sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O fenômeno do fundamentalismo religioso

O fenômeno do fundamentalismo religioso

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

O fundamentalismo religioso é um fenômeno complexo e com desdobramentos bem precisos nesse limiar do século XXI. É verdade que o conceito foi muito inflacionado, cobrindo dimensões bem distintas e mais amplas do que aquelas que se referem à sua origem propriamente dita. Daí a necessidade de matização ao aplicar o termo para outras designações religiosas. Mas há sempre uma referência do fenômeno à modernidade, ou melhor, a uma precisa reação à modernidade. Ele traduz um temor disseminado contra os ventos modernizantes do processo de pluralização. A grande abrangência da pluralização e sua disseminação incontrolada provocam desorientação em muitas pessoas e comunidades, que sentem perder o chão firme da tradição, que lhes proporcionava firmeza e segurança. Em razão da condição de incerteza permanente provocada pelos ventos plurais, que desestabilizam o mundo auto-evidente das crenças e convicções, muitos tendem a buscar o seu apoio nos projetos restauradores de sentido, que convocam com vigor os absolutismos encrustados no mundo das tradições. Como indica Jürgen Moltmann, “os fundamentalistas não reagem às crise do mundo moderno, mas às crises que o mundo moderno provoca em sua comunidade de fé e em suas convicções básicas”.

Na origem do fundamentalismo, há esse sentimento de desorientação. E isso aconteceu seminalmente no mundo protestante. É uma reação ao processo modernizante vivido pelo protestantismo liberal em seu procedimento de “adaptação cognitiva” à modernidade. A teologia liberal protestante, no século XIX, abraçou alguns pressupostos modernizantes como a assunção do método histórico-crítico na leitura e interpretação da Bíblia, a relativização da tradição dogmática da igreja e a ênfase numa leitura ética do cristianismo. A reação foi imediata entre grupos de protestantes para os quais esse revisionismo liberal estaria corroendo aquilo que para eles era essencial no campo da fé. Em reação aberta, sinalizam que certos artigos da fé não podem ser negociados com a modernidade, por serem essenciais e fundamentais. Dentre as primeiras manifestações encontra-se o manifesto tornado público na Conferência de Niágara sobre a bíblia, em 1985, com a afirmação de doutrinas tidas como essenciais: a inerrância das Escrituras; a divindade de Jesus Cristo e seu nascimento virginal, bem como seu sacrifício expiatório vicário, sua ressurreição corpórea e sua segunda vinda à terra como juiz. A designação do termo e sua maior divulgação ocorreram em seguida, com a publicação de uma série de textos entre os anos de 1909 e 1915, nos Estados Unidos, intitulados The Fundamentals – A Testimonium to the Truth (Os Fundamentais – um testemunho em favor da Verdade). A série de 12 opúsculos, com mais de três milhões de exemplares publicados, foi que deu o nome ao movimento fundamentalista, favorecendo também sua maior divulgação.

Nascia, assim, uma contra-ofensiva fundamentalista a um modernismo em curso no mundo protestante, que estaria interpretando os conteúdos essenciais da fé numa problemática perspectiva histórico-crítica. Em oposição a tal modernismo, firmavam-se conteúdos considerados Fundamentais, ou seja, verdades absolutas e intocáveis, que deveriam estar preservadas dos ares dissolventes da ciência e da relativização moderna. Entre tais conteúdos, os mesmos defendidos pela Conferência de Niagara, incluindo também o criacionismo. Tudo o que pudesse opor-se a tais “fundamentais” nos resultados das ciências modernas, como o evolucionismo biológico, era objeto da resistência fundamentalista. Essa perspectiva foi mais incisiva entre os batistas e os presbiterianos do Norte dos Estados Unidos, tendo depois se espalhado por outros espaços através da aguerrida atividade missionária. Vale também registrar a fundação, em 1941, do Conselho Americano das Igrejas Cristãs, que agrupou segmentos fundamentalistas mais rígidos, e que farão oposição aos organismos ecumênicos.

Algo semelhante ocorreu em âmbito do catolicismo romano, com a oposição do magistério contra os ventos da modernidade. É o caso do sílabo de Pio IX (1864), com a condenação de um elenco de proposições modernas, incluindo o panteísmo, o naturalismo e o racionalismo absoluto. Tornou-se clássica a proposição de número 80, com a condenação de qualquer “negociação cognitiva” com a modernidade: “O Romano Pontífice pode e deve reconciliar-se e fazer amizade com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna” (DzH 2980). E igualmente a encíclica de Pio X, Pascendi dominici gregis (1907), em torno dos erros dos modernistas quanto ao conceito de fé, aos enunciados teológicos e aos princípios da ciência histórica e critica (DzH 3475-3500). Enquanto o fundamentalismo protestante invoca a autoridade da bíblia, o fundamentalismo católico, que poderia ser melhor definido como integrismo, recorre à infalibilidade do magistério.

Na base da atitude fundamentalista há uma forte experiência de conversão, suscitada pela experiência imediata com Deus à base da escuta da Palavra. Nada mais atemorizante para eles do que perder esse fundamento seguro, pulverizado pelos ares dispersivos e centrífugos que acompanham a sensibilidade moderna. Em defesa dos motivos de credibilidade partem com vigor ao ataque, seja de forma defensiva, fechando-se nos “muros protetores” de seu grupo, seja de forma ofensiva, avançando numa cruzada contra os “descrentes”. São, em verdade, movidos por uma “necessidade angustiante de certeza”, que pode estar envolvida por problemática espiral de violência. O sentimento vivenciado é semelhante ao de Madalena, na manhã da Páscoa: “Tiraram do sepulcro o Senhor e não sabemos onde o puseram” (Jo 2,2). Uma vez ameaçada, a identidade pode se tornar aguerrida e mesmo mortífera, e muitos são os exemplos que historicamente comprovam um tal risco. O fenômeno do fundamentalismo implica a idéia de uma “tradição sitiada”, de uma identidade ameaçada. Diante do risco globalizador, ele reage com a afirmação tradicional da tradição. Rejeita-se qualquer engajamento dialogal com a modernidade, e busca-se reconstituir um “mundo curado”, livre de surpresas. Os projetos fundamentalistas incluem, assim, a limitação ou mesmo supressão de todo pluralismo e a rejeição de qualquer perspectiva hermenêutica.

(Artigo publicado na Revista Diálogo – Revista de Ensino Religioso, Ano XVII, nº 65, fevereiro/abril 2012, pp. 10-13)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Mística: experiência que integra anima e animus

Mística: experiência que integra anima e animus

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

Entrevista IHU (por Moisés Sbardelotto)

IHU On-Line – “Êxtase”, “evento”, “experiência”: o que é mística para o senhor? Nesse sentido, é possível falar de uma “mística feminina”?

Para responder a essa questão faço recurso à narrativa de uma grande mística, Teresa de Ávila. Em seu livro da vida, no capítulo 10, ela descreve sua experiência como um evento interior, marcado por grande “sentimento da presença de Deus”. Trata-se de um sentimento que não dá lugar à dúvida, que envolve toda a pessoa no regaço do Mistério e cala todas as tentativas de explicação. Numa tal situação “a alma fica suspensa” e o “intelecto não discorre”. Mas permanece acesa a vontade que ama. É uma experiência singular de estar mergulhado na “ternura” de Deus, com a consciência viva de que tudo é dado por Ele. Muito rica também é a narrativa do místico e poeta nicaraguense, Ernesto Cardenal, em sua linda obra Vida no amor. Ele fala também de uma presença que envolve o sujeito e o deixa com “tremor e espanto”. E não há como escapar dessa presença que inflama a alma: “Quer esconder-se e desaparecer dessa presença e não pode, porque está como entre a espada e a parede, esta entre Ele e Ele, e não tem onde escapar, porque essa presença invade céus e terra e a invade também a ela totalmente, e ela está em seus braços”. Não é um deleite qualquer, mas um “deleite insuportável”, pois a alma é pequena para o alvoroço que ele provoca. É um deleite agridoce, enquanto “infinitamente amargo e infinitamente doce”, mas traz consigo uma alegria genuína e única, maior do que toda a felicidade que a vida até então proporcionou. E não é uma experiência facultada unicamente aos que se definem como religiosos, mas a todos, indistintamente, na medida em que estão propensos a viver situações precisas de um sentimento de envolvimento que ilumina a vida e acende o olhar. Não sem razão, Raimon Panikkar definiu a mística como uma “experiência integral da vida”. É verdade que ela envolve uma “experiência” e o sentimento de uma “presença” que escapam do controle e transcendem as práticas religiosas usuais, mas é algo que ocorre em nossa vida cotidiana e terrenal. Todos podemos ser eventos dessa “visita” inesperada de uma “misericórdia” que escorre do inefável, e que encanta a vida com o toque de sua beleza, que é “presença que fala”. Não há como enquadrar a experiência mística como feminina ou masculina, ela transcende e ao mesmo tempo envolve essas categorizações. Diria que é uma experiência que integra, em reciprocidade fundamental, as dimensões de anima (feminilidade) e animus (masculinidade) que habitam cada pessoa humana.

IHU On-Line – Em sua opinião, que figuras históricas mais se destacam na abordagem feminina de Deus e do Mistério? Por quê?

Nessa abordagem feminina de Deus e do mistério destacam-se inúmeras figuras históricas. Encontramos na época medieval a esplêndida experiência das beguinas, que beberam na fonte da teologia do amor dos cistercienses Bernardo de Claraval e Guilherme de S.Thierry, que foram pioneiros na retomada da interpretação mística do Cântico dos Cânticos. Destacam-se entre as místicas beguinas, Hadewijch d´Anvers, Mechthild von Magdeburg e Marguerite Porete, todas do século XIII. São mulheres ousadas, que traduzem uma rica e original abordagem do divino. São místicas que se inserem na dinâmica da mística nupcial (brautmystik), distinta da mística especulativa (wesenmystik). O tema chave é o do amor, que se insere no coração mesmo da divindade, entendida como Minne. Trata-se da força divina que invade e escorre por todo o universo, que flui gratuitamente para todo canto. Ou então, como em Marguerite, a “Dame-amour”, que confere uma nova configuração de gênero à Deidade. Essa tradição mística nupcial ganha vitalidade e também inusitada riqueza simbólica na experiência de outra grande mística do século XVI, Teresa de Ávila. Pode-se ainda lembrar, as presenças mais modernas de Edith Stein, Simone Weil e Etty Hillesum.

IHU On-Line – Para falar do Mistério ou da Realidade Última, místicos e especialmente místicas sempre fizeram referência ao “amor”. Em sua opinião, quais as principais facetas do amor a partir da experiência das grandes mulheres místicas da história?

Vou me concentrar aqui no relato das beguinas, que é exemplar a esse respeito. Retomando a experiência mística dessas mulheres medievais, cuja linguagem vem tecida pelo “parler-femme”, o tema do Amor é central. A idéia de Minne para expressar a divindade é muito rica e plástica. É um predicado de Deus, mas que envolve a realidade fundamental que a tudo anima. Como assinala Hadewijch, é como o ar que se respira, que atua sem cessar no interior de cada um. Não há como escapar desse fluir do amor, desse “jogo” do amor onde todos estão envolvidos. A divindade não se encontra distanciada do tempo e da vida cotidiana, mas está ao alcance do desejo humano. Em alguns casos, como na narrativa de Mechthild, estamos diante de um “encontro erótico com Deus”. Em passagem do Livro sétimo, de sua obra A luz fluente da divindade, em resposta a uma pessoa que suplicava e rezava, Nosso Senhor responde: “Eu te desejei antes da criação do mundo. Eu te desejei e tu me desejas. Lá onde se encontram dois desejos ardentes, ali o amor é perfeito” (VII,16). Em outra impressionante passagem do mesmo livro, Mechtihild relata o encontro da alma com a divindade. Assim que a alma entra na câmara da divindade, no seu leito de amor, vem por ela interrompida, e se assinala que para adentrar-se nessa câmara há que estar desnuda, sem nenhum obstáculo entre as duas. Para se dar entrada no leito nupcial dos amantes - sublinha Deus - há que romper o temor e a vergonha (I,44). Assim também em Porete, na obra O espelho das almas simples, a figura divina vem representada no feminino, Dame Amour, a LoinPrés, que se vela e desvela simultaneamente. Rompendo com os estereótipos do tempo, a oradora divina é feminina, firmando uma compreensão singular da Trindade poretiana: Dame Amour, LoinPrés e Alma aniquilada. Em passagem dessa obra, diz o Amor: “Eu sou Deus, pois o Amor é Deus e Deus é Amor, e essa Alma é Deus por condição de Amor” (capítulo 21). E mais adiante, acrescenta a Alma: “Lá onde está o mais de meu amor, é onde está o mais de meu tesouro” (capítulo 32).

IHU On-Line – Teresa d’Ávila, ao falar de Deus, fala de “experiência”, “gozo da alma”, que é diferente de “só pensar e crer nele”. Como Teresa interpretava a experiência mística de Deus?

Ao tratar do tema do “gozo” na mística espanhola, a estudiosa Luce López-Baralt assinala que o sentido que este termo adquire no século de ouro dessa mística esponsal não pode ser espiritualizado. Com base na reflexão da Canção XXXVI do Cântico Espiritual de João da Cruz, “Gozemo-nos Amado”, a autora sublinha que João da Cruz lança a “petição mais ousada” de toda a sua poesia. E o sentido dado a tal expressão nesse período era mesmo “fazer amor”. É nas escarpas mais íngremes e nas “subidas cavernas pedregosas” que os amantes se entregam e se adentram na espessura. Nada de estranho para quem bebe no mais clássico e erótico epitalâmico palestino que é o Cântico dos Cânticos. Teresa de Ávila vem também movida por semelhante perspectiva. Assim como João da Cruz, Teresa é uma “mística das carícias”, da proximidade amorosa e do envolvimento corporal. É a mística que diz no Livro da Vida que “não somos anjos, pois temos um corpo” (LV 22,10). Sua mística é envolvida pelo “êxtase”, tão bem retratado por Gian Lorenzo Bernini, em imagem da transverberação, que se encontra na Igreja de Santa Maria da Vitória em Roma. Nada mais ousado para uma mulher européia do período que sua descrição do dardo que perfura o coração e atinge as entranhas: “A dor era tão grande que eu soltava gemidos, e era tão excessiva a suavidade produzida por essa dor imensa que a alma não desejava que tivesse fim nem se contentava senão com a presença de Deus” (LV 29,13). Como mostrou Julia Kristeva em seu livro sobre a mística, Therèse mon amour (2008), é um relato que “desafia o pudor”. Sua experiência da proximidade com Deus é única e de intensidade inaudita. É algo que escapa à compreensão de todo aquele que não partilha algo semelhante. Ela mesma sublinha que “tudo será bem obscuro para quem não tiver experiência”. Na base dessa experiência está um encontro que transformou sua vida. Aprendeu sobretudo por experiência (LV 10,9), e de uma maneira que “espanta” (LV 12,6). Teresa dizia que para descrever sua sublime experiência só fazendo recurso aos “desatinos santos”, dada a fragilidade da linguagem humana. Tudo se desarticula diante de tão divina beleza: “É uma luz tão diferente das do mundo que o clarão do sol que vemos parece sem brilho em comparação com a claridade e a luz que se apresentam à vista” (LV 28,5).

IHU On-Line – Houve algum tipo de tensão entre a mística vivida por Teresa d’Ávila e a instituição-Igreja da sua época? Por quê?

O contexto histórico em que viveu Teresa foi pontuado pela presença sombria da inquisição. Vale lembrar que suas primeiras visões de Jesus, entre os anos de 1559 e 1560, foram anos difíceis na Espanha. Em 1559 a inquisição espanhola publica um index de livros religiosos, entre os quais muitos apreciados e utilizados por Teresa. A atuação desse organismo chega a seu auge na Espanha em 1621. Alguns temas centrais da mística de Teresa, como a oração mental, a contemplação, a quietude eram olhados com grande desconfiança por segmentos da instituição católico-romana. Preocupados, seus confessores orientavam-na num sentido distinto de sua experiência, e isso a entristecia. Sua coragem e ousadia eram, porém, maiores. Dizia: “Sempre que o Senhor me ordenava uma coisa na oração e o confessor me dizia outra, o próprio Senhor repetia que lhe obedecesse; depois Sua Majestade mudava a sua opinião, para que me ordenasse outra vez de acordo com a vontade divina” (LV 26,5). Teresa comenta e lamenta a proibição desses livros, mas logo seu ânimo se levanta: “O Senhor me disse: Não sofras, que te darei livro vivo” (LV 26,5). Queixa-se da carência de guias que pudessem contar com uma semelhante experiência no caminho espiritual. Contava sobretudo com o favorecimento do Senhor, sem o qual soçobraria. E argumentava: “Não faltavam coisas para me tirar o juízo, e algumas vezes eu me via em situações em que só me restava elevar os olhos ao Senhor” (LV 28,18).

IHU On-Line – Marguerite Porete no deixou como legado o seu “Espelho das Almas Simples”. Como essa metáfora nos ajuda a compreender a sua mística?

O Espelho das almas simples (Mirouer) é fundamentalmente um “tratado místico”, um livro de instrução religiosa. Foi escrito por volta de 1290, quando sua autora estava no auge de sua potencialidade física e intelectual. O titulo da obra vem tomado da própria obra, no capítulo 13,15, na voz da palavra do Amor. É uma obra que nasce, sem dúvida, da experiência mística pessoal de Marguerite, e essa experiência vem à tona em determinados momentos de sua redação, ainda que de forma velada ou alusiva, como acontece em geral na literatura mística. A exposição da autora deixa transparecer acenos velados de uma mensagem revestida de alegorias peculiares, que rompem com as rotas conhecidas do conhecimento tradicional. Já no prólogo da obra, Marguerite sinaliza que a adequada compreensão da mesma só poderá ocorrer mediante o “entendimento interior sutil”, que ocorre em geral com aqueles que estão movidos pelo Amor Cortês. O livro tem uma estrutura dialógica, com personagens que são centrais e outros que são secundários. Os interlocutores principais são a Dama Amor, a Alma e a Razão, todas figuras femininas. Como indicado no próprio titulo, o tema central da obra gira em torno do caminho gradual de libertação da alma e de sua união mística com Deus. O grande protagonista da obra é o Amor, e o horizonte visado é o despojamento radical da alma em seu processo de ruptura com todos os vínculos que impedem o exercício da verdadeira humildade e o encontro com Deus. Diversos estudos sobre esta obra de Porete sinalizam sua proximidade cronológica e espiritual com a reflexão mística de Meister Eckhart.

IHU On-Line – Na vida de Marguerite, como se deu a relação entre teologia, mística, instituição eclesial e heresia?

Apesar das inúmeras críticas sofridas por seu livro ao longo de sua vida, Porete sempre resistiu, animada pela força do Espírito. O traço singular de sua reflexão é o acento na liberdade. Através da personagem Amor, diz Porete: “Essa Alma, diz Amor, é livre, mais que livre, libérrima, abundantemente livre, em sua raiz, em seu tronco, em todos os seus ramos e em todos os frutos de seus ramos. A herança dessa Alma é a perfeita liberdade, cada uma de suas partes tem o seu brasão de nobreza” (Capítulo 85, 5). Essa Alma livre não tem por que temer, pois é habitada pelo Amor. Não é mais como rio que tem um nome, enquanto ruma para o mar, mas já se fundiu e se dissolveu em suas grandiosas águas. Perdeu assim o seu nome, transformando-se no nome daquele com o qual se fundiu. A Alma foi “queimada pelo ardor do fogo da caridade, e suas cinzas jogadas em alto-mar pelo nada da vontade” (Capítulo 85,15). Assim também Porete, animada com a força do Amor. Foi permanente sua resistência aos desmandos da inquisição, até ser queimada em praça pública, em 1310, acusada de “herética recidiva, relapsa e impenitente”. Seu olhar sobre a instituição é marcado por crítica incisiva. Entende que a “Santa Igreja, a Pequena” encontra-se ainda sob o domínio da Razão, que permanece movida por pequeno entendimento: muitas vezes toma a palha e deixa o grão. Trata-se de uma instituição definida e delimitada, não alcançando o mistério que habita nas almas despojadas e aniquiladas. É uma instituição que não capta igualmente a medula que habita o fundo da alma, pois ali não pode entrar nada de determinado. Daí o auxílio fundamental exercido pela “Santa Igreja, a Grande”, que vem constituída pelas almas animadas e preenchidas pelo Amor: as almas aniquiladas. Na visão de Porete, é essa Grande Igreja que sustenta a fé da “Santa Igreja, a Pequena”. Essa posição da autora suscitou muita tensão e conflito, sobretudo em razão de suas possíveis ressonâncias gnósticas e joaquimistas. Mas como mostrou com clareza a especialista italiana, Romana Guarniere, em nenhum momento Porete manifesta a intenção de romper com a instituição, mas permanece animada com o desejo de permanecer ligada a ela, ainda que consciente de suas limitações históricas.

IHU On-Line – Em momentos de crise como o nosso, em que aspectos a mística de Teresa e de Marguerite nos é contemporânea? Em que elas nos iluminam?

No caso específico de Marguerite e Teresa, o grande legado que fica é o do desafio do despojamento, da humildade, da liberdade e da abertura. As duas místicas estão marcada pela fina atenção aos sinais dos tempos. A mística beguina chama a atenção para auscultar a presença de Deus não só nos templos e mosteiros, mas também em toda a parte e em todos os lugares (Capítulo 69, 42-50). Teresa, por sua vez, convoca ao essencial desafio do amor fraterno, que está dialeticamente unido ao amor a Deus. A prática do amor fraterno, por um lado, realiza o amor a Deus. E o amor a Deus, por outro, faculta o aperfeiçoamento do amor ao próximo, pois “o amor ao próximo nunca desabrochará perfeitamente em nós se não brotar da raiz do amor a Deus” (Quintas Moradas, 3,9). Teresa adverte às irmãs “encapotadas” em suas orações sobre a importância das obras: “Não irmãs, não é assim! O Senhor quer obras. Se vês uma enferma a quem podes dar algum alívio, não tenhas receio de perder a tua devoção e compadece-te dela” (Quintas Moradas, 3,11). Destacaria também um tópico muito rico, presente nas duas grandes místicas: a entrega aos cuidados de Deus. Nosso tempo é marcado pela busca de resultados, pela eficácia e produtividade. Os místicos, na contramão dessa lógica, insistem na virtude da paciência. Há que saber esperar. Numa rica passagem de seu livro, Porete fala de um sábio trabalhador que cultiva sua terra para dela tirar seu sustento. Ele cultiva e ara a terra, num duro esforço laborativo. Mas depois que coloca o trigo na terra, cessa o seu poder. O que vale agora é a paciência para aguardar os frutos: “Todo o seu poder não pode mais ajudar. É preciso que ele deixe o resto ao cuidado de Deus, se quer ter um bom resultado em seu trabalho. Por si ele não pode fazer mais nada (...)” (Capítulo 124, 35-50).

IHU On-Line – Como o senhor percebe a relação entre teologia/filosofia e mística? Existiria hoje a necessidade de uma gramática teológica/filosófica adequada para se poder captar a novidade dos místicos?

Esta tensão entre mística e filosofia percorre as narrativas místicas, veja os exemplos de Rûmî, em seu Mathnawi e também Farid ud-din Attar, em sua obra Linguagem dos pássaros. Na conclusão de seu livro, Attar fala das dificuldades que impedem o acesso ao segredo de seu livro. Faz uma distinção entre os “filhos das ilusões” e os “filhos da Realidade”. Os primeiros apenas arranham a casca, não conseguindo penetrar nos enigmas e mistérios de sua poesia. Diz Attar: “Os filhos das ilusões são náufragos na música de meus versos, mas os filhos da Realidade conseguem penetrar nos meus segredos mais íntimos”. Há algo de sigiloso e velado na linguagem dos místicos que escapa às interpretações tradicionais. Necessita-se de algo mais para penetrar em seus mistérios. Há uma “lógica do coração” que transborda a “lógica da razão”. Attar convida os leitores de seu livro para abraçar o que chama de “ciência de Medina”, que é porta de acesso à linguagem esotérica dos pássaros. É necessário sublinhar a peculiaridade da teoria do conhecimento dos místicos, que é distinta da forma de teoria que conhecemos, que se dá mediante o aprendizado convencional. O místico, ao contrário, faz também recurso à “aprendizagem direta”, por via do dom divino. Dizia um grande místico sufi egípcio: “Conheci o meu Senhor por meio do meu Senhor, sem o meu Senhor, jamais poderia conhecer o meu Senhor”. Trata-se do conhecimento íntimo de Deus, bebido em sua câmara secreta, e que os místicos sufis nomeiam como ma´rifa. Para firmar o seu conhecimento, os místicos rastreiam também os “atalhos da inspiração”, para além da rota conhecida, traçada no tradicional mapa do conhecimento. Em clássico texto de Ibn´Arabi sobre a tensão entre os eruditos exotéricos e os sufis, ele trata da diferença entre o conhecimento de ambos. A seu ver, os primeiros recebem seu conhecimento dos mortos, e os outros do “eternamente vivo”. Essa é a diferença para ele. No âmbito da filosofia ocidental, pensadores como Jean Baruzzi, Jacques Maritain e Georges Morel debateram intensamente esta questão. Este último autor, no prefácio de sua volumosa obra sobre João da Cruz, abordou este tema da filosofia, teologia e mística. Assinala que o místico, na verdade, toca o coração do filósofo, despertando nele uma “nostalgia, talvez rechaçada, a nostalgia do mistério das coisas”.

IHU On-Line – Em sua opinião, como se manifesta a radicalidade da linguagem mística em geral, uma linguagem muitas vezes ousada para os padrões sociais e eclesiais? Em que ela se diferencia da linguagem teológica ou filosófica?

Na ampla introdução de Leonardo Boff feita para a tradução brasileira do livro de Mestre Eckhart sobre A mística de ser e de não ter, ele fala das dificuldades da mística com as instituições religiosas. Segundo Boff, “a instituição religiosa assentada particularmente sobre seguranças que exigem os mecanismos de controle, dificilmente convive com a experiência dos místicos. Ela possui pouca flexibilidade para entender a linguagem ousada dos que experimentaram o inefável do Mistério”. A linguagem dos místicos é tecida por alusões, oxímoros e dislates. Não é uma linguagem usual e rotineira, mas marcada pelo traço excessivo. Ao final de seu complexo sermão sobre a bem aventurança dos pobres, Eckhart assinala: “Quem não compreende a fala, não aflija com isso o seu coração. Pois enquanto o homem não se iguala a essa verdade, não compreenderá essa fala. Essa é, sim, uma verdade sem véu, vinda diretamente do coração de Deus” (Sermão Alemão 52). É uma fala de ousadia, “abusada”, como também vislumbramos em Ibn ´Arabi, que chegou uma vez a dizer: “Diversa são as crenças professadas pelas pessoas sobre Deus. Mas eu as professo todas. Creio em todas as crenças”. Ao refletir sobre a linguagem excessiva dos místicos alemães, o filósofo Amador Vega – grande especialista em Eckhart – assinala o traço de sua novidade linguística. É esta novidade que provoca resistências e oposições, pois desloca a perspectiva tradicional que sustentava até então o conhecimento ou o dogma. Indica não haver uma gramática teológica plausível para interpretar a novidade linguística que acompanha uma experiência que é viva e profunda. Esse é um desafio que fica para nós, estudiosos da mística.

IHU On-Line – Como as grandes religiões do mundo abordam a mística? Que contribuições a mística pode dar ao fortalecimento do diálogo inter-religioso?

Prefiro fixar-me na segunda parte da questão, que está mais ligada ao meu campo de pesquisa e reflexão. Trabalhei esse tema em vários artigos. Sublinho aqui o que entendo como essencial. A experiência mística carrega consigo uma fundamental exigência de humildade, esvaziamento de si e abertura ao mistério irredutível do outro. Ela faculta também um trabalho interior, essencial para a criação de espaços de hospitalidade. Há que acolher e hospedar o outro dentro de si. Sem esse exercício fundamental não há disponibilidade dialogal. É interessante verificar como que à medida em que avançamos em direção ao nosso mundo interior, no âmbito da profundidade, cresce a consciência da particularidade e contingência de nossos vínculos identitários e despertamos para uma tal liberdade espiritual, capaz de desvelar para nós a irradiadora presença de Deus em toda parte.

IHU On-Line – Na sociedade contemporânea, qual é o papel da mística e da espiritualidade, especialmente feminina? É possível levarmos uma “vida mística” hoje? Quem seriam os místicos/as contemporâneos?

O grande místico cistercience, Thomas Merton, sinaliza em seu livro sobre As novas sementes da contemplação, que “é precisamente porque os santos estavam absortos em Deus que possuíam a capacidade de ver e apreciar as coisas criadas”. Essa é a delicadeza peculiar do místico: sua capacidade de atenção aos pequenos sinais do cotidiano e sua abertura ao canto das coisas. É alguém sempre desperto para o infinito Real que brilha dentro da realidade. É alguém dotado de um inaugural potencial de ver, e de ver para além dos nomes e formas que estão aí. Ele busca em seu “desaforado amor pelo todo”, ir sempre além e mais fundo. Sua meta é “atravessar os umbrais da vida” e penetrar na tessitura do tempo, e de forma radical.

(Publicada no IHU On-Line – n. 385, ano XI – 19/12/2011, pp. 12-17)

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?secao=385 (acesso em 04/01/2012)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Diversidade religiosa: riqueza e desafio para o diálogo e a cooperação

Diversidade Religiosa: riqueza e desafio para o diálogo e a cooperação

Faustino Teixeira[1]

PPCIR-UFJF

Introdução

Se em tempos passados predominava a questão da descrença moderna e da indiferença religiosa, o que vigora hoje em dia é o provocante tema do pluralismo religioso e dos caminhos da diversidade. Como lidar com a diversidade religiosa e acolher o pluralismo como um dom de Deus aos povos são desafios essenciais que marcam o nosso tempo.

Como porta de entrada para a reflexão há que recordar o importante manifesto do I Encontro do Povo de Deus, ocorrido em Quito (Equador), em 1992, que permanece muito atual. Ali estavam reunidos 486 irmãs e irmãos de diversos países da América Latina e do Caribe, envolvendo indígenas, negros, mestiços, brancos, além de outros convidados da África, América do Norte, Ásia e Europa. Entre as conclusões tiradas nesse encontro marcado, sobretudo, pelas experiências de vida, algumas podem ser lembradas. Em primeiro lugar, a idéia de que “Deus é sempre maior”, de que ele é Deus de todos os povos e de todos os nomes, sendo percebido e acolhido na diversidade das expressões religiosas e culturais. Em segundo lugar, a idéia de que “Deus tem um sonho”, sobretudo o sonho de afirmação da Vida, que se dá no tempo e para além da morte. É também um sonho da Unidade da família humana. Em terceiro lugar, a idéia de que “o povo de Deus são muitos povos”, integrado, de forma muito especial, por aqueles que acolhem com alegria esse sonho-projeto de Deus. E o Manifesto assinala com clareza: “Nenhuma religião, nenhuma igreja, pode arrogar-se a exclusividade de ser este povo”. E finalmente, a idéia de que “o verdadeiro ecumenismo é maior do que o ecumenismo”. Cunhou-se de forma muito feliz uma palavra nova para expressar esse singular momento: o macroecumenismo. Trata-se de um “ecumenismo mais ecumênico”, um “ecumenismo planetário”, capaz de abraçar a totalidade dos povos de Deus, para seguir no tempo os desafios de sua vontade. E o manifesto assinala: “Com essa descoberta começamos a nos despojar dos nossos preconceitos e abraçar com muito mais braços e muito mais corações o Deus Único e Maior”[2]. Comentando esse manifesto, Dom Pedro Casaldáliga lança uma pista reveladora para acolher esse “Deus ecumênico”, esse Deus que é um “centro móvel” e que está sempre em movimento. Ele dizia: “Talvez ´mudar de Deus` - por exigência, repito, da mesma fé cristã – seja o mais profundo e o mais urgente desafio para as igrejas cristãs na diakonia maior do Reino, no serviço ao Projeto de Deus”[3].

É com base nessa provocação inicial que será desenvolvido o tema proposto, da diversidade religiosa, e isto em três momentos. Primeiramente, a atenção se fixará na problemática mais ampla da globalização e da pluralização religiosa. Em seguida, a questão do desafio do pluralismo religioso e do diálogo entre as religiões. E ao final, a problemática da diversidade religiosa no Brasil e suas particularidades.

I – A pluralização religiosa e o temor da relativização

1. Em tempos de globalização intensificadora

O pluralismo moderno coloca uma situação inédita para a humanidade, que se vê confrontada com novas perspectivas que rompem com o tradicional quadro dos sistemas homogêneos e fechados e convoca para os campos abertos de conhecimento. Emerge hoje, com vitalidade, um processo singular de comunicação e interdependência entre os diversos povos e culturas, a consciência viva da pluralidade das religiões, de sua proximidade – inédita para o cristianismo -, bem como de seu dinamismo e poder de atração e inspiração para o Ocidente. A humanidade nunca se viu diante de tantos outros, coloridos com seus matizes singulares, cuja simples presença provoca sedução e inquietação. O que ocorre é uma situação de globalização intensificadora, que não se reduz a fenômeno meramente econômico, mas provoca mudanças substantivas nas experiências sociais e na construção das identidades. A mobilidade maior provoca encontros inusitados. Não há como evitar a relação entre as diversidades. Como sinalizou Clifford Geertz, “as distinções religiosas vão-se tornando, em muitos lugares, não apenas mais tensas, como também mais imediatas (...). As diferenças de crenças, às vezes muito radicais, são mais diretamente visíveis, com frequência crescente, e mais diretamente encontradas: prontas para a suspeita, a preocupação, a repugnância e a altercação”[4]. Mas podem igualmente ser a base para um novo entendimento e, quem sabe, para a reconciliação e atração recíprocas. O mundo perde suas fronteiras bem delimitadas, e não há como ficar resguardado em seu lugar, protegido contra o apelo do outro.

Outro traço que marca esse momento de globalização é a emergência de uma “ordem social pós-tradicional”. Segundo Anthony Giddens, nesse novo arranjo a tradição não perde sua razão de ser, mas vem ressignificada. Ela “muda o seu status”. Não se dá mais por garantida ou auto-evidente. Ela necessita, a cada momento explicar-se, dar conta aos outros de seu significado. As tradições tornam-se, assim, “abertas à interrogação e ao discurso”, são forçadas a “se declararem”[5]. Inaugura-se um traço novo, caracterizado pela “reflexividade”, onde tudo vem permanentemente reexaminado e reformado à luz de novas informações e interrogações. As práticas não são mais sancionadas por serem tradicionais, mas necessitam de constante justificação à luz do conhecimento[6].

Há também uma dimensão dramática nessa acelerada globalização, que provoca disparidades importantes no planeta. O historiador britânico Eric Hobsbawm debruçou-se sobre isso com acurada reflexão. Ele sublinha que a globalização leva consigo, por sua própria natureza, “crescimentos desequilibrados e assimétricos”, que podem ser sinalizados pelo crescente fluxo de trabalhadores migrantes que se acercam das áreas mais ricas, advindos das periferias do poder. Testemunha-se hoje o doloroso e perturbador êxodo de milhares de pessoas que fogem da pobreza, da repressão ou das guerras. Segundo Hobsbawm,

“desde a queda do muro de Berlim, voltamos a viver em uma era de genocídio e de transferência compulsória e maciça de populações, como as que ocorreram em regiões da África, do Sudeste da Europa e da Ásia. Estima-se que ao final de 2003 havia cerca de 38 milhões de refugiados, dentro e fora de seus próprios países, cifra que é comparável ao vasto número de pessoas deslocadas ao final da Segunda Guerra Mundial”[7].

2. Os efeitos da pluralização moderna

Os processos modernos de pluralização, como bem sinalizou Peter Berger, são marcados por dois traços bem específicos: sua enorme abrangência e sua velocidade singular. O pluralismo moderno faculta a irradiação de distintas visões de mundo que quebram a tradicional segurança que firmava e amparava os sujeitos em sua cosmovisão rotineira. O que garante a manutenção das certezas subjetivas é a sua sustentação em consistentes e contíntuas “estruturas de plausibilidade”, ou seja, do suporte social que as mantêm funcionando satisfatoriamente. Como indica Berger,

“A validade de meu conhecimento da vida cotidiana é suposta certa por mim e pelos outros até nova ordem, isto é, até surgir um problema que não pode ser resolvido nos termos por ele oferecidos. Enquanto meu conhecimento funciona satisfatoriamente em geral estou disposto a suspender qualquer dúvida a respeito dele”[8].

Essa segurança das estruturas de plausibilidade vem enfraquecida nas modernas sociedades industrializadas, que trazem consigo alto grau de diferenciação e segmentação. Segundo Berger, “o indivíduo moderno existe numa pluralidade de mundos migrando de um lado a outro entre estruturas de plausibilidade rivais e muitas vezes contraditórias, cada uma sendo enfraquecida pelo simples fato de sua coexistência involuntária com outras estruturas de plausibilidade”[9]. Isso tem repercussões bem precisas no campo da religião, onde igualmente torna-se cada vez mais difícil estar “cognitivamente entre nous”, ou seja, entre sujeitos que partilham com tranqüilidade de uma cognição religiosa semelhante. Não há mais segurança para os conhecimentos auto-evidentes ou para os saberes inquestionáveis. Tudo passa agora pelo crivo da relativização, tanto os sistemas de valores como os de interpretação. Na verdade,

“mundo, sociedade, vida e identidade são problematizados sempre com mais vigor. Podem ser submetidos a várias interpretações e cada uma delas está ligada com suas próprias perspectivas de ação. Nenhuma interpretação, nenhuma perspectiva podem ser assumidas como únicas em validade ou serem consideradas inquestionavelmente corretas”[10].

Isso traz insegurança e desorientação para muitas pessoas que não conseguem conviver com um mundo “confuso e cheio de possibilidades de interpretação”. Essa condição de incerteza que acompanha o pluralismo provoca temor, mas também reação, na medida em que a mente humana abomina viver em clima de tal vulnerabilidade. É sob o impacto dessa insegurança que se firmam os diversos “muros protetores” e as seduções dos absolutismos e dos fundamentalismos. Dentre as possíveis reações ao pluralismo encontra-se o que Berger nomeia como “redução cognitiva”, que pode se dar numa forma defensiva ou ofensiva[11]. No primeiro caso ocorre o fechamento comunitário, ou seja, a estratégia do gueto. Neste caso, trata-se de preservar a todo custo uma subcultura e exorcizar a contaminação cognitiva do pluralismo. Na visão de seus adeptos, “basta deixar uma pequena fissura e o vento impetuoso da cultura pluralista entra assoviando”[12]. No segundo caso, adota-se a estratégia da cruzada, ou seja, o caminho da reconquista da sociedade em nome da tradição religiosa particular.

Aqui se situa a delicada questão do fundamentalismo. Esse fenômeno,como bem acentuou Giddens, deve ser analisado “contra o pano de fundo do surgimento da sociedade pós-tradicional”[13]. Ele implica, de fato, a realidade de uma “tradição sitiada”. Diante da ameaça globalizadora, ele reage com a afirmação tradicional da tradição. Rejeita-se todo e qualquer engajamento dialogal com a modernidade, bem como qualquer possibilidade de reflexividade da tradição. Na raiz do fundamentalismo há o sentimento de insegurança, desorientação ou anomia resultantes de uma dinâmica modernizadora. Torna-se intolerável para os fundamentalistas a possibilidade de esvaecimento de seus valores tradicionais. Reagem ao abalo provocado pelas crises do mundo moderno em suas comunidades de fé e em suas convicções básicas. Como medidas de contra-ataque, recusam todos os vetores associados à lógica moderna: a hermenêutica, o pluralismo, o relativismo, a evolução e o desenvolvimento; e reforçam os canais de solidariedade grupal.

Apesar das diversificadas estratégias de contenção do pluralismo, mediante a construção de muros rígidos e protetores, fica cada vez mais difícil na situação moderna mantê-los sem brechas. Mesmo admitindo os inúmeros empecilhos, Berger reconhece a existência de pessoas que convivem bem com os desafios do pluralismo e acolhem com simpatia suas demandas. Identifica-os como “virtuosos do pluralismo”. Mas sublinha que a maioria sente-se insegura e reticente frente a tais desafios, fechando-se na segurança das evidências convencionais e no convívio tranquilo das coisas familiares, evitando assim sondar imprudentemente os “abismos”. E instituições precisas vêm em seu apoio, já que muitas vezes foram criadas para “aliviar o indivíduo da necessidade de reinventar o mundo a cada dia e ter de se orientar dentro dele”[14]. Nenhum conhecimento ou interpretação firma-se como auto-evidente na situação do pluralismo moderno. Tudo está aberto ao questionamento. Daí se entender com clareza que “os projetos restauradores de reconstituição de um ´mundo curado` incluem quase sempre a supressão ou, ao menos, a limitação do pluralismo – e com boas razões: o pluralismo coloca sempre alternativas diante dos olhos, as alternativas obrigam a refletir; a reflexão solapa o fundamento de todas as versões de um ´mundo curado` - ou seja, de sua auto-evidência”[15].

3. O recuo para as identidades

É curioso verificar que num mundo em que tudo se move e se desloca, que as comunidades perdem a sua segurança garantida, há um movimento de reação bem preciso em defesa das identidades. Num mundo que se pluraliza, cresce em semelhante ritmo a sede de pertença e de domiciliação. O que definitivamente não ocorre nesse tempo de acelerada globalização é o “desaparecimento das fronteiras”, das demarcações. Como indica Jonathan Friedman, “ao contrário, elas parecem ser erguidas em cada nova esquina de cada bairro decadente de nosso mundo”[16]. E a busca da identidade, em tempos de globalização ameaçadora, vem carregada de som e de fúria. Ela divide e separa:

“E no entanto a vulnerabilidade das identidades individuais e a precariedade da solitária construção da identidade levam os construtores da identidade a procurar cabides em que possam, em conjunto, pendurar seus medos e ansiedades individualmente experimentados e, depois disso, realizar os ritos de exorcismo em companhia de outros indivíduos também assustados e ansiosos”[17].

No âmbito da antropologia, Paula Montero mostrou que a definição da identidade de determinado grupo social só se evidencia como um problema em situações precisas de crise, quando há competição ou luta política em jogo[18]. Em semelhantes situações de insegurança, quando os sujeitos sentem-se ameaçados em sua fé, o sentimento de pertença ganha vigor, com possibilidades efetivas de um acirramento confessional, carregado às vezes de violência. Não sem razão, Amin Maalouf fala em “identidades mortíferas”, ao referir-se às reações violentas de pessoas que chegam a cometer delitos em nome da própria identidade religiosa ou étnica, quando se sentem ameaçados[19].

Os ventos plurais, também no campo religioso, provocam temor e desarranjo, e em muitos casos suscitam o retorno à comunidade. A própria palavra evoca aconchego e acolhida. É uma palavra que sugere sensações bem precisas: é bom ter uma comunidade ou estar numa comunidade. Como indica Zygmunt Bauman, “a comunidade é um lugar ´cálido`, um lugar confortável e aconchegante. É como um teto sob o qual nos abrigamos da chuva pesada, como uma lareira diante da qual esquentamos as mãos num dia gelado. Lá fora, na rua, toda sorte de perigo está à espreita”[20].

Mas assim como o pluralismo pode provocar esse ensimesmamento, pode também suscitar “sistemas abertos de conhecimento”, sensibilidade ao outro e abertura dialogal. Nem sempre é o que ocorre, mas é algo fundamental para o crescimento do próprio sujeito. Nada mais essencial do que uma “interface”, um lugar de passagem onde se possa celebrar a alegria de um encontro novidadeiro. O outro é sempre alguém que faculta o crescimento, revelando facetas e dimensões inéditas de um aprendizado fundamental. Em singular reflexão sobre a “indispensável paganidade”, o teólogo Adolphe Gesché, sublinha que “todo ser humano, e especialmente em sua dimensão religiosa, tem necessidade de um ´lugar fora`de sua residência habitual – volta-se à idéia de uma casa no campo – para poder morar sem ser queimada por uma incandescência”[21]. Ele sinaliza que é sempre um risco “encerrar uma tradição na sua tradição”. Há que acolher a “parte de paganidade” que habita o outro, possibilitando a imprescindível ampliação do próprio olhar. E remetendo-se à tradição cristã, assinala que “a esperança cristã não pode dispensar-se dessa louca sabedoria[22], de saber que deve resistir a uma fé que se julgaria toda acabada nela e toda dada por ela”[23].

Questões:

  1. Por que o pluralismo religioso provoca tanta desorientação e temor ?
  2. É possível lidar com o pluralismo religioso de forma mais acolhedora? Quais os caminhos para isso?

II. Pluralismo religioso e diálogo

1. A acolhida do pluralismo religioso e a disponibilidade dialogal

Um dos mais importantes desafios que se colocam nesse limiar do século XXI é o desafio da acolhida do pluralismo religioso. Há que superar a limitada idéia de que o pluralismo religioso é um fator negativo ou passageiro, fruto de uma compreensão equivocada da realidade ou de uma percepção maculada do religioso. Uma visão recorrente entre aqueles que acreditam numa determinada tradição religiosa é entender que a sua religião é a única verdadeira e que as outras tradições não passam de expressões limitadas do divino ou, no máximo, antecipadoras ou preparadoras, de uma verdade que, na prática se dá em outra tradição. As outras religiões estariam reduzidas à condição de marcos de espera de uma realização que ocorreria alhures. Semelhante perspectiva tende a entender o pluralismo religioso como um dado de fato, contingente ou passageiro, a ser “aturado” ou dizimado pelo trabalho missionário. Em sua famosa carta a um religioso, de setembro de 1942, Simone Weil expressava com clareza sua dificuldade em acatar tal perspectiva:

“A religião católica contém explicitamente verdades que outras religiões contêm implicitamente. Mas, reciprocamente, outras religiões contêm explicitamente verdades que somente estão implícitas no cristianismo. O cristão melhor instruído pode aprender muito das coisas divinas nas outras religiões, por mais que a luz interior possa também levá-lo a tudo perceber através da sua. De qualquer modo, se estas outras tradições religiosas desaparecessem da terra, seria uma perda irreparável. Os missionários já as fizeram desaparecer em demasia”[24].

Para Simone Weil, o sentimento de respeito e acolhida das religiões era uma questão de honestidade e honradez. Sua abertura à beleza do mundo e à totalidade da criação envolvia a receptividade interreligiosa. Identifica-se hoje essa perspectiva como a abertura ao pluralismo de princípio ou de direito. Trata-se de um pluralismo acolhido por Deus em seu mistério, enquanto expressão mesmo de sua vontade, que “necessita da diversidade das culturas e das religiões para melhor manifestar as riquezas da Verdade última”[25]. Não há como querer apagar o mistério que habita na pluralidade dos caminhos que levam a Deus. Há algo de irredutível e irrevogável nas religiões, que não pode ser sumariamente reduzido a um implícito cristão. É verdade que as religiões como tais são envolvidas também por situações de ambiguidade e limitação, mas há que respeitar sua singularidade e originalidade e não simplesmente reiterar uma assimetria. É desconhecer e macular a extraordinária diversidade das tradições religiosas querer delas conservar como valor simplesmente o seu potencial de abrir-se positivamente àquilo que ignoram.

A acolhida interreligiosa requer do sujeito um leque de disposições que são essenciais. Para que ocorra um diálogo autêntico é necessário, em primeiro lugar, alimentar a vida com uma atitude de busca essencial e profunda. Partir animado pela convicção de que se está trilhando um caminho em “solo sagrado”. O outro é portador de um “patrimônio religioso” que não pode ser relevado ou minimizado. A busca de um contato estreito e desarmado com o outro é também um requisito essencial: “Devemo-nos aproximar destas tradições com grande sensibilidade, porque encerram valores espirituais e humanos”[26].

Há que partir animado por esse “espírito do diálogo”, que envolve uma atitude primeira de respeito e amizade[27]. Esse “espírito” deve circundar todos os passos desse processo de abertura. E entender de antemão que o diálogo tem em si mesmo o “seu próprio valor”, não podendo ser vivido como plataforma de arranque para outra intenção, como, por exemplo, a de converter o outro.

Requer-se igualmente uma atitude de humildade. A abertura ao outro exige esse despreendimento, essa consciência da vulnerabilidade. Nada mais letal para o diálogo do que o sentimento de superioridade ou de desprezo ainda que escamoteado. O diálogo requer esse esvaziamento de si para poder valer o outro, esse deslocamento essencial, essa abertura do coração.

O diálogo pressupõe também simpatia e atenção ao outro. Há que lançar-se ao outro, expor-se ao seu enigma e mistério com a cuidadosa aplicação do espírito, estar atento e vigilante para adentrar-se nas suas fronteiras, sintonizar-se com a sua vida. Simone Weil dedicou-se com afinco ao tema. Para ela a atenção “consiste em suspender o pensamento, em deixá-lo disponível, vazio e penetrável ao objeto”, com a mente esvaziada e à espera, “sem buscar nada, porém disposta a receber em sua nua verdade o objeto que nela vai hospedar-se”[28]. Para a pensadora e mística francesa, a atenção é um dom único e singular, “a forma mais rara e mais pura da generosidade”[29]. A atenção desdobra-se, assim, em hospitalidade.

O encontro com o outro não pode reduzir-se a um “rebuliço sonoro”, mas deve envolver os corações num movimento de amizade e busca de compreensão mútua. Aqui encontra-se outra chave fundamental para captar o mistério do diálogo. Não são individualidades estanques e impenetráveis que se encontram, mas “dois mundos” que se envolvem, ainda que resguardando um mistério que é intransponível. É a própria individualidade que é convocada a expandir-se e apropriar-se de novas possibilidades. Não é algo simples, pois envolve um embate interior, de remoção das entranhas para deixar-se hospedar pelo diferente. Desse encontro novidadeiro surge sempre algo de novo, uma “marca” diferencial. Segundo Gadamer, o que caracteriza o verdadeiro diálogo é o poder encontrar no outro algo que inexiste na própria e singular experiência do mundo[30]. E esse encontro favorece sempre novas facetas de aprendizado e de enriquecimento das individualidades. Um processo, nunca acabado, assim como ocorre na interpretação que medeia a relação entre o ser humano e o mundo. Não basta apenas dispor-se a acolher o outro, mas é necessário ainda avançar na espessura de sua compreensão. Como indica Panikkar, “o verdadeiro diálogo exige não só uma disposição de acolhida e escuta, mas também a capacidade ou mesmo a possibilidade de compreensão. O outro começa a tornar-se um outro pólo de nós mesmos. O confronto leva à complementaridade”[31].

Nesse imprescindível processo dialogal, os interlocutores entram com a alegria de suas convicções religiosas. Não se exige abdicação das identidades para que esse processo se realize com êxito. Ao contrário, é a própria autenticidade e sinceridade do diálogo que convoca os interlocutores a embarcarem nessa travessia mantendo viva a integralidade de sua própria fé. Como diz uma jovem poeta brasileira, “é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço”[32] O diálogo pressupõe pertença e domiciliação, amor à própria identidade, mas uma identidade sempre em construção, aberta ao sussurro contínuo do plural. Uma das finalidades do diálogo é “o de poder viver a diferença em modo positivo, no respeito, na aceitação do outro assim como é, sem violência nem desprezo e sem dever esconder a diferença”[33].

O diálogo envolve ainda uma disposição de abertura ao mistério maior que envolve e ultrapassa os interlocutores. A verdade que se busca não é posse garantida, mas horizonte que se descortina num processo de respeito mútuo, acolhida e aprendizado. Dimensões inusitadas do mistério vão sendo reveladas nesse concerto interreligioso, que enriquecem a bagagem espiritual dos interlocutores. Em bela imagem de João Paulo II, por ocasião da Jornada Mundial em favor da Paz (Assis, 1986), o diálogo é como uma “viagem fraterna na qual nos acompanhamos uns aos outros rumo à meta transcendente que ele estabelece para nós”[34]. São singelos e misteriosos os caminhos traçados nesse tempo da “paciência de Deus”, e ninguém pode apressadamente querer precipitar o processo dessa longa busca humana.

2. Expressões de exercício dialogal

A decisão em favor do diálogo envolve a superação de obstáculos bem precisos, entre os quais as interpretações equivocadas a respeito do outro, a falta de compreensão sobre sua realidade e também a auto-suficiência que impede a gratuidade de um movimento desarmado em relação à alteridade. O diálogo é sobretudo um “estilo de ação, uma atitude e um espírito que guia o comportamento. Implica atenção, respeito e acolhimento para com o outro, a quem se reconhece espaço para a sua identidade pessoal, para as suas expressões, os seus valores”[35].

Muitas são as formas de se exercer o diálogo interreligioso[36]. No âmbito mais cotidiano, há o diálogo da vida, pontuado pelo testemunho de abertura, de delicadeza com o outro e de aproximação amorosa. Trata-se do diálogo tecido no dia a dia, onde os interlocutores compartilham suas descobertas, preocupações, alegrias e dores. É um diálogo existencial. Na visão de Christian de Chergé, o mártir de Tibhirine, ele vem construído na vida comum com os vizinhos, na gratuidade dos olhares, nas pequenas atividades da vida diária. É um diálogo que firma e aprofunda laços de confiança, essenciais para a mutua compreensão e o recíproco enriquecimento[37].

Há também o diálogo das ações, voltado para a cooperação religiosa em favor da paz. São inúmeros os testemunhos desse diálogo nos tempos atuais. Seguindo a pista aberta por Hans Küng, “não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões”[38]. Esse é um dos campos mais fecundos do diálogo, que envolve uma colaboração concreta e partilhada em favor da promoção do humano e de sua causa libertadora. O Concílio Vaticano II, em sua Declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs (Nostra Aetate), menciona a urgência dessa tarefa, referindo-se em particular ao campo comum de ação entre cristãos e muçulmanos. O Concílio “exorta a todos a que esqueçam o passado e ponham em prática sinceramente a mútua compreensão, defendam e promovam conjuntamente, em favor de todos os homens, a justiça social, os valores morais, a paz e a liberdade”[39]. É mediante esse diálogo que se atua a “ecumene da compaixão”, ou seja, a convocação feita a todas as religiões no sentido de assumirem a responsabilidade global de afirmação do humano e de garantia da dignidade da criação.

Dá-se igualmente o diálogo dos intercâmbios teológicos, que envolve os peritos e especialistas, com a intenção de “confrontar, aprofundar e enriquecer os respectivos patrimônios religiosos”. É um diálogo mais difícil, em razão do confronto das crenças, mas traz como contribuição uma maior compreensão dos interlocutores, abrindo pistas importantes para o exercício da ação comum e do conhecimento das respectivas experiências espirituais.

Em âmbito de maior profundidade ocorre o diálogo da experiência religiosa. É o momento singular onde os interlocutores compartilham “suas experiências de oração, de contemplação, de fé de compromisso, expressões e caminhos da busca do Absoluto”. Talvez seja um dos campos onde o diálogo interreligioso tenha produzido seus mais bonitos frutos. São inúmeras as experiências de partilha, cooperação e enriquecimento recíproco, sobretudo no campo da oração em comum. O evento de Assis, em 1986, foi um dos marcos substantivos nesse campo, facultando a afirmação de um “espírito” novo para o diálogo entre as tradições religiosas. Como sinalizou João Paulo II, ao falar dessa Jornada aos membros da cúria romana, “toda oração autêntica encontra-se sob o influxo do Espírito Santo”[40]. Não há fenômeno mais universal do que a oração. Ela traduz uma linguagem que transcende a particularidade das crenças e expressa o movimento gratuito e humilde do ser humano em direção ao Mistério inefável. Sem negar a peculiaridade e a distinção de conteúdo entre as orações das religiões específicas, há um nível onde se dá uma “comunhão em profundidade”, aquele operado pelo Espírito. Ocorre, então, uma comunhão diante de Deus, pois é Ele mesmo que suscitou e brindou esse encontro[41].

3. Diálogo e Espiritualidade

Há um íntimo nexo que vincula o diálogo interreligioso com a espiritualidade. Como mostrou Panikkar,

“o encontro das religiões tem uma indispensável dimensão experiencial e mística. Sem uma certa experiência que transcende o reino mental, sem um certo elemento místico na própria vida, não se pode superar o particularismo da própria religiosidade, e menos ainda ampliá-la e aprofundá-la, ao ser defrontado com uma experiência humana diferente”[42].

A espiritualidade diz respeito à qualidade de vida e ação, de potencialidade de abertura ao ilimitado. Ela aciona qualidades particulares e vitais do espírito humano, trazendo à tona as riquezas do mundo interior, da profundidade onde habita o Mistério maior. É dela que se irradiam, com uma fragrância única, os toques singulares do amor desinteressado, da gratuidade, da atenção, cortesia, compaixão e hospitalidade. Não é necessário estar vinculado a um sistema religioso ou metafísico para poder desfrutar e desenvolver tais qualidades. Elas são traços da dinâmica humana, quando atuada em profundidade. A espiritualidade aciona o movimento desses valores fundamentais, que são irradiados por todo canto. Deixar-se habitar pela atmosfera da espiritualidade é criar um espaço garantido e especial para a emergência de fragrâncias essenciais, que constituem a razão fundamental da existência. É como aquele agricultor que, escava, ara e cultiva a sua terra, nela colocando o trigo. Depois, cessa o seu poder de ação, ficando o resto aos cuidados de Deus. Os frutos vão surgindo naturalmente, como o grão revivido e multiplicado depois de sua ação desintegradora na terra. Dali se irradiam serenidade, vitalidade e entusiasmo. E igualmente uma paz duradoura, advinda da profundidade. Segundo Leonardo Boff, é dessa paz espiritual que a humanidade tanto precisa: “ela é a fonte secreta que alimenta a paz cotidiana em todas as suas formas. Ela irrompe de dentro, irradia em todas as direções, qualifica as relações e toca o coração íntimo das pessoas de boa vontade”[43].

Questões:

  1. Quais os passos dialogais necessárias para a acolhida da diversidade religiosa?
  2. O que se requer de nós para hospedar de forma gratuita o outro em nossa vida?

III. A diversidade religiosa no Brasil

1. Um olhar a partir do Censo de 2000

Um dos traços do mundo contemporâneo é o intenso retorno da religião na esfera pública. Os dados históricos desmentiram de forma patente os prognósticos de uma modernidade “racionalmente desencantada”. O que se percebe é a presença do religioso por toda parte. Ainda que a idéia recorrente seja a que condensa o religioso no âmbito das religiões institucionais, há que ampliar o olhar e ser capaz de perceber as teias diversificadas que compõem o fenômeno religioso e sua presença na sociedade. Como mostrou a socióloga Danièle Hervieu-Léger,

“o religioso não se define unicamente pelos objetos sociais (as ´religiões`) nas quais ele se manifesta de maneira compacta e concentrada. O religioso é uma dimensão transversal do fenômeno humano que trabalha, de modo ativo e latente, explícito ou implícito, em toda a extensão da realidade social, cultural e psicológica, segundo modalidades próprias a cada uma das civilizações dentro das quais se tenta identificar sua presença”[44].

Tendo agora como referência as religiões instituídas, estas têm um importante papel de manter viva a memória da continuidade da crença e da tradição entre os fiéis de sucessivas gerações. Esse traço mínimo de continuidade da tradição sofre um abalo nas sociedades pós-tradicionais, marcadas sobretudo pela dinâmica da incerteza estrutural, da mobilidade e das contínuas mudanças dos referenciais. Danièle Hervieu-Léger sugere a idéia de uma “pulverização das identidades religiosas” nas sociedades “pós-modernas”, o que não significa, necessariamente, o enfraquecimento ou esfacelamento de toda forma de vida religiosa comunitária. O que ocorre na verdade são fenômenos de “recomposição”, “diversificação das trajetórias” e “disjunção das crenças e das pertenças confessionais”[45]. Trata-se de uma situação mais presente na Europa Ocidental e na América do Norte. Não há dúvida, porém, que ela se espraia por outros territórios, tocando também a realidade brasileira.

Ao analisar os dados do Censo Demográfico de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o sociólogo Antônio Flávio Pierucci reforça essa idéia da “pós tradicionalização” no campo religioso brasileiro. Assinala em sua reflexão como as principais religiões no Brasil, classificadas sociologicamente como tradicionais, “mostram sérios sinais de cansaço”, sobretudo no âmbito de sua reprodução ampliada. Cita como exemplo o processo em curso em três tradições religiosas: catolicismo, luteranismo e umbanda. Segundo Pierucci,

“nas sociedades pós-tradicionais, et por cause, decaem as filiações tradicionais. Nelas os indivíduos tendem a se desencaixar de seus antigos laços, por mais confortáveis que antes pudessem parecer. Desencadeia-se nelas um processo de desfiliação em que as pertenças sociais e culturais dos indivíduos, inclusive as religiosas, tornam-se opcionais e, mais que isso, revisáveis, e os vínculos, quase só experimentais, de baixa consistência. Sofrem fatalmente com isso, claro, as religiões tradicionais”[46].

Com respeito ao catolicismo, os diversos censos realizados desde 1940 mostram um claro declínio na declaração de crença. No clássico livro de Cândido Procópio de Camargo, “Católicos, protestantes, espíritas” (1973), ele analisava os censos de 1940, 1950 e 1960. Sua conclusão, já na ocasião, apontava para um “declínio moderado, mas constante, de adeptos da igreja católica”[47]. Em 1940, o índice de declaração de crença católica era de 95,2%, caindo para 93,7% em 1950 e 93,1% em 1960[48]. A partir do censo de 1980 esse declínio torna-se ainda mais patente, baixando da casa dos 90%. O olhar atento aos censos posteriores a 1980 capta de forma viva o volume significativo da perda católica, que talvez seja irreversível: 89,2% no censo de 1980; 83,3% no censo de 1991 e 73,8% no censo de 2000. E a tendência é diminuir ainda mais no censo de 2010. Esses números registram com precisão relativa o traço da “destradicionalização” do campo religioso brasileiro. Isso porque nem sempre se consegue captar nos censos a presença do sincretismo religioso e das múltiplas filiações, que são fenômenos frequentes no modo de viver a crença no Brasil. É de se surpreender como que no censo de 2000, apenas 10.500 pessoas declararam pertencer a mais de uma religião. Isto sugere que “os recenseados ainda não se sentem à vontade para assumir que possuem mais de uma filiação religiosa”[49]. São, na verdade, inúmeras as formas e artimanhas servidas pelos brasileiros para ampliar as formas de proteção, como tão bem expressou Guimarães Rosa em seu Grande sertão: veredas (1956):

“Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca”[50].

Retornando aos dados do censo de 2000, o que se configura no campo religioso brasileiro é a perda da hegemonia católica. Como sinaliza Pierre Sanchis, “há duas ou três gerações, falar em ´religião dos brasileiros` seria apontar quase que exclusivamente para o catolicismo. Isso mudou. Hoje o catolicismo constitui cada vez mais uma das religiões, entre outras, dos brasileiros, e num movimento diversificador que se acelera”[51]. Contribui para isso o acelerado crescimento evangélico, em particular pentecostal. Os evangélicos firmam-se hoje no Brasil como a segunda religião em declaração de crença, com o registro de 15,44% de praticantes no censo de 2000, dos quais 10,43% são pentecostais. No censo institucional evangélico CIN, de 1992, as conclusões em torno do crescimento evangélico no estado do Rio de Janeiro revelam-se impressionantes: “em 1990, cerca de 141 novas igrejas foram criadas; em 1991, 262 novas igrejas; em 1992, até o fim do mês de outubro, 224. Isso nos dá uma média de 5 novas igrejas por semana, ou uma média de 1 por dia útil no triênio”[52]. Em outra pesquisa realizada pelo ISER (Instituto de Estudos da Religião), em 1994, sob a coordenação do antropólogo Rubem César Fernandes, envolvendo os evangélicos do “Grande Rio”, chegou-se a novas surpreendentes conclusões sobre o crescimento evangélico. Os dados indicaram que “cerca de 70% dos evangélicos do Grande Rio não nasceram, nem foram criados num lar evangélico. Entraram na igreja por adesão voluntária, rompendo com a religião dos pais”, sendo que 61% desses convertidos vieram do catolicismo[53]. Na mesma pesquisa, chegou-se à estimativa de que entre os anos de 1992 e 1994, “cerca de 250 mil indivíduos tornaram-se evangélicos nesta região, ou seja, em média 80 mil por ano”[54]. Como se pode perceber claramente, os católicos revelam-se hoje “doadores universais” de fiéis para outras tradições religiosas ou para os segmentos identificados como “sem religião”, ou seja, “o catolicismo tornou-se o principal celeiro no qual outros credos arregimentam adeptos”[55].

Além do recuo católico e da expansão pentecostal, o censo de 2000 indicou também o crescimento dos “sem religião”. Isso não significa, necessariamente, a expansão do ateísmo, mas o enfraquecimento das instituições tradicionais produtoras de sentido. Como bem sinalizou Regina Novaes, os “sem religião” podem manter uma relação de fé, ou continuar consumindo bens religiosos, porém, destacados das “clássicas mediações institucionais” voltadas para isso[56]. Os dados revelam um constante crescimento dos “sem religião” no Brasil. Essa categoria ocupa hoje o terceiro lugar na declaração de crença, envolvendo cerca de 12,5 milhões de adeptos conforme o último censo. Isso representa 7,3% da população brasileira declarante. Há que recordar que em 1970 a porcentagem era bem mais baixa, em torno de 08% (cerca de 700.00 declarantes).

Outra força religiosa no Brasil é o espiritismo, envolvendo 2,2 milhões de adeptos, segundo o censo de 2000. São cerca de 1,38% de adeptos nominalmente declarantes. Essa cifra reduzida não dá conta de avaliar a significativa influência do espiritismo no imaginário popular, daí suscitar muitas vezes o ceticismo entre os adeptos do movimento espírita. Na verdade, há uma substantiva influência do espiritismo sobre a clientela de não-praticantes ou declarantes[57]. Daí falar-se em “impregnação espírita” ou “alta ressonância social” dessa religião no Brasil, que escapa largamente à vinculação declarada aos centros espíritas. O Brasileiro está bem familiarizado com essa linguagem ou querela dos espíritos. Como indicou José Jorge de Carvalho, “são dezenas de milhões de brasileiros que entram em transe regularmente, recebem entidades ou estabelecem relações personalizadas (de perturbação ou apoio) com a mais variada gama de espíritos”[58]. Um “clima espiritualista” envolve sobretudo o meio religioso popular brasileiro, mas irradia-se também de forma mais ampla, povoando o cotidiano com a presença de espíritos e forças do “outro mundo”. Segundo Pierre Sanchis,

“Parece haver sempre um diálogo entre esses ´outros`e a própria pessoa, que se constrói precisamente no processamento dessa relação... Orixás para alguns, mortos, santos ou entidades para outros. Nossas Senhoras que aparecem e vêm conviver com os homens, anjos, espíritos, forças cósmicas, demônios – ou tudo isso ao mesmo tempo -, Espírito Santo, enfim, para pentecostais e carismáticos. A presença dessa terceira dimensão do Mundo está em toda a parte detectada”[59]

Quanto às religiões afro-brasileiras, os dados apontados pelo censo de 2000 trazem algumas novidades. Os dados corroboram o fenômeno de uma perda progressiva de seguidores ao longo das duas últimas décadas do século XX, sobretudo no âmbito da umbanda. No censo de 1980, aqueles que se declaravam membros do candomblé ou da umbanda estavam estimados em 0,6%. A partir de 1991 o IBGE passou a separar as duas tradições religiosas, facilitando captar os dados de cada religião em particular e as possíveis perdas que vêm ocorrendo. Verificou-se que a umbanda “cai de 541.518 membros em 1991 para 432.001 seguidores em 2000 (uma perda superior a cem mil adeptos), enquanto o candomblé, no mesmo período cresce de 106.957 para 139.329 participantes (um acréscimo superior a trinta mil adeptos)”[60]. Avaliando o desempenho demográfico agregado das tradições afro-brasileiras entre os censos de 1980 e 2000, o retraimento é bem visível: de 0,6% para 0,3% dos brasileiros declarantes. Registra-se ainda uma progressiva incorporação do branco nas fileiras das tradições afro-brasileiras, contrastando com o significativo crescimento dos negros nas igrejas evangélicas. Conforme a tabela do censo de 2000, havia naquele ano cerca de 1.675.680 negros evangélicos declarados e apenas 95.521 negros com declaração de crença afro-brasileira. Ao comentar esse fenômeno, o sociólogo Reginaldo Prandi assinala:

“As religiões afro-brasileiras vão cada vez mais incorporando o branco em suas fileiras, quando não se transformam elas mesmas com o intuito de apagar exatamente aqueles traços que mais evidenciavam a origem africana, como o sacrifício e a língua ritual de origem africana. Enquanto isso, os negros engrossam cada vez mais as fileiras das religiões não-negras, das quais algumas mais agressivas modelam sua identidade mostrando-se numa guerra santa contra a religiosidade um dia trazida da África”[61].

As demais religiões presentes no Brasil, envolvendo um largo universo – espiritualistas, judeus, budistas, outras orientais, muçulmanos, hinduístas, esotéricos, indígenas, outras religiosidades, declaração múltipla -, somam 1,8% da declaração de crença no censo de 2000. Se acrescentarmos a tal soma a declaração de crença dos espíritas e afro-brasileiros totaliza-se cerca de 3,5%. Isso significa que o pluralismo religioso no Brasil é ainda reduzido, ao menos nesse âmbito da afirmação explícita de crença. A grande maioria dos brasileiros insere-se num universo declaradamente cristão: 89,21% (somando-se os católicos romanos e os evangélicos). É verdade que temos que complexificar esse quadro, acrescentando os dados não declarados das múltiplas pertenças ou da sincretização religiosa. E considerar ainda a peculiaridade do catolicismo no Brasil, que traz em seu bojo a tônica da pluralidade. Como bem salientou Carlos Rodrigues Brandão, é um catolicismo que abraça a diversidade, que “acolhe formas diversas” e onde “Deus pode ter muitos rostos”, ou como disse Pierre Sanchis de forma ainda mais contundente: “há religiões demais nesta religião”[62].

2. A diversidade religiosa no mundo dos jovens

Ainda que reconhecendo a forte presença cristã no universo de declaração de crença brasileiro, não se pode desconhecer o crescente movimento de diversificação religiosa, sobretudo nas últimas três décadas. Há uma diversificação das práticas religiosas, mas curiosamente uma menor fidelidade a elas. Verifica-se um singular fenômeno de trânsito religioso, de mobilidade das pessoas entre as diferentes religiões. Segundo a visão de José Guilherme Magnani, “é uma peculiaridade que se verifica em muitas práticas: em vez de conversão definitiva, o trânsito; em vez da filiação exclusivista, duplos ou mais pertencimentos, simultâneos ou sucessivos”[63]. Esse fenômeno geral espelha-se também no meio dos jovens. Refletindo sobre o tema, a socióloga Solange Rodrigues (Iser-Assessoria) assinala que os processos e tendências relacionados à religião na contemporaneidade “tornam-se mais intensos entre os jovens: o trânsito entre diversas alternativas religiosas em curto espaço de tempo; o peso da consciência individual na adesão religiosa, se comparado ao da tradição familiar; o crescimento do contingente daqueles que se declaram sem religião”[64].

Os dados do censo de 2000 indicam a presença de “ventos secularizantes” entre os jovens. Na faixa etária de 15 a 24 anos, é clara a diminuição daqueles que se declaram católicos, cerca de 73,6%, e significativa a faixa dos que se declaram sem religião, em torno de 9,3%. Quanto ao número de evangélicos, o crescimento é também menos acelerado do que se verifica em âmbito geral, em torno de 14,2%[65]. Outra pesquisa nacional, divulgada no início de 2004, em torno do “perfil da juventude brasileira”, envolvendo 3.501 jovens, confirmou os dados do censo de 2000. Dentre os jovens entrevistados, 65% declararam-se católicos; 22% declararam-se evangélicos (dos quais 15% pentecostais) e 11% declararam-se “sem religião”[66]. É curioso constatar que nesta pesquisa apenas 1% dos jovens entrevistados declarou-se ateu ou agnóstico[67].

Não há como negar o influxo do processo mais amplo de desinstitucionalização sobre o mundo dos jovens. Mas como bem lembrou Regina Novaes, reagindo ao posicionamento do demógrafo René Decol, os ventos secularizantes não são os únicos que sopram na sociedade:

“Isso porque para essa geração nada pode ser visto como muito estável, pois o que mais a caracteriza é a disponibilidade para a experimentação, o que ocorre também no campo religioso. São os jovens os que mais transitam entre vários pertencimentos em busca de vínculos sociais e espirituais”[68]

Entre os jovens, o compromisso com as formas institucionalizadas de crer são bem mais frouxos, bem como a fidelidade aos cânones estabelecidos, seja no campo doutrinal ou moral. A definição de comportamentos não é mais substancialmente regrada pelas orientações institucionais. Isso não significa a ausência de núcleos juvenis engajados em movimentos religiosos de identidade mais acentuada. Os mesmos ventos pluralistas acabam fortalecendo a adesão tranquilizadora a “regimes fortes de intensidade religiosa”. Se, por um lado, a mobilidade moderna faculta a emergência de uma figura do religioso nova, a do peregrino, que destoa da figura anterior, do praticante regular, ela faculta igualmente a afirmação de outra figura, a do convertido ou re-afiliado, que busca uma garantia religiosa firme em tempos de instabilidade de sentido[69].

Em sua análise sobre a juventude, Solange Rodrigues, enfatiza que “não há um único padrão de relacionamento da juventude com a religião na atualidade”[70]. Há jovens que se firmam como “religiosos sem religião”; há jovens que aderem, com firmeza e vigor, a movimentos mais tradicionalistas; há jovens que mantêm viva sua atuação e esperança em grupos e espaços mantidos por instituições religiosas, numa linha de presença pública e profética; e outros que buscam o sentido religioso nas novas tecnologias de informação e comunicação (TIC). Verificam-se outros exemplos que dão visibilidade a novas formas de adesão ou pertencimento religioso presentes no mundo dos jovens, como a utilização de ampla simbologia: tatuagens, peças de vestuário e outros símbolos que expressam uma demanda mística ou espiritual que é crescente. Isso também se reflete no campo das artes, em particular na música, com a incorporação de traços religiosos em estilos musicais populares como o rock ou o rap, muito apreciados pela juventude.

3. Tensões e desafios no campo religioso brasileiro

É um lugar comum dizer que o Brasil é um país marcado pela tolerância religiosa e pela dinâmica do sincretismo. De fato, desde sua gênese, o traço da pluralidade sistemática esteve sempre presente, permeada em seguida por porosidades e contaminações. Basta lembrar, no início “os movimentos compósitos das santidades indígenas” e, mais tarde, “as tradições africanas, já profundamente sincretizadas antes de chegar e introduzidas aqui no caldeirão de uma matriz viva, historicamente ativa e, pelo menos no nível da vivência ´popular`, processadora das diferenças: o catolicismo”[71].

Essa “predisposição estrutural à porosidade”, que marcou desde o início o campo religioso brasileiro, abre um espaço singular para a possibilidade de uma dinâmica dialogal. Mudanças recentes nesse campo trazem, porém, vozes dissonantes, que alteram ou mesmo quebram essa dinâmica. Talvez a grande novidade ocorrida nos últimos decênios foi a impressionante expansão dos evangélicos, provocando a crise de hegemonia do catolicismo no Brasil. Eles vão deixando de ser uma “minoria religiosa” e vão se impondo com vigor no cenário nacional, marcando uma visibilidade bem precisa. Tornam-se, assim, como indica Emerson Giumbelli, “os principais protagonistas de uma redefinição do religioso no Brasil”[72].

É interessante perceber como o maior decréscimo do catolicismo, segundo os dados dos censos, coincide com o período posterior à década de 1980, justamente quando ocorre a afirmação da terceira onda pentecostal, cuja grande protagonista foi a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A primeira onda, ocorreu na década de 1910, com a afirmação das primeiras igrejas pentecostais, a Congregação Cristã ea Assembléia de Deus. Sua ênfase estava na Palavra. A segunda onda, firmada nas décadas de 1950 e 1960, marcou um novo momento do movimento pentecostal, com a introdução do tema da cura divina. A terceira onda, mais recente, enfatiza o tema da libertação e do exorcismo[73].

É com essa terceira onda que se dá início ao processo mais duro de intolerância religiosa. Como recorda Paul Freston, a ênfase dada na libertação e no exorcismo, implicava, necessariamente a tensão com os cultos mediúnicos. Recorda que a IURD expandiu-se, justamente, nos espaços de presença da “macumba” e das famílias dilaceradas[74]. Não foram poucos os episódios de intolerância que ocorreram nas últimas décadas, sendo um dos mais famosos o do “chute na santa”, ocorrido no dia 12 de outubro de 1995, dia consagrado a Nossa Senhora Aparecida[75]. Como mostrou Emerson Giumbelli, “o que estava em questão era a idéia de tolerância, tradicionalmente evocada para traduzir o clima predominante nas relações inter-religiosas no Brasil, ora duplamente atingida: pela suposta agressão à santa e pelas reações que possivelmente desencadearia”[76].

Nem sempre a convicção religiosa é portadora de paz. Em casos bem específicos, o exercício dessa convicção vem acompanhado de violência. Na raiz de todos os fundamentalismos está uma consciência arraigada e dura de posse da verdade, que se traduz em desprezo, agressividade e exclusão do outro. Paul Ricoeur chamou a atenção para esse risco da violência que se insinua no coração da convicção[77]. Mas mesmo antes, Pascal já tinha advertido: “Os homens nunca fazem o mal tão completamente e com tanto entusiasmo do que quando o fazem por convicção religiosa”. O duro desafio está em superar a tendência à “violência da convicção” no sentido da “não-violência do testemunho”. Mas isso nem sempre vem ocorrendo no Brasil do sincretismo.

Quem, na verdade, vem mais sofrendo com o proselismo exclusivista das igrejas neopentecostais são as tradições religiosas afro-brasileiras. O acirramento das convicções religiosas, acompanhado de práticas de intolerância – e mesmo violência -, vem ocorrendo sobretudo nas duas últimas décadas no Brasil, mas já se estende também por outros países da América Latina. Segundo Vagner Gonçalves da Silva, “os casos de intolerância, antes apenas episódicos e sem grandes repercussões, hoje se avolumaram e saíram da esfera das relações cotidianas menos visíveis para ganhar visibilidade pública, conforme atestam as frequentes notícias de jornais que os registram em inúmeros pontos do Brasil”[78]. Na pesquisa realizada pelo ISER sobre os evangélicos no Grande Rio, nas respostas relativas à questão sobre a existência ou não de religiões demoníacas no Brasil, a dificuldade dialogal veio logo à tona. Os dados apontaram uma rejeição quase unânime à umbanda e ao candomblé: quase 95% das respostas indicaram que são religiões demoníacas. Essa rejeição se relacionou também ao espiritismo kardecista e ao catolicismo, considerados demoníacos por 83% e 30% dos entrevistados, respectivamente[79].

As religiões afro-brasileiras encontram-se numa situação francamente minoritária nas estatísticas de adesão religiosa (0,34% de declaração de crença no censo de 2000), têm uma presença reduzida nos tradicionais espaços de atuação de católicos e evangélicos, e quando ganham visibilidade, o ganham muitas vezes como vítimas, ou seja, como alvo de ataques motivados por intolerância religiosa. Junto com a expansão pentecostal nas periferias e favelas vem também essa atmosfera de intolerância carregada nos discursos e práticas, e isso provoca um acanhamento das tradições afro-brasileiras, que se vêem forçadas a uma posição defensiva no campo religioso[80].

Olhando mais de perto os traços que configuram a “batalha espiritual” da IURD contra as religiões afro-brasileiras verifica-se um traço que é curioso. Na estratégia de combate utilizada ela se serve fartamente do mesmo panteão dos cultos-afro. O pastor não só “acata” os guias e orixás como também lhes confere credibilidade. O que ele faz “é mostrar que eles existem, mas que ele tem poder sobre eles”. E esse poder vem reforçado quando “o pastor se mostra capaz não só de invocá-las (as entidades) mas também de fazê-las falar, confessar sua origem demoníaca e, por fim, numa prova inconteste de sua força, expulsá-las”[81]. De forma paradoxal, como mostrou com acerto Ronaldo de Almeida, o “inimigo” vem incorporado num projeto peculiar de “fagocitose religiosa”, uma “antropofagia da fé inimiga”. Trata-se de uma forma singular de “abrasileiramento” de um segmento importante do pentecostalismo brasileiro[82].

Não é apenas no âmbito do pentecostalismo, ou de certas tradições evangelicais, que vêm ocorrendo tensões e conflitos com outras tradições religiosas no Brasil. Verifica-se também entre segmentos do catolicismo romano posturas de intolerância e beligerância contra os outros. Em sua obra sobre a Renovação Carismática Católica, a socióloga Brenda Carranza assinalou que também ali ocorre uma “batalha espiritual”, onde velhas disputas contra o espiritismo e as tradições afro-brasileiras voltam à cena, delimitando fronteiras bem rígidas de pertença religiosa[83]. Um exemplo vivo dessa postura beligerante pode ser encontrado no livro do padre Jonas Abib, da Comunidade Canção Nova: Sim, sim! Não, não![84], com inúmeras edições publicadas. É um livro que se aproxima, no tom, do livro do bispo Macedo: Orixás, caboclos e guias. Deuses e demônios, líder nessa audiência de beligerância interreligiosa.[85]

Essas tensões no campo religioso brasileiro são lamentáveis, não há dúvida sobre isso, mas não podem ser entendidas de forma generalizada. Tomando como exemplo as tradições pentecostais ou neopentecostais, há que reconhecer a realidade de experiências concretas e ricas de geração de laços de confiança, fidelidade e auto-estima, envolvendo importantes benefícios nos campos da ajuda mútua, da inserção no trabalho, no acesso a políticas públicas, com implicações precisas na transformação das realidades locais. Em trabalho novidadeiro, o teólogo Richard Schaull sublinhou a importância desses núcleos pentecostais na afirmação de uma nova dignidade dos pobres, algo semelhante ao que vem ocorrendo nas CEBs:

“Para um grande numero de pobres no Brasil toda a estrutura social com a qual normalmente contam para sobreviver se despedaçou. As pessoas ficam sem emprego regular, sem moradia decente, sem saber de onde virá a próxima refeição para seus filhos, sem assistência médica ou qualquer estrutura comunitária no lugar onde vivem. São pessoas que conhecem apenas o abandono e a destruição na sociedade. Em suas famílias e na vida pessoal. É exatamente nessa situação, contudo, que muitos passam a conhecer uma rica experiência, que não podemos imaginar, de cura e da presença salvadora de Deus”[86].

Laços importantes na construção da auto-estima e de conformação do universo motivacional são tecidos em experiência pentecostais concretas, e isso não pode ser simplesmente descartado como alienação ou exploração dos pobres. O cineasta João Moreira Sales conseguiu mostrar isso de forma admirável no seu filme Santa Cruz, que narra o nascimento e afirmação de uma comunidade pentecostal na periferia de Santa Cruz, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. A película acompanha os nove primeiros meses de desenvolvimento de uma pequena igreja “crente” autônoma. E o que se revela para os olhos é a afirmação de um espaço religioso que propicia a intensificação da dignidade e da qualidade de sujeitos dos pobres daquela redondeza. Ao abordar a dinâmica que processa a mudança dos indivíduos, do grupo e do bairro onde a pequena comunidade se instala, Cláudia Mesquita sublinha:

“Esse movimento se dá, digamos assim, em direção a um maior grau de dignidade, e todas as mudanças que observamos no filme – na vida dos convertidos, da Casa de Oração ou da vizinhança – expressam esta dignidade propiciada pela conversão. É como se a igreja ´preenchesse`, aos poucos, um espaço vazio, um grau zero de dignidade, de ordem, de comunidade e de relações sociais positivas”[87].

Essas últimas ponderações servem para dialetizar um poucos mais as reflexões, que podem ficar congeladas numa idéia generalizada e imprópria, já que não consegue captar particularidades que podem favorecer um novo olhar e uma outra perspectiva de ação. Não há dúvida sobre a urgência de um discernimento crítico sobre atuações desviadas e problemáticas. Situações específicas de intolerância devem ser denunciadas e combatidas com vigor, mas é necessário saber pontuar onde elas acontecem, e também separar o que muitas vezes é a atuação de um personagem em particular, do núcleo de fieis que vivem sua experiência com riqueza e autenticidade. Toda afirmação generalizada pode macular um quadro que é muito mais complexo, marcado por nuances diferenciadas. O mais importante é acreditar num futuro de diálogo e de conversação alternativa, marcados pelo respeito ao outro, pela abertura ao seu mundo, e pelo rico intercâmbio de dons, que sabe resguardar o patrimônio das diferenças.

Questões:

  1. Como avaliar a diversidade religiosa no Brasil a partir dos dados do censo de 2000? E que prognósticos podemos avançar sobre essa questão para o censo de 2011?
  2. Quais as razões que motivam as recentes dificuldades e tensões no campo religioso brasileiro?

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(Publicado em: José Oscar BEOZZO & Cecília Bernadete Franco (Orgs.). Curso de Verão – Ano XXV. Religiões construtoras de justiça e de paz. São Paulo: Cesep/Paulus, 2011, pp. 21-55.)



[1] Teólogo e Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora. É também pesquisador do CNPQ e consultor do ISER-Assessoria (RJ). Vem atuando no momento em três frentes de trabalho: teologia das religiões, diálogo interreligioso e mística comparada das religiões. Dentre suas últimas publicações: Ecumenismo e diálogo interreligioso. Aparecida: Santuário, 2008 e Catolicismo plural. Petrópolis: Vozes, 2009 (organizado junto com Renata Menezes).

[2] Manifesto do I Encontro da Assembléia do Povo de Deus. In: Faustino TEIXEIRA (Org). O diálogo interreligioso como afirmação da vida. São Paulo: Paulinas, 1997, pp. 147-151 (a citação está na p. 150).

[3] Dom Pedro CASALDÁLIGA. O macroecumenismo e a proclamação do Deus da vida. In: Faustino TEIXEIRA (Org). O diálogo interreligioso como afirmação da vida, p. 35.

[4] Clifford GEERTZ. Nova luz para a antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 158.

[5] Anthony GIDDENS. Para além da esquerda e da direita. São Paulo: Unesp, 1996, p. 13 e 99.

[6] Anthony GIDDENS. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991, p. 45.

[7] Eric HOBSBAWM. Globalização, democracia e terrorismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 45. Ver também: Sebastião SALGADO. Êxodos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

[8] Peter L. BERGER. A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 1973, p. 65.

[9] Peter L. BERGER. Rumor de anjos. A sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1997, pp. 78-79.

[10] Ibidem, p. 54.

[11] Peter L. BERGER. Una gloria remota. Avere fede nell´epoca del pluralismo. Bologna: Il Mulino, 1994, pp. 46-49.

[12] Ibidem, p. 47.

[13] Anthony GIDDENS. Para além da esquerda e da direita, p. 14.

[14] Peter L. BERGER & Thomas LUCKMANN. Modernidade, pluralismo e crise de sentido. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 54.

[15] Ibidem, p. 58.

[16] Apud Zygmunt BAUMAN. Comunidade. A busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,2003, p. 21.

[17] Zygmunt BAUMAN. Comunidade..., p. 21.

[18] Paula MONTERO. Considerações a respeito da noção de identidade. Comunicações do Iser, nº 26, julho de 1987, pp. 11-12.

[19] Amim MAALOUF. L´identità. Milano: Grasset & Fasquelle, 1998, pp. 17 e 33.

[20] Zygmunt BAUMAN. Comunidade, p. 7. Roberto DaMatta faz menção à distinção entre os domínios da casa, regida pelos ciclos da tranquilidade, segurança e reciprocidade, e o domínio da rua, onde vige as leis do mercado e suas inseguranças: Roberto DaMatta. A casa & a rua. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, pp. 150-151.

[21] Adolphe GESCHÉ. O sentido. São Paulo: Paulinas, 2005, pp. 135-136.

[22] E remete à idéia da loucura da “sabedoria de Deus” expressa por Paulo na primeira carta aos Coríntios (1Cor 1,24).

[23] Adolphe GESCHÉ. O sentido, p. 137.

[24] Simone WEIL. Lettre à un religieux. Paris: Gallimard, 1951, pp. 38-39.

[25] Claude GEFFRÉ. De babel à pentecôte. Essais de théologie interreligieuse. Paris: Cerf, 2006, p. 137.

[26] PONTIFÍCIO Conselho para o Diálogo Interreligioso. Diálogo e anúncio. Petrópolis: Vozes, 1991, nº 14.

[27] Ibidem, nº 9. Como bem mostrou Christian van Nispen, um dos mais singulares buscadores jesuítas, com atuação no Egito há mais de quarenta anos, o respeito sincero radica-se no reconhecimento da dignidade do outro e do caráter sagrado de sua consciência: Christian van Nispen tot SEVENAER. Chrétiens et musulmans. Frères devant Dieu? Paris: Les Editions de L´Atelier, 2009, p. 1125.

[28] Simone WEIL. Attente de Dieu. Paris: Fayard, 1966, pp. 92-93.

[29] Simone WEIL – Joë BOUSQUET. Corrispondenza. Milano: SE SRL, 1994, p. 13 (carta de Simone Weil a Joë Bousquet, datata de 13 de abril de 1942).

[30] Hans-Georg GADAMER. Verdade e método II. Complementos e índice. Petrópolis: Vozes/Universidade São Francisco, 2002, p. 247.

[31] Raimon PANIKKAR. Vita e parola. La mia opera. Milano: Jaca Book, 2010, p. 93.

[32] Ana Cristina CESAR. Recuperação da adolescência. In: Id. Novas seletas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, p. 30.

[33] Christian van Nispen tot SEVENAER. Chrétiens et musulmans..., p.110.

[34] PONTIFICIO Consiglio per il Dialogo Interreligioso. Il dialogo interreligioso nel magistero pontifício. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1994, p. 416 (A rappresentanti delle varie religioni del mondo a conclusione della Giornata Mondiale per la Pace – Assisi, 27 ottobre 1986).

[35] SECRETARIADO para os Não-Cristãos. A Igreja e as outras religiões. Diálogo e Missão. São Paulo: Paulinas, 2001, nº 29.

[36] Seguiremos aqui as pistas abertas pelos documentos: Diálogo e Missão (1984 – nºs 28-35) e Diálogo e Anúncio (1991 – nº 42).

[37] Christian SALENSON. Christian de Chergé. Une théologie de l´espérance. Paris: Bayard, 2009, p. 82. Esse diálogo existencial foi lindamente descrito no filme “Homens e Deuses”, de Xavier Beauvois, que retrata o martírio dos monges trapistas de Tibhirine, ocorrido em 1996 na Argélia.

[38] Hans KÜNG. Projeto de ética mundial. São Paulo: Paulinas, 1992, p. 7.

[39] DOCUMENTOS do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997, p. 342 (NA 3).

[40] PONTIFICIO Consiglio per il Dialogo Interreligioso. Il dialogo interreligioso nel magistero pontifício, p. 437.

[41] Christian van Nispen tot SEVENAER. Chrétiens et musulmans..., p. 138; Paolo DALL´OGLIO. Innamorato dell´Islam, credente in Gesù. Milano: Jaca Book, 2011, p. 91; Christian SALENSON. Christian de Chergé. Une théologie de l´espérance, pp. 223-224.

[42] Raimon PANIKKAR. La nuova innocenza 3. Sotto il Monte: Servitium, 1996, p. 156.

[43] Leonardo BOFF. A espiritualidade na construção da paz. In:

http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=48305 (acesso em 28/05/2011)

[44] Danièle HERVIEU-LÉGER. O peregrino e o convertido. A religião em movimento. Petrópolis: Vozes, 2008, pp. 22-23.

[45] Ibidem, pp. 27-28.

[46] Antônio Flávio PIERUCCI. “Bye bye Brasil” – O declínio das religiões tradicionais no Censo de 2000. Estudos Avançados, v. 18, n. 52, setembro/dezembro 2004, p. 19.

[47] Cândido Procópio F. de CAMARGO. Católicos, protestantes, espíritas. Petrópolis: Vozes, 1973, p. 24. Para o quadro amplo dos dados dos três censos indicados: pp. 26-28.

[48] Em 1970, os dados do censo apontaram 91,1% de declaração de crença católica.

[49] César Romero JACOB & Dora Rodrigues HEES & Philippe WANIEZ & Violette Brustlein. Atlas da filiação religiosa e indicadores sociais no Brasil. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora PUC-Rio/Loyola/CNBB, 2003, p. 9.

[50] João GUIMARÃES ROSA. Grande sertão: veredas. 14 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980, p. 15.

[51] Pierre SANCHIS. Religiões, religião... Alguns problemas do sincretismo no campo religioso brasileiro. In: ____. (Org). Fiéis & cidadãos. Percursos de sincretismo no Brasil. Rio de Janeiro: Eduerj, 2001, p. 10. Ver também: Id. O repto pentecostal à ´cultura católico-brasileira`”. In: Alberto ANTONIAZZI et al. Nem anjos nem demônios. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 36.

[52] Rubem César FERNANDES (Org). Censo institucional evangélico CIN 1992. Rio de Janeiro: ISER, 1992, pp. 7 e10 (Primeiros Comentários).

[53] Rubem César FERNANDES et al. Os evangélicos em casa, na igreja e na política. Rio de Janeiro: Mauad, 1998, p. 140.

[54] Ibidem, p. 140.

[55] Paula MONTERO & Ronaldo R.M. de ALMEIDA. O campo religioso brasileiro no limiar do século: problemas e perspectivas. In: Henrique RATTNER (Org). Brasil no limiar do século XXI. São Paulo: Fapesp/edusp, 2000, p. 330.

[56] Regina NOVAES. Os jovens “sem religião”: ventos secularizantes, “espírito de época” e novos sincretismos. Notas preliminares. Estudos Avançados, v. 18, n. 52, setembro/dezembro 2004, p. 328.

[57] Bernardo LEWGOY. Incluídos e letrados. Reflexões sobre a vitalidade do espiritismo kardecista no Brasil atual. In: Faustino TEIXEIRA & Renata MENEZES (Orgs). As religiões no Brasil. Continuidades e rupturas. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 173.

[58] José Jorge de CARVALHO. Características do fenômeno religioso na sociedade contemporânea. In: Maria Clara L. BINGEMER (Org). O impacto da modernidade sobre a religião. São Paulo: Loyola, 1992, p. 146.

[59] Pierre SANCHIS. A religião dos brasileiros. Teoria & Sociedade. Número especial – Passagem de milênio e pluralismo religioso na sociedade brasileira. Belo Horizonte: UFMG, 2003, p. 30. E continua o autor: “Para mais ou menos a metade da população brasileira, a verdadeira identidade é dada, ou plenificada, pela invasão do outro, ou a assunção do Outro a si”: ibidem, p. 30.

[60] Antônio Flávio PIERUCCI. “Bye bye Brasil” – O declínio das religiões tradicionais no Censo de 2000, p. 25.

[61] Reginaldo PRANDI. Herdeiras do axé. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 77. Ver também: Antônio Flávio PIERUCCI. Ciências sociais e religião: a religião como ruptura. In: Faustino TEIXEIRA & Renata MENEZES (Orgs). As religiões no Brasil, pp. 24-28 (onde aborda a sugestiva questão: “de afro-brasileiros a black-evangelicals).

[62] Carlos Rodrigues BRANDÃO. Revisitando o catolicismo popular. IHU On-line. Religiões no Brasil. Ano 4, n. 169, dezembro de 2005, p. 74; Pierre SANCHIS. Introdução. In: ____. (Org). Catolicismo: modernidade e tradição. São Paulo: Loyola, 1992, p. 33.

[63] José Guilherme Cantor MAGNANI. Religião e metrópole. In: Clara MAFRA & Ronaldo de ALMEIDA. Religiões e cidades. Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo: Fapesp/Terceiro Nome, 2009, p. 25.

[64] Solange RODRIGUES. A busca espiritual da geração Y. IHU On-line. Cinco gerações contemporâneas. Uma descrição. Ano XI, n. 361, 16 de maio de 2011, p. 25 (entrevista).

[65] Regina NOVAES. Os jovens, os ventos secularizantes e o espírito do tempo. In: Faustino TEIXEIRA & Renata MENEZES (Orgs). As religiões no Brasil, p. 138.

[66] Regina NOVAES. Juventude, percepções e comportamentos: a religião faz a diferença? In: Helena Wendel ABRAMO & Pedro Paulo Martoni BRANCO (Orgs). Retratos da juventude brasileira. São Paulo: Instituto Cidadania/Editora Fundação Perseu Abramo, 2005, p. 266.

[67] Quanto a outros dados revelados na mesma pesquisa: 2% dos jovens entrevistados declararam-se espíritas kardecistas, 1% declarou-se adepto da umbanda e do candomblé e 1% declarou ter outras religiões.

[68] Regina NOVAES. Juventude, percepções e comportamentos: a religião faz a diferença? p. 271.

[69] Danièle HERVIEU-LÉGER. O peregrino e o convertido, pp. 81-137.

[70] Solange RODRIGUES. A busca espiritual da geração Y, p. 25.

[71] Pierre SANCHIS. A religião dos brasileiros, p. 29.

[72] Emerson GIUMBELLI. Um projeto de cristianismo hegemônico. In: Vagner Gonçalves da SILVA (Org). Intolerância religiosa. Impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro. São Paulo: Edusp, 2007, p. 149.

[73] Para maiores detalhes cf. Paul FRESTON. Breve história do pentecostalismo brasileiro. In: Alberto ANTONIAZZI et al. Nem anjos nem demônios, pp. 67-159.

[74] Ibidem, pp. 136 e 139.

[75] O seu protagonista foi o bispo da IURD, Sérgio Von Helde, durante a apresentação na TV Record, no programa religioso: Despertar da fé.

[76] Emerson GIUMBELLI. O “chute na santa”: blasfêmia e pluralismo religioso no Brasil. In: Patrícia BIRMAN (Org). Religião e espaço público. São Paulo: Attar, 2003, p. 172.

[77] Paul RICOEUR. Em torno ao político: leituras 1. São Paulo: Loyola, 1995, p. 183.

[78] Wagner Gonçalves da SILVA. Prefácio ou notícias de uma guerra nada particular. Os ataques neopentecostais às religiões afro-brasileiras e aos símbolos da herança africana no Brasil. In: ____. (Org). Intolerância religiosa, p. 10.

[79] Rubem César FERNANDES et al. Os evangélicos em casa, na igreja e na política, pp. 81.

[80] Ver como exemplo: Marcos ALVITO. As cores de Acari. Uma favela carioca. Rio de Janeiro: FGV, 2001, pp. 199-201.

[81] Mariza de Carvalho SOARES. Guerra santa no país do sincretismo. In: Leilah LANDIM (Org). Sinais dos tempos. Diversidade religiosa no Brasil. Rio de Janeiro: Iser, 1990, p. 87.

[82] Ronaldo de ALMEIDA. A guerra das possessões. In: Ari Pedro ORO et al. Igreja Universal do Reino de Deus. Os novos conquistadores da fé. São Paulo: Paulinas, 2003, pp. 340-341.

[83] Brenda CARRANZA. Renovação Carismática Católica. Origens, mudanças e tendências. 2ª ed., Aparecida: Santuário, 2000, pp. 176-177.

[84] Jonas ABIB. Sim, sim! Não, não! 12 ed. Cachoeira Paulista: Editora Canção Nova, 2004.

[85] Bispo MACEDO. Orixás, caboclos e guias. Deuses ou demônios? 14ª ed. Rio de Janeiro: Universal Produções, 1990.

[86] Waldo CESAR & Richard SCHAULL. Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs. Promessas e desafios. Petrópolis/São Leopoldo: Vozes/Sinodal, 1999, p. 167.

[87] Cláudia MESQUITA. Santa Cruz (de João Salles e Marcos Sá Corrêa): o mundo preenchido. Sexta Feira, n. 8. São Paulo: Editora 34, p. 169 (Número temático sobre Periferia).