sábado, 3 de setembro de 2016

O cuidado com a Casa Comum

O cuidado com a Casa Comum

Faustino Teixeira


O dia primeiro de setembro de 2016 veio marcado por um belo gesto de papa Francisco, na mensagem que enviou ao mundo celebrando o dia mundial de oração pelo cuidado da criação[1]. No singelo e corajoso documento de Francisco o “ato de fé pelo planeta”, na expressão cunhada por Paula Ferreira em artigo publicado no O Globo (02/09/2016).

É um texto que nos convoca para a urgente vocação de “guardiões da criação”. O que vemos por todo lado, nesse tempo do antropoceno, é uma “exploração irresponsável do planeta”, onde os mais vulneráveis são os “pobres do mundo”. Dentre as irradiações letais, o violento aquecimento do planeta, que em 2015 atingiu um auge inusitado. Como diz Francisco, “as mudanças climáticas contribuem também para a dolorosa crise dos migrantes forçados”.

Em linha de sintonia com a ecologia integral, Francisco reitera a nota que vem sublinhando desde a encíclica Laudato si ( maio de 2015)[2], em torno da profunda ligação que irmana os seres humanos entre si e com a criação. O ataque à natureza traduz, sem dúvida, um ataque ao ser humano. Em verdade, “cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado”. É uma reflexão que vem corroborar toda uma linha de pesquisa presente hoje na antropologia, que rebate a cisão tradicional entre natureza e cultura. A sociedade e o ambiente não são realidades descoladas, mas intimamente entrelaçadas numa rede de vida e criação. Os humanos, ao contrário do que se propagou no Ocidente pós-cartesiano, não são o “umbigo do mundo”,  mas “parte do vivente”. Estão envolvidos na textura do mundo. Não estão aí apenas para ocupar o mundo, mas para habitá-lo com respeito e cuidado. Tudo aquilo que vem brindado com o toque da vida sinaliza um movimento de ressonância fundamental. O espaço da criação é um espaço de movimento: tudo vem marcado pela fragrância da vida, deixando trilhas abertas e interativas. O meio ambiente, como tão bem mostrou Tim Ingold, é “em primeiro lugar, um mundo no qual vivemos, e não um mundo para o qual olhamos”.

A mensagem de Francisco traduz uma preocupação que é comum a muitas lideranças religiosas de tradições distintas, como o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, que em novembro de 1997 dizia em discurso na Califórnia que o ardor destrutivo do ser humano diante da biodiversidade traduz um “pecado contra Deus”. Assim também o suave monge do Vietnã, Thich Nhat Hanh, em Carta de amor à mãe terra (2013), insiste sobre o traço vivo da Terra e a dimensão de co-pertença do humano a este “belíssimo e generoso planeta”. Não pode haver sentimento de separação, pois tudo que advém de nós e que nos alcança de fora provém da Terra. Ela não é simplesmente o ambiente em que vivemos, mas tecido que anima a nossa existência: nós somos Terra.

Em sua ardente mensagem, Francisco convoca a um exame de consciência, a “consciência amorosa de não estar  separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal”. Há um toque de graça em sua reflexão, ao indicar com vitalidade o mundo como um “dom recebido do amor do Pai”. Um exame de consciência que envolve uma mudança radical de rumo e o deixar-se habitar por uma espiritualidade da criação. De fato, como diz Francisco, “o cuidado da natureza faz parte dum estilo de vida que implica capacidade de viver juntos e de comunhão”. E na sequência de sua reflexão, um dado novidadeiro com a inserção do cuidado da casa comum como um complemento atual e urgente das tradicionais obras de misericórdia. E porque ? Em razão da misericórdia ter por objeto “a própria vida humana na sua totalidade”.

Esse cuidado da casa comum requer de todos uma nova dinâmica contemplativa. Já dizia Francisco na Laudato si que “todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, as águas, as montanhas: tudo é carícia de Deus” (LS 84). Tudo vem permeado por um Mistério que pode ser contemplado de diversas formas: “Há um mistério a contemplar em uma folha, em uma vereda, no orvalho, no rosto do pobre” (LS 233). Em sua mensagem de setembro de 2016, Francisco fala da “grata contemplação do mundo”, do cuidado essencial que acontece nos “simples gestos do cotidiano”, que rompem com “a lógica da violência, da exploração, do egoísmo”.

Francisco assim assinala uma espiritualidade alternativa, pontuada pela qualidade de vida, pelo entusiasmo inter-relacional. Trata-se de uma espiritualidade que gera e irradia alegria, que nasce de um mundo interior atuado, tocado pela dinâmica da simplicidade; de um mundo interior capaz de alegrar com pouco, pois marcado pela convicção de que “quanto menos, tanto mais”. O segredo está nesse cultivo da vida interior, que faz gerar um equilíbrio singular e que propicia a recuperação da “harmonia serena com a criação”. Há uma familiaridade única entre a paz interior e o cuidado da ecologia (LS 225).




[2] Papa Francisco. Carta encíclica Laudado si. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

sábado, 20 de agosto de 2016

Davi Kopenawa e o sopro da vida

Davi Kopenawa e o sopro da vida

Grande alegria ao ler o belo texto do amigo querido, Alberto Pucheu, sobre o livro de Davi Kopenawa: A queda do céu (Revista Cult, n. 215 – 2016). Já Eduardo Viveiros de Castro tinha dito no prefácio do livro: “A queda do céu é um acontecimento científico incontestável, que levará, suspeito, alguns anos para ser devidamente assimilado pela comunidade antropológica”. E advertia também que era chegada a hora de “levar absolutamente a sério o que dizem os índios pela voz de Davi Kopenawa”.

E agora vem essa reflexão de um poeta falando sobre o mesmo livro. E o início é enigmático: para podermos acessar o universo dos Yanomami temos que ultrapassar a nossa condição de “fantasmas”. Somos, de fato, fantasmas para eles... Assim ocorreu com o antropólogo Bruce Albert, no início, até que se deixou habitar pelo universo Yanomami, tendo como missão levar para longe essas palavras esquecidas, “para serem conhecidas pelos brancos, que não sabem nada sobre nós”.

E o que aporta esse universo? A leitura do livro nos indica um caminho precioso, de “acréscimo de vida”, de “sopro de vida”. Como indica Pucheu, “o livro é uma aposta ética e política por devires a serem instaurados, a criação de um devir do brasileiro e do ocidental para instigar em nós um desejo do branco em se tornar índio, em índio que de algum modo já somos”. E acrescenta: “A queda do céu é uma das maiores injeções de ´sopro de vida` na asfixia e no sufocamento com os quais crescentemente vivemos e obrigamos qualquer outro, quem quer que seja esse outro, a viver".

Composto desde o ´sopro de vida` , soprado nessa língua outra, o livro é uma dura crítica a um vendaval vital para todos e cada um de nós”. Não é tarefa fácil ou simples entrar no horizonte do outro, transpor o limiar de Mistério que envolve o mundo da alteridade. Como diz Alain Montandon, devemos “bater devagar” nas portas desse universo distinto, sem muito ruído... Ultrapassar a soleira que divide os mundos requer atenção, cuidado e delicadeza: “Entrar no círculo é renunciar a se impor”, é preservar a distância.

Infelizmente, como relata Pucheu, o Outro vem hoje reduzido ao mundo do espetacular ou do econômico. Foi o espanto vivido por Kopenawa ao visitar em Paris o Museu do Homem. Ali pode constatar a “imensa falta de respeito dos brancos pelos índios, pelos xapiri e por Omama”. O Museu é a memória viva de um assalto, dos saques de guerra produzidos pelos humanos, que desprovidos de qualquer respeito apreenderam suas “imagens” e seus “espíritos”. Os brancos, como diz Kopenawa, “dormem muito, mas só sonham com eles mesmos”. E aí vem uma indagação importante feita por Alberto Pucheu, com base no livro de Kopenawa:

“Será possível um convívio entre alteridades tão radicais em que uma sofre da outra que a coloca em constante risco, em que uma sabe da fragilidade de seu povo diante do outro, diante de suas armas, dos assassinatos que cometemos, dos saques que realizamos de suas terras, das doenças dizimadoras que lhes fazemos pegar, da destruição das florestas (e, com ela, de Omama e dos xapiri) em nome do garimpo, da pecuária, da agricultura, do extrativismo, das madeireiras, das hidrelétricas, dos missionários a quererem doutriná-los...? Tendo de algum modo entrado, por necessidade, em um devir branca, o xamã diz: ´A meu ver, só poderemos nos tornar branco no dia em que eles mesmos se tornarem yanomami`.

No livro de Kopenawa, como lembra Pucheu, temos palavras em vez de flechas, e que trazem um convite muito particular, uma provocação única do “devir índio do branco”, num tempo onde vem ocorrendo de forma violenta o “devir branco dos índios” e seus devastadores efeitos. E Pucheu retoma a frase enigmática do início do livro: “Faz muito tempo, você veio viver entre nós e falava como um fantasma”.  O “você” era uma referência ao antropólogo Bruce Albert. Ele “é o estrangeiro, o branco, o antropólogo, o, a princípio, inimigo, que chega com sua língua fantasmática. É ele quem, contrariamente ao esperado, se coloca em uma ´escuta apaixonada` das palavras e experiências enigmáticas de Kopenawa, colaborando em muitos planos, éticos e políticos, a favor dos yanomami”.


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Paolo dal´Oglio, o profeta do deserto

PAOLO DALL´OGLIO, O PROFETA DO DESERTO

"O diálogo autêntico ganha vida no projeto de Paolo, com sua dedicação em situar-se no eixo do destino dos muçulmanos, na ânsia de compreendê-los a partir de dentro, mas sobretudo amá-los. O diálogo, como mostrou Marco Lucchesi, é essa 'zona de aventura, espanto e inquietação', que envolve a disposição e o risco de deixar-se habitar pelo outro. E Paolo avançou sem temor nesse itinerário da alteridade, animado pela cólera e pela luz, numa inquieta sede de transformar o mundo em espaço de irmandade".

O comentário é de Faustino Teixeira, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – PPCIR-UFJF, pesquisador do CNPq e consultor do ISER-Assessoria. É doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Entre suas publicações, encontram-se Teologia e pluralismo religioso (Nhanduti, 2012) e Ecumenismo e diálogo inter-religioso (Santuário, 2008).

Eis o artigo.

Acaba de sair publicado o novo livro de Marco Lucchesi, A longa noite Síria. Uma voz no deserto (Rio de Janeiro: Dragão, 2015, 70 p.). Trata-se de uma edição fora de comércio, realizada por iniciativa do poeta fluminense da Academia Brasileira de Letras. É uma bela obra que resgata a figura iluminada do buscador jesuíta romano, Paolo dall´Oglio (1954 -), que viveu parte importante de sua vida na Síria num velho mosteiro nas proximidades da cidade de Nabak: Deir Mar Musa el-Habashi, dedicado a São Moisés, o Abisissínio. Ali realizou uma exemplar missão inter-religiosa, congregando leigas e leigos cristãs no empenho dialogal com o islã.

Há uma primeira seção de cartas de Paolo dall´Oglio a Marco Lucchesi, bem como uma longa carta de Paolo a Kofi Annan a propósito da democracia consensual: sua proposta em favor de uma mudança constitucional na Síria. Na sequência, um texto de Marco – Meu irmão, o deserto - onde relata uma visita realizada por ele aos monges e monjas de Mar Mussa. Na ocasião, ouviu de Paolo dall´Oglio, responsável pela restauração do antigo convento, a razão mais nobre da presença da comunidade ali: “Abrimo-nos profundamente à religião muçulmana e à sua civilização, em virtude da tranquilidade de nossa fé em Cristo, e não por uma dúvida a seu respeito”.

O livro abriga também uma carta aberta, em árabe e em português, redigida por Marco Lucchesi e Faustino Teixeira, em favor da libertação de Paolo dall´Oglio. A carta foi endereçada aos seus presumíveis sequestradores, sendo também publicada na ocasião no site do Instituto Humanitas da Unisinos - IHU (05/08/2013).

Ao final, quatro breves artigos de Marco Lucchesi a propósito do tema, publicados no Jornal O Globo: A longa noite Síria (junho de 2012); Um diamante no vidro sujo do mundo (maio de 2013); Califado digital (junho de 2015) e  (agosto de 2014).

Esse “padre do deserto”, abuna Paolo, veio sempre tocado pelo lema da esperança. Esse foi o tema que adornou sua tese doutoral, dedicada ao trabalho minucioso de uma das mais belas Suras do Corão (Sura da Caverna – Al-kahf), que traz a questão dos adormecidos de Éfeso, dos sete jovens cristãos que, refugiando-se da perseguição romana, adormeceram numa caverna e só despertaram três séculos depois. O tema serviu de mote para a abertura do livro de Marco Lucchesi, acenando para essa pista da esperança:

“E dizem que permaneceram na caverna
por trezentos e nove anos” (Sura 18)

Foi para mim motivo de grande alegria poder prefaciar esse lindo livro de Marco Lucchesi, com as cartas proféticas desse monge singular. São testemunhos de uma beleza impar desse buscador implacável, cujo tecido da vida tem as marcas evangélicas da justiça e da solidariedade. Escolheu a Síria para realizar seu sonho de diálogo e fraternidade, seguindo o caminho indicado por Louis Massignon, de generosidade e hospitalidade efetivas, correspondendo também ao desejo de Deus, de uma igreja como ermida ancorada no deserto.

Retomo aqui a mesma indagação da jornalista francesa, Guyonne de Montjou, que se encantou com esse itinerário espiritual. Como entender a motivação essencial de alguém que deixa o seu país e a sua cidade, no coração da modernidade, para deslocar-se para a periferia do mundo, para aquele ângulo esquecido no meio do deserto? Não há dúvida, trata-se de uma motivação especial, misteriosa, que suscitou tamanha aventura. Paolo se enamorou do islã, desde o primeiro contato, fazendo carne com seu povo e partilhando seus ideais mais nobres. Sentia-se como um muçulmano, como expressou tantas vezes, sem deixar em momento algum sua paixão por Jesus. O islã para ele foi sempre um “espaço espiritual e cultural”, onde vislumbrou a realização efetiva de seu batismo.

O diálogo autêntico ganha vida no projeto de Paolo, com sua dedicação em situar-se no eixo do destino dos muçulmanos, na ânsia de compreendê-los a partir de dentro, mas sobretudo amá-los. O diálogo, como mostrou Marco Lucchesi, é essa “zona de aventura, espanto e inquietação”, que envolve a disposição e o risco de deixar-se habitar pelo outro. E Paolo avançou sem temor nesse itinerário da alteridade, animado pela cólera e pela luz, numa inquieta sede de transformar o mundo em espaço de irmandade.

Ele armou sua tenda no coração do deserto, numa experiência dialogal maravilhosa, com a comunidade mista de Mar Musa na Síria. Ali transcorreu trinta anos de sua vida, dando feição à sua compreensão viva do diálogo religioso, com uma peculiar visão de evangelização. Não estava ali para converter ninguém ao cristianismo, mas para confirmar cada um na sua própria tradição.

Entendia o seu seguimento de Jesus como irradiação de vida, ajudando os outros a realizarem o ideal da peregrinação para a verdade e o aprofundamento da experiência de Deus, sem qualquer proselitismo.

O projeto radical de Paolo em todo o seu percurso na Síria foi o de dar prosseguimento ao bonito ideal dos santos muçulmanos de Damasco, conhecidos como os abdâl, que viviam sua espiritualidade no cotidiano, de forma muitas vezes anônima, sacrificando sua vida em favor dos deserdados e excluídos. Assim também Paolo foi um abdâl escolhido por Deus para curar as feridas do mundo, numa dinâmica de gratuidade e dom de si.

Seu projeto, infelizmente, não teve sequência em razão da guerra fratricida que tomou conta da Síria, mudando drasticamente “a estética da proximidade”. Ele mesmo reconheceu que sua vida espiritual e mística de cristão apaixonado pelo islã foi “ferida pelo terrorismo” de tantas proveniências.

Tudo mudou a partir de então, aumentando sua dor e sua cólera. Foi expulso da Síria, depois retornou, apesar dos riscos e acabou sequestrado em julho de 2013. Seu destino permanece imprevisível. Deixou, porém, um recado para toda a comunidade mundial: “A umma humana deveria tomar para si as angústias e as feridas da umma muçulmana, com mais misericórdia, mais solidariedade, pois estamos todos juntos embarcados neste frágil planeta.”

Para além dessa “sintaxe do extermínio”, que predomina hoje, dolorosamente, na Síria, há que recorrer, com todas as forças disponíveis à “poética do diálogo”. Numa das cartas a Marco Lucchesi, de março de 2013, fala de sua esperança no papa Francisco, que junto com a diplomacia vaticana continua empenhando-se em favor da libertação de Paolo. Francisco, também um homem de Damieta, poderia proporcionar ao mundo a alegria de um novo Concílio de Assis.

Num de seus últimos livros, Cólera e luz (2013), Paolo sinaliza sua disposição de morrer para sustentar sua posição de solidariedade, que deve ir até o fundo. E reafirma essa coragem numa de suas últimas mensagens a Marco, quando diz estar “tentado a caminhar para a morte, para o sacrifício... quase para insultar um céu e alguns deuses insensíveis.” Não vê sentido numa vida que seja diferente daquela habitada pelo dom radical ao outro. Revela também sua fé inquebrantável numa Nova Jerusalém, como tenda bendita de uma fraternidade em Abraão e exemplo para a bem-aventurança do mundo.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Rûmî e a flama do coração

Rûmî e a  flama do Coração


Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF



“Quando o rosto do amado ocupa a nossa mente,
não mais que em contemplar  consiste a nossa vida”[1]

  
Os grandes místicos são guias essenciais nesta travessia de olhar. Na sua experiência de intimidade com o Mistério maior, abrem caminhos inusitados de percepção do Real, afirmando a cidadania de um outro mundo que habita o mundo, e que é “impermeável às palavras”. O místico é aquele que consegue enxergar para além da rota conhecida, traçada no mapa do conhecimento usual, e captar a dimensão da experiência interna, servindo-se da lógica do coração e dos atalhos da inspiração.

A Pérsia foi berço de grandes místicos, entre os quais destaca-se Djalāl-od-Dīn Rūmī (1207-1273). Para Eva de Vitray-Meyerovitch, que traduziu importantes obras de Rūmī para o francês, o que há nele de mais cativante é a sua mensagem de amor e sua universalidade. L.Boff fala no traço de familiaridade que une Rûmî (1207-1273) a são Francisco (1181-1226), que foram contemporâneos por 26 anos: ambos místicos e poeta, ambos embriagados de amor e loucura[2].

Para poder se adentrar na linguagem dos místicos faz-se necessário captar a singularidade da epistemologia utilizada, ou seja, a especificidade da “teoria do conhecimento inspirada”. O místico é alguém que passa por um aprendizado que se dá por via direta do dom divino. Com base na teoria da ma´rifa, que se traduz pelo conhecimento intuitivo de Deus, os místicos dão um passo além do conhecimento discursivo (´ilm), e apontam caminhos que indicam uma divina inspiração. São considerados  “amigos de Deus” (awliyā) e herdeiros dos profetas, recebendo sua “divina instrução” diretamente no coração[3].

Na linha dos grandes místicos, Rūmī sublinhou a fragilidade do conhecimento que se firma sem a referência ao divino mistério e sem a sintonia com o caminho do coração e do amor. A seu ver, há uma inabilidade intrínseca do intelecto para seguir os rastros do Mistério Absoluto.

O máximo que consegue alcançar é as “cercanias do transcendente”. Na visão de Rūmī, o amante que deixa de sentir as “esporas do amor” é “como um pássaro que perdeu as asas”. É a “doce loucura” do amor que favorece a percepção do brilho do Sol de Deus. Mas não há como explicar o que o amor significa: só no calor da paixão e da intimidade ele revela o seu profundo significado.

O canto mais forte do místico é o canto da Unidade, da busca da União. Seus sinais repercutem por toda parte. E sedento quer conhecer “o seio de sua nutriz”. Ali está a “caravana de açúcar”. O canto é forte: “O mundo é apenas Um, venci o Dois”.

O tema do amor encontra um lugar central em todo o Mathnawī de Rūmī. É a sua flama que inspira a flauta de bambu (ney) no lamento de uma vida que foi separada de sua raiz: “Escuta a flauta de bambu, como se queixa, lamentando seu desterro: Desde que me separaram de minha raiz, minhas notas queixosas arrancam lágrimas de homens e mulheres” (MI:1)[4]. A flauta desvela os segredos mais íntimos, é a confidente dos amantes: suas notas melodiosas relatam histórias de amores como a de Majnun, em sua tresloucada busca de Layla (MI:12 e 14).

O Amor é antes de tudo, “luz sobre luz” (MIII:3920), um “oceano cuja profundidade é invisível” (MV:2731). Ao falar sobre o seu mistério e charme “o céu canta” (MIII:4732). O amor é chama ardente que “faz o mar ferver como uma chaleira”, “estilhaça a montanha”, “fende o céu” e “faz tremer a terra” (MV:2735-2736), mas permanece sempre “doçura” (MIII:3921).

Rûmî sente-se prisioneiro de Laila e Majnum. Como diz Marco Lucchesi em nota sobre um dos poemas, “o amor pode arruinar o coração. Despedaçá-lo. E o contato com o Amado pode valer mais tarde a flexa do desassossego”[5]. E o místico canta num de seus poemas:  

Ela me atrai para a lua,
ele me lança no abismo,
ela me cobre de chuva,
ele me abrasa co´olhar[6]

Em sua pena, a clássica história de amor da literatura persa, escrita por Nizami no século XII: de um amor protegido pela distância. Como diz Lucchesi, “tudo é veu, o rosto que foge, a imagem dos lábios”[7].

Vale registrar a belíssima página do romance Laila e Majnun de Nizami, a clássica história de amor da literatura persa, onde se aborda o encontro entre os dois amantes:

Quanto mais se aproximavam do lugar em que Laila estava esperando, mais Majnun tremia de prazer e desejo. Ele esporeava com impaciência a montaria, para que andasse mais rápida.

Tinha a sensação de que a fonte da água pura da vida tentava-o do horizonte. Era como se o perfume de sua amada flutuasse com o vento sob suas narinas, a incitá-lo. Era como se morresse de sede enquanto vislumbrava o próprio rio Tigre ao longo, e como se este sempre retrocedesse à sua aproximação (...).

Majnun e seu guia finalmente alcançaram o bosque de palmeiras onde os animais ficariam acampados e esperariam o retorno do mestre. Assim que o crepúsculo caiu, Majnun entrou no jardim e sentou-se sob uma palmeira para esperar, enquanto o velho partia para fazer o sinal combinado à Laila.

Laila, sozinha em sua tenda, viu a aproximação do velho e, cobrindo-se com o véu, saiu apressadamente para encontra-lo. Seu coração estava dividido entre medo, dúvida e esperança: ela havia esperado tanto, derramado tantas lágrimas – sabia exatamente o que arriscava ao encontrar-se com Majnun desse jeito, mas tinha de vê-lo! Protegida por seu véu e pelo crepúsculo que caía, Laila acenou para o velho e voou pelo jardim.

Ela viu Majnun imediatamente, mas parou antes de alcançar a palmeira sob a qual ele estava sentado. O corpo inteiro de Laila tremia, e parecia que ela estava profundamente enferma. Não mais que vinte passos separavam-na de seu amado, mas era como se um feiticeiro tivesse delineado um círculo mágico no chão cujo limite ela não deveria ultrapassar.

O velho, que a alcançara, tomou-a pelo braço para conduzí-la. Mas ela disse cortesmente: ´Nobre senhor, nem tão longe, mas nem tão perto. Agora sou igual a uma vela ardente; um passo mais perto do fogo e eu serei consumida completamente. A proximidade traz o desastre, pois os amantes só estão seguros separados`”[8].

O amor vem preservado pela vigília do amante. Como mostrou Marco Lucchesi, “a insônia é ponto crucial na gramática do amor”[9]. Para assegurar a presença serena do Amado, o buscador luta com todas suas forças para manter longe o “sono frágil”; seu “exército é maior”: “procura combate” e vence: “Do céu vem o amor: sua grandeza, desejo cristalino e soberano”[10]. Toda noite é “noite da felicidade”, e o místico insiste: “Não durma, minha estrela e meu destino”.

Dentre os místicos de todos os tempos, Rūmī destaca-se como um dos que mais acentuou o traço da generosidade divina. A graça de Deus vem por ele percebida como uma realidade que transborda contínua e abundantemente sobre todas as criaturas (MI:3923). Deus, em sua infinita misericórdia, não abandona o ser humano em instante algum (MII:2533).

Não é possível escapar de sua misericórdia, é o que indica a linda Sura da Manhã:

“Pelo esplendor do meio-dia, e pela noite quando serena, Teu Senhor não te abandonou nem te odeia” (Corão, 93,1-3).

Mawlānā sublinha que a misericórdia de Deus não tem limites revelando-se como a nutriz universal mais potente (MIII:2922 e MII:1951). E esta misericórdia de Deus está sempre à disposição de quem precisa: “Se tu desejas a água da misericórdia, abaixe-te e em seguida beba o vinho da misericórdia e torne-se ébrio” (MII:1940).

Na visão de Rūmī, não é o sedento que busca a água, mas a água que busca o sedento: “Não busque a água, mas mostre-se sedento, para que a água possa jorrar de alto a baixo” (MIII:3212).  Deus é sobretudo amoroso, e sua graça toca o coração de cada ser humano em momentos inesperados e faz ali sua morada:

          Teu amor chegou a meu coração e partiu feliz.
            Depois retornou e se envolveu com o hábito do amor,
            Mas retirou-se novamente.
            Timidamente, eu lhe disse: ´Permanece dois ou três dias!`
            Então veio, assentou-se junto a mim e esqueceu-se de partir[11].


O reconhecimento da generosidade de Deus percorre toda a mística islâmica, manifestando a dimensão de sua proximidade (tašbīh) do humano.

E também o tema da gratuidade do amor de Deus. Algo que vem retomado por Rūmī no Mathnawī. A seu ver, o amor a Deus deve ser inteiramente gratuito, assim como é gratuito o envolvimento de seu abraço. É um amor que não pode ser movido por esperança ou medo. Deus deve ser amado por si mesmo (MIII:4594-4599). O verdadeiro servidor de Deus deve agir não em função da esperança no paraíso ou em razão do temor do inferno, mas deve alimentar sua vida pela gratuidade mesma do amor de Deus (MIII: 1910-1912).

Para Mawlānā, as formas exteriores são sempre limitadas. Não há porque manter o olhar fixado nas nuvens, quando ele pode alcançar a lua (MIII:3533); não há porque fixar-se na espuma, quando o Mar anuncia-se no horizonte: “Aquele que olha a espuma fala do mistério, enquanto aquele que olha o mar maravilha-se” (MV:2908). O movimento circular da espuma acaba distraindo o olhar, que deixa de captar a experiência verdadeira do mar (MV:2907 e MFIII:1270). O “vinho espiritual” encontra-se presente nas formas terrenas, mas sua visibilidade só ocorre entre aqueles que passam pelo aprendizado do discernimento das coisas profundas do Espírito.

Para a tradição mística sufi, o coração (qalb) é visto como o “órgão sutil da percepção mística”. Trata-se do órgão que possibilita “o verdadeiro conhecimento, a intuição compreensiva, a gnose (ma´rifa) de Deus e dos mistérios divinos”. É no coração que se vê refletido, como num espelho, as diversificadas formas de manifestação de Deus.

A luz do coração, que ilumina o olhar, provém da Luz de Deus (MI:1126-1127). E esta é distinta da luz da inteligência e dos sentidos. Como indica Rūmī, para acessar o tabernáculo espiritual, é necessário ter um “coração purificado”, um “espírito iluminado” (MI:1391-1396). Aqueles que “poliram” o coração transcendem o mundo das formas e das cores, podendo contemplar “sem cessar a Beleza a cada instante” (MI:3492).

E em todo o percurso há a exigência de purificação de si, de todos os atributos do eu, e para tanto é necessário “polir, polir, polir” (MIV:2469). Os mistérios do empíreo habitam no coração do peregrino, embora escapem de sua possibilidade de percepção. São mistérios que estão à sua alçada:

          Vós que saístes a peregrinar!
            Voltai, voltai, que o Amado não partiu!

O Amado é vosso vizinho de porta,
por que vagar no deserto da Arábia?[12]

Como sublinha Mawlānā, a cada instante atua, por força do Mistério, uma influência diferente no coração, uma nova marca, um desejo diferente, um abrasamento diferente (MIII:1639). O coração é “como uma pena no deserto, que nasceu prisioneira dos ventos; o vento a leva por toda parte ao acaso, ora para a direita, ora para a esquerda, em direções opostas (...); é como a água em uma chaleira fervendo ao fogo. Assim, a cada momento, um novo propósito ocorre ao coração, que não procede de si mesmo, mas de sua situação” (MIII:1641-1644)

Uma das mais belas passagens do Masnavi relata a história de Moisés e o pastor. Certa vez, Moisés ouviu um pastor que rezava de forma espontânea: 

“Ó Deus, mostra-me onde estás, para que eu possa tornar-me Teu Servo, para que eu amarre Tuas sandálias e que eu penteie Teus cabelos, para que eu lave Tua roupa, mate Teus piolhos, traga Teu leite, oh meu adorado! Que eu beije Tua mão amada, que eu massageie Teu pé amado e no momento de dormir, balance Tua pequena cama. Ó Tu, a quem todas as minhas cabras são ofertadas em sacrifício; ó Tu em quem eu penso, lânguido, pleno de desejo de amor”.

Ao ouvir a oração do pastor, Moisés, o profeta legalista, repreende-o severamente, identificando-o como alguém perverso e ímpio, por referir-se ao Deus juíz de forma assim tão familiar e estúpida. Para ele, o grande Deus não necessitava de um semelhante serviço.

Diante de tal atitude, o pastor, envergonhado e transtornado, com a alma queimada, rasga suas roupas e retira-se para o deserto.

Neste momento, veio do céu uma revelação de Deus a Moisés, que dizia: “Separaste meu servidor de Mim. Eis que viestes para reconciliar meu povo comigo, e não para afastá-lo de Mim. De todas as coisas, a mais detestável a meus olhos é o divórcio. Dei a cada povo uma forma de expressão. (...)  Não tenho necessidade de seus louvores, estando acima de toda necessidade. (...) Não considero as palavras que são ditas, mas o coração que as oferece, pois o coração é a essência e a palavra acidente. (...) Ó Moisés, aqueles que amam os belos ritos são de uma classe, aqueles cujos corações e almas ardem de amor são de outra. (...) Não é preciso virar-se para a Caaba quando se está nela, e mergulhadores não precisam de sapatos. (...) A religião do amor é diferente de todas as outras religiões, pois para os amantes, Deus é a fé e a religião”.

Em seguida, Deus infundiu no íntimo do coração de Moisés os mistérios que palavra humana alguma alcança. As palavras invadiram seu coração, transformando radicalmente sua visão.

Após compreender a reprovação de Deus, Moisés corre ao deserto em busca do pastor. Ao encontrar-se com ele, assim se expressa, movido de compaixão: “Não busque regra alguma, nem método de adoração; diga tudo o que seu coração aflito deseja. Tua blasfêmia é a verdadeira religião, e tua religião é a luz do espírito: estás salvo, e graças a ti um mundo inteiro salvou-se igualmente” (MII, 1720-1785).

Com esta bela história de Moisés e o Pastor, Rûmî quer reforçar a idéia da presença graciosa de Deus que age de forma diversificada nos corações, provocando expressões distintas e particulares de acolhimento, para além das rígidas fronteiras traçadas pelas ortodoxias muitas vezes frias e insensíveis.

Nesta compreensão do coração como órgão capaz de acolher todas as formas, rompe-se com a visão superficial que reduz o abraço do mistério ao espaço de exclusividade das crenças. As crenças são sempre vínculos, “nós” (i´tqād) que atam no tempo a percepção da Presença Espiritual. São como as “inumeráveis cores que as pessoas impõem à luz incolor por meio de suas próprias existências delimitadas”[13].

Rūmī vê nos santos uma referência essencial para a percepção de um coração transparente, para a afirmação da dinâmica da alegria no coração. O seu convite é para que todos tomem lugar junto “à mesa dos santos” para se embriagar com o seu vinho. Os santos são mergulhadores que apontam o caminho para o “doador do segredo”, são um apoio seguro para este mundo e arautos da misericórdia de Deus (M1933-1934).

Segundo Mawlānā, a religião autêntica distingue-se muitas vezes da religião formal. Como habita no coração do crente verdadeiro, ela traduz um determinado estado da alma, marcado pela humildade e pela dinâmica compassiva. Enquanto religião dos amorosos, não há para ela outro mestre verdadeiro senão o Bem-Amado: “seus únicos livros, cursos e lições são o seu rosto” (MIII:3847). A lógica que a move é o despojamento e a gratuidade.

Seus seguidores protegem-se contra a hybris e o orgulho, seguindo o exemplo de Ayâz – o favorito do rei Mahmud -, que manteve guardados seus velhos sapatos e sua roupa rasgada para manter viva a recordação de sua origem humilde: “A semente de onde provéns é a tua sandália, teu sangue e tua manta de carneiro; todo o resto, ó meu mestre, é seu dom!” (MV:2115).

Mas a move também a “excelência das ações”, pois são as obras as únicas companheiras que seguem os fiéis na travessia da existência. Nem os amigos, nem todos os bens da terra acompanham o ser humano para além da tumba (MV:1045-1047).

No momento em que as violentas intempéries tendem a ameaçar a vida e o otimismo, os sufis fazem recurso à chave essencial da felicidade, que é a paciência (sabr). Esta é para eles não só uma defesa contra o sofrimento, mas um grande elixir (MIII:1841 e 1852-1854). O livro do Corão fala na “bela paciência” (C 12,18 e 83).

O grandioso espetáculo das flores na primavera são resultado de um tempo de paciência que marcou as árvores e a vegetação durante o inverno. É este exemplo que anima os amantes do Cântico dos Cânticos, a saírem pelos campos para viver a experiência do amor (Ct 7,12). Eles seguem a escola da natureza. Aprenderam a “esperar o tempo do amor”, atravessando todas as suas fases, passando pelo tempo das flores, até chegar à estação dos frutos. Na primavera podem, então, celebrar o amor tão desejado.

Entre as mais ricas mensagens deixadas por Rūmī, e que permanecem atuais é a da cortesia inter-religiosa e a delicadeza espiritual. É um místico marcado por grande liberdade, otimismo e ousadia. Não convida ninguém a romper com o caminho de sua tradição, mas insiste com vigor na necessidade de avançar para dentro da tradição, naquele núcleo mais íntimo onde brota a água viva da Realidade. E, curiosamente, é na intimidade deste núcleo que se abrem as condições para o encontro verdadeiro com os outros.




[1] Marco LUCCHESI. Rûmî: diário de um tradutor. In: ____. A flauta e a lua. Poemas de Rûmî. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2016, p. 148.
[2] Leonardo BOFF. O eixo do amor: Rûmî e Francisco de Assis. In: Marco LUCCHESI. A flauta e a lua, p. 185-196.
[3] “Quem não compreende a fala, não aflija com isso o seu coração. Pois enquanto o homem não se iguala a essa verdade, não compreenderá essa fala. Essa é, sim, uma verdade vinda diretamente do coração de Deus”: Mestre ECKHART. Sermões alemães I. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 292 (Sermão 52).
[4] A referência aqui é o Livro do Mathnawi (Masnavi), em sua edição integral francesa (Éditions de Rocher). São seis livros, nomeados sempre com números romanos.
[5] Marco LUCCHESI. Notas sobre os poemas. In: ____. A flauta e a lua, p.125.
[6] Marco LUCCHESI. A flauta e a lua, p. 80.
[7] Marco LUCCHESI. Notas sobre os poemas. In: ____. A flauta e a lua, p. 141.
[8] NIZAMI. Laila & Majnun. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 162.
[9] Marco LUCCHESI. Notas sobre os poemas. In: ____. A flauta e a lua, p. 140.
[10] Marco LUCCHESI. A flauta e a lua, p. 59.
[11] Djalâl-od-Dîn RÛMÎ. Rubâi´Yât. Paris: Albin Michel, 1993, p. 65. Na tradução brasileira: Faustino TEIXEIRA & Volney BERKENBROCK (Orgs). Sede de Deus. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 26.
[12] Marco LUCCHESI. A flauta e a lua, p. 39.
[13] William CHITTICK. Mundos imaginales: Ibn ´Arabi y la diversidade de las creencias. Sevilla: Alquitara, 2003, p. 283.