Por indicação de Nádia Gotlib fui ler a crônica de Lêdo Ivo sobre Clarice. O título é impactante: Clarice Lispector ou a travessia da infelicidade (Revista TriploV de artes, religiões e ciências - abril 2010). Gostei muito do trabalho. O autor sublinha um dado nem sempre lembrado pelos biógrafos de Clarice que é sua passagem por Maceió. A família em sua sofrida itinerância chega em Maceió e "pôde enfim respirar o ar de segurança e esperança numa cidade nordestina". Ele fala sobre o grande impacto em Clarice da "luminosidade solar" da cidade, tão diferente daquele neblina triste de Berna na Suiça, onde Clarice viveu suas mais duras depressões.
sexta-feira, 22 de outubro de 2021
Clarice entre luminosidade e sombras
quinta-feira, 7 de outubro de 2021
O fardo dos inocentes: pedofilia na igreja católica
O fardo dos inocentes: pedofilia na igreja católica
No impressionante conto de Clarice Lispector, "A pecadora queimada e os anjos harmoniosos", a figura do sacerdote foi a que mais me marcou. Trata-se de alguém perpassado por dúvidas difíceis, diante da condenação de uma mulher que pecou. No fundo, ele está dilacerado diante do julgamento pois ninguém nesse mundo está livre de pecados e falhas. Em certo momento do conto ele relata: "Os inimigos do homem estão na sua própria casa". Sua grande dor estava em ser cúmplice de um "pecado de castigar o pecado".
sábado, 18 de setembro de 2021
Em busca de uma antropologia além do humano
Em busca de uma antropologia além do humano
Faustino Teixeira
É um tema que vem me ocupando nos últimos anos com grande entusiasmo, interesse e alegria. Essa questão de uma antropologia além do humano. Agora me deparo com esse espetacular número da Revista Cult (setembro 2021) com um especial sobre o tema. Fantástico. Vou me concentrar nos dois primeiros artigos.
O primeiro artigo é de Renato Sztutman. Ele fala sobre a importância de retomar o animismo, como reação ao projeto racionalista da modernidade. Sinaliza o gesto inaugural de Plilippe Descola, já em 1986, ao falar sobre o tema. A questão foi desdobrado com rigor no livro Par-dellà nature e culture (2005). Na visão dos animistas, diferentemente dos naturalistas, o que há “é uma mesma ´alma humana` que se distribui entre todos os seres do cosmos”.
O tema vem igualmente abordado em perspectiva uma pouco distinta no Perspectivismo, que resguarda um “certo antropomorfismo”. As prerrogativas humanas, sinaliza o autor, deixam “de ser exclusividade da espécie humana, assumindo as formas mais diversas”.
Um bom exemplo de reflexão sobre o tema, encontramos no livro de Bruce Albert e Davi Kopenawa: A queda do céu, publicado originalmente em francês, a0 anos antes de sair no Brasil. Na visão de Kopenawa, portanto dos Yanomamis, quandos os xamãs “inalam a yãcoana (pó psicótico), seus olhos ´morrem` e – mudando de perspectiva – eles acessam a realidade invisível dos xapirape, que se apresentam numa grande festa, dançando e cantando, adornados e brilhosos”. Como indica Kopenawa, os humanos são incapazer de ver, já que desconhecem profundamente a terra floresta (urihi).
Também Tim Ingold trata do animismo em seus livros de 2000 e 2011, esse último publicado no Brasil (Estar vivo). Sua ocular é um pouco distinta da de Descola e Viveiros de Castro: “Diferentes povos partilhariam o que ele chama de uma ´percepção anímica do mundo`, que privilegia as relações e o movimento em detrimento dos contornos. Quando se habita o mundo, diz Ingold, tudo parece ter vida e, portanto, ter ´alma`”. O autor está abraçando, assim, uma “biologia relacional`, onde “os organismos, as espécies e os coletivos permanecem em processo contínuo de composição”.
Essas distintas propostas têm em comum a busca de uma solução animista para as “visões naturalistas e racionalistas, que impõem uma barreira entre sujeito (humano) e o mundo”. Buscam todos uma “descolonização do pensamento” para usar uma expressão de Viveiros de Castro.
Retomar o animismo, como lembrou, por exemplo, Isabelle Stengers, é “uma forma de existência e de resistência”. É o desafio de “ir além da ´maldição da tolerância`” e também de “levar a sério asserções indígenas, por exemplo, de que uma rocha tem vida ou uma árvore pensa”. A “intrusão de Gaia”, como fala Stengers, revela-se “um chamado para a conexão entre práticas não hegemônicas – científicas, artísticas, políticas – e a possibilidade de recriar uma inteligência coletiva e imaginar novos mundos”.
Também insere-se nessa luta o pensador indígena brasileira, Ailton Krenak, em sua defesa da personalização do rio e da montanha. Retomar, portanto, o animismo “surge como um chamado de sobrevivência, como uma chance para reconstruir a vida e o sentido no tempo pós-pandêmico que há de vir”.
O segundo artigo de Joana Cabral de Oliveira, aborda a visão singular dos wajãpi, indígenas do Amapá. O traço mais interessante de sua reflexão, captando o olhar desse grupo indígena, é reconhecer que “a agricultura não é uma prerrogativa dos humanos, uma vez que a humanidade não é uma condição exclusiva, mas sim um atributo amplamente compartilhado por diversos seres”.
Ela descreve de forma bem interessante os roçados das sucuris, o papel dos tucanos na irradiação dos açaís e das cutias nos na irradiação dos castanhais. O que se dá é uma presença animada nas florestas, que são habitadas e cultivadas “por entes apenas aparentemente não-humanos”. O que ocorre na Amazônia, diz a autora, “são populações que interferem de forma comedida nas dinâmicas ecológicas, de modo a implementar a diversidade e propagar a vida”.
Na verdade, os humanos não são senão atores “entre outros, de uma paisagem multiespecífica”. Eles não usufruem de qualquer posição especial, e essa perspectiva acabou por exclusivizar o antropocentrismo e reforçar “o direito de tratar os demais viventes como recursos”.
Estamos bem cientes, como nos lembrou Stengers, de que Gaia é também intrusa. Como diz Joana, “o mundo é perigoso, há sempre o risco de vingança pela forma como se caça, como se derruba uma porção da floresta, como se planta ou se colhe algo. Não estamos diante de um estado idílico de comunhão pacata entre humanidade e natureza (numa típica relação entre sujeito e objeto), mas, sim, próximos a um mundo regido por relações sociais (entre sujeitos), no qual tensão e cuidado são os idiomas predominantes”.
Dica preciosa da autora, ao acentuar esses dois traços que estão diante de nós, nesse nosso momento sombrio: tensão e cuidado. O desafio de pensar para além do humano, abriu pistas fundamentais para “aprender a pensar-viver com os outros”, em direção a uma “etnografia multiespécies”. O desafio, por exemplo de “voltar olhares para as florestas e compreendê-las como ´cultas` - oriundas de uma relação com o cultivo empreendido por diferentes sujeitos e também por serem dotadas de algo que podemos chamar de conhecimento – é um movimento que se alinha a esse esforço de descentrar o humano do foco de análise”. Isso requer romper com o medo de um deslocamento de olhar, sendo capaz de perceber a dinâmica de “outros pensamentos”.
No terceiro artigo, que não vamos sintetizar, escrito por Igor Scaramuzzi, ele utiliza uma expressão que nos ajuda a assumir esse novo olhar ampliado. Trata-se de deixar-nos animar por uma atitude de cuidado e responsabilidade não só pelos humanos, mas também com outros seres vivos e entes que povoam o cosmos. Gostei muito dessa idéia: humanos, outros seres vivos e entes. Taí um caminho singular de abertura para a inter-relacionalidade de que tanto fala o papa Francisco, desde a encíclica Laudato si, sobre o cuidado da casa comum.
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
Catástrofes à vista
Catástrofes à vista
Faustino Teixeira
Impressionante constatar o rumo que o mundo vem tomando neste tempo do Antropoceno, que é a “era da perturbação humana”. O papa Francisco tem nos alertado recorrentemente sobre o risco das catástrofes produzidas pelo homem-humano. Sinaliza em sua encíclica sobre o cuidado da casa comum (Laudato si) que “se a tendência atual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e de uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós” (LS24). Fala ainda de outra questão grave que é o desaparecimento progressivo “de milhares de espécies vegetais e animais, que já não podemos conhecer, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre” (LS 33)
Nossos povos originários lançam também seu grito de alerta, como Ailton Krenak, em dois livros recentes: Ideias para adiar o fim do mundo(2019) e A vida não é útil(2020). No primeiro livro sublinha que “a gente não faz outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair”. No segundo, reconhece que “nós somos muito piores do que esse vírus que está sendo demonizado como a praga que veio para comer o mundo. Somos nós a praga que veio devorar o mundo”.
Na antropologia, o grito emerge de forma viva, em reflexões ameaçadoras, como as realizadas por Eduardo Viveiro de Castro e Deborah Danowski, no livro Há mundo por vir? (2014). O alerta deles é bem claro: cada vez há menos gente com mais mundo e mais gente com menos mundo. A cada dia nos deparamos com essa dura desigualdade de um “nós sem mundo”. Os autores nos alertam que já saímos da zona de segurança na ameaça global que está em curso: “a taxa da perda da biodiversidade, a interferência humana no ciclo de nitrogênio, e as mudanças climáticas”; e chegamos perto de outros limites como o “uso da água doce, mudança no uso da terra e a acidificação dos oceanos” (p. 20-21)
Igualmente a antropóloga Anna Tsing, em seu livro Viver nas ruínas (2019) toca na mesma questão da “mudança climática excessivamente rápida; extinções em massa; acidificação do oceano; contaminação da água doce; transições críticas do ecossistema”. E também do letal processo que vige a dinâmica da industrialização em nosso tempo. É o tempo da “Terra perseguida pelo Homem”.
Bruno Latour também não para de tocar no tema de tudo que envolve o “Novo Regime Climático”, do fenômeno das migrações e explosão da desigualdade. Assinala que o “solo está em vias de ceder”. Indica que a questão mais dramática de nosso tempo é que não temos mais onde aterrar num tempo difícil onde a cada dia vivemos o sentimento da privação da terra. Vivemos um momento duro de “perda de orientação” e será preciso “aterrar em algum lugar” (Veja o livro: Onde aterrar. Como se orientar politicamente no Antropoceno”.
E agora nos deparamos com o relatório lançado em agosto de 2021 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que aponta um horizonte devastador para toda a criação. Em artigo que aborda o limiar da catástrofe, publicado no O Globo de 10 de agosto de 2021, Renato Grandelle destaca alguns pontos desse importante relatório: “Ondas de calor castigam EUA, Canadá e Europa, enchentes assolam países europeus e a China, gelo derrete na Groelândia em velocidade recorde. Os eventos extremos que afetam o planeta nas últimas semanas serão cada vez mais comuns e intensos”. É o que diz o documento. Há uma previsão de aumento da temperatura global que pode alcançar em breve 1,5 graus Celcius, e isso já na próxima década. Se não hover providências urgentes, a temperatura média do planeta poderá chegar a 4,4 graus Celcius até o final do século. A concentração de gás carbônico (CO2) na atmosfera no ano de 2019 “atingiu o seu maior nível dos últimos 2 milhões de anos”.
domingo, 18 de julho de 2021
Papa Francisco, repouso e compaixão
Papa Francisco: repouso e compaixão
Faustino Teixeira
Amanheci hoje encantado com as palavras de Francisco do Angelus, nessa manhã de 18 de julho de 2021.
quinta-feira, 15 de julho de 2021
Formas de resistência nos tempos do Antropoceno
Formas de resistência nos tempos do Antropoceno
Faustino Teixeira
PPCIR/UFJF – Paz e Bem – IHU
Assisti hoje, pela quarta vez o vídeo de Donna Haraway em torno da questão do Antropoceno, Captaloceno e Chthuluceno, em entrevista[1]concedida a Juliana Fausto, Eduardo Viveiros de Castro e Deborah Danowski por ocasião do Colóquio Internacional Mil nomes de Gaia[2]. É uma fala impressionante e muito atual. Assisti também o interessante vídeo com a reação de Eduardo Viveiros de Castro e Juliana Fausto, na sequência da exibição do vídeo de Donna Haraway[3].
Fui novamente aos vídeos em razão da leitura que venho fazendo de Bruno Latour, no seu recente livro: Où suis-je? Leçons du confinement à l´usage des terrestres[4].
Alguns autores que vêm trabalhando o tema, buscam uma perspectiva não catastrofista, centrada no ideia de "fim de mundo". São autores que discernem saídas interessantes, como a antropóloga Anna Tsing, em seu livro: Viver nas ruínas (2019)[5]. Ela fala em ressurgências, mesmo entre os destroços. Para a autora,
“perturbações humanas e de outros, suprimem assembleias multiespecíficas – todavia as ecologias habitáveis retornam. Depois de um incêndio florestal, as mudas brotam nas cinzas e, com o passar do tempo, outra floresta pode crescer após a queimada. A floresta em crescimento é um exemplo do que estou chamando de ressurgência”[6].
Trata-se de um trabalho de regeneração que envolve muitos organismos, que em negociação com as diferenças “forjam assembleias de habitabilidade multiespécies em meio às perturbações”[7]. O nosso tempo do Antropoceno, que é tempo da “Terra perseguida pelo homem”, ameaça radicalmente a habitabilidade de múltiplas espécies, mas não é o fechamento de possibilidades de ressurgências.
Situações sérias ameaçam o equilíbrio do planeta como a rápida mudança climática, as extinções em massa, a acidificação do oceano, a poluição desenfreada, a contaminação da água doce e os caminhos da industrialização. Mas, de forma impressionante, novas formas de vida ressurgem mesmo em ambientes devastados. Para Tsing, o risco do apocalipse serve de alerta para uma maior atenção às ruínas e um sinal para o aumento de nossa consciência crítica.
Bruno Latour igualmente tem falado em "gestos barreiras"[8]ou capacidade de viver de outro modo nesse tempo difícil. Ele louva o papa Francisco na sua encíclica sobre o cuidado da casa comum[9]por conseguir apontar caminhos de resistência ao antropoceno que são fundamentais. Faz referência a ele no seu livro Diante de Gaia[10]. Para Latour, a encíclica foi uma “feliz surpresa”, entendida como um retorno ao Cântico das criaturas, de Francisco de Assis. Trata-se de uma encíclica que reconecta a ecologia à política[11].
Para Latour, o papa Francisco busca uma pista religiosa que considera a singularidade fundamental do aqui e agora, rompendo com a noção de uma religiosidade do para além. Como diz Latour, não mais o alto e o baixo, o material e o espiritual, mas "a tensão entre a via na terra e a via com a Terra". O autor retoma o elogio a Francisco no seu recente livro, Où suis je(2021), assinalando que o papa indica a possibilidade de uma nova maneira de viver em nosso tempo de crise, com uma perspectiva eclesial de abertura, voltada para o aquém, preocupado com o destino da Terra. Não mais o “o alto e o baixo, não mais o material e o espiritual, mas a tensão entre a vida na terra e a vida com a Terra”[12].
Donna Haraway, como vemos no vídeo citado, fala em "viver com o problema", com suas alegrias e terror. Isso requer “gerar parentescos raros: nos necessitamos reciprocamente em colaborações e combinações inesperadas”[13]. Sua proposta enfática acentua um devir de uns com os outros, enquanto "espécies companheiras". Ela assevera a importância de não se escapar dos problemas e indica que temos que aprender a cada dia conviver e habitar "na barriga do monstro", buscando o exercício de alinhamentos e diplomacia. O que significa fazer aliados entre os inimigos. É uma tese ousada, que assusta Viveiros de Castro, com seu tradicional anarquismo. Mas vejo a hipótese como importante e plausível.
[1]https://www.youtube.com/watch?v=1x0oxUHOlA8&t=7s(acesso em 14/07/2021). A entrevista foi feita em 21/08/2014 e exibida em 18/09/2014.
[2]O colóquio ocorreu no Rio de Janeiro entre os dias 15 a 19 de setembro de 2014.
[3]https://www.youtube.com/watch?v=Qg0oyW9-rA0(acesso em 14/07/2021)
[4]Bruno Latour. Où suis-je. Leçons du confinement à l´usagte des terrestres. Paris: La Découverte, 2021.
[5]Anna Tsing. Viver nas ruínas. Paisagens multiespécies no Antropoceno. Brasília: IEB Mil Folhas, 2019.
[6]Ibidem, p. 226.
[7]Ibidem, p. 226.
[8]Bruno Latour. Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020, p. 131.
[9]Papa Francisco. Carta encíclica Laudato si. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.
[10]Bruno Latour. Diante de Gaia. Oito conferências sobre a natureza do Antropoceno. São Paulo: Ubueditora/Ateliê de Humanidades, 2020.
[11]Ibidem, p. 445-446.
[12]Bruno Latour. Où suis-je, p. 74.
[13]Donna J. Haraway. Seguir cone l problema. Generar parentesco en Chthuluceno. Bilbao: Consonni, 2020, p. 24.
segunda-feira, 12 de julho de 2021
Uma reflexão sobre São Bernardo de Graciliano Ramos
Uma reflexão sobre São Bernardo de Graciliano Ramos
Faustino Teixeira
PPCIR/UFJF/ Paz e Bem e IHU
Num projeto bem interessante levado adiante no Paz e Bem, em parceria com o IHU, da Unisinos, sobre cinema em perspectiva, debatemos no dia 07 de julho de 2021, o filme de Leon Hirszman sobre o romance de Graça: São Bernardo. O debatedor era o médico e estudioso de cinema, Angelo Atalla, com interlocuções minha e de Mauro Lopes.
Fiquei responsável de falar resumidamente sobre o livro, e foi bem interessante. É uma obra que me encanta desde a juventude, e sobre ela já tinha feito menção em artigo escrito sobre o tema da saúde: O projeto ético como afirmação de saúde[1].
O romance São Bernardo, de 1934, retrata de maneira admirável a construção de um personagem, Paulo Honório, que representa alguém seduzido pela sede de poder e que não vacila diante dos meios para alcançar o domínio de todos. Tudo o que importa é possuir e dirigir o mundo. Esse perfil traçado por Graciliano Ramos expressa de forma viva o horizonte de muitos de nossos contemporâneos, que raramente se colocaram ou colocam seriamente a questão do sentido. O filósofo francês, Luc Ferry (1966), sublinha em seu livro L´homme-Dieu ou le sens de la vie(1996), que em nossa vida cotidiana quase sempre nos escapa o significado último de nossas atividades consideradas “úteis”, ou seja, o sentido do sentido.
O romance de Graça foi escrito antes que ocorresse a consolidação das Leis de Trabalho, criada em 1943, e descreve uma difícil situação de exclusão dos mais sagrados direitos dos trabalhadores. Para entender o romance pude me servir de dois artigos essenciais escritos por Luiz Costa Lima[2]e Antonio Candido[3].
Na visão de Antonio Candido, o livro de Graça é “curto, direto e bruto”. São raros os livros que se apresentam como o dele
“tão honestos nos meios empregados e tão despidos de recursos; e esta força parece provir da unidade violenta que o autor lhe imprimiu. Os personagens e as coisas surgem nele como mera modalidades do narrador, Paulo Honório, ante cuja personalidade dominadora se amesquinham frágeis e distantes. Mas Paulo Honório, por sua vez, é modalidade duma força que o transcende e em função do qual vive: o sentimento de propriedade”[4].
Aqui está a chave de compreensão do romance: um personagem que busca ardentemente fazer com que tudo se encaixe como propriedade sua. E foi um processo crescente de bestialização. No início, era alguém pobre, guia de cego, filhos de pais desconhecidos e que foi criado pela preta Margarida. Aos poucos foi sendo dominado pela vontade de poder, elevando-se a grande fazendeiro, “respeitado e temido, graças à tenacidade infatigável com que manobrou a vida, pisando escrúpulos e visando o alvo por todos os meios”[5]. É um homem marcado pelo sentimento fixo de propriedade. Os outros lhe interessam na medida em que se ligam a seus negócios, como mercadorias. E diz com tranquilidade que fez coisas boas que lhe trouxeram prejuízo e coisas ruins que lhe proporcionaram lucro. A lógica que rege a sua conduta é a do utilitarismo, e quando relata os passos de sua vida a estética de sua escrita “é a da poupança”. Como diziam os caboclos da região, “todo caminho dá na venda”.
Paulo Honório tem um olhar quantificado. Mesmo quando pensa na construção da igreja e da escola, sua reflexão restinge-se ao poder de capital que isso implica. O personagem diz, à certa altura:
“A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem. Mas mulher sem religião é horrível”[6].
Como assinala Costa Lima, “a educação, a religião e as criaturas servem e são aceitas pelo proprietário conquanto não pretendam ser mais dos que instrumentos de lucro e de defesa da propriedade”[7].
Em certo momento pensa em se casar, mas não propriamente por amor, mas para conseguir um herdeiro para sua propriedade de São Bernardo. Sublinha: “Amanheci um dia pensando em casar”. Isso não por amor, pois achava mulher “um bicho difícil esquisito, difícil de governar”. Queria mesmo era um herdeiro para as terras que tinha adquirido. Foi ao encontro de Madalena, que seria sua esposa, uma mulher que ele reconhecia como bondosa, mas que nunca se revelou integralmente a ele[8]. E ele reconhece que isso se deveu à sua vida e alma agrestes. A bondade de Madalena revelou-se ameaçadora para Paulo Honório, porque ameaçava “a hierarquia fundamental da propriedade e a couraça moral com que foi possível obtê-la”[9].
Madalena destoava por sua bondade e desejo humanitário. Seus pensamentos e atos revelavam alguém que colidia com a visão de Paulo Honório. Ele vai percebendo com horror a fraternidade de Madalena e seu “sentimento incompreensível de participar da vida dos desvalidos”[10]. Acabou sendo tomado por um ciúme mortal. Até então “ninguém fazia sombra a Paulo Honório; agora, eis que alguém vai destruindo a sua soberania; alguém brotado da necessidade patriarcal de preservar a propriedade no tempo, e que ameaça perde-la”[11]. Madalena acaba acuada e brutalizada, pois era a única “coisa” que Paulo Honório não conseguiu quantificar. Ela, que chegara em São Bernardo “cheia de bons sentimentos e bons propósitos” esbarrou na brutalidade e egoísmo de Paulo Honório[12]. Acabou não resistindo ao jeito brutal de seu marido e suicidou.
Costa Lima, em sua leitura do romance, identifica a ideia de reificação, tomada de autores marxistas como György Lukács e Lucien Goldmann. Com base em Marx, Goldmann sinalizou que
“já na sociedade capitalista liberal, as relações entre os homens tinham perdido muito de seu caráter qualitativo e humano para se transformarem em simples relações quantitativas. Além disso, sua essência como relações sociais e interumanas desaparecia da consciência dos homens para reaparecer sob forma reificada como propriedade das coisas”[13].
Talvez desconhecida por Graça, essa categoria marxista encaixa-se como luva para compreender Paulo Honório. A tragédia do personagem do livro ocorre em razão dessa reificação. Ela tem
“suas raízes na reificação da vida e dos valores estabelecida pelo seu afã de posse de S. Bernardo. É este o elemento que constitui o eixo de orientação do romance. Por ele, Paulo Honório ´seleciona` da vida e do mundo os seus aspectos meramente quantitativos ou reduzíveis à quantidade”[14].
Como romance “bruto”, podemos também verificar a ausência da presença da natureza como “modo de paisagem”. Em verdade “o verde das folhas, o fluir dos rios, as cores das faces e dos cabelos não combinam com o drama seco, com o lirismo desnudado com que o escritor traduz o seu nordeste”[15]. Não há no romance uma única descrição da paisagem, como indica Antonio Candido. Quando fala do Rio, é “para se falar do açude que constrói Paulo Honório”, e dos matos é para narrar “da limpa para os cultivos”[16]. O personagem “não vê propriamente a natureza, pois repara apenas nas coisas que lhe pudessem ser rendosas”[17]. E esse mundo quantitativo será aquele que o esmagará. Paulo Honório reificado foi fruto da estrutura social que o devorou.
Segundo Antonio Candido, o romance vem movido por dois movimentos que o integram: “a violência do protagonista contra homens e coisas” e “a violência contra si mesmo”[18]. Como consequência inevitável, o seu “aniquilamento espiritual”. E sua derrota vem descrita por ele com extremo realismo, uma vez dominado pela profunda solidão que foi fruto de sua ação entre os outros. Ele afirma no capítulo 19:
“Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas – e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam (...). Emoções indefiníveis me agitam – inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração”[19].
No capítulo final do livro Paulo Honório faz menção aos dois anos da morte de Madalena. Anos que foram difíceis. Assim nasceu a vontade de escrever sobre sua história. Assinala que depois da morte de sua esposa procura “descascar fatos” sentado à mesa da sala de jantar, com o seu cachimbo e o seu café, sobretudo à noite com o cantar dos grilos. Dentre as coisas que relata, com sua vida reificada, sublinha:
“Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde (...). Até hoje, graças a Deus, nunca um médico me entrou em casa. Não tenho doença alguma. O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para que! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo?”[20].
Paulo Honório, em seu relato, conclui que todos com os quais tratou durante a vida, todos os que o serviram, não passavam de bichos[21]. Em sua reflexão à noite, sentado à mesa de jantar, sublinha que seu modo de vida inutilizou-o: “Hoje não canto nem rio. Se me vejo ao espelho, a dureza da boca e a dureza dos olhos me descontentam”[22]. O que resta é um homem alquebrado e transformado, incapaz de qualquer nova mudança. Ainda reflete: “Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes”[23]. Com a sensibilidade embotada é incapaz de ouvir o choro de seu filho, pois nem a ele sente mais amizade. São deformidades monstruosas que o assomam, mostrando sua face embrutecida.
Na mesa em que está sentado, a vela vai se consumindo junto com suas reflexões. Uma cena que também está presente de forma maravilhosa nos dez últimos minutos do filme de Leon Hirszman. Lá fora da fazenda, a noite se desenrola, numa “treva dos diabos” e num silêncio atordoante. O personagem conclui de forma seca: “Vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos”[24].
Estamos, sem dúvida, diante de um dos mais lindos romances nacionais, que descreve com uma clareza impar o processo de degeneração do homem humano, para utilizar uma expressão de Guimarães Rosa. Uma redação limpa e curta para descrever a dinâmica da reificação de um personagem. Com meios modestos mas honestos de redação, Graça consegue como poucos tocar na nervura do real, acendendo para nós a “unidade violenta” de uma vida desprovida de significados. Paulo Honório, ao “vencer” na vida acabou vencido por ela, “pois a imprimir a sua marca ela o inabilitou para as aventuras da afetividade e do lazer”[25].
[1]Faustino Teixeira. O projeto ético como afirmação de saúde. Revista de APS, Ano 3, n. 7, dez/2000 a mai/2001, p. 8-14.
[2]Luiz Costa Lima. A reificação de Paulo Honório. In: ____. Por que literatura? Petrópolis: Vozes, 1969, p. 49-70.
[3]Antonio Candido. Ficção e confissão. São Paulo: Editora 34, 1992 (em especial nas p. 24-33.
[4]Ibidem, p. 24.
[5]Ibidem, p. 24.
[6]Graciliano Ramos. São Bernardo. 23 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1974, p. 143 (capítulo 24).
[7]Luiz Costa Lima. A reificação de Paulo Honório, p. 65.
[8]Graciliano Ramos. São Bernardo, p. 115. Na visão de Antonio Candido esse capítulo 24 do livro é “um dos mais belos trechos da nossa prosa contemporânea”.
[9]Antonio Candido. Ficção e confissão, p. 27.
[10]Ibidem, p. 26.
[11]Ibidem, p. 27.
[12]Graciliano Ramos. São Bernardo, p. 193.
[13]Lucien Goldmann. Crítica e dogmatismo na cultura moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1973, p. 23.
[14]Luiz Costa Lima. A reificação de Paulo Honório, p. 53.
[15]Ibidem, p. 55.
[16]Ibidem, p. 56.
[17]Ibidem, p. 57.
[18]Antonio Candido. Ficção e confissão, p. 29.
[19]Graciliano Ramos. São Bernardo, p. 115.
[20]Ibidem, p. 188.
[21]Ibidem, p. 189.
[22]Ibidem, p. 192.
[23]Ibidem, p. 194
[24]Ibidem, p. 194
[25]Antonio Candido. Ficção e confissão, p. 28.