sábado, 19 de abril de 2025

Onde está o teu Irmão? O desafio do cuidado com os idosos

 “Onde está o teu irmão?” O desafio do cuidado com os idosos

 

Entrevista com Faustino Teixeira

Instituto Humanitas da Unisinos (IHU)

 

Desde quando os temas do envelhecimento e da morte se tornaram questões reflexivas na sua vida?

 

O interesse pelo tema da morte me acompanha desde muito cedo. Perdi um irmão quando eu tinha 13 anos. Foi uma morte sofrida, de Leucemia. Um jovem atleta, campeão de natação, com estilo de vida e alimentação bem controlados. Apesar disso, a doença veio impiedosa e ceifou sua vida no auge de sua juventude. Éramos muito ligados. Durante sua doença estive sempre por perto, e ele apreciava muito a minha presença. Depois de sua morte, o tema pairou na minha vida, motivando o meu interesse. 

 

Na juventude, os filmes de Ingmar Bergman vieram complementar essa minha atenção às questões relacionadas à finitude. Sempre fui um apaixonado pelo diretor sueco, que aborda com precisão os grandes temas de fronteira, como a morte, o sofrimento, a solidão e a dor. 

 

Durante o curso de filosofia, ocorreu um singular interesse por Heidegger e as questões relacionadas com a morte. Foi a tomada de consciência viva de que já estamos começando a morrer assim que nascemos. Acrescento também o influxo do biólogo Jacques Monod, com seu livro O acaso e a necessidade. Com ele a consciência de que tudo que nos rodeia vive sob o dramático imperativo da entropia. Tudo que existe no tempo, vai aos poucos perdendo sua vitalidade e fenece. Havia ainda o meu interesse pelo Zen Budismo

 

A questão da morte se fez mais presente para mim desde 2005, quando esbarrei com um doença complicada que acabou evoluindo para uma mielofibrose (câncer no sangue). Foram anos de tratamento delicado, com repercussões duras sobre o corpo. Em todo o tempo da doença, a espiritualidade foi minha companheira de quarto e de vida. Foi o grande élan que me proporcionou a resiliência necessária para lidar com a adversidade. 

 

Em 2020 passei por um transplante de medula, e foi mais uma passagem que provocou pontuais reflexões sobre a morte e o morrer. O pós-transplante não foi tão simples, e tive complicações de saúde dolorosas, mas consegui superar, com a presença de minha esposa e a preciosa ajuda de um profissional de saúde maravilhoso, com sua equipe exemplar. Trata-se do dr. Angelo Atalla. Com ele tive também conversas muito bonitas e duras sobre o tema da morte. 

 

Durante o transplante e o pós transplante, uma das leituras mais presentes foi a de Rainer Maria Rilke, a quem dediquei um capítulo em livro sobre a mística cristã.  Rilke foi um companheiro fiel nessa minha dura travessia. Com ele me dei conta, de forma ainda mais intensa, de que a nossa vida é frágil e miúda, diante de tanta complexidade. 

 

É cirúrgica a sua reflexão sobre a nossa presença num tempo marcado pela contingência. Ele diz na segunda elegia de Duíno, que “o que é nosso flutua e desaparece”[1]. Se as árvores e casas que habitamos, resistem, “nós passamos”. Não estamos protegidos dessas marcas do tempo, e não há nada que impeça o nosso envelhecimento. Também não conseguimos viver nenhuma experiência que possibilite uma “duração pura” ou promessa de eternidade. O que há, fatalmente, é uma “inquietante fluidez”. 

 

Rilke adverte-nos com precisão que a temporalidade corrói, sem piedade, todos os nossos esforços “de realização e plenitude ontológicas”. Ao comentar esta segunda elegia, Dora Ferreira da Silva sublinha: “A beleza, os gestos de fervor, os impulsos do coração, os momentos de êxtase e comunhão, tudo isso que é nosso ´flutua e desaparece`”[2]. No itinerário que se seguiu veio igualmente o impacto e força do livro de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Foi um contraponto bonito na minha reflexão, impulsionando-me para a dinâmica da alegria e da coragem. 

 

Em 2025 vinculei-me a um projeto que envolve a reflexão sobre o envelhecer, sob a coordenação da doutora Ana Claudia Quintana Arantes, especializada em cuidados paliativos. Tem sido uma experiência rica de aprendizado e partilhas. O meu projeto é escrever em breve um livro sobre o tema.

 

Segundo os dados do último censo, o número de idosos no Brasil cresceu 57,4% em 12 anos. Como a sociedade brasileira tem lidado com os idosos? Quais são as carências no país para lidar com o envelhecimento da população? 

 

Estamos diante de uma questão extremamente delicada e urgente: como lidar com o envelhecimento no Brasil. Com o avanço da medicina e dos recursos para o tratamento das doenças, as pessoas vivem mais. A questão do envelhecimento passa a ganhar urgência, desafiando a reflexão e as práticas de saúde. Não estamos, porém, devidamente preparados para lidar com isso. 

 

Há ainda muito preconceito com o etarismo. Os velhos não são aceitos pela sociedade pois não estão mais na cadeia de produção e nem traduzem a sua presença na sociedade como algo que lucra. O velho é simplesmente descartado, também por sua família, com lindas exceções. 

 

No recente filme, A substância, da diretora francesa Coralie Faregeat, o tema do etarismo e da indústria frenética da beleza estão muito presentes. Vivemos numa sociedade que não se dá bem com o avançar da idade, nem está instrumentada para lidar com esta delicada questão. Como diz Ana Claudia Quintana, “a vida é uma condição sexualmente transmissível, incurável, progressiva, podendo levar a diversas incapacidades e, em 100% dos casos, termina em morte”[3]

 

Tenho uma severa preocupação com nossa realidade brasileira, sobretudo diante de dificuldades precisas que observo com a forma rotineira de lidar aqui em nosso país com as doenças e a precariedade dos serviços de saúde. A sorte é que temos o SUS, que é das coisas mais preciosas para garantir um futuro menos sombrio, mas ele está sempre sendo ameaçado sob o peso de muitas críticas.

 

Preocupa-me o gasto com a saúde, o preço impossível de medicamentos para certas doenças e as resistências dos planos de saúde para cobrir os gastos com certos medicamentos ou procedimentos. Tudo tem que ser judicializado... E no horizonte do envelhecer, a ameaça dura de uma morte sofrida. 

 

Com base ainda na reflexão de Ana Claudia Quintana, em pesquisa divulgada por ela, o Brasil ficou em “3º lugar como pior país do mundo para ser morrer”[4]. O acesso dos idosos aos cuidados paliativos, quando diante de situações delicadas de saúde, é ainda irrisório. Enquanto os Estados Unidos possuem 4 mil serviços nessa linha, o Brasil conta apenas com cerca de 180. 

 

No Brasil, apenas 0,3% da população tem acesso aos cuidados paliativos. Para os que vivem uma situação derradeira, e que têm condições financeiras ou conseguem apoio, fazem sua travessia com o recurso da distanásia, ou seja, o prolongamento de sua vida – de sua dor – através de intervenção diagnóstica que utiliza recursos indefinidos para manter a pessoa viva[5]. Em verdade, o que a distanásia promove é “o prolongamento ou o aprofundamento da experiência de sofrimento”. É, em geral, um recurso defendido por grande parte dos médicos e dos familiares dos doentes. Na prática, porém, a maioria da população brasileira morre mesmo é em razão da mistanásia, ou seja, “a total ausência de cuidados”[6]

 

Nos últimos anos começa a ocorrer no país um movimento importante em defesa da dignidade do morrer, do respeito pelo tempo da morte. São profissionais que defendem de forma firme e profissionalmente competente o direito das pessoas viverem o tempo de sua maior fragilidade com dignidade. Trata-se da defesa da ortotanásia, ou seja, “o respeito pelo tempo da morte”[7]

 

A situação dos idosos vem ainda mais prejudicada em razão dos casos de demência, quando os indivíduos se vêem desconectados da realidade. Como mostra Ana Claudia Quintana, 

 

“a demência é o nome que se dá a uma síndrome causada por várias doenças de curso lento e progressivo que comprometem a memória, o pensamento, o raciocínio, a orientação, a compreensão, a capacidade de aprendizagem, a linguagem, o julgamento, o comportamento e a capacidade de executar atividades cotidianas”[8].

 

O traço da demência já começa a ocorrer antes mesmo de 65 anos entre 2% e 10% das pessoas idosas. Estatísticas confiáveis indicam a probabilidade de que em meados de 2050 teremos 131,5 milhões de pessoas no mundo com diagnóstico de Alzheimer, uma doença que não tem cura e que constitui o maior valor de risco para os idosos. Como diz Ana, “se você quiser chegar aos 90 anos, saiba que a probabilidade de desenvolver a doença é como jogar par ou impar”[9].

 

Estamos todos envolvidos no desafio de lidar com o envelhecimento. Em sua obra A solidão dos moribundos, Norbert Elias abre a reflexão dizendo que todos teremos que lidar com o fato de que as pessoas que estão no circuito de nosso amor, um dia vão morrer, e não é fácil para ninguém identificar-se com esse dado da finitude. Dentre os diversos problemas de nossa época, um dos mais gerais – diz o sociólogo -, tem a ver com a nossa dificuldade “de dar aos moribundos a ajuda e afeição de que mais que nunca precisam quando se despedem dos outros homens”[10].

 

Por que, para muitos idosos, o envelhecimento é acompanhado de sofrimento, solidão, depressão e até casos de suicídio? Como mudar essa realidade? 

 

Sem dúvida, a velhice é um tempo onde muitos experimentam solidão e sofrimento. Não é um tempo fácil para ninguém. É quando a pessoa experimenta um momento diverso na vida, muitas vezes marcado pelo distanciamento dos filhos, que firmam suas vidas sob outros parâmetros. É um momento em que começam a surgir as marcas da contingência e dos limites. É quando os caminhos do cuidado e da atenção se tornam fundamentais e necessários. Há que buscar caminhos novidadeiros para lidar com o momento particular vivido pelos idosos, e também estar atentos para detectar os traços de depressão que podem envolver os que passam por essa realidade. 

 

Ana Claudia Quintana nos adverte que a taxa de suicídio entre os idosos no Brasil é superior à taxa verificada entre a população geral, com uma média de 7,8 casos a cada 100.000 habitantes. Isso é sério! E essa taxa eleva-se ainda mais entre aqueles que ultrapassaram os 80 anos de idade. Há que criar mecanismos de amparo, atenção e generosidade para os que chegam a tal idade, bem como garantir espaços especiais para o seu entretenimento. É plenamente possível alcançar uma “bela velhice”, que pode ocorrer quando ela vem inserida com sentido num “projeto de vida”[11]

 

O bom envelhecimento requer a manutenção de um estado particular de espiritualidade e de salvaguarda do ânimo. Em suas pesquisas sobre o tema, a antropóloga Mirian Goldenberg sublinha que uma das condições necessárias para uma velhice saudável é manter sempre aceso o bom humor e evitar que os percalços da vida prejudiquem o traço da alegria[12]. O tempo do envelhecimento não pode ser reduzido ao índice de danos que o acompanha. É possível, sim, reconhecer e destacar também os ganhos, como mostrou Lya Luft. Mesmo diante de perdas fundamentais, como a de um grande amor, é possível encontrar caminhos de ressurgência: “Aprender a perder a pessoa amada é afinal aprender a ganhar-se a si mesmo, e ganhar, de outra forma – realmente assumindo  -, todo o bem que ela representava”. A morte, diz Lya Luft, 

 

“é a grande personagem , o olho que nos contempla sem dormir, mas pode nos revelar muitos segredos. O maior deles há de ser: a morte torna a vida tão importante! Porque vamos morrer, precisamos poder dizer hoje que amamos, fazer hoje o que desejamos tanto, abraçar hoje o filho ou o amigo. Temos de ser decentes hoje, generosos hoje ... devíamos tentar ser felizes hoje (...). Somos mais que o corpo e ansiedade, somos mistério, o que nos torna maiores  do que pensamos ser – maiores do que os nossos medos”[13].

 

Uma nova mentalidade em relação aos idosos depende de que tipo de transformação? Cultural, espiritual, política, social? 

 

Sem dúvida, uma nova mentalidade com respeito aos idosos exige muitas transformações, que envolvem todos esses aspectos. Penso que, sobretudo, há que romper com essa visão negativa do etarismo, e dar um passo adiante no devido respeito para com os idosos, que são portadores de nossa memória e merecem ser reconhecidos em sua dignidade. Quebrar essa atmosfera de mercado, onde o velho é simplesmente descartado. Há que provocar toda uma nova reflexão sobre o tema, que envolva um diálogo multidisciplinar. Há que encontrar canais plausíveis e justos para o devido cuidado e atenção com a saúde dos idosos, com atendimento e procedimentos adequados para o seu equilíbrio corporal e psíquico.

 

Qual é situação dos asilos e casas de repouso no país? A escolha por esses ambientes cresce entre as famílias? Sim, não? A que atribui esse fenômeno? 

 

 Esta é uma questão particular que vem me preocupando muito. Como já mostrou Simone de Beauvoir, a alocação de um idoso para um asilo é sempre algo muito delicado, resultando quase sempre num “drama” para o velho. Ela relata, já na ocasião, sobre o grande aumento de casas de repouso nos EUA e na França para as pessoas idosas que dispõem de recursos para pagar, e para “cuidados que frequentemente deixam muito a desejar”[14]. As estatísticas que ela apresenta em seu livro sobre a velhice são duras: mais da metade dos velhos que são levados para asilos morrem no primeiro ano de sua admissão: 8% morrem nos oito primeiro dias, 28,7% morrem no primeiro mês, 45% morrem nos seis primeiros meses e 54,4% morrem no primeiro ano.[15]. Além disso, os velhos vivem momentos de muita solidão nesses lugares, com visitas reduzidas dos parentes ou amigos, ou mesmo sem visita alguma. 

 

Em recente filme francês, Une belle course (2022), de Christian Carion, o tema da ida para uma “casa de repouso” é o objeto central da trama, e podemos acompanhar o drama de uma senhora de 92 anos que vai para uma dessas casas, e ali dura pouco tempo. 

 

Há uma preocupação com o tema na sociedade como um todo, e isto vem igualmente retratado no cinema e na literatura. Cito aqui o exemplo do livro de Annie Ernaux, Uma mulher[16], onde ela relata a experiência de sua mãe numa residência para idosos. A escritora descreve certo cenário presente naquela casa: “Era um espaço que encurtava todos os gestos, onde aliás não havia nada para fazer além de ficar sentado, ver televisão, esperar a hora de jantar”[17]. Ernaux relata que a cada visita que fazia à sua mãe, a angústia era maior. 

 

A questão vem abordada também pelo escritor J.M. Coetze, no livro Contos morais, onde num dos capítulos o tema da internação num asilo para velhos vem por ele desenvolvido. O filho que interna a mãe na residência de idosos, está buscando simplesmente “arranjos de sobrevivência”. E diz a ela, com todas as letras, que se não estivesse ali, sob a proteção de profissionais, estaria, provavelmente “debaixo da terra, sendo devorada pelos vermes”[18]. Ele reconhece, em conversa com a mãe, que resiste à decisão tomada, mas que há um momento na vida em que é preciso encontrar um meio-termo entre aquilo que se deseja é aquilo que aparece como algo de bom para a situação dada.

 

Um relato bastante duro da vida num asilo para velhos vem tecido pelo filósofo e sociólogo francês, Didier Eribon, no livro: Vida, velhice e morte de uma mulher do povo[19]. Ele busca abordar, com fria racionalidade, o processo de internação de sua mãe numa casa de repouso na França. Tenta apontar para o leitor toda a dinâmica do choque que acompanhou o seu desenraizamento ao ser alocada num asilo. Para o autor, o baque maior foi aquele de perder a autonomia e liberdade. Eribon sublinha que nas conversas com sua mãe pôde se dar conta de que “a idade e a debilidade física são na verdade ´correntes`, ´prisões` que reduzem a nada o que poderia restar da força para escapar minimamente ao destino: vontade, sim, poder, não”[20].

 

Em seu livro, Eribon lembra do romance de Shichirô Fukazawa, Narayama, que se passa numa pequena aldeia japonesa em meados de 1860. Ali, naquele povoado, as pessoas com mais de 70 anos eram alocadas para as montanhas, visando aguardar a morte. Todos tinham que abandonar a comunidade para fazer sua travessia solitária. Para ele, o romance oferece uma potente alegoria para o que vem ocorrendo no banimento social envolvido em muitas casas de repouso. Ele pôde constatar ao vivo, com sua mãe, a dor que ela padeceu naquele lugar que deveria ser um saudável espaço de convívio e solidariedade. O seu testemunho traduz experiências que são avassaladoras, implicando descaso e mesmo maus-tratos[21].

 

Há ainda outro livro que gostaria de lembrar aqui, o da escritora Lídia Jorge, que aborda na obra a personagem Maria Alberta, inspirada em sua mãe. Escreveu o livro a pedido da mãe, e o faz através de um relato delicado, reproduzindo o dia a dia de sua mãe numa residência de repouso para idosos. Ela tinha ido para aquele lugar por vontade própria, depois de sair da casa dos pais. Em dado momento, Maria Alberta divaga sobre a sua presença  naquele “lugar de exílio”:

 

“O meu espírito, por mais confinado que seja o percurso do meu corpo, até agora, verdadeiramente, não conhece prisão. Esta é a minha casa, mas o mundo lá fora é o meu espaço real. A maior parte dos companheiros que se movem no interior desta residência há muito que se esqueceram do que ocorre na Natureza, vivem aqui encerrados como se tivessem regressado ao útero materno (...). Se estou a descrever aquilo que está distante, é só porque possuí esses bens que agora me faltam. Melhor tê-los perdido que nunca os ter tido. Preencho a minha alma com as visitas sem fim que faço ao mundo que lembro como se de novo possuísse a Natureza que está longe. A tudo isto, eu, Maria Alberta Nunes Amado, designo por minha vida. É possível que um dia, tal como muitos de meus companheiros fechados no interior desta casa, acabe por ignorar o que se passa lá fora, enquanto as manhãs se parecerão todas umas com as outras e se confundirão com as tardes. Não quero viver essa condição. Estar viva é lembrar-me dos movimentos do tempo e do ritmo da floração”[22].

 

Como lidar espiritualmente com o envelhecimento? Que caminhos apontaria?

 

O passo da espiritualidade é fundamental não apenas para o cuidador como para quem vem cuidado. A espiritualidade é um traço fundamental na vida das pessoas e fornece um clima singular para o cuidado consigo e com os outros. Trata-se do carinho essencial com o mundo interior e a possibilidade de descobrir valores importantes na construção de si mesmo. Na sétima elegia de Duíno, Rilke sinaliza que “em parte alguma (...) o mundo existirá, senão interiormente”. 

 

O que marca o nosso tempo, com toda a sua pressa, é a busca pelo desempenho e produtividade. Não há lugar para o idoso nesse tipo de sociedade. Há que encontrar pistas para outro tipo de percepção e olhar. Como diz Byung-Chul Han, uma vida espiritual e contemplativa envolve outro tipo de olhar: uma “pedagogia específica do ver”. Tudo isso pressupõe um caminho diverso: “Aprender a ver significa ´habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-se aproximar-se-de-si”[23]

 

Fico feliz ao ver que os profissionais de saúde que lidam com o envelhecimento estão cada vez mais atentos ao desafio da espiritualidade. Cito aqui o exemplo de Ana Cláudia Quintana. A partir de sua prática clínica, pôde perceber como a espiritualidade revela-se fundamental, no caso, por exemplo, daqueles que estão sob cuidados paliativos. Em tais situações, “as pessoas que estão morrendo e suas famílias acabam entrando em contato com questões muito profundas da existência humana relacionadas à espiritualidade”[24]. E ela acrescenta que para abrir esse novo foco é fundamental o desapego no modo tradicional de abordar a questão. A meu ver, esse caminho espiritual, não vale apenas para os que passam por momentos delicados de saúde, mas para todos que querem uma vida mais equilibrada, saudável, respeitosa e acolhedora.

 

O senhor tem apontado a “cultura do cuidado” como uma das marcas do pontificado do Papa Francisco. Qual é a riqueza desses ensinamentos para aprimorar o cuidado aos idosos e enfermos?

 

Francisco tem ocupado um lugar distintivo na busca de uma “cultura do cuidado”. Talvez seja hoje no mundo uma das principais lideranças éticas, que convoca a nossa atenção para um jeito diferente de ser, numa sociedade marcada pela deteriorização ética e o desgaste da compaixão. Sua grande preocupação, expressa de várias formas, é com o futuro que está diante de nós, com o risco de tantas catástrofes; com “que tipo de mundo queremos deixar” aos que nos vão suceder. Trata-se de uma questão de séria responsabilidade. 

 

O caminho é também interior, no sentido de criar uma “nova reverência” para com a vida, em todas as suas etapas. Alegrar-se sempre com o outro, independentemente de seu momento de vida. Desenvolver uma sensibilidade nova, que suscita um voltar-se para o outro com delicadeza, cortesia e alegria. 

 

Em sua encíclica sobre o cuidado da casa comum (Laudato si), Francisco enfatiza que a “paz interior” das pessoas é requisito importante para uma postura diferente no mundo. Há que buscar recuperar uma “harmonia serena” com todo o nosso entorno, e também com os idosos. Um caminho que resguarde a paz interior é essencial para o equilíbrio saudável de um estilo de vida “aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida” (LS 225). 

 

Em seus inúmeros ensinamentos sobre a velhice, em várias audiências gerais das quartas feiras,  no Vaticano, Francisco buscou enfatizar “o sentido e o valor da velhice”. E vem justificando a sua fala em razão do grande risco presente em nosso tempo do descarte dos idosos. 

 

O papa tem acentuado com vigor que “a velhice é uma das questões mais urgentes que a família humana é chamada a enfrentar atualmente”[25]. Os idosos são portadores de uma memória essencial, e segundo Francisco a sabedoria que os acompanha “deve ser vivida como uma oferta de sentido para a vida”. Ressalta ainda que se a velhice não for restituída em sua dignidade, são todos que perdem, com o risco de firmar-se um “desânimo que rouba a todos o amor”.

 

Quais as diferenças entre distanásia e ortotanásia? Qual prática é mais comum no Brasil?

 

O que mais se vê no Brasil, disseminado por todo lado é a mistanasia e a distanásia. Para grande parte de nossa população, privada do direito aos cuidados essenciais, o que impera é a mistanásia, ou seja, a total ausência de cuidados. Muito sofrem e morrem distantes de qualquer possibilidade de atendimento e cuidado. Para aqueles que conseguem algum acesso aos cuidados, ou aqueles que são portadores de recursos, o mais comum é a distanásia. Trata-se da prática mais recorrente no Brasil, sustentada por grande parte dos médicos e dos familiares dos pacientes. 

 

A distanásia visa promover a todo custo o prolongamento da vida e do sofrimento dos pacientes. Trata-se de um procedimento de intervenção diagnóstica e atuação visando o prolongamento da vida. E para tanto recorre-se ao “uso obsessivo de recursos, resultando no aumento do sofrimento do paciente”[26].

 

Começa também a ocorrer no Brasil a afirmação de um novo procedimento, que é a ortotanásia, que prioriza a atenção aos cuidados paliativos. É um procedimento bem distinto da distanásia, que prioriza o “respeito pelo tempo da morte”. Trata-se de um trabalho sério e necessário, que faculta aos pacientes todos os cuidados necessários para aguardar o tempo da passagem “com a serenidade  possível, sem dor, sem incômodos”. 

 

Ainda são muito poucos os pacientes que no Brasil têm acesso aos cuidados paliativos, uma pena. Ana Cláudia Quintana diz, com razão, que a morte “é a nossa maior decisão sobre renunciar ao controle. Entregar o controle, deixando claro para quem cuida qual é o nosso limite, pode ser a única decisão que precisamos tomar”[27].  

 

Com a ortotanásia o que se dispensa são os “tratamentos fúteis”, ineficazes, que acabam prolongando a dor do paciente e impedindo uma morte serena e harmoniosa. Como sublinha Ana Claudia, “desaconselhar ou suspender tratamentos fúteis que só prolongam o sofrimento de um ser humano é uma conduta profundamente ética e compassiva”[28]

 

Uma obra muito bonita, com o exemplo de opção pelos cuidados paliativos foi a publicada por Gilberto Dimenstein e Anna Penido: Os últimos melhores dias da minha vida (Record, 2020). Acometido por um câncer violento, Gilberto Dimenstein optou ao final pelos cuidados paliativos, sob a tutela de Ana Claudia Quintana.

 

A sua experiência no tratamento veio descrita de forma muito rica no livro. Em certo momento ele disse: “Câncer é algo que não desejo para ninguém, mas desejo para todos a profundidade que você ganha ao se deparar com o limite da vida”. Ao passar pela difícil experiência, Dimenstein teve a singular oportunidade de “reaprender a ver e viver a vida a partir da perspectiva da morte”[29].  

 

Outro recurso utilizado para lidar com o sofrimento terminal é a eutanásia e a morte assistida. Essa prática não é permitida no Brasil, mas em outros países como a Suiça, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, e certas regiões dos Estados Unidos. Tais procedimentos visam corresponder ao desejo de pacientes que, por motivos diversificados, buscam interromper a corrente vital, evitando abreviar um sofrimento difícil. 

 

Temos alguns filmes que abordaram o tema da eutanásia como: O quarto ao ladoInvasões Bárbaras, Mar adentro, Truman e outros. Há também um livro muito bonito que aborda o tema da eutanásia: Irvin D. Yalom & Marylyn Yalom. Uma questão de vida e morte. 2 ed. São Paulo: Planeta, 2021. O livro relata a dolorosa experiência de Marylyn Yalom, que padecia com um mieloma múltiplo, e que em certo momento, de muito sofrimento, decidiu pela interrupção de sua vida, mediante a morte assistida, tendo o total apoio de seu marido. Os dois resolveram escrever um livro juntos, em capítulos alternados, com a descrição de todo o processo que resultou na morte de Marylyn. O último capítulo ficou por conta do marido. É um livro muito bonito e delicado. 

 

Aqui no Brasil tivemos recentemente a decisão do escritor e Imortal Antonio Cícero, que decidiu pela eutanásia na Suiça, deixando para os amigos e familiares uma carta explicando a sua decisão. Dizia na carta:

 

"Queridos amigos, Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi. Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo. Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação. A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa – mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los. Pois bem, como sou ateu desde a adolescência, tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo. Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade. Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!"[30]

 

A meu ver, penso que a ortotanásia seja o caminho mais indicado, mas não tenho restrições a eutanásia, quando ela também se faz necessária. Não vejo pertinência em julgar as pessoas que, em liberdade, escolheram esse caminho, como fez Antonio Cícero. Concordo com Ana Claudia Quintana quando diz que ainda não há espaço para uma discussão lúcida e sensata sobre o direito à eutanásia no Brasil, sobretudo pelo fato de que apenas 0,3% da população brasileira tem acesso aos cuidados paliativos[31]. Temos que amadurecer mais, concordo, e ampliar a rede dos cuidados paliativos no país. 

 

O que pode ser considerada uma morte digna?

 

A meu ver, a morte digna é aquela que faculta ao paciente a possibilidade de uma passagem honrosa, cujo processo de cuidado foi amparado por procedimentos de respeito, atenção e delicadeza com o paciente, evitando sofrimentos que poderiam ser dispensados com o recurso de medicamentos precisos. Trata-se de uma morte que vem precedida por respeito ao ritmo normal da pessoa, ao tempo da pessoa. Como diz o livro do Eclesiastes, há “tempo de nascer, e tempo de morrer”. 

 

Qual é a visão de Tich Nhat Hahn e Hans Kung sobre a dignidade do morrer? Que argumentos e compreensões de vida e morte são apresentadas por esses autores?

 

No âmbito da reflexão teológica, Hans Kung foi um dos pioneiros a tratar o tema da eutanásia mais seriamente. Mesmo tendo morrido sem recorrer ao procedimento, o teólogo defendeu com firmeza o direito à eutanásia. Escreveu um longo livro abordando sua longa batalha em favor da vida e ao direito de uma morte digna[32]. Teólogo de grande envergadura e de reconhecimento internacional, Hans Kung passou a ter sérias dificuldades de saúde depois dos 84 anos: problemas de audição, de degeneração macular e o mal de Parkinson. Sua qualidade de vida deteriorou-se profundamente. Levantou a séria questão: “Por quanto tempo ainda continuarei a estar bem?”. Lançou sua tese: “O ser humano tem o direito de morrer quando não vê mais esperança numa vida conforme os critérios pessoais, quando firmou-se o sentido da vida e ele deseja a morte”[33]. Argumenta que ao decidir por sua morte, deseja que sua vontade seja respeitada. A morte, para ele, significa a configuração de um novo elo, a todos desconhecido: um mergulho no infinito da pessoa finita, ou ainda melhor, um mergulho no “núcleo da realidade”[34].

 

Por sua vez, o monge vietnamita Thich Nhat Hanh, que morreu aos 95 anos, em janeiro de 2022, defendeu uma visão da morte extremamente rica e audaciosa. Sua visão sobre o momento derradeiro da vida está conectada com a sua concepção da interexistência. Para ele, tudo o que existe na terra está interconectado e interdependente. Não há vida desligada da grande dança cósmica. Defende ainda a falência de visões que defendem uma substancialidade autônoma para as pessoas. Tudo o que existe debaixo do sol, a ser ver, vem abraçado pela impermanência. 

 

O temor que envolve a morte vem para ele rompido quando se compreende a morte no circuito mais amplo da vida. Para o suave monge do Vietnã não há, propriamente nascimento ou morte, mas formas diferenciadas de inserção num ciclo maior, que não controlamos. Assim como as nuvens se transformam em outra coisa, assim também ocorre com os humanos e demais criaturas. Tudo muda de forma. 

 

Para aqueles que praticam a contemplação profunda, diz Tich Nhat Hanh, o olhar consegue captar e entender essas modalidades distintas de existência. Diz ele: “Quando você pratica a contemplação profunda, você compreende que sua verdadeira natureza não nasce e não morre; não existe ou inexiste; não chega e não vai embora; não é igual nem diferente”[35]. A seu ver, é incorreto dizer que com a morte a pessoa se transforma em “nada”. A natureza da pessoa é, na verdade, como a nuvem, que passa por diversas transformações.

 

A partir do pensamento de Haraway e Emmanuele Coccia, como compreende-se a vida depois da morte? 

 

Esses dois grandes estudiosos avançam numa reflexão ousada, extremamente rica para o entendimento da morte e do pós-morte. Donna Haraway foi pioneira na crítica ao antropocentrismo vigente no pensamento da modernidade pós-cartesiana. A seu ver, o ser humano não é o umbigo do universo, mas está inserido numa rede de conexões, em diálogo rico e alvissareiro com as “espécies companheiras”. 

 

Quando Haraway fala da morte, apresenta-nos uma visão rica e desafiadora. O que ocorre com todos, depois da morte, não é um fim, mas um novo movimento. O ser humano não se apaga, mas transforma-se em composto vital. A autora sublinha que ela não é uma criatura do céu, mas da lama. O seu corpo vem animado, desde sempre, por organismos não humanos. Ela sublinha: 

 

“Adoro o fato de que genomas humanos sejam encontrados em apenas 10% de todas as células que ocupam o espaço mundano que chamo de meu corpo; os outros 90% das células são preenchidos pelos genomas de bactérias, fungos, protistas”[36]

 

A morte lança novamente o ser humano na rede de emaranhados que está presente na compostagem que se segue. A autora complementa: 

 

“Adoro o fato de que, quando ´eu` morrer, todos esses simbiontes benignos e perigosos tomarão e usarão o que restar do ´meu` corpo, nem que seja só por um tempo, já que ´nós` somos necessários uns aos outros no tempo real”[37].

 

Em semelhante linha de reflexão, o filósofo italiano, Emanuelle Coccia, defende a perspectiva da continuidade da vida. Assim como ocorre com os rizomas, a vida não tem, propriamente, um começo ou um fim. O que ocorre, sempre, é uma metamorfose. Como ele diz, “cada espécie é a metamorfose de todas aquelas que vieram antes dela”[38]

 

Na visão de Coccia, assim como a vida de cada ser vivo não começa com o seu nascimento, assim também o nosso sopro vital não se esgota em nosso cadáver. O ciclo da vida permanece sempre aceso. O que existe é uma “continuidade na transformação de cada espécie”. 

 

Para Coccia, “a metamorfose é, a um só tempo, a força que permite a todos os seres vivos espalharem-se simultânea e sucessivamente por várias formas e o sopro que permite às formas conectarem-se entre si,  passarem de uma para a outra”[39]. Nessa linha de reflexão, a morte não significa fim, mas “o limiar de uma metamorfose”. O destino de cada um de nós, acrescenta Coccia, “é tornar-se o corpo de uma outra espécie”[40], estamos, portanto, sempre trocando de casa.

 

Que narrativas sobre a morte têm lhe chamado a atenção a partir do livro da rabina Delphine Horville?

 

A rabina francesa, Delphine Horville, escreveu um maravilhoso livro sobre o tema do reconforto diante da morte. Seu livro, publicado no Brasil em 2023, veio apresentado pelo rabino Nilton Bonder.[41] A obra nos apresenta onze histórias de perda e consolo segundo a tradição judaica. De forma delicada e cortês, Delphine vai nos revelando no livro que a morte não se reduz ao mistério dos que se foram, mas ela continua na lembrança dos vivos.

 

Mediante as histórias apresentadas, Delphine busca ressignificar a morte a partir da vitalidade de sua memória, entre os queridos que ficaram. O passo essencial do reconforto diz respeito ao dom de ajudar as pessoas a perceberam que o outro vive para além de seu funeral. Trata-se de uma tarefa muito especial: ajudar os outros a reviverem e celebrarem a beleza da vida daqueles que se voltam agora para um novo limiar. A rabina nos salienta que é necessário, sempre, estar rodeado de vida para poder falar com pertinência sobre os nossos mortos.

 

O que mais lhe impressionou no testemunho do Papa Francisco enquanto ele esteve internado e pós-internação, nas primeiras manifestações públicas? 

 

A forma como trabalha a espiritualidade do cuidado é dos traços que mais admiro em Francisco. Ele consegue, como poucos, relacionar o cuidado com a Terra, com o cuidado com os pobres e os excluídos, envolvendo também aí o desafio dos idosos. O papa sempre esteve atento, e assim permanece, ao desafio do cuidado com os idosos. 

 

Ele tem o dom da hospitalidade, que é a capacidade única de romper com o círculo do eu para abrir-se ao mundo dos outros. Francisco tem consciência de que todos merecem o nosso abraço, independente de sua produtividade ou eficiência, mas em razão da sua própria “condição humana”. Ele tem clara consciência de que a globalização em curso excluiu os idosos, e também por essa razão ele se coloca na defesa desses descartados de nosso tempo. Sua luta é em favor da plena cidadania de todos, de sua dignidade sagrada. Os idosos, lembra Francisco, também podem, e como, dar uma contribuição substantiva para o bem comum. 

 

Essa peculiar sensibilidade de Francisco com os idosos acirrou-se em razão dos sofrimentos por que passaram no tempo da pandemia do Covid 19. Ele lembra em sua encíclica sobre a fraternidade e a amizade social – Fratelli tutti -, que os idosos foram dos que mais sofreram durante a pandemia. Para Francisco, a pandemia não só nos despertou para valores esquecidos, bem como os nossos limites. Provocou igualmente, por toda parte, o apelo essencial em favor da mudança de nossos estilos de vida e de nossas relações. 

 

Tendo vivido na pele a experiência da finitude, durante os quase quarenta dias que esteve internado, Francisco veio ainda mais despertado pela importância do cuidado com os outros. Sublinhou, após a saída de sua internação, no Angelus de 06 de abril de 2025, que pôde presenciar em si a presença amorosa do “dedo de Deus”, bem como sua “carícia solícita”. E reiterou sua vontade de que algo semelhante possa estar presente entre todos aqueles que padecem de dor e sofrimento, incluindo os idosos. E que o dom desse carinho e hospitalidade possa igualmente habitar naqueles que se dedicam ao cuidado com os outros.



[1] Rainer Maria Rilke. Elegias de Duíno. 6 ed. São Paulo: Biblioteca Azul, 2013, p. 21.

[2] Ibidem, p. 98.

[3] Ana Claudia  Quintana Arantes. Pra vida toda valer a pena viver. Rio de Janeiro: Sextante, 2021, p. 20.

[4] Ana Claudia Quintana Arantes. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de Janeiro: Sextante, 2019, p. 57.

[5] Ana Claudia Quintana Arantes. Cuidar até o fim.  Rio de Janeiro: Sextante, 2024, p. 143.

[6] Ibidem, p. 247.

[7] Ibidem, p. 147.

[8] Ana Claudia  Quintana Arantes. Pra vida toda valer a pena viver, p. 40.

[9] Ibidem, p. 41.

[10] Norbert Elias. A solidão dos moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 16.

[11] 3Mirian Goldenberg. A invenção de uma bela velhice. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2023, p. 51

[12] Ibidem, p. 139.

[13] Lya Luft. Perdas & ganhos. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2013, p. 147.

[14] Simone de Beauvoir. A velhice. 4 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024, p. 236.

[15] Simone de Beauvoir. A velhice. 4 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024, p. 276-277.

[16] Annie Ernaux. Uma mulher. São Paulo: Fósforo, 2024, p. 47s.

[17] Ibidem, p. 48.

[18] J.M. Coetze. Contos morais. São Paulo: Companhia das Letras, 2021, p. 97.

[19] Didier Eribon. Vida, velhice e morte de uma mulher do povo. Belo Horizonte: Âyiné, 2024.

[20] Ibidem, p. 26.

[21] Ibidem, p. 98-102.

[22] Lídia Jorge. Misericórdia. Belo Horizonte: Autêntica Contemporânea, 2024, p. 97-99.

[23] Byung-Chul Han. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 51.

[24] Ana Claudia Quintana Arantes. A morte é um dia que vale a pena viver, p. 128

[26] Ana Claudia Quintana Arantes. Cuidar até o fim, p. 143. 

[27] Ibidem, p. 147.

[28] Ibidem, p. 145.

[29] Gilberto Dimenstein & Anna Penido. Os últimos melhores dias da minha vida. Rio de Janeiro/São Paulo: 2020, p. 115.

[31] Ana Claudia Quintana Arantes. Cuidar até o fim, p. 146. 

[32] Hans Kung. Una bataglia lungo una vita. Milano: Rizzoli, 2014

[33] Ibidem, p. 1085.

[34] Ibidem, p. 1086.

[35] Thich Nhat Hanh. Sem morrer, sem temer. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 64-69.

[36] Dona Haraway. Quando as espécies se encontram. São Paulo: Ebu, 2022, p. 11.

[37] Ibidem, p. 10-11.

[38] Emanuele Coccia. Metamorfoses. Rio de Janeiro: Dantes Editora, 2020, p. 15.

[39] Ibidem, p. 20.

[40] Ibidem, p. 114-115.

[41] Delphine Horvilleur. Viver com nossos mortos. Pequeno tratado de reconforto. 2 ed. Rio de Janeiro: Garamond, 2021.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

A literatura e a arte de lidar com a raiva

 A literatura e a arte de lidar com a raiva

 

Faustino Teixeira

 

 

Sempre fiquei muito impressionado com a passagem do Grande Sertão: Veredas em que sublinha que o ódio não carece de razão. (GSV, 284). Riobaldo fala em certo momento que a mão da gente pode "ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo" (GSV, 368). É algo bem sério, que aguça o pensamento e a preocupação.

 

O ser humano é um "bicho" estranho que pode ser tomado, sem mais, por uma raiva estranha que vem de recantos profundos e sombrios, que como um "bicho subterrâneo" emerge provocando estragos e mesmo crimes. Isso dá o que refletir.

 

Num dos contos morais de J.M. Coetzee ele aborda o tema do cachorro e do ódio que o acompanha. Pobre da moça da bicicleta que tem que lidar com essa situação toda vez que passa em frente à garagem onde está o cão nervoso. 

 

Como diz os escritor, "em seus olhos amarelos ela sente ódio do tipo mais puro brilhando para ela". Nas passagens regulares da moça pelo portão, o cachorro guarda na memória o momento certo para sua explosão, bem como a satisfação de domíná-la e ser temido. 

 

A moça "exala o cheiro do medo" e não consegue disfarçar seu sentimento. Cansada dessa rotina, e imaginando a possibilidade de uma mudança, ela resolve um dia parar na casa do proprietário e buscar uma conversa harmoniosa com ele. Propõe aos donos do cão uma oportunidade de contato mais próximo com o animal para tentar uma maior familiarização com ele, de forma a quebrar essa ideia dela parecer um inimigo para ele.

 

A moça argumenta que sua passagem corriqueira por ali podia ser mais calma, sem tais intempéries. Ela diz: "Tenho o direito de não ser amedrontada, de não ser humilhada em uma via pública".

 

O casal reage negativamente e propõe à moça de pegar uma outra rua, e que eles não devem satisfação a ela: "Não convidamos você a passar por aqui". E irritados a advertem que ela não tem o direito de pautar a forma como devem agir. Ela vem convidada a se retirar da casa.

 

Ela então se retira da casa e quando fecha o portão, o cão novamente retoma sua cantilena, atirando-se contra a cerca. E ainda "pensa": "Um dia, diz o cachorro, esta cerca vai ceder. Um dia, diz o cachorro, vou te despedaçar". 

 

A moça sai da casa "com a calma que consegue ter", ainda que tremendo. Sente as "ondas de medo" transpassar o seu corpo, e olha para o cachorro e fala com palavras humanas: "Maldito, vá para o inferno". Aí monta em sua bicicleta e segue sua rota rotineira.

 

Lendo agora o livro de Olga Tokarczuc que trata da escrita, ela aborda esse tema da raiva que nos acomete, e isto me fez refletir. Pensar, por exemplo, no dia em que fui tomado pelo "bicho subterrâneo" e saí em correria para lidar com as emoções difíceis dos cortes de árvores que estavam ocorrendo aqui no meu condomínio. Posso dizer que fui tomado pela raiva. 

O texto de Olga ajuda-me a entender o sentimento que vivi. Ela indica que o ódio é uma emoção que abordamos sempre de forma negativa e destruidora, uma emoção que pode provocar caos e violência. Não tenho dúvida. Ela surge, porém, muitas vezes, como diz com pertinência a autora, "como reação à limitação da própria força da liberdade, uma réplica à impotência. Ela explode quando percebemos que nosso sentimento de dignidade e justiça foi maltratado".

 

Fiquei aliviado ao ler essa argumentação de Olga, entendendo de forma mais precisa a razão daquela minha dor e iracúndia. Ela assinala ainda que a raiva pode igualmente desvelar paradoxalmente uma outra de suas faces, que é a compaixão, ou seja, a de "posicionar-se ao lado dos fracos, excluídos, desamparados, silenciados", como naquele caso concreto por mim vivido, que foi o da derrubada irracional das árvores, que não tinham como se defender.

 

E Olga complementa sua reflexão dizendo que a arte e a literatura são canais propícios para lidar artisticamente com esses sentimentos: "A literatura, como a arte em geral, serve precisamente para enfrentar aquilo que nunca nos deixaríamos fazer na vida real, permitindo que procuremos processar no mundo da ficção e imaginação os lados sombrios de nossa natureza".

terça-feira, 15 de abril de 2025

Teilhard de Chardin, presença que permanece

 Teilhard de Chardin, presença que permanece

 

Faustino Teixeira

IHU/Paz e Bem

 

 

Um dos pensadores e místicos mais singulares do século XX foi Teilhard de Chardin. Foi um dos espirituais que muito estudei ao longo da vida, sendo despertado por sua reflexão desde a mais tenra idade, em razão do influxo de meu pai, que era também apaixonado por ele. Meu pai tinha toda a obra de Teilhard e divulgava com os filhos. 

 

Fiz ainda, na adolescência, em Juiz de Fora, alguns cursos sobre Teilhard com a Irmã Aglaé, do Colégio Stella Matutina. Cursos que foram memoráveis. Depois veia a vida, novas trajetórias, mas Teilhard permaneceu... Na Universidade ele sempre estava presente nos meus cursos de mística. Pude orientar uma bela tese de doutorado sobre ele.

 

Teilhard nasceu no dia 01 de maio de 1881 e morreu na Páscoa de 1955, em New York. Estamos celebrando este ano os 70 anos de sua travessia. 

 

É um espiritual que permanece vivo na memória. O seu livro, "O meio divino", de 1926, foi concebido nas trincheiras da I Guerra Mundial. O livro veio completado por outra obra prima, que é  “ A Missa sobre o Mundo”. Teilhard nunca pôde publicar o livro “Meio Divino” em vida, em razão do clima fechado na conjuntura eclesiástica do período, que envolvia a própria Ordem dos Jesuítas. Apesar de todos os esforços empreendidos, nunca conseguiu autorização de seus superiores jesuítas para publicar o livro, que só saiu em 1957. 

 

Na singular introdução do livro “O meio divino”, Teilhard  sinaliza que o livro não foi feito para os que estão “bem” situados na igreja, mas para aqueles que estão em busca, que vivem sob a “angústia” ou a “fascinação”, ou seja, os que estão inquietos, seja dentro ou fora da igreja. Diz que o que se encontrará ali é “a eterna lição da igreja, apenas repetida por um homem que sente apaixonadamente com o seu tempo”, e que o que gostaria mesmo era de ajudar a todos o exercício de “ver a Deus em toda parte”. Uma obra que, em verdade, significa uma educação do olhar.

 

Teilhard dizia que “nada é profano para quem sabe ver”. Uma frase que me acompanhou por toda a vida. Para o místico jesuíta, o nosso ser se prolonga pelo mundo. O que precisamos compreender, lembra o jesuíta, é que o sensível está sempre a nos inundar com suas inusitadas surpresas. Daí a importância de saber ler a presença do Mistério seja no trabalho das algas ou na indústria das abelhas, e também em tudo o mais que existe. Tudo existe para ajudar no belo “acabamento do Mundo”. Em toda a obra do momento é ele, o Mistério Maior, que nos aguarda com alegria. Ele está na ponta da caneta, na picareta, no pincel, na agulha e no coração, como tão bem sublinha no seu livro espiritual. A seu ver, com razão, nenhum dos momentos de nossa ação no tempo estão subtraídos à adoração. O Mistério está sempre aí, envolvendo-nos com sua fragrância.

 

Para evitar controvérsias, o jesuíta foi enviado para bem longe, no deserto de Ordos, onde concebeu o livro “A missa sobre o mundo”. Permaneceu ali, como um “exilado”. Mesmo depois de morto, a controvérsia em torno de sua obra permaneceu, e foi “punido” pelo “Monitum” (advertência) do Santo Ofício, em 30 de junho de 1962. Pasmem!

 

No Ofertório da “Missa Sobre o Mundo”, Teilhard, começa dizendo:

 

“Visto que, uma vez mais, Senhor, agora não nas florestas do Aisne, mas nas estepes da Ásia, não tenho nem pão nem vinho nem altar, eu me elevarei acima dos símbolos até a pura majestade do Real, e vos oferecerei, eu, vosso padre, sobre o altar da Terra inteira, o trabalho e a fadiga do Mundo”. E complementa: “O meu cálice e a minha patena são as profundezas de uma alma largamente aberta a todas as forças que, num intante, vão se elevar de todos os pontos do Globo e convergir para o Espírito”.

 

Teilhard foi um apaixonado pela MATÉRIA do mundo, antecipando em décadas a reflexão cristã de acolhida positiva do mundo. Em sua reflexão sobre "a potência espiritual da matéria" falou:

 

"Para compreender o Mundo, o saber não basta; é preciso ver, tocar, viver na presença, beber a existência quente no próprio seio da Realidade (...). Até o último instante dos séculos, a Matéria será jovem e exuberante, resplandecente e nova para quem quiser (...). Não, a pureza não está na separação, mas numa penetração mais profunda do Universo".

 

Teilhard era alguém apaixonado pela "imensa simplicidade das coisas". Na "Missa sobre o Mundo" dizia que o que adorava era o "Deus paupável", o Deus que podia ser tocado "por meio de toda a superfície do Mundo da Matéria". Teilhard reveste-se da seiva do Mundo em sua experiência espiritual. Sua visão é clara:

 

"Subo para o Espírito que me sorri para além de toda conquista, vestido com o esplendor concreto do Universo". O essencial para ele era a Diafania de Deus no Universo.

 

Durante toda a sua vida sofreu tremenda pressão conservadora da igreja católica. Dizia para uma amiga filósofa, Leontine Santa, em carta de janeiro de 2027: "Espero que pouco a pouco nos vamos aproximando do tempo em que os homens serão capazes de não amar ´nada senão a Terra`. Tudo o resto é demasiado pequeno para nós". Complementa ainda que é a própria Terra que nos enviará para o amor de algo maior.

 

Comenta com a amiga, Leontine, que passou por grave crise de "antieclesiasticismo" no inverno de 1929, e foi salvo pela força do Espírito. Comenta com ela que o olhar não pode estar unicamente voltado para a igreja, como se ela fosse "a única coisa no mundo" habitada pelo Espírito. Via isso como um grande equívoco. Lamentava ainda com ela que as igrejinhas não faziam senão nos esconder a beleza da Terra.

 

A espiritualidade de Teilhard estava também prenhe da presença feminina. Em sua obra, "O coração da Matéria", sublinha que o elemento feminino é o que garante o traço unitivo do Universo. Indica que sua visão interior não seria a mesma sem essa presença feminina iluminadora: sem ela faltaria uma "atmosfera essencial" para o seu trabalho. Entendia que nada poderia ser bem desenvolvido sem o influxo feminino. Era ele que poderia garantir a riqueza do olhar.

 

Sua amizade com Lucile Swan foi das coisas mais lindas, e isto está expresso na obra: Pierre Teilhard de Chardin & Lucile Swan. Correspondence. Bruxelles: Lessius, 2009. Vale muito a pena ler. Uma preciosa obra sobre sua vida e trabalho: Patrice Boudignon. Pierre Teilhard de Chardin. Sa viu, son oeuvre, sa réflexion. Paris: Cerf, 2008.

sábado, 12 de abril de 2025

Alguns pontos sobre o Labo

 Alguns pontos de reflexão sobre o Labô

 

Começo minhas ponderações falando um pouco sobre o que é o Labô – Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo. Trata-se, como vem apresentado em sua página oficial, de “um espaço de ensino e pesquisa, subordinado à Secretaria Executiva da Fundação São Paulo com a finalidade de gerar conhecimento público e institucional, atuando como instância produtora de reflexão e pesquisa livre, em diálogo com a sociedade”. Não está vinculado, propriamente à PUC-SP, mas à  Fundação São Paulo, da Arquidiocese paulista. O Laboratório está, portanto, diretamente vinculado à mantenedora da PUC-SP, a Fundação São Paulo, que tem na sua frende o cardeal Odilo Pedro Scherer. Depois de sair do Departamento de Teologia da PUC-SP, Pondé veio convidado pela Fundação São Paulo a fazer um trabalho particular junto à Fundação, e assim veio fundado o Labô, que não tem a ver nem com o Departamento de Teologia da PUC, nem com o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, do qual Pondé fez parte durante anos. O Labô vem dirigido por Pondé, tendo como assistente acadêmica Andréa Kogan, que é doutor em Ciência da Religião pela PUC-SP.

 

O Labô funciona com Grupos de Pesquisa, cujos colaboradores atuam de forma gratuita e militante. Não há recursos disponíveis para os responsáveis ou atuantes nos Grupos de Pesquisa. Estão atuantes em 2025, 17 grupos de pesquisa: Ateísmo e Apologética; Ética da Tecnologia; A crise do amadurecimento na contemporaneidade; A experiência mística e conhecimento; A palavra é imagem: arte sacra contemporânea – história e religião; Comportamento Político, Cultura do Consumo; Sociedade e Tendências; Morte e Pós-Morte; Diálogos da Diáspora – racismo e antissemitismo; Judaísmo e Filosofia da Religião; Jung e a Filosofia da Religião; Núcleo de Filosofia Medieval; Núcleo de Filosofia Política; O Vazio Existencial na contemporaneidade e as possibilidade de realizar sentido; Teologia Cristã e Religião Contemporânea; Cinema, Filosofia e Religião.

 

O Labô realiza dois seminários ao ano, quando os vários Grupos de Pesquisa se encontram para tratar de uma programação prévia, sempre coordenada por Luiz Felipe Pondé. Em 2025 começou também um Estágio de Pós-Doutorado, que tem como objetivo contribuir para o conhecimento dentro da universidade e no mercado de trabalho, promover estudos de alto nível, consolidar as linhas de pesquisa do Laboratório e reforçar os grupos de pesquisa existentes. É o que aparece na descrição oferecida pelo Labô. A iniciativa já começa em 2025 com 8 alunos aprovados.

 

Eu tenho um conhecimento razoável do Labô, tendo atuado por diversas vezes ali, a convite de amigos que fazem parte do Laboratório, incluindo Luiz Felipe Pondé. Entendo como sério e responsável o trabalho que vem sendo ali realizado desde o início. Vejo como principal valor, o trabalho gratuito que ali vem exercido por tantos colaboradores. Trata-se de missão louvável. Porém, nos últimos tempos, venho me preocupando com certos caminhos tomados pelo Labô, não por todos os membros dos vários núcleos de pesquisa, mas por algumas pessoas em particular, que estão vinculadas à coordenação geral. Isso vem me preocupando muito, pois tenho grandes amigos e amigas que atuam ali, com muita generosidade, empenho e profissionalismo. 

 

O motivo maior de minha preocupação, que venho percebendo por alguns sinais em curso, é a crescente sintonia do Labô com reflexões que defendem a atual política de Israel com respeito aos Palestinos. Vejo isto em posicionamentos bem precisos de membros do Labô, a começar pelo seu diretor, Luiz Felipe Pondé. Em artigos de jornais e entrevistas que ele vem dando na imprensa nacional, a posição pró-Israel firma-se com muita clareza. 

 

Fiquei particularmente impressionado com o artigo escrito por Pondé na FSP de 16 de março de 2025. Ali ele já mostrou ao que veio nesse tipo de posicionamento crítico à Palestina. No artigo, Pondé expressa sua preocupação com a “infiltração” de ideias problemáticas, de agentes da esquerda, que influenciam e envenenam os jovens nas universidades e redes sociais. Para ele, tudo se resume, em síntese, em práticas antissemitas. Aliás, a expressão anti-semita passou a ser lugar comum nas críticas a todos os que defendemos a Palestina e reagimos ao massacre que vem ocorrendo na Faixa de Gaza. Para Pondé, não, o que ocorre é uma justa reação de Israel ao que aconteceu em outubro de 2023, que ele identifica como um planejado pogrom. 

 

E agora, no dia 09 de abril, mais uma entrevista, a meu ver, muito infeliz de Pondé, onde ele ataca a esquerda brasileira e, ao final, aborda o tema do antissemitismo. Começa com a sua tradicional ironia, dizendo que Jesus era judeu. Complemento, porém, que Jesus era, sim, judeu, mas de uma abertura à diferença que dificilmente encontramos hoje no circuito sionista judeu, do qual Pondé partilha. 

 

Nessa entrevista, Pondé praticamente justifica a atuação desastrosa de Netanyahu, e diz que ele não é assim um desastre total, pois tem conseguido “impor uma derrota política ao Hamas”. Aliás, esse fenômeno “Hamas” é o motivo mais forte das iracúndias reações de Pondé em torno da Palestina. A seu ver, estamos numa situação precisa onde não há saída possível, a não ser matar ou morrer. Isto ele tem dito com recorrência. Trata-se de uma guerra, e a solução tem que ser militar e não dialógica. É o que ele vem defendendo por todo canto. E que pensa diferente, como eu, vem logo enquadrado no perfil de antis”semita.

 

Mas minha proposta ao Labô, na medida em que esse Laboratório define-se como um espaço voltado para a geração de conhecimento público, atuando como “instância produtora de reflexão e pesquisa livre, em diálogo com a sociedade”, é a de abrir concretamente um espaço dentre os grupos de pesquisa para um núcleo específico de reflexão sobre a temática da Palestina. Isso iria harmonizar a perspectiva em curso, onde o tema do “racismo e antissemitismo” ocupar um lugar de grande destaque.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

O amor na teia da perplexidade: em torno a um poema de Drummond

 O amor na teia da perplexidade: em torno a um poema de Drummond

Faustino Teixeira

IHU / Paz e Bem

 

Tivemos um lindo encontro ao final da aula sobre os poemas de Drummond, no Instituto Humanitas da Unisinos (IHU). Isso ocorreu em 09 de abril de 2025. Na primeira aula de cada mês, para coroar o dia, um grupo pequeno se encontra para abordar alguma questão refletida. Nesse dia, estavam 7 pessoas: eu, Paula, Alexia, Ana Maria, Mercia, Amauride e Vânia. Esse é um grupo que vem acompanhando os cursos que dou no IHU desde o primeiro semestre de 2021, depois da pandemia. Os encontros são de muita intimidade e de riqueza inaudita.

Na aula do dia, que era a terceira do curso, iniciado em 12 de março de 2025, tinha como livro de referência “O brejo das almas” (1934). Esse livro de Drummond, ao contrário de outros, não teve assim grande projeção, nem foi objeto de muitos estudos teórico. Isto talvez se deva ao fato dele ter saído entre dois livros de muito peso: Alguma poesia (1930) e Sentimento do mundo (1940). Alguns o consideram o “primo pobre” de Drummond, uma vez que se situou entre dois grandes marcos, mas isso não é absolutamente verdade. O livro é de beleza singular e traz em seu bojo reflexões que são fundamentais. 

No encontro com o pequeno grupo, a reflexão não ficou presa ao livro Brejo das almas, mas partiu, sim, de uma indagação presente num dos poemas do livro: 

“O amor no escuro, não, no claro,

é sempre triste, meu filho, Carlos,

mas não diga nada a ninguém,

ninguém sabe nem saberá

Não se mate”[1].

 

No debate, Alexia, lembrou uma passagem maravilhosa do livro de Nizami (sec XII), da tradição sufi, que aborda a dolorosa história de Layla & Majnum, que viveram uma experiência de amor falida, em razão de muitos impedimentos. Os dois passaram a vida separados. Quando, depois de muito tempo, ocorre a oportunidade do encontro entre ambos, há uma interdição que vem do mundo interior de Layla. No momento propício, que podia suscitar o enlace, ocorre algo inesperado. Majnun, que aguarda Layla sob uma palmeira, ardendo de amor e desejo, espera o sinal positivo do velho, que ficou de indicar para Layla o momento oportuno. Por sua vez, Layla não deu conta de avançar rumo ao amado querido. Ela ficou paralisada, e seu corpo inteiro tremia, como se ela estivesse profundamente enferma. Ao tentar conduzi-la com o braço em direção ao amado, ela recuou, com cortesia, e disse:

 

“Nobre senhor, nem tão longe, mas nem tão perto. Agora sou igual a uma vela ardente; um passo mais perto do fogo e eu serei consumida completamente. A proximidade traz o desastre, pois os amantes só estão seguros separados”[2].

 

Um texto que escrevi, ao preparar a aula, serviu de ponto de arranque para a reflexão. Ele se inicia com um poema de Drummond, Mineração do outro, publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, em julho de 1959, e  apareceu no livro Lição de coisas (1962). 

 

Mineração do Outro

 

“Os cabelos ocultam a verdade.

Como saber, como gerir um corpo

alheio?

Os dias consumidos em sua lavra

significam o mesmo que estar morto.

 

Não o decifras, não, ao peito oferto,

mostruário de fomes enredadas,

ávidas de agressão, dormindo em concha.

Um toque, e eis que a blandícia erra em tormento,

e cada abraço tece além do braço

a teia de problemas que existir

na pele do existente vai gravando.

 

Viver-não, viver-sem, como viver

sem conviver, na praça de convites?

Onde avanço, me dou, e o que é sugado

ao mim de mim, em ecos se desmembra;

nem resta mais que indício,

pelos ares lavados,

do que era amor e, dor agora, é vício.

 

O corpo em si, mistério: o nu, cortina

de outro corpo, jamais apreendido,

assim como a palavra esconde outra

voz, prima e vera, ausente de sentido.

Amor é compromisso

com algo mais terrível do que amor?

— pergunta o amante curvo à noite cega,

e nada lhe responde, ante a magia:

arder a salamandra em chama fria”[3].

Sem dúvida, estamos diante de um poema complexo e de riqueza singular. Um grau de dificuldade que nos faz lembrar outro poema enigmático de Drummond, chamado Áporo, que foi desvendado por Davi Arrigucci Jr no livro Coração Partido[4]. Para Arrigucci, esse poema de Drummond é um dos que mais se destaca em sua obra, tratando o tema do amor. Ele revela “um momento a uma só vez ímpar e irradiante, pela alta complexidade, pela firmeza com que enfrenta o difícil, pela luz que lança nos demais que tratam do mesmo tema”[5].

O poema de Drummond é um instrumento fértil e seguro para a compreensão do enigma do outro, ajudando-nos a mergulhar no oceano inatingível da alteridade. A poeta e romancista, Lia Luft, expressou com clareza esse traço em reflexão no livro, Mar de dentro. Na sua visão, que concordo, há um “espaço de silêncio intransponível mesmo nos mais íntimos amores”[6]. A poesia de Drummond toca em pontos de sintonia com Lia Luft:

“Os cabelos ocultam a verdade.

Como saber, como gerir um corpo

alheio?”

 

“Não o decifras, não, ao peito oferto,

mostruário de fomes enredadas,

ávidas de agressão, dormindo em concha.”

 

“e cada abraço tece além do braço

a teia de problemas que existir

na pele do existente vai gravando”

 

“O corpo em si, mistério: o nu, cortina

de outro corpo, jamais apreendido”

 

Temos aqui vários indícios de uma “incomunicabilidade” com o universo daquele que está diante de nós. O outro é sempre “alheio”, estranho, estrangeiro. Lembrei-me aqui de uma reflexão profunda de Alain Montandon no “Livro da Hospitalidade”. Ele aborda o tema da “hospitalidade”[7]. Sublinha que o hóspede é sempre um estranho. A complexa relação com o outro que nos visita começa já no início: “naquela soleira, naquela porta à qual se bate e que vai se abrir para um rosto desconhecido”[8]. Diz o filósofo que o “território do outro” vem sempre resguardado por uma “sensibilidade escrupulosa”. Sem dúvida: devemos “bater devagar”, com cuidado e fineza na porta do outro. A hospitalidade jamais quebra a distância, que permanece acesa.

O trabalho do amor é complexo, sutil, delicado, desafiador. Ele pressupõe uma disponibilidade de avançar no universo do desconhecido. Há, como lembra Arrigucci, o empenho de “escavar”. Escavar de forma semelhante ao inseto no poema “Áporo” (1945)[9], que “cava, sem alarme, perfurando a terra”, mas que se defronta com um “país bloqueado”, ou com o “enlace da noite”.

Adentrando-me no poema de Drummond, Mineração do Outro, vejo que há, de fato um mistério indecifrável na experiência do "peito oferto". Quando nos "ofertamos" ao outro, sabemos, desde o início, que ele jamais será decifrado; esse outro que vem animado por um complexo "mostruário de fomes enredadas". E... curioso, suas fomes estão "ávidas de agressão", e ele dorme "em concha". E apesar de todos os abraços, de nosso movimento que convida, permanece acesa a "a teia de problemas", que não é qualquer oferta que consegue solucionar. 

Em sua lúcida reflexão, Arrigucci relaciona o trabalho do amor ao empenho de escavar, visando uma decifração possível. Ele vê no poema de Drummond, o anseio por penetrar “através de barreiras da terra, do corpo e da própria linguagem até o limite do indizível, quando, reproduzindo  a situação dramática do amante diante da noite, seu discurso se converte em imagem”[10]. Como aponta Arrigucci, na visão de Drummond o amor não é algo cordato, mas contrariado. O poeta quer, antes de tudo, inquirir a qualquer custo para debruçar-se no enigma. E ele recorre à imagem que também está no poema Áporo, que fala em cavar e perfurar a terra, visando desvendar o labirinto:

 “O amor é então aqui mineral; é físico, mas também metafísico, pois corresponde ao desejo de ir além da matéria em que penetra, na busca vã da alteridade em que mais se fragmenta e aniquila do que se reúne ao que já de antemão era perdido”[11].

Daí o recurso à bela imagem da mineração do outro, que invoca o “movimento inquiridor e sofrido a caminho do objeto fugidio que o atrai e impede de passar, mantendo-o cativo do mágico fascínio que se enreda e perde o próprio pensamento”[12]

Nesse itinerário em direção ao outro, ocorre também um trabalho do mundo interior. Não há dúvida. Somos trabalhados em nossa interioridade nessa difícil viagem rumo ao mistério do outro. Daí a imagem feliz da "mineração". Meditar sobre o amor, como mostra Arriguci, é também meditar sobre "a história da relação humana dos seres que o vivem"[13]. É árduo o trabalho de ir além do que está aí, presente na matéria:

"O esforço de minerar até o derradeiro obstáculo que se antepõe a quem ama e quer saber pode chegar a diversas consequências: a inacessível transcendência da mineração por mais que se aprofunde; o dilaceramento patético que vivem os amantes; a inevitabilidade terrível  que acompanha seu percurso com o risco do trágico; o caráter incognoscível extremo daquilo mesmo que nos atrai com o fascínio do inexplicável"[14].

Toda essa reflexão é de uma profundidade singular, que merece de nossa parte um meditar demorado. Não há como responder a isso, mas fazer como aconselha Rilke em suas "Cartas a um jovem poeta". Há que ruminar, primeiro, as perguntas, em profundidade, de forma que elas possam viver em nós. E talvez, quem sabe, mais distante, conseguiremos encontrar uma resposta plausível[15]. Trata-se de algo que envolve um caminho da vida interior, que requer paciência.

Rilke diz ainda que o amor é, radicalmente, "solidão"[16]. E ele tem razão. Diz ele que o amor não é antes de tudo o entregar-se, o confundir-se com outra pessoa. Isso não é possível. O amor é, melhor, uma ocasião bonita para o amadurecimento pessoal. Os amantes, como todos em geral, estão inseridos num mundo que é limitado, frágil, vulnerável. Trata-se, como diz Rilke na segunda elegia de Duíno, de um universo de contingência:

"E aqueles que são belos, oh, quem os deteria? A aparência transita sem descanso em seu rosto e se dissipa. Tal o orvalho da manhã e o calor do alimento, o que é nosso flutua e desaparece"[17].

Rilke desvela, com pasma lucidez os traços da temporalidade “que corrói todos os  esforços humanos de realização e plenitude ontológicas”[18]. Nada escapa à dinâmica do tempo, nem os impulsos do coração, os estases e a beleza. A verdade mais dura é a de que "nós passamos", e as árvores permanecem.

Pobres amantes, diz Rilke. São marcados por uma sede insaciável, são movidos pelo movimento irrefreado do gozo, que, também é contingente. Nessa busca do ápice do prazer, lembra Rilke, chega um momento em que um dos dois diz: basta! Os amantes não dão conta de um gozo abissal, e retornam à realidade cotidiana. É impossível estar diante do mundo aberto e transparente. Não há como se "dissolver" no mundo do outro. Os místicos mesmo tentaram isso, sem sucesso. Mesmo os mais ousados, como os sufis, perceberam a impossibilidade do passo unitivo. Quando o amante pousa seu lábio no outro, buscando o vinho mais límpido, acaba retornando,  sem sucesso, pois não é possível reter uma "duração pura". Nenhum amplexo é capaz de oferecer eternidade[19].



[1] Carlos Drummond de Andrade. Poesia 1930-1962. Edição crítica. São Paulo: Cosac & Naify, 2012, p. 188 (Não se mate).

[2] Nizami. Layla & Majnun. A clássica história de amor da literatura persa. Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 162.

[3] Carlos Drummond de Andrade. Poesia 1930-1962, p. 832.

[4] Davi Arrigucci Jr. Coração partido. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

[5] Ibidem, p. 112.

[6] Lya Luft. Mar de dentro. 3 ed. São Paulo: ARX, 2002, p. 30.

[7] Na raiz mesma da palavra hospitalidade encontra-se outra: hostilidade.

[8] Alain Montandon (Ed.) O livro da hospitalidade. A acolhida do estrangeiro na história e nas culturas. São Paulo: Editora Senac, 2011, p. 32 (Prefácio de Montandon).

[9] Carlos Drummond de Andrade. Poesia 1930-1962, p. 356 (A rosa do povo)

[10] Davi Arrigucci Jr. Coração partido, p. 115.

[11] Ibidem, p. 138.

[12] Ibidem, p. 140.

[13] Ibidem, p. 142.

[14] Ibidem, p. 144.

[15] Rainer Maria Rilke. Cartas a um jovem poeta. 4 ed. São Paulo: Globo, 2013, p. 38.

[16] Ibidem, p. 55.

[17] Rainer Maria Rilke. Elegias de Duíno . 6 ed. São Paulo: Globo, 2013, p. 21.

[18] Ibidem, p. 98 (comentário de Dora Ferreira da Silva).

[19] Ibidem, p. 23.