Mostrando postagens com marcador Artigo no IHU 2025. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigo no IHU 2025. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Dados sobre as religiões no mundo e no Brasil

 Dados sobre as religiões no mundo e no Brasil

 

Faustino Teixeira

IHU/Paz e Bem

 

Nesse mês de junho foram publicados dados importantes sobre a presença das religiões no mundo e também no Brasil. No dia 09 saíram os dados publicados pelo Pew Research Center´s Forum de Washington D.C sobre as religiões mundiais. Trata-se de um centro de estudos ou “laboratório de ideias” voltado para transmitir informações e dados que traduzem a realidade do mundo. E no dia 12, aqui no Brasil, saíram os dados preliminares do Censo do IBGE sobre o campo religioso brasileiro. Temos, assim, um panorama interessante sobre a presença das religiões no mundo.

 

Gostaria de começar falando sobre os dados mundiais. Segundo os dados transmitidos pelo Pew Forum, relativos à presença religiosa no mundo em 2020, o cristianismo continua sendo o grupo mais numeroso do mundo, com 2.3 bilhões de adeptos, seguido pelos muçulmanos, com 2.0 bilhões. Na sequência aparecem os não-afiliados (1.9 bilhão), os hindus (1.2 bilhão) e os budistas (0.3 bilhão). Os judeus aparecem com percentagem bem menor, com 0.01 bilhão. 

 

Se comparamos os dados divulgados pelo mesmo Pew Forum em 2010, percebemos que o maior crescimento na década se deu com os muçulmanos, que ganharam 346.8 milhões de adeptos no decênio. Em seguida vieram os não-afiliados, com crescimento de 270.1 milhões, os hindus, com 126.3 milhões e os cristãos, com 121.6 milhões. 

 

O que se nota é que os muçulmanos constituem o grupo religioso mundial em maior expansão. Já ultrapassaram os católicos, e agora vão se aproximando dos cristãos. Os muçulmanos somam hoje 25.6% da população mundial, enquanto os cristãos somam 28.8%. Em 2010, a diferença era maior: os cristãos com 30.6% e os muçulmanos com 23.29%. A aproximação agora é bem evidente. Chama também a atenção a presença crescente dos não-afiliados, que poderíamos identificar com os “sem religião”. Eles traduzem hoje uma presença singular de 24.2% da população mundial.

 

Os cristãos tem sua presença mais viva na América Latina e no Caribe,  seguido de perto pela Europa. Por sua vez, os muçulmanos tem maior presença na Ásia-Pacífico, vindo em seguida o Médio Oriente e Norte da África, bem como a África SubSaariana. Os não afiliados tem sua maior incidência na Ásia-Pacífico, onde estão congregados em número bem superior ao presente na Europa, América do Norte e América Latina e Caribe, que aparecem na sequência.

 

Os países com maior número de muçulmanos são a Indonésia, Paquistão, Índia, Bangladesh e Nigéria. Quanto aos cristãos, os países com maior incidência são Estados Unidos, Brasil, México, Filipinas e Rússia, progressivamente. Os não-afiliados estão mais presentes na China, com número bem expressivo, vindo na sequência os Estados Unidos, Japão, Vietnam, Alemanha, Rússia, Brasil e França. Os hindus estão mais presentes na Índia, com presença mais moderada no Nepal, Bangladesh, Paquistão e Indonésia. Por sua vez, os budistas marcam maior presença na Tailândia, China, Miamar, Japão e Vietnã. Os judeus têm uma presença bem menor em âmbito mundial, estando mais presentes em Israel, Estados Unidos, França e Canadá. 

 

Em obra clássica de 2001, o sociólogo Peter Berger já havia sublinhado a pungência do dado religioso no mundo, não havendo indícios de um futuro menos marcado por essa presença. Acentuava na ocasião a força substantiva dos muçulmanos e a emergência singular do evangelismo pentecostal[1]. Por sua vez, a socióloga francesa, Danièle Hervieu-Léger, em livro onde abordou o fenômeno da religião em movimento, sublinhou a presença crescente dos religiosos “peregrinos”, que se contrapõem aos praticantes. Sublinhava que essa figura do peregrino era a que melhor expressava a mobilidade que permeava “a modernidade religiosa construída a partir de experiências pessoais”[2].

 

Nos dados preliminares apresentados pelo IBGE no Censo de 2022[3], podemos constatar essa importante presença dos não-afiliados ou “sem religião” aqui no Brasil. Na verdade, esse segmento de pessoas não são necessariamente ateus ou agnósticos. Como mostrou com clareza o Censo de 2010, os ateus e agnósticos constituíam uma fatia bem pouco expressiva entre os sem religião, que em sua maioria são pessoas que se desencaixaram de seus antigos laços e encontram-se em processo de “redefinição de identidade”. Encaixam-se, assim, perfeitamente na categoria de “peregrinos”, como indicou Hervieu-Léger. Entre os sem religião estão aqueles que se desvincularam de uma religião tradicional e afirmam sua crença com base em arranjos pessoais[4]. São “peregrinos” na medida em que circulam por várias instâncias definidoras de sentido, vivendo em trânsito religioso. Não são necessariamente ateus ou agnósticos, mas pessoas que partilham de uma “espiritualidade” peculiar, sem vinculação específica.

 

Uma primeira leitura dos dados preliminares do Censo foi apresentado pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), em junho de 2025[5]. Reagindo ao título do documento do ISER, penso que seria equivocado imaginar um Brasil mais plural, a partir dos dados preliminares coletados pelo IBGE no Censo de 2022. Acho mais correto falar em processo de pluralização, pois ainda temos um Brasil profundamente cristão, com 83,6% de declarantes, sendo 56,7% de católicos e 26.9% de evangélicos no país. Não há, assim um pluralismo propriamente dito. Continua ainda válida a provocação feita por Antonio Flávio Pierucci em artigo de 2010, quando já levantava essa questão[6]. E temos ainda uma presença substantiva de sem religião, que ocupam o terceiro lugar dentre os declarantes, na sequência dos católicos e evangélicos. As outras tradições religiosas continuam encolhidas em 4 % de declaração de crença, o que é um número bem reduzido. 

 

Como novidades trazidas pelo Censo de 2022, podemos apontar uma queda menos acentuada do catolicismo, se compararmos com o decréscimo ocorrido em décadas anteriores. O catolicismo continua em queda, agora de 7.9 pontos percentuais com relação ao Censo anterior. Os católicos eram 73,8% de declarantes em 2000 e 64,6% em 2010. Agora são 56,7%.

 

Não é simples a explicação para essa situação do catolicismo, que, de alguma forma freou um pouco a queda progressiva das últimas quedas. O ritmo de decrescimento é agora um pouco menor. Pode ser que fatores como a presença de papa Francisco nessa última década, com todo o simbolismo que carregou, sua simpatia e abertura, tenha ajudado nessa contenção, assim como sua visita ao Brasil, em julho de 2013, coincidindo com a XXVIII Jornada Mundial da Juventude. É algo que se pode aventar. Em âmbito nacional, o que sempre barrou o avanço pentecostal foi a “persistência da teia de símbolos e valores católicos tradicionais na cultura do campesinato local”, com lembrou Carlos Rodrigues Brandão em trabalho sobre crença e identidade no campo religioso[7]. Daí a forte presença do catolicismo no Nordeste brasileiro.

 

De acordo com o Censo de 2022, o catolicismo liderou em todas as grandes regiões do Brasil, com presença destacada no Nordeste (63,9%) e no Sul (62,4%). A maior presença de católicos ocorreu no estado do Piauí, com 77,4% de declarantes. Foram também maioria em todos os grupos de idade, mas os dados revelaram que há um aumento de católicos entre os núcleos com mais de 80 anos, chegando a 72% na faixa etária de 80 anos ou mais. Na faixa de 10 a 14 anos o índice de católicos diminui, com 52% de declarantes. Isso significa que a presença de católicos na adolescência e início da idade adulta é bem menor da que aparece entre os evangélicos, que dominam nessa faixa etária. Os dados indicam, assim, que há uma tendência de enfraquecimento da socialização primária do catolicismo, indicando a possibilidade de uma crise maior mais à frente.

 

Com respeito aos evangélicos, o Censo de 2022 indicou que um em cada quatro brasileiros definem-se como evangélicos, sobretudo pentecostais. Nos dados preliminares apresentados pelo Censo atual não consta ainda a diferença de proporcionalidade entre evangélicos de missão e pentecostais. O Censo de 2010 indicava que os evangélicos de missão tinham presença mais tímida, na faixa de 4%, enquanto os pentecostais angariavam 13,3%. Imagino que no Censo de 2022 os índices permaneçam semelhantes, com um pequeno aumento dos pentecostais. Há que aguardar os dados mais detalhados, previstos para possível divulgação no segundo semestre de 2025. Isto vale igualmente para uma melhor determinação da presença das outras tradições religiosas no Brasil, como o islamismo, o budismo, o hinduísmo etc.

 

O crescimento dos evangélicos foi menor do que estava sendo anunciado por pesquisadores ou meios de comunicação, que chegavam a prever a superação dos católicos em meados de 2030. Foi o caso do pesquisador José Eustáquio Alves, que agora ajeitou esta previsão para 2050.

 

O evangélicos tem sua maior presença no Norte (36,8%) e Centro-Oeste (31,4%), com concentração na fronteira agrícola e mineral do país, bem como nas favelas e municípios de regiões metropolitanas. A maior proporção de evangélicos foi detectada no Acre (44,4%), e a menor no Piauí (15,6%). Em algumas cidades, os evangélicos já ultrapassaram os católicos, como em Rio Branco (AC), Duque de Caxias (RJ), Nilópolis (RJ) e Búzios (RJ). 

 

Embora os dados preliminares não tenham discriminado a divisão interna do mundo evangélico, já podemos verificar, desde o Censo anterior a presença crescente dos “evangélicos sem vínculos”. O que era comum no mundo católico, envolvendo os católicos não praticantes, agora vislumbramos também no mundo evangélico, como apontou a pesquisa recente do ISER: “Há um sem número de formas de viver uma religiosidade evangélica sem necessariamente estar vinculado a uma igreja denominacional”. O que os pesquisadores têm evidenciado nos últimos anos, é uma fragmentação no campo evangélico, sendo esse campo menos “monolítico”, com novas gamas de participação ou formas de vivência da religiosidade evangélica: “igrejas autônomas, células independentes, ministérios desigrejados, influenciadores religiosos, grupos de oração no whatsap”[8].

 

Outro detalhe importante, é a presença dos evangélicos entre os mais jovens. Enquanto os católicos estão mais presentes entre os mais velhos, os evangélicos têm um perfil mais jovem, sendo a maior proporção entre aqueles que têm de 10 a 14 anos (31.6%), diminuindo com o avançar da idade: 19% entre aqueles que tem 80 ou mais anos. Esse perfil jovem também se verifica entre os sem religião.

 

Levando em conta a distribuição por raça ou cor, os evangélicos tem sua maioria de declarantes de cor ou raça preta ou parda. Como mostrou com pertinência Reginaldo Prandi, as religiões afro-brasileiras “vão cada vez mais incorporando o branco em suas fileiras”, enquanto “os negros engrossam cada vez mais as fileiras das religiões não-negras, das quais algumas mais agressivas modelam sua identidade mostrando-se numa guerra santa contra a religiosidade um dia trazida da África”[9]. Outro dado interessante é a constatação da forte presença evangélica entre a declaração de crença feita por pessoas das tradições indígenas (32,2%).

 

Cresce também no Brasil, assim como indicou o Censo de 2010, a presença dos sem religião. A proporção de pessoas que se declaram sem religião aumentou em 1.3 pontos percentuais entre os anos de 2010 e 2022, passando de 7,9% para 9,3%. Ou seja, quase 10% da população brasileira define-se hoje como sem religião. São índices que se aproximam de outros países da América Latina, como México (10,6%), Argentina (9,2%) e Equador (8,4%). A proporção aumenta em países como Uruguai (52,4) e Chile (30,3%).

 

Há uma maior presença dos sem religião na região Sudeste (10,6%), e a menor presença na região Sul (7,1%). Dentre os declarantes sem religião a maioria são homens (56,2%), e a faixa etária mais contemplada é a dos jovens (na adolescência e início da idade adulta). Na avaliação feita por Regina Novaes em reunião do ISER, no mês de junho, dentre os sem religião estão aqueles que enfatizam uma “religiosidade do eu”, ou seja, aqueles que buscam uma síntese pessoal recorrendo a aprendizados feitos em sua peregrinação espiritual. Não há, porém, fixação numa denominação religiosa específica. A preocupação maior é com a experimentação, evidenciando um contínuo trânsito religioso. Esses “peregrinos” estão sempre em busca de um “porto seguro”. Ainda seguindo a reflexão de Regina Novaes, ela não acredita que esse grupo venha a ser maioria no Brasil, uma vez que as religiões instituídas continuam sendo um expressivo dossel sagrado, fornecedoras de significado para os tempos de intempérie.

 

Em livro que organizei junto com Renata Menezes, sobre o Censo de 2010, há uma reflexão precisa do antropólogo Pierre Sanchis sobre o tempo atual. Ele dizia no prefácio da obra que o que está em curso é uma desinstitucionalização crescente das religiões: “As estruturas sólidas que fundavam, enquadravam, regulavam o universo das experiências religiosas, conferindo-lhes distinção, identidade e conteúdo, não o fazem mais com o mesmo rigor, e até quando se reafirmam com renovado vigor, não o fazem com a mesma abrangência”. Isso inclusive complexifica a noção de “pertença” religiosa, sendo uma questão para os pesquisadores do futuro. Segundo Sanchis, dentre os desafios a serem enfrentados proximamente pelas instituições religiosas está o “significado menos totalizante para a relação identitária que seus fiéis manterão com elas”[10].

 

O Censo de 2022 apontou também para a diminuição da declaração de crença espírita no Brasil, que decaiu 0.4 pontos percentuais. A religião espírita hoje no Brasil envolve 1,8% de declarantes, estando sua maioria presente na região Sudeste. No Censo de 2010 os espíritas declarantes eram 1,3%, e no Censo de 2000 eram 2,2%. Constituem o grupo com os melhores níveis de instrução, com o percentual de 48,0% de pessoas com nível superior completo, sendo sua maioria de brancos (63,8%) e pardos (26,3%). 

 

Com respeito às tradições afro-brasileiras (umbanda e candomblé), houve um crescimento expressivo, com um aumento de 233% com respeito ao Censo de 2010. Naquela ocasião, a presença afro era de 0,3% dos declarantes, com um decréscimo da umbanda e um pequeno aumento do candomblé, em comparação com o Censo de 2000. Mas no geral, o que tinha ocorrido em 2010 era um declínio dessas tradições[11]. Agora, o quadro se transforma, com o aumento da declaração de crença afro-brasileira, que alcança 1.0%. Pode-se atribuir tal crescimento a todo um movimento de afirmação e valorização do debate racial no Brasil.

 

Dentre os declarantes das religiões afro-brasileiras, há uma significativa presença de brancos (42,7%) e pardos (26,3%). Destacam-se também pela pequena taxa de analfabetismo, vindo logo depois dos espíritas, que são os mais instruídos dos declarantes religiosos no Brasil

 

Nas reflexões apresentadas pelo grupo do ISER, após a divulgação dos dados do Censo de 2022, há uma consideração importante a respeito da presença evangélica no campo cultural brasileiro. Não se pode fixar unicamente nos dados do Censo para compreender o impacto e presença dos evangélicos no Brasil. Há também que considerar “a forte e crescente presença na política partidária, na cultura, na sociabilidade e em pautas sociais com muita visibilidade midiática”. Ou seja, há uma presença na cena pública, que escapa à contabilidade expressa no Censo. Isso também vale para o mundo afro-brasileiro, cuja presença na cultura é bem expressiva, como podemos detectar nas canções, nas novelas, no carnaval e tantos outros eventos do mundo cultural. Como sublinhou com acerto a pesquisadora Magali Cunha, em artigo publicado na Carta Capital[12], “o resultado do Censo mostra que não basta projetar crescimento linear com base em números. É preciso considerar as construções culturais, dinâmicas internas, divisões e a relação com a política”. Ela sublinhou que os números são importantes, mas eles “não falam sozinhos”. Estou plenamente de acordo. Para a compreensão do campo religioso brasileiro, os dados são fundamentais, mas devem ser complementados por pesquisas qualitativas, como dissertações e teses, bem como trabalhos de campo específicos, que possam enriquecer os dados com uma visão mais ajustada da realidade em análise.

...

 

https://www.estadao.com.br/politica/municipios-evangelicos-catolicos-lula-jair-bolsonaro-eleicoes/

 

https://www.estadao.com.br/brasil/mapa-da-fe-quais-as-principais-religioes-dos-brasileiros-segundo-ibge/

 

https://fpabramo.org.br/focusbrasil/2025/06/17/pra-nao-dizer-que-nao-falei-dos-numeros-os-evangelicos-e-o-censo-de-2022-por-alexandre-brasil/?fbclid=IwY2xjawLEsBpleHRuA2FlbQIxMQBicmlkETFCTDBMdjV2czRPUHJ5SElYAR4qloper1RyFqX3G_QWBnjU6BIdmlK4dt89U8KuJBgBHhS7d5dVSfuRwLzFbw_aem_fyO6NqPSoYLZODN8S7MLwg

 

.....

Altmann

Caixa de entrada

Pesquisar todas as mensagens com o marcador Caixa de entrada

Remover o marcador Caixa de entrada desta conversa

https://lh3.googleusercontent.com/a/ACg8ocLxaSoC9LAO9MqAzjmsNEiaVmVzuBPmjCxmh_dA3K-uX3l5Ijs=s80-p

Faustino Teixeira <dutiguera@gmail.com>

06:50 (há 0 minuto)

https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif

https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif

https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif

para mim

https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif

CENSO RELIGIOSO 2022: RESULTADO FRUSTRANTE QUE BEIRA À INUTILIDADE
O resultado do censo religioso até agora apresentado pelo IBGE é em muitos sentidos frustrante. E não surpreende que tenha demorado tanto a sair.
Ele apresentou os números “graúdos”: católicos apostólicos romanos (56,7%), evangélicos (26,9%), espíritas (1,8%), umbanda e candomblé (1,0%), outras religiosidades (4,2%), sem religião (9,3%).
Algumas conclusões, mais confirmações daquilo que se podia presumir, é possível aferir: a percentagem de católicos diminuiu e a de evangélicos aumentou, em relação ao censo de 2010. Essa tendência era prevista, embora tenha vindo em intensidade menor do que por muitas pessoas projetada, particularmente dentre evangélicos, muitas vezes propensos a fazer projeções “espetaculares”. Observe-se também que a proporção de católicos entre as pessoas com mais de 80 anos ainda é de 72,0%, entre 10 e 14 anos apenas 52%. Assim, pode-se concluir, com razoável perspectiva de acerto, que essa tendência de diminuição de católicos e aumento de evangélicos se dá mais por razões demográficas do que por razões devidas às respectivas pregações ou práticas religiosas. E assim provavelmente há de seguir nos próximos anos.
Deste modo, o mundo evangélico há de se perguntar por que razão, apesar do seu aumento em termos absolutos, suas pregações e práticas religiosas estejam perdendo atratividade. Pode-se especular que isso se deva tanto pela exorbitante multiplicidade de sua “oferta”, não raro discrepante entre suas variantes, quanto por verdadeiros escândalos e opções de cunho mais político do que propriamente religioso efetuadas por suas lideranças mais conhecidas.
Alguns problemas recorrentes nos censos demográficos consistem em sua incapacidade de detectar diferenças significativas ocultas nos agrupamentos efetuados. “Sem religião”, por exemplo, não significa necessariamente que quem assim se declara (9,3%) seja desinteressado em religião ou mesmo não praticante, mas apenas que não se reconhece como aderente a qualquer religião estabelecida. O conceito “sem religião”, portanto, inclui tanto quem seja ateu ou agnóstico quanto quem crê em Deus e eventualmente até participa de alguma atividade religiosa. Ainda assim, é um grupo que cresceu, particularmente nos grandes centros, e provavelmente seguirá crescendo. Pode-se concluir, contudo, que o povo brasileiro segue sendo intensamente religioso.
Este censo, como também os anteriores, foi igualmente incapaz de detectar a dupla aderência de parcela significativa da população brasileira. Assim, pode-se colocar em dúvida o dado de que apenas 1% da população pertença ao grupo “umbanda e candomblé” e particularmente de que as pessoas que assim se declarem sejam em maior número no Sul (1,6%). É notório haver significativo número de pessoas dentre aquelas que praticam uma religião com raízes africanas, também serem batizadas cristãs, particularmente católicas, e também levem seus filhos e filhas à pia batismal numa igreja cristã. Igual observação pode ser feita em relação às pessoas espíritas, que seriam 1,8% da população.
Ainda assim, a maior deficiência do censo religioso está relacionada com a categoria “evangélicos”. Os dados, pelo menos os até agora divulgados, são praticamente inaproveitáveis para entender o universo abarcado pela designação “evangélicos”. O censo de 2010 já havia apresentado sérias deficiências nesse tocante, o que eu apresentei em artigo publicado na época. (Censo IBGE 2010 e religião. Horizontes, v. 10, n. 28: 1122-9 (out./dez. 2012). ISSN 2175-5841 [disponível em http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175-5841.2012v10n28p1122/4444]) Aquele censo tinha, por exemplo, uma relação de 49 designações diferentes para luteranos, mas tinha sido incapaz de listar entre todas elas a IECLB, igreja de “confissão luterana”, que abarca a grosso modo dois terços das pessoas que se declaram luteranas no país.
Agora, porém, muito pior. Por este censo, pelo menos pelo que foi divulgado até o momento, não se tem qualquer ideia de como está configurado o mundo evangélico. Tem havido informação, não se sabe se confiável, de que teria havido um “erro” na coleta dos dados. O que se sabe, sim, é que no governo Bolsonaro, que em verdade nem queria fazer o censo, mas foi obrigado a fazê-lo por decisão judicial, houve uma sensível redução de fundos alocados para o censo e sensível diminuição no treinamento dos recenseadores. Isso pode ter afetado gravemente os dados relativos às religiões.
Ora, é mais do que sabido que o grupo “evangélicos” é enormemente heterogêneo. São significativas não apenas as diferenças entre pentecostalismo histórico, neopentecostalismo e as numerosas igrejas pentecostais autônomas. Quem cresceu e quanto? Quem estagnou ou eventualmente até decresceu? Mas como fica o protestantismo histórico? Quantos são os presbiterianos, os luteranos, os metodistas, os batistas etc.? Os ortodoxos, que têm muito mais afinidade com os católicos, também foram classificados entre os evangélicos? Semelhantemente, os anglicanos, também designados de episcopais? Não ficamos sabendo nada. Muito menos em relação aos adventistas do sétimo dia, às testemunhas de Jeová e, ainda, aos santos dos últimos dias (mórmons). Sem esses dados, impossível sequer avaliar adequadamente as denominações pentecostais majoritárias.
Sem dados mais pormenorizados, o censo religioso de 2022 beira à inutilidade, pois os resultados graúdos apresentados eram mais ou menos previsíveis. Eles apenas confirmam o que, em termos gerais, quem acompanha o universo religioso mais ou menos já podia presumir.

...

 

Pedro

Faustino Teixeira <dutiguera@gmail.com>

06:53 (há 0 minuto)

https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif

https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif

https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif

para mim

https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif

Dudu, saiu de moda mas não perdeu validade o conceito de "desafeição religiosa", que foi muito usado nos anos 1950-70. Acho que ele é muito mais útil do que "secularização" (que só vale pra referir-se à perda de poder político da religião") pra explicar o afastamento de fiéis em relação à sua Igreja. O problema é que ele só foi trabalhado pra Igreja católica, e não vale pra outros sistemas religiosos. Mas ele fala da perda de afeto em 3 sentidos: ligação afetiva propriamente dita, que a pessoa tem com a sua Igreja; ligação prática, que é a pessoa levar a sério o que a Igreja manda; e ligação ritual, que é a pessoa afastar-se dos ritos da sua Igreja. Trabalhar a perda de fiéis por esse viés me parece mais útil do que falar em "crise de fé" (porque é crise religiosa, não de fé). Mas isso é coisa do século passado...

 

Pedrob

 

Gente, escrevi correndo e vejo com alegria que deu certo. Pra quem tem meu livro "Convite à Sociologia da Religião", trabalho isso no cap. 11, especialmente p. 192 em diante. Mas o texto mais completo está no artigo que vai em anexo, pra quem se interessar pelo tema. Abraços e grato pela boa avaliação!

 

https://www.ihu.unisinos.br/653585-cresce-a-pluralidade-religiosa-nas-capitais-brasileiras-entre-1991-e-2022-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves

 



[1] Peter L. Berger (Ed.). Le réenchantement du monde. Paris: Bayard, 2001, p. 21-24.

[2] Danièle Hervieu-Léger. O peregrino e o convertido. A religião em movimento. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 87.

[4] Faustino Teixeira & Renata Menezes (Orgs). Religiões em Movimento. O Censo de 2010. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 26-28.

[5]Um Brasil mais plural: um primeiro olhar sobre os dados de Religião do Censo 2022 – 06/06/2025: https://iser.org.br/noticia/um-brasil-mais-plural-um-primeiro-olhar-sobre-os-dados-de-religiao-do-censo-2022/ (acesso em 16/06/2025).

[6] Antônio Flavio Pierucci. Cadê nossa diversidade religiosa?  Comentários ao texto de Marcelo Camurça. In: Faustino Teixeira & Renata Menezes (Orgs). As religiões no Brasil. Continuidades e rupturas. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 49-51.

[7] Carlos Rodrigues Brandão. Crença e identidade. Campo religioso e mudança cultural. In: Pierre Sanchis (Org.). Catolicismo: unidade religiosa e pluralismo cultural. São Paulo: Loyola, 1992, p. 51.

[8] Veja os dados apontada na recente pesquisa do ISER, citado acima.

[9] Reginaldo Prandi. Herdeiras do Axé. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 77.

[10] Pierre Sanchis. Prefácio. In: Faustino Teixeira & Renata Menezes (Orgs). Religiões em Movimento, p. 13-14.

[11] Reginaldo Prandi. As religiões afro-brasileiras em ascensão e declínio. In: Faustino Teixeira & Renata Menezes (Orgs). Religiões em Movimento, p.203-218.

[12] Magali Cunha. O que podemos afirmar sobre o número de evangélicos no Censo de 2022: https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/o-que-ja-podemos-afirmar-sobre-o-numero-de-evangelicos-no-censo-2022/(acesso em 16/06/2024).

 

Mensagem de Pedro Oliveira na página Zap de Emaús – Junho 2025

 

Dudu, saiu de moda mas não perdeu validade o conceito de "desafeição religiosa", que foi muito usado nos anos 1950-70. Acho que ele é muito mais útil do que "secularização" (que só vale pra referir-se à perda de poder político da religião") pra explicar o afastamento de fiéis em relação à sua Igreja. O problema é que ele só foi trabalhado pra Igreja católica, e não vale pra outros sistemas religiosos. Mas ele fala da perda de afeto em 3 sentidos: ligação afetiva propriamente dita, que a pessoa tem com a sua Igreja; ligação prática, que é a pessoa levar a sério o que a Igreja manda; e ligação ritual, que é a pessoa afastar-se dos ritos da sua Igreja. Trabalhar a perda de fiéis por esse viés me parece mais útil do que falar em "crise de fé" (porque é crise religiosa, não de fé). Mas isso é coisa do século passado...

 

Gente, escrevi correndo e vejo com alegria que deu certo. Pra quem tem meu livro "Convite à Sociologia da Religião", trabalho isso no cap. 11, especialmente p. 192 em diante. Mas o texto mais completo está no artigo que vai em anexo, pra quem se interessar pelo tema. Abraços e grato pela boa avaliação!

 

Leão XIV: entre as inquietações do tempo e o desejo de unidade

  

Leão XIV: entre as Inquietações do tempo e o desejo de Unidade

 

Faustino Teixeira

IHU-Unisinos / Paz e Bem

 

 

Vivemos um momento novo na igreja católica com a presença do papa Leão XIV. Como mostrou Marco Politi, a sua eleição significou uma clara derrota dos segmentos ultra-conservadores presentes no conclave, e a escolha de um cardeal que igualmente veio do “fim do mundo”, decisivamente orientado para dar prosseguimento à renovação eclesial. 

 

Sua eleição foi facultada pela aliança entre os segmentos curiais moderados e o núcleo de cardeais “atentos à tradição mas abertos à necessidade de prosseguir gradualmente com as reformas eclesiais” em curso[1]. A eles soma-se o singular arco dos purpurados do Sul global, indicados por Francisco.

 

Ainda é cedo para fazer previsões definitivas sobre a sua presença no Vaticano, mas já podemos apontar algumas questões e indídícios do exercício de seu magistério como bispo de roma. 

 

Em artigo publicado no dia 19 de maio de 2025 no jornal italiano La Stampa, o teólogo Vito Mancuso apontou três eixos fundamentais que podem ser captados neste momento inicial do pontificado do papa Prevost[2]. São eles a inquietação, a unidade e o amor. Acho bem pertinente essa intuição de Mancuso com base no que estamos vendo até agora. 

 

De fato, também percebo a presença desses três eixos que vão delineando a marca de um pontificado. Na homilia de entronização de Leão XIV, na Praça de São Pedro, esses elementos estiveram claramente presentes. 

 

O papa começou sua reflexão falando de inquietação, com base em passagem das Confissões de Agostinho: “Fizeste-nos para ti, e o nosso coração não encontra repouso enquanto não repousa em ti”. Na conclusão de sua homilia, a questão vem retomada: de uma igreja que se deixa inquietar-se pela história.

 

Essa reflexão sobre a inquietação, me faz lembrar uma passagem muito rica do papa Francisco quando esteve no Brasil e numa de suas homilias,  na Basílica do Santuário Nacional de Aparecida (24/07/2013),  falou de três simples posturas que se colocam para a igreja: manter acesa a esperança, deixar-se surpreender por Deus e viver na alegria[3].

 

Acho essa homilia no Brasil um dos pontos altos da reflexão de Francisco. Quando o papa Leão XIV fala em inquietação, eu logo relaciono a questão com o “deixar-se surpreender por Deus” de Francisco. 

 

Estar inquieto é estar desperto e atento para ouvir os clamores de Deus na história, e sobretudo o grito dos pobres e da Terra. Uma igreja que vive aberta à inquietação, é uma igreja que se quer aberta ao mundo e à história. Vejo esse desafio como essencial. 

 

Isso foi muito bem percebido por Mancuso.

 

Porém, o desafio da inquietação deve ser, segundo Leão XIV, contrabalançado pela busca da Unidade. 

 

E aí vem, então, a tentação de manter regulada a igreja no domínio da tradição. 

 

Trata-se da busca de um equilíbrio, mas caso realizado sem perspicácia pode engessar a igreja num caminho difícil. Leão XIV tem mantido uma preocupação de resguardar a unidade, e para tanto, precisa manter as “rédeas” da igreja, sobretudo no âmbito ad-intra, salvaguardando os valores mais estabelecidos, e evitando ousadias no campo da pastoral.

 

As duas primeiras homilias de Leão XIV foram bem enquadradas, em linha de tradicionalidade: as duas foram celebradas sobretudo em Latim, com exceção das homilias[4]. E estavam igualmente ali todas as insígnias visíveis de ligação com o passado. 

Na homilia da primeira missa, dirigida aos cardeais eleitores, a visão teológica do papa tanto sobre Jesus como a igreja não revelou nenhuma novidade ou ousadia. 

 

O que vimos ali, foi o claro influxo de Leão Magno, e uma preocupação de fidelidade ao Concílio de Calcedônia: a visão de um Jesus divinizado e de uma igreja como arca essencial da salvação.

 

Do diálogo à doutrina: uma nova sinalização na conjuntura eclesial

 

Pensando aqui no momento atual do pontificado de Leão XIV. Ainda é cedo para avaliações mais precisas, mas fico preocupado com o acento que o novo papa vem dando ao termo “doutrina”, bem como “Unidade”. São duas expressões que marcam a sua entrada no pontificado. Os núcleos conservadores, como o Centro Dom Bosco, estão radiantes de alegria com os primeiros indícios que se manifestam. 

 

Cito aqui a recente remoção de Vincenzo Paglia do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família. Em seu lugar veio nomeado o cardeal Baldassare Reina, que é vigário geral de Leão XIV e Chanceler da Lateranense. 

 

Isso significa que Leão XIV está preocupado com os debates que aconteceram anteriormente, com Francisco, a respeito da família. Vale agora o seu novo mote: a família é fundamentada na “união estável entre um homem e uma mulher”. 

 

Vejo aqui um influxo, ainda que indireto, às pressões do cardeal Raymond Burke, do núcleo duro conservador, que sempre atacou Francisco nessa temática da família, e atual também no recente Conclave. Em dezembro de 2013, ele reagiu com firmeza contra uma entrevista de Francisco concedida à "Civiltà Cattolica".

 

Como lembrou um dos “intelectuais” do conservadorismo católico no Brasil, “a remoção da Paglia é um gesto claro de que Leão XIV pretende restaurar a integridade moral e doutrinária dos organismos da Santa Sé”. 

 

Há pressões para que mudanças também ocorram na secretaria geral e relatoria do Sínodo, bem como no Dicastério das Comunicações e no Dicastério para a Doutrina da Fé.

 

Há também insatisfações bem precisas com respeito à vigência da carta apostólica de Francisco, "Tradutionis Custodes", de julho de 2021, que restringe a celebração da missa tradicional em latim. Passos distintos com respeito a tal decisão de Francisco já começam a ser visibilizados. O que existe é, de fato, uma saudade do moto proprio "Summorum Pontificum", de Bento XVI (2007), que facultava aos padres celebrar a missa tradicional em latim. Penso que isso vai começar a ocorrer, com inspiração nas duas primeira missão de Leão XIV, onde o latim foi consagrado.

 

Assim como tivemos, no passado recente, o debate em torno ao diálogo e anúncio, com Bento XVI sublinhando a prioridade do anúncio, temos agora a preocupação do novo papa em retomar o lugar da “doutrina” católica. A prioridade agora é com a doutrina, mais do que com o diálogo. 

 

Vemos aqui a força e o peso de sua herança agostiniana.

 

Vimos isso com clareza em sua homilia na missa para os cardeais eleitores, quando firmou uma visão bem cristocêntrica, com ênfase na divindade de Jesus. 

 

Em discurso aos representantes de outras igrejas e comunidades eclesiais e de outras religiões, Leão XIV reiterou essa ênfase na doutrina. 

 

Chamou a atenção para a importância do “vínculo eclesial” quando se fala em encontro com a diversidade. 

 

Sinalizou com firmeza a ideia de unidade, que a seu ver “só pode ser a unidade na fé”. Mesmo reconhecendo que vai seguir a linha da sinodalidade de Francisco, Leão XIV vai, na verdade, priorizar a busca de unidade e não tanto de abertura plural. 

 

Ainda a respeito de sua preocupação com a doutrina católica, cito também aqui o discurso de Leão XIV aos membros da Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice, no dia 17 de maio de 2025. 

 

Em seu discurso, o papa Prevost sublinhou que as palavras diálogo e doutrina não são incompatíveis. 

 

O papa busca em seu discurso apontar para um outro significado de “doutrina”, agora com base na Doutrina Social da Igreja. 

 

Enfatiza que esse novo significado de doutrina, entendida agora como “ciência”, “disciplina” ou “saber”, mostra-se essencial no momento atual. Sem tal compreensão, o próprio sentido de diálogo “se esvazia”. A seu ver, a doutrina não é uma opinião, mas “um caminho comum, coral e até multidisciplinar rumo à verdade”.

 

Como mostrou Mancuso em seu artigo, o “ponto crítico” do papa Prevost vai ser a forma como ele conseguirá solucionar a questão dessas duas dimensões: a inquietações do mundo e a unidade da igreja. Em síntese, “como se abrir às inquietudes do mundo e garantir a unidade da igreja”. Aqui entra a marca agostiniana do novo pontífice. Em semelhante linha de reflexão, o vaticanista Marco Politi, no seu blog, pontua que Leão XIV vai atuar como um “arquiteto”, buscando equilibrar os traços reformadores do pontificado de Bergoglio com o seu estilo particular, fiel à sua cultura teológica agostiniana, voltada a salvaguardar o “depósito da fé”[5].

 

Todos sabemos da visão tremendamente negativa da teologia da história de Agostinho: de um tecido marcado pelo peso do pecado original. Para Agostinho, quando o ser humano se deixa entregue a si mesmo, não consegue senão pecar. Toda a humanidade vem, assim, entendida como uma “massa damnata”, cujo único remédio é a graça de Deus. O pessimismo de Ratzinger deve-se, também, ao influxo de Agostinho: não nos esqueçamos. Essa visão agostiniana acaba por frear qualquer tentativa de avança pastoral que possa provocar “danos” à unidade da igreja. 

 

Em matéria publicada ontem – 18/05/25 – no O Globo[6], pudemos acompanhar as reflexões de Maria Clara Bingemer e Maria José Rosada, onde falaram sobre essa orientação agostiniana presente no novo papa, e suas possíveis consequências no âmbito da pastoral: com respeito ao tema das mulheres na igreja, a visão tradicional da família, a resistência aos desafios relacionados à comunidade LGBTQIA+ etc.

 

A esperança está, a meu ver, no imperativo essencial do AMOR, uma questão também muito presente na reflexão e, sobretudo, no testemunho de Prevost, reforçado por toda uma rica experiência no Peru. O seu carinho com os pobres, os migrantes, os desvalidos, pode ser, em verdade, o polo decisivo de seu compromisso pastoral nos próximos anos. Foi o que pudemos verificar igualmente no momento de abertura do pontificado, quando o papa se apresentou ao povo na sacada da Praça de São Pedro[7]. Ali vimos um bispo sensível, que começou falando da urgência da paz, de uma paz desarmada, humilde e perseverante. E de forma bonita, em espanhol, dedicou palavras singelas à sua comunidade no Peru. Ali ocorreram sinais de profecia, de um olhar atento a questões essenciais como os migrantes, os excluídos, os que sofrem e anseiam por alegria.  

 

Aí está, a meu ver, a possível surpresa de um pontificado atento aos sinais dos tempos. Trata-se do desafio de “deixar-se surpreender” pelos mistérios de Deus e firmar com tenacidade a aliança entre o Amor e a Inquietação com o ritmo do mundo. De forma vibrante, ao final de sua homilia na missa inaugural, bradou Leão XIV: “Irmãos, irmãs, esta é a hora do amor! A caridade de Deus, que faz de nós irmãos, é o coração do Evangelho”.

...

 

 



[1] Marco Politi. Ecco il programma di Papa Leone XIV: pace, unità e una stoccata agli ultra-conservatori:

https://www.ilfattoquotidiano.it/2025/05/19/papa-leone-xiv-programma-pace-ultra-conservatori/7993569/ (acesso em 20/05/2025).

[2]  Vito Mancuso: Leone XIV e il cuore inquieto della Chiesa aperta al mondo:

https://www.lastampa.it/cronaca/speciali/conclave/2025/05/19/news/leone_e_il_cuore_inquieto_della_chiesa-15152970/amp/(acesso em 19/05/2025)

[3] PALAVRAS do papa Francisco no Brasil. São Paulo: Paulinas, 2013, p. 23-26 (Santa Missa na Basílica do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida).

[5] Marco Politi. Ecco il programma di Papa Leone XIV.

[6] Yhayz Guimarães. Orientação agostiniana de papa levanta dúvidas entre progressistas. In: O Globo, 18/05/2025 – Mundo, p. 26.

Do diálogo à doutrina: uma nova sinalização na conjuntura eclesial

 Do diálogo à doutrina: uma nova sinalização na conjuntura eclesial

 

Pensando aqui no momento atual do pontificado de Leão XIV. Ainda é cedo para avaliações mais precisas, mas fico preocupado com o acento que o novo papa vem dando ao termo “doutrina”, bem como “Unidade”. São duas expressões que marcam a sua entrada no pontificado. Penso que nós de Emaús devemos estar atentos ao que está por vir. Os núcleos conservadores, como o Centro Dom Bosco, estão radiantes de alegria com os primeiros indícios que se manifestam. Cito aqui a recente remoção de Vincenzo Paglia do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família. Em seu lugar veio nomeado o cardeal Baldassare Reina, que é vigário geral e Chanceler da Lateranense. Isso significa que Leão XIV está preocupado com os debates que aconteceram anteriormente, com Francisco, a respeito da família. Vale agora o seu novo mote: a família é fundamentada na “união estável entre um homem e uma mulher”. Como lembrou um dos “intelectuais” do conservadorismo católico no Brasil, “a remoção da Paglia é um gesto claro de que Leão XIV pretende restaurar a integridade moral e doutrinária dos organismos da Santa Sé”. Há também pressões para que mudanças também ocorram na secretaria geral e relatoria do Sínodo, bem como no Dicastério das Comunicações e no Dicastério para a Doutrina da Fé.

 

Assim como tivemos, no passado recente, o debate em torno ao diálogo e anúncio, com Bento XVI sublinhando a prioridade do anúncio, temos agora a preocupação do novo papa em retomar o lugar da “doutrina” católica. A prioridade agora é com a doutrina, mais do que com o diálogo. Vimos isso com clareza em sua homilia na missa para os cardeais eleitores, quando firmou uma visão bem cristocêntrica, com ênfase na divindade de Jesus. Em discurso aos representantes de outras igrejas e comunidades eclesiais e de outras religiões, Leão XIV reiterou essa ênfase na doutrina. Chamou a atenção para a importância do “vínculo eclesial” quando se fala em encontro com a diversidade. Sinalizou com firmeza a ideia de unidade, que a seu ver “só pode ser a unidade na fé”. Mesmo reconhecendo que vai seguir a linha da sinodalidade de Francisco, Leão XIV vai, na verdade, priorizar a busca de unidade e não tanto de abertura plural. 

 

Ainda a respeito de sua preocupação com a doutrina católica, cito também aqui o discurso de Leão XIV aos membros da Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice, no dia 17 de maio de 2025. Em seu discurso, o papa Prevost sublinhou que as palavras diálogo e doutrina não são incompatíveis. O papa busca em seu discurso apontar para um outro significado de “doutrina”, agora com base na Doutrina Social da Igreja. Enfatiza que esse novo significado de doutrina, entendida agora como “ciência”, “disciplina” ou “saber”, mostra-se essencial no momento atual. Sem tal compreensão, o próprio sentido de diálogo “se esvazia”. A seu ver, a doutrina não é uma opinião, mas “um caminho comum, coral e até multidisciplinar rumo à verdade”.

 

...

 

Do diálogo à doutrina: uma nova sinalização na conjuntura eclesial

 

Pensando aqui no momento atual do pontificado de Leão XIV. Ainda é cedo para avaliações mais precisas, mas fico preocupado com o acento que o novo papa vem dando ao termo “doutrina”, bem como “Unidade”. São duas expressões que marcam a sua entrada no pontificado. Os núcleos conservadores, como o Centro Dom Bosco, estão radiantes de alegria com os primeiros indícios que se manifestam. 

 

Cito aqui a recente remoção de Vincenzo Paglia do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família. Em seu lugar veio nomeado o cardeal Baldassare Reina, que é vigário geral de Leão XIV e Chanceler da Lateranense. 

 

Isso significa que Leão XIV está preocupado com os debates que aconteceram anteriormente, com Francisco, a respeito da família. Vale agora o seu novo mote: a família é fundamentada na “união estável entre um homem e uma mulher”. 

 

Vejo aqui um influxo, ainda que indireto, às pressões do cardeal Raymond Burke, do núcleo duro conservador, que sempre atacou Francisco nessa temática da família, e atual também no recente Conclave. Em dezembro de 2013, ele reagiu com firmeza contra uma entrevista de Francisco concedida à "Civiltà Cattolica".

 

Como lembrou um dos “intelectuais” do conservadorismo católico no Brasil, “a remoção da Paglia é um gesto claro de que Leão XIV pretende restaurar a integridade moral e doutrinária dos organismos da Santa Sé”. 

 

Há pressões para que mudanças também ocorram na secretaria geral e relatoria do Sínodo, bem como no Dicastério das Comunicações e no Dicastério para a Doutrina da Fé.

 

Há também insatisfações bem precisas com respeito à vigência da carta apostólica de Francisco, "Tradutionis Custodes", de julho de 2021, que restringe a celebração da missa tradicional em latim. Passos distintos com respeito a tal decisão de Francisco já começam a ser visibilizados. O que existe é, de fato, uma saudade do moto proprio "Summorum Pontificum", de Bento XVI (2007), que facultava aos padres celebrar a missa tradicional em latim. Penso que isso vai começar a ocorrer, com inspiração nas duas primeira missão de Leão XIV, onde o latim foi consagrado.

 

Assim como tivemos, no passado recente, o debate em torno ao diálogo e anúncio, com Bento XVI sublinhando a prioridade do anúncio, temos agora a preocupação do novo papa em retomar o lugar da “doutrina” católica. A prioridade agora é com a doutrina, mais do que com o diálogo. 

 

Vemos aqui a força e o peso de sua herança agostiniana.

 

Vimos isso com clareza em sua homilia na missa para os cardeais eleitores, quando firmou uma visão bem cristocêntrica, com ênfase na divindade de Jesus. 

 

Em discurso aos representantes de outras igrejas e comunidades eclesiais e de outras religiões, Leão XIV reiterou essa ênfase na doutrina. 

 

Chamou a atenção para a importância do “vínculo eclesial” quando se fala em encontro com a diversidade. 

 

Sinalizou com firmeza a ideia de unidade, que a seu ver “só pode ser a unidade na fé”. Mesmo reconhecendo que vai seguir a linha da sinodalidade de Francisco, Leão XIV vai, na verdade, priorizar a busca de unidade e não tanto de abertura plural. 

 

Ainda a respeito de sua preocupação com a doutrina católica, cito também aqui o discurso de Leão XIV aos membros da Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice, no dia 17 de maio de 2025. 

 

Em seu discurso, o papa Prevost sublinhou que as palavras diálogo e doutrina não são incompatíveis. 

 

O papa busca em seu discurso apontar para um outro significado de “doutrina”, agora com base na Doutrina Social da Igreja. 

 

Enfatiza que esse novo significado de doutrina, entendida agora como “ciência”, “disciplina” ou “saber”, mostra-se essencial no momento atual. Sem tal compreensão, o próprio sentido de diálogo “se esvazia”. A seu ver, a doutrina não é uma opinião, mas “um caminho comum, coral e até multidisciplinar rumo à verdade”.