terça-feira, 29 de maio de 2012

João Batista Libânio: um testemunho de abertura, respeito e liberdade


Um testemunho de abertura, respeito e liberdade

(Entrevista no IHU Online)

- Tendo presente sua proximidade e relação de amizade, qual o seu
testemunho sobre João Batista Libânio, que celebra 80 anos de vida?

Falar sobre o mestre Libânio é sempre motivo de grande alegria para mim. São décadas pontuadas por uma grande e linda amizade. Ele está na raiz de minha vocação teológica. Com ele veio o impulso decisivo para o aprofundamento no mundo da teologia. Vinha da Ciência da Religião, motivado a continuar meus estudos no campo da sociologia da religião. Ocorreu então o toque de delicadeza de Libânio incentivando-me a trilhar rumos alternativos, com a possibilidade de continuidade dos estudos na PUC do Rio. E aí nasceu toda uma trajetória de vida. Não é difícil falar sobre o Libânio e os valores que a ele estão associados. É uma figura iluminada, um mestre em seu sentido mais nobre. Um dos traços mais bonitos de sua vida é a alegria, o otimismo e o profundo respeito aos caminhos da liberdade. O seu entusiasmo é contagiante. Por onde passa deixa um rastro e um aroma diferencial. Suas palavras abrem caminhos e suscitam possibilidades. Sabe também, como poucos, acolher com carinho, a qualquer momento, as pessoas com suas angústias e dificuldades. É um traço de sua vida. Mesmo nos espaços jesuítas, em geral reservados, soube estar sempre aberto e atento às demandas dos outros. Como é sabido, a porta de seu quarto ou gabinete sempre esteve aberta para a generosidade desse acolhimento. Como um verdadeiro mestre, soube sempre ajudar os outros a se encaminhar, e de uma forma didática singular, nos caminhos do aprendizado teológico. Sim, um pedagogo muito especial. Seria difícil nomear todos os profissionais, ministros, leigos e bispos que passaram por esse aprendizado. E todos guardam, sem dúvida, uma linda recordação dessa convivência e legado. Sua presença viva e dedicada não se deu apenas no campo da academia, mas também no âmbito da pastoral da juventude e do compromisso pastoral. 

- Como a teologia vibra no modo de ser de Libânio?

A teologia que pulsa no coração de Libânio é uma teologia sedenta de realidade. É dos teólogos que viveram e assumiram a primavera conciliar. Foi nesse lindo clima que se gestou sua reflexão. Trata-se de uma reflexão diferenciada, pontuada pela abertura e ousadia, mas também pela simplicidade e busca. Não é uma teologia morna ou puramente intelectual, mas vibrante e entusiasmada, pois gestada no humus da compaixão e da generosidade. Já no período de sua atuação em Roma, enquanto repetidor de estudos no Colégio Pio Brasileiro, irradiava essa alegria e abertura. Em seu retorno ao Brasil, veio o reforço da Teologia da Libertação, e o incentivo mais fundo para uma reflexão enraizada na vida e no compromisso com os pobres. Os alunos tinham contato com Libânio no início de seu processo de formação teológica, o que é muito importante. Seus cursos tinham esse traço propedêudico. Como não recordar suas aulas de introdução à teologia e de teologia fundamental, que abriam o ciclo da formação teológica. Dali vinham as inspirações geradoras de todo um caminho de formação, e também um entusiasmo único para essa nobre tarefa. Para Libânio, a arte de formar-se envolve um duplo movimento, de ampliação das qualidades humanas e religiosas e de compromisso com a transformação do mundo.

- Que pensadores ou fontes matriciais fundamentam o pensamento de
Libânio?

Sublinho isso num artigo que escrevi num livro de homenagem aos 80 anos de Libânio, organizado por Afonso Murad e Vera Bombonatto (Teologia para viver com sentido. São Paulo: Paulinas, 2012). Ele teve grandes mestres em sua trajetória, e cada um deles pontuou um aspecto importante de sua perspectiva teológica. Ele sublinha a presença do padre Antônio Aquino no incentivo ao exercício metodológico. Com ele aprendeu a importância da tranquilidade e leveza na arte de escrever. Com outro mestre, Franz Lennartz, ocorreu a abertura ao universo da psicologia profunda, tão fundamental para a arte do acompanhamento pedagógico e pastoral. Teve também a presença do padre Oscar Mueller, que aprofundou em sua vida o agudo sentido da liberdade pessoal e o respeito à diversidade dos caminhos. Duas palavras que marcam a personalidade de Libânio: o valor da liberdade e o respeito pelo outro. São dois traços sempre lembrados por todos que passaram por seu caminho ou que ainda desfrutam de sua presença amiga. Não se pode deixar de mencionar, entre seus importantes mestres, a presença do pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz. Foi das presenças mais decisivas em sua vida, com uma força irradiadora indescritível. Não só um mestre da inteligência, mas também um amigo de todos os momentos. No âmbito do influxo intelectual, há que sublinhar a presença de Karl Rahner, que deixou marcas profundas em sua abertura teológica, sobretudo a dinâmica de integração do humano com o divino. Deve-se lembrar, por fim,  outras personalidades latino-americanas e brasileiras que o marcaram em sua trajetória, de modo particular na afirmação de sua reflexão teológica libertadora. Nomes como Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Clodovis Boff, José Oscar Beozzo, Frei Betto e outros, não podem ser esquecidos. Contribuíram para o enraizamento de sua reflexão teológica no mundo dos empobrecidos.

- Em linhas gerais, como o senhor descreve a caminhada de Libânio
enquanto teólogo e a sua importância para o contexto latino-americano?

Vejo sua contribuição em dois âmbitos. Em primeiro lugar, no testemunho vivo, alegre, simples e desapegado de sua presença na igreja e na sociedade. Esse testemunho é o que fala mais forte em sua vida e o que mais encanta a todos. Trata-se de um teólogo com o pé no chão e com o coração aberto. Sua presença fala por si mesma do encantador mistério do reino de Deus. Outro vetor de sua contribuição está na dinâmica de sua pedagogia de formador. Tem um dom especial de iniciar as pessoas na arte de formar-se. Dentre suas inúmeras obras, destacam-se aquelas que tratam dessa questão: da formação, do discernimento, da iniciação à vida intelectual e da introdução aos mistérios da teologia. Teve também, e continua tendo, um papel muito importante na abertura das consciências, tanto no campo da consciência crítica, como igualmente da compreensão mais crítica dos cenários da igreja. São reconhecidamente clássicos os livros que escreveu sobre a conjuntura da igreja, sobre a teologia da libertação e o Vaticano II.

- O que destaca de mais marcante sobre a ‘Tropa Maldita’ e a
relação desse grupo com Libânio?

Ao retornar ao Brasil, depois de longos anos de formação na Europa, um dos espaços importantes de atuação de Libânio foi no campo da pastoral da juventude. Registrou esse trabalho num importante livro a respeito, publicado em 1978 (O mundo dos jovens. São Paulo: Loyola, 1978). Atuou como orientador nos Cursos da Juventude Crista (CJC), prosseguindo depois no acompanhamento de jovens universitários. Isso no começo dos anos 70. A “Tropa Maldita” nasceu nesse caldo. Eram jovens universitários, desencantados com os grupos tradicionais de juventude, e que buscavam caminhos mais críticos de atuação. Irmanados por fortes laços de amizade e carinho por Libânio, gestados nos encontros de juventude, esses jovens receberam a pronta acolhida de Libânio para dar continuidade ao trabalho de formação. Assim nasceu o novo grupo, a “Tropa” do Libânio, como indicou um antigo padre e dirigente do CJC, de onde veio grande parte do grupo. A “Tropa” se reunia com Libânio em torno de quatro vezes por ano, quase sempre na cidade de Juiz de Fora, no antigo seminário maior dos padres redentoristas, no bairro Floresta. Aproveitavam-se os feriados maiores para possibilitar a reunião do grupo. E os temas eram de grande atualidade: conjuntura brasileira, formação da consciência crítica, aprofundamento filosófico etc. Muitos autores passaram pela reflexão do grupo: Teilhard de Chardin, Jacques Monod, Ivan Illich, Paul Tillich, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros. Vale sublinhar que os encontros aconteceram num difícil momento da conjuntura política, em pleno exercício da ditatura militar. Algumas das reuniões foram vividas em clima de muita apreensão e temor, dado o clima do período. Os tempos não eram propícios para articulações de grupos, muito menos de universitários. Mas a coragem do grupo e o estímulo do Libânio foram mais fortes para enfrentar tais adversidades. E o grupo seguiu com os encontros. Era uma turma bem diversificada, abrigando jovens de diversos ramos acadêmicos: medicina, psicologia, teologia, filosofia, sociologia, serviço social… E de distintas partes do Brasil: Belo Horizonte, Juiz de Fora, Rio de Janeiro, Sete Lagoas, Volta Redonda e São Paulo. Os encontros tinham momentos reflexivos, que eram fortes, e momentos celebrativos. As celebrações de Libânio eram indescritíveis, com um ritmo singular de liberdade e participação. E sempre animadas por muita música e cantoria. No repertório, a presença constante de Geraldo Vandré, Chico Buarque de Hollanda e Milton Nascimento. Bem distante das celebrações mornas que marcam o nosso tempo, as celebrações do Libânio eram vivas e entusiasmantes. O clima era de muita liberdade e todos participavam com alegria e emoção. O grupo percorreu as décadas de 70, 80 e inícios de 90. Curioso é que muitos casais formaram-se nesse grupo e também amizades duradouras. Depois vieram os filhos, que também passaram a participar com os pais dos encontros, formando em seguida uma verdadira “tropinha”, com encontros dedicados aos seus temas. O grupo ainda voltou-se a reunir em tempos mais recentes. Por ocasião dos 80 anos de Libânio, em fevereiro de 2012, houve um grande encontro festivo da Tropa, no mesmo Seminário da Floresta, para celebrar essa efeméride. Ali nesse grupo gestou-se uma gama de profissionais em campos diversificados de atuação, que brilham com destaque no cenário nacional. E na base dessa formação, a presença amiga e duradoura de Libânio.

- Quais são os traços marcantes do mestre Libânio?

Destacaria a alegria, o cuidado e a delicadeza, mas sobretudo o gesto de respeito aos caminhos diversificados e o sagrado compromisso de valorizar o campo da liberdade. Todos nós que vivemos a riqueza dessa presença em nossas vidas somos unânimes em reconhecer esse traço de Libânio. Seu respeito à liberdade é irradiador. Sua capacidade de escuta, de abertura e de aceitação da singularidade e irredutibilidade dos passos de cada um talvez seja um dos segredos mais lindos de sua sedução. Em tempos de tanta arrogância e autoritarismo, também no campo das igrejas, presenças assim, tranquilas e abertas, são testemunhos imprescindíveis.

- A partir de Libânio, o que significa ser Igreja num mundo pós-moderno
e plural?

Com base no aprendizado com Libânio, entendo que ser igreja nesse tempo atual exige de nós alguns requisitos essenciais. Há que ter sempre aceso no coração os valores essenciais da solidariedade aos outros, do potencial de hospitalidade e abertura, da delicadeza e cuidado na escuta dos sinais dos tempos, sobretudo nos pequenos e inusitados sinais do cotidiano. E também uma abertura imarcessível ao mundo plural. Nada mais triste e desalentador que uma igreja cerrada em si mesma, na solidão de sua consciência de posse da verdade. Os caminhos vivenciados e apontados por Jesus, que é o nosso mestre maior, vão por outras veredas, bem mais arejadas e livres. Como tão bem mostrou José Antônio Pagola, em seu fabuloso livro sobre Jesus, já na quarta edição brasileira, o que esse galileu e profeta do reino de Deus trouxe para nós é algo bem singelo: o amor pela vida e o cuidados com os outros. O que ele nos transmite, quando de fato dele nos aproximamos, é um apaixonado amor pela vida. É alguém que contagia e irradia saúde, transmitindo com vigor uma profunda fé na bondade de Deus. Como assinala Pagola, o que o Deus compassivo, anunciado por Jesus, pede a seus filhos e filhas é “uma vida inspirada pela compaixão. Na pode agradar-lhe mais. Construir a vida como Deus a quer só é possível se se fizer do amor um imperativo absoluto”. Isso também aprendemos com Libânio.

(Publicado no IHU Online nº 394 – Ano XII – 28/05/2012 – pp. 17-20:

sexta-feira, 9 de março de 2012

Riôkan, monge e poeta zen

Riôkan, monge e poeta zen

Faustino Teixeira

“Se quer conhecer

o verdadeiro coração

deste monge,

escuta a voz do vento

sob o céu estrelado”

(Riôkan)

Como indica com acerto Giuseppe Jisô Forzani, em sua obra sobre a filosofia japonesa (Torino, 2006), o zen budismo não é propriamente uma filosofia em sentido teorético ou sistemático, mas mais uma “trama existencial”, com traços religiosos, filosóficos e experienciais intimamente relacionados. O zen é sobretudo um “posicionamento de fundo nos confrontos da vida”, onde a prática é o exercício mesmo da vida, ressignificada pela experiência contemplativa, de modo a favorecer a percepção viva da unidade de fundo que preside a existência humana.

Um dos caminhos mais precisos para se acessar o universo zen é através das narrativas de seus mestres, monges e poetas. São impressionantes histórias de vida, tecidas por humildade, capacidade de acolhimento e hospitalidade e, sobretudo pela generosa dinâmica de compaixão universal. Um desses belos exemplos de vida podemos encontrar no monge e poeta Daigù Riokan, da Escola Soto Zen, que viveu no Japão entre os anos 1758 a 1831. Ele vem hoje reconhecido com um dos grandes expoentes da literatura japonesa, como poeta e mestre da simplicidade. O seu nome vem lembrado por escritores e poetas japoneses, como no caso de Kawabata Yasunari (1899-1972), prêmio nobel de literatura em 1968, que o citou cinco vezes em seu discurso durante a cerimônia de recebimento desse prestigioso benefício. Na visão de Luigi Soletta, essa admiração japonesa pelo “monaco pazzo”, como também vem reconhecido, traduz um desejo de redescobrir as próprias raízes culturais e espirituais, num tempo marcado pela opacidade, intransparência e incerteza. É um monge poeta que aponta para um horizonte distinto do apresentado na sociedade de mercado, pontuada pela lógica da produtividade e da eficácia a todo custo. Traz consigo um ideal de simplicidade, de alegria, gratuidade e amor à criação, de generosidade e compaixão. Há que reconhecer que, para alem do distante arquipélago japonês, esse poeta-monge tem muito o que oferecer e comunicar a todos nós.

Ryôkan nasceu na vila portuária de Izumosaki, na região de Echigo, atual província de Niigata, no Japão, em 1758. Seu pai, Inan Yamamoto, era um personagem importante e culto, com singular tarefa na administração de sua cidade. Sua mãe, Hideko, provinha da ilha de Sado. Riôkan era o mais velho dos filhos, tendo adquirido o nome de Eizo em seu nascimento. O destino que dele esperavam era o de seguir os passos do pai na administração pública, o que não ocorreu. Desde muito cedo o jovem Eizo manifestou grande interesse pela leitura. Naquela ocasião, o processo de aprendizado se dava em casa ou nos templos budistas. Isso ocorreu com Eizo (Riôkan), que aos 12 anos ficou sob a responsabilidade de Ômori Shiyô (1736-1792), com quem se aplicou ao estudo dos clássicos chineses, sobretudo Confúcio. Talvez tenha começado nesse tempo o seu interesse em favor do crescimento espiritual e de insatisfação com o modo de vida secular.

Por volta dos dezoito anos passa por uma experiência novidadeira. Com o olhar voltado para a bela ilha de Sado, terra natal de sua mãe, ouve o badalar do sino do templo de Kôshôji, mas aquele som ecoou de forma distinta em seu coração, como jamais havia sentido, proporcionando-lhe grande emoção. Nascia naquele instante sua vocação de monge budista, que se concretiza em julho de 1775, quando deixa a casa paterna para entrar no templo de Kôshôji, da tradição Soto Zen. Como ele mesmo escreveu, “muitos homens se tornam monges e depois praticam o Zen. Mas eu pratiquei o Zen por muito tempo, antes de me tornar monge”. É nesse momento que recebe o nome de Riôkan, que significa “bom e muito generoso”, passando a receber o aprendizado de Mestre Genjô Haryô. Ali permanece por cerca de quatro anos, transferindo-se depois para o templo de Entsùji (na atual província de Okayama), sob a orientação de Mestre Kokusen Dainin (1723-1791). Tratava-se de um dos mais importantes mestres Zen de seu século. A empatia entre mestre e discípulo logo aconteceu. Era o encontro do jovem monge com um grande mestre, que por sua vez reconhece os dons incomuns do discípulo. Esteve ali nesse templo, em profundo aprendizado, por cerca de doze anos. A disciplina era bem rígida, com o dia começando às três horas da manhã e finalizando por volta da vinte e uma horas. Apesar da riqueza dos livros e textos sagrados colocados à disposição no templo de Entsùji, o Mestre Kokusen, na linha da tradição Zen, insistia na centralidade da prática: da experiência particular, do aprendizado singular em contato com o mundo concreto. Durante um curso dado por Kokusen sobre o Shôbôgenzo de Dôgen (1200-1253), essa grandiosa obra do fundador da Escola Soto no Japão, ocorreu uma experiência reveladora para o jovem Riôkan. A obra era para ele, mais do que um ojbeto de estudo, mas a possibilidade concreta de colocar em prática a disciplina Zen. Veio despertado, sobretudo, pelo apelo em favor do amor, presente no texto de Dôgen, Ai Go (Palavras de Amor):

“Durante a nossa inteira existência, com a nossa força de vontade, torna-se necessário pronunciar palavras de amor. De geração a geração, de existência em existência, não se esquecer jamais de pronunciar palavras de amor. Graças a tal florescimento, os inimigos se reconciliam e os homens sábios e virtuosos tornam possível a paz. Quando alguém recebe diretamente palavras de amor, o seu rosto se ilumina de alegria e o seu coração de contentamento”.

Aos 32 anos de idade, Riôkan vem por Kokusen nomeado responsável pelos monges do templo Entsùji, e um ano depois, em 1791, recebe de seu mestre a inka, ou seja, o reconhecimento de sua maturidade espiritual e a permissão para a difusão de seu pensamento. Como sinal desse novo momento de seu Caminho (Via), ganha o nome de Tai Gu (Grande Idiota), recebendo igualmente de seu mestre um bastão em madeira pulida de glicínia, em forma de montanha. É o bastão que o acompanhará por toda a vida.

Após esse longo período de aprendizado, tem início os anos de sua peregrinação. Retorna à sua região natal, e por oito anos busca encontrar um lugar para acolher sua vocação de monge mendicante. Circula pela vila di Gomotô, antes de encontrar guarida no eremitério de Gogo An, na montanha Kugami, nas redondezas de Izumosaki. Ali reside por cerca de doze anos. Em local de admirável atmosfera, Riôkan reafirma sua vocação de contemplativo. São por ele considerados os anos mais felizes de sua vida, quando alcança sua maturidade espiritual e artística. A ocasião faz irradiar de seu coração a veia poética que sempre o marcou:

“Na sombra das árvores

da montanha Kugami

nessa cabana

gostaria de viver minha velhice”.

O seu estilo de vida simples, pontuado por lindos traços de gratuidade brota vivo de sua poesia:

“Desde quando cheguei a este lugar

muitos anos se passaram.

Quando estou cansado, descanso;

quando estou bem, pego as sandálias e caminho.

Não me preocupo com o louvor dos outros,

nem me lamento de seu desprezo.

Com este corpo, recebido dos pais

abandono-me ao meu destino,

alegremente”.

O projeto maior de sua vida estava na busca e na itinerância. Não se conformava em ficar estabelecido num único lugar. O seu coração era dotado ao movimento, sempre disponível ao suave canto das coisas:

“Nascido para ser monge itinerante,

como podia fixar-me um longo tempo.

Tomei o meu cantil, dei adeus ao mestre,

contente de partir para outros cantos.

De manhã, buscava o alto das montanhas,

à noite, atravessava as sombrias correntes do mar.

Basta uma só palavra para desfalecer,

prometi não deter-me por toda a vida”.


“Desde jovem, deixei tintas e pincel,

desejoso de seguir a Via dos Sábios.

Com um cantil e uma tigela,

peregrinei por muitas primaveras.

Voltando à região natal, vivo sozinho,

numa cabana sob as montanhas.

O canto dos pássaros é a minha música;

As nuvens do céu, os meus vizinhos.

Na água que brota da rocha

lavo os meus velhos panos.

Os pinheiros e os carvalhos da montanha

fornecem-me a lenha.

Na tranqüilidade e na paz

passarei os meus dias,

por toda a vida”.

Em seu ideal despojado de vida eremítica e mendicante, Riôkan pautava-se por três grandes objetivos: a meditação, a liberdade interior e a compaixão, bem na linha dos grandes mestres que o inspiraram desde sempre: Buda Sakyamuni, Bodidarma e Dôgen. Como síntese de seu ensinamento, uma vida simples, desapegada e preenchida de dom e compaixão:

“Minha vida é simples,

confiada ao querer do Céu.

Três porções de arroz no alforje,

um feixe de lenha na lareira.

Nenhum traço de ciência ou ignorância:

fama e riqueza não são senão poeira.

Chove esta noite em minha cabana;

estendo as pernas ao meu prazer.

Livre das paixões, me aconchego contente;

nada pode apagar os meus desejos.

Um pouco de verdura basta para a minha fome,

uma veste para agasalho no inverno.

Quando caminho, seguem-me os cervos,

canto e as crianças respondem-me em coro.

Lavo o meu rosto sob a rocha,

conforto-me com os pinheiros da montanha”.

Não precisava de muito para ser feliz, mas das pequenas e singelas coisas do cotidiano:

“Minha casa esconde-se na floresta.

A cada ano, a hera se avoluma sempre mais.

Não me chegam as notícias do mundo,

sinto apenas o canto dos mateiros.

Exposto ao sol, remendo minhas vestes;

contemplo a lua, canto hinos sagrados.

Este é o meu conselho:

poucas coisas bastam para ser feliz”.

A doçura era um outro traço de sua vida, que se irradiava como um perfume e vinha reconhecida por todos, mas sobretudo pelas crianças, que o circundavam a todo momento:

“Todos os dias, sem exceção,

vou jogar com as crianças.

Trago duas ou três bolas em meu bolso;

sou um homem inútil, mas feliz,

nesta paz primaveril”.

O segredo de sua paz de espírito estava, talvez, na diuturna prática da meditação, tecida ao longo da sua vida. Passou pelo duro exercício da ascese e da purificação, de superação dos apegos e da busca serena da “Grande Morte”, ou seja, da superação do eu egocêntrico e da afirmação do Si fundamental, que habita o fundo do coração. Tinha viva consciência da impermanência de todas as coisas. Dizia: “Como o invólucro de uma cigarra, este mundo aparente é transitório”. Tudo é como uma nuvem branca que passa, como um eco que ressoa e depois desaparece. Junto à consciência da impermanência, a alegria de um coração que se doa: “Se o coração é puro, todas as coisas são puras”. Livre dos apegos e animado pela consciência da Kênose, vibra em seu ser o apelo em favor do outro. Dizia num lindo poema: “Se a minha veste fosse tão larga, gostaria de cobrir todos os sofrimentos que habitam o mundo”. Há lindas histórias sobre essa sua prática efetiva em favor dos outros. Numa delas, relata-se seu encontro com um mendicante numa fria manhã de outono. Tomado de compaixão por ele, reparte o pouco de arroz conseguido nas suas andanças, e doa o seu kimono. Assim firmava-se sua alegria de viver.

Depois de passar doze anos no eremitério de Gogo An, reside um período no santuário xintoísta de Otogo, e relata em poema:

“Desde rapaz estudei literatura,

mas não me tornei um mestre:

pratiquei também o Zen,

mas não cheguei a transmitir a lâmpada.

Vivo agora numa cabana,

junto a um templo xintoísta.

Em metade, padre xintoísta,

em metade, monge budista”.

Aos sessenta e nove anos, em 1826, transfere-se para a vila de Shimazaki, numa pequena casa para ele construída por seu amigo Kimura Motoemon. Depois de duas décadas de vida eremítica, transcorre seus últimos quatro anos junto aos seus queridos. Trata-se de um período que dá remate à sua peregrinação espiritual no caminho Zen. Nesse momento derradeiro ocorre uma nova luz em sua vida, quando se encontra com a monja Teishin, no outono de 1827. Nasce entre os dois uma grande amizade, que será cantada em muitos poemas. Os dois eram poetas. A entrada de Teishin na vida de Riôkan, na plena flor de seus vinte e nove anos, significou um verdadeiro dom na vida do monge-poeta e um grande conforto para a sua velhice. Em poema dedicado a Teishin, canta Riôkan:

“Não tenho nada a te oferecer:

recorde-me de mim,

cada vez que olhar

a flor de lótus

no pequeno vaso”.

“Se o teu coração

permanece constante

como a hera,

viveremos unidos

por mil gerações”.

O monge Riôkan adoece em abril de 1830, e seu estado de saúde foi aos poucos se agravando. Seguindo o ritmo natural das coisas, foi se apagado serenamente, findo a falecer no dia 6 de janeiro de 1831, com a idade de setenta e quatro anos. Seguindo o caminho dos grandes mestres Zen, morreu em posição de meditação. Morreu sereno, como expresso num tradicional Hai-Kai:

“Mostrando o dorso,

mostrando a face,

caem as folhas”.

Alguns dias antes de sua morte, o monge-poeta escreveu com sua bela caligrafia, um poema a seu amigo Yamada Tokô, também lembrada pelo grande escritor japonês, Kawabata Yasanari:

“Como recordação,

quero deixar

as flores da primavera,

o canto do cuco de verão,

as cores do outono”.

Esse grande monge-poeta deixou como precioso legado um grande número de poemas: são cerca de mil e quatrocentos poemas em estilo japonês e outros quatrocentos e cinquenta em estilo chinês, além de cem hai-kais e um epistolário. São poemas que fazem desse simples itinerante, um dos grandes nomes da literatura mundial. Mas talvez o seu exemplo maior esteja na sua simplicidade de vida, no seu amor aos outros, na sua paixão pela lua e pela natureza, no seu amor às crianças e ao sakê. Em síntese, nas pequenas e singelas coisas que traduzem a magia do cotidiano.

(Publicado no IHU-Notícias de 09 de março de 2012:

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/507327-riokanmongeepoetazen)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Cultivo da Formação e a vida intelectual - Homenagem aos 80 anos de J.B.Libânio

Cultivo da formação e a vida intelectual

Faustino Teixeira[1]

“Há vocações de copa. Elas se elevam

para respirar os ares das alturas.

Ou, se quisermos, de águia.

Voam alto, vêem lá embaixo,

Em forma pequena,

Mas em amplas extensões,

O mapa da realidade”

(J.B.Libânio)

O início da trajetória

Na história da Igreja do Brasil nesse período pós-conciliar, João Batista Libânio destaca-se como uma das personalidades mais singulares. Trata-se de alguém que marcou com o seu traço peculiar a vida e a trajetória de muitos dos leigos, agentes de pastoral, religiosos, sacerdotes e bispos brasileiros, com impacto em toda a vida eclesial da América Latina. Há que destacar, em particular, sua presença especial no âmbito da formação e da vida intelectual. Foi nesse campo que iniciou seu percurso em Roma, nos anos conciliares. Em substituição a Marcello Azevedo (SJ), foi convocado a assumir o trabalho de “repetidor de estudos” no Colégio Pio Brasileiro, em Roma, no ano de 1963. É o nome que se dava para o orientador dos estudantes de filosofia e teologia daquela instituição que se ocupava de abrigar os alunos brasileiros que frequentavam as universidades pontifícias romanas. Ali começou o seu frutuoso trabalho de formação e iniciação à vida intelectual de muitos brasileiros. Era alguém preparado para o cargo, animado pela força da juventude e pelo cultivo intelectual gestado em Faculdades Teológicas da Espanha (Comillas) e Alemanha (Hochschule Sankt Georgen – Frankfurt)[2]. Não havia melhor ocasião para se estar na Itália, em plena primavera conciliar. Libânio pôde acompanhar com os alunos toda a gestação dos grandes documentos que marcaram a vida da Igreja católica nas décadas seguintes. Os grandes nomes da teologia estavam em Roma, acompanhando o evento conciliar, e muitos dos textos fundamentais desses pensadores foram objeto das sínteses e esquemas que Libânio organizou para a preparação dos estudantes. Os inúmeros esquemas elaborados nesse processo de formação dariam, certamente, muitos livros, e tinham uma ampla abrangência, envolvendo os grandes temas da teologia sistemática, da liturgia, da pastoral e da moral. Dentre os mais de 80 dirigidos por Libânio na ocasião estavam futuros teólogos, pastoralistas e filósofos que hoje se destacam no cenário nacional como Oscar Beozzo, Manfredo de Oliveira, Geraldo Lírio Rocha e Raymundo Damasceno[3].

Na trilha de grandes mestres

Em testemunho biográfico[4], Libânio reconhece que teve grandes mestres em sua rica trajetória: os da vida e os dos livros. Reconhece que o primeiro mestre foi seu pai, que o introduziu nos mistérios da língua latina. Era um médico especial, dotado de uma abertura de horizontes invejável. Com ele veio também a sensibilidade pela beleza cultural. Vasta era sua biblioteca na área de literatura. Talvez tenha suscitado um primeiro germe na vocação acadêmica transversal do filho e futuro teólogo. Explica-se como junto com o interesse filosófico e teológico, Libânio também motivara-se com a área das línguas e literatura, tendo se diplomado em letras neolatinas na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Com o ingresso na Companhia de Jesus, em fevereiro de 1948, teve importantes mestres no âmbito intelectual e sinaliza algumas presenças que foram decisivas em sua formação. Sublinha a presença do Pe. Antônio Aquino, que abriu caminhos no campo do exercício metodológico. Aprendeu com ele a disciplina, o rigor do método e a organização intelectual. São traços essenciais que vão conformar a carreira acadêmica de Libânio e o seu jeito peculiar de formador. Um detalhe importante veio desse primeiro mestre: o incentivo permanente para a prática da escrita. Libânio reconhece a importância desse primeiro incentivo: “Se hoje não tenho inibição em escrever, muito devo a esse mestre que bem cedo me levou a perder o medo e vencer a preguiça de escrever”[5]. Em seu livro Introdução à vida intelectual (2001), Libânio vai assinalar que a facilidade de escrever traduz um “exercício de aprendizagem vivido na família e praticado nos anos escolares”. Mas envolve também um “fator de personalidade”, e isso é importante acentuar. Sublinha em sua obra que “escrever para publicar implica uma estrutura psíquica que tenha um grau de segurança tal que suporte expor-se às críticas sem se quebrar (...). Pessoas inseguras, perfeccionistas, obsessivas, rigoristas têm enorme dificuldade de escrever e publicar seus escritos. Nunca os julgam suficientemente bons para tal. Temem o mínimo sinal de rejeição, que pode ser sentido na critica”[6]. A presença de Pe. Aquino na vida de Libânio e a dinâmica dessa “amizade epistolar” favoreceram a tranquilidade e a leveza para que ele avançasse nessa arte de escrever. E sua enorme produção literária é o sinal mais vivo desse desbloqueio.

Em seus estudos na Alemanha, teve outro grande mestre, Franz Lennartz. Com ele se deu a abertura para o “universo da psicologia profunda, da personalidade, do conhecimento humano, da vida como experiência existencial”. Sua presença aconteceu num momento importante da vida de Libânio, depois de um período de formação mais fechada no Brasil, acentuada ainda mais em sua passagem pela Espanha. Na Alemanha descortinou com a ajuda desse mestre horizontes mais amplos. A importância desse registro da abertura vem reconhecida por Libânio em sua obra sobre a vida intelectual. Sinaliza, com razão, que “a vida intelectual só se desenvolverá se se mantiver uma atitude de abertura ao diferente, ao novo, ao questionamento”. E essa abertura não pode envolver apenas um segmento do humano, mas deve tocar a “totalidade humana”, cujo centro está na afetividade[7].

Em Roma, ao assumir o instigante desafio de dirigir os estudos dos seminaristas brasileiros, encontrou outro referencial, Pe. Oscar Mueller. Libânio relebra que esse mestre aprofundou em sua vida um traço já presente na influência de seu pai, mas que havia sido inibido na formação tradicional recebida na época. Era o traço do “sentido agudo pela liberdade pessoal e pelo respeito aos caminhos dos outros”. Talvez tenha sido esse um dos princípios norteadores de toda a pedagogia de Libânio em sua trajetória com os grupos de jovens, que favoreceu a confiança necessária para uma relação duradoura. Duas nobres palavras que tecem o vocabulário existencial de Libânio: liberdade e respeito. Como um excelente pedagogo, o teólogo mineiro pautou sua metodologia pelo profundo respeito ao processo de decisão que envolve o caminho de cada um. Numa de suas clássicas reflexões sobre a Opção Fundamental, que tanto marcou os jovens da época, dizia que a decisão é um “processo ontológico pelo qual o indivíduo se torna ser humano, orienta-se para o que é e quer ser”[8]. Há um dinamismo vivo em todo esse processo, caracterizado pelo toque do respeito e da liberdade, onde as decisões que tecem o processo vital vão se firmando num diálogo ininterrupto consigo mesmo, com os outros e com o Mistério sempre maior. Nas decisões concretas é que vai se plasmando a orientação fundamental da vida, que pode sinalizar um caminho de sintonia com o outro e com Deus. Esse foi um aprendizado passado com muita lucidez por Libânio nas grandes lides com a juventude dos anos 70 e 80, mas que permanecem vivas no tempo atual.

Uma das presenças mais decisivas na vida de Libânio foi o Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz. Foi aquele que o acompanhou por grande parte de sua trajetória intelectual, desde a década de 1950. Em testemunho sobre sua influência, Libânio assinala: “Falar dele seria interminável (...). Inteligente, extremamente atualizado me seduziu imediatamente. Dentro das estrutura rígidas de então, ele logo tornou-se, pela abertura de suas idéias, suspeito diante de inteligências extremamente conservadoras que ocupavam cargos de formação na Igreja e na Companhia. Mas, ao mesmo tempo, causava-nos uma atração irresistível”[9]. Era antes de tudo, um grande conselheiro intelectual. Dotado de privilegiada inteligência, firmava-se como mestre maior, abrindo caminhos inusitados para o aperfeiçoamento intelectual. Não era apenas um mestre da inteligência, mas também um amigo para todos os momentos, e de uma simplicidade de vida contagiante, alicerçada numa viva experiência de fé. Libânio recorda que depois de sua volta da Europa, pôde desfrutar de sua companhia amiga por longos períodos, o que foi muito importante para o seu desenvolvimento pessoal e intelectual.

O circuito dos grandes mestres que marcaram a vida de Libânio se enriquece com a presença do teólogo alemão Karl Rahner, que o influenciou profundamente através de suas obras, mas que teve igualmente o privilégio de conhecer pessoalmente através de palestras em Frankfurt e em Roma, por ocasião do Concílio Vaticano II. Libânio recorda que o principal ensinamento recebido desse grande arquiteto da teologia católica foi a “integração do humano e do divino, da graça e da natureza, da história e da escatologia”[10]. Com Rahner abria-se um largo espaço para as reflexões que possibilitariam a irradiação da teologia da libertação, de modo particular, a relação entre a história universal e a história da salvação, entendidas como eventos entrelaçados e coexistentes. Havia uma profunda reverberação rahneriana na reflexão posterior de Gustavo Gutiérrez, com a teologia da libertação, ao tratar, por exemplo, da questão da unidade da história profana com a história sagrada: não duas histórias justapostas, mas “um único devir humano, assumido irreversivelmente por Cristo, Senhor da história: sua obra salvadora abrange todas as dimensões do existir humano”[11].

Espaços de atuação

Ao voltar ao Brasil, em 1969, depois de um longo período de formação acadêmica no exterior, Libânio vai retomando o contato com a realidade. Teve o privilégio de encontrar nesse retorno ao país, um grupo de reflexão que firmou as base de uma compreensão teológica engajada e atuante. O grupo tinha sido arquitetado por Frei Betto e outros dominicanos, ainda quando estavam na prisão, durante o regime militar. Compunha-se de um quadro intelectual de relevo, com presenças importantes como Betto, Leonardo Boff, Ivo Lesbaupin, Carlos Mesters, Pedro Ribeiro de Oliveira, Luiz Alberto Gómez de Souza, Oscar Beozzo, Jether Pereira Ramalho e tantos outros. Muitas iniciativas eclesiais pioneiras no Brasil e mesmo na América Latina foram gestadas nesse grupo, que ainda hoje resiste, com o nome de “Emaús”. Libânio reconhece que as reuniões bi-anuais do grupo foram sempre um forte estímulo e sustentação para a sua caminhada, como também um importante incentivo para uma produção acadêmica articulada com a realidade do país.

Em seu retorno, depois de mais de dez anos de ausência, encontra um novo clima para a reflexão teológica. O tecido eclesial estava também renovado pela presença de movimentos populares libertadores, que sonhavam com um novo horizonte de atuação para as Igrejas cristãs. Era o tempo de gestação da teologia da libertação e das comunidades eclesiais de base. Junto com Leonardo Boff e outros, participou de dois importantes nichos de pesquisa teológica: o grupo de assessores da Conferência dos Religiosos do Brasil e do Instituto Nacional de Pastoral. Nesse espaço propício para reflexões inovadoras e criadoras gestou-se alta produção intelectual, profundamente sintonizada com a nova sensibilidade eclesial-popular. Como assinala Leonardo Boff a respeito, “nunca houve em nosso país um centro tão promissor de quadros teológicos e de fermentação criativa de idéias como nessas duas instituições de assessores da Igreja do Brasil”[12].

Encontrou também no Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro um espaço promissor para a irradiação desse novo modo de fazer teologia, apesar da conjuntura eclesiástica adversa da Arquidiocese do Rio. A teologia da PUC-RJ chegou a reunir um quadro docente altamente especializado e competente, em viva sintonia com a teologia da libertação. Entre suas presenças: Libânio, Clodovis Boff, Pedro Ribeiro de Oliveira, Alfonso Garcia Rúbio, Antônio Moser, Carlos Palácio, França de Miranda, Ulpiano Vasquez, Gabriel Selong e outros. Foi um espaço acadêmico que gerou muitas vocações teológicas, envolvendo também muitos leigos e leigas que estão hoje atuando no campo teológico nacional: Maria Clara Bingemer, Ana Maria Tepedino, Teresa Cavalcanti, Faustino Teixeira, Paulo Fernando Carneiro de Andrade.

Em seu relato biográfico, Libânio fala desse novo modo de fazer teologia que pôde experimentar no Brasil após seu retorno: “Aqui fazer teologia é outra coisa. Estava nascendo a teologia da libertação. E logo me engajei nela. E faz parte dela não se dedicar unicamente à academia, ao estudo trancado no gabinete e sim imergir-se na realidade pastoral para a partir dela pensar a teologia”[13]. Motivado para conhecer melhor a situação nacional e mergulhar na realidade latino-americana, circulou por todo o país e outros espaços latino-americanos em trabalhos de assessoria pastoral. Foram momentos muito importantes para conhecer a dinâmica dos movimentos populares e os trabalhos de articulação da pastoral popular. Alguns dos subsídios criados por Libânio para ajudar nos inúmeros cursos ministrados para agentes de pastoral e cristãos engajados fizeram enorme sucesso, como é o caso dos três volumes da Formação da consciência crítica, publicados em parceria da editora Vozes com a CRB (subsídios filosófico-culturais – 1978; subsídios sócio-analíticos – 1980 e subsídios pedagócos – 1980).

Vale também assinalar o importante trabalho exercido por Libânio no acompanhamento e assessoramento dos Encontros Intereclesiais de CEBs, que aconteceram a partir de 1975. Ele foi um dos teólogos que assumiram o trabalho de analisar os relatórios vindos das CEBs para os primeiros intereclesiais[14]. Sobre a qualidade teológica dos trabalhos realizados, o próprio Libânio comenta:

“Creio que os melhores trabalhos que se produziram sobre eclesiologia e sobre o uso da Bíblia pelo povo etc. vieram desses encontros (…). Os artigos que saíram em 75 e 76 e depois em 78, constituem para mim um bloco de trabalho teológico de grande valor. Considero uma das melhores coisas produzidas na teologia do Brasil a respeito de eclesiologia na perspectiva da Teologia da Libertação e muito ligada aos movimentos populares”[15].

Há que registrar igualmente a viva presença de Libânio no acompanhamento da pastoral da juventude já no início de sua chegada ao Brasil. Registra-se sua presença nos Cursos da Juventude Cristã (CJC) no início dos anos 70 e logo depois, a partir de 1972, no acompanhamento dos universitários da assim denominada “Tropa Maldita”, um núcleo nacional de jovens procedentes do CJC que buscavam novos canais de reflexão e de atuação na realidade nacional. Eram jovens de Belo Horizonte, Sete Lagoas, Juiz de Fora, Volta Redonda, Rio de Janeiro e depois São Paulo. Em tempos difíceis da conjuntura política nacional, o grupo se reunia regularmente com Libânio, cerca de quatro vezes por anos, sobretudo na cidade de Juiz de Fora para tratar uma diversidade de temas envolvendo política, filosofia, cultura e religião. Muitas lideranças em vários âmbitos profissionais nasceram desse grupo, que se manteve unido por mais de três décadas, e que ainda se encontra em momentos singulares. Foi um espaço particular de presença e atuação de Libânio, onde pôde imprimir sua marca de formador, mestre espiritual e iniciador intelectual[16].

O trabalho acadêmico de Libânio ganhou prosseguimento em Belo Horizonte, em 1982, com sua vinda para o Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus (CES). Esse Centro acadêmico de excelência vem renomeado em 2005 como Faculdade Jesuita de Filosofia e Teologia (FAJE) e nele continua atuando Libânio como professor de teologia. Esse campo de atuação acadêmica veio enriquecido com o trabalho pastoral junto à Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, em Vespasiano (região metropolitana de Belo Horizonte). A presença em Vespasiano começou esporadicamente, até que em 1985/1986 ganhou maior regularidade, com sua presença constante aos finais de semana, como coadjutor dominical do pároco Pe. Lauro Elias. Sobre o significado dessa atuação relata Libânio:

“Aí bebo da seiva gostosa da vida paroquial. Tive a felicidade de encontrar uma paróquia viva e prestar então algum serviço concreto à comunidade em sintonia e em colaboração com o pároco Pe. Lauro. São já anos que aqui venho e dou um pouco de mim nas celebrações, cursos, visitas, atendimentos. A pastoral se alimenta da teologia e me alimenta a teologia. Existe uma circularidade que enriquece”[17].

Os traços do formador

Libânio conjuga em sua vida diferenças facetas que constituem o segredo de sua rica personalidade: é o mestre, o professor, o conferencista, o escritor e o pastor. E essa conciliação é feita com amor e naturalidade, como ele mesmo explica: “o professor comunica seu saber teológico. O conferencista amplia seu raio de comunicação. O escritor formula para si e para os outros nas letras pensadas seu saber. Na pesquisa penetra o mundo desse saber. Na pastoral confronta esses conhecimentos com a realidade”[18]. Nessas diversas esferas de atuação desvela-se o grande formador e mestre, que é capaz de tocar o âmbito mais profundo das pessoas e suscitar um novo nascimento. Todos aqueles que tiveram o privilégio de participar desse processo formativo reconhecem em Libânio esse dom e essa graça.

Alguns segredos desse labor do formador podem ser reconhecidos e destacados em algumas obras de Libânio, de modo particular em duas delas: A arte de formar-se (2001) e Introdução à vida intelectual (2001). Segundo Libânio, o processo de formação é uma arte educativa que traduz uma “verdadeira maiêutica histórica”. Trata-se de desabrochar ou trazer à luz o que ja existe em potência em cada um. O educador não chega como um impositor de verdades, mas como um mestre que ajuda o outro a tomar com suas próprias mãos, no ritmo da liberdade, o próprio desenvolvimento e destino. Ele é um “guru”, no sentido mais nobre da expressão, que ajuda o educando a potencializar suas qualidades humanas e espirituais. É um “iniciador”, cuja tarefa fundamental consiste em tornar a alma disponível para a ação do Espírito.

O formador é também alguém que ajuda o outro a se abrir para a realidade do mundo e discernir os seus contornos; alguém que favorece a afirmação de uma outra atitude diante das coisas, marcada pelo discernimento e lucidez. Esse processo não pode ocorrer sem uma forte motivação:

“Educar-se é fazer-se uma imagem ideal de si e pôr-se a esculpi-la em si mesmo na dura labuta da vida, a fim de unir-se o sonhado e o realizado. Essa tarefa, que exige constância inquebrantável, esforço continuado, sacrifícios e renúncias, não se sustenta sem forte motivação”[19].

Há que se alimentar nesse processo por um permanente discernimento crítico, que desabrocha com mais intensidade no brilho da lucidez. Sobretudo nesse tempo, marcado por tantas mudanças paradigmáticas, há que aprofundar a lucidez em todos os âmbitos do relacionamento humano: consigo mesmo, com os outros e com a natureza. Com a entrada do novo milênio, a questão ecológica ganha um lugar decisivo, que exige muito de cada um. Como indica Libânio, “cabe inverter o esquema central: em vez de senhorio, vivenciar a harmonia, a fraternidade, o respeito e a comunhão com a natureza”[20]. Há também que lutar com todos os instrumentos disponíveis contra a ameça do individualismo. Trata-se do essencial aprendizado de “viver com os outros”[21], em atitude de tolerância, generosidade, delicadeza, cortesia e abertura. São outros traços sempre acentuados por Libânio em suas reflexões.

Igualmente no âmbito da formação intelectual, Libânio sugere atitudes que são essenciais. Sublinha que a vocação intelectual envolve a totalidade do humano, conjugando um trabalho de autoconhecimento e de comunhão com a realidade. Levanta pistas preciosas para aqueles que querem se iniciar nessa arte. Sua visão vem respaldada por décadas de experiência no campo da orientação intelectual. A seu ver, o segredo está numa vida bem regrada e que saiba, com lucidez, integrar os diversos planos e dimensões da existência. Há que estar, em primeiro lugar, motivado para tal empreendimento. Essa é uma das tarefas mais importantes de um formador: despertar o interesse e a motivação do outro nos caminhos do aprendizado. Como bom jesuíta, ressalta a importância do equilíbrio. A vida intelectual requer condições precisas para o seu desenvolvimento, entre as quais a “saúde física e psíquica”. Há que equilibrar o organismo, evitando o desgaste e o esgotamento. Libânio sugere uma regra essencial, que cunhou com um nome sugestivo, per oppositum: “o descanso se faz pelo oposto. Cansaço físico pede repouso. Cansaço psíquico pede exercício físico”[22]. Ressalta algumas atitudes psicológicas que são essenciais para o equilíbrio do trabalho intelectual: evitar o perfeccionismo, a falta de motivação e ampliar a gama de satisfações[23]. O bom trabalho requer ainda um sadio relacionamento humano, um propício ambiente de trabalho e estruturas de apoio para sua realização. São condições essenciais para a afirmação de um processo educativo exitoso. Como sinaliza Libânio, “é um processo interno, mas favorecido por condições externas. A vida intelectual exige que se cuide de ambos. Assim, uma motivação consistente e o cuidado com as disposições físicas e psicológicas permitem caminhar tranquilamente pelas vias da inteligência”[24].

São disposições que facultam o essencial segredo da aprendizagem, que se torna ainda mais urgente nesse mundo da complexidade. É um exercício que envolve as aquisições essenciais do passado, a percepção viva do presente e a abertura para a densidade do futuro. Tudo isso requer agilidade, desenvoltura e flexibilidade: “Aprender a conhecer supera a tendência atual da hiperespecialização, da fragmentação, da separação, da compartimentação dos saberes e das disciplinas, para pensá-los de maneira polidisciplinar, transversal, multidimensional, transnacional, global e planetária”[25].

Abertura de novos caminhos

Em sua rica trajetória de vida, Libânio não só apontou pistas fundamentais para a dinâmica formadora e a iniciação intelectual, mas também firmou-se como um grande propulsionador da reflexão teológica no Brasil, América Latina e Caribe. Foi responsável pela elaboração de roteiros fundamentais, envolvendo a teologia da libertação, a introdução à teologia, o tratado da fé e a escatologia cristã. Contribui também para importantes reflexões no âmbito da eclesiologia, da teologia latino-americana, da pastoral da juventude, da pastoral urbana e dos estudos sobre religião. Um dos toques de singularidade de sua reflexão teológica, marcada pela transversalidade, é a permanente abertura ao mundo do outro. Seu trabalho diuturno foi sempre no sentido de “incorporar a alteridade religiosa no método e no conteúdo”[26] da teologia. Não há como fazer teologia, indica Libânio, sem inteligência, coração e compromisso. A inteligência faculta a luz necessária para a lucidez do trabalho teológico. O coração possibilita vencer a frieza e acolher a inspiração da intuição, que faz a teologia ser tocado pelo pathos de Deus. E o compromisso favorece a inserção viva e criativa da teologia no quadro da realidade social[27].

(Publicado in: Afonso MURAD & Vera BOMBONATTO (Orgs). Teologia para viver com sentido. Homenagem aos 80 anos do teólogo João Batista Libânio. São Paulo: Paulinas, 2012, pp. 159-169).



[1] Teólogo, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora. Pesquisador do CNPQ e Consultor do ISER-Assessoria (RJ). Dentre seus âmbitos de pesquisa: Teologia das Religiões, Diálogo Interreligioso e Mística Comparada das Religiões. Publicações mais recentes: Catolicismo plural. Dinâmicas contemporâneas. Petrópolis: Vozes, 2009 (junto com R.Menezes); Ecumenismo e diálogo interreligioso. Aparecida: Santuário, 2008 (com Z.M.Dias); O canto da unidade. Em torno da poética de Rûmî. Rio de Janeiro: Fissus, 2007 (com M.Lucchesi).

[2] Em Roma concluirá o seu doutorado em teologia, em 1968, na Pontifícia Universidade Gregoriana, sob a orientação de Zoltan Alszeghy (SJ). Como tema: “Críticas aos estudos eclesiásticos filosófico-teológicos e propostas de renovação na literatura recente”.

[3] Oscar Beozzo atua hoje no CESEP e na assessoria de pastorais populares; Manfredo Oliveira é professor titular da Universidade Federal do Ceará (Departamento de Filosofia); Dom Geraldo Lírio Rocha é arcebispo de Mariana e ex-presidente da CNBB (2017-2011) e Dom Raymundo Damasceno é arcebispo de Aparecida e atual presidente da CNBB, eleito em 2011.

[4] Johan KONINGS (Org). Teologia e pastoral. Homenagem ao Pe. Libânio. São Paulo: Loyola, 2002, pp. 181-185 (Entrevista concedida a Eduardo Franco, Jornal de Opinião).

[5] Ibidem, p. 182.

[6] João Batista LIBÂNIO. Introdução à vida intelectual. São Paulo: Loyola, 2001, p. 164.

[7] Ibidem, pp. 81 e 84.

[8] João Batista LIBÂNIO. Crer e crescer. Orientação fundamental e pecado. São Paulo: Olho D´água, 1999, p. 22.

[9] Johan KONINGS (Org). Teologia e pastoral, p. 184.

[10] Ibidem, p. 183.

[11] Gustavo GUTIÉRREZ. A força histórica dos pobres. Petrópolis: Vozes, 1981, p. 51. Comparar com Karl RAHNER. Curso fundamental da fé. São Paulo: Paulinas, 1989, p. 178.

[12] Johan KONINGS (Org). Teologia e pastoral, p. 38.

[14] Dois trabalhos de Libânio podem ser destacados nesse âmbito: Uma comunidade que se rededine. Sedoc, v. 9, n. 95, 1976, pp. 293-326 e Comunidade Eclesial de Base: pletora de discurso. Sedoc, v. 11, n. 118, 1979, pp. 765-787.

[15] João Batista LIBÂNIO. O caminho da teologia. In: Instituto Nacional de Pastoral (Org). Pastoral da Igreja no Brasil nos anos 70. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 192.

[16] A experiência de Libânio com a “Tropa” foi importante fonte de inspiração para o seu livro: O mundo dos jovens. Reflexões teológico-pastorais sobre os movimentos de juventude da Igreja. São Paulo. Loyola, 1978.

[18] Johan KONINGS (Org). Teologia e pastoral, p. 188.

[19] João Batista LIBÂNIO. A arte de formar-se. São Paulo: Loyola, 2001, pp. 121-122.

[20] João Batista Libânio. Em busca da lucidez. O fiel da balança. São Paulo: Loyola, 2008, p. 21.

[21] João Batista LIBÂNIO. A arte de formar-se, p. 59s.

[22] João Batista LIBÂNIO. Introdução à vida intelectual. São Paulo: Loyola, 2001, p. 130.

[23] Ibidem, pp. 131-134.

[24] Ibidem, p. 136.

[25] João Batista LIBÂNIO. A arte de formar-se, p. 20.

[26] João Batista LIBÂNIO & Afonso MURAD. Introdução à teologia. São Paulo: Loyola, 1996, p. 272.

[27] Ibidem, pp. 371-372.