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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

O outro lado da montanha

 O outro lado da Montanha

 

Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem

 

Para mudar a paisagem,

Basta mudar o que sentes”

 

(Rûmî)

 

Lendo hoje cedo um pequeno trecho de Davi Kopenawa extraído de seu livro, A queda do Céu, veio-me a inspiração para falar um pouco do Movimento das Montanhas, da vida que habita nas Montanhas. Elas não são simplesmente objetos geográficos, mas vida pulsante, que transforma vidas, como no caso da famosa montanha de Arunachula, que abrigou tantos gurus. Essa montanha mesma foi o guru de Henri le Saux, em sua experiência asiática. 

 

Thomas Merton dizia em seu Diário da Ásia (livro póstumo) que se tivesse que ser um eremita na Índia, gostaria de viver algo semelhante ao que viveu Le Saux (Swami Abhishiktananda). A vida contemplativa para Merton era essa “atenção” voltada para o Aberto, um radical “espaço de liberdade”. A contemplação é a experiência de um “temps vierge”, entendido não “como um vazio a preencher ou um espaço intocado a conquistar e violar, mas um espaço onde se possa usufruir das próprias potencialidades e anseios e da presença de si-mesmo. O tempo da pessoa”.

 

Na Ásia Merton encontrou a medula de si mesmo. Ele mesmo reconhece, quando esteve em Polonnaruwa, diante daquele enorme Buda reclinado, todo de pedra, que ali experimentou algo de novo, que nunca tinha sentido antes em sua vida: “tal senso de beleza e de força espiritual fluindo juntas em uma iluminação estética”. Reconheceu que ali, diante de Buda, conseguiu ver “aquilo que obscuramente procurava”.

 

Isso me faz lembrar Lévi-Strauss em Tristes Trópicos, quando diz já ao final do livro que aquilo que ele mais aprendeu com os mestres que escutou ao longo da vida não são senão “fragmentos de lições que, unidos uns aos outros, reconstituem a meditação do Sábio a pé da árvore”. É uma experiência única, a “única presença durável”, que faz ruir “a distinção entre o sentido e a ausência de sentido”.

 

Nos estudos que venho fazendo com antropólogos queridos, como Anna Tsing, Philippe Descola e Tim Ingold, capto uma bela retomada do animismo, compreendido em seu mais alto significado. Como diz tão bem Tim Ingold, para quem a retomada do animismo indígena significa a “reanimação” da chamada “tradição ocidental do pensamento”, “onde quer que haja vida há movimento”. Tudo está vivo ao nosso redor: o sol, as árvores, o vento. Diria que também as montanhas. Num de seus livros fantásticos do Shôbôgenzô, Dôgen sublinha que aqueles que não são capazes de ver o movimento das montanhas, são igualmente incapazes de compreender o movimento de si mesmo (Sansuikyô – Montanhas e Rios como Sutras – no Shôbôgenzô).

 

Daí Merton ter se encantado com as Montanhas em sua “despedida” da vida na Índia, que foi, na verdade, a última etapa de seu itinerário espiritual, e talvez a decisiva. Ao se ver diante da linda Montanha de Kanchenjunga, reconheceu que existe ali um “outro lado” que escapa à ocular dos turistas e fotógrafos. Existe, diz ele, “o outro lado que nunca foi fotografado e transformado em cartão postal. É o único que vale a pena ver”. Diz Merton que uma câmera “não pode reconciliar uma pessoa com coisa alguma. Nem pode ver uma verdadeira montanha”.

 

E finalizo com a maravilhosa frase de Davi Kopenawa, que inspirou esse meu post:

 

“Gostaria que os brancos parassem de pensar que nossa floresta é morta e que ela foi posta lá à toa”.

 

O grande Rûmî, dizia em poema, que há um mundo para além das palavras, um mundo impermeável às palavras. Um mundo onde "nem a vida teme a morte, nem a primavera dá lugar ao outono". Um mundo que é transfigurado. O caminho místico é aquele em que o buscador lava suas mãos e rosto nas águas deste lugar.

 

 

A apófase do desejo

 A apófase do desejo

 

Faustino Teixeira

PPCIR / IHU / Paz e Bem

 

 

Criamos no ZAP um pequeno grupo de seis pessoas para tratar temas ligados à Filosofia e Mística. O grupo se chama: Teias Místicas. Dele fazem parte amigas e amigos queridos: Eduardo Losso, Marcus Reis, Marcia Rivas, Maria José Caldeira do Amaral, Carlos Drawin e eu. Os debates são sempre muito ricos e diversificados. Partilho com vocês a postagem que fiz hoje, 17/02/2023, nesse início de amanhecer:

 

Em primeiro lugar, queridas e queridos, adorei todas as últimas reflexões postadas, tanto do Eduardo Losso – que elogiou minha experiência-cume rs rs – como as distintas postagens do Marcus Reis, inclusive aquelas comentando a defesa que ele participou. Adorei mesmo.

 

Na última postagem do Marcos, ali pelo minuto 2:07, ele fala que nunca viu um texto monástico que falasse contra o desejo, ou seja, um movimento contra o desejo. Eu cheguei a trabalhar essa questão não propriamente entre os textos de monges, mas de místicos como Porete e Eckhart. 

 

Porete, antes de Eckhart – e certamente ela exerceu influxo sobre ele – falava sobre a “apófase do desejo”. Vou partilhar aqui com vocês um trecho do meu prefácio à tradução brasileira do livro de Porete, sobre as almas aniquiladas, traduzido por minha ex-orientanda, Silvia Swartz. Eu digo:

 

“No caminho gradual de sua libertação, a Alma deve passar por três mortes: a morte do pecado, da natureza e do espírito. 

 

Nesse itinerarium, a Alma deve percorrer sete estados fundamentais. 

 

No primeiro, que corresponde à morte do pecado, a Alma vem tocada pela graça de Deus e busca observar seus mandamentos, sobretudo o amor a Deus e ao próximo. Mas ainda vive segundo o imperativo da Razão (M118:10-16). 

 

No segundo, que corresponde à morte da natureza, a Alma vive na dinâmica de imitação de Cristo e na observância dos conselhos evangélicos e das virtudes, visando uma vida espiritual de despojamento (M118:30-40). 

 

No terceiro estado, a Alma vem aquecida no seu desejo de puro amor. Para tanto, faz-se necessário romper com a centralidade da vontade e radicalizar o despojamento do eu: “É necessário pulverizar-se, rompendo-se e suprimindo-se, para alargar o lugar onde Amor gostaria de estar, e aprisionar-se em vários estados, para liberar-se de si mesmo e alcançar o seu estado” (M118;65-68). 

 

No quarto estado, a Alma vive um momento de delicadeza especial, atenta aos toques do Amor dileto. Concentra-se agora no exercício da meditação e contemplação. É um momento de embriaguez espiritual, quando a visão vem embaralhada pela claridade do Amor (M118:70-90). 

 

No  quinto estado se dá a mudança mais essencial, que corresponde à terceira morte. É sobre ele que mais fala o Miroir.  A Alma vem agora “raptada” pela luz divina e toma consciência de que Deus é e que ela não é. Trata-se de uma experiência de “centelha” divina, que se abre e fecha, acenando para a Alma os mistérios do sexto estado. 

 

A obra da centelha “não é senão a demonstração da glória da Alma. Isso não permanece por muito tempo em nenhuma criatura, exceto somente no espaço de seu movimento” (M58:32-34). 

 

A Alma alcança o mistério da profundidade e da humildade: “Agora essa Alma é nada, pois vê seu nada por meio da compreensão divina, que a faz nada e a coloca no nada” (M118:136-138). 

 

É o momento em que a Alma “descansa nas profundezas, onde não há mais fundo, e por isso é profundo. Essa profundeza lhe faz ver muito claramente o verdadeiro Sol da altíssima bondade, pois ela não tem nada que lhe impeça essa visão” (M118:153-156). 

 

O sexto estado marca um momento de perfeição espiritual, quando a Alma deixa de ver a si mesma, mas é Deus mesmo “que se vê nela por sua majestade divina” (M118:184-185). 

 

Tudo o que existe passa a ser percebido como diafania de Deus.

 

A Alma está agora “liberada de todas as coisas”, não consegue ver nada que não seja Deus mesmo: “Aquele que é, no qual todas as coisas são” (M118:186-187). Mas essa alma “liberada” não é ainda a alma ´glorificada`. A alma só vive sua glorificação no sétimo estado, que acontece na glória eterna.”

 

Lembro-me bem que tratei com calma todo esse movimento da alma num curso aqui no nosso programa de pós-graduação (PPCIR) em que o livro de Porete foi o objeto central. Um curso de um semestre. Fomos debatendo parte por parte a tradução feita com Sílvia da única obra escrita por Porete, que foi objeto de sua condenação à fogueira.

 

Numa passagem clássica do livro de Porete, ela diz os rios perdem o nome quando chegam no mar: Como "um corpo de água que flui para o mar (...). Quando essa água ou rio retorna ao mar, perde seu curso e o nome com o qual flui em muitos países realizando sua tarefa. Agora ele está no mar onde repousa".

 

Em outro curso sobre Eckhart, abordei os sermões alemães, que são simplesmente magníficos para entender esse processo. 

 

Cito aqui dois sermões que me marcaram muito. O primeiro é super conhecido, e aborda a questão da pobreza (Sermão Alemão 52 – SA 52). O outro é o Sermão 83. Eckhart está tratando aqui no Sermão 52 da bem-aventurança dos pobres. Ele diz que o homem pobre é aquele “que nada quer, que nada sabe e que nada tem”. Assinala que se o humano quer de fato alcançar a pobreza verdadeira deve “estar vazio de sua vontade criada como ele era quando ainda não era”. 

 

Eckhart diz que a bem aventurança não está no conhecer, nem mesmo no amar, mas situa-se em algo que já ocorre antes: “Algo na alma do qual efluem conhecer e amar”. Complementa dizendo que “quem aprende a conhecer esse ´algo` sabe onde está a bem-aventurança”.

 

Quando Eckhart fala do pobre que nada tem, tocamos, finalmente a questão da vontade e do desejo, ou melhor, da apófase do desejo. O homem pobre é aquele que nada tem (nem mesmo mais o desejo). Ele é assim tão pobre que não quer mais sequer “a vontade de Deus”. Essa é a “pobreza mais extrema”. Diz Eckhart no sermão 52, e convoca os leitores a prestarem bem atenção,  que “o homem deve ser tão vazio de todas as coisas e todas as obras, tanto interiores como exteriores, a ponto de ser um lugar próprio onde Deus possa atuar (...). Se Deus ainda encontrar no homem vazio de todas as criaturas, de Deus e de si mesmo, um lugar para atuar, enquanto isso ainda acontecer, o homem ainda não é pobre na extrema pobreza”. 

 

Sempre achei magnífica essa passagem e super exigente... quase impossível de ser vivida: seria a expressão máxima do despojamento: livrar-se do lugar mesmo de presença de Deus dentro de si. Se você ainda tem um lugar de Deus dentro de si, você ainda não encontrou a libertação. E vamos dormir com um barulho desses. São coisas assim fantásticas da mística. 

 

Digo a vocês, amigas e amigos queridos, que foi Merton o que primeiro me ajudou a entender essa passagem magnífica de Eckhart. Isto no seu livro precioso: Zen e as aves de rapina. Na edição que tenho, da editora Civilização Brasileira (1972), está na página 14. Ele está tratando ali da questão do “esvaziamento”. Cita também Cassiano, quando fala em “pureza de coração”, ou “virgindade espiritual”. 


Quando destaca em sua reflexão a presença de Eckhart, reconhece que a verdadeira pobreza requer a superação mesma de um “lugar” para Deus dentro de si, onde ele pudesse atuar. O verdadeiro despojamento, nos liberta de Deus: “Deus, livra-me de Deus”. Para Eckhart, “onde o homem ainda contém em si lugar, ali ainda conserva diferenciação. Por isso peço a Deus que me esvazie de Deus; pois meu ser essencial é acima de Deus”.

 

Nessa perspectiva, amigas e amigos, de todos nós desse grupo o mais místico é o Eduardo, que sempre esteve despojado desse “lugar” para Deus dentro de si. Por isso Eckhart foi questionado como o grande provocador do ateísmo mais puro. Diz ainda Eckhart, que também me faz lembrar Rilke: “Se eu, porém não fosse, também ´Deus` não seria” (quem sabe uma defesa mística do antropocentrismo rs rs).

 

Mas quero ainda dizer duas coisas: uma sobre Angelus Silesius, sobre o qual também escrevi a pedido de Marco Lucchesi, e depois mais um trecho de outro sermão de Eckhart. Primeiro Silésius, tomado de meu texto:

 

“Entre os passos essenciais sublinhados por Silesius no caminho da busca espiritual está o desapego e o despojamento. 

 

É um tema recorrente no Peregrino Querubínico. A noção de Abegescheidenheit, entendida como desprendimento, vem também indicada por Silesius como condição para a liberdade e a fruição do mistério. 

 

Trata-se de um “recolhimento” de si para lidar com as coisas de forma mais livre e serena. O acento nesta perspectiva indica como Silesius foi dentre os místicos modernos aquele que melhor compreendeu as intuições eckhartianas.

 

            “Os santos tanto mais se embriagam pela divindade de Deus

            Quanto mais neles se perdem e se afundam” (PQ I, 210)

 

Para esse mergulho em Deus é necessário vencer a barreira do eu. 

 

Quando se rompe o egocentrismo o mundo pode ser admirado com os olhos de Deus. Mas há que lutar contra esse inimigo mais duro, e “que mais lentamente se vence” (PQ III,233). Mas quando se supera essa barreira, o coração “recebe Deus” e diante dele “se abre como a rosa” (PQ III, 87).

 

Outro obstáculo no caminho espiritual é o apego e a fixação nas mediações. São tais vínculos que dificultam o acesso ao “trono de Deus” (PQ I, 143). O místico silesiano ousa mais alto: 

 

            “Fora com as mediações! Se devo olhar a minha luz,

            Nenhum muro deve se levantar diante do meu olhar” (PQ II, 43)

 

O desapego é também para Silesius o modo de ´capturar` Deus (PQ II, 92), mas isso requer uma dinâmica espiritual de ´alargamento do coração (PQ II, 106). 

 

Mediante esse destacamento de si, o sujeito pode operar passivamente em Deus, ou como indica Silesius, com uma expressão típica da sua mística, “sofrer Deus” (Gott Leiden) e “nele repousar” (PQ V, 207; PQ IV, 197). 

 

O destino do humano, sublinha Silesius, é naufragar no Mar da Divindade (PQ IV, 139). Para ele, um bem-aventurado naufrágio. 

 

Para os que trabalham o tema da mística nas distintas tradições religiosas, o Mar ganha uma simbolização peculiar, enquanto sinal fundamental da Divindade. O tema da união da alma com Deus, como a gota no Mar, vem retomado com frequência na obra de Silesius. Ele fala em “submergir” o eu na Divindade (PQ I,6) , em morrer “antes de morrer” (PQ IV, 77), em “morte mais ditosa” (PQ 1, 28). 

 

Tudo para expressar esse desapego essencial. Enquanto o anjo contempla a Deus “com olhos serenos”, aquele que vive o despojamento pode ainda mais, abandonando-se inteiramente a Ele (PQ I, 164). Esse abandono em Deus faz parte do anseio mais sagrado do humano, pois traduz o encontro com sua razão de ser: 

 

            “Deus é meu espírito, meu sangue, carne e ossos:

            Como então posso não ser todo nele transformado?” (PQ I, 216).

 

Para finalizar, retomo aqui outro sermão alemão de Eckhart, o de número 83, que aborda uma passagem da carta aos Efésios (Ef 4,23). Comentando um clássico, mestre pagão, Eckhart sublinha que tudo o que dizemos sobre as causas primeiras traduzem não o que elas são, mas o que somos nós mesmos. Por isso, tudo aquilo que dizemos sobre Deus, não revela o que Deus é. Daí ser problemático dizer: “Deus é bom” ou que “Deus é um ser”. Tudo isso é equivocado segundo Eckhart. O que Deus é na verdade, diz ele, é uma “nadidade sobreessencial”. E se remete a Agostinho para confirmar sua tese. Agostinho diz que “o mais belo que o homem pode dizer sobre Deus consiste em poder calar-se em virtude da sabedoria da riqueza interior”. Na verdade, quanto “tagarelamos” sobre Deus estamos mentindo e pecando.

 

 



[1]Reiner SCHÜRMANN. Maître Eckhart ou la joie errante. Paris: Payot & Rivages, 1972, p. 139-40 (nota 1).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

O enigma Vandré

 O enigma Vandré


Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem


Depois que terminei de escrever meu artigo sobre as canções de Geraldo Vandré consegui adquirir um livro sobre ele, publicado no Brasil em 2011, numa editora de Belo Horizonte (Editora Fino Traço). Sua autora é Dalva Silveira, e o título do livro: “Geraldo Vandré: a vida não se resume a festivais”.
O livro é fruto de uma dissertação de mestrado defendida pela autora na PUC-SP, no Departamento de Ciências Sociais, em 2010. Sua orientadora foi a professora Dra. Maria Celeste Mira.
O livro tem quatro capítulos: Vandré caminhando rumo ao sucesso; Vandré e “caminhando”; Vandré: perseguição e exílio; Vandré: exilado em sua pátria.
Não vou me ater aqui a todo o livro, mas a uma parte que mais me intrigou, que se relaciona ao período de seu retorno ao Brasil, em 1973.
Em seu período de exílio no Chile há registro de uma gravação, em 1969. Trata-se de um compacto de capa branca com os dizeres: Vandré no Chile. Foi editado pelo Banco Benvirá, e tinha apenas duas músicas, cantadas em espanhol: Desacordonar e Camiñando. Trata-se de um disco enigmático, como Vandré, e quem teve acesso a uma das cópias é privilegiado. 

No disco, Vandré canta acompanhado do violão. É impressionante ouvir a versão de Camiñando, que vem cantada por Vandré, com ele no violão e também uma viola bonita e percussão. Nessa versão há momentos emocionantes, onde Vandré não consegue segurar o choro.
Há também a gravação na França do belo LP, Das Terras de Benvirá, gravado em 1970, depois relançado no Brasil em 1973.
Sobre esse LP há controvérsias. Há quem não goste, como o jornalista Mauricio Kubrusly; e quem veja no LP uma obra prima, como o jornalista e escritor Celso Lungareti e o jornalista Mauro Dias, do Estadão.
Na França Vandré ficou 18 meses. Antes de voltar para o Brasil, em suas andanças pelo exílio, Vandré passou por muitas dificuldades, também psicológicas. Justamente no ano em que veio para o Brasil, em 1973, foi quando ocorreu uma crise bem séria, chegando a ficar internado numa clínica de repouso chilena por mais de 40 dias.
Dalva Silveira, em sua dissertação, cita um artigo da psicanalista Maria Rita Kehl, onde ela relata o papel da Rede Globo de Televisão nos anos 1970, depois do AI-5 (1968).
É uma análise que ajuda a compreender o período histórico nacional que coincide com a chegada ao Brasil de Vandré. Nesse momento, a Globo buscava “camuflar a realidade desigual” vivida no país. O canto representativo na ocasião era: “Hoje é um novo dia de um novo tempo que começou...”.
O clima era totalmente avesso à recepção de Vandré, e de sua fama no país. Segundo Dalva, essa presença da mídia televisiva, somada com o aumento da censura restringiam ou desqualificavam o espaço para as canções de protesto”.
Depois do AI-5 Vandré ficou afastado do Brasil por quase cinco anos, um período em que “o governo militar tentou apagar Vandré e sua obra da memória coletiva nacional”.
Foi um tempo de silêncio compulsivo sobre ele, um castigo que o puniu “de forma cruel, fazendo com que sua imagem fosse praticamente apagada”.
A autora da dissertação lembra, porém, que de forma curiosa, o fascículo 34 da coleção Música Popular Brasileira, da Editora Abril, dedicado a Vandré teve uma venda impressionante, só perdendo para Roberto Carlos.
Não há muito o que falar sobre o que aconteceu com o Vandré depois que ele chegou no Brasil, em 1973. As notícias a respeito são muito controvertidas. Estamos ainda em busca de uma explicação, que, quem sabe, ainda vai surgir para nós.
Um dos complexos enigmas que envolvem o seu retorno é seu duplo desembarque no país. Para alguns, ele retornou em 17 de julho de 1973; para outros, em 18 de agosto do mesmo ano.
Acredito, com o apoio de outros autores, incluindo a posição de Dalva, que seu real retorno tenha se dado em julho.
Ocorre que seu depoimento na Globo com sua “retratação”, aconteceu na data de agosto, ou seja mais de 30 dias depois da primeira data aventada. Isso significa que Vandré, antes de conceder o depoimento, já estava no Brasil sob a custodia do Exército há mais de 30 dias.
O que ocorreu com ele nesse período ? Tudo é uma incógnita. A retratação de Vandré, em horário nobre do Jornal Nacional, foi depois do “falso desembarque”.
E ele disse na ocasião:
“Olha, em primeiro lugar, eu acho que as minhas canções de hoje são mais anunciativas do que denunciativas. E eu espero integrá-las à realidade nova do Brasil, que espero encontrar em um clima de paz e tranquilidade. Mesmo porque a vinculação de meu trabalho, até hoje, com a utilização por qualquer grupo político, ocorreu sempre contra a minha vontade”.
Outro detalhe interessante, relatado por Dalva em sua tese. Depois de sua “retratação” no Jornal Nacional, houve uma tentativa de Vandré reintegrar-se no meio artístico. Chegou a gravar duas aparições, uma no Fantástico e outra no programa de Flávio Cavalcanti. As duas aparições foram censuradas, e não foram ao ar.
Em depoimento dado por sua ex-esposa, Nilce Tranjan, recuperado no livro de Dalva, ela diz que Vandré chega ao país em meio a uma “ditadura desgraçada”, numa situação totalmente desfavorável para qualquer continuidade de sua carreira.
Foi nesse contexto que ele foi “obrigado a se retratar”, com um “personagem” que não era mais “a antiga figura”.
Curiosamente, depois de seu retorno ao Brasil, o próprio compositor e cantor dizia que o Vandré tinha morrido, e que o que estava de volta era o advogado Geraldo Pedrosa de Araújo Dias...
Em matéria publicada na Folha de São Paulo, em 12/09/85, afirmava-se que Vandré “passou a vagar pela cidade de São Paulo. Fazia aparições esporádicas, às vezes entrava numa redação de jornal, sentava-se numa máquina e escrevia laudas e laudas, em silêncio. Ninguém tinha coragem de perguntar o que ele estava fazendo”.
Em outro relato destacado em seu trabalho, Vanda diz que certo dia o cantor Benito de Paula encontrou Vandré recitando um poema para um poste. Impactado com o que viu, compôs um samba, com o título: “O que foi que fizeram com ele”.
Num dos versos se dizia:
"O que foi que fizeram com ele?
Não sei
Só sei que esse trapo,
esse homemfoi um rei".
Em trabalho de Paulo César de Araújo, “Eu não sou cachorro não: música popular cafona e ditadura militar” (Record, 2005), o autor fala desse mistério que ronda o intervalo que ocorreu entre o primeiro embarque e o falso embarque, quando se deu a famosa “retratação” de Vandré.
Segundo o autor, Vandré esteve nesse período incomunicável num unidade do I Exército, no Rio de Janeiro.
Entre as diversas pessoas consultadas por Vanda em sua dissertação, grande parte delas acredita que Vandré não sofreu tortura física, mas sim psicológica, nos dias em que esteve recolhido.
É o que pensam, por exemplo o pastor Jaime Wright e a ex-esposa Nilce Trajan. Para Nilce, o que aconteceu com Vandré foi uma forte pressão psicológica: “torturas psicológicas” que “acabaram com ele”.
Vandré era alguém frágil, e isso verificamos mesmo antes de sua saída do Brasil; alguém tomado pelo medo da prisão. Era, assim, alguém “sem estrutura para suportar pressões”.
Toda essa história um dia, certamente, poderá vir à tona com maior transparência, o que é o desejo de todos.
Depois que escrevi o meu artigo sobre Vandré, que deve sair proximamente na revista Numen do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, recebi uma mensagem de Frei Betto, emocionado com a leitura do meu texto que tinha enviado para ele. Betto dizia ao final de seu texto que ao fazer uma conferência em Teresópolis há cinco ou seis anos, recebeu ao final, um abraço carinhoso de Vandré, que estava morando nas redondezas, num sítio. Os dois conviveram em São Paulo nos anos de 1966-1968. Betto comentou que Vandré estava muito diferente: "Parecia ter 300 anos! Carcomido pela dor e pelo tempo".

sábado, 11 de fevereiro de 2023

A nobreza de um grande pensador: Antonio Candido (1918-2017)

A nobreza de um grande pensador: Antonio Candido (1918-2017) 


Faustino Teixeira


Sempre comentei com meus alunos e amigos que uma de minhas maiores frustrações na vida acadêmica foi não ter sido aluno de Antonio Candido.

Sou verdadeiramente apaixonado por suas reflexões e tenho comigo grande parte de seus livros.
Quando comecei a dar aulas de literatura, no final de minha atuação como professor ordinário do PPCIR da UFJF, um pouco antes de 2017, ano de minha aposentadoria, passei a ler com grande interesse a obra de Antonio Candido (1918-2017).
Antes, quando estava iniciando minha docência na PUC-RJ, em 1978, entrei em contato com a preciosa obra “Parceiros do Rio Bonito”, que foi tese doutoral de Antonio Candido, defendida na USP no departamento de Ciências Sociais, em 1954 (ano de meu nascimento).
Na ocasião, tive também o privilégio de ver várias vezes a peça teatral “Na carreira do Divino”, baseada no livro de A.Candido.
A peça foi dirigida por Paulo Betti, com a presença de sua então mulher, Eliane Giardini, com a qual foi casado por quase 25 anos. O grupo que apresentou o trabalho estava ligado à Universidade de Campinas. A peça era maravilhosa, com trilha sonora incrível e a participação exemplar dos atores.
Esse livro de Antonio Candido foi muito importante no período em que fazia o Mestrado na PUC, dando pistas singulares para entender o mundo rural e a transição dos caipiras para a cidade. Um livro que me marcou muito, e ainda tenho o meu exemplar, comprado na época, todo marcado.
Com os cursos sobre Guimarães Rosa, Clarice e agora, sobre Graciliano Ramos, volto às leituras de Antonio Candido, com muita alegria.
Cito aqui dois livros que adoro: Tese e Antítese(1971) e Ficção e Confissão (2006). Sobre esse último livro, inspirado em Alceu Amoroso Lima, que incentivou Antonio Candido a escrevê-lo, há reflexões muito importantes para entender Graciliano Ramos, tema de meu curso no IHU, que se inicia agora em março de 2023.
Gostei muito do texto de meu amigo Leando Garcia, da UFMG, comentando as cartas entre Antonio Candido e Alceu Amoroso Lima.
Lendo aqui o livro Antonio Candido: afeto e convicção (2021), delicio-me com os vários capítulos que abordam facetas da vida desse grande estudioso e professor. Já a começar pelo capítulo de autoria de Laura de Mello Franco, sobre A.Candido como contador de histórias.
Muito rico também o capítulo redigido por Max Gimenes, abordando o tema do afeto e convicção na trajetória do estudioso carioca, nascido em 24 de julho de 1918, no Rio de Janeiro.
O autor descreve com acerto os traços do caminho de Antonio Candido, considerando-o “um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX”. Acentua, de modo particular, o traço da diversidade presente em sua vida e interesse. Trata-se de um intelectual de respeito, que sempre buscou articular em sua vida o rigor de suas análises com a vocação socialista.
Gimenes divide a vida de A.Candido em três momentos: a fase da juventude, a fase do amadurecimento e a fase da maturidade.
A primeira, vem “marcada pelo abandono e uma visão de classe dominante e por um crescente interesse pelo socialismo”. Vinha de uma família rica, tendo passado sua infância em Minas Gerais – Santa Rita de Cassia - e depois se estabelece em Poços de Caldas, em razão do trabalho do pai médico.
A família passou um perído no exterior, na cidade de Berlim, no ano de 1929. Uma experiência que vem lembrada por Cândido como muito importante na sua trajetória intelectual.
Antonio Candido ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, em 1939. Sua primeira formação foi em ciências sociais. Começou cedo sua docência, em 1942, como professor assistente em Sociologia II na FFCL-USP.
Desencantou-se, aos poucos, com a sociologia, encaminhando-se para a teoria literária.
É na fase de formação, que Antonio Candido vai se aproximando do campo literário, depois de certa frustração ao não conseguir ingressar como docente catedrático na vaga aberta pela saída de Roger Bastide.
Foi quando retomou sua pesquisa clássica sobre a Formação da Literatura Brasileira, por indicação de Mário de Andrade. Os três volumes do livro foram concluídos em 1957, e marcaram o ritmo de muitas faculdades de letras no Brasil, no campo da literatura.
Na fase da maturidade, ocorre o maior engajamento de Antonio Candido, sobretudo no partido Socialista.
Ele menciona nesse campo, o influxo de Paulo Emilio Salles, responsável por sua transição de um interesse teórico para a ação prática. Teve participação ativa na Associação dos Docentes da USP (ADUSP), bem como no apoio à criação de várias associações sindicais.
Depois de sua aposentadoria na Universidade, ocorrida em 1978, sedimentou seu compromisso político, sempre marcado por muita abertura e respeito à diversidade.
Nessa época destaca-se também seu empenho na redação do livro: Vários escritos, cuja terceira edição foi publicada em 1995.
Foi um dos fundadores do PT – Partido dos Trabalhadores, em 1980, tendo participado da famosa reunião no Colégio Sion. Nessa sua transição do partido socialista para o PT foi importante o impulso dado por um antigo colega de militância partidária, Febus Gikovate.