domingo, 18 de setembro de 2016

Assis, um acontecimento do Espírito

Assis, um acontecimento do Espírito

ENTREVISTA IHU – FAUSTINO TEIXEIRA

O que é, como e por quais razões surgiu a Jornada Mundial de Oração pela Paz, realizada em 1986 na cidade de Assis, na Itália?  Quais foram as lideranças religiosas mundiais que participaram desse encontro há 30 anos?  Pode nos contar a história da Jornada Mundial de Oração pela Paz?

O evento de Assis foi precedido por duas viagens do papa João Paulo II com colorações inter-religiosas bem decisivas. Em agosto de 1985, esteve em Casablanca falando para os jovens muçulmanos. O espírito que movia o pontífice era de abertura. Sublinhou para eles que é o mesmo Deus que une na crença muçulmanos e cristãos. Falou também do respeito requerido pelo diálogo inter-religioso, envolvendo uma bonita dinâmica de reciprocidade. Sobre os caminhos de Deus, indicou que eles nem sempre coincidem com os caminhos particulares trilhados pelas religiões, envolvendo um marco referencial de transcendência. Reiterou o respeito da Igreja Católica pelos muçulmanos e em particular o reconhecimento da “qualidade” do caminho religioso por eles seguido. Em fevereiro do ano seguinte, 1986, visita a Índia, e outras reflexões novidadeiras acontecem, indicando o apreço e o respeito da comunidade católica por aquilo que une as duas tradições religiosas. Bonita a imagem cunhada pelo papa em sua visita, dizendo que o ser humano é um “peregrino do absoluto”, na busca do rosto de Deus. Em passagem muito citada de seu discurso aos representantes das várias religiões da Índia, João Paulo II sublinha que mediante o diálogo é Deus mesmo que se faz presente entre os interlocutores, pois através da abertura mútua ocorre também a abertura a Deus.

A ideia inicial de um evento inter-religioso em Assis nasceu também do encorajamento recebido pelo papa em sua viagem a Índia. E a ocasião era propícia, pois 1986 tinha sido escolhido pela ONU como o Ano Internacional da Paz. Havia também a intenção de explicitar o “empenho ecumênico” da Igreja em favor do diálogo, na trilha do Concílio Vaticano II (1962-1965). Foi como uma “ilustração visível” daquela perspectiva de aggiornamento eclesial. Tratava-se de uma experiência inaugural, congregando distintas tradições religiosas num empenho comum em favor da paz, mas buscando apontar uma “outra dimensão”, escondida, de promoção da paz através da oração partilhada; um momento nobre para reforçar a “qualidade transcendente da paz”.

            O evento contou com a participação de lideranças de diversas Igrejas cristãs, bem como de outras tradições religiosas: budistas, judeus, muçulmanos, hindus, xintoístas, Sikhs, jainistas, bahaístas, zoroastristas e religiões tradicionais da África e da América. Foram 124 lideranças que responderam positivamente ao convite de Roma, dentre elas Dalai Lama (Budismo Tibetano), Robert Runcie (Arcebispo de Cantuária) e Elia Toaf (Grande Rabino de Roma).

            O encontro de Assis, realizado em 27 de outubro de 1986, foi de fato uma experiência de oração, penitência e jejum, como uma “viagem” silenciosa tocada pelo Mistério Maior, uma “viagem fraterna” de irmandade e partilha, antecipando de certa forma o sonho maior querido por Deus em favor de uma humanidade renovada. Ali ocorria de fato, para além das intenções dos idealizadores, o reconhecimento da dignidade sagrada das religiões e a abertura de um campo inusitado para o diálogo efetivo entre as religiões. O evento teve três momentos. Inicialmente a acolhida do papa aos participantes na Basílica de Santa Maria dos Anjos, com um discurso de boas vindas. Num segundo momento, as diversas delegações seguiram em silêncio para os distintos locais da cidade medieval destacados para as orações particulares. Ao momento da oração particular seguiu-se um cortejo, um tempo de peregrinação, quando então os participantes seguiram em direção à praça central da cidade, situada em frente à Basílica de São Francisco, para o ato conclusivo da Jornada. Depois de uma breve introdução feita pelo cardeal Etchegaray, as diversas tradições religiosas presentes se sucederam, uma após outra, apresentando sua própria oração. O ato veio concluído com um discurso do papa.

Como esse encontro foi sendo retomado ao longo desses 30 anos e de que modo tem abordado e proposto a discussão do diálogo inter-religioso?

           A Jornada de Assis foi um ponto de partida, acentuando que a Paz é uma “responsabilidade universal”, e que as religiões têm um papel decisivo em sua defesa. E nessa luta, o que vale é a busca de unidade, que é “radical, basilar e determinante”, superando largamente as diferenças. Esse foi o ponto alto desse primeiro evento em Assis. Esse “espírito de Assis” ganhou continuidade em três outros eventos importantes, também realizados na mesma cidade. O primeiro, nos dias 09 e 10 de janeiro de 1993, com o convite inter-religioso à oração e ao jejum pela paz na Europa, especialmente nos Balcãs. O segundo, em janeiro de 2002, com outra jornada de oração visando uma tomada de atenção diante do agravamento das tensões existentes no cenário internacional. O terceiro, durante o pontificado de Bento XVI, em outubro de 2011. Esse “espírito de Assis” vai receber decidida acolhida no pontificado do papa Francisco.

Como a Jornada Mundial de Oração pela Paz recebeu e dialogou com o Concílio Vaticano II?

            Como se podia esperar, o evento de Assis causou muito constrangimento em setores mais conservadores da Igreja Católica, sobretudo na cúria romana. Para o bispo conservador, Marcel Lefebvre, o encontro inter-religioso de Assis significou “o cúmulo da impostura e do insulto a Nosso Senhor”. A seu ver, uma “blasfêmia pública” e uma degeneração herética. Outras críticas mais sutis vieram de setores da cúria romana, também insatisfeitos com o significado e as repercussões do evento. O temor maior era o de “sincretismo religioso”.  Também o cardeal Ratzinger não mostrou maior entusiasmo pela experiência, preferindo manter uma “reserva mais que morna”. No livro publicado no ano anterior, Rapporto sulla fede (1985), tinha já sublinhado o risco da tendência de uma ênfase excessiva nos valores da religiões não cristãs. O caminho seguido por João Paulo II, diante das resistências encontradas, foi explicar mais claramente o significado do evento em discurso proferido na cúria romana em 22 de dezembro de 1986. Ali então explicitou a afinidade da Jornada com o Concílio Vaticano II. O evento de Assis para ele não era senão uma “ilustração visível, uma lição dos fatos, uma catequese compreensível a todos, daquilo que pressupõe e significa o esforço ecumênico e o esforço pelo diálogo inter-religioso recomendado e promovido pelo Concílio Vaticano II”.

Quais são os resultados práticos oriundos da Jornada Mundial de Oração pela Paz?

           Em primeiro lugar, uma chamada radical de atenção em favor da Paz. Esse foi o toque essencial do evento. Não há saída favorável para a humanidade senão através da luta em favor da paz. Um desafio que deve tomar o coração das religiões, com a consciência viva de que estamos diante de duas únicas possibilidades: ou a verdadeira paz ou a guerra catastrófica. E as religiões são portadoras de um importante patrimônio nessa urgente tarefa, favorecendo um consenso de fundo na afirmação de valores essenciais e vinculantes como a solidariedade, a hospitalidade e o cuidado. E igualmente um papel decisivo no reforço da renovação espiritual da humanidade. Um outro resultado prático do evento de Assis foi apontar a dignidade das religiões e um estímulo singular em favor do diálogo. O belo cenário propiciado pelo evento de Assis, com a união das diversas representações religiosas, indicava um novo sinal dos tempos. A nova imagem rompia com o peso histórico de séculos de intolerância, de lutas religiosas e antagonismos étnicos. A unidade estava sendo agora construída em torno da oração. Como sublinhou Dalai Lama, a diversidade das religiões deixa se ser um “problema incômodo, mas um adorno do espírito humano e de sua longa história”.

Qual deve ser a peculiaridade da Jornada Mundial de Oração pela Paz a ser realizada entre os dias 18 e 20 de setembro, em Assis, em relação às demais? A quais instituições pertencem as 400 lideranças religiosas que irão participar do encontro? 

            O papa João Paulo II enfatizou por ocasião do primeiro evento em Assis que o empenho pela Paz não é algo esporádico, mas um compromisso a ser realizado “todos os dias da nossa vida”. Daí a preocupação em favor de uma continuidade dos eventos com o comprometimento das diversas tradições religiosas. Festejando agora em setembro os trinta anos do histórico acontecimento de Assis, mais um Encontro Mundial de Oração pela Paz, desta vez promovido pela Comunidade de Santo Egídio, em colaboração com as Famílias Franciscanas e a Diocese de Assis. A previsão é de dois dias de painéis de discussão concluídos com uma jornada de oração. O papa Francisco confirmou sua presença, assim como o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, e 400 delegações envolvendo outras lideranças religiosas, mas também representações políticas e do mundo da cultura.

O encontro a ser realizado em Assis tem como título, “Sede de paz. Religiões e culturas em diálogo”. Qual é o significado desse tema neste momento histórico, em que a guerras em curso no Oriente Médio e na África e a Europa vive o drama das imigrações, por exemplo?

           Nesses tempos marcados pelo agravamento do “desgaste da compaixão” a urgência do apelo em favor da paz brada aos céus e convoca todas as religiões. Essa “sede de Paz” deve se irradiar por todo canto, esse é o lema que acompanha o evento. Na visão do líder da comunidade franciscana de Assis, frei Mauro Gambetti, “diante da violência furiosa, as religiões devem dar ao mundo uma mensagem convergente”.   

Qual é a relevância dos documentos A igreja e as outras religiões – Diálogo e Missão (1984 – Secretariado para os não-cristãos) e Diálogo e Anúncio(1991 – Pontifícia Comissão para o Diálogo Interreligioso) e qual é a contribuição dos teólogos Pietro Rossano e Jacques Dupuis para as discussões sobre o diálogo inter-religioso e a temática da paz?

          A meu ver, esses são os dois documentos mais abertos produzidos pela comunidade católica sobre o tema do diálogo entre as religiões. O primeiro, Diálogo e Missão, foi publicado  em junho de 1984 pelo então Secretariado para os Não-Cristãos. Na ocasião, o cardeal Francis Arinze estava na direção do dicastério romano, sendo o secretário Marcello Zago, conhecido por seu empenho em favor do diálogo. O documento é belíssimo, dedicando uma de suas partes ao tema das formas de diálogo. Reconhece que em âmbito mais profundo do diálogo, que toca a partilha das experiências de oração e contemplação, ocorre um “enriquecimento recíproco e cooperação fecunda, na promoção e preservação dos valores e dos ideais espirituais mais altos do homem”. Trata-se do momento singular em que a fé “não se detém diante das diferenças” abrindo-se ao Mistério maior de Deus, de todas as riquezas de sua “sabedoria infinita e multiforme”, do Deus “que é maior do que o nosso coração” (1 Jo 3,20). Quanto ao outro documento, Diálogo e Anúncio, do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso em parceria com a Congregação para a Evangelização dos Povos (1991), também situado no periodo da presidência do cardeal Francis Arinze, a linha reflexiva é bem consoante com o documento anterior. O texto contou com a preciosa assessoria do teólogo Jacques Dupuis. Vale registrar um de seus pontos nodais, quando reconhece a presença do mistério de salvação nas outras religiões, que respondem afirmativamente ao convite de Deus “através da prática daquilo que é bom” em suas próprias tradições. Em nenhum outro documento do magistério eclesial a reflexão sobre o tema havia alcançado tal patamar. O documento passou por cinco redações, sofrendo algumas mudanças importantes, sugeridas sobretudo pelo influxo mais moderado dos participantes da Congregação para a Evangelização dos Povos, cujo prefeito era na ocasião o cardeal Tomko. Os caminhos de abertura presentes nos dois documentos citados foram preparados por presenças singulares como a de Pietro Rossano. Ele foi professor de teologia das religiões na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, bem como nas universidades Urbaniana e Lateranense. Teve também singular atuação no Secretariado para os Não-Cristãos, a partir de 1973, quando foi designado como secretário desse dicastério romano. Foi talvez um dos nomes marcantes na defesa de um novo “estilo dialogal” para a igreja católica, pontuado pela abertura fraterna, de respeito e atenção cuidadosa ao outro, sobretudo aos caminhos inusitados do Espírito.

Como o papa Francisco está retomando o “Espírito de Assis” neste momento? 

            De fato, o papa Fracisco vem retomando com ênfase esse “Espírto de Assis”, com gestos de compromisso e abertura que encantam a todos, ou quase todos (sic!). O seu magistério vem marcado pela ênfase na Misericórdia e na Solidariedade. Como mote contínuo a convocação feita a toda a Igreja no sentido de “alongar mais o olhar e abrir os ouvidos ao clamor dos outros povos” (EG 190). Sua atenção ao tema dos refugiados e de busca da Paz é recorrente. O seu verbo preferido é Dialogar, envolvendo a todos nessa urgente sinfonia que busca transformar o mundo em espaço de fraternidade. Fala com ênfase na construção da Paz, que é tarefa “artesanal”, tecida a cada dia com o impulso dado por Jesus: “Felizes os pacificadores” (Mt 5,9). O caminho de Assis vem enriquecido com o toque da ampliação do Cuidado, que agora cobre também a Terra sofrida. É o mesmo amor doado por Deus que convoca a todos a uma luta que não se restringe ao âmbito da humanidade, envolvendo igualmente o planeta que habitamos, com seus dramas e cansaços, com seus anseios e esperanças.

Deseja acrescentar algo? 

             Sim, gostaria de falar sobre um dos temas mais polêmicos que envolveu a primeira Jornada de Assis, em 1986. Trata-se da questão da distinção entre o “estar juntos para rezar” e o “rezar juntos”. É uma distinção sutil, mas que causou muita polêmica, antes, durante e depois do evento. O temor constante, lembrado por vários segmentos, estava relacionado com a possibilidade de sincretismo. Era a palavra recorrente. Diante dos riscos de interpretação, o papa João Paulo II, já na audiência geral em Roma, em 22 de outubro de 1986, um pouco antes do evento acontecer, sinalizou o traço “exclusivamente religioso” da Jornada, indicando a fórmula escolhida: “estar junto para rezar”. Rebate a ideia de “rezar junto”, ou seja, de uma oração comum, e isto para resguardar o mistério de cada tradição e o devido respeito pela oração dos outros. Busca assim descartar qualquer risco de sincretismo no evento. Sobre o tema debruçou-se o teólogo Jacques Dupuis, em capítulo do livro O cristianismo e as religiões (2001), abordando a delicada questão da oração inter-religiosa. Mesmo reconhecendo que a fórmula “juntos para rezar” foi a que ficou consagrada no evento, lança algumas interrogações a respeito. O que adverte, com razão, é que seria um erro julgar que a fórmula usada em Assis seria a única possível, levando assim a “regras rígidas e estreitas”. Argumenta que sem dúvida as circunstâncias específicas do evento de Assis excluíam a possibilidade de uma oração comum partilhada, mas isso não significa que em outros casos e circunstâncias essa possibilidade teria que ser também abolida. O caminho indicado por ele passa pelo exame das situações concretas e de um juízo pastoral cincunstanciado. Indica, sim, claramente, a possibilidade de uma oração comum quando as religiões envolvidas inserem-se nos três ramos da tradição monoteísta: judaísmo, cristianismo e islã. E isto pelo fato das três beberem na mesma origem histórica da fé de Abraão. São três tradições que partilham a mesma ideia de Deus numa distinta compreensão de seu Mistério. Na oração comum entre cristãos e os “outros” a questão se complica um pouco mais, como indica Dupuis, o que porém não exclui experiências de oração que podem ser partilhadas, na medida em que os cristãos e os “outros” se colocam humildemente diante de um Mistério Maior, que escapa a qualquer representação mental adequada. E conclui com acerto: “Rezar juntos não será senão fazer com que possam, em certo sentido, se encontrar uns e ´outros` no Espírito de Deus, presente e operante em uns e outros”.

Publicado no IHU-Notícias de 18/09/2016:


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O espetáculo da Vida

O espetáculo da Vida

Faustino Teixeira


            A questão da espiritualidade vem ganhando uma atenção crescente nesse século XXI, numa perspectiva que é singular e que se distingue da religião. Identifica-se sobretudo como uma atitude que reintegra o lugar central da vida. Ela “nasce da gratuidade do mundo, da relação inclusiva, da comoção profunda, do sentido de comunhão que todas as coisas guardam entre si, da percepção do grande organismo cósmico, pervadido de acenos e sinais de uma Realidade mais alta e última”[1]. A espiritualidade diz respeito a “qualidades do espírito humano” (Dalai Lama) entre as quais podemos identificar o cuidado, que é uma dimensão ontológica do ser humano. É através do cuidado, do zelo, da diligência, do bom trato e da atenção que o ser humano revela a sua dimensão de generosidade essencial.

            Foi com essa chave significativa que Carolina Duarte empreendeu o seu lindo trabalho em torno da “Arte de Cuidar”, tendo por base a espiritualidade do cuidado na relação mãe-bebê[2]. Esse trabalho foi fruto de uma dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPCIR-UFJF). Como indicou a autora no resumo de sua reflexão, o objetivo visado com o trabalho foi mostrar como as “atitudes de cuidado que emergem a partir de uma consciência de espiritualidade cotidiana podem transformar a qualidade da interação entre mães e filhos, desde a fecundação até a primeira infância da criança”. A novidade da pesquisa, e a plausibilidade de sua inserção no campo das ciências da religião, foi desvelar a percepção do ato de nascer com uma visada espiritualizada. Esse clima espiritual envolveu todo o trabalho, desde a explosão da vida, na experiência primordial do nascimento até a acolhida dos cuidadores. E ao final, a compreensão viva de uma espiritualidade do cuidado.

            Trata-se de um tema inaugural nas ciências da religião no Brasil, revelando facetas singulares a serem investigadas e exploradas, com nuances de uma riqueza única. A abordagem do nascimento e seus desdobramentos a partir da chave do cuidado revela-se fascinante, e nesse caso particular, com um colorido ainda mais singular, em razão da autora ser também doula, ou seja, uma profissional que garante o suporte físico e emocional a outras mulheres antes, durante e depois do parto. Soma-se à pesquisa acadêmica o toque de uma experiência reveladora, que favorece novos e sensíveis ângulos de percepção.

            O nascimento é uma experiência fantástica, acompanhado de um encantamento de ressonância diversificada. Todos saem transformados. Como assinala Francisco Bosco, “quando nasce uma criança, todos na família renascem com ela. Um homem se torna agora sobretudo pai, e um pai se torna sobretudo avô. Uma mulher se torna mãe, e a mãe avó. Os irmãos se tornam tios, madrinhas e padrinhos. Uma criança redefine, a partir de sua existência, os papeis dos familiares e,  principalmente, religa-os, reinicia os vínculos já afrouxados pelo caminho natural da evolução do núcleo da família”[3].

            Grandes pensadores debruçaram-se sobre o tema da morte, como Martin Heidegger. Poucos dedicaram-se a pensar o momento do nascimento. Trata-se de um tema complexo e instigante, pois toca o fenômeno enigmático do “humano indistinto”. Um dos que se aventuraram a tratar a questão foi Winnicott, buscando captar esse traço apofático do ser humano no seu movimento constitutivo de aparecer no mundo. No estágio mais elementar, o que ocorre é uma relação indiferenciada, não só com o seio da mãe, mas também com os outros e o mundo. Trata-se de uma experiência fontal, inaugural, que parte desse momento ainda impreciso da indiferenciação, quando ainda nada significa a conformação do “eu sou”. A relação do bebê com o seio materno, nessa fase inicial, é indiferenciada: “o bebê e o objeto são um”. É quando começa, silenciosamente, a “parte mais inicial da construção da identidade”[4].

            Acolher a vida que brota é desdobrar-se em cuidados, tanto dos cuidadores primordiais, como a mãe e o pai, como os outros envolvidos nesta receptividade: a parteira, o médico e a doula. Através de um holding firma-se um campo de unidade, pontuado pelo amor como traço de uma emoção fundamental. Trata-se do suporte essencial para a acolhida do outro. É uma dinâmica que pode estar envolvida por uma espiritualidade iluminadora. É o que busca mostrar Carolina Duarte em seu livro. O nascimento é, sem dúvida, um espetáculo da vida, como tão bem mostrou Joo﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽rou Jomo t Carolina Duarte em seu livro. O nascimento a a acolhido do outro. dedicaram-se a pensar o momento do nascimão Cabral de Melo Neto com o personagem Seu José,  Mestre Carpina, de Morte e vida severina. O imprevisto nascimento de uma criança interrompe o grito desesperado do retirante Severino, que queria abreviar sua vida. Com sua sabedoria sertaneja, mestre Carpina traduz uma esperança nova, e assinala que a vida mesma responde a qualquer indagação com sua presença viva: “E não há melhor resposta que o espetáculo da vida”, mesmo quando surge “assim pequena”, mesmo quando brota assim “franzina”, “mesmo quando é a explosão de uma vida severina”[5].




[1] Leonardo BOFF. Ética da vida. A nova centralidade. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2009, p. 84.
[2] Carolina de Carvalho DUARTE GUIMARÃES. A arte de cuidar. Espiritualidade do cuidado na relação mãe-bebê. São Paulo: Fonte Editorial, 2016 (no prelo).
[3] Francisco BOSCO. Renascer. O Globo, 31/12/2014 (Coluna de F.Bosco).
[4] José Carlos MICHELAZZO. As habitações do humano como expressões do tempo: diálogo entre Heidegger e Dogen. In: Faustino TEIXEIRA (Org). Mística e literatura. São Paulo: Fonte Editorial, 2015, p. 52-54.
[5] João Cabral de MELO NETO. Morte e vida severina e outros poemas em voz alta. 8 ed. Rio de Janeiro: Agir, 1976, p. 115-116.

sábado, 3 de setembro de 2016

O cuidado com a Casa Comum

O cuidado com a Casa Comum

Faustino Teixeira


O dia primeiro de setembro de 2016 veio marcado por um belo gesto de papa Francisco, na mensagem que enviou ao mundo celebrando o dia mundial de oração pelo cuidado da criação[1]. No singelo e corajoso documento de Francisco o “ato de fé pelo planeta”, na expressão cunhada por Paula Ferreira em artigo publicado no O Globo (02/09/2016).

É um texto que nos convoca para a urgente vocação de “guardiões da criação”. O que vemos por todo lado, nesse tempo do antropoceno, é uma “exploração irresponsável do planeta”, onde os mais vulneráveis são os “pobres do mundo”. Dentre as irradiações letais, o violento aquecimento do planeta, que em 2015 atingiu um auge inusitado. Como diz Francisco, “as mudanças climáticas contribuem também para a dolorosa crise dos migrantes forçados”.

Em linha de sintonia com a ecologia integral, Francisco reitera a nota que vem sublinhando desde a encíclica Laudato si ( maio de 2015)[2], em torno da profunda ligação que irmana os seres humanos entre si e com a criação. O ataque à natureza traduz, sem dúvida, um ataque ao ser humano. Em verdade, “cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado”. É uma reflexão que vem corroborar toda uma linha de pesquisa presente hoje na antropologia, que rebate a cisão tradicional entre natureza e cultura. A sociedade e o ambiente não são realidades descoladas, mas intimamente entrelaçadas numa rede de vida e criação. Os humanos, ao contrário do que se propagou no Ocidente pós-cartesiano, não são o “umbigo do mundo”,  mas “parte do vivente”. Estão envolvidos na textura do mundo. Não estão aí apenas para ocupar o mundo, mas para habitá-lo com respeito e cuidado. Tudo aquilo que vem brindado com o toque da vida sinaliza um movimento de ressonância fundamental. O espaço da criação é um espaço de movimento: tudo vem marcado pela fragrância da vida, deixando trilhas abertas e interativas. O meio ambiente, como tão bem mostrou Tim Ingold, é “em primeiro lugar, um mundo no qual vivemos, e não um mundo para o qual olhamos”.

A mensagem de Francisco traduz uma preocupação que é comum a muitas lideranças religiosas de tradições distintas, como o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, que em novembro de 1997 dizia em discurso na Califórnia que o ardor destrutivo do ser humano diante da biodiversidade traduz um “pecado contra Deus”. Assim também o suave monge do Vietnã, Thich Nhat Hanh, em Carta de amor à mãe terra (2013), insiste sobre o traço vivo da Terra e a dimensão de co-pertença do humano a este “belíssimo e generoso planeta”. Não pode haver sentimento de separação, pois tudo que advém de nós e que nos alcança de fora provém da Terra. Ela não é simplesmente o ambiente em que vivemos, mas tecido que anima a nossa existência: nós somos Terra.

Em sua ardente mensagem, Francisco convoca a um exame de consciência, a “consciência amorosa de não estar  separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal”. Há um toque de graça em sua reflexão, ao indicar com vitalidade o mundo como um “dom recebido do amor do Pai”. Um exame de consciência que envolve uma mudança radical de rumo e o deixar-se habitar por uma espiritualidade da criação. De fato, como diz Francisco, “o cuidado da natureza faz parte dum estilo de vida que implica capacidade de viver juntos e de comunhão”. E na sequência de sua reflexão, um dado novidadeiro com a inserção do cuidado da casa comum como um complemento atual e urgente das tradicionais obras de misericórdia. E porque ? Em razão da misericórdia ter por objeto “a própria vida humana na sua totalidade”.

Esse cuidado da casa comum requer de todos uma nova dinâmica contemplativa. Já dizia Francisco na Laudato si que “todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, as águas, as montanhas: tudo é carícia de Deus” (LS 84). Tudo vem permeado por um Mistério que pode ser contemplado de diversas formas: “Há um mistério a contemplar em uma folha, em uma vereda, no orvalho, no rosto do pobre” (LS 233). Em sua mensagem de setembro de 2016, Francisco fala da “grata contemplação do mundo”, do cuidado essencial que acontece nos “simples gestos do cotidiano”, que rompem com “a lógica da violência, da exploração, do egoísmo”.

Francisco assim assinala uma espiritualidade alternativa, pontuada pela qualidade de vida, pelo entusiasmo inter-relacional. Trata-se de uma espiritualidade que gera e irradia alegria, que nasce de um mundo interior atuado, tocado pela dinâmica da simplicidade; de um mundo interior capaz de alegrar com pouco, pois marcado pela convicção de que “quanto menos, tanto mais”. O segredo está nesse cultivo da vida interior, que faz gerar um equilíbrio singular e que propicia a recuperação da “harmonia serena com a criação”. Há uma familiaridade única entre a paz interior e o cuidado da ecologia (LS 225).




[2] Papa Francisco. Carta encíclica Laudado si. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.