sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

A apófase do desejo

 A apófase do desejo

 

Faustino Teixeira

PPCIR / IHU / Paz e Bem

 

 

Criamos no ZAP um pequeno grupo de seis pessoas para tratar temas ligados à Filosofia e Mística. O grupo se chama: Teias Místicas. Dele fazem parte amigas e amigos queridos: Eduardo Losso, Marcus Reis, Marcia Rivas, Maria José Caldeira do Amaral, Carlos Drawin e eu. Os debates são sempre muito ricos e diversificados. Partilho com vocês a postagem que fiz hoje, 17/02/2023, nesse início de amanhecer:

 

Em primeiro lugar, queridas e queridos, adorei todas as últimas reflexões postadas, tanto do Eduardo Losso – que elogiou minha experiência-cume rs rs – como as distintas postagens do Marcus Reis, inclusive aquelas comentando a defesa que ele participou. Adorei mesmo.

 

Na última postagem do Marcos, ali pelo minuto 2:07, ele fala que nunca viu um texto monástico que falasse contra o desejo, ou seja, um movimento contra o desejo. Eu cheguei a trabalhar essa questão não propriamente entre os textos de monges, mas de místicos como Porete e Eckhart. 

 

Porete, antes de Eckhart – e certamente ela exerceu influxo sobre ele – falava sobre a “apófase do desejo”. Vou partilhar aqui com vocês um trecho do meu prefácio à tradução brasileira do livro de Porete, sobre as almas aniquiladas, traduzido por minha ex-orientanda, Silvia Swartz. Eu digo:

 

“No caminho gradual de sua libertação, a Alma deve passar por três mortes: a morte do pecado, da natureza e do espírito. 

 

Nesse itinerarium, a Alma deve percorrer sete estados fundamentais. 

 

No primeiro, que corresponde à morte do pecado, a Alma vem tocada pela graça de Deus e busca observar seus mandamentos, sobretudo o amor a Deus e ao próximo. Mas ainda vive segundo o imperativo da Razão (M118:10-16). 

 

No segundo, que corresponde à morte da natureza, a Alma vive na dinâmica de imitação de Cristo e na observância dos conselhos evangélicos e das virtudes, visando uma vida espiritual de despojamento (M118:30-40). 

 

No terceiro estado, a Alma vem aquecida no seu desejo de puro amor. Para tanto, faz-se necessário romper com a centralidade da vontade e radicalizar o despojamento do eu: “É necessário pulverizar-se, rompendo-se e suprimindo-se, para alargar o lugar onde Amor gostaria de estar, e aprisionar-se em vários estados, para liberar-se de si mesmo e alcançar o seu estado” (M118;65-68). 

 

No quarto estado, a Alma vive um momento de delicadeza especial, atenta aos toques do Amor dileto. Concentra-se agora no exercício da meditação e contemplação. É um momento de embriaguez espiritual, quando a visão vem embaralhada pela claridade do Amor (M118:70-90). 

 

No  quinto estado se dá a mudança mais essencial, que corresponde à terceira morte. É sobre ele que mais fala o Miroir.  A Alma vem agora “raptada” pela luz divina e toma consciência de que Deus é e que ela não é. Trata-se de uma experiência de “centelha” divina, que se abre e fecha, acenando para a Alma os mistérios do sexto estado. 

 

A obra da centelha “não é senão a demonstração da glória da Alma. Isso não permanece por muito tempo em nenhuma criatura, exceto somente no espaço de seu movimento” (M58:32-34). 

 

A Alma alcança o mistério da profundidade e da humildade: “Agora essa Alma é nada, pois vê seu nada por meio da compreensão divina, que a faz nada e a coloca no nada” (M118:136-138). 

 

É o momento em que a Alma “descansa nas profundezas, onde não há mais fundo, e por isso é profundo. Essa profundeza lhe faz ver muito claramente o verdadeiro Sol da altíssima bondade, pois ela não tem nada que lhe impeça essa visão” (M118:153-156). 

 

O sexto estado marca um momento de perfeição espiritual, quando a Alma deixa de ver a si mesma, mas é Deus mesmo “que se vê nela por sua majestade divina” (M118:184-185). 

 

Tudo o que existe passa a ser percebido como diafania de Deus.

 

A Alma está agora “liberada de todas as coisas”, não consegue ver nada que não seja Deus mesmo: “Aquele que é, no qual todas as coisas são” (M118:186-187). Mas essa alma “liberada” não é ainda a alma ´glorificada`. A alma só vive sua glorificação no sétimo estado, que acontece na glória eterna.”

 

Lembro-me bem que tratei com calma todo esse movimento da alma num curso aqui no nosso programa de pós-graduação (PPCIR) em que o livro de Porete foi o objeto central. Um curso de um semestre. Fomos debatendo parte por parte a tradução feita com Sílvia da única obra escrita por Porete, que foi objeto de sua condenação à fogueira.

 

Numa passagem clássica do livro de Porete, ela diz os rios perdem o nome quando chegam no mar: Como "um corpo de água que flui para o mar (...). Quando essa água ou rio retorna ao mar, perde seu curso e o nome com o qual flui em muitos países realizando sua tarefa. Agora ele está no mar onde repousa".

 

Em outro curso sobre Eckhart, abordei os sermões alemães, que são simplesmente magníficos para entender esse processo. 

 

Cito aqui dois sermões que me marcaram muito. O primeiro é super conhecido, e aborda a questão da pobreza (Sermão Alemão 52 – SA 52). O outro é o Sermão 83. Eckhart está tratando aqui no Sermão 52 da bem-aventurança dos pobres. Ele diz que o homem pobre é aquele “que nada quer, que nada sabe e que nada tem”. Assinala que se o humano quer de fato alcançar a pobreza verdadeira deve “estar vazio de sua vontade criada como ele era quando ainda não era”. 

 

Eckhart diz que a bem aventurança não está no conhecer, nem mesmo no amar, mas situa-se em algo que já ocorre antes: “Algo na alma do qual efluem conhecer e amar”. Complementa dizendo que “quem aprende a conhecer esse ´algo` sabe onde está a bem-aventurança”.

 

Quando Eckhart fala do pobre que nada tem, tocamos, finalmente a questão da vontade e do desejo, ou melhor, da apófase do desejo. O homem pobre é aquele que nada tem (nem mesmo mais o desejo). Ele é assim tão pobre que não quer mais sequer “a vontade de Deus”. Essa é a “pobreza mais extrema”. Diz Eckhart no sermão 52, e convoca os leitores a prestarem bem atenção,  que “o homem deve ser tão vazio de todas as coisas e todas as obras, tanto interiores como exteriores, a ponto de ser um lugar próprio onde Deus possa atuar (...). Se Deus ainda encontrar no homem vazio de todas as criaturas, de Deus e de si mesmo, um lugar para atuar, enquanto isso ainda acontecer, o homem ainda não é pobre na extrema pobreza”. 

 

Sempre achei magnífica essa passagem e super exigente... quase impossível de ser vivida: seria a expressão máxima do despojamento: livrar-se do lugar mesmo de presença de Deus dentro de si. Se você ainda tem um lugar de Deus dentro de si, você ainda não encontrou a libertação. E vamos dormir com um barulho desses. São coisas assim fantásticas da mística. 

 

Digo a vocês, amigas e amigos queridos, que foi Merton o que primeiro me ajudou a entender essa passagem magnífica de Eckhart. Isto no seu livro precioso: Zen e as aves de rapina. Na edição que tenho, da editora Civilização Brasileira (1972), está na página 14. Ele está tratando ali da questão do “esvaziamento”. Cita também Cassiano, quando fala em “pureza de coração”, ou “virgindade espiritual”. 


Quando destaca em sua reflexão a presença de Eckhart, reconhece que a verdadeira pobreza requer a superação mesma de um “lugar” para Deus dentro de si, onde ele pudesse atuar. O verdadeiro despojamento, nos liberta de Deus: “Deus, livra-me de Deus”. Para Eckhart, “onde o homem ainda contém em si lugar, ali ainda conserva diferenciação. Por isso peço a Deus que me esvazie de Deus; pois meu ser essencial é acima de Deus”.

 

Nessa perspectiva, amigas e amigos, de todos nós desse grupo o mais místico é o Eduardo, que sempre esteve despojado desse “lugar” para Deus dentro de si. Por isso Eckhart foi questionado como o grande provocador do ateísmo mais puro. Diz ainda Eckhart, que também me faz lembrar Rilke: “Se eu, porém não fosse, também ´Deus` não seria” (quem sabe uma defesa mística do antropocentrismo rs rs).

 

Mas quero ainda dizer duas coisas: uma sobre Angelus Silesius, sobre o qual também escrevi a pedido de Marco Lucchesi, e depois mais um trecho de outro sermão de Eckhart. Primeiro Silésius, tomado de meu texto:

 

“Entre os passos essenciais sublinhados por Silesius no caminho da busca espiritual está o desapego e o despojamento. 

 

É um tema recorrente no Peregrino Querubínico. A noção de Abegescheidenheit, entendida como desprendimento, vem também indicada por Silesius como condição para a liberdade e a fruição do mistério. 

 

Trata-se de um “recolhimento” de si para lidar com as coisas de forma mais livre e serena. O acento nesta perspectiva indica como Silesius foi dentre os místicos modernos aquele que melhor compreendeu as intuições eckhartianas.

 

            “Os santos tanto mais se embriagam pela divindade de Deus

            Quanto mais neles se perdem e se afundam” (PQ I, 210)

 

Para esse mergulho em Deus é necessário vencer a barreira do eu. 

 

Quando se rompe o egocentrismo o mundo pode ser admirado com os olhos de Deus. Mas há que lutar contra esse inimigo mais duro, e “que mais lentamente se vence” (PQ III,233). Mas quando se supera essa barreira, o coração “recebe Deus” e diante dele “se abre como a rosa” (PQ III, 87).

 

Outro obstáculo no caminho espiritual é o apego e a fixação nas mediações. São tais vínculos que dificultam o acesso ao “trono de Deus” (PQ I, 143). O místico silesiano ousa mais alto: 

 

            “Fora com as mediações! Se devo olhar a minha luz,

            Nenhum muro deve se levantar diante do meu olhar” (PQ II, 43)

 

O desapego é também para Silesius o modo de ´capturar` Deus (PQ II, 92), mas isso requer uma dinâmica espiritual de ´alargamento do coração (PQ II, 106). 

 

Mediante esse destacamento de si, o sujeito pode operar passivamente em Deus, ou como indica Silesius, com uma expressão típica da sua mística, “sofrer Deus” (Gott Leiden) e “nele repousar” (PQ V, 207; PQ IV, 197). 

 

O destino do humano, sublinha Silesius, é naufragar no Mar da Divindade (PQ IV, 139). Para ele, um bem-aventurado naufrágio. 

 

Para os que trabalham o tema da mística nas distintas tradições religiosas, o Mar ganha uma simbolização peculiar, enquanto sinal fundamental da Divindade. O tema da união da alma com Deus, como a gota no Mar, vem retomado com frequência na obra de Silesius. Ele fala em “submergir” o eu na Divindade (PQ I,6) , em morrer “antes de morrer” (PQ IV, 77), em “morte mais ditosa” (PQ 1, 28). 

 

Tudo para expressar esse desapego essencial. Enquanto o anjo contempla a Deus “com olhos serenos”, aquele que vive o despojamento pode ainda mais, abandonando-se inteiramente a Ele (PQ I, 164). Esse abandono em Deus faz parte do anseio mais sagrado do humano, pois traduz o encontro com sua razão de ser: 

 

            “Deus é meu espírito, meu sangue, carne e ossos:

            Como então posso não ser todo nele transformado?” (PQ I, 216).

 

Para finalizar, retomo aqui outro sermão alemão de Eckhart, o de número 83, que aborda uma passagem da carta aos Efésios (Ef 4,23). Comentando um clássico, mestre pagão, Eckhart sublinha que tudo o que dizemos sobre as causas primeiras traduzem não o que elas são, mas o que somos nós mesmos. Por isso, tudo aquilo que dizemos sobre Deus, não revela o que Deus é. Daí ser problemático dizer: “Deus é bom” ou que “Deus é um ser”. Tudo isso é equivocado segundo Eckhart. O que Deus é na verdade, diz ele, é uma “nadidade sobreessencial”. E se remete a Agostinho para confirmar sua tese. Agostinho diz que “o mais belo que o homem pode dizer sobre Deus consiste em poder calar-se em virtude da sabedoria da riqueza interior”. Na verdade, quanto “tagarelamos” sobre Deus estamos mentindo e pecando.

 

 



[1]Reiner SCHÜRMANN. Maître Eckhart ou la joie errante. Paris: Payot & Rivages, 1972, p. 139-40 (nota 1).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

A coragem de denúncia

 A coragem da Denúncia (ao grupo de Emaús)


Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem


 

Teremos agora em março o nosso tradicional encontro de Emaús. O nosso grupo sempre se destacou como vanguarda para as grandes questões da vida eclesial no Brasil. Um grupo firmado em projetos de profetismo. 

 

Tenho me preocupado muito nesses tempos difíceis com a crise das graves denúncias que envolvem o clero em abusos sexuais. Recordo-me bem da grave denúncia feita pelo papa Bento XVI, que talvez tenha também apressado a sua renúncia, sobre os desvios na Irlanda. Marco Politi dedicou um capítulo de seu livro, “Joseph Ratzinger, crise de um papado” (2011), ao tema. O título do capítulo é marcante: O grito dos inocentes. Há o relato da carta de Ratzinger aos católicos da Irlanda (19/03/2010), que constitui segundo Politi um dos documentos mais significativos de seu pontificado. Ali Ratzinger confessa os graves pecados da igreja nesse campo. Em certo momento diz: “Em seu nome (da igreja) expresso vergonha e remorso”. Foi a primeira vez na história que um papa reconhece coletivamente a culpa da instituição.

 

De lá para cá vamos testemunhando um despencar de denúncias de abusos cometidos pelo clero no mundo inteiro, o que nos causa “asco” e também muita dor. Dois acontecimentos recentes são expressão dessa violência, com os resultados divulgados pelas comissões que avaliaram os casos da França (216 mil crianças abusadas pelo clero desde 1950) e de Portugal (4.815 menores, desde 1950, sendo 77% dos agressores sacerdotes).

 

E agora, em notícia divulgada no IHU-Notícias, a repercussão negativa envolvendo os casos do padre jesuíta e artista consagrado, Marco Rupnik e do padre perito psicoterapeuta, Anatrella. Em artigo de Cristina Inoges Sanz, reproduzido no IHU-Notícias, de 15/02/2023, ela Fala desses dois casos e nos lembra que nos dois casos, como em tantos outros, “prevaleceu o agressor sobre as vítimas”. Muitos crimes já prescreveram, e tantos agressores continuam no ministério.

 

Temos que fazer valer o compromisso assumido pelo papa Francisco, em encontro com uma delegação brasileira que esteve no Vaticano em junho de 2022: “Tolerância zero para os abusos cometidos pelo clero”.

 

Cristina fala da inoperância da Congregação para a Doutrina da Fé, que apenas muda o seus prefeitos, mas não suas atitudes com respeito aos graves crimes cometidos por prelados católicos. Ao final de seu texto, ela sublinha que “o nosso compromisso deve ser coerente com o nosso ser cristão. E o ser cristão também deve levar-nos a estar atentos sobre como se age nos casos de agressões sexuais e outros delitos”. A autora fala na necessidade de maior “transparência” na igreja católica. Para ela, “o nosso silêncio e a nossa falta de envolvimento não nos farão  cúmplices do sofrimento das vítimas? Não nos farão como o levita e o sacerdote que passam ao lado e deixam o homem espancado sem o ajudar?”.

 

Está mais do que na hora da CNBB preocupar-se efetivamente com a questão e convocar uma comissão independente para começar a tratar o caso.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

O enigma Vandré

 O enigma Vandré


Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem


Depois que terminei de escrever meu artigo sobre as canções de Geraldo Vandré consegui adquirir um livro sobre ele, publicado no Brasil em 2011, numa editora de Belo Horizonte (Editora Fino Traço). Sua autora é Dalva Silveira, e o título do livro: “Geraldo Vandré: a vida não se resume a festivais”.
O livro é fruto de uma dissertação de mestrado defendida pela autora na PUC-SP, no Departamento de Ciências Sociais, em 2010. Sua orientadora foi a professora Dra. Maria Celeste Mira.
O livro tem quatro capítulos: Vandré caminhando rumo ao sucesso; Vandré e “caminhando”; Vandré: perseguição e exílio; Vandré: exilado em sua pátria.
Não vou me ater aqui a todo o livro, mas a uma parte que mais me intrigou, que se relaciona ao período de seu retorno ao Brasil, em 1973.
Em seu período de exílio no Chile há registro de uma gravação, em 1969. Trata-se de um compacto de capa branca com os dizeres: Vandré no Chile. Foi editado pelo Banco Benvirá, e tinha apenas duas músicas, cantadas em espanhol: Desacordonar e Camiñando. Trata-se de um disco enigmático, como Vandré, e quem teve acesso a uma das cópias é privilegiado. 

No disco, Vandré canta acompanhado do violão. É impressionante ouvir a versão de Camiñando, que vem cantada por Vandré, com ele no violão e também uma viola bonita e percussão. Nessa versão há momentos emocionantes, onde Vandré não consegue segurar o choro.
Há também a gravação na França do belo LP, Das Terras de Benvirá, gravado em 1970, depois relançado no Brasil em 1973.
Sobre esse LP há controvérsias. Há quem não goste, como o jornalista Mauricio Kubrusly; e quem veja no LP uma obra prima, como o jornalista e escritor Celso Lungareti e o jornalista Mauro Dias, do Estadão.
Na França Vandré ficou 18 meses. Antes de voltar para o Brasil, em suas andanças pelo exílio, Vandré passou por muitas dificuldades, também psicológicas. Justamente no ano em que veio para o Brasil, em 1973, foi quando ocorreu uma crise bem séria, chegando a ficar internado numa clínica de repouso chilena por mais de 40 dias.
Dalva Silveira, em sua dissertação, cita um artigo da psicanalista Maria Rita Kehl, onde ela relata o papel da Rede Globo de Televisão nos anos 1970, depois do AI-5 (1968).
É uma análise que ajuda a compreender o período histórico nacional que coincide com a chegada ao Brasil de Vandré. Nesse momento, a Globo buscava “camuflar a realidade desigual” vivida no país. O canto representativo na ocasião era: “Hoje é um novo dia de um novo tempo que começou...”.
O clima era totalmente avesso à recepção de Vandré, e de sua fama no país. Segundo Dalva, essa presença da mídia televisiva, somada com o aumento da censura restringiam ou desqualificavam o espaço para as canções de protesto”.
Depois do AI-5 Vandré ficou afastado do Brasil por quase cinco anos, um período em que “o governo militar tentou apagar Vandré e sua obra da memória coletiva nacional”.
Foi um tempo de silêncio compulsivo sobre ele, um castigo que o puniu “de forma cruel, fazendo com que sua imagem fosse praticamente apagada”.
A autora da dissertação lembra, porém, que de forma curiosa, o fascículo 34 da coleção Música Popular Brasileira, da Editora Abril, dedicado a Vandré teve uma venda impressionante, só perdendo para Roberto Carlos.
Não há muito o que falar sobre o que aconteceu com o Vandré depois que ele chegou no Brasil, em 1973. As notícias a respeito são muito controvertidas. Estamos ainda em busca de uma explicação, que, quem sabe, ainda vai surgir para nós.
Um dos complexos enigmas que envolvem o seu retorno é seu duplo desembarque no país. Para alguns, ele retornou em 17 de julho de 1973; para outros, em 18 de agosto do mesmo ano.
Acredito, com o apoio de outros autores, incluindo a posição de Dalva, que seu real retorno tenha se dado em julho.
Ocorre que seu depoimento na Globo com sua “retratação”, aconteceu na data de agosto, ou seja mais de 30 dias depois da primeira data aventada. Isso significa que Vandré, antes de conceder o depoimento, já estava no Brasil sob a custodia do Exército há mais de 30 dias.
O que ocorreu com ele nesse período ? Tudo é uma incógnita. A retratação de Vandré, em horário nobre do Jornal Nacional, foi depois do “falso desembarque”.
E ele disse na ocasião:
“Olha, em primeiro lugar, eu acho que as minhas canções de hoje são mais anunciativas do que denunciativas. E eu espero integrá-las à realidade nova do Brasil, que espero encontrar em um clima de paz e tranquilidade. Mesmo porque a vinculação de meu trabalho, até hoje, com a utilização por qualquer grupo político, ocorreu sempre contra a minha vontade”.
Outro detalhe interessante, relatado por Dalva em sua tese. Depois de sua “retratação” no Jornal Nacional, houve uma tentativa de Vandré reintegrar-se no meio artístico. Chegou a gravar duas aparições, uma no Fantástico e outra no programa de Flávio Cavalcanti. As duas aparições foram censuradas, e não foram ao ar.
Em depoimento dado por sua ex-esposa, Nilce Tranjan, recuperado no livro de Dalva, ela diz que Vandré chega ao país em meio a uma “ditadura desgraçada”, numa situação totalmente desfavorável para qualquer continuidade de sua carreira.
Foi nesse contexto que ele foi “obrigado a se retratar”, com um “personagem” que não era mais “a antiga figura”.
Curiosamente, depois de seu retorno ao Brasil, o próprio compositor e cantor dizia que o Vandré tinha morrido, e que o que estava de volta era o advogado Geraldo Pedrosa de Araújo Dias...
Em matéria publicada na Folha de São Paulo, em 12/09/85, afirmava-se que Vandré “passou a vagar pela cidade de São Paulo. Fazia aparições esporádicas, às vezes entrava numa redação de jornal, sentava-se numa máquina e escrevia laudas e laudas, em silêncio. Ninguém tinha coragem de perguntar o que ele estava fazendo”.
Em outro relato destacado em seu trabalho, Vanda diz que certo dia o cantor Benito de Paula encontrou Vandré recitando um poema para um poste. Impactado com o que viu, compôs um samba, com o título: “O que foi que fizeram com ele”.
Num dos versos se dizia:
"O que foi que fizeram com ele?
Não sei
Só sei que esse trapo,
esse homemfoi um rei".
Em trabalho de Paulo César de Araújo, “Eu não sou cachorro não: música popular cafona e ditadura militar” (Record, 2005), o autor fala desse mistério que ronda o intervalo que ocorreu entre o primeiro embarque e o falso embarque, quando se deu a famosa “retratação” de Vandré.
Segundo o autor, Vandré esteve nesse período incomunicável num unidade do I Exército, no Rio de Janeiro.
Entre as diversas pessoas consultadas por Vanda em sua dissertação, grande parte delas acredita que Vandré não sofreu tortura física, mas sim psicológica, nos dias em que esteve recolhido.
É o que pensam, por exemplo o pastor Jaime Wright e a ex-esposa Nilce Trajan. Para Nilce, o que aconteceu com Vandré foi uma forte pressão psicológica: “torturas psicológicas” que “acabaram com ele”.
Vandré era alguém frágil, e isso verificamos mesmo antes de sua saída do Brasil; alguém tomado pelo medo da prisão. Era, assim, alguém “sem estrutura para suportar pressões”.
Toda essa história um dia, certamente, poderá vir à tona com maior transparência, o que é o desejo de todos.
Depois que escrevi o meu artigo sobre Vandré, que deve sair proximamente na revista Numen do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, recebi uma mensagem de Frei Betto, emocionado com a leitura do meu texto que tinha enviado para ele. Betto dizia ao final de seu texto que ao fazer uma conferência em Teresópolis há cinco ou seis anos, recebeu ao final, um abraço carinhoso de Vandré, que estava morando nas redondezas, num sítio. Os dois conviveram em São Paulo nos anos de 1966-1968. Betto comentou que Vandré estava muito diferente: "Parecia ter 300 anos! Carcomido pela dor e pelo tempo".

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Mesters e seus seis dias nos porões da humanidade

 Mesters e os seus seis dias nos porões da humanidade

 

Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem

 

Ontem, 12/02/2023, refleti aqui, de memória, sobre o estupendo livro de frei Carlos Mesters: Seis dias nos porões da humanidade. Não tinha achado o livro na minha biblioteca e hoje, felizmente, encontrei-o. Estava num lugar meio escondido. Foi  uma alegria no coração. Interrompo então minha leitura de Graciliano Ramos para voltar a comentar sobre o livro de Mesters. O livro foi publicado pela editora Vozes, em 1977. A edição que tenho é a primeira, com a assinatura de meu pai, Mozart Teixeira. 

 

Já na entrada da obra, Mesters relata que ele é como um violão. Mesmo não sabendo tocar o instrumento, reconhece que é o outro que toca o instrumento. Sua função é a de ouvir e aprender. Uma tarefa bonita de buscar reproduzir a música que se enraíza no seu interior.

 

Esse é o Mesters que conheço, com quem aprendo tantas coisas. Talvez o maior profeta e poeta da Bíblia em nosso país. 

 

O relato de Mesters começa no Ceará, em 16 de novembro de 1975. É quando visita a comunidade de Areia Seca, que fica na serra entre Ceará e Piauí. Partia para um trabalho novo, ousado e corajoso. Passar “seis dias nos porões da humanidade”, conhecendo a vida pobre e rica do sertanejo.

 

Ele confessa que nos seis dias que passou no sertão muita coisa aconteceu em sua cabeça... muita coisa se transformou.

 

Ao mesmo tempo que relatava os dias em que passou em Areia Seca, complementava o seu diário com comentários e reflexões de alto nível, como só Mesters é capaz de fazer.

 

Não foi fácil para ele, holandês radicado no Brasil, enfrentar todos os perrengues do sertão. O que ele repete várias vezes no seu diário é a dificuldade que encontrou para ter uma noite tranquila de sono. Nas casas simples do povo, não havia espaço para vida privada. Tudo estava envolvido pela presença e atividade das crianças, muitas crianças... Como dizia um velho da região, “criança e pedra é que não faltam aqui”.

 

Mesters comenta a dificuldade para dormir na rede, sempre “sob os olhares dos outros. Sempre gente perto, sempre!”. Em vários momentos, comentando os dias em que ali passou, relata as noites mal dormidas: “choro de criança, grito de gente lá fora, barulho de gente passando por baixo da rede para poder sair pela porta da frente; barulho de galo, de galinha, galinha choca, de pintinhos andando pela sala, debaixo da rede”. Esse é apenas um entre tantos outros comentários!

 

Mesters relata que o corpo fica mesmo “desmantelado”. Até para fazer as necessidades mais elementares era algo difícil, pois inexistia privada. Tudo tinha que ser feito mesmo no mato, buscando um esconderijo. E o fato de ser padre, provocava um interesse ainda maior: todo mundo queria ver o padre, estar com o padre, conversar com o padre. O banho era feito sempre à noite, ao luar, como Diadorim no Grande Sertão: Veredas. E para se banhar tinha que se caminhar cerca de um quilômetro e meio. 

 

Para um escritor como Mesters, tudo era muito difícil, não havia lugar ou oportunidade para o empenho. Mesmo assim, tentava fazer suas anotações, ao menos a sequência dos fatos. 

 

Mesters diz no livro que viu gente de todo tipo: “cegos, surdos, mudos, paralíticos, gente com bala de carabina no corpo, mulheres de 36 anos com 11 filhos (o mais velho de 14 anos), totalmente acabadas, sem ânimo; velhos, doentes sem nada para viver; moças bem jovens, bonitas até – verdadeiro capricho da mãe natureza – que, quando abrem a boca, parecem drácula, com dois dentes grandes saindo pelos cantos dos lábios”.

 

Um curiosidade dita por Mesters. Na parede das casas, nada de fotografias pobres, como os ricos gostam de inserir, mas, sim, de gente rica! E diz: Quando eles abrem a revista “Veja” (tínhamos trazidos dois números), eles só estão interessados em ver as páginas de propaganda”.

 

Dentre as histórias das famílias, muitas perdas, como no caso de Genésio e Totonha: eles tiveram onze filhos e sete morreram. E muitos... de fome!

 

Muito bonita a história relatada por Mesters do casamento de Elias e Rosa, dois viúvos que viviam juntos há tempos, e queriam formalizar a união. A celebração foi realizada em noite bonita, presidida pelo carmelita: Os dois velhos se acomodaram num banquinho sempre com os olhares voltados para Mesters, que presidia a cerimônia. Na mesa da celebração, duas lamparinas que iluminavam os rostos dos dois. Ali acontecia naquele momento, uma alegria única, uma “felicidade” que se irradiava dos olhos. E lá no alto, o belo luar, quebrando “o resto da escuridão”.

 

Em certa noite, deitado na rede, esgotado pelo dia estafante, Mesters reflete: “Como fazer que a riqueza escondida atrás desta casca secular rebente e chegue a exterminar a pobreza de nossa cultura rica e ressequida? É possível um de nós chegar a penetrar lá dentro? Um de nós que lá dentro não nasceu?”

 

A dúvida de Mesters era a mesma de tantos agentes de pastoral que buscavam e buscam, com seus parcos recursos, uma identificação cada vez maior com os pobres, sem sucesso... é claro! Como dizia Lévi-Strauss, nunca conseguiremos ser Bororos, por mais que nos esforcemos.

 

E ali naquelas casas simples, tudo vinha misturado: “A criança nasce e cresce. Os meninos, quase todos, andam nus. As meninas não. Misturam-se com bezerro, porco, galinha e gato. Cresce tudo junto, homem e animal, numa grande unidade”.

 

Impressionou a Mesters a fertilidade do povo na região: um fertilidade de pobres que indicava “um grito de esperança! Um ato de fé na vida! Uma declaração de amor a quem dele precisa! É a grande força dos fracos. É nos filhos que os pobres transmitem a sua esperança de uma vida melhor, a sua vontade imensa de ser gente”. 

 

Em inúmeros momentos que tive o privilégio de conviver e ouvir Carlos Mesters, algo ficou gravado em mim. Uma passagem bíblica que ele gostava de repetir: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12,10). Em minhas leituras do Grande Sertão, há uma passagem tremenda, quando os jagunços atravessam a região dos mais miseráveis, do povoado de Pubo e Riobaldo diz: “De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo medo” (GSV, 280). Ou então na letra de Wilson das Neves: “No dia em que o morro descer e não for carnaval, não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral”.

 

Retomando o diário de Mesters, ele relata também a beleza das rodas de conversa no meio do povo. Sinaliza que o povo tem um respeito sagrado pelas conversas. São nessas rodas de bate papo que o povo transmite tudo o que ele “sabe sobre a vida; toda a sua experiência aí é trocada em miúdo, todos os seus problemas aí são discutidos e resolvidos”. Nós que acompanhamos de perto a vida das CEBs, sabemos muito bem disto: a força dos círculos bíblicos, do clube de mães e das rodas informais de conversa.

 

Em determinados momentos da viagem, Mesters viveu passos difíceis: dias pesados, com calor, seca e a visão de tantas injustiças. Ele disse em certo momento de seu relato: “Cheguei a sentir-me como quem está querendo passar uma cerca: passou a cabeça e passa o ombro, e pronto! Fiquei entalado! Não dava mais para ir em frente”.

 

Ao refletir sobre a espiritualidade do pobre em Areia Seca, Mesters relata que a vida daquela gente é sofrida: não contemplam “a beleza da macambira, do xique-xique, do sertão ou do por do sol.” Tudo aqui está simplesmente ali: “Aquilo é o que é, do jeito que é”. Não há, entre os pobres, em sua vida espiritual, o vade-mécum tradicional das etapas místicas: via purgativa, iluminativa e unitiva. Nada disso. Eles já estão diante do Deus vivo, concreto e palpável no seu dia a dia.

 

Ao final da viagem, Mesters sublinha que o tempo foi curto, mas que “deu  para ver a folha da árvore, do jeito que ela se apresenta pra fora, visível aos olhos”. Permaneceu, porém, indecifrável, “os nervos invisíveis da folha, que mantém tudo unido”. Mesters se dá conta que ele, como outros intelectuais, gostam mesmo de escrever muito. O povo de lá, não... “Não gasta palavras à toa”.

 

Já no término de sua reflexão vem algo de maravilhoso no relato de Mesters, que sempre guardei no fundo do coração. É quando ele fala sobre o que o evangelho tem a oferecer para nós, depois de tudo o que passou em Areia Seca. 

 

Ele fala daquele parte do evangelho “que tem a ver com festas, novenas, romarias, rezas e celebrações”. Aquela parte do evangelho que poderia parecer ao militante como algo “inútil”, e ineficaz. Daquilo que não pode ser utilizado para nada. Vem então uma profunda crítica de Mesters à busca desenfreada pela eficácia na vida pastoral. Diria eu, na vida em geral.

 

Essa cegueira da eficácia provoca o ocultamento de algo que é essencial: a gratuidade do evangelho, a experiência e vivencia do amor gratuito de Deus por nós. E conclui: 

 

“É desta parte que eu sinto uma imensa necessidade: ficar sem fazer nada, à toa, quase preguiçoso diante de Deus, sentir a gratuidade da vida e alegrar-se com isso, sem nenhum outro objetivo, a não ser o de sentir a alegria do viver no convívio com Deus e com os irmãos”.

 

Muito interessante e fundamental tudo isso que diz Mesters. Lembrei-me ao retomar essa leitura de um texto lindo de Eliane Brum, publicado recentemente no jornal Samaúma, e reproduzido no IHU-Notícias (11/11/2022). 

 

A repórter chama a atenção para algo que é fundamental para todos nós, nesses tempos difíceis, ou seja, buscar estabelecer uma nova relação com os brasileiros: uma relação profunda com a sua vida. Ela diz:

 

“Precisamos nos mover não mais em relação a eles, sim em uma relação profunda com a vida. Precisamos ser. Não ser em contraposição a eles, como fomos até agora, mas sendo na costura do presente que só é possível na imaginação do presente. Nem falo mais do futuro, mas do presente, mesmo. Do aqui e agora. Fazendo o que faz bem. Retomando a arte, a dança, a poesia, a educação emancipadora, a espiritualidade, seja religiosa ou não, a alegria de conviver falando do que nos dá alegria. Retomando o debate que nos amplia porque o outro não nos ameaça, ao contrário: nos alarga”. 

 

 

 

sábado, 11 de fevereiro de 2023

A nobreza de um grande pensador: Antonio Candido (1918-2017)

A nobreza de um grande pensador: Antonio Candido (1918-2017) 


Faustino Teixeira


Sempre comentei com meus alunos e amigos que uma de minhas maiores frustrações na vida acadêmica foi não ter sido aluno de Antonio Candido.

Sou verdadeiramente apaixonado por suas reflexões e tenho comigo grande parte de seus livros.
Quando comecei a dar aulas de literatura, no final de minha atuação como professor ordinário do PPCIR da UFJF, um pouco antes de 2017, ano de minha aposentadoria, passei a ler com grande interesse a obra de Antonio Candido (1918-2017).
Antes, quando estava iniciando minha docência na PUC-RJ, em 1978, entrei em contato com a preciosa obra “Parceiros do Rio Bonito”, que foi tese doutoral de Antonio Candido, defendida na USP no departamento de Ciências Sociais, em 1954 (ano de meu nascimento).
Na ocasião, tive também o privilégio de ver várias vezes a peça teatral “Na carreira do Divino”, baseada no livro de A.Candido.
A peça foi dirigida por Paulo Betti, com a presença de sua então mulher, Eliane Giardini, com a qual foi casado por quase 25 anos. O grupo que apresentou o trabalho estava ligado à Universidade de Campinas. A peça era maravilhosa, com trilha sonora incrível e a participação exemplar dos atores.
Esse livro de Antonio Candido foi muito importante no período em que fazia o Mestrado na PUC, dando pistas singulares para entender o mundo rural e a transição dos caipiras para a cidade. Um livro que me marcou muito, e ainda tenho o meu exemplar, comprado na época, todo marcado.
Com os cursos sobre Guimarães Rosa, Clarice e agora, sobre Graciliano Ramos, volto às leituras de Antonio Candido, com muita alegria.
Cito aqui dois livros que adoro: Tese e Antítese(1971) e Ficção e Confissão (2006). Sobre esse último livro, inspirado em Alceu Amoroso Lima, que incentivou Antonio Candido a escrevê-lo, há reflexões muito importantes para entender Graciliano Ramos, tema de meu curso no IHU, que se inicia agora em março de 2023.
Gostei muito do texto de meu amigo Leando Garcia, da UFMG, comentando as cartas entre Antonio Candido e Alceu Amoroso Lima.
Lendo aqui o livro Antonio Candido: afeto e convicção (2021), delicio-me com os vários capítulos que abordam facetas da vida desse grande estudioso e professor. Já a começar pelo capítulo de autoria de Laura de Mello Franco, sobre A.Candido como contador de histórias.
Muito rico também o capítulo redigido por Max Gimenes, abordando o tema do afeto e convicção na trajetória do estudioso carioca, nascido em 24 de julho de 1918, no Rio de Janeiro.
O autor descreve com acerto os traços do caminho de Antonio Candido, considerando-o “um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX”. Acentua, de modo particular, o traço da diversidade presente em sua vida e interesse. Trata-se de um intelectual de respeito, que sempre buscou articular em sua vida o rigor de suas análises com a vocação socialista.
Gimenes divide a vida de A.Candido em três momentos: a fase da juventude, a fase do amadurecimento e a fase da maturidade.
A primeira, vem “marcada pelo abandono e uma visão de classe dominante e por um crescente interesse pelo socialismo”. Vinha de uma família rica, tendo passado sua infância em Minas Gerais – Santa Rita de Cassia - e depois se estabelece em Poços de Caldas, em razão do trabalho do pai médico.
A família passou um perído no exterior, na cidade de Berlim, no ano de 1929. Uma experiência que vem lembrada por Cândido como muito importante na sua trajetória intelectual.
Antonio Candido ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, em 1939. Sua primeira formação foi em ciências sociais. Começou cedo sua docência, em 1942, como professor assistente em Sociologia II na FFCL-USP.
Desencantou-se, aos poucos, com a sociologia, encaminhando-se para a teoria literária.
É na fase de formação, que Antonio Candido vai se aproximando do campo literário, depois de certa frustração ao não conseguir ingressar como docente catedrático na vaga aberta pela saída de Roger Bastide.
Foi quando retomou sua pesquisa clássica sobre a Formação da Literatura Brasileira, por indicação de Mário de Andrade. Os três volumes do livro foram concluídos em 1957, e marcaram o ritmo de muitas faculdades de letras no Brasil, no campo da literatura.
Na fase da maturidade, ocorre o maior engajamento de Antonio Candido, sobretudo no partido Socialista.
Ele menciona nesse campo, o influxo de Paulo Emilio Salles, responsável por sua transição de um interesse teórico para a ação prática. Teve participação ativa na Associação dos Docentes da USP (ADUSP), bem como no apoio à criação de várias associações sindicais.
Depois de sua aposentadoria na Universidade, ocorrida em 1978, sedimentou seu compromisso político, sempre marcado por muita abertura e respeito à diversidade.
Nessa época destaca-se também seu empenho na redação do livro: Vários escritos, cuja terceira edição foi publicada em 1995.
Foi um dos fundadores do PT – Partido dos Trabalhadores, em 1980, tendo participado da famosa reunião no Colégio Sion. Nessa sua transição do partido socialista para o PT foi importante o impulso dado por um antigo colega de militância partidária, Febus Gikovate.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Em boa fé - A religião no século XXI

 Em boa fé – A religião no século XXI.[1]

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

O novo livro do cardeal Gerhard Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé 

 

Terminei de ler hoje cedo o novo livro do ex-presidente da Congregação para a Doutrina da Fé - CdF (ex-Santo Ofício), que acompanhou o papa Ratzinger a partir do período de sua renúncia, em 2013.

 

Trata-se de um livro volumoso, com 223 páginas, e nove capítulos, com o prefácio de Franca Giansoldati. O conteúdo da obra envolve uma pequena biografia do autor, sua reflexão sobre o período em que esteve na frente da CdF, sua compreensão do momento atual vivido pela igreja católica e o pontificado de Francisco, bem como sua avaliação da renúncia do papa Ratzinger (Bento XVI). Reflete também sobre alguns pontos que diferenciam sua visão da de Francisco, como a  questão da sinodalidade e o futuro da igreja e outras  relativas à doutrina da igreja e suas relações internacionais. O meu objetivo aqui não é abordar todos os temas desenvolvidos no livro, mas alguns que me pareceram mais singulares segundo o meu ponto de vista. 

 

No início do livro, o cardeal Gerhard Müller fala de sua trajetória de vida, desde o tempo de sua primeira formação em Mainz, no sudoeste da Alemanha, numa região de predominância católica. Veio de uma família católica, de pais trabalhadores, sendo o irmão mais novo de outros três que já faleceram. Sua família teve sempre uma postura crítica com respeito ao Terceiro Reich, e seu pai, em particular, atribuía a Hitler a responsabilidade pela “tragédia coletiva” que significou o nazismo (BF, 21-23) 

 

Fala também sobre as influências que sofreu no curso de sua formação, e sublinha em particular as presenças de Agostinho e a Bíblia. Menciona ainda os teólogos que marcaram sua reflexão, como os Padres da Igreja,  Ratzinger (e cita particularmente o livro: Introdução ao cristianismo), Von Balthasar, Y. Congar e Karl Rahner (BF, 35). 

 

Fundamental na sua vida foi o influxo de Ratzinger, desde os tempos de sua atuação como teólogo. Müller vem se dedicando agora à curadoria da obra completa de Ratzinger, prevista para ser publicada em 16 volumes. Em sua visão, Ratzinger “representa um símbolo, encarnando a parte da Igreja alemã mais fiel ao magistério e menos inclinada a ceder face aos golpes da reforma levada adiante pelos promotores do percurso sinodal” (BF, 67). 

 

Esteve ao lado de Ratzinger, depois de sua renúncia como papa. Foi uma convivência de vinte anos com o bispo emérito de Roma. A renúncia de Bento XVI surpreendeu Müller, que não esperava tal gesto. Nenhum indício do ato pretendido foi anunciado a qualquer membro da CdF (BF, 135). Sublinha que talvez o gesto do papa se deu em razão de seu estado doentio e da percepção da proximidade da morte. Müller acrescenta ainda o influxo de toda uma campanha midiática contra o papa, que corroía suas forças (BF, 133 e 140). Só agora ficamos sabendo, pela divulgação de uma carta de Ratzinger ao seu biógrafo, Peter Seewald, qual foi o motivo real de sua renúncia: uma difícil insônia que o acometeu desde 2005, meses depois de sua eleição[2].

 

Em seu livro, o cardeal Müller deixa clara sua posição crítica com respeito à renúncia papal. Firma sua posição contrária, sublinhando que o caso da renúncia de Bento XVI deve permanecer como um “caso pessoal e excepcional” sem, absolutamente, tornar-se uma regra comum a partir de agora, com riscos danosos para o futuro da igreja (BF, 137-138). Na visão de Müller, o mandato de um papa não é resultado de um conclave, mas de um dom concedido por Deus (BF, 142).

 

O trabalho de Müller na CdF ocorreu em razão de um convite expresso de Bento XVI. Assumiu o cargo com a firme convicção de estar a serviço da defesa da fé e da doutrina. Aliás, a seu ver, todo teólogo deve ter como missão “esclarecer e defender a fé” (BF, 90-91). Trata-se de tarefa que não pode ficar restrita a um dicastério específico. Reage com firmeza contra a posição irradiada na mídia de que ele se posicionava contra Francisco. A seu ver, não era essa a verdade. Lendo, porém, o livro com calma, verificamos que há uma série de discordâncias que são aventadas.

 

O cardeal Müller  não esperava sair assim abruptamente do dicastério romano, e reage duramente contra o sucedido. Reconhece que havia vozes críticas à sua atuação na CdF, mas pontua que o seu trabalho simplesmente refletia o traço definido para qualquer prefeito do dicastério: colaborar com o pontífice e zelar pela doutrina da fé (BF, 39). Sua saída ocorreu em  2016, com uma decisão firme de Francisco, acolhida pelo então prefeito da CdF como algo “arbitrário”. Os lamentos do cardeal Müller são retomados em outras partes do livro, quando reage contra a progressiva perda de influência da CdF no pontificado de Francisco, sobretudo depois da publicação da constituição apostólica Praedicate Evangelium, de março de 2022, com o redesenho do mapa de poder na cúria romana (BF, 52). 

 

Em alguns momentos do livro, o cardeal Müller deixa escapar suas diferenças a respeito de certos teólogos da América Latina, que a seu ver padecem de “complexo de inferioridade” diante dos teólogos europeus. Teólogos que junto a outros personagens da pastoral, como o cardeal Óscar Maradiaga, não viam com benevolência a atuação curial de Müller (BF, 41-42). Em sua colocação resguarda, porém, o teólogo Gustavo Gutiérrez, a quem dedica elogios em diversos momentos do livro (BF, 41; 192-193). Numa de suas críticas mais contundentes ao trabalho de Francisco e de sua equipe, o cardeal Müller denuncia o que chamou de “espécie de círculo mágico” em torno da casa de Santa Marta, com pessoas despreparadas teologicamente (BF, 46).

 

Em vários pontos de seu livro, o cardeal Müller expressa seu descontentamento com o momento atual da igreja católica, que em sua visão corrobora com a fragmentação tomada pelo cristianismo no curso do século XXI (BF, 96; 155). Expressa sua preocupação com o influxo de certo nihilismo, bem como de um acento exagerado na dimensão horizontal da fé. Sua intenção é alertar a igreja contra o risco da “dispersão do patrimônio da fé” em reflexões doutrinais marcadas por imprecisão e confusão. No prefácio da obra, Franca Giansoldati busca resumir algumas das dificuldades que ocorrem na reflexão teológica ou pastoral corrente, que, a seu ver, acabam por diminuir a figura de Jesus Cristo ou do papel salvífico universal da igreja católica. Exemplifica com a tendência em curso de ver Jesus como um irmão, um amigo ou exemplo de vida moral, mas não como o salvador do mundo.

 

Com respeito ao papa Francisco, o cardeal Müller partilha uma visão que é comum entre outros curiais de que sua perspectiva é mais pastoral do que teológica. Considera também que entre seus auxiliares há uma carência de teólogos, o que, na sua visão, tende a enfraquecer “o caráter teológico e eclesiológico do Colégio cardinalício” (BF, 54).

 

As divergências com Francisco emergem em vários momentos da obra, quando detalha passos específicos dados pelo papa em favor de transformações na igreja. Dentre os contrastes, a visão distinta da evangelização. Para Müller, Francisco vislumbra a dinâmica evangelizadora no compasso do compromisso social em favor dos migrantes, pobres e excluídos, evitando uma compreensão de evangelização que se concentra no anúncio explícito de Jesus Cristo. Para Müller, ao contrário, torna-se essencial uma concentração no mandato da evangelização, com ênfase no anúncio (BF, 87, 93, 111, 190). 

 

O processo em curso de redesenho da cúria romana, enfraquecendo o poder da Congregação para a Doutrina da Fé, não agrada ao cardeal Müller. Daí sua contestação da constituição apostólica Predicate Evangelium, de março de 2022. Trata-se de um documento que segundo o cardeal “já nasceu com um defeito de fábrica”, em razão de sua carência eclesiológica (BF, 52). Expressa também dificuldades com a exortação apostólica pós-sinodal, a Amoris Laetitia, de março de 2016, que abria concessões problemáticas no campo da acolhida dos gays (BF, 60, 150). Em todos os seus posicionamentos públicos, o cardeal Müller defende rigidamente o matrimônio tradicional, excluindo qualquer outra possibilidade de acolhida fora dos parâmetros tradicionais, o que para ele seria um verdadeiro “sacrilégio” (BF, 113-115).

 

Em sua obra, o cardeal alemão manifesta também resistências contra o caminho da sinodalidade adotado por Francisco, que segundo ele promove uma descentralização delicada na vida da igreja, conferindo um poder excessivo às conferências episcopais. Uma descentralização que faz parte do projeto de Francisco, ao promover a internacionalização do Colégio cardinalício (BF, 55, 62, 85). Coloca também em cheque a perspectiva litúrgica de Francisco, ao abolir a missa em latim, contrariando a postura anteriormente vigente, com a carta apostólica de Ratzinger, Summorum Pontificum, publicada como um moto proprio em julho de 2007 (BF, 81-82; 84).

 

Em linha de rígida continuidade com a perspectiva ratzingeriana, o cardeal Müller mantém vinculante a declaração Dominus Iesus, publicada pela CdF em agosto de 2000, durante o pontificado de João Paulo II. Na visão do cardeal, esse documento assinado por Ratzinger expressa a “verdade absoluta” para os cristãos, sem possibilidade de alternativa. Com a acolhida da declaração, a confirmação absoluta de que só pode haver esperança salvífica em Jesus Cristo, e que só a igreja católica é sacramento universal da salvação (BF, 94-97). 

 

Com a acolhida da Dominus Iesus, a manutenção de um posicionamento restritivo no campo do diálogo das religiões. Um diálogo que vem reconhecido em seu valor, mas como um dado retórico, pois na verdade, o caminho salvífico de fato só se dá na acolhida da perspectiva católica. O cardeal Müller, defendendo tal posição, coloca em xeque o diálogo efetivo para evitar o risco de uma equivalência entre as religiões (BF, 95).

 

Temos assim, mais uma das obras publicadas durante o pontificado de Francisco, que expressam uma visão distinta de evangelização e que propõem a defesa de uma continuidade de perspectiva que vigorou durante os quarenta anos que antecederam a entrada do novo papa.

 

 

 

 

 

 

 



[1]Gerhard Müller. In buona fede. La religione nel XXI secolo. Milano: Solferino, 2023. As referencias ao livro virão no próprio texto com o código BF, seguido das páginas ou página indicada.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Neblinas na igreja católica

 Neblinas na igreja católica

 

Faustino Teixeira

 

 

Avaliando com um pouco mais de calma a conjuntura do catolicismo romano nesse difícil momento histórico, confesso que sou tomado por pasmo e preocupação. 

 

Passado esse período que se seguiu à morte do papa Ratzinger, e lendo diversos artigos que foram publicados nesse período, dou-me conta que estamos vivendo uma crise muito grave, que envolve o horizonte de um projeto eclesial, tentado levar adiante pelo papa Francisco.

 

Muitas coisas foram ditas sobre o Ratzinger, algumas interessantes e válidas. Impressionou-me o fato de em muitos artigos que li, situou-se o gesto de renúncia dele no pontificado como o grande legado que ele deixa para o mundo. A meu ver, concordando com um amigo com que acabo de conversar, o que ele deixa como legado, de fato, é ter sido um inquisidor, que puniu gravemente um enorme contingente de teólogos ou pastoralistas. Esse é o legado que fica para mim.

 

O que percebi em artigos nacionais e estrangeiros, em análises de teólogos, pastoralistas, bispos, cardeais e vaticanistas, é que a sintonia com o projeto-Francisco está muito frágil. 

 

O clima deixado pelos "lobos", para utilizar uma expressão de Marco Politi, ainda é muito firme e contagioso. As malhas de um catolicismo conservador estão bem asseguradas, depois de quatro décadas dos pontificados de Wojtilla e Ratzinger.

Uma boa parte do clero, um número impressionante de novos padres, e segmentos significativos de leigos, ficam bem mais confortados num horizonte eclesiástico tradicional. Basta ver os alunos nos institutos teológicos, de toda parte, e seu enraizamento num catolicismo conservador. 

 

Os artigos que foram feitos depois da morte de Ratzinger mostram claramente o "fio delicado" que envolve um compromisso mais efetivo com a dinâmica evangelizadora de Francisco. 

 

Confesso a vocês que ando meio sem esperança numa renovação eclesial. Aquele nosso precioso compromisso com uma Igreja que a gente acredita, vai se pulverizando num terreno de escândalos abafados e resistências cada vez mais precisas contra um catolicismo libertador. 

 

A utilização indevida do nome de Deus por católicos tradicionalistas, empenhados na defesa do governo Bolsonaro, causou-me indignação e dor. A estética das arminhas em ambientes eclesiásticos foi uma vida demonstração do encaminhamento desejado por muitos. Os episódios recentes em Brasília foram expressão de sua continuidade...

 

Essa lamentável situação ocorre também no cenário de igrejas irmãs, como a luterana, que igualmente se viu cindida por posicionamentos adversos com respeito ao apoio a Bolsonaro. A recente e contundente carta aberta de Walter Altmann, um de nossos melhores teólogos no Brasil, dirigida a um pastor bolsonarista é exemplo vivo do que está ocorrendo também em âmbito evangélico.

 

O que mais me irrita, confesso, é o silêncio que se impõe, com raras e nobres exceções, como no caso de Dom Moll e alguns outros, visualizando um costume bem naturalizado entre católicos de preferir o silêncio ao sadio profetismo.

Não são poucos os amigos, e gente maravilhosa, que me procuram e manifestam sua descrença no catolicismo que está aí; o seu cansaço com o clericalismo e a revolta com tudo o que vem sendo abafado num mundo que parece estar em "decomposição". Talvez essa seja uma palavra forte, mas é a que vem em minha mente, com tristeza. 

 

Em seu recente livro, "Vers l' implosion" (2022), a socióloga francesa, Danielle Hervieu-Léger - entrevistada por Jean-Louis Schlegel -, trata de uma série de questões que nos preocupam: os vacilos presentes numa igreja em processo de "implosão"; de um catolicismo exculturado; de uma igreja bloqueada; de um clericalismo crescente, que ela identifica como auto-imune. 

 

Ao final lança algumas perspectivas de futuro, mas bem tímidas... Grande questão levantada por ela ao final do livro: Como permanecer católico. Avança na ideia, quem sabe, de um catolicismo de diáspora e dispersão.

 

Cito um trecho do livro: "A crise de abusos sexuais e espirituais revelados depois de cerca trinta anos, faz vacilar a Igreja Católica. A crise vem do interior do catolicismo, e mesmo de seus ´melhores servidores`, padres ou leigos, mas também porque ela é universal e sistêmica. Muito debilitada por uma intensa secularização em razão das mudanças societárias da segunda metade do século XX. Por falta de reformas consequentes, a Igreja aparece cada vez mais expulsa da cultura comum, e deslegitimizada".

 

Lendo com calma o artigo de Marco Politi, um dos mais lúcidos vaticanistas, sobre a "guerra dentro da Igreja" (Il Fatto Quotidiano), minhas preocupações acumulam-se mais. 

 

Ele fala da "frente conservadora-tradicionalista" que vem se mobilizando contra Francisco, e que agora com a morte do bispo emérito de Roma tende a se agravar: "Petições foram lançadas contra Francisco, cardeais de alto nível questionaram publicamente suas posições teológicas, conferências convocadas a poucos passos do Vaticano falaram de suas ´teses heréticas`, um arcebispo-núncio exigiu perante a opinião pública mundial que Bergoglio deixou o papal trono!". 

 

Falando do governo do papa anterior, Politi sublinha que o pontífice alemão foi um "incansável produtor de uma guerra cultural contra a modernidade em nome de ´princípios inegociáveis`". 

 

E agora, num cenário modificado, depois de sua morte, o que estamos presenciando, diz Politi, são inúmeros ataques doutrinários contra Francisco, movidos por grupos de cardeais e bispos em manobras no mínimo muito estranhas. O fato mais recente, também lamentável, foi a publicação do livro de Ganswein, fiel escudeiro de Ratzinger.

 

O grosso da batalha, continua Politi, está por vir, com o Sínodo Mundial a ser realizado em Roma em 2024. Ali estará em jogo, também não tenho dúvida, "o próximo conclave que a feroz frente conservadora - fortalecida pelos temores dos moderados - pretende predeterminar."

 

Há que ter esperança, não tenho dúvida, mas está difícil!!!