sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Estar simplesmente no tempo

 Estar simplesmente no tempo


Faustino Teixeira

 

Muito interessante esse estudo que venho fazendo visando um artigo que deve ser publicado em breve numa revista teológica. Como não sou egoísta, vou partilhando aos poucos alguns dados colhidos e alguns insights que vou tendo ao longo desse trabalho, que já perdura algum tempo. São inúmeros autores que vêm me alimentando nesse tempo de reflexão novidadeira.

 

Um incentivo maior veio com o papa Francisco, com sua belíssima encíclica Laudato si, dedicada ao cuidado da casa comum. Ele já inicia a sua reflexão dizendo que nós todos somos TERRA, e que o nosso corpo vem modelado por elementos do planeta (LS 2). Logo em seguida ele sublinha que nós, humanos, estamos todos inter-relacionados com os outros seres: humanos e não humanos. Taí a pista que precisava para o meu trabalho. 

 

Lendo aqui o recente livro de Donna Haraway, sobre o encontro das espécies, sublinho uma expressão que ela coloca logo no início do livro: “Eu sou uma criatura da lama, não do céu”. Algo assim, sensacional, que indica com toda a radicalidade a nossa inserção no tempo. E temos, com Rilke, que dizer continuamente: “Estar aqui é um esplendor”.

 

Mas voltando a Haraway, ela diz ainda:

 

“Adoro o fato de que genomas humanos sejam encontrados em apenas cerca de 10% de todas as células que ocupam o espaço mundano que chamo de meu corpo; os outros 90% das células são preenchidos pelos genomas de bactérias, fungos, protistas e que tais, alguns dos quais tocam uma sinfonia necessária para que eu esteja viva e outros que estão de carona e causam a mim, a nós, nenhum dano (...). Adoro o fato de que, quando ´eu` morrer , todos esses simbiontes benignos e perigosos tomarão e usarão o que restar do ´meu` corpo, nem que seja só por um tempo, já que ´nós` somos necessários uns aos outros em tempo real.”

 

O biólogo Stefano Mancuso, também parte de minha biografia, confirma esse dado importante: que nós, os animais, somos portadores de apenas 0,3% da biomassa, enquanto 99,7% estão com os vegetais e os outros seres invisíveis que não se inserem nem no reino vegetal ou animal: os fungos e bactérias. 

 

As reflexões de Haraway, também sublinhadas pelo filósofo italiano Emanuele Coccia, nos ajudam a perceber com mais clareza que a vida é movimento e continuidade, ou como diz Jung, a vida é perenidade e eterna mudança. O nosso nascimento não traduz um início, mas uma continuidade. Cada nascimento, diz Coccia, é “uma penetração em um corpo estranho”, é a tradução patente que somos “um pedaço desse mundo”, que se revelou agora com mais uma transformação. Assim também a morte, que é simplesmente “o limiar de uma metamorfose”.

 

Seguindo ainda Coccia, nos damos conta de que “o destino de todos os seres vivos é tornar-se o corpo de uma outra espécie”, e que “o ´cadáver` é vida e refeição de outros seres vivos. Toda morte é uma continuação da vida sob outros rostos”. 

 

Na verdade, o nosso destino é “ser comido”, e não há nisso nenhuma humilhação, diz Coccia. Estamos num cenário bonito, da teia da vida, e nossa morte é um momento sublime de transformação no nosso modo de ser. Somos lama, viemos da lama, e tornaremos a lama, enredando uma dinâmica de compostagem criadora de vida.

 

 

 

domingo, 8 de janeiro de 2023

A eternidade no tempo

 A eternidade no tempo

 

Essa reflexão nasce de um debate on-line ocorrido no Grupo de Emaús, em janeiro de 2022. Tudo ocorreu depois da morte do papa Ratzinger.  O debate foi rico e diversificado. Aqui retoma a discussão: 


Voltando ainda ao nosso debate, que já daria um livro, queria buscar trazer alguns novos elementos. Entendo perfeitamente a dificuldade apresentada por alguns, entre os quais, o querido Celso Carias, sobre essa questão do juízo final, do céu, purgatório, ou inferno. Ocorre que depois de minhas leituras sobre o “mundo invisível dos fungos” e da teia vital que une todos os seres num laço de profunda unidade, mudanças substantivas ocorreram em minha teologia. Pude também tentar aprofundar com mais calma a reflexão de Francisco na Laudato si, quando fala na interligação entre as coisas, mas sobretudo quando indica logo no início da encíclica que todos nós somos terra, e que nosso corpo vem constituído de elementos dos planetas.

 

Depois de ler o estonteante livro do filósofo italiano Emanuele Coccia, Metamorfoses(2021 – o original francês é de 2020), muitas reflexões brotaram iluminando temas de meus trabalhos. Abro aqui com uma pista já levantada por Jung em seu livro: Memórias, sonhos, reflexões(1961). No prólogo de sua obra ele diz que a vida sempre se afigurou a ele como “uma planta que extrai sua vitalidade do rizoma”. Diz acreditar na “perenidade da vida sob a eterna mudança”. É também o que fala Gil em sua bela canção Tempo Rei, contrastando com a visão de Caetano onde fala em fim do ciclo do tempo. 

 

A reflexão de Coccia vai nessa linha de Jung, defendendo vivamente uma ideia de Metamorfosee não de fim. Sublinha, com razão, que o sopro que nos habita não finda com o cadáver. Nós e toda a humanidade estamos vinculados ao ciclo de relacionamentos, onde nada tem, propriamente, substancialidade. O que somos é um “prolongamento e uma metamorfose de uma vida anterior”. O nascimento é um “acréscimo” em elo de corrente de transformação da vida, e a morte é simplesmente “o limiar de uma metamorfose”.

 

Cada ser vivo expressa em seu ser “a vida do planeta inteiro”, e quando passamos para outra margem, não se dá um descanso, como tendemos a dizer, mas a movimentação continua, sob outra forma. Por isso a pensadora Donna Haraway se define hoje mais como “compostista” do que “pós-humanista”. E por que ? Pelo fato de nosso corpo se transformar em composto que vai alimentar novas vidas.

 

Essa reflexão provoca sérias interrogações para a nossa teologia. Com a teologia moderna e contemporânea já começamos a questionar essa ideia de vida separada, para além da morte, onde reina um espírito que se liberta do corpo para viver num outro lugar. 

 

Superamos, felizmente essa ideia, e os livros de Leonardo Boff nos ajudaram a pensar com mais integralidade: a ideia de que o Reino de Deus está no meio de nós, de que “céu” e “inferno” traduzem modos de existência e não lugares. Leonardo é bem claro em seu livro de 1972, Jesus Cristo libertador: “o reino de Deus não é um território mas uma nova ordem das coisas”. O reino, diz com acerto, “é a totalidade desse mundo material, espiritual e humano agora introduzidos na ordem de Deus”.

 

Também Karl Rahner  ajudou-nos a transformar nossa ideia de eternidade. Para ele “é no tempo – como fruto maduro dele – que surge a eternidade”. Não há porque empurrar esse tempo para um “além”. Aprendi também com Adolphe Geshé que a salvação não é algo que se dá além, mas é o resultado positivo de uma vida nobre e bem sucedida no tempo. Aprendemos também um novo modo de entender a ressurreição de Jesus, vista não mais como a revivescência de um cadáver, mas como a manutenção viva de uma memória, que não se apaga na história. 

 

Com isso, fica obtuso pensar em “juízo final”, fora do tempo ou em lugares fantasmagóricos, fora do tempo, identificados como inferno, purgatório ou céu. Isso não significa abster-se de trabalhar com esses símbolos, que permanecem vigorantes e importantes. Mas agora sinto que o tal “juízo” se dá no tempo, quando as pessoas que fazem de sua vida uma experiência do mal, não permanecem vivas no aquém e no coração da pessoas. A maldade delas não tem futuro, no sentido de que serão esquecidas e permanecerão na morte. 

 

Há aqueles que deverão passar por uma “purgação”, como diz com acerto Susin, mediante um processo de discernimento, que pode até ser da própria pessoa ao final de sua vida. Não sei se foi o caso de Ratzinger. Mas pode até ser. 

 

Lendo aqui um dos três livros da trilogia de Schillebeeckx, História humana, revelação de Deus (1994), ele diz que “não há inferno para os homens maus, mas eles “castigam-se eternamente a si mesmos”. Isso me faz lembrar o filme O inocente, de Lucchino Visconti, quando o autor do mau passa toda sua vida lavando-se do sangue “invisível” de suas mãos. A maldade, diz Schillebeeckx, bem como a opressão, não têm futuro: “é sem esperança, em virtude de sua própria lógica interna”. 

 

Ir para o inferno não é ir para um lugar, mas permanecer no esquecimento ou queimar-se na dor de uma vida sem sentido. É como o personagem do romance de Graciliano Ramos, Paulo Honório, cuja vida foi toda tecida por maldade. Ao final de seus dias, refletindo em sua fazenda, depois que todos o abandonaram, e também sua mulher com o suicídio, encontra-se ali na mesa, sozinho, refletindo sobre o que foi o seu passado. Ele diz:

 

“O que estou é velho. Cinquenta anos (...). Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casa espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada (...). Hoje não canto nem rio. Se me vejo ao espelho, a dureza da boca e a dureza dos olhos me descontentam (...) Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes (...) Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria (...) Eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos”.

 

Isso, gente, para mim, é o inferno. O céu, é outra coisa, e aquele modo de ser tranquilo de uma vida vivida com dignidade e nobreza. Quando estamos tranquilos e serenos tendo como oferta nas mãos simplesmente a riqueza e generosidade que pautaram uma vida de honradez.

 

 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Reflexões sobre a passagem de um papa emérito

 Reflexões sobre a passagem de um papa emérito

Faustino Teixeira

IHU-Unisinos / Paz e Bem

 

Vejo-me na necessidade de justificar aqui as razões de minhas críticas ao cardeal Ratzinger, que se tornou papa Bento VI, quando ainda está sendo velado. 

Não desconheço os seus méritos de teólogo, com obras importantes publicadas quando ele estava em período de docência. 

 

Mas como homem de autoridade, sobretudo depois de tornar-se prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a partir de janeiro de 1982, tenho muitas críticas a seu respeito.

Foi doloroso para mim ver sua visão trituradora da teologia da libertação, e em particular sua punição ao amigo teólogo Leonardo Boff, que viveu momentos de grande dor depois de ter sido silenciado e punido pela Congregação da Doutrina da Fé. 

 

Seguiram-se tantos outros teólogos, também punidos por Ratzinger e seus auxiliares. Cito também o caso de outro teólogo da libertação, Jon Sobrinho, cujas obras foram notificadas pela CdF em 26 de novembro de 2006, quando já estávamos sob o pontificado de Bento XVI (papa Ratzinger). Mas não só teólogos foram punidos ou advertidos, também bispos importantes como Pedro Casaldáliga.

 

Uma dor particularmente difícil de ser por mim enfrentada foi a que se relacionou à punição de meu supervisor de pós-doutorado, o exemplar teólogo jesuíta Jacques Dupuis, que tive o privilégio de conhecer de perto e sorver com alegria os seus ensinamentos sobre o cristianismo e o pluralismo religioso.

 

O caso Dupuis, como ficou conhecido, foi um dos mais dramáticos ocorridos durante a gestão de Ratzinger na CdF. 

 

Sua presença na Gregoriana, como professor dos mais queridos, foi sempre motivo de muita desconfiança por Ratzinger. Seu livro principal, Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso, de 1977, foi motivo de uma drástica notificação da CdF sob a presidência de Ratzinger. 

 

Depois de um longo sofrimento e tentativas de defesa, o seu livro veio notificado pela CdF em janeiro de 2001, pouco depois da publicação da famigerada Declaração Dominus Iesus, de agosto de 2000.

 

O caso Dupuis vem exemplarmente documentado no precioso livro “Il mio caso non è chiuso”. Conversazioni con Jacques Dupuis, de autoria de Gerard O´Connel. Trata-se de um volumoso livro, com 439 páginas, publicado na Itália pela Editora EMI, em 2019. 

Digo a vocês que li esse livro com lágrimas nos olhos, ao acompanhar a realista narração traçada no livro.

 

Não sem razão, o grande teólogo dominicano, Yves Congar, em seu “Diário de um teólogo” (publicado postumante pela CERF em 2000), identificou o Santo Ofício como a “Gestapo” católica. Ele e outros importantes teólogos como Henri de Lubac, tinham sofrido antes nas mãos desta instituição sombria. 

 

Na época de Ratzinger, outros tantos teólogos foram violentados em sua busca de livre expressão teológica. 

 

O caso Dupuis pude acompanhar mais de perto, pois sua punição ocorreu no período mesmo em que eu estava em Roma sob sua supervisão no pós-doutorado. 

No mesmo dia em que saiu a primeira matéria crítica à sua obra, ele estava em minha casa, a convite de minha família. Pude observar de perto o seu sofrimento. Dizia para mim na ocasião: "Não sei ensinar o que eu não penso".

 

No livro de O´Connel, infelizmente não publicado em português, o relato é impressionante. Vale lembrar que entre os consultores da CdF estavam quatro professores da Gregoriana, que não tinham lá suas simpatias por Dupuis. Entre eles os teólogos Albert Vanhoye e Karl Becker. 

 

Eles participaram da única reunião da CdF onde se tomou a decisão de condenação do livro de Dupuis. Durante o processo de investigação de seu livro, Jacques Dupuis foi convidado a deixar o ensinamento na Gregoriana e essa decisão foi afixada no átrio da Universidade Pontifícia, disponível para o olhar apreensivo de todos os estudantes. Uma humilhação...

 

Dupuis reconhece no livro-entrevista de O´Connel que não houve diálogo algum com ele. Foi uma decisão arbitrária, que passou por cima de todas as tentativas de respostas às observações críticas lançadas contra o seu livro.

 

O que estava em jogo era a pesada crítica da CdF contra “os graves erros contra a fé” presentes em sua obra. 

 

Dupuis relata que tudo isso provocou nele uma “profunda angústia” e um “sentimento de revolta”. A dor foi ainda maior, pois ele não encontrou o apoio que precisava na própria comunidade da Gregoriana, com raras exceções.

 

Em sua última aula ministrada na Gregoriana, em 1997, onde eu estava presente, foi longamente aplaudido pelos cerca de duzentos alunos de seu curso. 

Ele mesmo sublinha no livro: “Recordo, em particular, quando me levantei, recebi um longo e forte aplauso, na aula magna, no que acabou sendo, minha última aula na Universidade”. 

 

Recorda que talvez os alunos pressentiam que aquela seria a sua última aula e quiseram saudá-lo com um generoso aplauso.

 

Dupuis ainda tentou continua atuando depois de sua punição pela CdF, mas as resistência, também de Ratzinger, continuaram vivas, impendindo sua atuação pública. 

O novo livro escrito por ele depois da notificação, finalizado em 2004, foi impedido de ser publicado: “Pluralismo religioso e diálogo”. As razões do impedimento eram claras: por motivos doutrinas e prudenciais. 

 

Em carta dirigida a ele pelo vice-reitor da Gregoriana, pe. Francisco Egaña, foi advertido sobre a vigilância de seus superiores sobre ele, e que provocar a CdF com um novo livro seria um dando não só para ele, como também para a Universidade e os Jesuitas.

Em sua resposta ao vice-reitor, publicada na ocasião, Dupuis sublinhou que tinha “perdido a vontade de viver desde 02 de outubro de 1998”. 

 

Na sequência dos acontecimentos, as coisas foram só piorando para ele, jogado ao túmulo do esquecimento. 

 

Foi convidado a receber um título de doutor honoris causa na Universidade de Toronto, mas foi aconselhado a não ir, como também ocorreu com todos as outras viagens previstas.

 

O livro “Perché non sono eretico”, foi publicado postumamente, em 2012, mesmo estando pronto bem antes. Nesse livro, Dupuis comentava a sua opinião sobre a declaração Dominus Iesus e também todo o processo relacionado à sua notificação. 

 

O livro foi editado por William Burrows, e publicado na Itália em 2012, com base na versão original inglesa. Até hoje o livro também não foi publicado em português.

 

Voltando ao livro de O´Connel, Dupuis relata já depois da notificação, a ação controladora de Ratzinger continuou, com a censura às suas saídas para conferências, como sempre fazia. 

 

Em carta de Ratzinger ao superior de Dupuis, o padre Kolvenbach, em janeiro de 2002, ficava claro que o rechaço à presença de Dupuis em duas das conferências citadas era uma iniciativa pessoal dele, do "Panzer-Kardinal"

 

Dupuis foi também retirado da editoria da revista Gregorianum, da qual fizera parte durante muitos anos. 

 

Tudo isso ocorria sob o frio e indiferente olhar do reitor da Gregoriana. Todo o processo foi vivido por Dupuis com muito sofrimento. 

 

Ele dizia a respeito: “Passei e suportei uma profunda ferida que jamais terá cura. Não poderei ser a mesma pessoa de antes, que se alegrava com a vida com um senso de liberdade a que todos deveriam ter direito”. 

 

Dupuis relata que seu ensino na Gregoriana gozava de grande sucesso, mas isso também o fragilizava, provocando igualmente muito ciúme entre outros docentes. 

Relata que alguns diziam que os ataques que sofria tinham também como alvo a teologia asiática, de que era um entusiasta.

 

Dupuis chega a dizer no livro de O´Connel que o cardeal Ratzinger nem chegou a examinar pessoalmente o seu caso, restringindo-se a contentar-se com a opinião de alguns consultores da CdF. 

 

Fala ainda da própria “ignorância” dos cardeais que compunham a CdF a respeito de informações mais precisas sobre o seu processo.

 

O livro feito em homenagem ao seu trabalho de teólogo, em 05 de dezembro de 2002 (seu Festschrift) não recebeu nenhuma saudação dos altos funcionário do Vaticano, nem mesmo da Gregoriana. 

 

Durante o lançamento do livro-homenagem, Dupuis relatou com emoção que o único verdadeiro amor de sua vida tinha sido sempre Jesus Cristo.

 

Desde que ocorreu a notificação de seu livro, Dupuis passou a ser “abandonado” por sua Universidade. Mesmo recebendo a aprovação de seu superior, o padre geral, para permanecer morando na Gregoriana, ele percebeu que estava ali cada vez mais deslocado, com pouquíssimos os que ainda podiam acolhê-lo com carinho. 

Suas refeições eram feitas solitariamente. Seu sentimento e vontade era de deixar logo aquele lugar. Como recurso, contava apenas com os 150 Euros mensais para suas despesas pessoais.

 

Suas energias vitais foram minguando cada vez mais, e sua caminhada foi perdendo a luz. 

A dor por que passou, de dimensão violenta, foi aumentando, vindo a falecer pouco depois do Natal. Foi internado depois de desfalecer no refeitório da Universidade Gregoriana, e veio a falecer em 28 de dezembro de 2004.

 

Por causa disto e de tantas outras coisas, fica muito difícil para mim dizer que celebro com alegria a passagem de Bento XVI. 

 

O que posso afirmar, como católico peculiar, é que não consegui alcançar a virtude de amar Bento XVI. 

 

Lembro-me que quando ele se tornou papa, num dos jornais do dia seguinte, Leonardo Boff, afirmou: “Vai ser muito difícil amar esse papa”. 

 

Digo a vocês hoje, também com penar, que continuei tendo essa mesma dificuldade ao longo de sua atuação como papa. Peço a Deus, que o receba com carinho, mas há névoas que precisam ser ainda trabalhadas no seu juízo final.

 

sábado, 31 de dezembro de 2022

Passagens do ano, passagens de vida

 Passagens de ano, passagens de vida

 

Faustino Teixeira

UFJF/IHU

 

 

Em artigo publicado no O Globo de 29/12/2022[1], Eduardo de Freitas Filho fala sobre os casos de depressão que ocorrem nos finais de ano, evidenciando uma síndrome que se repete nesses momentos de passagem. 

 

São crises de ansiedade e depressão que ocorrem sobretudo depois do Natal, perdurando até o início do novo ano. 

 

Em 2022 a situação se agravou com os conflitos que envolveram as famílias com as divisões políticas que marcaram esse tempo, com quebras de laços de família. 

 

Como diz o autor, ter que permanecer ao lado de pessoas que conflitamos, de uma forma ou outra, “pode libertar sentimentos ruins guardados há tempos, se transformando em raiva, agressividade e aversão”. 

 

Laços abalados ou desfeitos requerem tempo para o trabalho pessoal de recomposição das harmonias. 

 

A cada ano novo somos colocados diante de nosso futuro, e para muitos isso não é tarefa fácil, sobretudo quando o caminho se vê nublado ou embaçado: 

 

“O problema é como lidar com isso, como encarar os gatilhos que a vida pode trazer para avaliar o ano e não ficar frustrado ou chateado com o que conseguiu ou não conseguiu” ao lado do tempo que passou e do caminho que se anuncia.

 

Quando ocorrem esses festejos pontuados por alegria nem sempre  real, vem-me à recordação o duro livro de Philip Roth, “O animal agonizante”[2], que trata justamente do tema de uma impossível felicidade diante da fragilidade de cada um de nós, sobretudo para aqueles que vivem a proximidade da morte. 

 

No romance, temos dois personagens que se encontram na proximidade da passagem de ano, e um deles – Consuela – que foi tão celebrada no passado como uma mulher única, vive uma dramática experiência de saúde. David Kepesh é o personagem masculino, que vem chamado por sua ex-amante, Consuela, para fotografá-la antes de uma operação nos seios, para retirada de um tumor. 

 

Ele relata: “´Não vou morrer daqui a cinco anos, talvez até nem mesmo daqui a dez anos, estou em forma, estou bem de saúde, posso até viver mais vinte`, enquanto ela...”[3].

 

O narrador, David Kepesh, sinaliza que “o mais belo dos contos de fada da infância é que tudo acontece na ordem certa. Nossos avós morrem muito antes dos nossos pais, e nossos pais morrem muito antes de nós. Os que têm sorte acabam tendo a mesma experiência, as pessoas vão envelhecendo e morrendo na ordem certa, de modo que, no enterro, você aplaca sua dor pensando que aquela pessoa teve uma longa vida. Nem por isso a morte se torna uma coisa menos monstruosa, mas esse é o truque que utilizamos para manter intacta a ilusão metronômica, e para afastar de nós a tortura do tempo”[4].

 

Kepesh continua sua reflexão, dizendo que Consuelo não teve essa sorte, e ali, ao seu lado, “condenada à morte, ela assiste àquela comemoração que se prolonga por toda a noite na tela da tevê, uma histeria infantil fabricada em torno do futuro infinito, uma fantasia que os adultos maduros, com seu conhecimento melancólico de que o futuro é muito limitado, não podem nutrir. E nesta noite enlouquecida ninguém tem um conhecimento mais melancólico do que ela”[5].

 

Os dois junto, diante da tevê, assistem o espetáculo da passagem de ano em Havana. E ela, Consuele, chorando, lamenta não ter conhecido Havana.

 

Acho que é importante comemorar com alegria cada passagem de ano, mas sem deixar se levar pela “histeria infantil” diante da hipótese frágil e ilusória de um futuro infinito. Na realidade, o que existe mesmo, é a carência de qualquer substancialidade, como nos ensinam com razão os sábios do budismo. Quando falam em carência de substancialidade, estão apontando para um conceito fundamental que é o anatmam, ou seja a inexistência de substancialidade ontológica em qualquer ser. Algo também relacionado ao conceito de anitta, a impermanência, ou o traça movediço que caracteriza todos os fenômenos[6]

 

Quando falamos em carência de substancialidade estamos igualmente abordando outro tema fundamental do budismo que é a originação interdependente[7]. Todos os seres estão intimamente relacionados: são profundamente interdependentes. 

 



[1]Eduardo de Freitas Filho. “Síndrome do final de ano”. Casos de depressão e ansiedade crescem perto da virada. O Globo, quinta feira, 29/12/2022, p. 19.

[2]Philip Roth. O animal agonizante. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

[3]Ibidem, p. 122.

[4]Ibidem, p. 122.

[5]Ibidem, p. 122.

[6]Clodomir Andrade. Budismo e a filosofia andiana antiga. São Paulo: Fonte Editorial/PPCIR, 2015, p. 64.

[7]Ibidem, p. 63.

sábado, 17 de dezembro de 2022

A beleza do círculo inclusivo

 A beleza do círculo inclusivo


Faustino Teixeira

UFJF/IHU


Uma das grandes alegrias no Simpósio sobre Ibn ´Arabi na PUC-MG, em 16/12/2022, foi conhecer Cecilia Twinch. Ela falou para nós sobre o tema precioso do "Círculo Inclusivo".
Cecília é da Muhyiddin Ibn Arabi Society, de Oxford. Falou para nós num espanhol claro e delicado. O que mais marcou em sua pessoa, como em seu companheiro, foi a simpatia, delicadeza e acolhida. Um sorriso encantador, de quem está habitada a lidar com o Mistério sempre Maior.
O tema de sua fala foi também publicado no livro organizado por Pablo Beneito e Pilar Garrido: El viaje interior entre Oriente y Occidente. La actualidad del pensamento de Ibn ´Arabi. Madrid: Mandala Ediciones, 2007.
O seu texto exerceu em mim uma influência poderosa nas minhas reflexões sobre a dimensão dialogal do sufismo, e em particular de Ibn ´Arabi (1165-1240).
Em sua bela reflexão, Cecilia faz menção ao belo capítulo sobre Hûd no Fûsus de Ibn ´Arabi, quando o místico aborda o tema da proximidade do ser humano a Deus. O humano está profundamente vinculado a Deus, em laços que são ainda mais estreitos de sua ligação com a própria veia jugular.
Com o tema do "Círculo Inclusivo", Cecília nos abre a uma visão universalista e acolhedora do mística andaluz. Com ele, recebemos um convite dialogal único: evitar partilhar uma visão reduzida da realidade, e deixar-se tomar por uma visão mais ampla, com perspectiva universal.
Com esse convite tentador, o impulso criador para uma visão que esteja para além das ataduras das crenças particulares. Mas claro que temos sempre um referencial de pertença, que nos é essencial, mas essa domiciliarão não pode ser uma prisão, que nos impossibilite de captar e perceber a presença do Mistério também alhures.
Se nos apegamos a uma única crença, deixamos escapar bens preciosos do Mistério sempre maior. É o que afirma de forma maravilhosa e livre. É clássica a frase de Ibn´Arabi em seu Fusûs (Os engastes da sabedoria), ao falar do profeta Hûd: "Cuide-se de não te ligar a um credo particular rejeitando todo o resto, pois perderás um bem imenso".
Para onde quer que voltemos o nosso olhar, diz Ibn ´Arabi, com base em passagem do Corão, estamos sempre diante do Misericordioso. A essência do Deus que louvamos está viva e atuante em todas as direções e orientações.
O Mistério sempre maior, que é simultaneamente Tansih e Tashbir (distância e proximidade), rechaça qualquer proposta de limitação. Como diz Cecília, "A Realidade rechaça tal limitação". O lugar privilegiado de aproximação desse Mistério é o coração, capaz de acolher toda as formas.
Ibn´Arabi fala de um "Círculo Inclusivo", capaz de acolher com fraternura todas as "variações da Verdade". Aí está o traço fundamental que caracteriza o Mistério: "Ele possui todas as formas sem estar confinado a nenhuma delas".
Isso não significa, em hipótese alguma, a adesão a um relativismo, mas como eu disse na minha reflexão ontem em BH, O servidor perfeito consegue equilibrar com tranquilidade e confiança o seu "exercício de fé tradicional" com a receptividade à "realização metafísica da Palavra".
Em síntese, foi um simpósio maravilhoso, e fiquei encantado de poder conhecer pessoalmente Cecília, essa dama do diálogo e da abertura ao outro.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

O cachorro e o ódio

 O cachorro e o ódio

 

Faustino Teixeira

UFJF/IHU

 

 

O professor e compositor José Miguel Wisnik ministrou um interessante curso de seis aulas no Ateliê Paulista em torno ao tema: Contos Morais e Imorais. Isso ocorreu em novembro e dezembro de 2022.

 

No primeiro encontro, Wisnik comentou um interessante conto de J.M. Coetze, prêmio nobel de literatura. O conto, bem curto, se chama "Cachorro", e aborda um tema que se adequa muito ao nosso tempo aqui no Brasil, marcado pela narrativa do ódio[1].

 

No conto, temos um cão feroz, que regularmente busca atacar uma jovem que passa de bicicleta diariamente pelo local, e religiosamente o cão reage da mesma forma, com ira e violência, todas as vezes que a jovem passa ao lado do portão.

 

O que estamos vendo no Brasil pós eleição de Lula, é a presença de uma massa "canina" irada, tomada de ódio, radicalmente contrária à acolhida do resultado das eleições. E essa massa danada, com suas camisas verde-amarelas, reage sempre como o cão do conto de Coetze. 

 

É só passar perto deles, que eles avançam com violência e ira... Nos olhos deles e delas, como no cão, a presença de um "ódio do tipo mais puro". E eles, como o cão, sentem uma profunda satisfação de ver nos olhos de quem passa o medo da possível violência. Não conseguem esconder o ódio, e não conseguem "controlar" os movimentos do corpo, como já dizia Agostinho sobre as criaturas decaídas. 

 

Estamos vivendo em tempos difíceis, quando o direito às armas foi liberado por um cidadão que tentou governar esse país. E agora, as armas estão soltas por aí... E essa gente perdida permanece achando que tem o direito de continuar exalando o seu ódio por todo canto e a todo custo.

 

Ao final do conto, depois que a jovem tentou em vão convencer os donos do cachorro a se familiarizarem com ela, o autor termina escrevendo: 

 

"O cachorro se atira contra a cerca. Um dia, diz o cachorro, esta cerca vai ceder. Um dia, diz o cachorro, vou te despedaçar".

 

 



[1]O conto foi publicado no livro: J.M Coetzel. Contos Morais.  São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

Celebrando os 59 anos de Marco Lucchesi

 Celebrando os 59 anos de Marco Lucchesi

 

Faustino Teixeira

UFJF/IHU

 

 

Hoje, 09 de novembro de 2022, comemoramos o aniversário de Marco Lucchesi. É dia de grande alegria para mim, pois tenho em Marco um amigo muito especial. Posso dizer que é algo de grande profundidade que nos une. É o meu grande parceiro do diálogo e da abertura ao outro. Li ontem, emocionado, o livro que acaba de sair sobre ele: Marco Lucchesi, poeta do diálogo (Tesseractum, 2022). Um livro organizado por vários autores, a começar por Ana Maria Haddad Baptista. São inúmeras entrevistas concedidas por Marco Lucchesi nos últimos anos. 

 

Ao início Marco fala do significado de ser entrevistado: “A entrevista é um espaço visionário, uma convocação de todos os possíveis”. Ele fala que dificilmente escreve cartas, e sei disso, mas manda bilhetes, sobretudo “para dar impulso” aos seus interlocutores”. São “espasmos”. 

 

Marco está em tempo sabático na Itália, junto a seus familiares, dedicando-se também aos estudos de Turco, na Universidade Oriental de Nápoles. O turco, para ele, é das línguas que aprendeu, a mais difícil. Tive a alegria de fazer o prefácio de um dos trabalhos que realizou ali, traduzindo um grande místico turco: Yunus Emre. Nesse seu primeiro ano sabático, depois de 32 anos de trabalho na Universidade, pôde também viajar pela Amazônia, estudar a língua Nhengatu e viajar pelos rios da região visitando comunidades indígenas.

 

Um dos títulos de entrevista concedida por Marco, resume bem o que ele é: um grande buscador na aventura da Unidade. Fala de sua paixão pela Divina Comédia, mas se inspira também em busca similar a de Ulisses: “Eu me deparo com Ulisses que não volta para Ítaca, indo naufragar nas praias da eternidade, junto ao Purgatório”. 

 

Comenta vários de seus livros, um dos quais tenho grande admiração: Os olhos do deserto(2000). Nesse livro, Marco fala de sua paixão pelo deserto: “O corpo do deserto me fere de modo irreversível. Sou habitado por uma paisagem de pedra e de areia, pela qual sigo enamorado, e beijo seus lábios de vento e desabrigo”. Com o deserto, a grande paixão pelo Islã e sua mística maravilhosa. Nas paisagens da Síria, no deserto de pedras de Mar Musa, conheceu o jesuíta Paolo dall´Oglio, e seu lindo projeto dialogal. Dele ouviu palavras reveladoras: “Abrimo-nos profundamente à religião muçulmana e à sua civilização, em virtude da tranquilidade de nossa fé em Cristo, e não por uma dúvida a seu respeito”. No livro-entrevista, Marco sinaliza que sua grande paixão tem sido “a de conjugar as parte quebradas de um diálogo”, com a consciência viva de que “a cidadania vem dos âmbitos de uma conversa marcada de adição”.

 

Marco pontua que os desertos que mais o impressionaram foram os da Mauritânia e o da Síria: “As grandes vastidões, o sentimento do infinito, a nostalgia do mais se entrecruzam nesses espaços marcados de infinito”. Foi para ele uma experiência de nudez essencial, que revelou “caminhos de sensibilidade” e a recordação da “inefabilidade do Paraíso de Dante”.

 

Sobre o futuro, Marco sublinha que o encara com saudades: “Saudade do ainda-não. Mesmo que no passado. A volta de Guimarães Rosa como a volta ao primordial, fora do tempo e do espaço. A demanda de Ítaca e do tempo mítico”. Outro belo livro de Marco fala também desse tema: Saudades do Paraíso(1997). Ali relata grandes encontros que teve em seu caminho: com Roger Garaudy, Nise da Silveira, Rubens Corrêa, Adélia Prado, Antônio Carlos Villaça e Naguib Mhfuz. Encontros lindos e reveladores, com aprendizados inaugurais. 

 

Desse livro assinalo a importância do capítulo nomeado Rosto Perdido, onde Marco traço um pouco o que foi o seu caminho, a sua “palavra-conflito”. Dizia que sua grande viagem “era toda metafísica”. Uma viagem “não menos dramática” que alguns de seus colegas que optaram pelas drogas. Era também uma viagem xamânica, “não menos lúcida e não menos arriscada”, marcada pelo anseio do divino, pela nostalgia diante de tudo. Dizia: “Conhecer Deus e provar-lhe a existência. Conhecer Deus e procurá-lo sem trégua (...), subindo escarpas íngremes e algo impenetráveis, devassando as suas entranhas invisíveis, logrando a teoria, sem os enigmas da imanência”. 

 

Como seus pares, identifica aqueles que aderem a horizontes similares, e não “aos que militam na burocracia, no inferno das formalidades desfibradas, sem entusiasmo”. Como diz Paul Tillich na sua Teologia Sistemática, entusiasmo é “ter Deus dentro de si”. Isso Marco tem com largueza. Admira os críticos literários, mas sempre movido pela advertência de Pablo Neruda, em sua Ode à Crítica. Quando trata desse campo, Marco está atento: “A crítica da poesia, meu Deus! E as exclusões, a pressa em catalogar borboletas, assassinando-as, impedindo-lhes o voo”. 

 

Acabou decidindo abandonar o trabalho inglório das traduções, para ele “um trabalho desesperador, um convite para insônias”. Dedica-se agora às traduções mais sedutoras, sobretudo ligadas à mística. Sublinha que ao se dar ao trabalho de tradução busca encontras afinidades e admirações, “zonas de fronteira e leituras coincidentes, de modo a evitar arbitrariedades de si contra si, das “esquizofrenias e pluralidades” que não lhe pertencem. Procura sempre, sim, ressonâncias. 

 

Marco diz que a literatura e a poesia o salvaram, permitindo a rica “articulação entre plural e singular, como se a virtualidade do poema representasse um caminho sutil, que se espalha ao passado e ao futuro”. Traduziu poetas que sempre amou como Rilke, João da Cruz, Rûmî e Trakl. Para ele, a poesia não é a segunda pele, mas a primeira, a poesia entendida “como a forma de sentir e organizar o mundo das coisas”. Quanto ao panorama da poesia brasileira, Marco vê muitos pontos positivos, mas não se esquiva do que há de problemático: “O lado negativo repousa nas igrejinhas, nos pequenos partidos, em certas mistificações, ou zelos excessivos, e na tremenda confusão de transformar a experiência literária num pretexto a desperdiçar o estado de ser mais visceral, o risco mais intenso e profundo que o fazer poético pode produzir”.

 

Os tempos atuais, difíceis, causam profundo horror a Marco. Sublinha que esses tempos são “ferozes”, e que “a cada qual foi reservado uma herança de naufrágio e redenção”. Como viajante teimoso, Marco continua vivo em sua busca radical da paz e do diálogo. Recorre de forma brilhante ao seu dom único de buscador, de um intelectual que não teme diante das situações-limite, sempre visando algo mais, sempre na busca de superação de seu manejo com a palavra, transitando com alegria pelas diversificadas áreas do saber, mas sobretudo buscando o ser humano, onde quer que ele vibre na sua habitação. Parabéns, Marco querido.