, como bem mostrou Michel de Certeau, envolve paradoxos. Ela acontece na experiência real, mas revela também a “visita” de “algo não natural” que irrompe e quebra a mesmidade do sujeito, arrancando-o de sua egoicidade, desvelando-lhe novos horizontes. Tem uma dimensão visível, mas que aporta a algo de misterioso e inefável, produzindo estupefação. Os exemplos ajudam a caracterizar tal experiência. Um caso singular se deu com Thomas Merton, um dos mais singulares monges trapistas de nosso tempo. Uma das experiências mística que relata em sua obra, Reflexões de um espectador culpado (1966), ocorreu num centro comercial, em Louisville (EUA), em meio ao tumulto do cotidiano, quando então se dá conta de que toda aquela gente compunha o universo de sua “solidão”. Seus olhos se abrem para perceber, subitamente, que “amava toda aquela gente”. Desperta para a compreensão de que a vida monastica não pode significar “separação do mundo”, mas envolvimento no canto das coisas. Descobre que na dimensão profunda do humano há um “ponto virgem”, que revela a intimidade de cada um, um “pontinho de nada” que traduz “a pura glória de Deus em nós”. Outro interessante relato vem de André Comte-Sponville, em sua obra O espírito do ateísmo (2007). Descreve que numa noite, numa floresta do norte da França, com idade de 25 anos, caminhava com amigos pelo campo, despretenciosamente. Os pensamentos eram fugidios, simplesmente olhava e escutava o que via em seu redor. O cenário era propício: a “incrível luminosidade do céu” e o “silêncio rumoroso da floresta”. Ali, naquele lugar, foi tocado pela deslumbrante “presença de tudo”. Uma surpresa, uma evidência, uma felicidade que se mostrava infinita, regadas por paz novidadeira. Algo muito simples, mas essencial: “nada além da apresentação silenciosa de tudo (…). Nada além do real”. Foram momentos breves, como tende a acontecer com tais experiências, mas preenchidos de uma alegria infinita, trazendo ao coração os traços dessa evidência: “tão somente o real”. Mas a experiência provocou mudanças na relação com o tempo, como indicou Comte-Sponville, em particular uma “abertura para o presente, para o tempo que passa e fica, para a eternidade do devir, para a impermanência perene de tudo…”.

3.    Como ela se apresenta no nosso cotidiano?

Não somos nós que a buscamos, isso pode até ocorrer – em certo sentido, mas é algo que nos toma, que nos invade, que “sem causa escorre pelo céu” – para utilizar uma linda expressão de meu amigo L.F.Pondé -, e nos povoa com os traços da Misericórdia de um Mistério inusitado, cuja substância é de difícil apreensão. O grande místico Bernardo de Claraval dizia num de seus sermões sobre o Cântico dos Cânticos, que o tempo que envolve tal experiência é curto, tendo uma duração bem definida: “rara hora et parva mora” (rara hora e breve tempo). E não poderia durar mais, pois vem envolvida por intensa doçura, combinada com tremor e espanto. Ernesto Cardenal comenta sobre esse “segundo” que impacta o sujeito, forçando-o a gritar “basta, basta!”. O sujeito vem invadido por um gozo intenso, mas que não dá conta. A alma vem “penetrada de uma doçura tão intensa que se transforma em dor, uma dor indescritível, como algo agridoce que fosse infinitamente amargo e infinitamente doce”. Tudo tem o toque e a força da Experiência, que acontece como um “beijo espiritual” inaudito e precioso, só verdadeiramente captado com o código do coração, ou melhor, com o movimento do coração, como indica Bernardo em seu sermão sobre o Cântico dos Cânticos, de n  ro﷽﷽﷽﷽﷽﷽m seu redor. O cenlocoermraçnitamente amargo e infinitamente doce" "devir, para a imperman via em seu redor. O cenlocoúmero 74.


4.    Que mudanças a mística foi assumindo com o passar do tempo?

Na tradição ocidental, temos o caminho da mística especulativa, que é uma mística do conhecimento, ou essencial (Wesensmystique). Ela tem suas raízes no neoplatonismo, com ênfase especial em Plotino, mas também em Porfírio. Desdobra-se na mística cristã, num complexo itinerário, passando pelos alexandrinos, Clemente e Orígenes (séc. III), e o grande capadócio, que foi Gregório de Nissa (séc. IV), até chegar na importante obra de Pseudo-Dionísio, que vai ter um grande influxo na configuração conceptual e terminológica da mística especulativa cristã. Nos séculos XIV e XV, essa mística especulativa terá um vigoroso crescimento, ressaltando-se sua presença em autores fundamentais da mística renana,  como Eckhart e Tauler, ou outros da mística flamenga.  Como indica Cláudio de Lima Vaz, vigora aí uma importante influência dos escritos pseudodionisianos e dos temas neoplatônicos. No centro dos debates, “o problema do conhecimento do Absoluto, da sua possibilidade, das suas condições, dos seus modos e da expressão do seu objeto”. Ao lado dessa mística especulativa, a presença também de uma mística esponsal ou nupcial (Brautmystique), com um traço mais afetivo, voltada em particular para o tema da contemplação unitiva, da união entre amante a Amado. É uma tradição mística muito vinculada à interpretação alegórica do Cântico dos Cânticos, que bebe na matriz de Orígenes, firmando-se na mística medieval, com Bernardo e outros autores da tradição cisterciense, alcançando seu apogeu simbólico-doutrinal na mística espanhola de João da Cruz e Teresa de Ávila. Pode-se ainda destacar uma mística profética, não necessariamente desligada das duas outras formas anteriores, fundada na audição da Palavra, que dá centralidade ao caminho do ágape (1 Cor 13,2-3). Em seu desdobramento, uma mística de engajamento no tempo, que hoje vem expressa como “mística de olhos abertos” (J.B.Metz).

5. Qual é a pertinência e os desafios da mística dado o tipo de
sociedade ocidental na qual vivemos, individualista e focada na posse de
bens materiais?

Não há dúvida sobre o efeito crítico exercido pela experiência mística sobre os caminhos da sociedade ocidental, fundada em outros valores, como a competitividade, a produtividade, o consumismo e a centralidade no mundo egoico. A mística e a espiritualidade suscitam valores distintos, que dizem respeito a qualidades do espírito humano, que em nosso tempo estão embaçadas ou obstruídas. São valores essenciais como o amor desinteressado, a compaixão, a atenção, a hospitalidade, o cuidado, a delicadeza, a paciência e a abertura ao outro. O cultivo da espiritualidade, entendida como movimento e caminho para a experiência do Real, exige do sujeito uma dinâmica particular de despojamento e interiorização. Há que romper com um modo habitual e rotineiro de ser e deixar-se tocar pelos apelos da profundidade. Não se trata de uma viagem tranquila, mas uma “saída” para dentro de si mesmo, e um retornar ao tempo transformado. Os grandes mestres espirituais assinalam que essa viagem interior, apesar de árdua e desgastante, revela surpresas inesperadas. Ela requer disposições precisas, e um radical exercício de despojamento, humildade e purificação do coração, Não há como viver a intensidade da experiência senão deslocando o ego de sua centralidade, com a afirmação de sua vulnerabilidade e limite. Como tão bem sinalizou Eckchar, em seu sermão alemão de número 1, “quanto mais a alma chega ao fundo e no mais íntimo de seu ser, tanto mais a força divina nela se derrama plenamente e opera veladamente de maneira a revelar grandes obras”. Em belíssimo livro sobre a espiritualidade dos sentidos vigilantes (2006), Jürgen Moltmann fala da importância dos espaços de silêncio e recolhimento para que o buscador possa preparar os sentidos para o exercício de abertura aos traços de beleza que compõem o mundo circundante. Assim como a tradição judaica ensina a observar o sábado, a repousar no sétimo dia, assim também o buscador é convidado a fazer esse “trabalho de cela” , de modo a favorecer uma melhor sintonia com as surpresas do Mistério que se espraiam em toda a criação. Em seus últimos anos de vida, recolhido em seu eremitério, Merton aprendeu também sobre isso com a natureza. Ela também precisa de repouso e recuperação na noite para poder ressurgir com vida na aurora. Assim também com a natureza humana, que precisa do “espírito da noite”, da “aragem da aurora”, da passividade e repouso para poder assumir-se como si mesma.

6. Acredita que, por vezes, estamos de olhos fechados para o Mistério e
para a beleza da Criação que nos cercam? Por quê?

Os grandes místicos nos recordam sempre disto. Thomas Merton, ao tratar do “ponto virgem” que habita cada ser humano, fala da presença do paraíso entre nós, apesar de nosso desconhecimento. E não escutamos esse “canto” pelo fato de nossos corações estarem bloqueados por camada espessa de indiferença ou apatia. Teilhard de Chardin também nos lembra disso ao sublinhar que “nada é profano, aqui em baixo, para quem sabe ver”. É no tempo, no cotidiano, que o canto do mistério se faz presente. É um grande equívoco pensar que o tempo passado em qualquer de nossos espaços vivenciais, seja no trabalho, na festa, na casa, na luta, nos encontros, seja uma “subtração da adoração”. Ao contrário, é ali, nesse caldo de vida, que o Mistério está presente e mostra o seu rosto. Como indica Teilhard, é o próprio céu que nos sorri e nos atrai em nossa operosidade no mundo. A nossa presença e nossa atenção ao real que nos circunda é, efetivamente, a continuação de nossa “imersão em Deus”.

7. Em que medida a delicadeza do mistério oferece chaves de compreensão
e relação com a obra divina e com a vida em suas mais variadas formas?

O mistério é o sempre-já-aí, com seus traços infinitos de delicadeza e abertura. Na apresentação de um dos livros que organizei sobre mística, em 2006, falava da escolha do título: “Nas teias da delicadeza”. Na tradição mística islâmica, a delicadeza é um dos nomes de Deus: Al-Latîf. O Deus gracioso, terno, delicado, em cujas malhas nos encontramos enredados. A sintonia com esse “Deus delicadeza” provoca em nós o desafio fundamental de traduzir em nossa vida algo semelhante: o cuidado e a salvaguarda da criação; o respeito pela alteridade, por sua dignidade singular; o exercíco de atenção e escuta ao ritmo do tempo, aos seus desafios.

8. Em outra entrevista à nossa publicação, o senhor fala que aquele que
está aberto ao Mistério é o ser cuja meta “é ‘atravessar os umbrais
da vida’ e penetrar na tessitura do tempo, e de forma radical”. Como
podemos compreender esse atravessamento e essa entrada em uma outra
forma de existir?

Esse é um tema muito presente nos trabalhos de Maria Zambrano, essa grande pensadora de Málaga (Espanha). Num de seus lindos textos sobre a mística de João da Cruz, ela usa a imagem da alma que se consome, que se devora, para dar lugar a algo novo. Como exemplo, toma emprestada uma imagem do mundo biológico, da crisálida que desfaz seu casulo onde jaz adormecida, para sair voando em liberdade; da crisálida que devora seu próprio corpo para transformá-lo em asas. Assim também ocorre com os místicos, em sua sede de liberdade e busca ardente do Mistério. Eles também ousam “atravessar os umbrais da vida”, tendo que passar pela “noite escura”, dobrando resistências e impedimentos. Mas seu “amor pelo todo” é mais forte, é voraz. Assim como a crisálida, eles devem passar por certa “morte do eu”, por uma “fecunda destruição”, de modo a facultar um espaço garantido e especial para a hospedagem de um outro. Trata-se, na verdade de uma “morte” vicejante, que suscita criação e vida. Não se trata de um abandono da realidade, como muitos pensam, mas de um adentrar-se em sua espessura. Daí reconhecer, com João da Cruz, em seu Cântico, que o horizonte tão aguardado pela amada em sua busca itinerante não é o nada ou o vazio, mas a integral e viva presença das coisas, com toda a sua densidade: as montanhas, os vales nemorosos, os rios sonorosos, os ares amorosos e os suaves raios da aurora.

9. Que místicos(as) destacaria como emblemáticos para pensarmos um
outro modo de compreender o Universo e a Criação, em si?

Já mencionei alguns místicos importantes para pensar essa mística do cotidiano, entre os quais Teilhard de Chardin e Thomas Merton. Mas gostaria também de nomear um nome singular, da mística zen, o grande mestre Dogen (1200-1253). Em contato com suas obras, em particular no Shobogenzô, pude captar com muita clareza e precisão o valor e o significado da experiência da vida. Para ele, o acesso à compreensão do caminho de Buda passa não só pelo “esquecimento de si”, mas também pela acolhida calorosa dos dons oferecidos por cada instante de nossa vida. Como um de seus lemas essenciais: “deixar-se abrigar por todas as coisas do universo”. Toda a tradição budista Mahayana, da qual faz parte, reconhece a vida como aquilo que é mais essencial. Daí a importância do cuidado, da delicadeza e atenção para com o presente, em todos os seus detalhes, em cada um de seus instantes. Assim em Dogen, como em todos os outros grandes místicos, das distintas filiações espirituais, essa percepção profunda da realidade natural pressupõe um trabalho de interiorização, um exercício de aperfeiçoamento do olhar, de forma a poder perceber essa “ressonância” do universo.

10. Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Sim, algo que pude refletir a partir das reflexões tecidas por Pablo Beneito Arias num curso dado nesse segundo semestre no PPCIR da UFJF, sobre o pensamento místico de Ibn´Arabi de Murcia.  O tema trabalhado foi a questão dos nomes de Deus no sufismo. Em sua segunda aula, trabalhou com maestria a polaridade presente em Ibn ´Arabi entre Khalq e Haqq. A primeira expressão, Khalq, traduz a natureza e a criação, ou melhor, a realidade criatural. A outra expressão, Haqq, traduz a realidade suprema, o verdadeiramente real, a divina realidade. Para Ibn ´Arabi, todas as coisas provêm de Deus e todas elas manifestam Deus. Todas são sinais de Deus. Na verdade, para o grande mestre andaluz, não há existente algum fora de Deus, ou de seu hálito misericordioso. A ideia de uma criação auto-subsistente é para ele inconcebível. Em si mesma ela é “não existente”, pois ganha sua existência do verdadeiramente real. De acordo com a ontologia akbariana (de Ibn ´Arabi) o mundo da existência é uma auto-manifestação do Absoluto, e nada do que existe no mundo está desligado desta auto-manifestação. Há que saber ler o que há no mundo com os olhos do real, esta é a grande pista lançada pelos místicos sufis: lavar o rosto e as mãos nas águas desse lugar, de forma a poder ver o real que subjaz na realidade. É o que diz Rûmî de forma tão bonita. Se conseguimos ver a realidade com a luz do real, não há razões para o pessimismo. Isso não significa fechar os olhos para as dores do mundo, a impermanência que vigora, os desgastes da compaixão. Mas é saber transfigurar a dor e ver um horizonte para além do samsara, mas que permeia e atravessa o sansara. Na ocular de Ibn´Arabi significa captar o Khalq com os olhos de Haqq. O pessimista prende-se na circularidade do Khalq, sendo incapaz de despojar-se dessa negatividade, de forma a poder ver as brasas que atuam de forma invisível nas cinzas que predominam. Esse é o grande desafio apontado por Pablo Beneito no início de seu curso, e que provocou grande atenção e comoção entre todos nós. Reflexões que me fizeram lembrar o lindo livro de Lia Azam Zanganeh, O encantador – Nabokov e a felicidade (2013), e a rica abordagem sobre a busca de luz e cores nesse mundo de sombras. É o desafio, difícil, de captar a presença do outro mundo que nos rodeia, mesmo diante de tanta intransparência e dor. Saber, sim, velejar com alegria pelas frestas que escapam dessas sombras, suscitando luzes e cores inauditas, que apontam para um “lado reverso”, de “textura magnífica”.

(Publicado na Revista do IHU Online, n. 435, Ano XIII, 16/12/2013 )