segunda-feira, 21 de março de 2022

Novos desafios em tempos de mudança

 Novos desafios em tempos de mudança

 

Faustino Teixeira

IHU/Paz e Bem

 

Esse texto foi feito como provocação para um grupo de reflexão, Emaús, que reúne pensadores cristãos e que se encontra duas vezes por ano em Petrópolis. Em razão da pandemia, os últimos encontros foram virtuais. Além de reflexões sobre a caminhada pessoal de cada um, o grupo abre espaços importantes para o debate da conjuntura mais ampla: política e eclesial. Não há, necessariamente, um tema a ser discutido a cada ano, como foi o caso do último encontro, ocorrido em 19 de março de 2022. Partilho então a reflexão pessoal que fiz.

 

Nesses últimos 5 anos mudanças fundamentais ocorreram na minha vida e pontuaram um ritmo novo de reflexões. Pude me dar conta como “eventos fortuitos” e inesperados podem mudar o rumo da nossa vida, entre eles a experiência vital ou uma empreitada inédita motivada pelo cinema, pela música ou pela literatura.

 

No meu caso, o passo essencial foi a busca de um diálogo com a literatura e o cinema, e venho atuando minha reflexão em dois espaços específicos: no Paz e Bem, com Mauro Lopes, e no Instituto Humanitas da Unisinos, com o apoio do amigo Inácio Neutzling. 

 

A marca da literatura se fez presente com dois autores essenciais: Guimarães Rosa, com Grande Sertão: Veredas e Clarice Lispector. Venho dando cursos no IHU sobre esses dois temas.

 

Com o GSV pude me dar conta, de forma viva sobre a questão da ambiguidade que habita a nossa vida: somos todos portadores de luz e sombras. Além da presença da graça, somos também tocados por sombras, que expressam um lado torvo na nossa personalidade. Com GSV pude constatar que além da “vozinha” de graça que habita o nosso íntimo, há igualmente a presença de “avessos”, que expressam a dinâmica do mal. O ódio, como diz Rosa, não tem lógica, e emerge, assim, sem que nos demos conta. Com GSV pude descobrir o dado fundamental da importância de escolher o cavalo que a gente monta: ou o que se encaminha para a alegria ou para a tristeza. 

 

Esse foi um primeiro passo de descoberta, que remexeu com minha visão teológica “purificada” pela visão tradicional do tratado da graça: de que somos todos “criados em Cristo”.

 

A segunda mudança, mais recente, envolve o que se convencionou chamar de virada animal e virada vegetal. A encíclica de Francisco, Laudato si, foi muito importante na percepção essencial de nossa inter-ligação com o todo. Somos todos parte do vivente, envolvidos no emaranhado da vida. Assistir às conferências da 19ª FLIP, em formato virtual, em novembro de 2021 e início de dezembro de 2022, foi outro passo essencial de mudanças em minha percepção do mundo. Ali estavam autores importantes, alguns que vim a conhecer nessa ocasião, como o botânico Stefano Mancuso e o filósofo Emanuelle Coccia, ambos italianos. Pude também me aprofundar no pensamento de um crítico literário fantástico que é Evando Nascimento; além de outros nomes que ali estiveram presentes, como Eliane Brum, Ailton Krenak e Leonardo Froes.

 

Na reflexão de Evando Nascimento, expressa no seu lindo livro “Pensamento vegetal” (Civilização Brasileira – 2021), há uma crítica substantiva ao pensamento antropocêntrico e pistas importantes que nos provocam a pensar para além da tradição humanista. Ali estava o convite de “redimensionar o lugar do humano em sua relação ao mesmo tempo amorosa e conflitual com as alteridades que o cercam”: a alteridade humana, animal, vegetal e diria também mineral. Entender que a vida é um “fluxo contínuo planetário”. Ou como diz Bernie Krause, no seu maravilhoso livro: A grande orquestra da natureza (Zahar, 2013), “o planeta todo transborda com o vigor de uma ressonância tão completa e expansiva quanto delicada e equilibrada”; ou ainda: “todos os organismos são envolvidos por ondas de energia sonora”.

 

Para a virada animal, foram essenciais as contribuições teóricas de Donna Haraway e Vinciane Despret, que me ajudaram a compreender que somos “espécies companheiras” e que o ser humano não é o umbigo do mundo, mas parte do vivente.

 

Para a virada vegetal, cito aqui a importância de uma antropólogo fantástica, Anna Tsing que me ajudou a perceber a presença sob os nossos pés de um “cosmopolitismo vivo”, que enredam uma “arquitetura de teias e filamentos” (teias micorrízicas) que conectam raízes, fungos, que interagem com as árvores e possibilitam um emaranhamentos exemplar e fantástico. As árvores conectam entre si através de tais filamentos.

 

Com Stefano Mancuso pude reforçar a ideia de que as plantas são essenciais para acionar e manter aceso o motor da vida. Como diz esse autor, “nós, animais, representamos apenas 03% da biomassa, enquanto as plantas representam 85%” (A planta do mundo – Ubu, 2021). As plantas são assim “protagonistas” na sinfonia da vida. As plantas, diz o autor, “constituem a nervura, o fundamento, o mapa com base nos quais se constrói o mundo em que vivemos”. Ignorar isso, achando que nos encontramos acima da natureza “é um dos perigos mais graves para a sobrevivência da nossa espécie” (p. 11)

 

Essa nova perspectiva veio para mim radicalizada com a leitura do livro de Emanuelle Coccia, Metamorfoses  (Dantes Editora, 2020). Ele sublinha em seu livro que “a vida de cada ser vivo não começa com seu próprio nascimento: ela é muito mais antiga”. Nossa humanidade, igualmente, é um “produto originário e autônomo”, mas constitui um “prolongamento e uma metamorfose de uma vida anterior” (p. 14). Como ele sublinha, “cada espécie é a metamorfose de todas aquelas que vieram antes dela”. As espécies não são “substâncias”, mas “configurações instáveis e necessariamente efêmeras de uma vida que gosta de transitar e circular de uma forma em outra”.

 

A vida, na verdade, “alimenta-se da vida”. Os vários alimentos “não são apenas formas de vida confinadas nos limites de seus corpos: são corpos capazes de transformar sua vida assim que entram no corpo de outrem” (p. 109). Para o autor, a morte é apenas “o limiar de uma metamorfose”. Cada ser vivo “é um casulo pelo qual a vida constrói alguma coisa diferente”. “O destino de todos os seres vivos é torna-se o corpo de uma outra espécie”. Na verdade, “nós nunca deixamos de trocar de casa, de ocupar a vida e o corpo de outros (...). Ninguém está “totalmente em casa”.

 

Tudo isso para entender que aquilo que Francisco disse no início da Laudato si tem uma dimensão impressionante: de que “nós mesmos somos terra” e que o “nosso corpo é constituído pelos elementos dos planeta”. Há que tirar consequências concretas dessa fala de Francisco.

 

Para concluir, dando uma aula sobre o livro de Clarice Lispector, “Perto do coração selvagem” (seu romance inaugural, de 1943, quando ela tinha apenas 23 anos), algumas reflexões surgiram, ligadas a essa ideia de Metamorfose. A personagem Joana, ao olhar para o quinta do vizinho, percebeu “o grande mundo das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer”. Via também a minhoca que se espreguiçava “antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer”. Clarice parou ali: não tinha ainda dado o salto fundamental: de que as pessoas que iam comer a galinha, por sua vez, seriam também comidas pelos vermes, iniciando um ciclo novo de vida e metamorfose. Tudo isso tem consequências bem vivas para a nossa noção de nascimento, morte e ressurreição. 

 

segunda-feira, 14 de março de 2022

Passos da incomunicabilidade: Paris Texas de Win Wenders

 Passos da incomunicabilidade: Paris Texas de Win Wenders

 

Faustino Teixeira

Paz e Bem/IHU

 

 

Das iniciativas bonitas realizadas pelo Instituto Humanitas da Unisinos (IHU) e do Paz e Bem podemos falar dos “Filmes em Perspectiva”. São encontros periódicos que abordam alguns filmes que fizeram e fazem história. O projeto vai ganhando corpo, e conta com a colaboração de amigos queridos como Mauro Lopes, Angelo Atalla e Rodrigo Petrônio. Eu também estou sempre presente, com minhas reflexões pessoais e reações existenciais, já que não sou um perito em análise cinematográfica. Tem sido, porém, uma experiência singular no meu atual momento de vida, depois da aposentadoria na UFJF, em 2017.

 

Dos recentes filmes comentados gostaria de apontar Paris Texas, um filme maravilhoso de Win Wenders, de 1984, ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes no mesmo ano, tendo no júri as presenças preciosas de Dick Bogarde (presidência), Isabelle Huppert e Enni Morricone. Entre os atores do filme podemos assinalar as presenças de Natassja Kinsk (1961-)[1], no papel de Jane; Harry Dean Stanton (1926-2017), no papel de Travis; Dean Stockweel (1936-2021), no papel de Walt; Aurore Clément (1945-), no papel de Anne; Hunter Carson (1975), no papel do menino Hunter. 

 

Vale também destacar a magnífica trilha sonora de Ry Cooder, em particular sua interpretação da belíssima Canción Mixteca, de José Lopez Alavés (1889-1974). Outro destaque do filme é a fotografia de Robby Müller (1940-2018), tradicional parceiro de Win Wenders, desde o seu primeiro longa metragem, em 1970: Verão na cidade. O diretor de fotografia vinha da graduação na Escola de Cinema de Munique.

 

Na minha visão, este é um dos grande filmes do século XX. O diretor é um dos singulares nomes do Novo Cinema Alemão, que expressa a viva renovação que ocorreu nesse campo na Alemanha a partir da década de 1970. Junto com Wenders, encontraremos outros importantes diretores, entre os quais: Rainer Fassbinder (1945-1982)[2], Volker Schlöndorf (n. 1939)[3]e Werner Herzog (n. 1942)[4].

 

Win Wenders é um cineasta das paisagens, das ricas tramas existenciais e dos grandes deslocamentos. É também um diretor que aprecia a obra de cineastas americanos, e isto podemos perceber em vários de seus filmes. Não se sai impune dos filmes de Wenders, que sabe, como poucos, emocionar seus espectadores com sua singular sensibilidade estética. 

 

Paris Texas tinha sido a inaugural e bem sucedida experiência  com a cor, e o que ocorrera antes nesse campo era para o diretor algo estranho. Ele disse uma ocasião: “A cor, antes, era para mim uma abstração, o preto e branco me pareciam mais realista, a cor me parecia qualquer coisa de exagerado”[5]. O seu receio era sempre o de se “perder nas cores”. O preto e branco expressava mais vivamente o seu pertencimento cinematográfico.

 

O cenário favoreceu bastante a nova experiência do cineasta, que escolheu, depois de muita pesquisa, a cidade de Paris, no norte do Texas[6], para a realização de boa parte das filmagens. Para o diretor, a “colisão” entre Paris e Texas corporificava passos essenciais do roteiro idealizado por ele e o dramaturgo americano Sam Shepard, que tinha nascido no Texas. Shepard vinha de uma experiência bem positiva com Antonioni, no filme Zabriskie Point, de 1970. Para um dos personagens do filme, Travis, Paris no Texas simbolizava a cisão e desequilíbrio vividos por ele. Ele dizia que tinha conhecido sua mulher, Jane, em Paris, e com a sua evasão, a cidade passou a ser identificada como “o lugar da separação”. Era também considerada um “lugar mítico” onde poderia, quem sabe, reunir novamente a família dispersa[7]

 

Wenders é um cineasta que adora paisagens. E assim começa o seu filme, com um longo plano sequência mostrando a paisagem aérea sobre o deserto texano, que já revela um dos traços da cinematografia do diretor, que a dificuldade de aproximação do mundo e dos outros. É uma sequência que se inicia com o deserto, para depois se fixar no personagem Travis, que caminhava perdido e maltrapilho no deserto, revelando sua posição “estranha” e sofrida no mundo. Como indica India Martins em seu trabalho, “a câmera passeia sobre cânions, uma paisagem árida, sol inclemente, céu azul, pedras – e, finalmente, localiza uma figura pequena caminhando com determinação no centro da paisagem”. Surpeendente a cena em que ele olha para a cima, para para beber o resto de água que tinha, e avista um condor predador no alto da pedra. A imagem sugeria o risco que ele corria na empreitada solitária e desesperada.

 

Vamos aos poucos sendo introduzidos num roteiro maravilhoso, onde vibram as palavras, os sons, os silêncios e as cores, num caleidoscópio de emoções que prendem o espectador do início ao fim. Todo esse clima serve de porta de entrada para uma narrativa familiar pontuada por muito sofrimento, mas também por momentos únicos de sutileza e delicadeza que delineiam a arte do diretor.

 

 

 

 

Como indica o cronista Ricky Sanchis[8],

 

“o filme começa abordando a vida de Travis Henderson, que, após ficar mais de quatro anos desaparecido, é achado vagando sem rumo pelo deserto. Seu irmão, Walt Henderson, fica incumbido de ir ao encontro de Travis para trazê-lo de volta a sua casa. Aos poucos, assim como o protagonista, vamos assimilando tudo o que acontece naquele ambiente. Travis vai recuperando sua saúde mental e física e tem a difícil missão de reatar o laço com seu filho pequeno, Hunter, que tinha abandonado após desaparecer. Hunter não fora somente abandonado pelo pai, sua mãe também decidira por deixá-lo aos cuidados de Walt e sua esposa, a fim de não comprometer o desenvolvimento da criança. A trama ganhará sua essência quando Travis decide reencontrar Jane, sua esposa, junto com seu filho.”

 

Num ritmo que é lento, embalado por uma trilha especial, vamos nos introduzindo nas delicadas nuances que fazem emergir do meio do nada o personagem Travis. Estamos no coração da incomunicabilidade, diante de um personagem que perde por um tempo sua sociabilidade, mergulhando num silêncio que demorou a ser rompido. Vagando perdido por quatro anos, ele vinha de uma “tragédia”, marcada pelo rompimento abrupto com sua mulher (Jane), num conflito comunicacional que o fez seguir para o deserto, abandonando também o pequeno filho Hunter, de quatro anos. Eles moravam como nômades, num trailer, mudando de cidade em cidade por motivos do trabalho de Travis.

 

É toda uma “carga misteriosa” que habita Travis e contagia também o espectador, que vai se adentrando no seu estranho modo de agir e no tom silencioso de seu momento particular. Nos últimos tempos a relação entre Travis e Jane vinha sendo carcomida por um ciúme atormentador, que acabou destruindo a relação. Até que Travis escapa adolorado para o deserto.

 

Depois de muito caminhar, ele encontra uma parada na estrada, quando então ali desmaia, sedento e faminto. No posto médico em que vem atendido conseguem achar o endereço de seu irmão, Walt, que, comunicado por telefone, vai ao seu encalço para resgatá-lo. Vemos assim “emanar dos dois personagens toda essa preocupação que essa volta de Travis para o lugar que abandonara outrora iria implicar para a vida de todos”[9].

 

Seu retorno à casa do irmão vem favorecido com a receptividade atenciosa oferecida pela família, e em particular por Anne, irmão de Walt. Os dois passaram a cuidar do menino Hunter, filho de Travis e Jane, depois que a mãe decidira deixar o garoto com a família por incapacidade de dar a ele o afeto e a proteção necessários. Ela também “desaparece”, mas manterá contato secreto com Anne, pedindo no início fotos e notícias do filho. Com o tempo a comunicação foi se rarefazendo, e numa das últimas conversas entre as duas, Jane tinha passado o nome do banco na cidade em que se encontrava, Houston, a mais populosa do estado do Texas. Dali mandava mensalmente parcos recursos para ajudar na manutenção do filho e auxiliar na garantia de seu futuro.

 

Momentos delicados ocorrem quando Anne começa a sofrer com a possibilidade de perder o menino, que se adaptara tão bem à nova família. Algumas conversas do casal são permeadas por aflição e dor, mas Walt explica para a mulher a importância do resgate afetivo entre o pai sanguíneo e o filho. No começo, a relação não foi assim tão fácil, tendo que ocorrer toda uma dinâmica complexa de aproximação entre os dois. A sorte é que o garoto tinha sido abandonado muito novo e uma possível “raiva” do pai tinha sido atenuada pela falta de lembranças. Curioso perceber que a “inabilidade” dos dois em retomar a comunicação constituiu o fio propiciador para o novo liame. Travis vai, aos poucos com a ajuda do irmão e da cunhada, vivendo uma mutação que o fará recuperar a sociabilidade e a aproximação do filho. Há cenas bonitas a esse respeito, como a ida do pai à escola para buscar o filho, dos desajeitos iniciais à naturalização de uma relação de amor.

 

O contato acolhedor da família facilita que Travis 

 

“recupere, em seu próprio ritmo, algo que escolhera deixar para trás quatro anos antes. E essa recuperação de sua saúde mental é evidenciada em uma das cenas mais simbólicas do filme, quando Travis atravessa uma ponte e encontra a figura de um homem completamente atormentado gritando coisas sem nexo. Travis se dá conta neste momento do que fora meses antes, vendo no homem uma espécie de espelho e se compadecendo disto. Medo e aversão surgem no protagonista. Aversão pelo que havia sido durante um fragmento de sua vida e medo de que isto não tenha se acabado por completo. E esse medo será fundamental para os desnivelamentos finais da obra.[10]

 

Uma das mais belas cenas do filme ocorre quando o pai e o filho assistem episódios felizes da infância do menino com os pais na super 8. Ao fundo a linda canción Mysteca, na arte interpretativa de Ry Cooder. Vamos adentrando aos caminhos percorridos por Travis para recuperar a estima do filho. Vai ser através desse filme em super 8, sobre férias em família, que se dá a primeira aproximação entre pai e filho; o filho abandonado quando tinha 4 anos. Agora o menino estava com 7 anos. A filmagem exerce a função de chispa para o despertar da memória de Travis, reavivando as lembranças felizes de um bonito período da vida familiar, tecido por acolhida, carinho, ternura e amor. Tudo vai servir de base para a aproximação de pai e filho.

 

Após assistir a passagem festiva no super 8, já à noite, o garoto se despede de Travis chamando-o de pai, um momento rico de emoção. Na sequência, em conversa com a mãe no quarto, o garoto indaga:

 

Você acha que ele (Travis) ainda a ama (Jane)?

E a mãe: Como eu vou saber, Hunter?

Ele: Acho que ama.

Ela: Como você sabe?

Ele: O jeito que ele olha para ela.

Ela: Percebeu quando ele a viu no filme?

Ele: Sim. Mas não era ela...

Ela: Como assim?

Ele: Era só ela num filme. Há muito tempo... Numa galáxia muito... muito distante...

 

Em outro momento do filme, o menino indaga ao pai (Travis):

 

Menino: Você se lembra dele (de seu pai)? Quando ele andava e falava

Travis: Sim

Menino: Então, conseguiu sentir que ele foi embora?

Travis: Sim, de vez em quando. Sei que ele morreu.

Menino: Nunca senti que você tinha morrido. Podia sempre sentir você andando e falando em algum lugar. Também sinto a mamãe.

Travis: sente?

Menino: Voce não?

Travis: Com a cabeça faz o gesto de sim...

 

Como lembra Sanchez em sua análise, 

 

“A confusão intrínseca aos personagens, por diferentes motivos, acaba incitando os mesmos a encontrarem o elo perdido que talvez propicie o conforto necessário. Esse elo é a figura de Jane. Somente ela poderia providenciar essa recuperação do buraco na vida de Travis e Hunter. E a jornada dos dois pela busca da mulher é linda. Veremos surgir nessa jornada os sentimentos de aceitação e amor nos protagonistas.

 

Pai e filho decidem ir ao encalço de Jane num velho carro, sem sequer avisar a Walt e Anne, que ficaram desesperados com o sumiço dos dois. Ao longo da viagem, numa parada, o menino avisa a Anne que estavam viajando para Houstou, em busca de Jane. 

 

A longa viagem empreendida por pai e filho não está apenas definida pelos quilómetros percorridos, estendendo-se também a uma travessia emocional de tréguas com o passado, consolidação do presente e resignação com o futuro pela parte de Travis, que, essencialmente fruto do vínculo que criou com o filho, ganha pela primeira vez coragem e determinação para se encarar a si próprio.”[11]

 

O encontro de Travis e Jane é uma das cenas mais impactantes já feitas no cinema. Tudo que envolve a construção dessas passagens, separadas em dois momentos em um único ambiente, acaba arrepiando quem as assiste. A intensidade do filme, que até então era mais tranquila e suave, acaba se elevando consideravelmente. As conversas entre Jane e Travis, separadas por um vidro num peep show, onde apenas o homem via a mulher por trás do obstáculo. Tudo vem permeado por um tom nostálgico, acentuado pela trilha de Ry Cooder. A início, Jane não se dá conta de quem está falando com ela, até que, aos poucos ela vai perceber que a história contada é a dela com Travis. Então tudo muda.

 

Foram dois encontros, sendo o primeiro mais rápido. No segundo é que se dá a revelação de Travis. De forma dramática, ele revela a ela a impossibilidade de um encontro pessoal entre os dois, em razão da carga incompatível e autodestrutiva do passado relacional. Isto me fez lembrar uma passagem do romance de Nizami, Laila & Majnun (século XII), quando a amante diz ao amado que “a proximidade traz o desastre, pois os amantes só estão seguros separados”[12]

 

É todo um processo catártico que ocorre na conversa entre os dois, tanto no momento em que ele fala para ela, como naquele em que ela fala para ele. Em passagem nevrálgica, quando ela descobre que a história revelada é a dos dois, ela se achega ao vidro e com as mãos trêmulas alisando o vidro diz o nome Travis. O que se assiste é a narrativa ou testemunho de um “amor tão profundo e destrutivo, capaz de vandalizar a sanidade daquele que o detém, emoldurado por uma fotografia inconfundível”[13].

 

Como indica Inês Bom, os dois

 

“voltam pela última vez a percorrer o passado intenso, febril e sombrio que viveram juntos. É o testemunho cândido de um amor tão profundo e destrutivo, capaz de vandalizar a sanidade daquele que o detém, emoldurado por uma fotografia inconfundível e por duas das melhores prestações do filme, que tornam esta cena simbólica num marco difícil de esquecer.[14]

As cenas que ocorrem são paralisantes, de emoção intensa. Ao final, vemos Travis, humilde e virtuoso, conseguir a façanha de unir mãe e filho num hotel, estando ele embaixo, assistindo ou imaginando o encontro derradeiro dos dois queridos. É linda a cena em que Jane abraça, sem palavras, o filho querido. É o momento crucial onde ele vence a culpa que o destroçou e pode então seguir caminho na sua velha  caminhonete Ford Ranchero 59, retornando à sua condição de peregrino. 

Como mostrou Ricky Sanchez, ao final de sua resenha, 

“Win Wenders entrega a obra mais relevante de seu cinema, mostrando aqui todos os elementos que acabam por compor seus filmes. Toda a nostalgia presente em cada fragmento de cena traz um misto de tristeza e felicidade no próprio espectador, nos fazendo olhar para nossos próprios passos, atrás da construção de nossas identidades no mundo.[15]

 



[1]Filha do ator Klaus Kinsk (de A cólera dos deuses eFitzcarraldo). Teve belas atuaições nos filmes Tess, de Roman Polanski e Tão longe, tão perto, de Win Wenders).

[2]Dentre seus filmes: O casamento de Maria Braun (1979).

[3]Um de seus clássicos filmes: O tambor (1979 – Oscar de melhor filme estrangeiro em 1980).

[4]Dentre seus filmes: Aguirre a cólera dos deuses (1972), O enigma de Kaspar Hauser (1974), Stroszek (1977) e Fitzcarraldo (1982).

[5]India Mara Martins. A paisagem no cinema de Wim Wenders. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2014, p. 94.

[6]Trata-se de uma pequena cidade no condado de Lamar, que no início de 2017 contava com cerca 25 mil habitantes.

[7]India Mara Martins. A paisagem no cinema de Wim Wenders, p. 94.

[8]Ricky Sanchez. Paris, Texas (1984) de Win Wenders – 08/03/2017 (Cinefilia incandescente):

https://www.dn.pt/artes/paris-texas-o-sonho-americano-e-um-lugar-distante-5661000.html(acesso em 13/03/2022).

[9]Ibidem.

[10]Ibidem.

[11]Inês Bom. Paris Texas: o reencontro com o que há de melhor em nós. Comunidade, cultura e arte, 19/04/2017:

https://comunidadeculturaearte.com/paris-texas-o-reencontro-com-o-que-ha-de-melhor-em-nos/(acesso em 13/03/2022)

[12]Nizami. Layla & Majnum. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002, p. 162.

[13]Inês Bom. Paris Texas: o reencontro com o que há de melhor em nós. 

[14]Ibidem.

[15]Ricky Sanchez. Paris, Texas.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Não perder o ritmo da alegria

 Não perder o ritmo da alegria

 

Faustino Teixeira

 

 

Fiz ontem, 19/02/22, a leitura de uma entrevista com o pensador Byung-Chul Han de 22 de fevereiro de 2021[1]. Pensei que era uma entrevista mais recente, mas não, era do ano passado. Fiquei, porém, impressionado com a sua atualidade. Tenho gostado muito dos livros desse autor, cujas obras vêm sendo traduzidas pelas Vozes, disponíveis em preços módicos. 

 

O que gostei dessa entrevista foi ter recebido pistas importantes para entender o que está se passando com muitos de nós nessa pandemia que não tem fim. Verifico que as pessoas estão desgastadas com o isolamento. Algumas estão mesmo “chutando o balde”, não aguentando mais usar máscaras, ficar isoladas no mundo familiar restrito, sem poder se comunicar mais proximamente com os amigos, sem poder viajar, e tantas outras coisas mais.

 

Sinto também o aumento expressivo da depressão. Os consultórios de terapia estão todos lotados, com muita gente pedindo ajuda para enfrentar esse tempo tão difícil.

 

Aí veio essa entrevista e me ajudou a refletir sobre algumas coisas essenciais, que pontuo:

 

1. A importância de fortalecermos as relações de amizade, da forma que estiver ao nosso alcance. Byung-Chul Han, num de seus livros preciosos – A expulsão do outro, 2017 – dedica um capítulo inteiro à escuta, que se faz necessária nesse momento onde as pessoas estão isoladas. O trabalho de ser “ouvinte” ganha um lugar decisivo em nosso tempo. Como diz Chul Han, “a pandemia reforça o desaparecimento da empatia. O outro é agora um possível portador do vírus, do qual convém distanciar-se”. Escutar o outro é deixar-se expor, expressar confiança e manifestar sensibilidade para com ele. O que vemos, com tristeza, é as pessoas ficarem irritadas com a aproximação dos outros, temendo o contágio do vírus, e isso é muito sério.

 

2. O desafio de saber lidar com a dor. Estamos envolvidos numa sociedade repleta de dores, uma “epidemia de dores crônicas”, como indica Chul Han. Mas a dor, como diz ele, vem “reduzida aos aspectos médicos e farmacológicos. E quando é colocada exclusivamente nas mãos da medicina, a gente não entende mais”. Ao mesmo tempo em que estamos rodeados de dor, não sabemos – nessa sociedade paliativa – lidar com ela. Chul Han constata, a meu ver com razão, que mais importante que oferecer analgésicos, é facultar a proximidade, a dedicação e amizade ao outro. Tudo isso é mais essencial do que simplesmente medicalizar a dor.

 

3. Encontrar caminhos alternativos de lidar com a pandemia. Chul Han, de forma extraordinária, chama a atenção para um trabalho de equipe, que vá além do contato com médicos para lidar com a pandemia. Isso significa envolver outros profissionais, como psicólogos, filósofos, teólogos etc. Chul Han nos adverte que com a pandemia estamos nos encerrando numa quarentena onde a vida “enrijece-se como uma sobrevivência”. Caímos, assim, numa “histeria da saúde”, excluindo inclusive a fundamental importância de entender o lugar da dor na vida de cada um. A neblina da pandemia não pode ser para nós o fechamento da possibilidade de celebrar a vida. É o que a poeta portuguesa, Matilde Campilho, nomeia como saber “dançar sobre os escombros”. Não se pode perder essa dimensão da alegria, mesmo na dor. Trata-se de saber encontrar caminhos e possibilidade para “celebrar a vida”. Como diz Alberto Caeiro é “triste não saber florir”. 

 

Em vez de simplesmente absolutizar a saúde e a sobrevivência, devemos estar atentos, e muito atentos, aos “bens que estão em jogo nos vários aspectos da vida”. Não podemos simplesmente nos acabar para encontrar o caminho da sobrevivência. Muito importante isso. 

 

Conforme assinala Chul Han, há que esperar mais do que sobrevivência. Diz ele: “A sociedade dominada pela histeria de sobrevivência é uma sociedade de ´não mortos`”. Ele costuma dizer que “estamos muito vivos para morrer, muito mortos para viver”. A seu ver, o estar preocupados apenas com a saúde e a sobrevivência, nos faz assemelharmos ao vírus, “um ser não-morto que se multiplica, ou seja, sobrevive, sem viver”. 

 

Concluindo, com a ajuda da tradição budista, que foi também objeto de outro livro de Chul Han, precisamos entender que “a vida sem dor é incompleta”. Ou seja, faz parte de nossa trajetória saber lidar com a vulnerabilidade e a impermanência. O autor cita Nietzsche para dizer que a dor e a felicidade andam sempre juntas, como irmãs gêmeas, “que crescem juntas ou permanecem pequenas juntas. Se a dor for inibida, a felicidade se acomoda em uma abafada sensação agradável”. Como diz o poeta Fernando Pessoa (Alberto Caeiro), “é preciso ser de vez em quando infeliz para se poder ser natural”. O que é preciso, diz o poeta, é “ser-se natural e calmo na felicidade ou na infelicidade, sentir como quem olha, pensar como quem anda, e quando se vai morrer, lembrar-se que o dia morre, e que o poente é belo e é bela a noite que fica...”.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Vida e metamorfoses

 Vida e metamorfoses

 

Faustino Teixeira

 

Incrível as repercussões concretas que reflexões como a de Emanuelle Coccia trazem para a nossa cosmovisão. No meu caso particular, o contato com seus livros e a reflexão sobre suas entrevistas promoveram um turbilhão interior sem precedentes. 

 

No Brasil saíram publicados três livros seus: Metamorfoses (2020, com segunda tiragem em 2021 – Dantes Editora), A vida sensível (2018 – Cultura e Barbárie Editora), A vida das plantas (2018 – Cultura e Barbárie).

 

Tudo está ligado à revolução animal e vegetal que está no circuito das reflexões atuais.

 

Vendo agora a recente entrevista de Emmanuela Coccia, concedida por ocasião do lançamento no Brasil de seu livro Metamorfoses, disponível no Youtube[1], constato que o autor conseguiu resumir com muita felicidade as grandes teses apresentadas em seu livro. 

 

Ele indica já no início do livro que todos partilhamos a mesma vida, ainda que com diversificadas maneiras de existir. Cada ser vivo “não começa com seu próprio nascimento” pois a vida é bem mais antiga[2]. E o nosso sopro, complementa o autor, “não vai esgotar-se em nosso cadáver: vai alimentar todos aqueles que encontrarem nele uma ceia para celebrar”[3].

 

A nossa vida é em verdade um “prolongamento e uma metamorfose de uma vida anterior”. O nascimento é um acréscimo, um “elo na corrente da transformação da vida”, e o nosso umbigo “marca nossa ligação com a Terra e com todos os seres vivos, e não apenas com o corpo de nossa mãe”[4]. Em cada ser vivo está presente “a vida do planeta inteiro”. Como indica Coccia, “nós carregamos em nós mesmos, nossos pais, nossos avós, os pais deles, os macacos pré-humanos, os peixes, as bactérias, até os mínimos átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio, azoto etc”[5].

 

Assim como a vida não é o ponto de partida, também a morte não é o ponto terminal, mas o “limiar de uma metamorfose”[6]. Não há nada de novo no que habita em nós. O autor leva a sério a teoria evolucionista de Darwin e dá a ela um colorido especial com as repercussões filosóficas implicadas. Para o autor, “a metamorfose é, acima de tudo, essa potência de todo ser vivo de chocar em seu seio a capacidade de fazer variar a vida que o anima”[7].

 

Interessante na entrevista a reflexão sobre identidade. Segundo Coccia, nossa identidade não é senão um mosaico, um patchwork, uma mistura de identidades anteriores. Trata-se de uma identidade efêmera, carregando em si identidades distintas. 

 

Como ele sublinha, “há uma continuidade absoluta entre todos os indivíduos que pertencem à mesma espécie, e a prova disso é aquela metamorfose que cada um de nós atravessa com o nascimento. Nascer significa se apropriar de um corpo. Na verdade, de corpos que já viveram”[8]

 

Na visão do autor, “cada um de nós é uma enorme reciclagem genética e também anatômica. O nosso corpo já viveu e ele é muito mais antigo que nossa mesma idade. Nossa carne tem nó mínimo tantos anos quanto tinha a nossa mãe quando fomos concebidos, mas como nossa mãe, por sua vez, era a carne de um corpo que já vivera antes...” .

 

Tocou-me também em particular a sua reflexão sobre a fragilidade da ideia de excepcionalidade humana. Com base no que ocorreu com a presença do coronavirus, Coccia fala que a ideia de supremacia humana é bem problemática.

 

Pudemos verificar a força de uma criatura minúscula, que se mostrou capaz de ameaçar a vida da espécie. A experiência pela qual estamos passando comprovou, em verdade, que mesmo a potência destruidora não está exclusivamente ligada ao homem humano, mas uma “potencia distribuída de forma extremamente generosa na natureza, e acima de tudo, independente das qualidades anatômicas e cerebrais. Não é preciso ser grande e forte, ter um cérebro, para gerar efeitos incríveis no planeta. E essa é a chave da vida”.

 

Esses estudos recentes sobre as plantas e a virada vegetal, mostram-se fundamentais para quebrar não só a ideia da excepcionalidade humana, mas também para indicar a fantástica interconexão de tudo com todos.



[2]Emanuelle Coccia. Metamorfoses. Rio de Janeiro: Dantes, 2022, p. 13.

[3]Ibidem, p. 14.

[4]Ibidem, p. 30.

[5]Ibidem, p. 53.

[6]Ibidem, p. 111.

[7]Ibidem, p. 80.

[8]https://www.youtube.com/watch?v=NlHwW7DvAk8(acesso em 13/02/2022). As citações seguintes referem-se a tal entrevista.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Saber lidar com o desamparo do tempo

 Saber lidar com o desamparo do tempo

 

Faustino Teixeira

PPCIR/Paz e Bem/IHU

 

Tenho percebido a grande dificuldade das pessoas em enfrentar com coragem a grave questão do novo regime climático e com o horizonte sombrio que se anuncia para as novas gerações. Verifico que muitos tendem a relativizar a questão buscando viver o presente. São aqueles que estão mais ancorados no momento presente e que preferem não antecipar problemas que irão ocorrer nas próximas décadas. É uma forma psíquica de defesa diante de uma situação que pode acirrar ainda mais as fragilidades psíquicas e acabar provocando a obstrução de projetos de futuro.

 

Constato ainda que aqueles que se debruçam atentamente sobre a questão acabam acalentando uma melancolia que é problemática. Isso me faz lembrar as advertências tecidas em tempos atrás por Christopher Lasch (1932-1994) no seu clássico livro, A cultura do narcisismo  (1979). Diante dos riscos, as pessoas tendem a se fechar no “mínimo eu” para resguardar aquele circuito pessoal que mantém acesas as convicções essenciais para manter o mundo de pé.

 

Independente disso, sabemos que estamos diante de um horizonte ameaçador. Os sinais estão por todo canto, anunciando um futuro bem difícil para os que estão por vir. Em sua encíclica Laudato si, sobre o cuidado da casa comum, papa Francisco faz uma virulenta crítica ao “crescimento infinito ou ilimitado” que marca nosso tempo do Antropoceno. Com ele, a afirmação de um grave “paradigma tecnocrático” que não revela nada de agradável para os tempos vindouros. Como diz Francisco, “as previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia”[1].

 

A mesma impressão fica gravada naqueles que leram o livro de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro, Há mundo por vir?[2]Aquela sensação de desamparo diante de um tempo ameaçador. Como dizem os autores, já rompemos a zona de segurança em três processos: a taxa da perda da diversidade, a interferência humana no ciclo de nitrogênio (a taxa com o N2 é removido da atmosfera e convertido em nitrogênio reativo para uso humano, principalmente como fertilizante) e as mudanças climáticas”. E agora avançamos para novos limites, relacionados com o uso da água doce, de mudança no uso da terra e da acidificação dos oceanos[3].

 

Diante de um futuro incerto recolhemos as previsões lúcidas e não infundadas de cosmologias antigas, sobretudo dos povos originários, a respeito de inquietudes impressionantes. No prefácio do livro de Davi Kopenawa e Bruce Albert, A queda do céu[4], Eduardo Viveiros de Castro adverte-nos sobre a importância de levar realmente a sério o que expressam os indígenas na sua cosmovisão[5]. O xamã Davi Kopenawa fala do clima de amizade que sempre acompanhou a relação dos índios com a floresta e do risco que hoje se apresenta, com a consciência de que “a floresta não é infinita”. Ele sublinha: “Agora sei que se os brancos  continuarem avançando, vão fazê-la desaparecer bem depressa. Já estão dizendo que ela é grande demais para nós”[6].

 

Na mesma direção, o pessimismo de Ailton Krenak, outra grande liderança indígena brasileira. Seu pensamento vem expresso em dois livros recentemente publicados:Ideias para adiar o fim do mundo e A vida não é útil[7]. O que se anuncia é preocupante: um “nós sem mundo” ou ainda uma tremenda dificuldade de “aterrar” no mundo que está aí. Adverte Krenak: “Quantas Terras essa gente precisa consumir até entender que está no caminho errado”[8]. Os humanos encontram-se diante de uma séria questão: decidir a favor ou contra a autoextinção da espécie[9]. O seu olhar sobre o tempo atual é bem realista. Reconhece que nos últimos tempos o que se observa é uma crise contínua. Estamos diante de um despencar ininterrupto, de uma carência absurda de reverência para com a casa comum[10].

 

Em suas recentes reflexões, Bruno Latour fala dos “climato-quietistas”, ou seja, daqueles que tendem a negar a situação difícil em que nos encontramos, de um negacionismo que torna as pessoas impassíveis diante do que vem, como pudemos igualmente observar no filme de Adam McKay, Don´t look up(Não olhe para cima), que é na verdade um mantra do negacionismo.

 

Num ciclo de seis conferências dadas por Bruno Latour em 2013, a convite do comitê das Gifford Lectures, ele desenvolve com pertinência sua reflexão sobre o Novo regime climático e todas as suas consequências. As conferências foram depois remanejas, amplificadas e reescritas, tendo como resultado a preciosa obra Diante de Gaia[11].

 

Nessa obra, Latour nos coloca diante da inevitável questão: como sobreviver no tempo atual? Como aterrar em nosso tempo sombrio, aprendendo “a sobreviver sem se deixar levar pela denegação, pela hybris, pela depressão, pela esperança de uma solução razoável ou pela fuga para o deserto”[12]. Para o autor, não há como fugir da realidade, “não existe cura para o pertencimento ao mundo. Mas, pelo cuidado, é possível se curar da crença de que não se pertence ao mundo”[13]. Não existe possibilidade de “sair disso”, como diz Latour. Nesse caso, o próprio significado da palavra “esperança” vem redimensionado com o anteparo de um horizonte nublado. Há que saber “lidar com isso”, encontrando novos percursos de cuidados, “mas sem pretender uma cura muito rápida”. Um caminho possível é buscar com todos os recursos disponíveis “repensar a ideia de progresso” e retrogredir. O autor fala em “apostar no menor dos males” ou ainda, “viver bem com seus males”. Em outra obra, Latour fala em criar “gestos barreira” capazes de interromper o ritmo alucinante da globalização[14]. Outros falam em afirmar uma “ecologia política do ralentamento (ralentissement)[15].

 

Recordo-me da entrevista concedida por Donna Haraway no Colóquio Internacional – Os mil nomes de Gaia (2014) – e a reação de Eduardo Viveiros de Castro diante do posicionamento da antropóloga em favor de uma saída inusitada: “habitar a barriga do monstro”[16]. Trata-se de algo semelhante ao que falou Latour, ou seja, saber lidar com isso. Não há como escapar da realidade em que estamos inseridos, no mundo em que vivemos. Em obra de 2016, Donna Haraway indica que devemos aprender a “seguir com o problema”, ou seja, “de viver e morrer com responsabilidade (respons-habilidade) numa terra danada”[17].

 

Em livro surpreendente, o filósofo Luiz Felipe Pondé fala dos dez mandamentos e acrescenta um último, justamente em torno da esperança. Ele confirma a possibilidade de uma esperança no mundo, desde que o ser humano tenha a capacidade e a coragem de atravessar com lucidez o nihilismo. O novo mandamento diz que é possível ter esperança no mundo, apesar de todas as mazelas nele presentes. Reconhece, porém, que a razão mais forte da esperança está na acolhida do Eterno, o único “capaz de aliviar as agonias da criatura”. Sua pista está no desafio de viver o cotidiano acompanhado por Deus e não apenas pelos desígnios da natureza[18]. Para ele, “só existem duas formas de ter uma verdadeira esperança no mundo: ou pela graça de Deus, que faz alguns de nós termos fé no mundo, ou com a ajuda da coragem, irmã gêmea da esperança”[19].



[1]Papa Francisco. Carta encíclica Laudato si, sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015, n. 161.

[2]Déborah Danowski & Eduardo Viveiros de Castro. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis/São Paulo: Cultura e Barbárie/Instituto Socioambiental, 2014.

[3]Ibidem, p. 20-21.

[4]Davi Kopenawa e Bruce Albert. A queda do céu. Palavras de um xamã Yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

[5]Ibidem, p. 15 e 35.

[6]Ibidem, p. 330.

[7]Ailton Krenak. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras,  2019; Id. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

[8]Ailton Krenak. A vida não é útil, p. 26.

[9]Ibidem, p. 58.

[10]Ailton Krenak. Ideias para adiar o fim do mundo, p. 30-31.

[11]Bruno Latour. Diante de Gaia. Oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. São Paulo: UBU, 2020.

[12]Ibidem, p. 31.

[13]Ibidem, p 31. Ver também: Rubem Akira Kuana. Tristes psicotrópicos: colapso climático, colapso mental. Cadernos PET Filosofia, v. 19, n. 1, 2021:

https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/FMfcgzGmtrHrTszhsBtKrfPvbKbvwrxC?projector=1&messagePartId=0.1(acesso em 08/02/2022).

[14]Bruno Latour. Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020, p. 131.

[15]Déborah Danowski & Eduardo Viveiros de Castro. Há mundo por vir? p. 148.

[17]Donna Haraway. Seguir con el problema. Generar parentesco en el Chthuluceno. Bilbao: Consonni, 2019, p. 20.

[18]É o tema do filme de Terrence Malick: A árvore da vida (2011).

[19]Luiz Felipe Pondé. Os dez mandamentos (+ um).São Paulo: Três estrelas, 2015, p. 120.