quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

A ruptura no tecido católico brasileiro

 A ruptura no tecido católico brasileiro

 

Faustino Teixeira

UFJF/IHU

 

Queria em primeiro lugar agradecer ao convite feito pela amiga querida, pastora Romi Benck e membros da Coordenação da Comissão Brasileira Justiça e Paz,  organizadora desse evento[1]. Fico feliz de voltar, depois de algum tempo, ao tema da conjuntura eclesiástica e eclesial no Brasil. Desculpo-me por falar de longe, utilizando o recurso das redes, em razão de cuidados com a saúde.

 

Vou buscar seguir a seguinte estratégia: vou me utilizar do artigo de Pedro Ribeiro de Oliveira, publicado no IHU-Notícias[2], e a partir de suas colocações vou inserindo alguns dados, comentários e observações.

 

Logo no início de seu artigo Pedro fala do agravamento do dissenso na igreja católica nesse período eleitoral. Ele diz:

 

“Entre os muitos estragos causados pelo recente processo eleitoral está o agravamento do dissenso no interior da Igreja Católica. É como se os remendos que já há algum tempo vinham sendo colocados sobre um tecido esgarçado revelassem de uma hora para outra sua inutilidade. Não há mais como esconder: a Igreja Católica está dividida e essa divisão não pode mais ser disfarçada.”

 

Ele busca dar uma explicação sociológica para o fato:

 

“Sabemos bem que a Igreja Católica se distingue entre as Igrejas cristãs por sua enorme capacidade de conviver com as diferenças religiosas. Desde que tenha sido batizada e não renegue publicamente a fé ou a igreja, a pessoa é católica – pouco importando o que crê ou sua maneira de relacionar-se com o sagrado. O fato novo, agora, é que o avanço neofascista na Igreja trouxe divergências de ordem moral e política incompatíveis entre si, tornando praticamente impossível uma verdadeira comunhão eclesial. Sinal disso é a crescente disseminação de rituais do tempo de Pio XII o concílio Vaticano II não tivesse existido. Mais do que uma afinidade afetiva entre a postura política neofascista e os ritos anteriores à reforma litúrgica, existe uma afinidade estrutural entre eles.”

 

Aqui faço um primeiro comentário: temos de estar cientes que vivemos um período eclesial que está envolvido por mais de trinta e cinco anos: uma conjuntura marcada pelo projeto de restauração, como bem lembrou o então cardeal Ratzinger em seu livro: Rapporto sulla fede, de 1985[3]. É um livro que considero fundamental para entender o que ocorreu nas décadas seguintes. Ele falava ali de restauração como busca de um “novo equilíbrio para a igreja” depois da indiscriminada abertura ao mundo provocada pelo Vaticano II[4]

 

No livro já aparecem uma série de traços que vão marcar a restauração: os desequilíbrios na eclesiologia pós-conciliar (por exemplo, a ideia de povo de Deus; a ideia de igreja “nossa”; de democracia na igreja); a crítica às conferências episcopais como colegialidade efetiva (ele vai falar em colegialidade afetiva); o drama da teologia moral (para ele, o lugar principal das tensões entre magistério e teologia); o empobrecimento da liturgia; os abusos no ecumenismo (e o risco do esgarçamento da verdadeira essência da fé católica)[5].

 

A tensão interna na igreja, de eclesiologias em conflito, continua a perdurar. É o que sublinha o vaticanista Marco Politi em seu livro: Francesco, la peste, la rinascita  (2020)[6]. Ele aponta a difusão crescente da oposição de ultra-conservadores contra o pontificado de Francisco. Um verdadeiro ataque contra a linha evangelizadora levada por ele. Politi já tinha abordado a questão do isolamento de Francisco em dois outros livros: Francesco tra i lupi(2014) e La solitudine di Francesco(2019)[7].

 

Nesse último livro, Politi fala de uma cúria “irritada” com Francisco[8]e da crescente desafeição da fé entre as mulheres[9](p. 193); fala igualmente de um novo fenômeno na igreja: “crer sem pertencer”[10](p. 210). Enfatiza, porém, o tema da solidão de Francisco.[11]

 

Obstáculos difíceis surgem por todo canto, como mostra Politi em seus trabalhos:  no ataque aos pronunciamentos, viagens e gestos de Francisco. Os adversários crescem em força e popularidade, acentuando ainda mais a solidão de Francisco, que corajosamente se move entre os lobos. 

 

Sobre essa oposição debruça-se Politi no final de seu livro, Francesco, la peste, la rinascita, sobretudo dos ultra-conservadores[12]. Francisco, porém, segue em frente olhando corajosamente para o alto. Deixa as preocupações maiores aos pés de São José dormente, cuja imagem o acompanha em seu quarto. Elas se revertem em bilhetes para o santo. E depois dorme tranquilo. Como Riobaldo Tatarana, de Grande Sertão: Veredas,  Francisco faz de sua vida um ato de coragem crescente, e de entrega ao poder sanador das rezas. 

 

E reage profeticamente: “Quando vejo cristãos muito arrumadinhos, que angariam a posse da verdade, da ortodoxia e da doutrina verdadeira, e são incapazes de sujar as mãos para ajudar os outros a levantarem (...). Quando vejo esses cristãos digo: vocês não são cristãos, mas teístas com água benta cristã, mas não chegaram ainda ao cristianismo”[13]

 

Pedro Ribeiro chama a atenção para outro tópico, que também esteve na mira da restauração romana: o “risco” da irrupção das mulheres na igreja. Quanto a isso, sublinha o seguinte a respeito da união entre a postura política neofascista e os ritos anteriores à reforma litúrgica:

 

“O que os une estruturalmente é a rejeição à última inovação da modernidade: o ascenso social das mulheres minando o sistema familiar fundado no patriarcado. É o próprio sistema de poder masculino – chefe de família ou chefe de igreja – que se esvai, obrigando todos os demais componentes a redefinirem seu papel. Como se isso fosse pouco, vem à tona toda a questão da sexualidade, agora vista sob o prisma das teorias de gênero e assumida pela bioética que não se deixa reger por normas religiosas.”

 

Todo esse arcabouço vem sendo questionado nas últimas décadas pela teologia feminista e por práticas inovadoras na vida pastoral. Retoma Pedro sua reflexão:

 

“O ideário patriarcal, que sustentou tanto a organização familiar quanto a principal Igreja do Ocidente, encontra-se agora sob ataque não só do feminismo, mas também de outros movimentos libertários, decoloniais e contra o supremacismo.”

 

E isso tem provocado resistência crescente em segmentos da igreja católica:

 

“Diante desse ataque, o elo entre o neofascismo e o enrijecimento da liturgia tridentina cria um movimento propriamente reacionário: ambos se colocam em defesa de um sistema de poder cujas bases estão irremediavelmente abaladas. Aí reside sua afinidade estrutural. Nem um nem outro apresenta algum projeto de futuro: ambos idealizam um passado que nunca existiu e infundem o medo ao futuro assombrado por um fantasma comunista.”

 

Acrescento aqui a delicada questão das denúncias que vão crescendo por toda parte, envolvendo desequilíbrios do clero e do episcopado no campo da sexualidade:

 

Vale lembrar, que tais questões foram decisivas para a decisão da renúncia do papa Bento XVI: veja o importante capítulo do livro de Marco Politi, Joseph Ratzinger crisi di un papato (2011)[14], cujo título é indicativo: o grito dos inocentes (capítulo 11). Ali vem citada a carta do papa dirigida aos católicos da Irlanda, em 19 de março de 2010, onde Bento confessa os graves pecados da igreja. Diz ele: “Em nome da igreja expresso vergonha e remorso”[15]. Já antes, em 2004, o papa Bento XVI havia dado início ao processo contra Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo.

 

E agora, na França, nos deparamos com a publicação feita pela comissão independente sobre o abuso sexual na igreja. Uma comissão criada em 2019 a pedido do episcopado francês. Ela acaba de divulgar o impressionante número de abusos sexuais cometidos por religiosos/as no âmbito da sexualidade, envolvendo em 70 anos 330.000 pessoas[16]

Toda essa problemática envolvendo o tecido eclesial vem também sublinhada por Danièle Hervieu-Léger e Jean Louis Schlesing, em importante livro de entrevista: Vers l'implosion ? Entretiens sur le présent et l'avenir du catholicisme (2020)[17].

Retomando ao artigo que nos guia, Pedro adverte-nos sobre o novo momento que indica uma migração de católicos para o tradicionalismo:

 

“O período eleitoral e os movimentos golpistas posteriores ao resultado do 2º turno mostraram o quanto esse medo foi difundido em diferentes segmentos da população brasileira, entre os quais destaco os católicos que migraram do movimento carismático para o tradicionalismo.No campo católico, esse movimento reacionário veio aprofundar o dissenso que já estava em curso numa Igreja em processo de encolhimento, como mostram as celebrações dominicais cada vez mais esvaziadas de fiéis.”

 

Outro comentário meu. Fico impressionado com o ritmo dessa presença conservadora entre os fiéis católicos, bem como no clero e episcopado.  E tudo pontuado por acentuação de uma “raiva”[18]que nos preocupa. Quando nos deparamos com os circuitos bolsonaristas, nesse momento da pós-eleição, chama a atenção o olhar de ódio expresso por alguns, como o violento cachorro do conto de Coetzee: “O cachorro se atira contra a cerca. Um dia, diz o cachorro, esta cerca vai ceder. Um dia, diz o cachorro, vou te despedaçar”[19].

 

Para um maior esclarecimento da questão, chamo aqui a atenção para um precioso livro publicado no Brasil, que aborda o tema do crescimento da direita no país: João Cezar de Castro Rocha. Guerra Cultural e Retórica do ódio[20]. Tratando a questão da ascensão da direita como um movimento subterrâneo, o autor sublinha:

 

"Sem maiores suspenses: entre os anos de 2002 e 2016, a presença democrática e legítima, de um partido de esquerda no governo federal, permitiu o estabelecimento de uma associação nova: ser oposição ao sistema, ao establishment, passou a significar assumir posições de direita.[21]

 

O autor busca fazer um cálculo interessante:

 

“Um adolescente que em 2002 tivesse 14 anos, em agosto de 2016 tinha 28 anos. Se tivesse 18 anos, completou em 2016, 32 anos. Radicalizemos na aritmética política do talvez quem sabe o inesperado faça uma surpresa: se nosso adolescente modelo tivesse 10 anos em 2002, na saída da presidente Dilma Roussef, chegou aos 24 anos (...). Visto pelo avesso, isso também quer dizer que houve uma geração que ingressou na adolescência e nos anos iniciais da vida adulta assistindo a um partido de esquerda triunfar em quatro eleições presidenciais, e com fôlego para um projeto de poder ainda mais longevo”[22].

 

E a semente da direita foi sendo gestada, desde o início da redemocratização, como lembra o autor:

 

A reorganização subterrânea da direita principiou no início mesmo da redemocratização, já em 1985, e se adensou na década de 1990, recrudescendo, e muito, em 2002 com a primeira vitória do PT à presidência. O triunfo de Dilma Roussef, em 2010, e a instalação da Comissão da Verdade, em 19 de novembro de 2011, forneceram o combustível que faltava para a explosão de uma energia que se acumulou por duas décadas."

 

Foi quando então, nessa atmosfera, que Jair Bolsonaro "obteve sua votação mais expressiva precisamente em 2014, quando obteve uma conquista inédita, tornando-se o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro, com 464.772 votos.[23]"

 

Para João Cesar, o caminho de acolhida de Jair Bolsonaro foi sendo tecido de forma cuidadosa e muito bem planejado, daí ter conseguido os impressionantes 57.797.847 votos válidos para a presidência da república em 2018, ou seja: 55,13% dos votos válidos. 

 

Para o desenvolvimento de sua argumentação, João Cesar faz recurso a dois argumentos que gostaria aqui de evidenciar: 

 

(a) Para se compreender pertinentemente a ascensão da direita no Brasil nos últimos anos, há que pesar o importante influxo do pensamento e ação de Olavo de Carvalho, a partir de 1990. 

 

Ele atuou em várias frentes: programa de rádio, curso on-line de filosofia, no seu canal do you tube, no seu perfil do Facebook e na sua conta do Twitter. Ressalto aqui a bem sucedida ação da direita nas redes sociais, transformada em plataformas políticas de longo alcance.

 

Mesmo não sendo um intelectual de expressão, Olavo de Carvalho dispunha não só de uma “prosa hipnotizante” e um discurso com “poder encantatório”, sobretudo no livro: “O jardim das aflições”[24]. Algo que eu também já me dava conta em conversa com o músico Thiago Amud.

 

Com Olavo de Carvalho inaugurou-se um traço nefasto na dinâmica social brasileira que é a "retórica do ódio". Com ele veio o incremento de uma "pulsão autoritária, cujo ponto de partida seria precisamente a supressão de toda e qualquer instância mediadora entre os poderes constituídos e a cidadania"[25].

 

(b) O fato novo da emergência no espaço público de uma juventude de direita, sobretudo nos últimos 15 anos. 

 

Lembremos daquele fato que foi muito comentado de jovens que atacaram verbalmente Chico Buarque de Holanda. Fenômeno que vem se repetindo com frequência, inclusive com invasões de páginas na internet, interrupções de eventos e conferências, e intervenções em atividades on-line. Trata-se de uma juventude que se faz presente com vitalidade nas redes sociais. 

 

João Cesar nos lembra que a legítima chegada ao poder do PT, em 2003, e sua permanência no cenário nacional por 14 anos, até 2016, abriu espaço - não intencionalmente, é claro, para a "emergência de um fenômeno inédito na vida social brasileira", ou seja, "uma numerosa e ruidosa juventude de direita"[26].

 

O autor reconhece, por exemplo, o valor do renomado filme de Petra Costa, "Democracia em Vertigem", mas sublinha um problema concreto no filme, ou seja, a inexistência no documentário da ameaça presente na nova direita, sobretudo na juventude. Para o autor, na narrativa da diretora do filme, "a direita simplesmente não existe"[27]

 

No recente documentário produzido por Bernardo Kustner, “Eles estão no meio de nós”[28], o alvo prioritário é a teologia da libertação. As investidas são pesadas, duras e injustas, a meu ver. Trata-se de um documentário que traduz claramente a visão desta nova direita, que se faz presente também na juventude.

 

Ao final de seu artigo, objeto de nossa reflexão, Pedro Ribeiro de Oliveira evita fixar-se num pessimismo quanto ao futuro da igreja católica, e aponta caminhos para uma possível transformação. Sugere pelo menos uma pista importante para, ao menos, adiar um pouco mais uma implosão que seria indesejada. Isso me fez lembrar o livro de Ailton Krenak, “Ideias para adiar o fim do mundo” (2019), quando ele diz: 

 

“Então por que estamos grilados agora com a queda? Vamos aproveitar toda a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos. Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos”[29].

 

Pedro Oliveira lembra que todo esse dissenso que fratura a igreja católica favorece ainda mais o esvaziamento da comunidade eclesial, que os recentes censos têm apontado com relevância. Sublinha que o próximo censo “certamente mostrará o decréscimo da população católica com menos de 40 anos de idade, seguindo a tendência apontado pelo censo de 2010”.

 

Ele reconhece que para a população acima de 50 anos, a igreja católica continua sendo um importante espaço de sociabilidade, mas isto também, segundo ele, tenderá a diminuir com o tempo, caso não haja alguma mudança importante de percurso eclesial.

 

Infelizmente, o que vemos, é a manutenção de caminhos tradicionais, sem maiores preocupações em buscar “novos espaços de sociabilidade”, como ocorreu com as Comunidades Eclesiais de Base e as Pastorais Sociais. O que vemos em curso, sublinha Pedro, é a manutenção de “celebrações-espetáculo, em programas religiosos na TV, em turismo religioso e em programas radiofônicos de autoajuda.” Mantendo-se tal tendência, diz Pedro, “dentro de mais algum tempo a Igreja Católica brasileira, confinada aos santuários, templos e sacristias, terá perdido a incidência na vida da população em geral”. Preocupa-me também os arranjos que vão sendo tramados para mudanças na presidência da CNBB, numa direção que preocupa. 

 

Pedro Oliveira demonstra preocupação com esta adesão de segmentos do clero ao ideário neofascista: 

 

“Nesse quadro de perda de importância da Igreja na sociedade, muitos clérigos aderem ao ideário neofascista e assumem uma postura reacionária tanto nas questões da sociedade quanto da religião. Embora essa adesão seja mais visível entre os padres e mais discreta entre os bispos, aí reside o risco de ruptura da comunidade católica: quando um lado não reconhece o outro como legitimamente católico. Não há mais como costurar o tecido religioso rasgado. Tudo que se consegue fazer hoje é colocar remendos, que cedo ou tarde esgarçarão mais ainda o tecido.”

 

Reconhece o autor que sua pintura da conjuntura é forte, mas traduz um alerta que é muito importante, sobretudo para uma igreja que foi exemplo e testemunho para o mundo inteiro. E nos adverte para a irradiação desses padres conservadores:

 

“O apoio explícito de padres ao governo agora derrotado e o silêncio da maioria do episcopado diante das barbaridades por ele cometidas só confirmam a tendência de ruptura no interior da comunidade católica.”

 

Pedro demonstra preocupação, mas evita em falar em risco de cisma na igreja católica brasileira:

 

“Isso não significa que estamos às vésperas de um cisma – com a institucionalização de duas igrejas de confissão católico-romana –, mas caminhamos rapidamente para um quadro de desinteresse de um lado em participar da mesma Igreja que o outro. Se o movimento tradicionalista continuar crescendo, os católicos que não o aceitam se afastarão e a Igreja Católica poderá viver o pior dos cenários: sua redução a um conjunto de seitas tradicionalistas.

 

Diante desse quadro, reflete Pedro Oliveira, é mais do que necessário e urgente  “elevar o teor profético da Igreja.”

 

Pedro aventa nomes que foram fundamentais para o profetismo na igreja brasileira: 

 

“Tivemos bispos como Helder Camara,  Paulo Evaristo, Pedro Casaldáliga, Tomás Balduino e outros que ousaram quebrar a unanimidade de um episcopado silencioso diante de violações aos direitos humanos.”

 

Acrescento aqui o importante papel exercido por Dom Aloísio Lorscheider e Dom Luciano Mendes de Almeida, bem como Dom Celso Queirós, quando era secretário geral da CNBB:

 

Recordo-me muito bem de uma reunião do Instituto Nacional de Pastoral que participei onde estavam presentes os dois e relatavam as pressões sofridas pela CNBB na ocasião:

 

A fala emocionante de Dom Celso Queiroz, falando do sofrimento da CNBB na defesa das causas libertadora, em particular na defesa das  CEBs em tempos duros da repressão. E dizia: “A Igreja nas bases encontrou exigências maiores de participação e com maior intensidade, e não é tão claro se a igreja institucional ou o episcopado está disposto, como corpo, a compreender isso e acompanhar,”[30]

 

Como mostra Pedro Oliveira, todos eles

 

“devem ser sempre lembrados, para que os bispos e padres que hoje seguem seu exemplo não se sintam como destoantes do conjunto, mas hoje a Igreja Católica já não se entende mais apenas como um espaço de bispos e padres. O movimento histórico de superação do patriarcado entrou também no campo católico onde, desde a segunda metade do século passado, religiosas, leigas e leigos ocupam progressivamente posição de liderança nas comunidades de base, tendo sua autoridade reconhecida pelos fiéis, independentemente de seu reconhecimento canônico. Existe aí um potencial profético que poderá em breve tornar-se a principal fonte de vitalidade pastoral na Igreja Católica brasileira.”

 

Pedro Oliveira reitera não ser necessário que os profetas sejam muitos, mas que, mesmo em menor número, saibam ser pessoas “admiradas e respeitadas por sua fidelidade ao Evangelho, por sua prática pastoral e por sua adesão às orientações de Francisco.” O que mais importa, como diz Gilberto Gil em sua linda canção, Ok, Ok, Ok, é ter uma “alma nobre”, que possa irradiar vida e alegria para os outros em tempos difíceis.

 

Em seu belo artigo, Pedro finaliza dizendo que 

 

“serão essas,  as vozes proféticas que suscitarão novas forças ao Povo de Deus que está no Brasil (...). Se assim for, este momento doloroso de divisão eclesiástica pode tornar-se também o momento germinal de uma Igreja atualizada para assumir o projeto de Jesus na história do século XXI.[31]

 

Gosto muito de ver acontecer esse otimismo do amigo querido de Emaús, Pedro Ribeiro de Oliveira, que permanece teimosamente acreditando na utopia de igreja que todos queremos e brindamos, na linha acolhedora e profética do papa Francisco. Com Francisco permanecemos acreditando no sonho de uma igreja simples, profunda e irradiante, fundada no agape, no amor aos outros, que para Francisco revela-se “o único modo de amar a Deus”, aquele indicado com clareza por Jesus[32].

 

 

 



[1]Encontro da Coordenação da Comissão Brasileira Justiça e Paz. Brasília, 2-4 de dezembro de 2022.

[2]Pedro A. Ribeiro de Oliveira. A Igreja Católica do Brasil está rachando. IHU-Notícias, 11 de novembro de 2022:

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/623848-a-igreja-catolica-do-brasil-esta-rachando-artigo-de-pedro-a-ribeiro-de-oliveira(acesso em 03/11/2022)

 

 

[3]Joseph Ratzinger. Rapporto sulla fede. Cinisello Balsamo: Paoline, 1985.

[4]Ibidem, p. 36.

[5]Na Carta aos bispos sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão, da Congregação para a Doutrina da Fé, de1992, busca-se distinguir entre Igreja e Comunidades Cristãs (dotadas de “elementos da Igreja”).

[6]Marco Politi. Francesco. La peste,  la rinascita. Bari: Laterza, 2020.

[7]Marco Politi. Francesco tra i lupi. Il segreto di una rivoluzione. Bari: Laterza, 2014; Id. La solitudine di Francesco. Un papa profetico. Una chiesa in tempesta. Bari: Laterza, 2019.

[8]Marco Politi. La solitudine di Francesco, p. 141.

[9]Ibidem, p. 193.

[10]Ibidem, p. 210.

[11]Ibidem, p. 228.

[12]Marco Politi. Francesco..., p. 111-112.

[13]Ibidem, p. 112-113 (aqui Politi faz menção às palavras de Francisco aos capelães do cárcere de Padova, tomados do livro de Francesco Pozza: Io credo, noi crediamo. Rizzoli, 2020).

[14]Marco Politi. Joseph Ratzinger. Crisi di un papato. Roma/Bari: Laterza, 2011.

[15]Ibidem, p. 219.

[16]https://www.ihu.unisinos.br/categorias/614400-franca-o-magisterio-das-vitimas(acesso em 05/11/2022). Poderíamos citar uma série de filmes que nos últimos anos vêm colocando essa questão em evidência.

[17]Danièle Hervieu-Léger e Jean Louis Schlesing. Vers l'implosion ? Entretiens sur le présent et l'avenir du catholicisme, Paris: Seuil, 2022.

[18]Em fantástica metáfora sobre o tema da raiva, indico o precioso livro do nobel de literatura, J.M. Coetzee, Contos Morais, em seu primeiro capítulo intitulado: O cachorro (São Paulo: Companhia  das Letras, 2021, p. 7-13).

[19]J.M. Coetzee, Contos Morais, p. 12.

[20]João Cezar de Castro Rocha. Guerra cultural e retórica do ódio. Crônicas de um Brasil pós-polítivo. Goiânia: Caminhos, 2021.

[21]Ibidem, p. 128.

[22]Ibidem, p. 128-129.

[23]Ibidem, p. 130.

[24]Ibidem, 137-138.

[25]Ibidem, p. 45.

[26]Ibidem, p. 127.

[27]Ibidem, p. 35-38.

[28]https://www.youtube.com/watch?v=RahB38Rgd6w(acesso em 04/11/2022). Há também o diálogo de Bernardo com a apresentadora Leda Nagle, que é também sugestivo para elucidar a questão: https://www.youtube.com/watch?v=5cNnQnmz57w(acesso em 04/11/2022)

 

[29]Ailton Krenak. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

[30]INSTITUTO Nacional de Pastoral (Org). Pastoral da Igreja no Brasil nos anos 70. Caminhos, experiências edimensões. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 40-45 ( Dom Celso Queiroz).

[31]E quero aqui indicar com entusiasmo o livro-entrevista de José Antonio Pagola: Un creyente apasionado por Jesús (entrevistas com o sobrinho de Pagola: Juan Ignacio Pagola). Boadilla del Monte: PPC, 2022. Indico o livro, por ver nesse teólogo, um dos grandes estimuladores do seguimento de Jesus, em profunda sintonia com o papa Francisco.

[32]Papa Francesco & Eugenio Scalfari. Dialogo tra credenti e non credenti. Torino: Einaudi/La Repubblica, 2013, p. 56.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

A dificuldade de Maria Homem Comer Caetano

 A dificuldade de Maria Homem comer Caetano

 

Acordei hoje, 06/12/2022, lendo com atenção o texto de Maria Homem publicado na Folha de São Paulo: “Caetano canta Gospel com pastor no Brasil que celebra a Farofa da Gkay”[1]. Percebo que há um ar de “inquietação” nos segmentos acadêmicos com a decisão de Caetano Veloso gravar uma canção gospel. Vejo isto estampado nos jornais de hoje. E então veio o texto de Maria Homem, com a explicitação de um certo estranhamento com o que vem ocorrendo com Caetano.

 

O texto provocou-me indagações interessantes, nesse início da alvorada. Creio que não só Maria Homem, mas tantos outros psicanalistas que foram formados com um visão freudiana tradicional, mesmo que depois expandida com outros desdobramentos da psicanálise, e penso aqui em Lacan, ainda estão bem centrados na ideia da religião como alienação ou impedimento para a experiência integradora de si, desligada de véus transcendentais protetores. E aqui cabe a ideia de Peter Berger de “dossel sagrado”.

 

Por muito tempo lecionei antropologia da religião aqui em Juiz de Fora, e foi uma experiência bem interessante, junto a alunas e alunos de serviço social da UFJF. Peter Berger foi dos autores que mais utilizei no curso, tendo servido de inspiração para organizar uma obra mais ampla sobre sociologia da religião, que foi publicada pela editora vozes, com diversas edições[2]. O meu texto ali era sobre Berger e a religião (aliás o meu texto mais buscado em meu blog[3]). Uma das frases mais interessantes desse sociólogo do conhecimento é que a religião “é a ousada tentativa de conceber o universo inteiro como humanamente significativo”[4]. Pude trabalhar um tema complexo, num ambiente acadêmico profundamente marcado pela visão marxista, e encontrar uma acolhida bonita tanto entre discentes e docentes.

 

Em minha formação de filosofia e ciências da religião, outro autor muito importante foi Paul Tillich. Desde a minha graduação em ciências da religião, ele era o autor indicado no curso de filosofia da religião. Com Tillich veio o fortalecimento de uma ideia bem mais rica de religião, entendida por ele como algo relacionado a uma “infinita e inexaurível profundidade e base de todo o ser”, como aquilo que nos concerne de forma mais íntima, de nossa “preocupação última”[5]. Dele também, Tillich, a linda ideia das religiões como “fragmentos” ambíguos e limitados, tocadas por uma “Presença Espiritual”, esta sim, livre de ambiguidades[6]. Ligado a tudo isso, o importante conceito tillichiano de “princípio protestante”, que indica “a superação da religião pela Presença Espiritual”, visando trabalhar criticamente essa ambiguidade presente na religião[7].

 

Esse tipo de reflexão mais sociológica e teológica, escapa a Maria Homem. Ele permanece ancorada na visão tradicional tratada nos cursos de psicologia e psicanálise, que são profundamente carentes de um estudo mais sério sobre religião, mística e espiritualidade. Ela reconhece em seu texto que está lidando com um “assunto delicado”, e isso é bem legal, mas quando vai abordar o tema, segue o caminho tradicional da psicanálise. É muito “rasteira” a ideia de que a religião simplesmente segue “as mentalidades das épocas”. 

 

Vejamos a argumentação levada por Maria Homem em seu texto: “No mundo capitalista todos aprendemos que a vida terrena tem valor e que não é pecado ter sucesso”. Foi uma ideia que como ela diz, firmou-se na pós-Reforma. Diante da incerteza da existência de Deus, o “melhor negócio” que se encontrou para lidar com essa “falta” foi “organizar sistemas de proteção aqui na Terra”, uma rede que foi ficando “vasta e impessoal”, sob responsabilidade do Estado. 

 

E isto foi se revelando também frágil. Diante do impasse, a solução encontrada, segundo Maria Homem, foi retornar às redes de proteção anteriores ao Estado moderno, como a família, os amigos e as comunidades religiosas. O potencial das igrejas evangélicas hoje no Brasil evidenciaria sua plausibilidade em exercer o cuidado que falhou ao Estado exercer.

 

Como boa agnóstica, Maria Homem sublinha os profundos valores que para ele estão presentes no usufruir livremente das belezas da vida profana. E reitera a importância de curtir a alegria do corpo e da sexualidade sem os impedimentos impostos pelas religiões. 

 

Ela reconhece que essa fixação na imanência pode ter seus prejuízos, causando em casos concretos sofrimento, tédio, solidão e desilusão. Ela diz: “Hoje sabemos que a busca sedenta por prazer pode causar desprazer e ser um imperativo superegoico de gozo”. Ao mesmo tempo, alerta para o risco de voltar a um tempo pregresso de repressão patriarcal, o que não seria nada bom.

 

Diante de tudo isso... a decisão de Caetano cantar Gospel!!! Tudo isso perturba Maria Homem e provoca sua reflexão e, diria, sua visão real do mundo. Ela se coloca à disposição para, como Adriana Calcanhoto, buscar entender Caetano, “comer Caetano, deglutí-lo, mastigá-lo”. Porém, a solução que ela encontra é a mais tradicional dentro da lógica da psicologia. E cito:

 

“Nas próximas décadas talvez ainda precisemos de pastores, normas e igrejas. Mas o movimento histórico macro caminha em outra direção. Como sabemos, feliz ou infelizmente, os deuses estão mortos. Eu tenho de cuidar de mim e tecer a rede que cuidará de mim e dos outros. O pai está mais fraco e equivocado do que nunca, e o capital, cada vez mais perverso e sedutor”.

 

Assim como Peter Berger reviu com rigor sua visão sobre a secularização da sociedade, defendendo ao fim da vida a ideia da força da religião na sociedade[8], e espantoso crescimento do Islã e do Pentecostalismo, seria também interessante que Maria Homem tentasse ler com mais calma as reflexões que estão sendo gestadas neste campo, mostrando a força do fenômeno religioso no mundo atual. Muito curto dizer que “os deuses estão mortos”, ou que “o movimento histórico macro caminha em outra direção”. De onde ela tirou isso, me pergunto...  Na realidade,  o que vemos por todo lado, aqui no Brasil de forma muito particular, é uma “explosão de Deuses” ou de formas de vida espiritual. Vemos, ao contrário do que aponta Maria homem, cada vez mais pessoas que buscam se relacionar com o “outro mundo”, para utilizar uma expressão de Roberto da Matta. 

 

Penso que também seria muito útil à autora recorrer a tantos estudos também publicados aqui no Brasil mostrando os traços novidadeiros das reflexões envolvendo religiões e espiritualidades, que mostram o profundo reconhecimento do valor da imanência e do cotidiano, e dos valores do cotidiano, na tessitura da vida espiritual. 

 

Essa ideia de que a religião é um impedimento ao reconhecimento da “vida profana”, já foi ultrapassada há muito tempo em diversas compreensões de vida e prática religiosa, como podemos ver, por exemplo, na teologia da libertação e outras que se revigoram hoje, com a bonita valorização dos sentidos. Essa é a dica que dou a Maria Homem para aperfeiçoar o seu quadro visual e, então, quem sabe, conseguirá comer Caetano.

 

 



[2]Faustino Teixeira (Org). Sociologia da religião. Enfoques teóricos. Petrópolis: Vozes, 2003.

[4]Peter L. Berger. O dossel sagrado. Elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulinas, 1985, p. 41.

[5]Paul Tillich. Teologia sistemática. 5 ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2005, p. 219; John A.T. Robinson. Um Deus diferente. Lisboa: Herder, 1967, p. 55s.

[6]Paul Tillich. Teologia sistemática, p. 594.

[7]Ibidem, p.687-688.

[8]Peter L. Berger. Os múltiplos altares da modernidade. Rumo a um paradigma da religião numa época pluralista. Petrópolis: Vozes, 2017, p. 9-11.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Sobre o amor, retomando...

 Sobre o Amor, retomando ...

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

Já pensando aqui no encontro que terei com Márcia Rivas, no final de novembro, numa reflexão sobre o amor.

 

Esse é um dos temas que venho refletindo em tempos recentes.

 

Lembro-me de reuniões de orientação no mestrado e doutorado, onde o tema aparecia, e me servia do interessante livro André Comte-Sponville: “O Amor” (2011). Trata-se de uma longa palestra dada pelo filósofo, e depois gravada para as Éditions Frémeaux (2008). 

 

Ele começa falando sobre o amor paixão (Éros), com base no livro de Platão, “O banquete”. Há um paradoxo ali, ao tratar o tema. Quando falamos de Éros, falamos do amor desejo, que envolve “falta”. O desejo sempre envolve uma falta. Diz Comte-Sponville: “Ao ler Platão, compreendemos por que é tão fácil se apaixonar e tão difícil, na vida de casal, continuar apaixonado. Esse é outro abismo, menos profundo e mais pesado”. Na verdade, não há amor “totalmente feliz”.

 

Ainda nessa visão do Amor-Eros, a ideia de felicidade no amor envolve “ter o que se deseja”. Uma vez alcançando o desejado, pode ocorrer o tédio. Essa é a mais complicada questão. Se o amor não for permanentemente regado, ele termina. São as “intermitências do coração”, como diz Proust. Na linguagem platônica, enamor-se de alguém é “descobrir que alguém nos falta”. 

 

E continua Comte-Sponville: “”De tanto estarem juntos todas as noites, todas a manhãs, de tanto compartilharem a vida e a cama, essa pessoa, inevitavelmente, vai-lhe fazer cada vez menos falta (...). O problema, de que você toma consciência pouco a pouco, é que, se o desejo é falta, a partir do momento em que essa pessoa lhe faz cada vez menos falta, pois vive com você, você a deseja cada vez menos”. Daí pode ocorrer, se não houver cuidado, ternura e atenção, a passagem da falta para o tédio.

 

Na oitava elegia de Duíno, Rilke sublinha:

 

“Os amantes – não estivesse o outro a ofuscar-lhe a visão – sentem a obscura presença e se espantam... Às vezes há um descerrar-se atrás do outro... Mas o outro, como superá-lo? E o mundo já retorna”. O que ocorre, temos sempre que recordar isso... permanentemente, também os amantes, em sua sede impossível de integração, estão “em face do mundo”, em face de sua impermanência.

 

A vida de casal, já dizia também Rilke, é uma experiência de solidão. Não há como apagar isso, numa intenção equivocada de amor total. Dizia Lia Luft: “há um silêncio intransponível mesmo nos mais íntimos amores”. Faz parte do amor, respeitar e acolher essa solidão. O casal “não é o fim da solidão”. Não há como jurar que ficaremos apaixonados para sempre. Diz Comte-Sponville: “Não se decide amar nem deixar de amar (não se decreta o amor), mas pode-se  decidir manter seu amor, alimentá-lo, protegê-lo, fazê-lo viver e evoluir. É por isso que a vida de casal também é uma aventura espiritual”. 

 

O nosso poeta Drummond, dizia sabiamente no poema “Quero”:

 

“Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.”

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

 

Há que saber avançar, com delicadeza, cortesia e ternura, do amor Éros ao amor Philia. Ou seja, fazer a experiência da “alegria de amar”. E isso significa também compreender que o amor envolve movimento, transformação, serenidade. Daí a sabedoria de Gilberto Gil na canção “Faca e Queijo”, ao falar do amor maduro. A velha chama da paixão, com seu ardor e voracidade de faca e queijo, passa por mudanças:

 

“A gente ama

E o amor produz transformações

A velha chama

Acende novas ilusões

Com mãos bem mais sutis

Novos desejos

Vão tornando nossos beijos

Mais azuis, menos carmins”.

 

Amar, como diz Comte-Sponville deve ser também regozijar-se, curtir a presença terna do outro, sem tanta finalidade, a não ser a experiência da gratuidade: de poder olhar um para o outro com alegria, curtir sua presença em proximidade e ternura. Isso é o que podemos chamar de “felicidade de amar”. Comte-Sponville fala dessa alegria nova, que não se resume em pedir, mas agradecer: “Obrigado por ser tão linda!”. 

 

E alguns terão ainda, o privilégio mais nobre de atingir o grau maravilhoso do amor agápe, que é amor de entrega sem nenhuma cobrança de reciprocidade. É o amor favorecido aos mais nobres, aos santos, aos místicos. É o famoso quarto amor de que fala Bernardo de Claraval em seu De Diligendo Deo. Trata-se do grau mais perfeito de amar.

 

 

 

 

terça-feira, 8 de novembro de 2022

A morte do Cerrado


A morte do Cerrado

Faustino Teixeira

IHU - Paz e Bem


Preparando minha aula sobre os contos de Guimarães Rosa, em particular o conto "O recado do morro" (Corpo de Baile), deparei-me com algumas reflexões de José Miguel Wisnik em torno do cerrado, com base numa excelente entrevista que ele leu, de uma das maiores autoridades sobre o tema do Cerrado: Altair Sales Barbosa (publicada no Jornal Opção, de outubro de 2014).

O tema do breve texto de Wisnik tem como título "Recados" (25/10/2014), bem apropriado ao conto que estamos por analisar na aula do dia 09/11/2022. Como indica Wisnik, o Cerrado é o "Matusalém dos biomas. Enquanto a Amazônia tem três mil anos de formada, a Mata Atlântica sete mil, o Cerrado tem quarenta milhões". Trata-se do "maior viveiro da espécie" (ou pelo menos era até pouco tempo).
A flora anciã, como diz Wisnik, vem sendo substituída pelas inovações progressistas da monocultura, e junto, o "império do eucalipto a ser transformado em carvão". A devastação provocada tem consequências inomináveis: uma "devastação invisível de grandes consequências estruturais: é a floresta subterrânea das raízes que desaparece junto com a vegetação nativa, com ela o bioma de milhões de anos e o sistema que alimenta e realimenta os aquíferos".
A respiração hídrica do Cerrado veio profundamente prejudicada e sufocada nos últimos anos. Como diz Altair,
"até meados dos anos 1950 tínhamos o Cerrado praticamente intacto no Centro-Oeste brasileiro. Desde então, com a implantação de estrutura viária básica, com a construção de grandes cidades, como Brasília, criou-se um conjunto que modificou radicalmente o ambiente. A partir de 1970, quando as grandes multinacionais da agroindústria se apossaram dos ambientes do Cerrado para grandes monoculturas, aí começa o processo de finalização desse bioma".
Os estudos mostram o papel fundamental da vegetação existente no Cerrado, que é "a que mais limpa a atmosfera". A riqueza dos rios, da fauna e da flora. Tudo começa a ser profundamente prejudicado com a entrada no agro-negócio. Com a entrada dos inseticidas, a violentarão e morte dos polinizadores e dos insetos nativos. E a riqueza de plantas vai se extinguindo. São nada mais dos que 12.365 plantas catalogadas no Cerrado, as que conhecemos. O número é bem maior.
Altair dá o impressionante exemplo dos buritis, que para atingir 30 metros de altura necessitam de 500 anos. Também a canela-de-ema para chegar à idade adulta necessita de mil anos. Para manter-se vivo, o Cerrado precisa manter seu solo oligotrófico, e isso vem sendo dizimado.
O exemplo dos rios também é mencionado por Altair. Com a presença do homem-humano, que vem ocupando as margens dos rios, ocorrem fenômenos predatórios muito perigosos de assoreamento e erosão. As nascentes vão, cada vez mais, descendo, a ponto de prejudicar o lençol freático. Em pouco tempo não teremos mais água, e com essa crise estaremos diante de uma bomba-relógio. Segundo Altair, "dez pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano (...). Com o passar do tempo, as águas vão desaparecendo da área do Cerrado. A água, então, é outro elemento importante do bioma que vai se extinguindo".
O processo de capitalização do campo tem também consequências sociais muito graves, como a "desestruturação do homem do campo", que vai sendo expulso pelo grande capital para as periferias das cidades, desestruturando comunidades inteiras. Altair fala das consequências da desterritorialização dessa população, que acaba sofrendo transformações mutiladoras, sobretudo no campo mental.
Altair fala também dos problemas relacionados com a transposição do Rio São Francisco. Ele sublinha que a iniciativa foi "um ato muito mais político que científico. Ela atende muito mais a interesses políticos de grandes proprietários do Nordeste na área da Caatinga". Com a obra, ainda em fase de conclusão, é toda a mecânica do São Francisco que vem prejudicada.
Como mostra Altair, "o rio, que corria lento, passa a correr mais rapidamente, porque está tendo sua água sugada. Seus afluentes, então, também passam a seguir mais velozes. Isso acelera o processo de assoreamento e de erosão". Em consequência, "aceleram a morte dos afluentes".
Para o autor, a iniciativa da transposição do rio é simplesmente "estabelecer uma data para a morte do rio, para seu desaparecimento total. Podem até atender interesses econômicos e sociais de maneira efêmera, em curto prazo, mas em dez anos acabou tudo".
Ao final de seu texto, Wisnik sublinha que o processo eleitoral (da ocasião, 2014) "varreu do mapa essa ordem de questões. Quem pretende sustentá-las, como Eduardo Viveiros de Castro, fica condenado ao papel de Nomidômine, o recoveiro lunático do conto de Guimarães Rosa, profeta do fim do mundo e ´ameaçador de tantas prosopopeias`. Marina Silva, que pretendeu introduzi-las no nosso repertório político, foi bombardeada pelos drones confusionistas da propaganda de Dilma e aderiu a Aécio, que não convence no papel de salvador da pátria".

domingo, 30 de outubro de 2022

Jesus, o profeta da Galileia: reflexões em torno de um livro

 Jesus, o profeta da Galileia: reflexões em torno de um livro

 

Faustino Teixeira

IHU e Paz e Bem

 

 

Tenho a grande alegria de ter sido o grande incentivador da publicação do livro de José Antonio Pagola no Brasil, pela editora Vozes, em 2010. Assim que o livro foi publicado, escrevi uma longa resenha na Revista Eclesiástica Brasileira, celebrando a publicação no Brasil, três anos depois da primeira edição espanhola, publicada pela editora PPC em 2007. 

 

Tinha sido particularmente tocado pela leitura do livro, que identificava como uma das obras mais profundas e ricas sobre Jesus de Nazaré: Jesus  aproximação histórica. No Brasil a obra foi recebida com calorosa acolhida, estando hoje em sua sétima edição. Depois da publicação, seguiram-se outras tantas publicações na Vozes desse mesmo autor.

 

Na Espanha, acaba de sair publicado um livro maravilhoso, com uma enorme entrevista realizada com Pagola com seu sobrinho, Juan I. Pagola Carte, tendo como título: José Antonio Pagola, un creyente apasionado por Jesús (Modrid, PPC, 2022, 145 p.). O livro foi sendo trabalhado pelos dois ao longo dos últimos três anos, coincidindo com os momentos mais difíceis e duros da pandemia do Covid 19 e do confinamento que ela provocou. Foram dezenas de horas de entrevistas, depois ordenadas e sintetizadas pelo organizador do trabalho[1].

 

O que vemos nesse livro é um Pagola apaixonado por Jesus, como em suas obras anteriores. O sobrinho o define como um humanista, vitalmente ligado a Jesus de Nazaré e ao compromisso em favor da justiça. Numa de suas respostas ao longo do livro, Pagola reitera que seu desejo mais fundo ao publicar sua obra clássica foi apresentar com clareza, seriedade e simplicidade a figura humana de Jesus de Nazaré: “Quem foi este homem que marcou decisivamente a religião, a cultura e a arte do Ocidente”, movido por um enorme poder de atração e simpatia (CAJ, 90). Na visão de Pagola, Jesus representa aquilo que há de melhor apresentado pela Igreja à sociedade moderna de nossos dias. Continua sendo “o potencial mais admirável de luz e esperança contado entre os humanos” (CAJ, 90).

 

O livro vem dividido em nove capítulos, abordando todo o trajeto de vida de José Antonio Pagola, sobretudo suas reflexões sobre Jesus de Nazaré, o profeta da Galileia. Inicia sua reflexão falando sobre o impacto exercido pela sua experiência existencial na lago da Galileia, em maio de 1966, quando tinha 28 anos. Ali passou entre 15 de maio a 15 de junho, e navegar com pescadores nas águas daquele lago foi marcante em sua vida. Passava por momento importante em sua vida, buscando captar o sentido de sua vocação. Como ele disse, a experiência aconteceu num “momento afetivamente intenso” e mesmo “inexplicável” em sua vida. Tinha iniciado seus estudos de Ciências Bíblicas em 1965, na tradicional Escola Bíblica e Arqueológica de Jerusalém, sob a direção dos padres dominicanos.

 

Pagola nasceu em 16 de junho de 1937 no bairro Donostiarra de Añorga (Guipúzcoa), uma província do país Basco, no norte da Espanha. Revela no livro que recebeu de sua mãe, uma mulher que nunca tinha lido o evangelho diretamente, o importante testemunho de uma vida com espírito evangélico (CAJ, 21). Num acolhedor ambiente familiar foi sendo gestada sua vocação religiosa, “de forma natural, através de múltiplas circunstâncias” que povoavam o seu dia a dia. O ingresso nos estudos sacerdotais ocorreu em outubro de 1949, quando acabara de completar doze anos.

 

Sua formação foi privilegiada, tendo a rica oportunidade de aperfeiçoar seus estudos em Roma e Jerusalém. Logo depois de sua ordenação sacerdotal conseguiu uma bolsa de estudos oferecida pela sua diocese para o aperfeiçoamento em Roma. Tinha um carinho especial pelos estudos bíblicos, a eles vai dedicar sua formação. O destino era o Pontifício Instituto Bíblico de Roma, que exigia, porém, uma prévia licenciatura em Teologia Dogmática,  o que fez então na Pontifícia Universidade Gregoriana, nas proximidades da Fontana de Trevi, em Roma. Na Gregoriana fez contato com importantes nomes da teologia, entre os quais o canadense Bernard Lonergan. Já no Instituto Bíblico, foi favorecido pela presença de prestigiosos professores, como Carlo Martini, Stanislas Lyonnet e Luis Alonso Schökel, todos exímios biblistas. Ele recorda que esse tempo de estudos no Bíblico, acrescidos aos que se seguirão em Jerusalém, foram os mais enriquecedores em sua formação (CAJ, 31).

 

O tempo era bem propício para os estudos bíblicos, com os singulares desdobramentos dos estudos no campo da interpretação bíblica, como por exemplo a descoberta da importância do evangelho de Marcos, o primeiro dos sinóticos. Tais estudos vinham incentivados pelo clima que envolveu a preparação e realização do Concílio Vaticano II (1962-1965), que coincidiu com sua presença ali. Pagola relata que o Concílio acendeu nele, com vigor, uma orientação renovadora em seu pensamento, indicando claramente os passos para o seu futuro. Teve o privilégio de visitar a aula conciliar por duas vezes, ali no interior da basílica de São Pedro. Num clima de primavera eclesial, fez contato com teólogos de ponta como Hans Küng, Bernard Häring e Yves Congar. O historiador brasileiro, José Oscar Beozzo, relata que durante o Concílio, por iniciativa do pe. Antônio Guglielmi, foram realizadas inúmeras conferências na Domus Mariae, nas proximidades do Colégio Pio Brasileiro, com a presença de teólogos dos mais importantes no trabalho conciliar. Foram conferências que ocorreram a partir da segunda sessão do concílio, em forma sistemática, com a presença de nomes fundamentais da teologia, entre os quais Karl Rahner. Foram cerca de 94 conferências, que exerceram, de fato, o papel de um verdadeiro curso de teologia para muitos bispos.[2]

 

Depois de sua estadia em Roma, Pagola retorna à Espanha para o seu trabalho pastoral. Sobretudo a experiência em Jerusalém, na Terra Santa, foi de grande inspiração para ele, possibilitando sua concentração “na figura, na vida e mensagem de Jesus de Nazaré”. Como ele apontou, “a pessoa de Jesus calou muito fundo em seu coração”. Veio transformado e amadurecido. Não sentia, porém, em si a vocação de padre ou homem de altar, mas de “evangelizador da Boa Notícia de Jesus” (CAJ, 44-45). Ele aterrou numa Espanha que repercutia o clima do Vaticano II, mas também o abalo que o evento provocou, suscitando crises em muitos sacerdotes ou seminaristas. Houve, sem dúvida, um impacto secularizador, com irradiações tremendas na pastoral. Pagola sublinha que encontrou na sua volta uma diocese e um seminário “que desconhecia”, com um vivo desconcerto em numerosos estudantes e seminaristas. Pagola insere-se no ensino, mas sentia-se “cada vez menos professor e mais evangelizador” (CAJ, 49). Aderiu com empenho ao trabalho em favor da renovação da diocese em que foi alocado. Dentre o seu trabalho, o apoio decisivo em favor do protagonismo dos leigos na Igreja (CAJ, 64). Teve igualmente uma bonita atuação no âmbito da pastoral dos enfermos, escrevendo inclusive um livro a respeito, em 2004. Também se destacou no trabalho de promoção da paz, sobretudo depois de assumir a responsabilidade de vigário geral, em 1979. 

 

Entrando no cerne de sua produção teológica, sobretudo em seus estudos sobre Jesus, verificamos que aí ele encontra o seu aconchego mais confortante e substancial. Sobre o tema de Jesus, tinha escrito um livro em 1981: Jesus de Nazaret. El hombre y su mensaje. Isto significa que o tema já estava bem presente no seu coração. Quando assumiu a direção do Instituto de Teologia e Pastoral, buscou abrir mais o campo para o aprofundamento da vida de Jesus histórico. Seu grande objetivo era “aprofundar a vida do Jesus histórico para favorecer o seu conhecimento de forma sensível mas rigorosa” (CAJ, 89). Foi quando então se deu o paciente trabalho de gênese de seu livro capital, Jesus, aproximação histórica. A publicação do livro veio precedida de quase sete anos de intenso trabalho exegético, com recurso ao que havia de melhor em termos de metodologia e meios biográficos. Já intuía na ocasião que o livro poderia suscitar debate e polêmica, e isto foi confirmado por amigos que leram as provas.

 

A primeira edição do livro foi publicada em 2007, com o imprimatur de seu bispo Juan María Uriarte, a quem ele o presenteou em primeiro lugar. Ele tinha recebido uma precisa legitimação da obra por parte de dois importantes biblistas. Toda a dinâmica da produção do livro está descrita na resenha que escrevi sobre o livro para a Revista Eclesiástica Brasileira. Sobre o tema saiu também uma entrevista minha na Revista IHU-Online,  na edição de número 336, publicada em 06 de julho de 2010[3].

 

Como mostrou Pagola na ocasião, o livro nasceu de sua fé e amor a Jesus Cristo, e estimulado por essa mesma fé buscou narrar a história de Jesus de forma viva e significativa para os tempos atuais. Direciona o livro não apenas para os que se confessam cristãos, mas também para aqueles que ignoram sua realidade ou aqueles que se afastaram ou desencantaram com a igreja e buscam caminhos alternativos de vida. Sua intenção foi favorecer a aproximação histórica de Jesus “estudando sobretudo a lembrança que ele deixou nos seus”. Central para ele é o “Jesus recordado” e vivo nos seus seguidores mais próximos: “Aquela vida surpreendente e cativante, que conheceram de perto e cuja memória guardam viva no coração”[4]. E esta aproximação é contagiante: “É difícil aproximar-se dele e não sentir-se atraído por sua pessoa. Jesus traz um horizonte diferente para a vida, uma dimensão mais profunda, uma verdade mais essencial”[5].

 

A primeira edição espanhola teve um enorme sucesso, com a venda inicial de mais de vinte mil exemplares. Mas logo em seguida apareceram as primeiras e duras críticas ao livro. No início de janeiro de 2008, só na web da diocese de Tarazona “aparecerem cinco textos condenando o livro” (CAJ, 92). Dentre as graves acusações feitas contra a obra, a de que “o Jesus de Pagola não é o Jesus da fé da Igreja”. As acusações chegaram à Conferência Episcopal Espanhola (CEDF), provocando novas e difíceis resistências contra o livro. A Comissão de Doutrina da Conferência Episcopal Espanhola fez chegar suas desconfianças e críticas ao secretário da Congregação para a Doutrina da Fé (CdF), o monsenhor Ladaria. O cardeal Rouco, presidente da CEDF, em visita ao cardeal Levada, presidente da CdF, manifestou sua preocupação com o livro de Pagola. A partir daí, deu-se prosseguimento em Roma a um estudo detalhado do livro, visando sua avaliação teológica. Não encontraram, propriamente, afirmações no livro contra a doutrina da fé, mas sugeriram algumas mudanças em pontos mais polêmicos, relacionados à questão da divindade de Jesus. Pagola acolheu tais sugestões e a segunda edição espanhola já continha as modificações indicadas. O que de certa forma “salvou” Pagola de procedimentos mais duros da MCdF foi a renúncia de Bento XVI e entrada em cena do papa Francisco (CAJ, 95).

 

Foram cinco as sugestões de mudança indicadas a Pagola, e ele não se recusou a colaborar nas modificações. O que ele sublinha agora na entrevista é que a grave advertência que foi realizada sobre os efeitos negativos do livro foram, em verdade, “desmentida pelos fatos”, e o que livro estava recebendo elogios dos mais diversos setores da população, desde ateus, agnósticos, divorciados etc. O livro estava sendo lido em vários cárceres da Espanha. Os leitores  “estavam descobrindo Jesus e sentindo-se pela primeira vez atraídos por ele” (CAJ, 98). Ao comentar o ocorrido, Pagola sublinha que sofreu muito diante das resistências ao seu livro, uma “estranha experiência que nunca tinha conhecido”. Ele diz: “Às vezes me sentia rechaçado pela Igreja. Outras vezes pensava que não me importava ser considerado herege e ariano. Só esse Deus encarnado em Jesus conhece o que existe em meu coração”. O seu desejo maior era poder estar sempre junto à Igreja que amava (CAJ, 100). Mantinha, porém, viva sua posição de buscar não uma Igreja qualquer, mas uma comunidade “cada vez mais fiel a Jesus, mais plena de seu espírito” (CAJ, 100), na verdade, um “movimento curador” que foi transformando o mundo pelo serviço e amor. Estava feliz ao reconhecer que seu livro estava “fazendo muito bem a milhares de pessoas”.

 

Durante as polêmicas envolvendo a publicação do livro, Pagola recebeu apoio de todo canto do mundo. Um grupo importante de teólogos e teólogas de toda Espanha marcaram sua posição em apoio ao livro, reconhecendo o seu valor e sua fidelidade ao “método histórico-crítico”, consagrado pela exegese mundial. Dentre os apoios, um texto importante assinado pelos mais singulares biblistas e teólogos, dentre os quais: José Ignacio Gonzalez Faus, Javier Vitoria, Rafael Aguirre, Santiago Guijarro, Carmen Bernabé, Andrés Torres Queiruga, Juan Martin Velasco, Lucia Ramón, Juan Antonio Estrada. O circuito de apoio se firmava com vigor e serenidade. Outras cartas de apoio de sacerdotes foram aparecendo. Numa delas, de sacerdotes guipuzcoanos, vinha o apoio bonito, para que continuasse firme, esperançado, Naquele que sustentou sua vida e que nos ensinou a conhecer e amar”. Do Brasil, veio o apoio de dom Pedro Casaldáliga, reiterando a boa fundamentação do livro e sobretudo a bonita vivência a ele subjacente. Para o bispo catalão, de profética atuação no Brasil, o livro revelava “um autêntico testemunho” e muito oportuno para a ocasião (CAJ, 105).

 

Durante toda a polêmica, a presença amiga e o apoio de José Ignacio Gonzalez Faus, prestigioso teólogo e biblista. Ele estava surpreso pelos ataques ao livro, uma vez que a obra tinha aproximado tanta gente de Jesus. O mesmo ocorreu com Juan Martin Velasco, que louvou a produção, num tempo tão carente de cristologias mais abertas e livres com respeito às vinculações a dogmas e próximas aos Jesus vivente. Pagola lembra ainda do apoio que recebeu do teólogo jesuíta José Maria Castillo, aquele que o defendeu com mais audácia. Para Castillo, o livro “encontrou mais acolhida que nenhum outro livro de teologia escrito em língua castelhana nos últimos tempos” (CAJ, 107).

 

Após a produção do livro, Pagola continuou nesse precioso trabalho de divulgação do “Jesus recordado” pelos seus discípulos. Vale citar os volumes em tornos dos quatro evangelhos: O caminho aberto por Jesus, publicado na Espanha em 2010, já traduzido ao português pela editora Vozes. Escreveu também É bom crer em Jesus(reediação ampliada), em 2012. Mais recentemente, A boa notícia de Jesus, em 2016 e Jesus, mestre interior, uma leitura orante do evangelho, em 2019. Ao comentar sobre este último livro, Pagola sublinhou a importância de retomar a vitalidade de um Deus presencial, aberto ao conhecimento sensível de todos. Fala também da importância de reavivar “a espiritualidade revolucionária de Jesus”. Trata-se de uma espiritualidade animada por “uma força humanizadora e um potencial de luz para abordar os problemas do mundo de hoje, e que dificilmente se poderá encontrar por outros caminhos de espiritualidade” (CAJ, 134). 

 

Pagola mira seu foco num Jesus que nos favorece caminhar seguros e serenos, num Jesus que nos convida a um “mundo mais humano, fraterno e solidário, mais digno e bem aventurado para todos”. Sob o influxo de Leonardo Boff, foi sendo igualmente desperto para a necessidade “de uma espiritualidade criadora de responsabilidade ecológica” (CAJ, 135).

 

Concluindo, o que percebemos nesse lindo trabalho e nessa linda vocação evangelizadora de Pagola, é o desejo límpido de “estabelecer uma qualidade nova de nossa relação vital com Jesus”. É também o desejo de “recuperar o ´seguimento` de Jesus como “o centro nuclear do cristianismo” (CAJ, 114). Vemos em seu trabalho uma fina sintonia com o projeto do papa Francisco.

 

Ao final do livro, Pagola revela que, depois de todo esse seu trabalho, reconhece a beleza de uma vida marcada pelo agradecimento: “viver agradecido”, sobretudo a Deus, que possibilitou “o grande presente da vida”. Agradece igualmente a possibilidade concedida a ele de publicar um livro tão fundamental, JesusAproximação histórica. A publicação dessa obra foi para ele o “momento culminante” de sua vida (CAJ, 137). Reconhece com alegria que na presente etapa de sua vida, deixa-se abandonar à misericórdia de Deus (CAJ, 138).



[1]As citações utilizadas no meu texto estarão abreviadas com a sigla CAJ (Creyente Apasiondo por Jesus), seguida da página indicada no texto.

[2]José Oscar Beozzo. A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II. São Paulo: Paulinas, 2005, p. 195-198.

[4]José Antonio Pagola. Jesus, aproximação histórica. Petrópolis, Vozes, 2007, p. 528.

[5]José Antonio Pagola. Jesus, aproximação histórica, p. 22.

sábado, 22 de outubro de 2022

As neblinas e o vapor do mal

 As neblinas e o vapor do mal

 

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

 

Há tanto tempo estudando Grande Sertão:Veredas, tendo desvendar com cuidado e atenção o difícil tema do Mal e do Demo. 

 

Em minha viagem à Espanha, pude conversar profundamente sobre o tema com o amigo Pablo Beneito Arias, especialista em Ibn Arabi. Sua visão da positividade é incrível, e com o olhar da mística sufi é capaz de perceber para além do bem e do mal a presença de uma dinâmica da graça e misericórdia do grande mistério, que tudo envolve.

 

Eu, por minha vez, influenciado por Grande Sertão e pela leitura de Antonio Candido, em seu precioso artigo sobre "O homem dos avessos", vejo o ser humano como marcado profundamente por ambiguidade. 

 

Não consigo mais me deter naquela visão cristã, aprendida e desenvolvida na teologia, na qual capta-se no íntimo do ser humano a presença do bem. Vejo, agora, que ali no fundo estão juntos, entrelaçados, a "vozinha do bem" (o ponto virgem, como diz Hallaj, Massignon e Merton) e o "vapor do mal", como expresso por Rosa no GSV. 

 

Em passagem brilhante do texto de Antonio Candido sobre a ambiguidade do ser humano, do lado torvo ou crespo que o habita, entramos de cheio no grande paradoxo do livro GSV: ter que pactuar com o demo para alcançar o bem. Cito aqui o trecho de Antonio Candido:

 

"Para vencer Hermógenes, que encarna o aspecto tenebroso da Cavalaria sertaneja - cavaleiro felão, traidor do preito e da devoção tributadas ao suserano - é necessário ao paladino penetrar e dominar o reino das forças turvas. O diabo surge então, na consciência de Riobaldo, como dispensador de poderes que se devem obter; e como encarnação das forças terríveis que cultiva e represa na alma, a fim de couraçá-la na dureza que permitirá realizar a tarefa em que malograram outros chefes"

(A.Candido. O homem dos avessos. In: Eduardo Coutinho (Org). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, p. 303).

 

O momento decisivo do embate entre Diadorim e Hermógenes, em luta de morte, Riobaldo não pode fazer nada, uma vez tomado pela presença do demo... O que pode é apenas ver, do alto, a sangrenta luta de faca, onde a vitória sobre o cavaleiro felão se dá, mas, ao mesmo tempo, Diadorim também perde a vida. 

 

A dor que envolve Riobaldo depois do ocorrido provoca nele a decisão de deixar a jagunçagem, e vem salvo da depressão pela presença amorosa de Cumpadre Quelemém.

 

Estamos diante de um tema extremamente difícil, que tem irradiações profundas no momento político brasileiro em que vivemos. Estamos, radicalmente, diante da presença do mal, expressa pela figura tenebrosa de um presidente que se enquadra muito bem na imagem da sintonia com o mal. 

 

E um mal que vem corroborado por mais de 1/3 da população brasileira. A pergunta que fica para nós: em que medida teremos que, de alguma forma, fazer o pacto para vencer esse Hermógenes do tempo atual...