quarta-feira, 19 de julho de 2023

Uma carta a Carlos Rodrigues Brandão

 Uma carta a Carlos Rodrigues Brandão, amigo peregrino


Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem


Ao amigo querido, Carlos Brandão
Juiz de Fora, 11 de julho, numa tarde de inverno

Carlos, soube agora que você fez sua travessia, às 15:50 desta terça feira de inverno, depois de tantas vezes ter beirado a morte e ter conseguido manter-se firme na caminhada. 

Você me dizia que já tinha perdido cinco vidas, e tinha ainda duas pela frente. Sua última batalha foi contra a leucemia, a mesma doença que levou meu irmão André quando eu tinha treze anos. 

É uma doença difícil de enfrentar, e você foi corajoso e livre. Lidou com mais esse limite com a tranquilidade dos homens nobres. 

Estava todo o tempo consciente de que ela, a “indesejada das gentes”, estava mais próxima, mas com seu sorriso e luz, pedia ainda um tempo a mais para curtir o que você mais gostava que era a vida. 

É essa mesma vida que você continua a partilhar conosco, num momento novo de relação com o cosmos, que é sempre gratuidade, dom e luz. Continuará agora sua jornada cósmica na Rosa dos Ventos, que você sempre amou e fez irradiar a alegria para os seus.

O bonito é que sua travessia não foi solitária. Estavam juntos com você, os seus mais queridos: Maria Alice, André, Luciana e o neto Pablo. 

Numa tarde de terça feira, invernal, você foi agraciado pelo Mistério. A família pôde estar bem perto e consagrar o amor com as mãos de dádiva. 

Das mãos que você sempre falou de forma tão linda, como no poema beber: 

“Vê essa concha ? 
São tuas mãos.
Aperta os dedos com jeito,
mas que um pouco de água te escape.
Antes de tomar dá de bebera um grão do pó do chão, 
a um inseto
a uma folha seca, 
a um galho de canela
a um mito de outros povos,
a um duende
a um fio do vento, 
a um ar do sol
a uma criança e a um velho.
E depois bebe.
O que sobrou é a tua parte.
Bebe”-

Sim, amigo querido, esse foi sempre o seu jeito de ser. Aquela pessoa bonita, de militância singela e incansável. Ia por toda parte com seu bastão e seu sorriso, atendendo aos pedidos com admirável gratuidade. 

Você estava em todo canto, levando aos outros os desafios da educação popular, a pedagogia de Paulo Freire, os feixes da religião popular. 

Não conseguia ser um pesquisador comum, da academia tradicional, mas rezava junto com o povo, cobria-se com o manto da fé do outro, tirava suas sandálias para pisar firme e com cuidado na terra sagrada do outro. 

Li com emoção em seu maravilhoso livro, Sacerdotes de viola, como nasceu a vocação pelo trabalho popular. 

Inicialmente, começou pelo caminho da psicologia, na PUC do Rio. Ali, diante da “pilha de testes”, olhava para além da janela e percebia que a vida mesma “estava lá fora, além do bosque e da cidade”. 

Foi quando aconteceu a mudança inesperada, que despertou o militante do Movimento de Educação de Base. 

Como você mesmo disse, “de um dia para o outro, eu saí de uma sala de testes psicológicos para uma de ´animação popular`”. 

E assim começou a sua longa caminhada de andarilho social, animado pela coragem e pela atenção, pelo carinho único com a vida que jorra nas bases. 

Como você falou tão bem: “Foi então e aí que eu comecei a ver o mundo rural e os seus moradores de outro modo. Não eram mais a gente curiosa e alheia dos tempos em que eu ia com a família passar pedaços das férias em Itatiaia ou Petrópolis. Eram os companheiros do ´lado de lá` de nossas esperanças e nossa vocação. Aos poucos eu comecei a ser educado, onde pensava que era pago para ser educador”.

Em sua caminhada você era um verdadeiro pesquisador de campo, atento aos mínimos detalhes, e deixando-se comover pelas festas, folias, congadas que encontrava pelo caminho. 

As canções, os cantos, as danças, os provérbios, os modos de fala, tudo vinha recolhido com um carinho especial, servindo de matéria viva para as suas pesquisas, livros, aulas e reflexões. 

Você, amigo, trouxe para todos nós essa presença viva do mundo popular.

Foi no interior de Goiás, desde 1964, que você começou a viver a grande transformação interior, quando deixou-se habitar, sem reservas, pelos “deslumbramentos” do canto do povo e do canto das coisas. 

Não havia dia ou noite que estivesse fora de seu repertório de ouvinte atento, na comunhão com as folias de Santos Reis, com as Catiras, as danças de São Gonçalo e as Congadas. 

Você sabia ouvir dos mestres da religião o aprendizado essencial, que não está nos livros. E captava as lições essenciais: “É seu doutor, quem não sabe escreve, quem sabe dança”. 

Essas e outras tantas lições que fizeram de você um pesquisador diferente, domiciliado na academia com um jeito diferente de ser, que também causava perplexidade entre os pares, mas você estava muito além da espuma superficial das águas, viajando pela nervura do real. 

O seu trabalho de base em Goiás, junto com Dom Tomás e Eliseu Lopes, fez história, trazendo os dados essenciais que marcaram a vida das CEBs, com sua devoção encarnada na luta de transformação social. 

Vejo você, amigo querido, como alguém que ajudou profundamente a nós estudiosos das CEBs, a entender a complexidade do mundo da religião. 

Você dizia em sua tese doutoral, sobre Os deuses do povo, que não há melhor caminho que entender a cultura popular senão através da religião e da sabedoria do cotidiano. 

Você nos ajudou a montar o “mapa do sagrado”, o campo religioso brasileiro, com todas as suas peculiaridades e sincretismos. 

Você passou por momentos difíceis na experiência pessoal de fé, com dúvidas que são comuns a todos nós. Mas conseguiu entender com clareza, que o mais fundamental na experiência cristã não são os “penduricalhos” dogmáticos, mas o seguimento de Jesus. 

Quando você ouviu de Eliseu essa reflexão sobre o miolo verdadeiro da fé, você ficou ainda mais livre para trilhar o seguimento de Jesus e o caminho do evangelho da forma mais bonita como o povo vive. 

Nós dois sabemos de segredos bonitos que marcaram a sua trajetória final. Nos correspondíamos com frequência, e quando a dor serenava, você escrevia para mim e partilhávamos nossos sonhos e dores. 

Você me dizia com alegria única que estava agora, nesse tempo derradeiro, descobrindo os meandros da fé a partir da releitura de Teilhard de Chardin. 

Numa de suas últimas mensagens, me disse: “Dedico os momentos que posso para reler tudo o que puder de Teilhard de Chardin. Entre todos, é quem melhor me faz compreender o sentido da vida. E o da morte”. 

Com Teilhard você encontrou a coragem decisiva para dar o passo da travessia. 

Em tempos recentes, fizemos uma linda experiência com os alunos do PPCIR da UFJF, com um curso diferente, onde as pessoas foram convocadas a escrever sobre as razões de suas crenças e seu temores. 

Por uma semana de intensidade única, fomos tecendo juntos esse universo das experiências diferenciadas de fé ou descrença. 

No último dia, na Faixa de Gaia, todos pudemos partilhar nossas reflexões tecidas e vividas durante a semana. 

Foi um dia de emoção única, onde o choro se misturava com o sorriso e a vida mostrava a sua faceta mais fundamental. 

Você pôde nos mostrar, com dom maravilhoso, sua densidade de pedagogo. 

Depois do que ali ocorreu, nasceu a ideia do livro “Em que creio eu”, onde pudemos juntos recolher depoimentos de tanta gente bonita sobre a sua experiência de fé. 

Você dizia, com razão, que nós pesquisadores, somos especialistas em perscrutar a fé dos outros, mas não conseguimos expressar a nossa experiência pessoal. 

Com o livro abria-se um caminho novo, onde as pessoas, muitas delas surpresas, foram convidadas a partilhas suas experiências interiores. 

Ao final dessa tarde de luz, quando posso ainda uma vez conversar com você, gostaria de dizer, com alegria e lágrimas nos olhos, que pude viver uma experiência de profunda amizade. 

Fui brindado pelo dom de sua presença amiga, sendo correspondido por seu amor. 

Na mística, a gente encontra muitas experiências bonitas de amizade pura e singela, e sinto que nós dois participamos dessa embriagues do mistério em nossas partilhas de vida.

No último poema que você partilhou comigo, e que logo encaminhei para as orações declamadas do IHU, você falava da morte, e de uma forma sublime e tranquila:

Morte

"Quem és que me vens agora
nesta manhã do mês de maio de um ano que o calendário apaga?
É ainda a noite. Então porque tão claro
é este instante em que te busco e acho nada?
Que vulto és, que tens a cor do vento?
Que ser? 
Se te toco e nada encontro,
e se caminhas, pelo chão não deixas rastro
e se quando falas eu não te entendo?


Te abro a porta, mas já antes estavas dentro
da sala em que te acolho, visita estranha,
que entanto entras como se tua fosse a casa
e no jardim fossem tuas a rosas e açucenas?
Te ofereço uma cadeira, não te sentas
e olhas na parede com agrado
uma cópia de um quadro de Van Gogh.


O pão que te dou deixas no prato.
Mas o vinho tinto aceitas e bebes, lenta.
Não sorris, mas é suave o que me tocas.
E com o dedo apontas um rumo, um destino,
uma trilha, um caminho, um horizonte
a uma viagem sem volta, sem retorno.


Visto o casaco e me armo de bengala.
Esqueço os óculos, um gato e a minha chave,
e de leve sussurras: “não importa”. 
Apago no fogão o fogo e te olho, amiga.
E me tocas o braço e, sereno, eu abro a porta".

Quero aqui, amigo, partilhar com outros amigos, a última mensagem que tinha escrito para você, depois de ter lido o seu poema sobre a morte:

Brandão querido,

O seu poema sobre a morte, que li hoje, é de uma beleza impar, e de uma serenidade que só é concedida aos grandes mestres. 

Saber lidar com a “indesejada das gentes, dessa forma, é sinal de grande maturidade. 

Eu e você temos em comum esse dado existencial de termos ou estarmos vivendo situações–limite que são mesmo sérias. 

Com a ajuda de meu terapeuta, pude perceber que essas experiências-limite são “experiências cume”, para usar uma expressão clássica de Abraham Maslow. 

São experiências que nos fazem vivenciar paisagens únicas, de altura e profundidade incomensuráveis. 

Olhar o mundo a partir de tais experiência vivenciais é descobrir facetas de uma singularidade única. 

Somos capazes de perceber, como disse Darwin, “infinitas formas de grande beleza”. 

Você escolheu um ótimo companheiro de jornada para lidar com esse limite último, que é Teilhard de Chardin. 

Ele também tem me ajudado muito. A viagem interior com ele, fica bem mais calma, porque ao fundo ouvimos soar com vigor a voz de Jesus “Coragem, não tenhas medo!”. 

Quando Teilhard aborda o tema da comunhão pela diminuição, no Meio Divino, ele nos ajuda a entender esse trabalho que ele faz de forma tão viva: 

Compreender que a diminuição da temperatura vital é fruto do Mistério que abre o nosso corpo e nos favorece beber na água mais límpida. 

O Divino que abre as fibras de nosso ser “para penetrar até as medulas” de nossa substância, de forma a favorecer o arrebatamento final. 

Aprendi também, amigo, com o monge Tich Nhat Hanh, que fala da morte tratando o tema da nuvem. 

Por mais que se transforme e modifique, a nuvem jamais morre. 

Ela vai se transformar em outra coisa, mas permanece. Nós também somos como a nuvem, que nunca se dispersa, mas apenas ganha feições nobres e diferenciadas.

Não há nada que se transforme em nada, mas “algo” sempre permanece e continua a fazer história no tempo. 

Gosto de uma reflexão que faz Donna Haraway, quando diz que é um ser da lama e não do céu. 

É o que nos recordou tão brilhantemente o papa Francisco na Laudato Si, logo no início quando fala que nós somos “terra”, constituídos pelos elementos do planeta. 

Da Terra viemos e para a Terra vamos, numa viagem linda que vai florescer de formas diversificadas como somos todos nós.

O mesmo Tich Nhat Hanh nos lembra que “sem lama não há lótus”. 

Saibamos viver isso em profundidade. Vejo, amigo querido, com cada vez mais clareza que não somos, definitivamente, diferentes de tudo o que nos rodeia. 

Na verdade, diz com propriedade o filósofo italiano Emmanuele Coccia, de que tenho gostado muito, “a morte é apenas o limiar de uma metamorfose”. 

Ele diz:

“Todos os nossos átomos deram um corpo a milhares de vida antes da nossa –humanas, vegetais, bacterianas, virais, animais – e darão realidade a outras numa dança que nunca poderá ser interrompida”.

E viva a vida em comunhão com o cosmos

Faustino Teixeira 

A presença do feminino na vida teológica


Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem


Um tema que sempre trabalhei com minhas orientandas e orientandos relaciona-se com a presença do feminino na vida de grandes teólogos e místicos do cristianismo. Se buscamos a biografia concreta desses personagens, sempre encontramos de um jeito ou outro, a presença de uma mulher ou de mulheres que inspiravam e delineavam a reflexão teórica com um toque peculiar e novidadeiro. Vemos isso claramente em muitos casos:

Teilhard de Chardin, Karl Rahner, João Paulo II, Thomas Merton, Ernesto Cardenal, Leonardo Boff, João Batista Libânio, Frei Betto, Olinto Pegoraro, Irineu Costela, Francisco Cartaxo Rolim, Fernando Altmeyer... e tantos outros casos que vamos descobrindo quando tomamos contato mais próximo com tais figuras.
Teilhard de Chardin é um caso preciso consciência viva do influxo feminino em sua reflexão mais ampla. Ele dedica uma parte de seu livro, "O coração da matéria" (1976), ao tema do feminino e sua específica função unitiva. Sublinha que desde sua tenra infância o estar diante do feminino foi um passo essencial para a sua reflexão posterior sobre a dimensão espiritual da matéria. Pontua que na historia de sua visão interior faltaria algo de essencial, de atmosfera fundamental se dela não fizesse parte o olhar e o influxo feminino.
Na bibliografia de Teihard a presença da correspondência com suas amigas fornece o espirito singular e novidadeiro de sua reflexão.
Lendo aqui uma matéria do IHU-Notícias, de 09/09/2015, temos um exemplo bem claro disto:
"Em 1950, Teilhard, aos sessenta e nove anos, no ´O Coração da Matéria`, escreveu sua autobiografia, terminando com a frase: ´nada se desenvolveu em mim, senão sob o olhar ou sob a influência de uma mulher`. Enviou cópia do livro para Lucille dizendo: ´Você sempre me ajudou, por quase vinte anos, a subir para Deus, mais luminoso e mais quente`. Lucille não foi, porém, só uma colega de trabalho, mas parte da sua personalidade. ´Você tornou-se parte da minha vida mais profunda` (17 de julho de 1936). O itinerário místico de Teilhard foi facilitado com o auxílio da mulher que o acompanhava: Lucille. Era uma mulher que precisava de amor e tinha coragem de amar. Sua agonia começou, quando o relacionamento tornou-se mais profundo. Teilhard sonhava com um caminho de virgindade, ou de amor-a-três, que levasse a convergência, enquanto Lucille procurava algo mais. ´A amizade é certamente a forma mais elevada do amor, e também a mais difícil. Meus instintos de mulher são tão fortes. É tão difícil aprender a controlar esse amor`."
Lamento muito que não tenha ainda sido publicada no Brasil a extensa correspondência entre Teilhard de Chardin e Lucile Swan, que pude ler em francês:
"Pierre Teilhard de Chardin & Lucile Swan. Correspondance. Bruxelles: Lessius, 2009.
Pude igualmente orientar com alegria uma tese doutoral, defendida por Deborah Terezinha de Paula Borges: Diafania de Deus no coração da matéria (PPCR/UFJF - junho de 2015). Nesta tese, Deborah dedica um capítulo inteiro a esta delicada e fundamental questão.
Conhecido também foi o caso amoroso de Thomas Merton, envolvendo sua relação com M, iniciada por ocasião de uma internação do místico trapista para uma de suas tantas cirurgias (março de 1966, numa semana santa).
Nasceu no hospital uma linda amizade, vivida com intensidade nos meses seguintes. M atuava como enfermeira e cuidou de Merton. O místico relata em seu diário que o encontro com M trouxe-o "rapidamente de volta à vida". Não foi fácil lidar com esse caso no âmbito da Trapa. As resistências logo viera. Merton resistiu por um tempo. Buscava encontrar caminhos para lidar com "o problema dessa ternura".
Merton dizia da importância da presença do amor em sua vida:
"Tenho de me atrever a amar, de aguentar a ansiedade de autoquestionamento que o amor desperta em mim, até que ´o perfeito amor afaste o medo`".
A nova descoberta favorecia a emergência de um Merton cada vez mais sensível às coisas da natureza e do cotidiano. Dizia que o amor de M despertou nele "uma irresistível gratidão e o impulso de atirar (todo o seu ser) em seus braços". Era, porém, um amor que também despertava nele um pânico, uma dúvida e um temor de estar sendo enganado ou de ferir o outro.
Entregou-se, gratuitamente, ao amor, e relata as experiências de "êxtase" que a vida amorosa com ela despertaram nele: "Foi belo, terrivelmente belo, amar tanto e ser amado, ser capaz de dizer tudo, completamente, sem medo e sem observação". Dizia jamais ter visto "um amor tão simples, tão espontâneo, tão total". Um amor que, segundo ele, com toda a sua experiência contemplativa, nunca havia antes alcançado. Foi um amor que abriu caminhos inusitados, de uma profundidade que abriu lindas veredas em sua vida.
Esse lindo amor não resistiu às tremendas pressões enfrentadas, sobretudo no mundo da Trapa, e com as profundas reticências de seu superior, Dom James. Reconheceu, com tristeza, que um tal amor não cabia na sociedade de seu tempo. Ao mesmo tempo, ele não queria abandonar a vida religiosa. Viveu essa tensão profunda, até romper o enlace em meados de junho de 1966.
Merton reconhecia que queria vive o amor com M, um amor que fosse completo, mas infelizmente tudo veio "interrompido, bombardeado, arrasado". Ele acrescenta:
"O que deveria ter-se transformado naturalmente num amor demorado, caloroso, terno e de lento crescimento, expresso em toda a sua profundidade, foi amputado justamente quando estava para começar. Não tenho direito de me queixar porque estou comprometido com um outro tipo de vida".
Tiveram que se isolar um do outro, um "isolamento pavoroso", mesmo com a consciência de que os corações estavam unidos.
Em setembro de 1966, Merton se reconhecia como alguém perdido, dividido, sofrendo com a decisão tomada. Dizia na ocasião:
"Aqui estou ´eu` - esta colcha de retalhos, esse monte de perguntas e dúvidas e obsessões, esta gravitação em torno do silêncio, das matas e do amor". Estava na época vivendo como eremita. Iniciou a experiência de vida solitária em agosto de 1965.
Já em novembro, depois do caso terminado, ele confessa que a experiência foi "uma grande imprudência" na sua vida. É sobre isso que tenho as minhas dúvidas. Eu e também Ernesto Cardenal, que foi seu noviço na Trapa. Não há como "abafar" a força e a riqueza dessa presença na vida de Merton (Sobre essa relação cf. Merton na intimidade. Rio de Janeiro: Fisus, 2001, p. 313-347).
No segundo volume de seus diários, "Las ínsulas extrañas" (Trotta, 2002), Ernesto Cardenal fala do enamoradamente vivido pelo seu mestre Thomas Merton. Fala daquela luminosa manhã do dia 31 de março de 1966, quando conheceu aquela enfermeira carinhosa e terna, e os dois puderam passear pelos jardins. Foi quando um grande amor veio despertado e Merton relatou a Cardenal sua experiência nascente.
Merton relata ainda para seu noviço as "cartas ilícitas" que ele e M trocaram entre si. Cardenal fala da enorme resistência sofrida por Merton entre os monges da Trapa. Merton, porém, reconhecia na ocasião que não havia contradição entre o amor a M e o amor a Cristo. Não havia, entretanto, condições possíveis na ocasião para esse entendimento.
Foi quando então o amor foi gradualmente se acabando. Na visão de Cardenal, "nesse amor Merton foi infiel à sua vocação", ou seja no chamado que ele reconheceu como maior que era o "inescrutável" amor de Deus.
Na visão de Cardenal, Merton deveria apostar na sua ousadia amorosa e inaugurar a perspectiva de uma vida eremética de casado. Seria, segundo Cardenal, a "coroação de sua vocação contemplativa". Se tivesse, de fato, apostado no amor, diz Cardenal, teria ganho.

Dor e imaginação: Virginia Woolf

 

Dor e Imaginação: Virginia Woolf


Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem

 

No nosso último encontro do núcleo de Mística e Literatura, na sexta feira, 14/07/23, tivemos a linda apresentação de Sibelius Cefas sobre Virgínia Woolf.

Foi uma apresentação muito rica, com participação bonita das pessoas presentes na sala virtual.
Virgínia não é uma autora fácil, mas de uma complexidade vital que arrebata.
Na Peça de Claudia Abreu, Virgínia, somos convidados a flanar sobre passagens vivas da vida de Virgínia. É uma peça que, como diz Ana Carolina Mesquita, participamos “de um mergulho imaginativo na mente de Virgínia”.
E era uma mente doída. Dizia que queria “deixar a loucura preencher cada átomo” de seu corpo e rir na despedida.
E sua despedida foi muito triste, na água, com pedras nos bolsos.
Tudo mudou para ela depois que perdeu sua mãe de esgotamento aos 49 anos de idade. A partir de então, Virgínia, com 13 anos, passou a “contemplar” as névoas e dores da vida.
Foi a primeira vez em que pensou em se matar. Outras vieram, até que o abraço definitivo ocorresse nas águas.
Uma de suas grandes revoltas era não poder frequentar a escola e as bibliotecas, por ser mulher. Dizia: “Até pouco tempo, a vida cotidiana da mulher, a mulher comum, não tinha relevância nos livros, muito menos seus desejos”.
Através da escrita conseguir amenizar a dor da perda de sua mãe.
A sua voz ecoava em Virgínia “todos os dias desde a sua morte”.
Encontrava uma resposta importante na imaginação. Dizia que a “vida imaginária” era “muito mais interessante e prazerosa de ser vivida”.
Virgínia tinha um prazer enorme de estar no meio das mulheres. Tinha por elas um encantamento único.
Pelos caminhos de sua dor, buscava portos de intimidade. Falava de sua vontade de “ser internada num quarto ou numa casa de repouso” para poder ter um teto todo seu e escrever sem ser interrompida.
Era alguém que gostava de caminhar com liberdade. Dizia: “Era isso que eu amava! Flanar pela cidade, observar as pessoas, encontrar os meus amigos, ir ao museu, à biblioteca, tudo isso era a minha inspiração”.
Os choques estavam presentes em sua vida, mas eram motivo de inspiração e criação.
Era alguém que amava a vida, apesar de...
Tive hoje o prazer de ler um pequeno texto de Virgínia sobre a morte da mariposa.
No caso, tratava-se de uma mariposa diurna, que diferentemente das noturnas, não despertava “a agradável sensação das noites escuras de outono”. Era, na verdade, uma “criatura híbrida”. Não era “nem alegre como as borboletas, nem sombria como as da sua própria espécie”.
Virginia relata a agonia da mariposa, que se cansa de sua dança e busca abrigo “no peitoril da janela sob o sol”.
A narradora busca ajudá-la a erguer-se com um lápis, sem sucesso.
Em verdade, “a imobilidade e o silêncio haviam substituído a animação anterior”.
A mariposa sabia que não tinha chance alguma contra a morte, mas buscava a vida. E seu último protesto foi “esplêndido”, conseguindo até se aprumar um pouco. As simpatias estavam “do lado da vida”.
Seu esforço descomunal não teve sucesso. Logo os sinais da morte se mostraram para ela e o corpo enfim relaxou.
Aquela “criaturinha insignificante” conhece então a morte. E a morte encheu de assombro a narradora: “A mariposa, agora aprumada, jazia serena com grande decência e sem se queixar. Ah, sim, parecia dizer, a morte é mais forte do que eu”.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

A dimensão contemplativa de Tomás de Aquino

 A dimensão contemplativa de Tomás de Aquino

 

Faustino Teixeira

UFJF / IHU / Paz e Bem

 

 

Na terça feira, 18 de julho de 2023, comemora-se o 700º aniversário da canonização de São Tomás de Aquino, no pontificado do papa João XXII. É o início do tríplice jubileu do Aquinate, que também comemora em 2024 o seu 750º anos de morte e em 2025, o 800º aniversário de seu nascimento. 

 

Conforme reportagem publicada no Jornal La Croix Internacional, em 24/05/2023, os frades dominicanos da Província de Tolouse, no sul da França, onde se encontra o antigo convento dos Jacobinos, considerado a casa mãe da Ordem dos Pregadores, já estão se movimentando para a celebração desse tríplice jubileu do “Doutor Angélico”, inclusive com a publicação de uma nova tradução francesa da Summa Theologica.

 

Sua grande obra de referência é a Summa Theologica, iniciada em 1265 em Roma, mas não finalizada em razão de uma importante visão de Deus ocorrida em 06 de dezembro de 1273, na qual sentiu-se convocado a parar de escrever e de ensinar. É o que nos recorda a tradição hagiográfica. Com a visão vivenciada, tomou consciência de que tudo o que havia escrito até então não seria senão palha diante da contemplação experimentada. Um pouco depois, Aquinate adoece durante a viagem que fazia para o II Concílio de Lião, e falece em 07 de março na abadia cisterciense de Fossanova. Será também proclamado doutor da Igreja por Pio V, em abril de 1567.

 

Mesmo não sendo um grupo tão numeroso como o dos franciscanos, os dominicanos tiveram um papel importante na espiritualidade e na mística da Idade Média tardia. Temos duas referências importantes nesse campo, como as figuras de Alberto Magno (cerca de 1200 a 1280) e Tomás de Aquino (1225-1274). Como mostrou Bernard McGinn, “a doutrina deles foi fundamental para a poderosa corrente mística que surgiu durante o século XIV na Alemanha na pregação e nas obras de Mestre Eckhart”[1].

 

A teologia mística de Tomás de Aquino ocupa um lugar mais restrito que a de Alberto Magno, com seu “dionisianismo intelectivo” e sua ênfase na natureza sobrenatural da teologia mística. Mesmo dando ensejo ao traço essencialmente intelectivo da teologia mística, Alberto Magno abre espaço para uma “recepção de doçura no próprio conhecimento”[2], favorecendo uma sabedoria contemplativa temperada pela “inteligência amorosa”. 

 

Como lembra McGinn, É difícil acessar a mística do Aquinate em razão dele não falar de si mesmo ou de sua vida interior. O que sabemos sobre isso não passa de conjecturas, mas é certo que ele teve uma experiência de Deus rica e saborosa. De fato, “o cuidado com que Tomás trata tantas práticas fundamentais da espiritualidade cristã, tais como a oração, fornece comprovação dos aspectos especulativos e práticos de sua doutrina espiritual”[3].

 

A relação entre contemplação e ação é um dos pilares de sua refexão espiritual. É clássica a frase de Tomás: contemplata aliis tradere. Isso significa contemplar e dar aos outros os frutos da contemplação. O conhecimento de Deus, ou a busca de tal conhecimento, tem uma clara incidência na dinâmica da caridade. Mesmo defendendo a superioridade da vida contemplativa sobre a vida ativa, Tomás reconhece que “as obrigações do amor cristão muitas vezes tornam necessário e mais meritório dedicar-se à ação do que permanecer na contemplação”[4]. Não há, em hipótese alguma, uma desconsideração em Tomás pela vida ativa, que em casos concretos pode mesmo prevalecer.

 

Gustavo Gutiérrez, em sua clássica obra sobre a teologia da libertação, enfatiza o traço tomista que sustenta a ideia de que a graça não suprime ou substitui a natureza, mas a aperfeiçoa. Ele abre assim, como lembra Gustavo, “as possibilidades de uma ação política mais autônoma e desinteressada”[5].

 

O que gostaria de lembrar aqui nesta reflexão é o traço contemplativo de Tomás de Aquino, e em particular a sua visão de Deus. Não há dúvida sobre o impacto em sua obra de uma teologia negativa ou apofática. Em sua doutrina sobre Deus há uma ênfase importante no dado da “simplicidade da natureza divina”. 

 

É algo que nos faz lembrar da reflexão de Eckhart em seu sermão alemão 2, quando fala da presença de uma força na alma que flui do Espírito, inteiramente espiritual. Trata-se de uma força incandescente a ardente que ninguém jamais consegue expressar com nitidez. É uma força que provoca deleite e alegria. Essa centelha interior permanece obscurecida, mas ativa: “É livre de todos os nomes e despida de todas as formas”. Ali, sim, emerge o que há de “florescente e verdejante” de Deus[6].

 

O influxo dionisíaco sobre Tomás de Aquino é claro, ao firmar o conhecimento de Deus com base na negação, isto como uma precisa estratégia linguística. Mesmo quando falamos sobre a bondade de Deus, sabemos que não é ela que alcançamos, mas insere-se numa dinâmica de balbucio que apenas nos aproxima da fresta de luz que ela envolve. 

 

A bondade de Deus não é aquela “que podemos predicar”. Dizia também Eckhart em outro sermão alemão, o de número 83, lembrando um mestre pagão, que “aquilo que compreendemos ou dizemos a respeito das causas primeiras, isto somos mais nós mesmos do que a própria causa primeira”. Não há, pois, verdade quando dizemos que “Deus é bom”, ou  que “é sábio”, ou “melhor”. Nada disto pode ser aplicado a Deus, “pois ele está elevado acima de tudo”, de todas as nossas representações, que se mostram sempre movediças e imprecisas diante do Mistério Maior. Para Eckhart, o que define Deus é uma “nadidade sobreessencial”[7].

 

Na visão de Tomás de Aquino, não há como compreender Deus dada a sua infinitude. Nem a razão natural, as visões proféticas ou mesmo as mais altas luzes de fé processam o acesso ao Mistério, que permanece obscurecido e incógnito. 

 

Em sua obra De Veritate, Tomás sublinha que “a visão dos bem-aventurados não é distinta da visão de alguém ainda nesta terra conforme o ver mais ou menos perfeito, mas mediante a diferença de ver e não ver”[8]. Como mostra Aquinate, o contemplativo é envolvido por um dom especial, através da graça, que favorece uma aproximação positiva ao Mistério. É algo que reflete uma “graça gratuita”, como ocorre por exemplo no êxtase. O que temos no tempo, como nos lembra Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, é uma posse contemplativa imperfeita, “mediante o espelho do enigma” (1 Cor 13,12).

 

A contemplação escapa ao domínio propriamente intelectual, estando inserida no âmbito da fé e da “simples consideração da verdade”. Ela é sobretudo um “dom de Deus”. O seu campo não é o discursivo, mas o experiencial, e reflete a dinâmica do coração. Ao contemplativo é favorecida a experiência de “saborear a suavidade” da vontade de Deus. 

 

O centro da doutrina do Aquinate, como assinala McGinn é “o conhecimento místico como uma forma de saber experiencial e conatural fundado na união com Deus por meio da caridade e conduzindo à recepção do dom da sabedoria divina”[9].

 

Para Tomás de Aquino, como também para Alberto Magno, a melhor forma de acesso ao conhecimento de Deus é a “ignorância”, daí o traço essencial da humildade para todo buscador. Essa “ignorância” é um passo essencial de participação na sabedoria divina. Conhecer a Deus, “é ser iluminado pela própria profundeza da sabedoria divina, de que não somos capazes de investigar”[10].

 

Junto com o êxtase, Tomás sublinha igualmente o traço do “arrebatamento” no campo da experiência mística. A alguns vem concedido essa experiência de ser tomados por Deus: aqueles que são “totalmente arrebatados da ação dos sentidos, de modo que a alma inteira é reunida dentro da visão da essência divina”[11]. Há aqui outra referência bíblica singular, retirada de 2 Cor 12,2-5, quando Paulo relata que foi arrebatado até o paraíso, ouvindo então as “palavras inefáveis que não é lícito ao homem repetir”.

 

Como indica Mc Ginn, a doutrina de Tomás de Aquino sobre a contemplação encontra-se “entre as mais sistemáticas na história do pensamento cristão”, servindo-se de ponto de arranque fundamental para as abordagens teológicas em torno da questão mística. A visão neoescolástica do Aquinate dominou a teologia católica entre os anos de 1880 a 1960, e sua perspectiva sobre a contemplação “permanece um ponto alto da reflexão doutrinal sobre a mística cristã”[12].

 

Tomás foi grande inspirador do teólogo Karl Rahner que a ele dedicou um importante texto de seus escritos teológicos, isso em 1974, em torno aos problemas concernentes à incompreensibilidade de Deus segundo Tomás de Aquino. Com base em Aquinate, Rahner sublinha que Deus, em todo lugar, permanece como algo incompreensível a todo intelecto finito e criado, inclusive “para os anjos e para os homens beatos, e também para a alma criada do Homem-Deus”. Também Jesus, participa da “bem-aventurada ignorância de Deus”. Jesus, enquanto humano, na sua experiência de fé, encontra-se sempre diante deste “mistério inexorável”, também para ele[13].

 

Jesus Cristo, e nossas narrativas sobre ele, convocam-nos para a rejeição à qualquer “encarceramento na aparência”. Estamos todos, incluindo Jesus feito homem, distanciados do Inominado, e nossas representações a respeito são sempre movediças. A figura de Jesus é também algo que nos orienta para Outrem, “cujo nome é indizível”. Como mostra o dominicano Christian Duquoc, “a singularidade de Jesus, o Cristo, não abole as outras singularidades, ela as aponta como fragmentos potenciais de um todo inacabado, e inacabável para nós”[14].

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1]Bernard McGinn. A colheita da mística na Alemanha Medieval(1300-1500). São Paulo: Paulus, 2022, p 30.

[2]Ibidem, p. 43.

[3]Ibidem, p. 53.

[4]Ibidem, p. 65.

[5]Gustavo Gutiérrez. Teologia da libertação. Petrópolis: Vozes, 1975, p. 57.

[6]Mestre Eckhart. Sermões Alemães 1. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 49-50.

[7]Mestre Eckhart. Sermões Alemães2. Petrópolis, Vozes, 2008, p. 118.

[8]Bernard McGinn. A colheita da mística na Alemanha Medieval, p. 56-57.

[9]Ibidem, p. 64.

[10]Ibidem, p. 65.

[11]Ibidem, p. 66.

[12]Ibidem, p. 68.

[13]Karl Rahner. Teologia dall´esperienza dello Spirito. Nuovi Saggi VI. Roma: Paoline, 1978, p. 370. E também 375.

[14]Cristian Duquoc. O único Cristo.  A sinfonia adiada. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 92-93.