quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A fragrância plural do sufismo: Ibn´Arabi e a abertura interreligiosa


A fragrância plural do sufismo: Ibn´Arabi e a abertura interreligiosa    

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF


Resumo: Observa-se na tradição mística do islã uma singular abertura ao pluralismo religioso. Desde o século IX temos exemplos significativos de pensadores, como al-Hallaj,  que sinalizavam que as diversas religiões “são ramificações de um Princípio único”. Nas trilhas abertas pelo livro do Alcorão, entendiam que a luz do Mistério sempre maior refratava-se nas várias religiões, sinalizando a vitalidade de uma onipresença. Um dos sistematizadores desta perspectiva de abertura foi o místico sufi andaluz Ibn´Arabi (1165-1240), para o qual a diversidade religiosa é um dos substantivos sinais da Misericórdia de Deus.

Palavras Chave: mística, sufismo, islã, pluralismo religioso


O sufismo é o nome mais recorrente para designar a experiência mística do islã, traduzindo uma “dimensão interior” muitas vezes desconhecida ou desapercebida da tradição islâmica.  O sufismo (tasawwuf) remonta às origens do islã, e durante todo o seu desenvolvimento esteve radicalmente ligado às referências canônicas dessa tradição religiosa, em particular ao livro do Alcorão e ao profeta Muhammad. Não se descarta, é verdade, todo o processo de hibridação que enriqueceu o vocabulário místico do islã, mas o núcleo do sufismo guarda uma singularidade original, pontuada pelo referencial corânico[1]. A mística dos sufis vem marcada por um essencial traço muçulmano: “todas as suas doutrinas, gestos, usos e práticas baseiam-se sobre uma particular interpretação do Alcorão e da tradição profética”[2].  
            Há na tradição mística sufi uma predileção pela interioridade, pela contemplação e o crescimento espiritual. Prevalece o toque singular do esoterismo e não do exoterismo, entendido como exterioridade da fé e apego ao seu legalismo. A linguagem das alusões ganha ali um destaque particular:

“Enquanto o exotérico segue somente a rota conhecida, traçada no mapa, o iniciado explora, além disso, a dimensão da experiência interna e, em sua peregrinação pela senda do conhecimento, rastreia os atalhos da inspiração, seguindo os indícios que encontra em seu passo, sem se deter mais do que o necessário nas sucessivas pousadas e paisagens que, como degraus de sua ascensão, vai deixando para trás”[3].

            Há no plano teológico, uma ênfase na misericórdia, gentileza e beleza de Deus, que atuam como forças muito mais fundamentais do que os traços de sua majestade, severidade ou cólera. As diversas narrativas sufis indicam que a maior proximidade ao mundo espiritual faculta a percepção cristalina da gratuidade e misericórdia de Deus, que escapam ao olhar rasteiro de quem se fixa no domínio das coisas superficiais. Na medida em que se avança na interiorização, percebe-se com nitidez o fluir incessante da misericórdia de Deus que abraça todas as coisas[4].

            Ibn´Arabî de Múrcia talvez seja um dos mais significativos e complexos pensadores da tradição sufi. É conhecido em árabe como al-shaykh al-akbar (o maior mestre/instrutor). Autor de mais de 350 obras, marcadas por grande criatividade. Nasceu no sudeste da Espanha (Múrcia) em 1165 e morreu aos 75 anos em Damasco, no ano de 1240. O traço peculiar de suas obras é a universalidade, amplitude e abertura. Dentre as mais conhecidas, podem-se destacar: Al-futuhat al-makkiyya (As revelações de Meca); Fusus al-Hikam (Os engastes da sabedoria); Tarjuman al-Ashwák (O intérprete dos ardentes desejos) e Kitâb al-tajalliyât (O livro das teofanias).

            Em linha de sintonia com al-Hallâj (858-922), Ibn´Arabî foi um dos grandes defensores do pluralismo religioso, situando a diversidade religiosa como um dos substantivos sinais da Misericórdia de Deus. Reverberando o traço universalista da mensagem sufi, ele busca mostrar que esta diversidade “foi estabelecida por obra da sabedoria e compaixão divinas”[5]. Não há tensão entre a unidade requerida da wujūd [6] absoluta e não delimitada de Deus e a multiplicidade da realidade. Na verdade, essa multiplicidade é acolhida como um valor, pois tem suas raízes em Deus.

Para Ibn´Arabî, todo o cosmo vem percebido como lugar de manifestação de Deus. A seu ver, todas as coisas existentes procedem de Deus e sinalizam sua Presença no tempo. Não há nada no mundo que Dele esteja desligado. Não há para ele uma subsistência autônoma das entidades, mas estas existem enquanto particularizações e determinações de um Absoluto Indeterminado. O que confere realidade às coisas é o seu nexo intrínseco e fundamental com o seu Fundamento metafísico original[7]. Em sua obra Al-futuhat assinala:

“(...) Deus favoreceu-me com a Face do Real em tudo. Para mim, a meus olhos, não há nada existente neste mundo em que eu não testemunhe a realidade essencial de Deus, e desse modo glorifico-O aqui. Assim não descartamos (ou:condenamos) absolutamente nada neste mundo da existência”[8].

Essa reflexão liga-se à idéia de wahdat al wujūd (unidade da existência ou unicidade do ser), atribuída a Ibn ´Arabi (1165-1240), com influxo importante na tradição mística islâmica posterior. Trata-se de uma doutrina complexa e que não pode ser reduzida a uma visão monista. A afirmação da unidade da existência não indica em momento algum que os objetos da criação são Deus, ou que Deus reside substancialmente nas coisas. A doutrina leva a um raciocínio bem mais matizado e complexo. Traduz, na verdade, uma compreensão básica, de que “todas as coisas estão intimamente interrelacionadas por meio de suas raízes comuns na Divina Realidade”[9]. Com base na reflexão de Willian Chittick, pode-se dizer que

“Ibn ´Arabî expressa sua posição sobre a realidade das criaturas mais sucintamente com a frase huwalâ huwa , ´Ele/não Ele`. Ele entende que isto significa que tudo revela a Deus, porque todas as coisas ganham sua existência e seus atributos da wujūd de Deus e dos atributos dele, e que tudo também encobre a Deus, porque nada é realmente Ele a não ser Ele, enquanto que cada coisa é realmente ela mesma, criada por Deus precisamente para ser ela mesma e nada mais”[10].

            Na tradição mística do sufismo, e em particular na obra de Ibn ´Arabi, o mistério de Deus – wujūd ilimitado -, pode ser captado através de dois termos chaves presentes na terminologia teológica do islã tradicional: tanzīh e tašbīh. O primeiro termo, tanzīh, vem do verbo árabe nazzaha, que significa “proteger algo de qualquer contaminação”. O termo vem utilizado para assinalar a transcendência e incomparabilidade essencial de Deus: sua distância com respeito à toda criatura. O segundo termo, tašbīh, provém do verbo šabbaha, que significa “fazer ou considerar algo similar a outra coisa”. É um termo que expressa a proximidade de Deus com a sua criação, sua comparabilidade com as coisas existentes. Deus vem, assim, expresso em sua dupla polaridade: é por um lado radicalmente transcendente, mas também imanente[11]. Deus é simultaneamente majestoso (Jalāl) e belo (Jamāl). Ou também nas expressões consagradas de Rudolf Otto, Tremendum e Fascinans.

            A aproximação de Deus, entendido como o Real (al-Haqq), não pode acontecer quando se privilegia exclusivamente um destes pólos. Ibn ´Arabi serviu-se da história corânica de Noé e os idólatras para mostrar que não se pode captar o Real quando se exclusiviza seja o seu lado transcendente, seja o seu lado imanente. Este mistério é simultaneamente transcendente e imanente. Tanto os “idólatras” como Noé equivocaram-se em sua aproximação deste Mistério. Os “idólatras” por vincular o Real com os objetos físicos de sua adoração (imanentização) e Noé por vincular o Real com o transcendente. Os primeiros equivocaram-se por desconsiderar a dimensão transcendente do Real, e o segundo por negar sua dimensão imanente[12]. Como sublinhou Michael Sells,

“Dado que o real é infinito, não pode ser limitado aos confins de uma única crença: o deus da crença não é o Deus verdadeiro, mas somente um ídolo intelectual. A tragédia é que de fato o real se manifesta verdadeiramente nessa imagem, mas ao limitar o real a essa imagem particular e ao negar suas outras manifestações, terminamos por negar o real em sua infinitude”[13].

A doutrina de wahdat al wujūd requer uma compreensão do processo contínuo das manifestações do Real nas formas concretas. Este processo vem nomeado como tajallī e constitui um eixo referencial do pensamento de Ibn ´Arabi. É correto, de um lado, compreender o mundo fenomênico como expressão do Real, e o verdadeiro conhecedor é capaz de desocultar a presença subjacente do Real nas manifestações existenciadas. Mas isto não significa conceber o mundo fenomênico de forma autônoma e subsistente. Na visão de Ibn ´Arabi, a única verdadeira existência pertence ao Um (Real). Mas esse Um torna-se perceptível em todas as manifestações. As coisas ganham sua existência como lugares de manifestação e reflexos desta Unidade primordial. O mundo é visto, assim, de forma positiva, na medida em que ele reflete as manifestações das insondáveis possibilidades do Ser de Deus.

            Relacionando essa reflexão com a doutrina de wahdat al-wujūd, assinala-se que cada coisa existente insere-se na auto-revelação particular da wujūd ilimitada.  As coisas são como as cores existenciadas pelo prisma da infinita possibilidade da wujūd. Tudo o que existe no universo, incluindo a diversidade das crenças, “são palavras articuladas no Hálito do Todo Misericordioso”[14]. Todas as coisas existentes estão misteriosamente interrelacionadas por raízes que procedem da Divina Realidade.

            Segundo Ibn´Arabî, Deus manifesta-se no tempo a cada segundo e de forma sempre renovada. As teofanias sucedem-se ininterruptamente e se irradiam sobre o mundo, sempre de forma novidadeira. Há um profundo nexo de amor que vincula Deus com suas criaturas. Há uma proximidade singular que não pode ser abafada ou excluída. O humano vem unido a Deus por laços ainda mais estreitos do que a própria vida e a veia jugular. Em belo poema que abre o capítulo do Fusus dedicado a Hûd[15], o Sheikh assinala:

            “A Via Reta pertence a Deus (Allah).
            Manifesta-se em tudo, não se oculta.
            Está presente nos pequenos e grandes,
            Nos ignorantes das realidades ou nos sábios.
            É por isso que sua misericórdia abraça todas as coisas,
            As comuns e as de imenso valor”[16].

            A passagem corânica que trata da misericórdia universal de Deus é muito citada por Ibn´Arabi: Uwa rahmatî wasi´at kulla (Minha misericórdia abraça todas as coisas[17]). O rosto predileto de Deus, escolhido por Ibn´Arabî, é o do Deus amoroso, que estabelece uma aliança de amor com a humanidade e com toda a criação. É um Deus de amor que permite todas as audácias possíveis, que deseja um ardente enlace com os humanos e almeja com eles estabelecer sua morada[18].

             O coração purificado é capaz de perceber e captar as manifestações do Absoluto e acolher suas surpresas. Ele é o órgão sutil por excelência da captação das visões teofânicas, o “ponto de impacto dos acontecimentos espirituais”, ou ainda “o órgão preparado por Deus para a contemplação”[19]. Trata-se do órgão que favorece o “verdadeiro conhecimento, a intuição compreensiva, a gnose (ma´rifa) de Deus e dos mistérios divinos”[20]. Num famoso hadith qudsî[21] da tradição islâmica se diz: “Nem minha terra ou meu céu podem me conter, mas o coração do meu servo fiel me contém”. O coração (qalb), enquanto órgão espiritual, está sempre em movimento e oscilação, refletindo a cada instante as diversas e inusitadas formas de manifestação do Absoluto. Na perspectiva mística ele vem compreendido como taqallub a-qalb, ou seja, órgão em constante transformação. Como assinala Izutsu, “não existe limite nem fim à irradiação teofânica (tajallī) do Absoluto e que paralelamente as transformações internas (taqallub) do coração não têm limites, e isto significa que o conhecimento do Absoluto amplia-se incessantemente”[22]. Em poema consagrado, Ibn´Arabî traduz essa plasticidade do coração, capaz de acolher todas as formas:

            “Meu coração está aberto a todas as formas:
            É uma pastagem para as gazelas,
            E um claustro para os monges cristãos,
            Um templo para os ídolos,
            A Caaba do peregrino,
            As tábuas da Torá,
            E o livro do Corão.
            Professo a religião do amor,
            Em qualquer direção que avancem seus camelos;
            A religião do amor
            Será minha religião e minha fé”[23].

            Como indica Ibn´Arabî, o coração se alarga ou retrai para conformar-se à dinâmica da operação teofânica. O segredo dessa operação permanece, porém, misterioso para os humanos, que não conseguem abarcar o Mistério da Divindade Absoluta. Essa ninguém pode conter. Mas há um caminho de acesso que passa pelo domínio da profundidade, pelo centro do coração. Se o Mistério Absoluto não pode ser conhecido por si mesmo, ele pode ser acessado pelo mergulho na profundidade de si[24]. A mística francesa contemporânea, Simone Weil, captou isso de forma explêndida, ao indicar que somente “aquele que conhece o segredo dos corações”, é capaz de alcançar “o segredo das diferentes formas de fé”[25].

            As diversas tradições religiosas são também canais de percepção do Mistério da Divindade. Elas traduzem crenças diversificadas e plurais. Mas Deus, enquanto Absoluto, não pode limitar-se a uma crença determinada. Sua Presença manifesta-se topicamente ali, mas não se esgota nessa tessitura temporal. As crenças são “como as inumeráveis cores que as pessoas impõem à luz incolor por meio de suas próprias existências delimitadas”[26]. É curioso notar que em árabe a palavra crença vem identificada com a expressão i´tiqâd, cuja raiz trilítera é ´QD, envolvendo os significados de atar, apertar com nós, unir etc. Ou seja, toda crença expressa um vínculo determinado, atando no tempo a percepção conjuntural do Mistério. Nesse sentido, as crenças “exigem pontos de vista delimitados e definidos que excluem outros pontos de vista. Na medida em que as pessoas aferram-se em suas crenças, provocam conflitos com as crenças dos outros”[27]. Na verdade, como mostra Ibn´Arabî, o conflito interreligioso ocorre em função do apego acirrado à “Divindade das convicções dogmáticas”, que é a divindade feita à imagem e semelhança dos humanos, mas que é bem distinta da “Divindade Absoluta”, que não pode ser limitada por crença alguma[28]. Ela “é capaz de assumir a forma de todas as crenças precisamente por ser incomparável a toda crença”[29].  No intuito de manter a saudável abertura interreligiosa, o shaikh lança uma importante advertência aos crentes:

“Cuide-se de não te ligar a um credo particular rejeitando todo o resto, pois perderás um bem imenso; além do mais, perderás a ciência da Verdade tal como é. Que tua alma seja a substância  das formas de todas as crenças, pois Allah, o Altíssimo, é muito vasto e imenso para ser confinado num determinado credo, em exclusão dos outros. E Ele diz com efeito: Para onde quer que vos volteis, lá está a Face de Allah (...)”[30].

Ao contrário daqueles que si fixam no âmbito das ataduras, os gnósticos (arifun) conseguem ampliar o olhar e reconhecer a verdade que habita em toda crença, conscientes de que os nós existentes e plausíveis evidenciam uma delimitação da wujūd ilimitada. Os verdadeiros buscadores são animados pelo shaikh a ampliar suas crenças, “afim de desfrutar  de uma maior ´participação`(hazz) na visão do Real no outro mundo”[31].

Só é capaz de uma tal abertura aquele que tem um coração receptivo, aberto para hospedar uma diversidade de formas e de atributos. É o que reconhece Ibn ´Arabî em seu Fusus, ao tratar da profecia de Schu´ayb. Os que são dotados de coração, não se confinam em seus credos particulares, mas buscam uma nova “síntese”, onde permanecem receptivos aos dons gratuitos de Deus[32]. A abertura para uma tal perspectiva não significa ruptura com as formas tradicionais de exercício da crença particular. Como indica Ibn ´Arabî, o servidor perfeito equilibra o seu exercício de fé tradicional com a receptividade à “realização metafísica da Palavra”. É alguém que reúne essas duas qualidades: o reconhecimento do rosto de Allah em suas obrigações rituais e convenções exteriores, bem como a abertura para a “contemplação de Deus em todas as direções”[33]

Não há dúvida de que Ibn ´Arabi foi um dos mais importantes místicos na abertura para uma perspectiva interreligiosa. Vem reconhecido por Chittick como “o pensador mais complexo e profundo” na defesa de um pluralismo religioso[34]. A diversidade religiosa era vista por ele como um dos muitos sinais da infinita misericórdia de Deus. O toque de seu discurso não é o de um simples acadêmico, mas de um “conhecedor” (´ârif), no sentido nobre da palavra. Ele diz, repetidamente, como lembra Chittick, “que nunca fala por si mesmo, que nunca escreve por sua própria volição. Sempre, ele diz, é a Haqq divina que está falando através dele e o forçando a colocar no papel o que está sendo revelado dentro do seu coração. É a Haqq divina que está realizando o processo de tahqîq (realização) através dele”[35]. Num trecho do capítulo 54 de sua grandiosa obra, Al-futuhat al-makkiyya (As revelações de Meca), ele faz a distinção entre o conhecimento recebido dos mortos e o conhecimento recebido do eternamente vivo. O primeiro é o que traduz o conhecimento do erudito exotérico, cujo saber procede dos mortais e o segundo, do possuidor do verdadeiro conhecimento, que procede do “Vivente, aquele que não morre” (al-Bistami)[36].

Referências Bibliográficas

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(Publicado na revista Atualidade Teológica, Ano XV, 2011, fasc. 39, pp. 475-486 –
ISSN: 1676-3742)



           



[1] Para essa reflexão cf. Louis MASSIGNON. Essais sur les origines du lexique technique de la mystique musulmane. Paris: Cerf, 1999. Segundo Massignon, “é do Alcorão, constantemente recitado, meditado, praticado, que procede o misticismo islâmico, em sua origem e desenvolvimento”: Ibidem, p. 104.
[2] Marijan MOLÉ. I mistici musulmani. Milano: Adelphi, 1992,  p. 14.
[3] Pablo BENEITO ARIAS. Esoterismo diante do exoterismo: a linguagem das alusões no sufismo segundo Ibn´Arabî de Múrcia. In: Faustino TEIXEIRA (Org.). No limiar do mistério. Mística e religião. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 376.
[4] William C. CHITTICK. Il sufismo. Torino: Einaudi, 2009, pp. 15-18.
[5] William C. CHITTICK. Mundos imaginales. Ibn al-Arabî y la diversidad de las creencias. Sevilla: Alquitara, 2003, p. 7. E também pp. 5 e 8-10.
[6] A expressão wujūd pode ser traduzida como “ser” ou “existência”. Há na tradição sufi  uma clássica expressão, que vem, em geral, associada ao pensamento de Ibn´Arabî, ainda que ele não a tenha diretamente utilizado: wahdat al- wujūd, ou seja, a “unidade do Ser” ou “unidade da existência”. Ver a respeito: William C. CHITTICK. Mundos imaginales. Ibn al-Arabî y la diversidad de las creencias, pp. 29-57.
[7] William C.CHITTICK. Il sufismo. Torino: Einaudi, 2009, pp. 109-110; Toshihiko IZUTSU. Unicità dell´esistenza e creazione perpetua nella mistica islamica. Genova: Marietti, 1991, p. 43.
[8] Apud Stephen HIRTENSTEIN. O compassivo ilimitado. A vida e o pensamento espiritual de Ibn´Arabi. Rio de Janeiro: Fissus, 2006, p. 99.
[9] William CHITTICK. Mundos imaginales, p. 227. Ibn´Arabi recorre com freqüência ao verso corânico que sinaliza a presença criadora de Deus em cada coisa existente (Corão 20,50).
[10] William CHITTICK. Ibn´Arabi e Rûmî. Numen, v. 8, n. 1, 2005, p. 29. O substantivo Deus vem designado em árabe como Allah e em persa como khudâ. Haqq (o Verdadeiro, o Real) é também uma expressão corânica para designar o Mistério de Deus: “Como nome divino, a palavra significa que não há nada real, verdadeiro, correto, próprio e apropriado no sentido pleno destas palavras além de Deus mesmo. Somente Deus é verdadeiramente Haqq em cada sentido da palavra”: William CHITTICK. Ibn´Arabi e Rûmî, p. 31. A expressão al-Haqq, também de ampla utilização no vocabulário do místico sufi al-Hallaj, traduz a “pura substância divina”, a “substância criadora”, distinguindo-se da criação, al-Khalq: Louis MASSIGNON. Écrits memorables 1. Paris: Robert Lafont, 2009, p. 446.
[11] Toshihiko IZUTZU. Sufismo y taoísmo. 2 ed. Madrid: Siruella, 2004, pp. 63-83 (Ibn ´Arabi – vol. 1). Ver também a boa tradução italiana, organizada por Alberto de Luca: Sufismo e taoísmo. Milano: Mimesis, 2010, pp. 71-91.
[12] Ibn ´ARABI. Le livre des chatons des sagesse. Tome premier. Beyrout: Al-Bouraq, 1997, pp. 115-145 (Le chaton d´une sagesse transcendante dans un verbe de Nûh – Noé).
[13] Michael SELLS. Tres seguidores de la religión del amor: Nizām, Ibn ´Arabi y Marguerite Porete. In: Pablo BENEITO & Lorenzo PIERA & Juan José BARCENILLA (Eds). Mujeres de luz. Madrid: Trotta, 2001, p. 141.
[14] William C. CHITTICK. Mundos imaginales, p. 259.
[15] A sura de numero 11 do Alcorão vem dedicada a Hûd. Trata-se de um dos três profetas árabes anteriores a Muhammad mencionados no Alcorão. É também qualificado como rasul e enviado por Deus para levar seu povo a seguir a mensagem da unidade.
[16] IBN´ARABÎ. Le livre des chatons des sagesses. Tome Premier. Beyrouth: Al-Bouraq, 1997, p. 265.
[17] Alcorão 7,156.
[18] Em seu livro sobre as teofanias, Ibn´Arabî expressa os desejos que movem o Deus de Amor com respeito às suas criaturas, como assinalado na bela tradução francesa de Ruspoli: “Je suis le Très-Beau, le Três-Gracieux. Alors aime-moi, mon bien aimé, aime-moi! N´aime que moi. Désire-moi, pense à moi, ne pense qu´à moi seul. Étreins-moi, enlace-moi, embrasse-moi (...). Demeure avec moi, tiens-tois près de moi. Ainsi je serai auprès de toi, tout comme tu es auprès de moi san même t´en rendre compte. La jonction! C´est la jonction qu´il nous faut!”: Stéphane RUSPOLI. Le livre des théofanies d´Ibn Arabî. Paris: Cerf, 2000, p. 211 (Théophanie de la perfection, nº 81).
[19] Louis MASSIGNON. Écrits mémorables II. Paris: Robert Lafont, 2009, p. 309; Id. La passion de Husayn Ibn Mansûr Hallâj. Paris: Gallimard, 1975, p. 26.
[20] Henri CORBIN. L´immaginazione creatrice. Le radici del sufismo. Roma-Bari:Laterza, 2005, p. 193. O coração vem, assim, animado por uma função “teândrica”, enquanto órgão mediante o qual “Deus conhece a si mesmo”: Ibidem, p. 194. Segundo Ibn´Arabi, há no coração uma “cavidade secreta” que é o “ponto de contato com o Divino”. Trata-se de um centro que é ele mesmo de natureza divina, facultando o exercício de sua função cognitiva: IBN´ARABÎ. Le livre des chatons des sagesses, p. 327 ( Tome Premier - comentário de Charles-André Gilis).
[21] Um dito atribuído ao profeta no qual Deus mesmo fala em primeira pessoa.
[22] Toshihiko IZUTSU. Unicità dell´esistenza e creazione perpetua nella mistica islâmica, p. 79 (e também pp. 76-77). O místico sufi Rûmî, também assinala essa dimensão de receptáculo protéico do coração: a cada instante atua, por força do Mistério, uma influência diferente no coração, uma nova marca, um desejo diferente, um abrasamento diferente. Cf. Djalâl-od-Dîn RÛMÎ. Mathnawî. La quête de l´absolu. Paris: Rocher, 1990, p. 630 (MIII: 1641-1644).
[23] IBN´ARABÎ. L´interprete delle passioni. Milano: Urra, 2008, p. 51 (XI, 13-15).
[24] Toshihiko IZUTSU. Sufismo e taoísmo. Milano: Mimesis, 2010, p. 61. E Ibn´Arabî baseia-se aqui num dito da tradição islâmica que assinala: “Man ´arafa nafsa-hu ´arafa rabba- hu`”, ou seja, “Quem conhece si mesmo conhece o seu Senhor”.
[25] Simone WEIL. Attente de Dieu. Paris: Fayard, 1966, p. 179.
[26] William C. CHITTICK. Mundos imaginales, p. 283.
[27] Ibidem, p. 276. De forma semelhante, o místico Rûmî assinala que o desacordo entre os seres humanos ocorre em razão do apego radical aos nomes, ao mundo da superfície das crenças. Se estivessem, ao contrário mais direcionados à profundidade do Mistério do Real, a paz seria alcançada: Djalâl-od-Dîn RÛMÎ. Mathnawî. La quête de l´absolu, p. 516 (MII: 3680).
[28] Para esta distinção cf. IBN ´ARABÎ. Le livre des chatons des sagesses. Tome second. Beyrouth: Al-Bouraq, 1998, p. 713 (em torno da profecia de Muhammad).
[29] William C. CHITTICK. Mundos imaginales, p. 280.
[30] IBN ´ARABÎ. Le livre des chatons des sagesses, p. 278 (Tome Premier). Trata-se da reflexão de Ibn ´Arabi a propósito de Hûd, considerado o  “porta voz de todos os profetas”.
[31] William C. CHITTICK. Mundos imaginales, p. 282.
[32] IBN ´ARABÎ. Le livre des chatons des sagesses, pp. 318-319 (Tome Premier).
[33] Ibidem, pp. 279 e 291 (Hûd). Ver ainda: Cecília TWINCH. El círculo inclusivo. In: Pablo BENEITO & Pilar GARRIDO (Eds). El viaje interior entre Oriente y Occidente. La actualidad del pensamiento de Ibn´Arabî. Madrid: Alquitara, 2007, pp. 60-72.
[34] William C. CHITTICK. Mundos imaginales, p. 10.
[35] William CHITTICK. Ibn´Arabi e Rûmî, p. 35.
[36] Apud Pablo BENEITO ARIAS. Esoterismo diante do exoterismo: a linguagem das alusões no sufismo segundo Ibn´Arabî de Múrcia. In: Faustino TEIXEIRA (Org.). No limiar do mistério, 391-392.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Análise sócio-fenomenológica do pluralismo religioso no Brasil


Análise sócio-fenomenológica do pluralismo religioso no Brasil[1]

Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF

            Um dos grandes desafios que se apresentam às tradições religiosas nesse século XXI é o da abertura e acolhida da diversidade religiosa. As igrejas cristãs são igualmente convocadas a pensar com seriedade nessa imperativa questão. O campo religioso brasileiro vive nas últimas décadas uma experiência inédita de pluralização, como apontado no ultimo Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado em junho de 2012. O objetivo desse breve ensaio é favorecer um conhecimentos de alguns dos dados mais importantes apontados no censo, visando um aprofundamento e debate.

Apresentação dos dados do Censo 2010

            Em junho de 2012 foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) os resultados do Censo 2010 com respeito ao perfil religioso da população brasileira. Uma primeira conclusão que pode ser destacada com a verificação dos dados é o aumento da diversidade religiosa no Brasil, cuja visibilidade é mais destacada “nas áreas mais urbanizadas e populosas do país” (IBGE, 2012, p. 90). Fica cada vez mais difícil e carente de plausibilidade falar de uma “cultura católico-brasileira”. No final do século XIX e início do século XX a situação religiosa no Brasil era bem diferente e se podia falar em hegemonia da religião católica apostólica romana no país. Por volta de 1872 a porcentagem dos declarantes católicos era de 99,7%. Oradores do início do século XX, ao tratar da identidade nacional, falavam com tranquilidade de um Brasil “intrinsecamente católico”. Dizia o pe. Júlio Maria no Livro do Centenário, que “o catolicismo formou a nossa nacionalidade... Um ideal de pátria brasileira sem a fé católica é um absurdo histórico como uma impossibilidade política” (SANCHIS, 1994, p. 35).
            As bases de uma tal convicção foram aos poucos sendo abaladas pelos dados apresentados pelos inúmeros censos demográficos realizados no país. Segundo os dados do IBGE, “em aproximadamente um século, a proporção de católicos na população variou 7,9 pontos percentuais, reduzindo de 99,7%, em 1872, para 91,8% em 1970” (IBGE, 2012, p. 89). Na sequência dos censos os números da declaração católica vão progressivamente decaindo: 89,2% em 1980; 83,3% em 1991; 73,6% em 2000 e 64,6% em 2010. Os analistas sublinham que o catolicismo romano foi o “principal celeiro” de doação de fiéis para outras tradições religiosas ou para os assim denominados “sem religião”. Só na última década a perda de fiéis católicos foi na ordem de 465 adeptos por dia, o equivalente à população da cidade de Curitiba. Os católico-romanos somam hoje no Brasil, segundo os dados do censo, 123,2 milhões de adeptos declarados numa população de 190,7 milhões de habitantes. E em 2000 somavam 124,9 milhões de adeptos, numa população de 170 milhões de habitantes. Conforme os dados apresentados, a mais significativa presença católico-romana encontra-se nas Regiões Nordeste e Sul, e a maior redução relativa de adeptos está situada na Região Norte. Indica-se também que boa parte da representatividade relativa dos católicos foi registrada em domicílios de residentes em áreas rurais, com porcentagem maior de homens. Com base em dados proporcionais, os católicos declarados são também maioria entre os que estão acima dos 40 anos (IBGE, 2012, p. 99).
            Contribuiu para essa mudança na composição religiosa da população brasileira, o crescimento daqueles que se declararam evangélicos. Este específico segmento, que em 1940 representava apenas 2,6% dos declarantes, teve  significativa ampliação nos últimos quarenta anos: 5,8% em 1970; 6,6% em 1980; 9,0% em 1991; 15,4% em 2000 e 22,2% em 2010 (42,2 milhões de fiéis). Só na última década, o aumento em número absoluto de evangélicos foi de 16 milhões de adeptos, uma média de 4.383 fiéis por dia. O traço distintivo nesse crescimento deve-se, sobretudo, à afirmação dos evangélicos pentecostais. Em 2000, do total de evangélicos declarados (15,4%), mais de dois terços (10,43%) eram pentecostais, e em 2010, 13,3% (25,3 milhões). Há que registrar ainda, nos dados do último censo, a presença do grupo de evangélicos não determinados (9,2 milhões), envolvendo a declaração de crença daqueles que não indicaram vinculação institucional ou cuja pertença não pôde ser classificada. O segmento dos evangélicos de missão teve uma ligeira redução proporcional entre os dados dos dois últimos censos: 4,1% em 2000 e 4,0% em 2010, mas em verdade mantém uma estabilidade de participação com respeito ao total da população. O último censo evidencia uma expressiva presença dos evangélicos, e em particular dos pentecostais, nas Regiões Norte e Centro-Oeste, mas firmam-se também nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, bem como nas áreas metropolitanas da Região Nordeste. Ao contrário do que se verifica no contingente de católicos declarados, há, em termos proporcionais, uma mais forte presença de mulheres entre os evangélicos, e em idade mais jovem, sobretudo entre os pentecostais.
            O censo de 2010 registra também um crescimento de pessoas que se declararam sem religião, embora esse aumento tenha ficado abaixo dos prognósticos. Enquanto esse grupo respondia por 7,4% dos declarantes em 2000, passa hoje a responder por 8,0%, contando com 15 milhões de pessoas. É um segmento que marca presença na Região Sudeste, de modo particular no Estado do Rio de Janeiro, embora se distribua pelas diversas áreas do país.
            Quanto à presença dos espíritas, os dados do censo de 2010 também sinalizam um crescimento. Eles correspondiam a 1,3% da declaração de crença em 2000, passando para 2,0% em 2010. Dentre as Grandes Regiões, sua presença vem destacada na Região Sudeste, e sua menor incidência nas Regiões Norte e Nordeste. Os dados apontaram também, entre os declarantes espíritas, um elevado percentual de brancos, bem como as melhores taxas de escolarização (IBGE, 2012, p. 101 e 104). Com respeito à umbanda e o candomblé, não houve registro de mudança na última década. É um núcleo que permanece estacionado na faixa dos 0,3% pontos percentuais. Sua presença mais importante ocorre na Região Sul e sua menor incidência nas regiões Centro-Oeste e Norte.
            As outras religiosidades concentram-se numa faixa restrita de 2,7% de declaração de crença. Registra-se um crescimento deste segmento na última década, já que no censo de 2000 eles representavam 1,8% dos declarantes. Dentre estas religiosidades destacam-se a presença do budismo (243.966), do judaísmo (107.329) e das novas religiões orientais (155.951). Tanto o islamismo como o hinduísmo ainda apresentam uma reduzida declaração de crença no país, contando com respectivamente 35.167 e 5.675 adeptos.
           
Reagindo aos dados

            Os dados apresentados pelo último censo demonstram, de fato, um aumento da diversidade religiosa no país. Mas trata-se ainda de uma diversidade um pouco acanhada, já que dois contingentes da área cristã, os católicos e evangélicos, concentram praticamente 86,8% da declaração de crença no país[2]. Isso significa a permanência de uma forte hegemonia cristã. As outras religiões, incluindo aqui a religião espírita, a umbanda, o candomblé e as tradições indígenas, bem como as demais registradas pelo IBGE na modalidade de outras religiosidades, ficam reduzidas a uma estreita faixa de 5% da declaração de crença. A esta porcentagem soma-se também a presença importante dos sem religião, com 8,0% de adesão declarada.
            Talvez um elemento que jogue a favor dessa percepção plural do campo religioso brasileiro é a compreensão das teias diversificadas que configuram o catolicismo no país. Trata-se de um catolicismo de malhas largas, que acolhe em seu próprio interior “muitas religiões”, e que se veste de plural, como tão bem acentuou Pierre Sanchis em introdução a uma pesquisa de fôlego realizada pelo ISER em torno do catolicismo (SANCHIS, 1992, p. 33). Desde sua longa presença no Brasil, o catolicismo foi adquirindo uma artimanha particular, favorecendo e permitindo a polissêmica incorporação de várias culturas e ajeitando-se às múltiplas formas de vivência pessoal e comunitária da fé. É um catolicismo que faculta a possibilidade de dupla ou tripla pertenças, como as pesquisas de campo têm favorecido perceber. Há católicos que acreditam na reencarnação ou que combinam elementos de diferentes espiritualidades em seu repertório identitário. O antropólogo Carlos Steil cunhou a feliz metáfora da “porta giratória” para tratar desse complexo e instigante fenômeno da presença de “diferentes regimes do religioso” que se articulam no campo do catolicismo. E exemplifica a partir de um estudo de caso o influxo num grupo específico do catolicismo de crenças do repertório do catolicismo popular, do pentecostalismo, do espiritismo, das religiões afro-brasileiras e da nova era (STEIL, 2004, p. 30-31). Essas pertenças múltiplas o censo não consegue ainda captar com pertinência, ou então as pessoas ficam inibidas em declarar. No último censo apenas 15.379 pessoas declararam múltipla religiosidade, o que, sem dúvida, não corresponde à realidade.
            Interessante constatar a dificuldade de segmentos importantes da igreja católico-romana em reconhecer essa situação de enfraquecimemto do catolicismo no país. O censo mostra a realidade de uma sangria que não pode ser desconhecida ou minimizada. Verifica-se um nítido contraste entre os dados apresentados pelo último censo e os dados divulgados pelo censo anual da igreja católica no Brasil, produzidos pelo Centro de Estatísticas Religiosas e Investigações Sociais (CERIS). Na avaliação do CERIS, o catolicismo no Brasil está “vivo e vicejante”, e em “franca expansão”. Na visão desse organismo, a vitalidade vem expressa pelo “crescimento vertiginoso” das paróquias e pelo “crescimento considerável” do número de padres (CERIS, 2011). Estaria em curso, segundo a avaliação do CERIS, um processo de “reencantamento da fé católica” proporcionado pelos empreendimentos missionários em curso. O ex-assessor da CNBB, o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, reage a tal avaliação, sublinhando que não se pode avaliar a vitalidade da igreja pelo aumento de número de paróquias ou pelo crescimento do número de padres.  Esse aumento reflete para ele não a vitalidade da igreja, mas sua clericalização. A seu ver, a força de qualquer igreja está na sua capacidade de “congregar” os fiéis, de envolver os leigos na participação eclesial, de forma a se poderem reconhecer como igreja. A vitalidade da instituição não se mede pelos efeitos de sua clericalização, mas por sua potencialidade de abertura ao mundo. E complementa: “Uma igreja é forte quando tem grupos de leigos que se reúnem para atuar no mundo. Hoje o que vemos é a força de atrair para dentro, ou seja, o bom católico é aquele que está na igreja. Isso aí é o definhamento da instituição” (OLIVEIRA, 2012 ). Há também aqueles que tendem a minimizar os dados apresentados pelo censo indicando que os católicos que ficaram são aqueles “mais convictos”, ou seja, o êxodo indicado refletiria tão apenas a sinalização da qualidade efetiva dos fiéis que permaneceram.
             O censo aponta não apenas a queda do número dos católicos no Brasil, como também o vertiginoso crescimento evangélico. Já se falou das Grandes Regiões onde ocorreu essa maior presença, mas vale destacar o Estado do Rio de Janeiro, onde em algumas cidades como Duque de Caxias, Nova Iguaçu e Belford Roxo, o número dos evangélicos já ultrapassou o número de católicos romanos. Isso se deve, sobretudo, à força pentecostal. E entre as igrejas pentecostais, os dados revelaram a pujança da Assembléia de Deus, que congrega 12,3 milhões de adeptos declarantes, um número bem superior à soma dos membros de todas as tradicionais igrejas evangélicas de missão, como as igrejas luterana, presbiteriana, metodista, batista, congregacional e adventista, que em conjunto englobam 7,6 milhões de adeptos declarantes. Segundo a projeção de estatísticos, se essa tendência permanecer, até o ano de 2040 o número de católicos e evangélicos vai se equalizar. Esse prognóstico vem reforçado com a constatação da presença jovem entre os pentecostais, que apresentam uma idade mediana menor que a verificada entre os católicos romanos. É curioso verificar o poder de penetração da Assembléia de Deus por toda parte, incluindo o âmbito das tradições indígenas, cujo número de convertidos à tradição evangélica aumentou em 42% nos últimos dez anos, sendo uma boa parte ligada à Assembléia de Deus. Nem todas igrejas pentecostais tiveram a mesma sorte, como é o caso da Igreja Universal do Reino de Deus, que ao contrário das projeções, perdeu 228 mil fiéis na última década, talvez em razão da afirmação de igrejas dissidentes e também da pulverização existente no campo pentecostal. Como já apontara o Censo Institucional Evangélico CIN, de 1992, o número de denominações pentecostais multiplica-se no Brasil a partir de 1950, sendo grande parte de criação local, num ritmo de cerca de 10 novas denominações por década (ISER, 1992, p. 21)
            Os dados do censo referentes ao crescimento dos sem religião no Brasil levantam outras questões, como a denominada “desafeição religiosa” e o diversificado “trânsito” ou “experimentação religiosa” em curso no país. Quando se fala sobre os sem religião, indica-se sobretudo aqueles declarantes que estão “desencaixados” de seus antigos laços e que não apresentam mais os vínculos institucionais tradicionais. Muitos deles conformam sua religiosidade com recursos subjetivos peculiares ou com rearranjos criativos. Há também os agnósticos e ateus, mas estes constituem uma minoria. De acordo com os dados do último censo, no âmbito geral dos sem religião, que envolvem 15,3 milhões de declarantes, os agnósticos representam apenas 124,4 mil e os ateus 615 mil pessoas. O censo de 2010 indicou que os sem religião são mais frequentes entre os jovens  e os adultos jovens (IBGE, 2012, p. 99). São estes núcleos, como bem acentuou Regina Novaes, onde ocorre maior “disponibilidade para a experimentação”[3]. São eles “os que mais transitam entre vários pertencimentos em busca de vínculos sociais e espirituais (NOVAES, 2005, p. 271)

Um convite à reflexão

            Os dados estão aí colocados. Cabe agora às igrejas cristãs refletirem sobre suas implicações concretas e os desafios que eles apresentam à sua caminhada. Revela-se de importância essencial entender essa dinâmica de pluralização não necessariamente como um limite ou problema, mas como uma provocação viva para o exercício missionário sob novas bases e motivado por um espírito diferenciado.
           
           
Referências Bibliográficas

CERIS. Censo anual da Igreja católica no Brasil – CAIC Br. Rio de Janeiro, 2012:  http://www.ceris.org.br/pdfs/analise_censo_igreja_2011.pdf . Acesso em 7/8/2012.

FERNANDES, Sílvia. “A (re) construção da identidade religiosa inclui dupla ou tripla pertença”. IHU Notícias, 07/07/2012:

INSTITUTO Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo demográfico 2010. Características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. Rio de Janeiro: IBGE, 2012, p. 89.
ISER – Núcleo de Pesquisa. Censo Institucional Evangélico – CIN 1992. Rio de Janeiro: ISER, 1992.

NOVAES, Regina. Juventude, percepções e comportamentos: a religião faz diferença? In: ABRAMO, H.W. & BRANCO, P.P.M. (Orgs). Retratos da juventude brasileira. Análise de uma pesquisa nacional. São Paulo: Instituto Cidadania/Fundação Perseu Abramo, 2005, p. 263-290.

OLIVEIRA, Pedro Ribeiro de. A desafeição religiosa de jovens e adolescentes. IHU Notícias, 5/7/2012:

SANCHIS, Pierre. O repto pentecostal à “cultura católico-brasileira”. In: ANTONIAZZI, Albert et al. Nem anjos nem demônios. Interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 34-63.

SANCHIS, Pierre. Introdução. In: ______. (Org). Catolicismo: modernidade e tradição. São Paulo: Loyola, 1992, p. 9-39.

STEIL, Carlos. Renovação Carismática Católica: porta de entrada ou de saída do catolicismo? Uma etnografia do Grupo São José, em Porto Alegre. Religião & Sociedade, v. 24, n. 1, 2004, p. 11-36.

TEIXEIRA, Faustino & MENEZES, Renata (Orgs). As religiões no Brasil. Continuidades e rupturas. Petrópolis: Vozes, 2006.


(Texto publicado na Revista Eclesiástica Brasileira, v. 72, n. 288, outubro 2012, p. 958-964)



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[1] Trata-se de um texto de discussão/estudo elaborado por solicitação do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), visando o debate de suas Organizações Regionais, tendo como horizonte a produção de uma cartilha que faculte às Igrejas associadas situarem-se no contexto do pluralismo religioso.
[2] Isso já havia sido sublinhado pelo sociólogo Antônio Flávio Pierucci em artigo publicado em 2006: Cadê nossa diversidade religiosa? (TEIXEIRA & MENEZES, 2006, p. 49-51).
[3] Ver também (FERNANDES, 2012)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Por toda parte, o segredo de Deus


Por toda parte, o segredo de Deus

Entrevista a Graziela  IHU Online – 26/10/2012
Faustino Teixeira (PPCIR-UFJF)

1.    Como distinguir a experiência mística presente nas tradições religiosas ocidentais com respeito às religiões do Oriente?

Nas grandes religiões orientais o traçado místico passa pela dinâmica da interioridade, do êntase (em distinção do êxtase). Trata-se de um caminho que possibilita a descoberta do Mistério no “íntimo do Si substancial”. Verifica-se, por exemplo, na tradição hindu uma experiência bem peculiar, de busca de superação do eu empírico mediante etapas e métodos diferenciados, sempre com a indispensável ajuda de um guru. Busca-se superar a dualidade sujeito/objeto, visando o horizonte do advaita (a-dualidade), uma nova realidade e uma nova forma de conhecimento. Na tradição mística do budismo, em suas diferentes formas (theravada, hinayana, mahayana, vajrayana) sublinha-se, antes, o “silêncio de Deus”, que é uma maneira singela de “preservar a condição misteriosa do último”. O acento vem dado no “caminho” que leva à libertação, que envolve um particular trabalho da experiência. Por sua vez, nas tradições religiosas ocidentais a ênfase recai na experiência de uma alteridade reconhecida como inevitável e essencial, mas sempre vinculada ao exercício da palavra. No judaísmo, como lembra Abraham Heschel, a contemplação de Deus passa pela percepção de sua viva presença nas coisas, na Bíblia e nos atos sagrados (adoração, ciência e ação). Não há como conceber o ser humano cerceado na sua solidão. Segundo Heschel, “a alma humana  definha quando arrancada daquilo que é maior do que ela. Sem o santo, o bom se torna caótico”. Quando o olhar vem situado no horizonte dessa maravilha, torna-se capaz de perceber com mais lucidez aquilo que está próximo. Daí a excelência da oração, que situa o ser humano no extremo oposto do “ego”, facultando-lhe a possibilidade de “ver todas as coisas do ponto de vista de Deus”. E esta perspectiva mística suscita, necessariamente, uma “ação humanizadora”. Igualmente no cristianismo, a mística bebe na seiva dos livros sagrados (primeiro e segundo testamentos), desdobrando-se numa perspectiva que é especulativa ou nupcial. A iluminação contemplativa, que não se desvia da dinâmica do conhecimento, encontra sua consumação mais radical no amor unitivo. Como sublinha com acerto Henrique Cláudio de Lima Vaz, “a linguagem da união característica dos autores místicos denota, na sua sua forma frequentemente paradoxal, uma luta dramática para exprimir o inexprimível. É fundamental, no entanto, assinalar que, mesmo na inefabilidde da união, a mística cristã permanece uma mística da palavra”. E por fim, a tradição mística islâmica também está fundada na palavra. A grande teofania está ali presente num livro: o alcorão. Não se trata de um livro qualquer, mas como assinala Massignon, apresenta-se como “um ditado sobrenatural, registrado por um profeta inspirado”. Não há como deslocar a experiência mística do islã, o sufismo, entendido como sua dimensão interior, da tradição mesma em que sempre esteve associado. O sufismo não se firma em rutptura com a fé corânica, mas em linha de sua interiorização e aprofundamento.

2.    Quais as peculiaridades que definem a mística islâmica?

O sufismo (tasawwuf) é o nome mais recorrente para designar a experiência mística do islã, traduzindo uma “dimensão interior” muitas vezes desconhecida ou desapercebida na tradição islâmica. A experiência de fé islâmica ganha com o sufismo uma perspectiva de interiorização e intensificação. Os sufis consideram-se verdadeiros muçulmanos, realizando em sua vida três das dimensões essenciais do islã: a entrega abnegada (islâm), a fé (îmân) e a prática do bem (ihsân). O que mais seduz no contato com os grandes místicos dessa tradição, é a rica experiência de Deus por eles vivenciada: de um Deus que é proximidade e misericórdia, que suscita o mais vivo amor desinteressado. E Ele está em toda parte, trazendo sua “caravana de açucar”, como lembra Rûmî num de seus lindos poemas. Na perspectiva do sufismo, a razão de ser de todo o humano, e de toda a criação, é poder resgatar a comunhão com essa fonte de generosidade, misericórdia e gentileza, e poder irradiar entre os outros a sua fragrância de vida, força e luz. Diz Rûmî: “De toda parte chega o segredo de Deus; eis que todos correm, desconcertados. Dele, por quem todas as almas estão sedentas, chega o grito do aguadeiro. Todos bebem o leite da generosidade divina e querem agora conhecer o seio de sua nutriz”.

3.    Pode-se destacar alguns de seus mais importantes representantes?

O sufismo acompanha os passos da tradição islâmica. No sufismo mais clássico, marcadamente asceta, destacam-se alguns importantes nomes, como Rabi´a al-Adawiyya (m. 801). Foi ela quem introduz no sufismo o tema essencial do amor desinteressado. Podem também ser mencionados nesse momento inicial os místicos Dhu´n-Num (m. 859) – conhecido como o introdutor da ideia do conhecimento intuitivo de Deus (ma´rifa) -, e Abu Yazid Bistami (m. 874), célebre por suas locuções teopáticas. Há ainda as presenças importantes de Abu´l-Qasim al-Junayd (m. 910) e Al-Hallaj (857-922). Al-Junayd é conhecido como o místico da sobriedade (sahw). Para ele, os mistérios da mística não podem ser revelados abertamente, fora do círculo dos iniciados. Distintamente, Al-Hallaj, conhecido como o místico mártir do islã, é marcado pela ebriedade (sukr). Trata-se de um místico ardoroso, que manifesta abertamente os laços de sua união amorosa com Deus, sem as cautelas ponderadas por alguns dos mestres desta tradição. E pagou por isso… A poesia sufi está carregada desse sentimento de embriaguês. Há, porém, que registrar também a presença nessa tradição de uma corrente mística que busca disfarçar o estado embriagado interior com um comportamento exterior sóbrio, não deixando transparecer externamente as próprias virtudes. São os assim chamados malamatis. O sufismo encontra sua maturidade com a poesia e prosa persa de místicos como Farid ud-Din Attar (m. 1220) e Jalal ud-Din Rûmî (1207-1273).

4.    Em que medida a mística islâmica favorece a acolhida da diversidade religiosa?

Na visão de um dos grandes metafísicos do sufismo, Ibn´Arabi (1165-1240), todas as coisas que subsistem estão envolvidas pelo “Hálito do Misericordioso”. As teofanias estão acontecendo a cada momento, brilhando na dinâmica de movimento do coração, que é, por excelência, o “ponto de impacto dos acontecimentos espirituais”. Trata-se do órgão fundamental da experiência mística, espelho da contemplação. A realidade plural, incluindo aí as diversas manifestações de crenças, vem percebida em toda a sua positividade, na medida em que suas raízes fundam-se no mistério de Deus. Na verdade, o sufismo preocupa-se fundamentalmente com o “Princípio único”, que está na raiz das ramificações religiosas. Fixar-se numa única ramificação, desconhecendo as riquezas que habitam nas outras é, para os sufis, desconhecer as vertentes mais profundas do Mistério sempre maior. Em clássica obra sobre os “engastes da sabedoria” (Kitâb Fusûs al-Hikam), ao tratar do profeta Hûd, Ibn´Arabi adverte para o risco da concentração exclusiva num credo particular, renegando as riquezas que existem alhures. Sublinha que uma tal concentração acaba deixando escapar um “bem imenso”. A diversidade é, antes, um valor essencial, que não se pode negligenciar na dinâmica do crescimento na “ciência da Verdade”. É na linha da “religião do amor” que avançam as caravanas dos místicos como Al-Hallaj, Ibn´Arabi e Rûmî. Como indica Rûmî, numa das mais lindas passagens de seu Mathnawi, a fixação no território das formas acaba impedindo o buscador de captar a “árvore da vida”, pontuada por incontáveis nomes e cujo segredo só é possível captar quem tem o coração aberto para o mistério da diversidade.

5.    Pode-se também falar em outras formas não religiosas de mística?

Não há dúvida alguma sobre isso. Há que sublinhar, primeiramente, que todo místico tem uma relação de liberdade com respeito à sua própria tradição. Em razão de seu mergulho na profundidade espiritual, ele acaba se dando conta da realidade limitada e vulnerável de sua própria tradição, sem que isso implique diminuição de seu amor por ela. O que ocorre é que o movimento de aprofundamento do próprio vínculo acaba suscitando um exercício novo de liberdade e de abertura. O místico busca garantir, uma “margem indizível” para o horizonte experimentado ou aproximado. E esta experiência spiritual pode também acontecer fora  das crenças, como bem lembrou Michel de Certeau em classico artigo sobre o tema, publicado na Encyclopaedia universalis (1971). A possibilidade de uma experiência de profundidade, de radical comunhão com o universo, de abertura ao mistério das coisas, não é propriedade de quem vive uma experiência religiosa explícita. Fala-se hoje, com força de evidência, sobre a positividade de espiritualidades da imanência e de movimentos singulares de experimentação da plenitude do real. Há que estar aberto e desarmado para deixar-se provocar por tais ventos novidadeiros.

(Publicada no IHU Online n. 407 – 05/11/2012)


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