quinta-feira, 31 de agosto de 2023

 A dimensão contemplativa de Tomás de Aquino (versão ampliada)

 

Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem

 

 

Na terça feira, 18 de julho de 2023, comemorou-se o 700º aniversário da canonização de São Tomás de Aquino, no pontificado do papa João XXII (1323). É o início do tríplice jubileu do Aquinate, que também comemora em 2024 o seu 750º anos de morte e em 2025, o 800º aniversário de seu nascimento. Os frades dominicanos da Província de Tolouse estão envolvidos na publicação de uma nova tradução francesa da Suma Teológica.

 

Tomás de Aquino é o único teólogo da Igreja que o Vaticano II reconheceu explicitamente como “mestre”[1]. Foi também proclamado doutor da Igreja por Pio V, em abril de 1567.

 

Tomás de Aquino nasce em Roccasecca, na comuna italiana da região do Lazio, em torno de 1221[2]. Desde sua infância frequenta a vizinha abadia de Monte Cassino, onde vem acolhido como oblato com votos não definitivos, recebendo ali suas primeiras instruções. Permanece em Monte Cassino dos cinco aos quatorze anos, num ritmo marcado pelo mote beneditino: ora et labora(pela contemplação e ação).

 

Isso explica, em parte, um traço profundamente marcado pela dinâmica contemplativa. Era igualmente um teólogo que vivia sob a égide de grande humildade: 

 

“Era um homem de uma extrema humildade, o que significa que era inteiramente esvaziado de si. O que lhe interessava não era o seu eu, mas a verdade, quer de Deus, quer das coisas mesmas. Seu eu era apenas um Da-sein: espaço onde a realidade fazia sua aparição e revelava sua verdade”[3].

 

Com respeito à sua vida interior, era alguém muito discreto. Entendia que o estudo por si mesmo “não dificulta a piedade, antes, a favorece”[4].

 

Depois da experiência em Monte Cassino foi atraído para a Ordem dos Pregadores (Dominicanos), vindo a estudar em Nápoles, em 1239[5]. Foi para Nápoles, apesar da resistência de sua família, ligada à pequena aristocracia feudal, que não desejava que ele se tornasse um mendicante, um dominicano: chegou a ser sequestrado pela família por um ano e meio na fortaleza de Rocasseca. Nesse período ele decorou toda a Bíblia, bem como os quatro livros das Sentenças do Mestre Pedro Lombardo[6].

 

Na ocasião, “o movimento mendicante representava o que havia de mais avançado e contestatório na época. Com efeito, eles montaram um esquema de vida que era o oposto do feudalismo. Em contraposição aos grandes mosteiros no campo, optavam por viver em casinhas populares na cidade. O movimento mendicante, 

 

“em vez de se dirigir aos nobres, pregavam ao povo miúdo; em vez dos ricos benefícios, assumiam a pobreza mais estrita; e em vez da estrutura hierárquica de organização religiosa adotaram o ideal de fraternidade e participação de todos nas decisões”[7].

 

A proposta significava naquele tempo uma perspectiva extremamente popular e revolucionária, a ponto de chegar a esvaziar as paróquias, como lamentava o papa Inocêncio IV, em 1254[8], deixando os sacerdotes meio abandonados “como pássaros solitários, sem o consolo dos paroquianos e sem as ofertas costumeiras”[9].

 

Há que recordar que na ocasião o estudo de Aristóteles era vetado em Paris (tanto a filosofia natural como a metafísica de Aristóteles). Em Nápoles, ao contrário, não havia impedimento para isso. Ali o acesso a Aristóteles era livre[10].

 

Tomás de Aquino teve a coragem de afrontar “o desafio cultural do tempo – o aristotelismo – no interesse da fé e o fez de modo exemplar”[11]. Como aponta Clodovis Boff, “foi o movimento mendicante, aberto aos novos ventos da história, que levou Tomás a se abrir a Aristóteles”[12].

 

De forma extraordinária, Tomás “se pôs na crista da onda de seu tempo”, sem perder o ardor de bom combatente, como demonstrou com grande clareza em sua Suma contra os Gentios, redigida “sobre o fundo da presença árabe na Espanha e da sedução que a cultura greco-árabe significava para os espíritos da época”[13].

 

Os dominicanos, na sede de conhecimento, buscam novos caminhos de reflexão em Paris, que era centro intelectual naquele tempo. Como dizia o papa Gregório IX, Paris era “o forno onde cozinha o pão de toda a cristandade”.

 

Como pensador atento ao ritmo do real, Tomás de Aquino colocou-se firme na defesa da criatura. Foi com ele que se firmou a teologia como ciência, numa impressionante ruptura epistemológica para o seu tempo. Dizia que “rebaixar a criatura era rebaixar o criador”, como indicou várias vezes em sua Suma contra os Gentios, sobretudo nos capítulos 3 e 69 do livro II[14].

 

Defendia com vigor a singularidade da razão filosófica, que para ele não se contrapunha à teologia. Para ele, conjugar a teologia com a filosofia não era misturar água com vinho, mas “transformar a água em vinho”[15]. Tomás olhava sempre “para os argumentos e não para as autoridades”[16]. Não via, em momento algum, uma dicotomia entre Deus e homem, Fé e Razão, Providência e Liberdade, Teologia e Filosofia[17].

 

Ele foi intrépido nesse confronto com Aristóteles. O clima cultural dominante era avesso a tal iniciativa. Havia na ocasião suspeita contra isso: “Tomás de Aquino não teve medo de suscitar a oposição dos tradicionalistas representados pelos augustinistas: monges e franciscanos. Estes temiam pela perda de identidade da fé cristã”[18]. Também o papa Gregório IX, em sua carta aos teólogos, de 07 de julho de 1228, chegou a mencionar a condenável “teologia filosofante”.

 

O grande pensador dominicano não estava inventando novidades, mas simplesmente servindo-se do apoio da razão aristotélica para servir à fé. A originalidade do Aquinate encontra-se

 

“na síntese que conseguiu realizar. Seu biógrafo, Guilherme de Tocco, refletiu o susto da época frente à originalidade do pensar tomasiano: ´Frei Tomás colocava em seus cursos problemas novos, descobria novos métodos, empregava um novo entrelaçado de provas. A escutá-lo ensinar assim uma nova doutrina, com argumentos novos, ninguém podia duvidar que Deus, pela irradiação dessa nova luz e pela novidade desta inspiração, lhe tivesse dado ensinar, por palavras e escritos, novas ideias`”[19].

 

As reflexões novidadeiras de Tomás de Aquino encontravam resistências. Três anos depois de sua morte, várias de suas proposições foram condenadas por teólogos de Paris e Oxford, tendo encontrado defesa no grande Alberto Magno, que veio a pé de Colônia a Paris para defender o seu discípulo contra seus adversários.[20].

 

Com Tomás de Aquino aprendemos, e isso é fundamental, que “não existe, em princípio, objeto ou acontecimento algum que não possa ser teologizado. Tudo é teologizável”. Como postulado ontológico fundamental firma-se a ideia de que o não-teológico pode “ser susceptível de se tornar teológico”[21]

 

Prosseguiu seus estudos sob a direção de um dos grandes mestres de teologia da ocasião, Alberto Magno. Sua aula inaugural, na Sorbone, como mestre de teologia, ocorreu em 03 de março de 1256, quando tinha apenas 31 anos. Não se falava em teologia na ocasião, mas sacra doctrina. O tema de sua primeira aula expressava o toque místico-poético: “Rigans montes de superioribus tuis” (“Do alto de tuas moradas tu irrigas as montanhas” - do Salmo 103, 13)[22]. Para Tomás de Aquino o estudo não consistia impedimento algum para a piedade, mas era algo que a favorecia e irrigava. 

 

A Suma Teológica não vinha compreendida como um texto específico das aulas, mas como subsídios fundamental “para uma leitura mais inteligente da Palavra de Deus”[23]. A utilização desta obra como texto acadêmico só vai ocorrer posteriormente, a partir do século XVI.

 

A produção de Tomás de Aquino é imensa: ultrapassa a oito milhões de palavras[24]. Era um grande mestre que conseguia, como poucos, integrar a teologia com a piedade. Não há dúvida sobre a conexão entre a teologia e a piedade na vida e obra de Tomás de Aquino, como recorda com acerto Clodovis Boff. O estudo e a oração faziam parte de seu cotidiano e da edificação de seu labor teológico. Numa das revelações feitas por seu secretário, Frei Reginaldo de Piperno, ele indica a força da oração da vida do Aquinate:

 

“Ele devia menos seu saber ao esforço de seu espírito do que ao poder de sua oração. Todas as vezes que queria estudar, discutir, ensinar, escrever ou ditar, recorria, primeiro, ao segredo da oração, chorando diante de Deus para descobrir a verdade dos segredos divinos. E, quando estava na incerteza, punha-se a rezar, voltando iluminado da oração”[25].

 

Na visão correta de Clodovis Boff, que também concordo, Tomás de Aquino é passagem obrigatório para todo teólogo. Trata-se de um teólogo imprescindível, de passagem, mas não de destino[26]. Ele deixa em aberto janelas e portas para reflexões novidadeiras. Há que repetir, sem se cansar, que ele tinha um profundo apreço pela razão no exercício da teologia. Ganha-se sempre em conviver e medir-se com os grandes espíritos, como lembra Clodovis Boff. Ganha-se em inteligência, mas também em humildade: “É sempre com a sensação de força e grandeza que se fecha uma obra de Tomás de Aquino”[27].

 

Sua grande obra de referência é a Summa Theologica, iniciada em 1265 em Roma, mas não finalizada em razão de uma importante visão de Deus ocorrida em 06 de dezembro de 1273, na qual sentiu-se convocado a parar de escrever e de ensinar. É o que nos recorda a tradição hagiográfica. 

 

Como recorda Clodovis Boff, “no domingo da Paixão, em 26 de março de 1273, no último ano de sua vida, justo enquanto rezava a missa, a que assistiam muitos cavaleiros, comoveu-se às lágrimas e entrou em êxtase por um tempo tão prolongado que teve de ser sacudido para que continuasse a celebração”[28]

 

No mesmo ano, no dia 06 de dezembro, foi acometido por uma profunda crise espiritual e também psicológica (esgotamento). Era o dia da festa de São Nicolau. Enquanto celebrava a missa na capela daquele santo, teve um êxtase, acompanhado de lágrimas abundantes, a ponto de não poder servir à missa que veio em seguida. Ele subiu ao quarto “e recolheu num armário todos os instrumentos de trabalho. Deixou completamente de estudar e escrever. Retirou-se à cela, onde ficava deitado, orando quando não chorando”[29].

 

Seu secretario, Frei Reginaldo, ainda tentou convencê-lo a retomar o trabalho, mas ele recusou. Na ocasião já estava concluindo o tratado da penitência em sua Suma Teológica. Foi quando então confessou ao secretario: “Frei, não posso mais escrever. Não posso. Diante do que me foi revelado, tudo o que escrevi me parece palha”. 

 

A partir de então o Aquinate caiu num apofatismo total: 

 

“Chegara à última linguagem do mistério: a linguagem da não linguagem, que é quando ´a palavra se faz visão` (Rumi) e a visão, silêncio. Esgotado, vai repousar no castelo da irmã, a condessa Teodora. Era seu último natal”[30].

 

Ao final da vida, Tomas alcançou um grande feito na visão dos grandes místicos medievais, e muito apreciado por eles,  ou seja, o “dom das lágrimas”[31]. No final de janeiro de 1274, último ano de sua vida, começa sua longa viagem em direção a Lyon (França) onde em maio abririam-se os trabalhos do  de um Concílio ecumênico, que se propunha a união dos católicos com os cristãos gregos. Foi quando então caiu gravemente enfermo, tendo que se hospedar num mosteiro vizinho: a abadia cisterciense de Fossa Nova. O seu estado se agrava. Mesmo no seu leito de morte ainda comentou, a pedidos dos monges, o Cântico dos Cânticos, que um dos mais belos e místicos livros do Primeiro Testamento. Foi sua derradeira atividade teológica[32]. Ele morre no dia 07 de março de 1274, aos 49 anos, lúcido e sem agonia, com as mãos juntas em oração[33].

 

Mesmo não sendo um grupo tão numeroso como o dos franciscanos, os dominicanos tiveram um papel importante na espiritualidade e na mística da Idade Média tardia.  Temos duas referências importantes nesse campo, como as figuras de Alberto Magno (cerca de 1200 a 1280) e Tomás de Aquino (1225-1274). Como mostrou Bernard McGinn, “a doutrina deles foi fundamental para a poderosa corrente mística que surgiu durante o século XIV na Alemanha na pregação e nas obras de Mestre Eckhart”[34].

 

As reflexões sobre Deus na Suma Teológica são muito importantes para a compreensão da visão de Deus em Tomás de Aquino. Cito aqui apenas uma reflexão feita por Tomás em sua grande Suma, em torno da Questão XIII, que trata dos nomes divinos. Tomás discute um tema clássico entre os místicos: “Parece que nenhum nome convém a Deus”. É o que também dizia Dionísio o Areopagita, místico que  esteve igualmente no radar de Tomás de Aquino. 

 

O Areopagita, em sua Teologia Mística[35], no capítulo terceiro, diz que “Quanto mais olhamos para cima, mais os discursos se contraem pela contemplação das coisas inteligíveis”. Mas, como diz o místico, estamos sempre envolvidos numa “treva superior”[36]. É o que também vai dizer João da Cruz num de seus clássicos poemas: 

 

“Quanto mais alto se ousa, menos se entende”; ou ainda “O que ali chega deveras de si mesmo desfalece”[37].

 

Nenhuma narrativa pode traduzir o significado de Deus; nenhum nome, verbo ou pronome, pois Deus é desprovido de qualidade ou acidente. Ele não pode ser expresso ou nomeado por ninguém[38]. Nós acessamos Deus por meio das criaturas, daí Mestre Eckhart distinguir entre o Deus das Criaturas e a Deidade[39]. Esta última está acima do Deus pronunciado pelas criaturas.  Igualmente na Suma contra os Gentios, Tomás nos lembra que “Tudo aquilo que é dito acerca de Deus, e que a razão humana em si mesma é incapaz de descobrir, não deve ser de imediato considerado como falso, como acreditaram os maniqueus e a maior parte dos infiéis”[40].

 

A teologia mística de Tomás de Aquino ocupa um lugar mais restrito que a de Alberto Magno, com seu “dionisianismo intelectivo” e sua ênfase na natureza sobrenatural da teologia mística, mas é igualmente importante. Como lembra McGinn, É difícil acessar a mística do Aquinate em razão dele não falar de si mesmo ou de sua vida interior. O que sabemos sobre isso não passa de conjecturas, mas é certo que ele teve uma experiência de Deus rica e saborosa. De fato, “o cuidado com que Tomás trata tantas práticas fundamentais da espiritualidade cristã, tais como a oração, fornece comprovação dos aspectos especulativos e práticos de sua doutrina espiritual”[41].

 

A relação entre contemplação e ação é um dos pilares de sua refexão espiritual. É clássica a frase de Tomás: contemplata aliis tradere. Isso significa contemplar e dar aos outros os frutos da contemplação. O conhecimento de Deus, ou a busca de tal conhecimento, tem uma clara incidência na dinâmica da caridade. Mesmo defendendo a superioridade da vida contemplativa sobre a vida ativa, Tomás reconhece que “as obrigações do amor cristão muitas vezes tornam necessário e mais meritório dedicar-se à ação do que permanecer na contemplação”[42].

 

Não há, em hipótese alguma, uma desconsideração em Tomás pela vida ativa, que em casos concretos pode mesmo prevalecer. Gustavo Gutiérrez, em sua clássica obra sobre a teologia da libertação, enfatiza o traço tomista que sustenta a ideia de que a graça não suprime ou substitui a natureza, mas a aperfeiçoa. Ele abre assim, como lembra Gustavo, “as possibilidades de uma ação política mais autônoma e desinteressada”[43].

 

O que gostaria de lembrar aqui nesta reflexão é o traço contemplativo de Tomás de Aquino, e em particular a sua visão de Deus. Não há dúvida sobre o impacto em sua obra de uma teologia negativa ou apofática. Em sua doutrina sobre Deus há uma ênfase importante no dado da “simplicidade da natureza divina”. 

 

É algo que nos faz lembrar da reflexão de Eckhart em seu sermão alemão 2, quando fala da presença de uma força na alma que flui do Espírito, inteiramente espiritual. Trata-se de uma força que revela o que há de incandescente e ardente em Deus. Nessa força “a alegria é tão grande, o deleite tão incomensurável, que ninguém jamais pode expressá-lo exaustivamente ou revelá-lo”[44]. É uma força que habita o “burgozinho” da alma, que é simples e elevada, e que permanece obscurecida mas ativa. Tal centelha interior “é livre de todos os nomes e despida de todas as formas”. Ali, sim, emerge o que há de “florescente e verdejante” de Deus[45].

 

O influxo dionisíaco sobre Tomás de Aquino é claro, ao firmar o conhecimento de Deus com base na negação, isto como uma precisa estratégia linguística. Mesmo quando falamos sobre a bondade de Deus, sabemos que não é ela que alcançamos, mas insere-se numa dinâmica de balbucio que apenas nos aproxima da fresta de luz que ela envolve. A bondade de Deus não é aquela “que podemos predicar”. Dizia também Eckhart em outro sermão alemão, o de número 83, lembrando um mestre pagão, que “aquilo que compreendemos ou dizemos a respeito das causas primeiras, isto somos mais nós mesmos do que a própria causa primeira”[46].

 

Não há, pois, verdade quando dizemos que “Deus é bom”, ou  que “é sábio”, ou “melhor”. Nada disto pode ser aplicado a Deus, “pois ele está elevado acima de tudo”, de todas as nossas representações, que se mostram sempre movediças e imprecisas diante do Mistério Maior. Para Eckhart, o que define Deus é uma “nadidade sobreessencial”[47]

 

Na visão de Tomás de Aquino, não há como compreender Deus dada a sua infinitude. Nem a razão natural, as visões proféticas ou mesmo as mais altas luzes de fé processam o acesso ao Mistério, que permanece obscurecido e incógnito. 

 

Em sua obra De Veritate, Tomás sublinha que “a visão dos bem-aventurados não é distinta da visão de alguém ainda nesta terra conforme o ver mais ou menos perfeito, mas mediante a diferença de ver e não ver”[48]. Como mostra Aquinate, o contemplativo é envolvido por um dom especial, através da graça, que favorece uma aproximação positiva ao Mistério. 

 

É algo que reflete uma “graça gratuita”, como ocorre por exemplo no êxtase. O que temos no tempo, como nos lembra Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, é uma posse contemplativa imperfeita, “mediante o espelho do enigma” (1 Cor 13,12). 

 

A contemplação escapa ao domínio propriamente intelectual, estando inserida no âmbito da fé e da “simples consideração da verdade”. Ela é sobretudo um “dom de Deus”. O seu campo não é o discursivo, mas o experiencial, e reflete a dinâmica do coração. Ao contemplativo é favorecida a experiência de “saborear a suavidade” da vontade de Deus. 

 

O centro da doutrina do Aquinate, como assinala McGinn é “o conhecimento místico como uma forma de saber experiencial e conatural fundado na união com Deus por meio da caridade e conduzindo à recepção do dom da sabedoria divina”[49].

 

Para Tomás de Aquino, como também para Alberto Magno, a melhor forma de acesso ao conhecimento de Deus é a “ignorância”, daí o traço essencial da humildade para todo buscador. Essa “ignorância” é um passo singular de participação na sabedoria divina. Conhecer a Deus, “é ser iluminado pela própria profundeza da sabedoria divina, de que não somos capazes de investigar”[50].

 

Junto com o êxtase, Tomás sublinha igualmente o traço do “arrebatamento” no campo da experiência mística. A alguns vem concedido essa experiência de ser tomados por Deus: aqueles que são “totalmente arrebatados da ação dos sentidos, de modo que a alma inteira é reunida dentro da visão da essência divina”[51]

 

Há aqui outra referência bíblica singular, retirada de 2 Cor 12,2-5, quando Paulo relata que foi arrebatado até o paraíso, ouvindo então as “palavras inefáveis que não é lícito ao homem repetir”. Como indica Mc Ginn, a doutrina de Tomás de Aquino sobre a contemplação encontra-se “entre as mais sistemáticas na história do pensamento cristão”, servindo-se de ponto de arranque fundamental para as abordagens teológicas em torno da questão mística[52].

 

A visão neoescolástica do Aquinate dominou a teologia católica entre os anos de 1880 a 1960, e sua perspectiva sobre a contemplação “permanece um ponto alto da reflexão doutrinal sobre a mística cristã”[53].

 

Tomás foi grande inspirador do teólogo Karl Rahner que a ele dedicou um importante texto de seus escritos teológicos, isso em 1974, em torno aos problemas concernentes à incompreensibilidade de Deus segundo Tomás de Aquino. Com base em Aquinate, Rahner sublinha que Deus, em todo lugar, permanece como algo incompreensível a todo intelecto finito e criado, inclusive “para os anjos e para os homens beatos, e também para a alma criada do Homem-Deus”. Também Jesus, participa da “bem-aventurada ignorância de Deus”. Jesus, enquanto humano, na sua experiência de fé, encontra-se sempre diante deste “mistério inexorável”, também para ele[54].

 

Jesus Cristo, e nossas narrativas sobre ele, convocam-nos para a rejeição à qualquer “encarceramento na aparência”. Estamos todos, incluindo Jesus feito homem, distanciados do Inominado, e nossas representações a respeito são sempre movediças. A figura de Jesus é também algo que nos orienta para Outrem, “cujo nome é indizível”. Como mostra o dominicano Christian Duquoc, “a singularidade de Jesus, o Cristo, não abole as outras singularidades, ela as aponta como fragmentos potenciais de um todo inacabado, e inacabável para nós”[55].



[1]COMPÊNDIO do Vaticano II. Constituições, decretos, declarações. 6 ed.  Decreto Optatam Totius (OT), 16,3. Petrópolis: Vozes, 1968 ( Decreto sobre a formação sacerdotal).

[2]A data correta é controvertida.

[3]Clodovis Boff. União de teologia e piedade no pensamento e na vida de São Tomás de Aquino – discurso de paraninfo para a formatura dos Bacharéis em Teologia de 2011, da PUCPR. Revista Eclesiástica Brasileira, v. 72, n. 286, 2012, p. 438.

[4]Ibidem, p. 442.

[5]Na Faculdade das Artes (que poderíamos hoje chamar de Ciências e Letras).

[6]Clodovis Boff. Santo Tomás de Aquino e a Teologia da Libertação. Revista Eclesiástica Brasileira, v. 41, n. 163, setembro de 1981, p. 429.

[7]Ibidem, p. 438.

[8]Ibidem, p. 438.

[9]Ibidem, p. 438.

[10]Alessandro Ghisalberti. Tommaso D´Aquino. In: Umberto Eco & Riccardo Fedriga (a cura di). Storia della filosofia3. Milano: Grupo Editorialr L´Espresso, 2015, p. 170.     

[11]C.Boff, São Tomas de Aquino..., p. 426.

[12]Ibidem, p. 439.

[13]Ibidem, p. 439.

[14]Ibidem, p. 436.

[15]Ibidem, p. 430-431.

[16]Ibidem, p. 437.

[17]Ibidem, p. 437.

[18]Ibidem, p. 435.

[19]Ibidem, p. 435.

[20]Ibidem, p. 435.

[21]Clodovis Boff. Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações.  Petrópolis, Vozes, 1978, p. 85. Argumento trabalhado por Tomas de Aquino em sua Suma Teológica I, q. 1, a.3.

[22]Clodovis Boff. União de teologia e piedade..., p. 442.

[23]Clodovis Boff. União de teologia e piedade..., p. 441

[24]William J. Collinge. Thomas D´Aquin (1224-1225-1274). In: Allan D. Fitzgerald (Ed). Enciclopédie Saint Augustin, CERF, 2005, p. 1411

[25]Clodovis Boff. União de teologia e piedade..., p. 443.

[26]Clodovis Boff. Santo Tomás de Aquino..., p. 428.

[27]C. Boff. Santo Tomas de Aquino..., p. 431.

[28]C.Boff, discurso..., p., p. 444.

[29]Ibidem, p. 446.

[30]Ibidem, p. 446.

[31]C.Boff, discurso..., p. 445.

[32]Ibidem, p. 446-447.

[33]Ibidem, p. 447.

[34]Bernard McGinn. A colheita da mística na Alemanha Medieval(1300-1500). São Paulo: Paulus, 2022, p 30.

[35]Traduzida em português por Marco Lucchesi, com um pequeno ensaio meu – 2021, 2 ed Editora Mauad. Pseudo-Dionísio Areopagita. Teologia Mística. 2 ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2021.

[36]Ibidem, p. 37.

[37]Entrei onde não sabia. A poesia mística de San Juan de la Cruz. Traduzido por Dora Ferreira da Silva. Cultrix, 1984,  p. 79.

[38]109-110.

[39]Bernard McGinn. Maître Eckhart. L´homme à qui Dieu ne cachait rien. Paris: Cerf, 2017, p. 98 e 106-107.

[40]Tomás de Aquino. Súmula contra os Gentios. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 66.

[41]Bernard McGinn. A colheita da mística na Alemanha MedievalTomo IV da obra de Bernardo McGinn. A presença de Deus: uma história da mística cristã ocidental. São Paulo: Paulus, 2022, p. 53.

[42]Ibidem, p. 65.

[43]Gustavo Gutiérrez. Teologia da libertação. Petrópolis: Vozes, 1975, p. 57.

[44]Mestre Eckhart. Sermões alemãe 1. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 49.

[45]Mestre Eckhart. Sermões Alemães 1. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 49-50.

[46]Mestre Eckhrt. Sermões alemães 2. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 118.

[47]Mestre Eckhart. Sermões Alemães2. Petrópolis, Vozes, 2008, p. 118.

[48]Bernard McGinn. A colheita da mística na Alemanha Medieval, p. 56-57.

[49]Ibidem, p. 64.

[50]Ibidem, p. 65.

[51]Ibidem, p. 66.

[52]Ibidem, p. 68.

[53]Ibidem, p. 68.

[54]Karl Rahner. Teologia dall´esperienza dello Spirito. Nuovi Saggi VI. Roma: Paoline, 1978, p. 370. E também 375.

[55]Cristian Duquoc. O único Cristo.  A sinfonia adiada. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 92-93.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

O alarme das folhas secas: uma natureza que saiu do eixo

 O alarme nas folhas seca: uma natureza que saiu do eixo

 

Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem

 

 

Gostei da coluna de Fernando Gabeira da segunda feira, 31/07/2023, no O Globo, sobre sua viagem ao Xingu, convidado por Raoni. Pôde nos mostrar os efeitos nocivos que estão ocorrendo na região também em razão dos efeitos do aquecimento global, mas igualmente de políticas desastrosas que foram realizadas ali como as hidrelétricas, a poluição do garimpo e as infindáveis plantações de soja. Em seu texto, Gabeira recorre a Paulo Moutinho, grande pesquidador da Amazônia, para afirmar que ali  estamos adiantados com respeito aos impactos do efeito do aquecimento global.

 

Em trecho de grande beleza, quando aborda a triste realidade de um dos mais severos El Niños da história, Gabeira nos remete à sabedoria de um velho cacique da região que consegue captar os riscos atuais quando ouve o barulho das folhas secas pisadas, algo que nunca tinha ouvido na infância, e que revela a perigosa novidade de um terreno propício agora para as grandes queimadas. Uma sensibilidade que é única.

 

Em reportagem do Imazon, percebemos que “entre 1985 e 2022, a Amazônia viveu 23 anos com superfície de água abaixo da média, 14 anos cima e apenas uma ano na média. E o pior cenário de seca ocorreu recentemente, entre 2016 e 2021, quando a superfície de água variou de 8% a 4% abaixo da média”[1].

 

Numa histórica entrevista concedida por Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro a Eliane Brum, e publicada no jornal El País, no final de setembro de 2014, eles diziam que sinais bem precisos estão indicando uma mudança de horizonte, que se anuncia bem problemática[2]. Débora fala que tanto os índios e os pequenos agricultores percebem em seu contato com as plantas e os animais, “que algo está acontecendo”. Percebem por estarem animados por uma sensibilidade muito mais aguda e apurada que a nossa.

 

Viveiros de castro se pergunta, como é que eles percebem que o clima está mudando? E diz:

“No calendário agrícola de uma tribo indígena você sabe que está na hora de plantar porque há vários sinais da natureza. Por exemplo, o rio chegou até tal nível, o passarinho tal começou a cantar, a árvore tal começou a dar flor. E a formiga tal começou a fazer não-sei-o-quê. 

O que eles estão dizendo agora é que esses sinais dessincronizaram. O rio está chegando a um nível antes de o passarinho começar a cantar. E o passarinho está cantando muito antes de aquela árvore dar flor. É como se a natureza tivesse saído de eixo. E isso todos eles estão dizendo. 

As espécies estão se extinguindo, e a humanidade parece que continua andando para um abismo. O mundo vai, de fato, piorar para muita gente, para todo mundo. Só o que vai melhorar é a taxa de lucro de algumas empresas, e mesmo os acionistas delas vão ter que talvez tirar a casa de luxo que eles têm na Califórnia e jogar para outro lugar, porque ali vai ter pegado fogo.”

 

 

 

 

 

domingo, 30 de julho de 2023

Marta e Maria: Ação e Contemplação

 Marta e Maria: Contemplação e Ação

 

A liturgia católica celebrou ontem, sábado, dia 29/07/2023, as irmãs Marta e Maria. Gostaria de dizer algumas palavras que me tocam ao refletir sobre as duas irmãs e sua relação com Jesus. Tenho aqui como base o belo livro de Bernard McGinn sobre Mestre Eckhart, o homem a quem Deus nada esconde (original inglês de 2001 e tradução francesa pela CERF em 2017). Não temos, infelizmente, a tradução portuguesa dessa obra.

 

Em sua obra sobre Mestre Eckhart (A mística de ser e de não ter – Vozes, 1983), Leonardo Boff já havia tratado do tema de Marta e Maria e mencionado a tese eckhartiana do carinho especial de Jesus por Marta, invertendo a clássica forma de trabalhar a relação entre vida contemplativa e vida ativa. Ao dar preferência a Marta, segundo o Sermão Alemão 86 do mestre renano, Eckhart teria aberto um caminho bonito para uma “mística da libertação”. Como diz Boff, “a mística, por mais que irrompa para cima, não perde as raízes de baixo”).

 

No mencionado Sermão 86 de Eckhart, que trata da passagem bíblica de Lc 10, 38-40, o místico reconhece a beleza contemplativa de Maria, mas sublinha que Marta “possuía plenamente tudo o que é bem temporal e eterno e tudo que a criatura deveria possuir”. Na visão do mestre renano, Marta era cuidadosa. Ela estava junto das coisas, mas as coisas não estavam nela, pois já tinha vivido com grande riqueza uma mudança interior. Ela estava “assentada numa virtude esplêndida, madura e sólida, num ânimo livre, desimpedida de todas  as coisas”. Daí sua vontade de que sua irmã, Maria, pudesse igualmente estar “assentada no mesmo vigor”. Marta, como lembra Eckhart, havia tocado o mistério da essência, e lidava com a vida de forma essencial. E concluía: “Só quando os santos se tornam santos que começam operar virtudes”.

 

A tradição mística anterior, inaugurada por Agostinho e retomada posteriormente por Gregório, o grande e Bernardo de Claraval, davam proeminência à vida contemplativa. Eckhart equilibra esta tradição acentuando o valor evangélico da prática. Ele rompe com o modelo tradicional em seu Sermão 86, acentuando com vigor a “unidade do agir” no caminho da perfeição no tempo. A grande novidade trazida por Eckhart, segundo Mc Ginn, é ter audaciosamente afirmado para o seu tempo “um novo gênero de ação, proveniente de um fundo bem exercido”. Ou seja, Marta tinha avançado ainda mais em razão de estar habitada por um “fundo bem exercido” (wol geübeter grunt). Com isso, Eckhart sublinha o valor único de uma “prática bem exercida”, que busca sua razão de ser no fundo da alma exercitado. 

 

Marta é alguém profundamente livre, que se encontra envolvida nas coisas, mas não se deixa envolver por elas, porque passou por uma experiência interior nobre de desapego e disponibilização ao outro. É um Sermão bonito que nos faz pensar de forma nova a relação entre tempo e a eternidade. A eternidade passa a ser compreendida não como algo que está além, mas como a “plenitude no tempo”. Marta é um espírito livre (vriên gemüete) e sua vida está enraizada num fundo resplandescente (ein hêrlîcher grunt), e está habitada pelo único necessário (Lc 10,42). 

 

Daí entendermos bem uma Teresa de Ávila quando trata em suas Fundações o tema do "avanço espiritual". Acalma suas irmãs ao indicar a elas sobre as ocupações que o Senhor convoca no sentido da Obediência e Caridade. O bonito assombro está em perceber os caminhos de obras que a verdadeira obediência provoca nos seguidores de Jesus, convocando-os "a cuidar das coisas exteriores", pois "mesmo na cozinha, entre as panelas, o Senhor vos está ajudando interior e exteriormente" (Fundações, Capítulo V,8).

 

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Os passos do diálogo na dança da vida

 Os passos do diálogo na dança da vida

 

Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem

 

“Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver”

 

Gilberto Gil

 

 

Em minhas publicações mais recentes, tenho trabalhado com afinco o tema da mudança de paradigma que envolve a reflexão contemporânea com os passos relacionados aos saltos animal e vegetal. Podemos também falar na emergência de reflexões que ampliam ainda mais o quadro quando abordam a presença contagiante dos fungos e bactérias, que não estão nem no reino animal ou vegetal, formando um reino à parte, vigoroso e potente. Sabemos hoje, por estudos recentes, que dentre os 2,2 ou 3,8 milhões de espécies de fungos, somente uma parcela reduzida, de 6%, foi descrita. Eles representam “seis a dez vezes o número de espécies de plantas existentes” (SHELDRAKE, 2021, p. 19). Fornecem “a chave para compreender o planeta que vivemos e a maneira como pensamos, sentimos e nos comportamos”, embora , em sua grande parte não esteja ao alcance dos olhos.

 

Em tempos de “viradas” fundamentais, percebemos também um processo interessante em nosso tempo de uma nova percepção também dos minerais, inclusive com antropólogos aventando, com base na percepção dos povos originários, a dinâmica de vida que rege esse mundo particular. Já em tempos atrás acompanhamos a trajetória reflexiva de Teilhard de Chardin, revelando a dimensão espiritual da matéria. Desde criança, o místico e paleontólogo jesuíta manifestava o seu apreço e admiração profunda pela matéria e o gosto pelo geológico. No seu hino à matéria, expressava toda sua simpatia:

 

“Bendita sejas, tu, áspera matéria, gleba estéril, duro rochedo, tu que não cedes a não ser pela violência, e nos forças a trabalhar se quisermos comer (...). Eu te saúdo, potência universal de aproximação e de união, através da qual se liga a multidão das mônadas e na qual convergem todas sobre a rota do Espírito” (CHARDIN, 1994, p. 72-73).

 

Teilhard sentia-se atraído pelo “sentido de plenitude” que a matéria manifestava para ele, deixando-se contagiar por uma Presença profunda, ontológica e vital que captava no Universo ao seu redor. Dizia que “para compreender o Mundo , o saber não basta; é preciso ver, tocar, viver na presença, beber a existência quente no próprio seio da Realidade”(CHARDIN, 2007, p. 17 e 68).

 

Essa sedução e apreciação da Matéria vemos também em outras tradições religiosas, como no Budismo Zen, com Mestre Dogen (1200-1253) e a tradição Soto-Zen. Elementos da Matéria, como as montanhas, os rios e os vales, ganham em sua pena uma valorização única, e se realizam como Presença. Tudo está repleto de vida e movimento, como indicou com precisão em vários capítulos de seu Shôbôgenzô (A verdadeira Lei, tesouro do Olho). Em sua visão, a Natureza está profundamente ligada ao movimento do despertar. E tudo que ocorre no espaço da matéria reverbera por todo canto: “Uma flor eclode, e o mundo se levanta” (DÔGEN, 2005, p. 222). No capítulo-livro do Shôbôgenzôque trata das montanhas e rios como sutras, o Sansuikyô, o mestre sinaliza que aqueles que não tem olhos para captar o movimento e a vida das montanhas deixam de perceber o seu próprio movimento (DÔGEN, 2005, p. 103-104).

 

Na reflexão antropológica atual vemos a emergência dessa ocular com autores singulares como Eduardo Kohn (KOHN, 2017) e Tim Ingold (INGOLD, 2015). Retomando a perspectiva do cosmos anímico, Ingold vai destacar a presença vital que habita o sol, as árvores e o vento. Toda a matéria vem energizada pela presença da vida e do movimento. Como ele diz, “onde quer que haja vida, há movimento” (INGOLD, 2015, p. 122-123). Na “textura do mundo da vida” o que existe é uma magnífica teia que liga tudo e provoca contágios fabulosos e inauditas relações. Uma esplêndida teia de nós. Todo o ambiente que nos rodeia e no qual vivemos não é somente uma paisagem a se ver, mas um mundo a ser habitado e cuidado com atenção e reverência. É um mundo que reverbera. 

 

Em peculiar linha de reflexão que podemos associar à “virada mineral”, encontramos a filósofa e antropóloga Elizabeth Povinelli, sobretudo no último livro de sua trilogia, que começou com a obra Império do amor, sendo seguida por outra, Economias do abandono. No terceiro volume, Geontologias[1], a autora trabalha com três figuras singulares para lidar com o tema das “existências entrelaçadas” no tempo do liberalismo tardio[2]. São elas a figura do deserto, do animista e do vírus. 

 

São figuras que recorre para poder entender o tema da geontologia, que "passa a cumprir um papel maior na governança do nosso pensamento" no tempo atual. 

O deserto tem como seu imaginário central o carbono. Ele é "o espaço em que já houve vida, não há mais, mas poderia haver se conhecimentos técnicos e recursos fossem devidamente administrados" (POVINELLI, 2023, p. 41-42). 

 

A segunda figura é a do animista, que está relacionada com o "imaginário da indigineidade”. É uma perspectiva que vem defendida por autores contemporâneos, como Tim Ingold, Philipe Descola e Bruno Latour. Enquanto o deserto “dramatiza o perigo constante que a Não Vida representa para a Vida, o Animista insiste que a diferença entre Vida e Não Vida não deve ser vista como uma questão, já que todas as formas de existência carregam em si uma força vital de ânimo e afeto". O animista, revela a autora, "caminha de trás para a frente, rumo à pré-história do humano, da vida, ao inerte e como coisa inerte” (POVINELLI, 2023, p. 43 e  270) 

 

A terceira figura, a da vírus, tem como imaginário central o "terrorista". Como diz a autora, "o vírus é a figura daquilo que procura interferir nos arranjos atuais da Vida e Não Vida e afirma ser uma diferença que não faz diferença". A sua ação é marcada por um ritmo dificilmente controlável: ele “copia, duplica e permanece dormente, ao mesmo tempo que se ajusta continuamente às circunstâncias, experimentando e realizando testes” (POVINELLI, 2023, p. 45).

 

Estamos vivendo hoje esse império do terror dos vírus, que se adaptam continuamente, com novos campos de resistência e ação letal. Novas epidemias estão por vir, como lembrou Hélio Schwartman em sua coluna da FSP, de 13/07/2023:

 

“As leis da biologia asseguram que vírus e bactérias evoluem em ritmo mais acelerado do que o de seres cujo ciclo reprodutivo é mais longo. E sempre que certos patógenos assumirem formas suficientemente novas para ludibriar nossos sistemas imunes, teremos epidemias”[3].

 

Retomando o fio da meada, o que há na vida como um todo é uma “rede emaranhada”, como bem apontou Alexander von Humboldt. Os organismos estão todos conectados. Em sua encíclica sobre o cuidado da Terra, o papa Francisco captou essa inter-conexão, e a mencionou diversas vezes (FRANCISCO, 2015, p. 15, 34, 75 e 96)[4].

 

“É dentro desse emaranhado de trilhas entrelaçadas, continuamente se emaranhando aqui e se desemaranhando ali, que os seres crescem ou ´emanam` ao longo das linhas das suas relações. Este entrelaçamento é a textura do mundo” (INGOLD, 2015, p. 120-121).

 

 

Nossa ocular se transforma quando somos capazes de perceber a riqueza do arranjo do mundo, que envolve uma dinâmica correlacional singular, que nos possibilita ver “as infinitas formas de grande beleza”, como mostrou com razão Charles Darwin ao final de sua obra Origem das espécies.

 

Com as viradas animal, vegetal e mineral nos situamos diante de uma mudança radical de paradigma, que coloca em questão não só o antropocentrismo humano tradicional e todas as formas de excepcionalismo que acabam por dissolver a riqueza da diversidade e o nexo colaborativo entre as “espécies companheiras”. 

 

O papa Francisco captou bem esse novo horizonte, indicando a centralidade dessa interligação entre todas as coisas, reiterando um dado que é fundamental que é a condição de “terra” do ser humano. Sem dúvida, nós somos terra e o nosso corpo “é constituído por elementos do planeta” (FRANCISCO, 2015, p. 3). Como lembrou Leonardo Boff, o corpo humano 

 

“é formado pelo pó cósmico, circulando no espaço interestelar há bilhões de anos, antes da formação das galáxias, das estrelas e dos planetas, pó esse provavelmente mais velho que o sistema solar e a própria Terra. O ferro que corre pelas veias do corpo, o fósforo e o cálcio que fortalecem os ossos e os nervos; os 18% do carvão e os 65% de oxigênio mostram que somos verdadeiramente cósmicos” (BOFF, 1999, p. 142).

 

Há um mundo inter-relacional que se apresenta sob os nossos pés, com as impressionantes teias criadas pelos fungos, com suas hifas quilométricas que ligam as árvores entre si, num mundo cosmopolita de dádiva e cooperação. O que existe por todo canto é uma cidade cosmopolita subterrânea de transações únicas, que infelizmente escapam ao olhar humano (TSING, 2019, p. 43-44). 

 

As teias micorrízicas são compostas por “linhas de desterritorialização”, onde não se pode identificar onde está o seu começo ou o seu fim. Elas “fogem” sem parar, num jogo de equilíbrio que é excepcional. São linhas interligadas, que se remetem umas às outras. Não há também como querer buscar um fundamento para o que existe no mundo subterrâneo. Vigora um mundo de conexão e sabedoria, mas isento de qualquer teleologia. Não há ponto de destaque, mas apenas “devires” (DELEUZE; GUATARI, 2017, p. 25-26, 48-49).

 

O que provoca ainda mais admiração é perceber a capacidade desses seres invisíveis sobreviverem nas mais difíceis condições. Como diz Sheldrake, “poucos ambientes são extremos demais para os fungos”. Eles resistiram bravamente a todos os eventos de extinção que já ocorreram na Terra, e permanecem sobreviventes (SHELDRAKE, 2021, p. 13 e 202-203). E, ao contrário do que se imagina, mesmo sem cérebro, são dotados de uma singular cognição ou inteligência, com capacidade “de comportamentos sofisticados que nos levam a repensar o significado de ´resolução de problemas`, ´comunicação`, ´tomada de decisão`, ´aprendizado` e ´memória`” (SHELDRAKE, 2021, p. 25).

 

É um traço que provoca admiração e “espanto” a complexidade que envolve as transações e colaborações na vida interespécies, a riqueza das interconexões estabelecidas. São exemplos vivos de sobrevivência, tenacidade e resistência para os seres humanos. 

 

Hoje percebemos igualmente que o nosso próprio organismo vem habitado por esses seres invisíveis, a ponto de admitirmos que somos mais micróbios que humanos, uma vez que apenas 43% das células que nos habitam são humanas, as demais são microbiomas. Eles perfazem cerca de 2 a 20 milhões de genes no nosso organismo. Os seres humanos estão, como vimos, profundamente conectados ao ambiente mais amplo, e em si mesmo são “constituídos por outros seres” (SAGAN, 2021, p. 97).

 

O mundo dos micróbios é bem mais antigo do que o nosso, bem como mais maleável, adaptável e mutável. Os micróbios são fundamentais para nós, na medida em que atuam para que o nosso corpo funcione corretamente, regulando a digestão e protegendo o nosso organismo das diversas patologias; eles igualmente elaboram e transformam “as macromoléculas dos alimentos que os enzimas humanos não conseguem digerir” (RESCIGNO, 2023, p. 18-19)[5].

 

Em artigo revelador, Alessandra Barbosa Ferreira Machado (e outros), aborda a diversidade do mundo microbiano. Assinala que “a idade de Terra é de 4,6 bilhões de anos. Os cientistas dispõem de evidências que as células surgiram na Terra há 3,8 a 3,9 bilhões de anos. Esses organismos eram exclusivamente micro bianos e, por muito tempo, foram a única forma de vida na Terra” (FERREIRA et al, 2021, p. 1). Eles constituem o grupo de organismos mais abundantes e diversos presentes no nosso planeta. Constituem os ancestrais dos organismos multicelulares. Formações microbianas foram encontradas em “massas microbianas fossilizadas em rochas de 3,5 bilhões de anos”. (FERREIRA et al, 2021, p. 2). São formações denominadas estromatólitos, e que revelam a longevidade da vida microbiana no planeta.

 

Com respeito aos microscópicos hóspedes que estão presentes no nosso corpo, sobretudo as bactéria, eles estão instalados sobretudo no intestino, mas igualmente na  boca, na cavidade nasal, na faringe, no trato urogenital e na pele. Encontram-se em menor quantidade no estômago, em razão do ambiente mais hostil, com a presença de enzimas peculiares e ácidos. 

 

Além das bactéria, que estão em número bem maior, nosso organismo também vem habitado por fungos, vírus e archaeas, que são organismos unicelulares iguais às bactérias. A evidência da presença de fungos em nosso organismo é uma descoberta mais recente, ainda que estejam presentes em número bem menor que as bactérias. São, porém, componentes importantes em nosso organismo, ajudando em processos como a digestão e outros mecanismos de integração do comportamento humano (FERREIRA et al, 2021, p. 11)[6].

 

Toda essa composição ganha o nome de microbiota humana, que deriva de duas expressões gregas: myco(fungo) e bios(vida). Em cada ser humano, ela traduz a presença de trilhões de células, cuja maioria são de bactérias localizadas no intestino. A flora intestinal vem enriquecida por essa presença benfazeja, fundamental para o equilíbrio da saúde. A microbiota vem, em parte, transmitida pela mãe ao feto no momento do nascimento. Uma microbiota harmônica é fator de saúde, mas podem também ocorrer desequilíbrios, que implicam uma disbiose, com consequências que podem ser graves para as pessoas. 

 

Os estudos em curso sobre a microbiota estão promovendo uma verdadeira revolução no mundo da medicina, mas também na compreensão da vida em seu significado mais amplo. Esses “povos de fronteira” que nos habitam revelam também um traço que é fundamentalmente dialogal. Um diálogo que procede no nosso mundo interior. Mais um dado para comprovar o que o papa Francisco falou certa vez, ao dizer que “a diversidade é bela”. Entre o nosso organismo e os micróbios instala-se uma verdadeira aliança, marcada pela comensalidade e mutualidade (RESCIGNO, 2023, p. 22)[7]. Os micróbios inserem-se no organismo humano seja em forma pacífica e estabilizada (comensalidade), ou com uma atuação mais evidente e criadora (mutualismo).

 

Todas essas reflexões são fundamentais para a quebra da ideia de um antropocentrismo ou excepcionalismo humano. Estamos todos, sim, inseridos na teia da vida, participando de um diálogo que não tem fim. Palavras chave são interação e movimento. Tudo contribuindo para entender que não somos, de forma alguma, “diferentes de tudo que nos rodeia” (COCCIA, 2021, p. 119). Somos, como diz Harawai, seres da lama, compostos pelo tecido da terra. 

 

Tudo aqui apresentado traduz para nós uma bonita convicção que o ciclo do tempo nunca se encerra, e que estamos envolvidos numa viagem comum com outros seres, com as “espécies companheiras”,  com seus direitos característicos. Não há descontinuidade material do universo. A nossa carne não vem de outro lugar, senão do universo, e no universo ela vai encontrar novas modalidades de habitação, mesmo depois da “morte”. Como nos lembra Coccia, “todos os nossos átomos deram um corpo a milhares de vidas antes da nossa – humanas, vegetais, bacterianas, virais, animais – e darão realidade a outras numa dança que nunca poderá ser interrompida”( COCCIA, 2021, p. 126-127).

 

Como passo de conclusão, devo dizer que o diálogo, em todas as suas formas, foi sempre uma paixão na minha trajetória. Fui crescendo na compreensão do diálogo, de forma a envolver novas perspectivas, para além do diálogo entre as religiões, que permaneço vendo como essencial. Revelações novidadeiras ocorreram e ocorrem com os novos estudos que venho realizando, sinalizando que o diálogo acontece em vários patamares. A partir de minha inserção nesse campo, fui percebendo que há o diálogo ecumênico, inter-religioso, inter-espiritualidades, inter-convicções e agora me deleito com o tema do diálogo inter-espécies. E tudo isso ganha novos contornos com as reflexões que nos apontam que o diálogo se dá também dentro de nós, com esses invisíveis habitantes que interagem conosco e nos fazem crescer em equilíbrio e saúde.

 

Para entender o universo do diálogo, um texto fundamental nas minhas pesquisas foi escrito por um grande amigo, Marco Lucchesi, que com sua sensibilidade única encontrou as palavras certas para definir essa viagem bonita e novidadeira em direção ao mundo do outro:

“O estrangeiro bate à nossa porta. Não há outro caminho senão o diálogo: na energia crescente, no vínculo de relação que o constitui. O diálogo é um tesouro precioso, uma zona de aventura, espanto e inquietação.  O diálogo deve ser uma zona de passagem, um espaço potencial, uma cartografia inacabada, a que aderem as partes, ciosas de sua identidade, convidadas a pensarem sob uma nova luz. Sem proselitismo. Não para reduzir o outro, não para o convencer de que está errado, mas para aprender com ele, num caminho novo. O diálogo é um ponto de luz, uma porta de saída para o impasse, um gesto solidário. 
E o centro do diálogo reside na acolhida, na beleza do rosto que contemplo, no olhar do outro que me indaga e me convida a mover os lábios”[8].

Não há dúvida que o diálogo é essa “cartografia inacabada”, sempre aberta a inserir novos personagem, seja humanos ou não, numa viagem de descobertas e aprendizados, que, em verdade, nos ajudam a compreender a sua centralidade. Na esplêndida letra de Gilberto Gil, Tempo Rei, que é também para mim um mantra, podemos nos dar conta dessa beleza que vamos encontrando pelo caminho e que desvendam sempre novos horizontes de alegria e espanto:

 

“Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo, transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos”.

 

Referências Bibliográficas

 

BOFF, Leonardo. Saber cuidar.  Ética do humano – compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999.

CHARDIN, Teilhard. Hino do Universo. São Paulo: Paulus, 1994.

CHARDIN, Teilhard. Il cuore della matéria. 3ª ed. Brescia: Queriniana, 2007.

DELEUZE, Gilles; GUATARI, Félix. Mil Platôs– V 1. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2011.

DÔGEN, Maître. Shôbôgenzô. Tome 1. Vannes Cedex: Sully, 2005.

FERREIRA, Alessandra Barbosa et al. MicrobiotaGastrintestinal. Evidências de sua influência na saúde e na doença. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rubio, 2021.

FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Laudato si. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

INGOLD, Tin. Estar vivo. Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petrópolis: Vozes, 2015.

SHELDRAKE, Merlin. A trama da vida. Como os fungos constroem o mundo. São Paulo: Fósforo/UBU, 2021

KOHN, Eduardo. Comment pensent les forêts. Le Kremlin-Bicêtre: Zones sensibles, 2017.

SAGAN, Dorian. Livro de seres invisíveis. Rio de Janeiro: Dantes Editora, 2021.

TSING, Anna Lowenhaupt. Viver nas ruínas. Paisagens multiespécies no Antropoceno. Brasília: IEB Mil Folhas, 2019.



[1]Elizabeth A. Povinelli. Geontologias. Um réquien para o liberalismo tardio. São Paulo: UBU, 2023, p. 50 (o original é de 2016).

[2]A autora busca diferenciar o liberalismo tardio do neoliberalismo. No primeiro, o que ocorre é “a governança da diferença” e no segundo “a governança dos mercados” (POVINELLI, 2023, p. 264). O traço peculiar do liberalismo tardio é a negociação que envolve o multiculturalismo e o extrativismo. Ele traduz sua ação por uma “governança específica da diferença e dos mercados”.

[4]As páginas citadas equivalem aos números 16, 42, 91, 92 e 117, onde Francisco menciona a interligação entre todas as coisas.

[5]Ver também: https://www.bbc.com/portuguese/geral-43716220(acesso em 24/07/2023).

[6]Artigo de Francis Moreira Borges et al. Microbiota: impactos na saúde e na doença.

[7]Da mesma autora, o livro: Microbiota, arma segreta del sistema imunitário. Milano: Vallardi, 2021.