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terça-feira, 28 de abril de 2020

Tempos de temor e expectativa

Tempos de temor e expectativa

Faustino Teixeira


Estamos vivendo hoje no mundo uma situação extremamente difícil, onde a vulnerabilidade está exposta com toda a sua nervura. A pandemia em curso continua com sua letalidade única, virulenta. São nada menos do que 3 milhões de infectados no planeta, tendo os EUA na liderança, com 1/3 dos casos confirmados. A ameaça maior é com respeito aos riscos que vão acompanhar a presença da pandemia nos países do Terceiro Mundo: Índia, África, América Latina. No caso da Índia, é onde a vulnerabilidade está mais presente, uma vez ali estão concentrados o maior número de idosos no mundo. Na América Latina, o grande problema das favelas, desprotegidas do necessário distanciamento exigido. Fora o problema tremendo dos sem-teto, que não podem se dar o luxo de permanecerem em casa.

A situação no Brasil é preocupante. O país é o quarto no mundo a registrar o maior número de mortes nas últimas 24 horas, só sendo superado pelos EUA, França e Reino Unido. O Brasil já ultrapassou em óbitos a Itália, a Espanha e a China. Os números de hoje, como apontam os dados, indicam o registro de 5.017 casos fatais em razão da Covid-19. Um número superior ao da China, onde tudo começou. O registro na China indica 4.643 mortes. No Brasil, o estado com maior número de casos é São Paulo (21.696), seguido do Rio de Janeiro (7.944), Ceará (6.726), Pernambuco (5.358) e Amazonas (3.928). Os infectados estão presentes hoje em 13 estados e o Distrito Federal: todos com mais de 1.000 infectados.

Os casos de doença no Brasil também aumentaram significativamente: de ontem para hoje, 28/04/2020, o Brasil registrou 5.385 infectados, e o total alcança agora 71.886 casos da doença. Em vídeo de alerta que vem circulando hoje nas redes, a doutora Ana Escobar faz uma séria advertência: esta semana e a próxima são as mais difíceis, pois indicam o pico de incidência da pandemia no país. Ela faz um cálculo arrepiante: tivemos 40 dias para registrar a primeira morte. Daí em diante os dados são tremendos: 7 dias para registra mais 1.000 mortes; 5 dias para registrar outras 1.000, e agora 3 dias para registrar a mesma cifra.

Curiosamente, tenho amigos no Facebook que continuam não acreditando na presença da doença, achando que tudo não passa de enganação. Há uma coincidência entre os que desacreditam na pandemia e aqueles que defendem o atual presidente. Na entrevista publicada no dia 27/04/2020 na Carta Capital, o filósofo Vladimir Saflate fala dessa coincidência, ao comentar os recentes protestos reunindo os apoiadores do Bozo nas ruas de diversos cantos do país. Todos protestando contra a quarentena em curso. Na sua visão, os 30% de apoiadores do presidente vão se transformar em 30% de fanáticos camisas negras das milícias fascistas. Segundo Safatle, a pandemia “expõe o êxito do bolsonarismo em ´desrecalcar` características violentas de parte da população e promover uma ´transformação dos afetos na vida social brasileira`”. E no meio de tanto sofrimento, o tremendo “desgaste da compaixão”. Como aponta Safatle, “o que emerge é a expressão máxima da ausência absoluta de solidariedade pelos mais vulneráveis, a ponto de se zombar daqueles que estão morrendo”.

Em artigo publicado no O Globo de hoje, 28/04/2020, a pesquisadora Margareth Dalcolmo  observa que estamos no Brasil “correndo atrás do tempo e observando o cenário trágico da nossa obscena desigualdade social que a epidemia desnudou”. E termina seu artigo com a busca de alento em Teilhard de Chardin, num texto de janeiro de 1918, um pouco antes da primeira onda da gripe espanhola: “Será necessário que a humanidade, sob pena de perecer à deriva, se eleve à ideia de um esforço humano específico e integral.”

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Fragmentos de estrelas

Fragmentos de estrelas

As músicas escoam, ecoam em nossa vida e a atenção paralisa diante de questões que elas nos apresentam. Uma delas é a colocada por Caetano Veloso em sua bela canção "Oração ao Tempo". Eu a ouvia na tarde de 20 de abril (2020), no repertório do show Ofertório. Caetano coloca para nós algo complexo, com uma visão de baixa definição, para não dizer pessimista, quanto ao futuro do humano. A frase enigma é esta: "Quando eu tiver saído para fora do teu círculo, não serei nem terás sido".
Depois de assistir a Live de Ailton Krenak com Macelo Gleiser e ouvir atentamente o que Gleiser disse sobre nossa íntima relação com a terra, com o tempo, indicando que estamos enredados numa teia de vida, num domínio de emaranhamento, como lembra também Ingold, a reflexão sobre essa parte da letra de Caetano ganha outra figura.

Na live com Krenak, Gleiser fala da cadeia de vida em que estamos enredados, mas que dela nos esquecemos com frequência. O ser humano, diz Gleiser, entrou bem atrasado numa festa que tem 14 bilhões de anos. E cada ser humano carrega consigo em cada átomo de seu corpo fragmentos de estrelas, de estrelas que viveram há bilhões e bilhões de anos. Somos simplesmente “poeira de estrelas”, e nossa mãe é uma bactéria. O nosso ancestral comum é uma bactéria que viveu há três bilhões de anos, composta de uma célula só. Estamos embrenhados nessa conexão de vida, da qual ninguém escapa. E hoje somos convocados a celebrar essa memória comum. Ninguém sai do círculo do tempo. Como aponta Gleiser, 25% de nossos genes revelam-se iguais às árvores. 

A textura do mundo é o entrelaçamento, antes e depois da morte. Ninguém escapa desta reverberação, que é nexo e inter-relação.

E aí entra a sabedoria de Gilberto Gil, fazendo um contraponto positivo com a visão de Caetano. É cada vez mais problemático dizer que estaremos um dia fora do círculo do tempo. Aliás, com a canção "Tempo Rei", Gil sinaliza seu contraponto a Caetano, encaminhando-se nessa linha da mais ousada antropologia:
"Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transcorrendo
Tempo e espaço navegando todos os sentidos"
Gil assinala é o que é essencial, a TRANSFORMAÇÃO por que todos sempre passamos e passaremos, mesmo nos caminhos diversos que a vida oferecerá para nós depois.