sábado, 19 de novembro de 2016

Em torno do boi e do pastor. Anotações a partir de uma aula sobre a mística zen budista

Em torno do boi e do pastor: anotações de uma aula sobre a mística zen budista

Faustino Teixeira
Novembro/2016


O tema de minha recente aula no curso de mística zen budista (17/11/2016) girou em torno das sete primeiras figuras do boi e do pastor. A questão chave em toda reflexão: o desafio do tornar-se verdadeiramente humano, na descoberta do verdadeiro si mesmo (Jiko). Boa parte da aula desenvolveu-se em torno do magnífico texto de José Carlos Michelazzo: Desapego e entrega: atitudes centrais da meditação zen-budista e suas ressonâncias nos pensamentos de Eckhart e Heidegger. Pude constatar ao preparar mais uma vez esse tema, como o texto de Michelazzo é essencial para acessar o significado da prática do zazen, que já se inaugural na segunda figura: o encontro dos rastros do boi.

A prática meditativa tem importância substantiva no zen-budismo. Trata-se da meditação sentada (zazen), que envolve uma palavra simples e dileta: simplesmente sentar (shikantaza). Essa prática para Dôgen constituía o caminho de excelência, e todos os seus capítulos do Shôbôgenzô constituíam “apenas notas de rodapé do zazen”.

A prática continua (Gyôji), abordada num dos capítulos da grande obra de Dôgen, é a prática fundamental, comum “a todos os seres do universo”. Ela indica a presença de uma “teia de interdependência que faz com que todas as existências de todos os seres sejam regidas por uma trama global, total, cósmica”. Com o olhar animado pela “originação interdependente” o que podemos observar, por todo canto, é simplesmente essa prática contínua.

Nessa teia ou malha de interdependência cada ser está entregue, vivendo “tal como se é”. O peixe, por exemplo, vive essa taleidade na relação natural com a água: “a plenitude da vida do peixe é possibilitada por sua completa interpenetração com a água (…). Os caminhos surgem para o peixe ao praticar o nado”.

O ser humano, “dentre todos os seres, é o único que se esqueceu da teia cósmica, que perdeu a memória de sua originação interdependente, de sua não dualidade. E por esse esquecimeno e perda lhe é exigido um esforço difícil e contínuo para se entregar ao que originalmente ele é e, assim, fazer o caminho de volta à sua própria casa” (veja a sexta figura).

Trata-se do essencial “retorno” mediante duas atitudes fundamentais: o desapego e a entrega. Isso também nos faz lembrar Mestre Eckhart, citando o evangelho de Lucas: “Um homem nobre partiu para uma terra distante, a fim de tomar posse de um reino, e regressou” (Lc 19,12).

A prática meditativa possibilita o desvelo desses dois binômios: desapego e entrega. Para além do estado da vigília ou do sono, essa prática revela um estado novo, meditativo, possibilitado pelo zazen. Como mostra Michelazzo, trata-se de um “exercício bastante difícil” testemunhado pelos principiantes, e isto porque “a mente quando colocada na postura de meditação procura reproduzir o seu típico padrão binário de vigília-sono, isto é, ou ela ´quer` continua rem sua agitação ou, caso contrario, é tragada pelo irresistível sono”.

O caminho do zazen passa pela estratégi de “colocar o corpo em uma espécie de casulo”, favorecendo a combinação de duas condições: imobilidade e relaxamento. Um estratégia que faculta o aquietamento da mente. E o desafio maior está em “nada focalizar”, com o recurso da concentração. E com o exercício da prática, uma concentração “em nada, no vazio ou, como dizem os hindus, no sûnyata”. É o nobre momento da atenção plena. Em todo o processo, o papel essencial da respiração.

Em todo esse trabalho, a importância do mestre revela-se essencial. O praticante só consegue perseverar na presença de um mestre. Como tão bem assinala Eugen Herrigel na sua obra, A arte cavalheiresca do arqueiro zen, o mestre é aquele que fornece o exemplo da “obra interior”. É alguém que “ensina o caminho”, deixando depois o discípulo percorrer por si mesmo a via.

Com o tempo e a maturidade espiritual o buscador dá o salto essencial, o que exige constância e perseverança. Como indica Michelazzo:

“Existe também outra metáfora do zen que diz que sentar-se diante da parede em zazen é o mesmo que polir, polir, polir, a parede por muito tempo. Os primeiros lampejos da iluminação aparecem no dia em que a parede se torna vidro e pela transparência se vê coisas que estão do lado de for a do zendô. É preciso continuar a polir, pois, caso contrário, o vidro volta a se tornar parede. Caso o praticante continue a polir, um dia o vidro, de repente, se estilhaça e, aí, ele é envolvido imediata e diretamente com as coisas e os âmbitos de dentro e de for a do zendô desaparecem: é a iluminação. Sobre o momento inesperado em que se dará o estilhaçamento do vidro é algo envolto em mistério que sempre se mostra de forma fortuita ou contingente nas narrativas zen, sempre muito singulares para cada despertar: o toque de um sino ou a batida de uma porta, a repreensão enérgica de um mestre ou o barulho de uma tigela se partindo ao chão, etc. Tais eventos que sempre têm algo de natureza tangível, concreta e até mesmo banal, parecem desempenhar um papel semelhante à de um gatilho ou de uma centelha, ou seja, tem a função de disparar um acontecimento cujas condições para o seu aparecimento estariam perfeitamente entrelaçadas, à espera somente de apenas mais uma única condição. Daí seu caráter abrupto, repentino”.

E o mais interessante nisto tudo é que o buscador, depois do despertar, RETORNA.

“Como qualquer escalada em uma grande montanha, após todos os acontecimentos estonteantes e incomuns pertinentes ao sucesso da experiência, é preciso descer. No caso do meditador desperto é imprescindível voltar ao cotidiano, ao mundo da dualidade, mas a experiência da não-dualidade deixará nele uma marca indelével que doravante o afetará por toda a sua existência na forma de um dejà vu que nunca mais poderá afastá-lo da experiência de ter-se percebido em um todo não-dual com o Universo. Essa marca o colocará em um estado de constante atenção em suas atividades simples e rotineiras de seu dia a dia protegendo-o de seus antigos apegos, colocando-o em um estado de constant ´desprendimento de categorias, eventos e doisas dualísticas que nossas percepçoes e intelecto criam`”.


Outro texto essencial também em torno das dez clássicas imagens do zen: Shizuteru Ueda. O nada absoluto no zen em Eckhart e em Nietzsche. É um texto muito denso, cuja leitura deve ser feita com atenção e zelo. A tradução brasileira saiu na Revista Natureza Humana 10 (1): 165-202, jan-jun de 2008.

O texto aborda as questões relacionadas a uma antiga história zen, do boi e do pastor, que trata do processo de auto-realização humana em dez estações.

É um texto propício para aqueles que buscam entender as três últimas estações, que correspondem as três últimas imagens da história.

A oitava imagem apresenta o círculo vazio, símbolo do zen. Uma imagem desvestida de boi e de pastor. O tema é o do nada absoluto, daí sua analogia com o pensamento de Eckhart. Esse nada não quer dizer vazio inexistente, mas um vazio pleno de tudo, que traduz o humano libertado de todo pensamento substancializado. É quando se dissipa a ideia do "eu sou eu". Como mostrou com acerto Hisamatsu (1889-1980), discípulo de Nishida, o vazio (ou nada) do budismo zen revela o coração desta tradição, o núcleo essencial do zen.

Como indica Ueda, este "eu sou eu" vem marcado por uma tripla intoxicação: ódio contra os outros; cegueira elementar e cobiça.
O verdadeiro si mesmo é marcado pelo despojamento de si mesmo.O caminho que vai da primeira à sétima figura aponta "o processo de desprendimento do eu-sou-eu".

A oitava figura, que é fundamental, conduz ao SALTO decisivo, que é o "salto ao nada absoluto, aonde não há mais nem pastor que procura nem boi que é procurado, nem homem nem Buda, nem dualidade nem unidade".

É o momento chave da irrupção do verdadeiro si-mesmo, que corresponde ao incondicional despojamento de si mesmo. É o momento do "grande morrer" (que no sufismo vem entendido como "morrer antes de morrer"). Nesse oitavo passo não há mais apegos, nem mesmo religiosos. E o buscador vem provocado a não se sentir bem nem mesmo "onde o Buda mora". Vem comvocado a passar "depressa pelo lugar onde não mora mais nenhum Buda".

O nada que se encontra, então, é o nada da "dissolução do pensamento substancial". Com base em Goethe, podemos dizer que esse momento é aquele do devenir: "morre e advém!". É a partir desse vazio que ocorre a "ressurreição", esta "mudança radical da absoluta negação para o grande ´sim`". O verdadeiro si-mesmo vem agora representado, na nona estação, com a imagem da árvore em florescência à beira do rio. Tudo muito singelo. Como diz Ueda: "O florescer da árvore, o fluir da água, é aqui, portanto, assim como acontece, ao mesmo tempo um jogar da liberdade despojada do si-mesmo".

Há uma co-pertença entre o "nada" da oitava estação e o "simples" da nona estação: penetram-se reciprocamente.

Na última e derradeira estação há um ENCONTRO precioso. Agora, "o verdadeiro si-mesmo, ressuscitado do nada, age e joga entre homem e homem como uma dinâmica despojada do ´entre`. Neste caso esse ´entre` é, agora, o próprio campo de ação, o campo interno de ação do si-mesmo, ou também: o si-mesmo que, cortado, aberto pelo nada absoluto, se desenvolve com o ´entre`".

Os dois interlocutores, o velho (ressuscitado do nada) e o jovem inclinam-se mutuamente. Algo precioso, que vai para além de uma simples cortesia. A inclinação expressa o movimento em direção ao nada, na profundidade da ausência de fundamento, rompendo com as cadeias do ego. A relação eu-tu ganha assim um lugar distinto, uma vez que procede de uma penetração no nada do nem-eu e nem-tu.

A imagem do velho que pertence a uma geração desconhecida (ou seja, do nada absoluto) é preciosa nessa décima estação. O iluminado não se reserva a uma experiência de esplendor, mas ele desce ao mercado, com a consciência viva das coisas mais simples: suas perguntas são do âmbito do cotidiano. Como assinala Ueda, "o verdadeiro si-mesmo, no encontro com outras pessoas, não habita o chamado ´nirvana`e sim a TÃO PERCORRIDA ESTRADA DO MUNDO, responsável por muitos encontros, porém sem abandonar o nada absoluto". Ele traz consigo o nada absoluto... sempre.


Muito interessante, com a décima estação não se fecha um ciclo, mas indica o início de um novo ciclo: abre-se agora para o jovem que se inclina para o velho um caminho a seguir: "A 10ª estação não é, portanto, o fechamento e sim o início da primeira estação para um outro, para um jovem que o velho, em seu ´entre`, aberto, encontrou e que por suas perguntas é despertado para o verdadeiro si-mesmo".

domingo, 25 de setembro de 2016

A nova perspectiva espiritual do habitar a Terra

A nova perspectiva espiritual de habitar a Terra

Faustino Teixeira
PPCIR/UFJF

            A história humana já passou por várias crises, mas vive hoje, nesse momento crucial da chamada “civilização global”, uma das situações mais trágicas, que pode ser identificada pela saída da “zona de segurança” em campos delicados como o do aquecimento global, das mudanças climáticas e da perda da  biodiversidade. E outros riscos se anunciam, relacionados ao uso da água doce, da acidificação dos oceanos e de mudança no uso da terra (DANOWSKI; VIVEIROS DE CASTRO, 2014, p. 20-21). O ser humano, em sua “vocação ecocida”, deixa de ser unicamente um agente biológico para se transformar numa força geológica capaz de transformar radicalmente a fisionomia do planeta, comprometendo com a sua ação não apenas as outras espécies e seres vivos, mas a si mesmo. É o tempo do Antropoceno, com todos os riscos a ele associados.

            Em sua bela encíclica, Laudato si, o papa Francisco denuncia com vigor essa deteriorização do meio ambiente, indicando que os mais prejudicados são “os mais frágeis do planeta” (LS 48). Ele lança com tenacidade um grito em favor de uma nova solidariedade, de defesa da terra como “casa comum”. Diante das previsões catastróficas, faz um apelo: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão crescendo?” (LS 160). E outras lideranças religiosas como o patriarca Bartolomeu I e o monge zen budista Thich Nhat Hanh juntam-se para acionar a memória de que todos nós “somos terra”, de que nosso corpo é “constituído pelos elementos do planeta”.
           
            Em diversos campos do saber retoma-se hoje um vivo questionamento sobre as pretensões humanas de se entender como espécie especial ou umbigo do mundo. Na verdade, o ser humano não se basta mais, como espécie solitária e auto-suficiente: a natureza e a cultura não mais se distinguem; a sociedade e o ambiente fazem parte de um mesmo itinerário (DESCOLA, 2013). Segundo o antropólogo Lévi-Strauss, essa reinvindicação de excepcionalidade  por parte do ser humano acabou provocando uma nefasta história de exclusão:

“Nós começamos por nos considerarmos especiais em relação aos outros seres vivos. Isso foi só o primeiro passo para, em seguida, alguns de nós começar a se achar melhores do que os outros seres humanos. E nisso começou uma história maldita em que você vai cada vez excluindo mais (...). É o excepcionalismo humano, depois o excepcionalismo dos brancos, dos cristãos, dos ocidentais... Você vai excluindo, excluindo, excluindo... Até acabar sozinho, se olhando no espelho da sua casa” (BRUM, 2014)

O caminho que se anuncia agora vai noutra direção, não mais da excepcionalidade, mas da interligação. Tende a crescer a percepção de que “toda a esfera do vivente tem um valor intrínseco”. Além da necessária defesa dos direitos humanos, soma-se a defesa dos “direitos característicos” das diferentes formas de vida.

Na verdade, o ser humano não se basta, mas é parte do vivente. Daí a ênfase na interconexão e na interligação: “Tudo está interligado. Se o ser humano se declara autônomo da realidade e se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base da existência” (LS 117). Importantes antropólogos como Philippe Descola e Tim Ingold, têm insistido numa “ecoantropologia relacional”, onde a ideia de rede, malha e tessitura ganham um significado peculiar. O ser humano é sobretudo nexo singular e criativo, aberto e atento à cadência do mundo. Não há ruptura entre natureza e sociedade, mas vínculo móvel, que aponta para um ritmo distinto do habitar. É todo um caminho de reinserção do ser humano “no interior da continuidade do mundo da vida” (INGOLD, 2015, p. 26).

Esse questionamento ao antropocentrismo vem acompanhando a retomada das cosmologias antigas e às suas inquietudes. Como assinala o xamã Yanomami, Davi Kopenawa, “na floresta, a ecologia somos nós, os humanos. Mas são também, tanto quanto nós, os xapiri, os animais, as árvores, os rios, os peixes, o céu, a chuva, o vento e o sol!”. Do xamã procede um convite singular, de “sonhar a terra”, captando o seu ritmo vital. Ela é um organismo vivo, sempre nova e úmida, ainda que os brancos, infelizmente, não consigam ouvir seus lamentos. O sopro de vida da floresta é “muito longo”, enquanto o sopro dos humanos é “muito breve” (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 480, 468 e 472). É desse sopro vital que procede a dinâmica que pode propiciar a sustentação e a cura, mas para tanto é necessário provocar um novo enamoramento. É necessário ampliar o conceito de “nós”, alargar as suas malhas de forma a envolver com seriedade tudo aquilo que brilha no ambiente vital (VIVEIROS DE CASTRO, 2008, p. 257). Nenhuma criatura é supérflua nessa rede relacional: o que há é uma comunhão que integra a humanidade com a animalidade, com a plantidade, a vegetalidade e a mineralidade.

            A abertura do olhar, de forma a poder captar esta comunidade de vida que circunda a dinâmica do ambiente é um processo que envolve um outro ritmo contemplativo. O escritor Octavio Paz mostrou com propriedade como se dá essa transformação da atitude diante do mundo natural. O que antes era algo alheio ou mesmo hostil, passa a ser percebido de forma distinta, assim que ocorre a transformação interior. A natureza passa a ser envolvida no mesmo ritmo vital da pessoa: “E desse sentir-nos nada passamos, se a contemplação se prolonga e o pânico não nos embarga, ao estado oposto: o ritmo do mar se adapta ao compasso do nosso sangue; o silêncio das pedras é o nosso próprio silêncio; andar nas areias é caminhar pela extensão da nossa consciência, ilimitada como elas; os sons do bosque nos aludem. Todos nós fazemos parte de tudo. O ser emerge do nada. Um mesmo ritmo nos move, um mesmo silêncio nos rodeia” (PAZ, 2012, p. 160-161).

            Isso é o que os povos originários captam com frequência natural. Uma das maiores lideranças indígenas brasileiras, Ailton Krenak, sublinha que a natureza é algo que existe e brilha em cada uma das células de seu corpo. Todo o entorno vem pontuado pelo toque e pela fragrância do Mistério. Como ele assinala, o sagrado “pode ser tudo aquilo em que botamos os olhos, a depender dos olhos com que enxergamos o mundo”. Não há por que ver nas montanhas apenas o seu potencial mineralógico ou nos rios o seu capital energético. Há que desvendar a dimensão de Mistério que se esconde por trás de sua aparência superficial (KRENAK, 2015, p. 83 e 231-232).

            A Carta da Terra pontua a importância dessa preservação dos conhecimentos tradicionais e da sabedoria espiritual presente nas diversas culturas. São saberes ancestrais que contribuem de forma essencial para a proteção ambiental e o bem-estar humano (BOFF, 2002, p. 154). A edificação da paz é decorrência da instauração de novas relações, positivas e construtivas, do sujeito consigo mesmo, com os outros, com as distintas culturas, com a Terra e com o Mistério sempre maior. Para tanto, é necessário um caminho de interiorização. Há que ampliar esse espaço interior para vislumbrar as malhas essenciais do cuidado. Como mostrou o papa Francisco, “a paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflete-se em um equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida” (LS 225). O patriarca ecumênico, Bartolomeu I, em sintonia fina com o papa Francisco, indicou a centralidade desse caminho espiritual: fazer mais silêncio para poder escutar a voz da criação (BARTHOLOMEOS I, 2015, p. 35). Trata-se de um aprendizado singular herdado dos santos da igreja oriental antiga, ou seja, aqueles que se aperfeiçoam na purificação do coração, que buscam um coração puro, são capazes de perceber com naturalidade a profunda ligação que irmana o ser humano com a totalidade da criação. Não é algo simplesmente emocional, mas de forte densidade espiritual, na sua motivação e no seu conteúdo.

Referências Bibliográficas

BARTHOLOMEOS I. Nostra madre terra. Magnano: Qiqajon, 2015.
BOFF, Leonardo. Do iceberg à arca de Noé. O nascimento de uma ética planetária. Rio de Janeiro: Garamond, 2002.
DANOWSKI, Déborah & VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis/São Paulo: Cultura e Barbárie/Instituto Sócioambiental, 2014.
DESCOLA, Philippe. L´ecologia degli altri. L´antropologia e la questione della natura. Roma: Linaria, 2013.
DESCOLA, Philippe. Oltre natura e cultura. Firenze: Seid, 2014.
INGOLD, Tim. Estar vivo. Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petrópolis: Vozes, 2015.
KOPENAWA, Davi & ALBERT, Bruce. A queda do céu. Palavras de um xamã Yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
KRENAK, Ailton. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2015.
PAPA FRANCISCO. Laudato si. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.
PAZ, Octavio. O arco e a lira. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
THICH NHAT HANH. Lettera d´amore alla madre terra. Milano: Garzanti, 2016.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2008.

(Publicado em Agenda Latino-Americana 2017)

domingo, 18 de setembro de 2016

Assis, um acontecimento do Espírito

Assis, um acontecimento do Espírito

ENTREVISTA IHU – FAUSTINO TEIXEIRA

O que é, como e por quais razões surgiu a Jornada Mundial de Oração pela Paz, realizada em 1986 na cidade de Assis, na Itália?  Quais foram as lideranças religiosas mundiais que participaram desse encontro há 30 anos?  Pode nos contar a história da Jornada Mundial de Oração pela Paz?

O evento de Assis foi precedido por duas viagens do papa João Paulo II com colorações inter-religiosas bem decisivas. Em agosto de 1985, esteve em Casablanca falando para os jovens muçulmanos. O espírito que movia o pontífice era de abertura. Sublinhou para eles que é o mesmo Deus que une na crença muçulmanos e cristãos. Falou também do respeito requerido pelo diálogo inter-religioso, envolvendo uma bonita dinâmica de reciprocidade. Sobre os caminhos de Deus, indicou que eles nem sempre coincidem com os caminhos particulares trilhados pelas religiões, envolvendo um marco referencial de transcendência. Reiterou o respeito da Igreja Católica pelos muçulmanos e em particular o reconhecimento da “qualidade” do caminho religioso por eles seguido. Em fevereiro do ano seguinte, 1986, visita a Índia, e outras reflexões novidadeiras acontecem, indicando o apreço e o respeito da comunidade católica por aquilo que une as duas tradições religiosas. Bonita a imagem cunhada pelo papa em sua visita, dizendo que o ser humano é um “peregrino do absoluto”, na busca do rosto de Deus. Em passagem muito citada de seu discurso aos representantes das várias religiões da Índia, João Paulo II sublinha que mediante o diálogo é Deus mesmo que se faz presente entre os interlocutores, pois através da abertura mútua ocorre também a abertura a Deus.

A ideia inicial de um evento inter-religioso em Assis nasceu também do encorajamento recebido pelo papa em sua viagem a Índia. E a ocasião era propícia, pois 1986 tinha sido escolhido pela ONU como o Ano Internacional da Paz. Havia também a intenção de explicitar o “empenho ecumênico” da Igreja em favor do diálogo, na trilha do Concílio Vaticano II (1962-1965). Foi como uma “ilustração visível” daquela perspectiva de aggiornamento eclesial. Tratava-se de uma experiência inaugural, congregando distintas tradições religiosas num empenho comum em favor da paz, mas buscando apontar uma “outra dimensão”, escondida, de promoção da paz através da oração partilhada; um momento nobre para reforçar a “qualidade transcendente da paz”.

            O evento contou com a participação de lideranças de diversas Igrejas cristãs, bem como de outras tradições religiosas: budistas, judeus, muçulmanos, hindus, xintoístas, Sikhs, jainistas, bahaístas, zoroastristas e religiões tradicionais da África e da América. Foram 124 lideranças que responderam positivamente ao convite de Roma, dentre elas Dalai Lama (Budismo Tibetano), Robert Runcie (Arcebispo de Cantuária) e Elia Toaf (Grande Rabino de Roma).

            O encontro de Assis, realizado em 27 de outubro de 1986, foi de fato uma experiência de oração, penitência e jejum, como uma “viagem” silenciosa tocada pelo Mistério Maior, uma “viagem fraterna” de irmandade e partilha, antecipando de certa forma o sonho maior querido por Deus em favor de uma humanidade renovada. Ali ocorria de fato, para além das intenções dos idealizadores, o reconhecimento da dignidade sagrada das religiões e a abertura de um campo inusitado para o diálogo efetivo entre as religiões. O evento teve três momentos. Inicialmente a acolhida do papa aos participantes na Basílica de Santa Maria dos Anjos, com um discurso de boas vindas. Num segundo momento, as diversas delegações seguiram em silêncio para os distintos locais da cidade medieval destacados para as orações particulares. Ao momento da oração particular seguiu-se um cortejo, um tempo de peregrinação, quando então os participantes seguiram em direção à praça central da cidade, situada em frente à Basílica de São Francisco, para o ato conclusivo da Jornada. Depois de uma breve introdução feita pelo cardeal Etchegaray, as diversas tradições religiosas presentes se sucederam, uma após outra, apresentando sua própria oração. O ato veio concluído com um discurso do papa.

Como esse encontro foi sendo retomado ao longo desses 30 anos e de que modo tem abordado e proposto a discussão do diálogo inter-religioso?

           A Jornada de Assis foi um ponto de partida, acentuando que a Paz é uma “responsabilidade universal”, e que as religiões têm um papel decisivo em sua defesa. E nessa luta, o que vale é a busca de unidade, que é “radical, basilar e determinante”, superando largamente as diferenças. Esse foi o ponto alto desse primeiro evento em Assis. Esse “espírito de Assis” ganhou continuidade em três outros eventos importantes, também realizados na mesma cidade. O primeiro, nos dias 09 e 10 de janeiro de 1993, com o convite inter-religioso à oração e ao jejum pela paz na Europa, especialmente nos Balcãs. O segundo, em janeiro de 2002, com outra jornada de oração visando uma tomada de atenção diante do agravamento das tensões existentes no cenário internacional. O terceiro, durante o pontificado de Bento XVI, em outubro de 2011. Esse “espírito de Assis” vai receber decidida acolhida no pontificado do papa Francisco.

Como a Jornada Mundial de Oração pela Paz recebeu e dialogou com o Concílio Vaticano II?

            Como se podia esperar, o evento de Assis causou muito constrangimento em setores mais conservadores da Igreja Católica, sobretudo na cúria romana. Para o bispo conservador, Marcel Lefebvre, o encontro inter-religioso de Assis significou “o cúmulo da impostura e do insulto a Nosso Senhor”. A seu ver, uma “blasfêmia pública” e uma degeneração herética. Outras críticas mais sutis vieram de setores da cúria romana, também insatisfeitos com o significado e as repercussões do evento. O temor maior era o de “sincretismo religioso”.  Também o cardeal Ratzinger não mostrou maior entusiasmo pela experiência, preferindo manter uma “reserva mais que morna”. No livro publicado no ano anterior, Rapporto sulla fede (1985), tinha já sublinhado o risco da tendência de uma ênfase excessiva nos valores da religiões não cristãs. O caminho seguido por João Paulo II, diante das resistências encontradas, foi explicar mais claramente o significado do evento em discurso proferido na cúria romana em 22 de dezembro de 1986. Ali então explicitou a afinidade da Jornada com o Concílio Vaticano II. O evento de Assis para ele não era senão uma “ilustração visível, uma lição dos fatos, uma catequese compreensível a todos, daquilo que pressupõe e significa o esforço ecumênico e o esforço pelo diálogo inter-religioso recomendado e promovido pelo Concílio Vaticano II”.

Quais são os resultados práticos oriundos da Jornada Mundial de Oração pela Paz?

           Em primeiro lugar, uma chamada radical de atenção em favor da Paz. Esse foi o toque essencial do evento. Não há saída favorável para a humanidade senão através da luta em favor da paz. Um desafio que deve tomar o coração das religiões, com a consciência viva de que estamos diante de duas únicas possibilidades: ou a verdadeira paz ou a guerra catastrófica. E as religiões são portadoras de um importante patrimônio nessa urgente tarefa, favorecendo um consenso de fundo na afirmação de valores essenciais e vinculantes como a solidariedade, a hospitalidade e o cuidado. E igualmente um papel decisivo no reforço da renovação espiritual da humanidade. Um outro resultado prático do evento de Assis foi apontar a dignidade das religiões e um estímulo singular em favor do diálogo. O belo cenário propiciado pelo evento de Assis, com a união das diversas representações religiosas, indicava um novo sinal dos tempos. A nova imagem rompia com o peso histórico de séculos de intolerância, de lutas religiosas e antagonismos étnicos. A unidade estava sendo agora construída em torno da oração. Como sublinhou Dalai Lama, a diversidade das religiões deixa se ser um “problema incômodo, mas um adorno do espírito humano e de sua longa história”.

Qual deve ser a peculiaridade da Jornada Mundial de Oração pela Paz a ser realizada entre os dias 18 e 20 de setembro, em Assis, em relação às demais? A quais instituições pertencem as 400 lideranças religiosas que irão participar do encontro? 

            O papa João Paulo II enfatizou por ocasião do primeiro evento em Assis que o empenho pela Paz não é algo esporádico, mas um compromisso a ser realizado “todos os dias da nossa vida”. Daí a preocupação em favor de uma continuidade dos eventos com o comprometimento das diversas tradições religiosas. Festejando agora em setembro os trinta anos do histórico acontecimento de Assis, mais um Encontro Mundial de Oração pela Paz, desta vez promovido pela Comunidade de Santo Egídio, em colaboração com as Famílias Franciscanas e a Diocese de Assis. A previsão é de dois dias de painéis de discussão concluídos com uma jornada de oração. O papa Francisco confirmou sua presença, assim como o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, e 400 delegações envolvendo outras lideranças religiosas, mas também representações políticas e do mundo da cultura.

O encontro a ser realizado em Assis tem como título, “Sede de paz. Religiões e culturas em diálogo”. Qual é o significado desse tema neste momento histórico, em que a guerras em curso no Oriente Médio e na África e a Europa vive o drama das imigrações, por exemplo?

           Nesses tempos marcados pelo agravamento do “desgaste da compaixão” a urgência do apelo em favor da paz brada aos céus e convoca todas as religiões. Essa “sede de Paz” deve se irradiar por todo canto, esse é o lema que acompanha o evento. Na visão do líder da comunidade franciscana de Assis, frei Mauro Gambetti, “diante da violência furiosa, as religiões devem dar ao mundo uma mensagem convergente”.   

Qual é a relevância dos documentos A igreja e as outras religiões – Diálogo e Missão (1984 – Secretariado para os não-cristãos) e Diálogo e Anúncio(1991 – Pontifícia Comissão para o Diálogo Interreligioso) e qual é a contribuição dos teólogos Pietro Rossano e Jacques Dupuis para as discussões sobre o diálogo inter-religioso e a temática da paz?

          A meu ver, esses são os dois documentos mais abertos produzidos pela comunidade católica sobre o tema do diálogo entre as religiões. O primeiro, Diálogo e Missão, foi publicado  em junho de 1984 pelo então Secretariado para os Não-Cristãos. Na ocasião, o cardeal Francis Arinze estava na direção do dicastério romano, sendo o secretário Marcello Zago, conhecido por seu empenho em favor do diálogo. O documento é belíssimo, dedicando uma de suas partes ao tema das formas de diálogo. Reconhece que em âmbito mais profundo do diálogo, que toca a partilha das experiências de oração e contemplação, ocorre um “enriquecimento recíproco e cooperação fecunda, na promoção e preservação dos valores e dos ideais espirituais mais altos do homem”. Trata-se do momento singular em que a fé “não se detém diante das diferenças” abrindo-se ao Mistério maior de Deus, de todas as riquezas de sua “sabedoria infinita e multiforme”, do Deus “que é maior do que o nosso coração” (1 Jo 3,20). Quanto ao outro documento, Diálogo e Anúncio, do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso em parceria com a Congregação para a Evangelização dos Povos (1991), também situado no periodo da presidência do cardeal Francis Arinze, a linha reflexiva é bem consoante com o documento anterior. O texto contou com a preciosa assessoria do teólogo Jacques Dupuis. Vale registrar um de seus pontos nodais, quando reconhece a presença do mistério de salvação nas outras religiões, que respondem afirmativamente ao convite de Deus “através da prática daquilo que é bom” em suas próprias tradições. Em nenhum outro documento do magistério eclesial a reflexão sobre o tema havia alcançado tal patamar. O documento passou por cinco redações, sofrendo algumas mudanças importantes, sugeridas sobretudo pelo influxo mais moderado dos participantes da Congregação para a Evangelização dos Povos, cujo prefeito era na ocasião o cardeal Tomko. Os caminhos de abertura presentes nos dois documentos citados foram preparados por presenças singulares como a de Pietro Rossano. Ele foi professor de teologia das religiões na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, bem como nas universidades Urbaniana e Lateranense. Teve também singular atuação no Secretariado para os Não-Cristãos, a partir de 1973, quando foi designado como secretário desse dicastério romano. Foi talvez um dos nomes marcantes na defesa de um novo “estilo dialogal” para a igreja católica, pontuado pela abertura fraterna, de respeito e atenção cuidadosa ao outro, sobretudo aos caminhos inusitados do Espírito.

Como o papa Francisco está retomando o “Espírito de Assis” neste momento? 

            De fato, o papa Fracisco vem retomando com ênfase esse “Espírto de Assis”, com gestos de compromisso e abertura que encantam a todos, ou quase todos (sic!). O seu magistério vem marcado pela ênfase na Misericórdia e na Solidariedade. Como mote contínuo a convocação feita a toda a Igreja no sentido de “alongar mais o olhar e abrir os ouvidos ao clamor dos outros povos” (EG 190). Sua atenção ao tema dos refugiados e de busca da Paz é recorrente. O seu verbo preferido é Dialogar, envolvendo a todos nessa urgente sinfonia que busca transformar o mundo em espaço de fraternidade. Fala com ênfase na construção da Paz, que é tarefa “artesanal”, tecida a cada dia com o impulso dado por Jesus: “Felizes os pacificadores” (Mt 5,9). O caminho de Assis vem enriquecido com o toque da ampliação do Cuidado, que agora cobre também a Terra sofrida. É o mesmo amor doado por Deus que convoca a todos a uma luta que não se restringe ao âmbito da humanidade, envolvendo igualmente o planeta que habitamos, com seus dramas e cansaços, com seus anseios e esperanças.

Deseja acrescentar algo? 

             Sim, gostaria de falar sobre um dos temas mais polêmicos que envolveu a primeira Jornada de Assis, em 1986. Trata-se da questão da distinção entre o “estar juntos para rezar” e o “rezar juntos”. É uma distinção sutil, mas que causou muita polêmica, antes, durante e depois do evento. O temor constante, lembrado por vários segmentos, estava relacionado com a possibilidade de sincretismo. Era a palavra recorrente. Diante dos riscos de interpretação, o papa João Paulo II, já na audiência geral em Roma, em 22 de outubro de 1986, um pouco antes do evento acontecer, sinalizou o traço “exclusivamente religioso” da Jornada, indicando a fórmula escolhida: “estar junto para rezar”. Rebate a ideia de “rezar junto”, ou seja, de uma oração comum, e isto para resguardar o mistério de cada tradição e o devido respeito pela oração dos outros. Busca assim descartar qualquer risco de sincretismo no evento. Sobre o tema debruçou-se o teólogo Jacques Dupuis, em capítulo do livro O cristianismo e as religiões (2001), abordando a delicada questão da oração inter-religiosa. Mesmo reconhecendo que a fórmula “juntos para rezar” foi a que ficou consagrada no evento, lança algumas interrogações a respeito. O que adverte, com razão, é que seria um erro julgar que a fórmula usada em Assis seria a única possível, levando assim a “regras rígidas e estreitas”. Argumenta que sem dúvida as circunstâncias específicas do evento de Assis excluíam a possibilidade de uma oração comum partilhada, mas isso não significa que em outros casos e circunstâncias essa possibilidade teria que ser também abolida. O caminho indicado por ele passa pelo exame das situações concretas e de um juízo pastoral cincunstanciado. Indica, sim, claramente, a possibilidade de uma oração comum quando as religiões envolvidas inserem-se nos três ramos da tradição monoteísta: judaísmo, cristianismo e islã. E isto pelo fato das três beberem na mesma origem histórica da fé de Abraão. São três tradições que partilham a mesma ideia de Deus numa distinta compreensão de seu Mistério. Na oração comum entre cristãos e os “outros” a questão se complica um pouco mais, como indica Dupuis, o que porém não exclui experiências de oração que podem ser partilhadas, na medida em que os cristãos e os “outros” se colocam humildemente diante de um Mistério Maior, que escapa a qualquer representação mental adequada. E conclui com acerto: “Rezar juntos não será senão fazer com que possam, em certo sentido, se encontrar uns e ´outros` no Espírito de Deus, presente e operante em uns e outros”.

Publicado no IHU-Notícias de 18/09/2016: