terça-feira, 19 de julho de 2011

A palavra sagrada nas religiões

A palavra sagrada nas religiões

Faustino Teixeira[1]

PPCIR/UFJF

Introdução

Um dos desafios essenciais de nosso tempo é compreender o fenômeno do pluralismo religioso e o seu significado no desígnio salvífico universal de Deus, ou do Mistério que sempre advém. Como situar adequadamente as religiões nessa dinâmica da acolhida e da bem-querença de Deus ? Esta é a urgente tarefa que se abre para a reflexão teológica no presente momento. A percepção do pluralismo religioso como um valor fica facilitada quando se faz recurso à estrutura simbólica como chave de acesso para a compreensão da religião. A religião não é somente uma questão de credo ou de instituição, nem apenas uma experiência pessoal ou comunitária, mas uma “estrutura simbólica” que intermedeia a dinâmica da relação entre o indivíduo ou a comunidade e o Mistério Absoluto[2]. Na raiz de todo esse processo há o movimento da livre e gratuita auto-comunicação de Deus, que está dada de antemão a toda pessoa e pode ser acolhida autenticamente onde quer que aconteça o exercício da existência humana. A experiência original desse Mistério que é dom acontece a cada momento, quando a pessoa “tem a coragem de olhar para dentro de si e achar nas próprias profundezas a sua verdade última” e reconhecer com alegria a presença acolhedora do Deus sempre maior[3].

O mistério da auto-comunicação de Deus é universal e sua acolhida não está necessariamente vinculada a uma atividade religiosa, pois acontece antes mesmo de qualquer decisão religiosa reflexa, quando o sujeito vive a dinâmica da abertura à “sua experiência transcendental do mistério santo”[4]. As religiões ocupam, porém, um papel importante, enquanto sinais ou sacramentos dessa presença do Mistério em ação no mundo. Elas são a “anamnese” ou lembrança viva da dinâmica salvífica universal de Deus, sempre presente e reatualizada na história:

“Religiões: sinagogas e pagodes, mesquitas e templos, impedem, graças à sua palavra religiosa, a seu sacramento ou ritual, e à sua prática de vida, que essa presença salvífica universal venha a ser esquecida”[5].

As religiões são canais verdadeiros da presença amorosa e gratuita de Deus no tempo, mas a mediação dessa presença salvífica e universal não precisa ser unicamente uma pessoa, como ocorre com Jesus Cristo no cristianismo, pois ela pode se dar num livro, num evento, num ensinamento e numa práxis. Como indica Roger Haight, “religiões outras que não o cristianismo medeiam, verdadeiramente e realmente, a presença de Deus, de sorte que Deus é precisamente encontrado em diversos e diferentes caminhos”[6]. Isso não significa que essa mediação seja perfeita. Toda e qualquer religião, enquanto inserida no tempo, vem marcada pela dinâmica da limitação e da ambigüidade, tendo sempre necessidade de ouvir “sem cessar aquilo que ela deve acreditar, as razões de sua esperança e o mandamento novo do amor” (EN 15).

Não há porque restringir o conceito de revelação às religiões bíblicas, uma vez que todas as grandes religiões recorrem a textos fundadores, entendidos como textos de revelação em sentido largo. Nesse âmbito, a revelação designa sempre “a manifestação do divino na imanência da consciência humana”[7], ou como assinala Tillich, “a manifestação daquilo que nos diz respeito de forma última”[8]. Não apenas as religiões que admitem o dado de um Deus pessoal, que se faz presente mediante uma palavra, são eventos de revelação, mas também outras tantas religiões não teístas, ou aquelas que evitam nomear a Realidade última do universo. É, porém, correto assinalar que a revelação, em sentido estrito, envolve a presença da Palavra de Deus numa escritura determinada. E esse é o objetivo desse artigo, ou seja, captar a palavra sagrada nas diversas tradições religiosas.

1. As sagradas escrituras das nações

Como indicado na carta aos hebreus, “muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais e aos profetas” (Hb1,1). Fala-se hoje em sagradas escrituras das nações para expressar as variadas formas de manifestação e presença de Deus aos seres humanos e à criação. Na ocular da teologia cristã do pluralismo religioso, há uma rica experiência religiosa dos sábios e “videntes” das nações, assinalada como experiência viva do Espírito. Também suas escrituras sagradas vem reconhecidas como inspiradas por Deus. Segundo Jacques Dupuis,

“essas escrituras representam o legado sagrado de uma tradição-em-devir, não sem a intervenção da divina providência. Elas contêm, nas palavras dos videntes, palavras de Deus aos seres humanos, porquanto apresentam sim palavras pronunciadas secretamente pelo Espírito em corações que são humanos, mas palavras destinadas pela providência divina a conduzir outros seres humanos à experiência do mesmo Espírito”[9].

Importantes tradições religiosas recorrem a textos fundadores, que são textos de revelação. Pode-se mencionar os escritos sagrados do hinduísmo. Em sua base existe uma vasta literatura religiosa, das mais antigas da humanidade, que surgiu no norte da Índia entre os anos 2000 e 1000 a.C. Trata-se dos Vedas, um termo sânscrito que pode ser traduzido por “conhecimento supremo, revelação”. São reconhecidos como textos revelados (sruti) pois atribuídos à inspiração do absoluto (Brahman). Os Vedas compreendem quatro grandes coleções: Rig-Veda (saber dos hinos), Sama-Veda (saber dos cânticos), Yajur-Veda (saber das fórmulas sacrificatórias) e Atharva-Veda (saber do ´sacerdote do fogo`). Os diversos volumes dos Vedas assumem importância de texto revelado. Os temas abordados são bem diversificados, envolvendo hinos sagrados, orações, invocações rituais e textos filosóficos de caráter mais esotérico. A coletânea dos Vedas traduz uma primeira etapa da religião hindu, da qual se dispõe de documentação escrita.

Nesta mesma coletânea dos Vedas encontram-se hinos especulativos tardios do Rig-Veda, direcionados a formas monistas de representação da divindade. São textos que situam o problema da origem do universo e buscam sua resposta num princípio último, anterior aos próprios deuses, cuja representação virá associada à noção de Brahman. Dentre estes textos, que constituem o Vedanta, destacam-se os Upanixades, escritos em torno dos anos 800 e 300 a.C. Eles são considerados, por consenso, os textos da revelação por excelência, quando então começa a desenvolver-se uma espécie de mística especulativa. Segundo Panikkar, os Vedas constituem “uma das mais belas manifestações do Espírito” e reporta-se que foram transmitidos aos sábios (rishi) pelo “sopro” do Absoluto[10].

Ao lado dos Vedas, podem ser igualmente mencionados outros importantes textos da tradição hindu, cujo núcleo essencial tem sua origem no início da era cristã. Os assim chamados Smrti (Tradição confiada à memória) distinguem-se dos Vedas pela dinâmica de sua revelação. Não são textos oriundos de um absoluto impessoal, mas palavras pronunciadas em circunstâncias determinadas por precisas divindades do panteão hindu, como Visnu, Krishna ou Shiva: divindades “avatarizadas”. Tais palavras são direcionadas ao conjunto da comunidade hindu e abordam a essencial questão do dharma e da moksa, ou seja, da ordem universal e dos caminhos de salvação (libertação) abertos aos seres humanos em razão de sua participação ativa na manutenção desta ordem. Esta tendência personalizante indica uma nova via da espiritualidade hindu, da religiosidade devocional bhakti. Trata-se de um tipo de religiosidade mais universal e personalista, “centrada no encontro afetivo com o sagrado”. O rosto de Deus vem personificado em deuses particulares do panteão hindu, envolvidos com a aventura humana, e o seu desvelamento se dá mediante a contemplação amorosa. Os smrt abrangem os sutras da filosofia brahmânica clássica e os passos da antiga tradição desenvolvida ao longo do primeiro milênio da era cristã. Em lugar de destaque encontra-se o Bhagavad-Gita (o canto do Bem Aventurado), o célebre episódio que narra o diálogo filosófico entre a Divindade Suprema Krishna e o guerreiro Arjuna. Sobretudo a partir do livro XI do Bhagavad-Gita emerge a figura “epifânica de um Deus quase-pessoal que aparece com força deslumbrante, oferecendo a seus fiéis o presente de seu amor.

Com respeito ao budismo, há uma vasta literatura sagrada, onde cada escola possui sua própria coleção. Pode-se mencionar, primeiramente, o cânone da escola Theravada, em língua páli, o Tripittaka (três cestos), talvez o único cânone conservado intacto. O cânone, que afirma reportar às palavras mesmas de Buda, é dividido em três partes: o Vinaya Pikaka, que contém regras (Vinaya) da ordem monástica; o Sutra Pittaka, subdivido em cinco grupos, que apresentam sermões, afirmações e ditos de variadas dimensões e o Abhi-dharma, mais tardio, com a caracterização dos vários dharmas que envolvem a experiência do budismo. Há também um outro cânone, o Mahâyâna Sutra, que declara reportar aos sermões de Buda e do Bodisatva, mas que carece da sistematização do cânone Theravada. Sua primeira manifestação ocorreu no vasto corpus de textos conhecidos como Prajñâpâramitâ, ou os sutras da Perfeição da Sabedoria, sendo os mais antigos datados do primeiro século da Era Comum. Outros desdobramentos e condensações desses textos originais aconteceram posteriormente, durante cerca de mil anos, em fases distintas, suscitando sutras fundamentais como o Sutra da Sabedoria Perfeita, o Sutra do Diamante e o Sutra do Coração. São textos que apresentam como tema central a compaixão e o auto-sacrifício dos bodisatvas, que recusando-se a desfrutar da iluminação, dedicam sua vida ao bem estar dos outros, tendo feito o voto de conduzir todos os seres à completa perfeição e iluminação[11]. Outro cânone é o que envolve a literatura Tantra, de caráter mais esotérico, que inclui textos conhecidos como o Guhyasamâja-Tantra (Tratado da sociedade secreta) e o Hevajra-Tranta (Tratado do Buda Hevajra). Há, finalmente, os textos zen, com sua coleção de Koans, entre os quais o célebre wou-men-kouan (passar sem porta), e outros clássicos como o Shôbôgenzô (o olho da verdadeira lei), do mestre Dodgen e o Orategama (a chaleira arremessada), de Hakuin[12]. Diferentemente do hinduísmo e do islamismo, o budismo não consagrou o conceito de uma língua sagrada. É uma tradição, de certa forma, poliglota. O centro referencial é a história: a história da iluminação de um homem, da realização do Buda. Como indica Masao Abe, “pelo menos quinhentos anos antes que os cristãos começassem a atuar e dois mil anos antes que os muçulmanos, os budistas já estavam oferecendo o dom do dharma (os ensinamentos do budismo) a quem o desejasse aceitar, na sua própria linguagem e cultura”[13]. Há, finalmente, a importante literatura sapiencial chinesa, com destaque para os tratados de Lao-Tsé (Tão Te Ching – 600 AEC) e Chuang Tzu (300 AEC), que firmam a tradição taoísta.

A teologia cristã do pluralismo religioso vem aos poucos reconhecendo esse influxo universal do Espírito nas sagradas escrituras das nações. Na visão de Jacques Dupuis, são divinas as palavras transmitidas pelos livros sagrados das nações, e pela razão de Deus as ter pronunciado mediante o Espírito divino. Daí ser pertinente, do ponto de vista teológico, nomeá-las como “sagradas escrituras”[14]. Há hoje o reconhecimento de um limite na reflexão teológico tradicional sobre as sagradas escrituras, inclusive com respeito à idéia de “iluminação”. Ainda segundo Dupuis, “é uma limitação da teologia tradicional da sagrada escritura silenciar em grande parte sobre o papel peculiar desenvolvido nesse processo pelo Espírito Santo”[15]. Nos limites impostos pela reflexão da Dei Verbum (DV 11), do Vaticano II, a Comissão Teológica Internacional, em documento sobre o cristianismo e as religiões (1997), indica que a denominação de “palavra de Deus” fica reservada aos escritos do Primeiro e Segundo Testamentos. Titubeia em conferir o qualificativo de “inspirados” aos livros sagrados das outras tradições religiosas, limitando-se a afirmar que neles ocorre apenas “alguma iluminação divina”[16].

A reflexão teológica cristã em torno das sagradas escrituras deve ganhar um novo impulso no tempo atual, conferindo um maior destaque ao Espírito que atua nas outras escrituras das nações. Com esse novo elã, é a própria reflexão teológica cristã que ganha em conteúdo e perspectiva, facultando uma maior abertura para as outras escrituras, bem como ao reconhecimento da experiência espiritual dos profetas e sábios das nações. As diversas tradições religiosas, com suas escrituras sagradas, estão inseridas na “economia universal do Espírito, que leva os povos à realização escatológica da irmandade em Deus mediante caminhos diversos”[17].

Há uma troca de dons e um mútuo enriquecimento entre as escrituras bíblicas e as escrituras das nações. Há traços novidadeiros e singulares presentes nas escrituras das outras tradições religiosas que não se encontram presentes nas escrituras cristãs, e que revelam aspectos preciosos e inéditos do mistério divino. Vale sublinhar o precioso sentido da transcendência divina vigente no Corão, o respeito e preservação do mistério do Real nos textos budistas e a presença imanente de Deus no mundo, na criação e no coração humano traduzida nos livros sagrados do hinduísmo[18].

2. As religiões proféticas em situação hermenêutica

Seguindo a linha tradicional da história comparada das religiões, com base na reflexão de autores como Friedrich Heiler e R.C.Zaehner, pode-se fazer uma distinção entre as religiões místicas e as religiões proféticas. Enquanto as religiões místicas têm sua origem na Índia, no período tardovédico (em torno dos anos 1700 a.C.), as religiões proféticas nascem na área cultural semítica, por volta do ano 1200 a.C. Pode-se admitir a distinção adotada, entre religiões proféticas e místicas, desde que operada com cautela. Ela tem o mérito de sublinhar o fundamento comum das três religiões monoteístas de herança semítica e abraâmica, situadas como religiões proféticas e do livro, distinguindo-as das tradições orientais, que acentuam mais a dimensão da interioridade, da sabedoria e da gnose. Esta distinção, porém, não autoriza a concluir em favor de uma separação rígida que excluiria qualquer significado profético nas religiões orientais ou dimensão mística nas religiões proféticas[19].

No que tange às religiões monoteísticas ou proféticas há uma origem comum na fé de Abraão e também uma “misteriosa complementaridade”, como mostrou com acerto Louis Massignon. É o mesmo Deus que nelas vem cultuado, mas “segundo uma inteligência diferente de sua unidade”[20]. Todas as três religiões enfatizam a unicidade de Deus. Isso acontece na shema de Israel, onde se diz: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4). Essa mensagem vem retomada no Segundo Testamento, quando Jesus sublinha o significado do primeiro de todos os mandamentos: “O primeiro é este: `Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é um só. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo teu entendimento e com toda a sua força!`” (Mc 12,29-30). Há também sintonia com esta perspectiva no livro do Corão: “O nosso Deus e o vosso Deus é um só” (Corão 29,46). No clássico discurso de João Paulo II, aos jovens muçulmanos em Casablanca (Marrocos), em agosto de 1985, ele sublinha a crença comum em Deus que irmana cristãos e muçulmanos: “É nele que nós cremos, vós muçulmanos e nós católicos”[21].

As três tradições religiosas proféticas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, são situadas como “religiões de Escritura”. São três casos de religiões onde o texto fixado tem um lugar singular, enquanto canal de acesso à Palavra originária. O processo de formação do canon nessas três tradições religiosas proféticas veio firmado num período de longa duração. Enquanto os “escritos da Bíblia hebraica formaram-se num período de cerca mil anos, e os do Novo Testamento em menos de cem, o Corão formou-se em vinte e dois anos. O processo de formação do canon, para fixar a precisa consistência da escritura reconhecida como sagrada, foi respectivamente mais breve”[22].

Em perspectiva antropológica e histórica, é correto designar tais tradições religiosas como “sociedades do Livro”, em razão de estarem envolvidas numa similar “situação hermenêutica” onde os textos sagrados servem de referencial para o sistema de crenças, legislação e conduta das respectivas comunidades de fé[23]. No caso do cristianismo e islã operam “três elementos fundamentais: um acontecimento inaugurador, um texto original e uma comunidade interpretativa com suas instâncias próprias de regulação”[24]. A facticidade do acontecimento inaugural vem recoberta por camadas diferenciadas, que envolvem o acontecimento da palavra (tradição oral) e o acontecimento da escritura. Nenhuma dessas camadas consegue reproduzir fielmente o acontecimento original, que sempre escapa da ocular do intérprete. Daí se falar em “situação hermenêutica”. Não há como escapar ao “risco da interpretação” que coloca o intérprete sempre diante de uma “tradição viva” que se reatualiza permanentemente. A dinâmica da hermenêutica pressupõe algo que está sempre “escondido” e que provoca a essencial tarefa de decifrar o “segredo” no signo visível.

É esse “estatuto hermenêutico” que as correntes fundamentalistas ou integristas atuantes nas religiões proféticas buscam negar ou apagar, reforçando posições analíticas que identificam nas religiões monoteístas uma maior densidade de intolerância. Não se nega o risco presente nas “sociedades do Livro” de uma perspectiva de fechamento dogmático, onde se acredita rigorosamente que no texto sagrado da própria tradição se dá a reprodução fiel e exclusiva da Palavra eterna de Deus. Como sinalizou Claude Geffré,

“durante séculos tanto cristãos como muçulmanos dogmatizaram e legislaram, ou seja, sacralizaram apressadamente os ensinamentos contingentes em nome de uma concepção de Revelação entendida como Verdade absoluta, única e imutável, livrando-se de toda historicidade. Assiste-se no interior de cada tradição a elaboração e sacralização de construções teológicas e jurídicas que tornaram-se sistemas de exclusão recíproca”[25].

Quando se fala em hermenêutica pressupõe-se uma “interpretação infinita”. Na tradição judaica o toque da interpretação, ou a “vocação hermenêutica” está sempre presente, como pode ser visualizado na dinâmica que envolve o Talmude. Ele traduz “o espaço da interpretação judaica da Bíblia”. É a expressão do Deus vivo através das “palavras de uns e de outros”. Ele possibilita uma “leitura explosiva”, na medida em que desconstrói permanentemente toda imagem estabelecida de Deus, preservando o enigma de sua realidade misteriosa e infinita[26]. No âmbito do cristianismo, a interpretação é um dado congênito, já que Jesus mesmo não deixou palavra escrita, e os evangelhos e outros escritos do Segundo Testamento são interpretações desse evento essencial para a comunidade cristã. Não se suprime em momento algum o “regime do espírito” que rege a dinâmica interpretativa. Para utilizar uma rica expressão de Paul Ricoeur, o “espaço da experiência” è sempre animado pelo “horizonte da espera”, cada vez renovado. Há ainda que acrescentar, como lembra Geffré, que a Escritura não é no cristianismo o único meio termo entre Deus e o ser humano: “segundo a visão cristã, Deus não se torna presente aos homens somente pela proclamaçao de uma Palavra (Logos), mas por uma manifestação, uma irrupção do invisível no visível”[27]. Dá-se, no cristianismo, um acento importante à história, enquanto espaço de interpelação permanente de Jesus ressuscitado, mediante a ação do Espírito. No caso do islamismo, também permanece aberto o regime da interpretação, apesar de resistências localizadas do pensamento islâmico oficial com respeito à idéia de “tradição interpretativa”. Estudiosos recentes do islamismo buscam salvaguardar certa “distância” entre a Palavra de Deus e sua objetivação na escritura sagrada. Mesmo reconhecendo a força de inspiração do livro do Corão, enquando livro descido do céu e calado no coração do profeta (Corão 12,2 e 2,97), ou seja, “verbo de Deus” (kalimat Allah), permanece o espaço de interpretação quando se admite a realidade de um livro original, incriado e arquetípico - a mãe do livro (umm al-kitâb) -, que está guardado e protegido no céu (Corão 56,77-78)[28]. O estudioso muçulmano, Mohammed Arkoun, busca preservar esta distância ao distinguir o Corão escrito (Mushaf) e o Corão recitado, que seria a emanação direta do Livro arquetípico[29].

A revelação, como bem expressou Geffré, não é somente uma palavra que vem de Deus e se expressa em palavras humanas, mas “uma história interpretada pelos profetas que traduzem o sentido dessa história sob o ponto de vista de Deus”[30]. Na realidade, a Palavra mesma de Deus é totalmente inacessível. As Escrituras buscam, em palavras humanas, e na situação contingencial do tempo, expressar essa Palavra. Uma adequação plena entre Palavra e Escritura nunca ocorre. Há sempre uma “tensão necessária” entre a Palavra de Deus e o Livro sagrado, quer ele seja escrito em sânscrito, hebraico, grego ou árabe. Esta inadequação entre o “Referente inacessível da Palavra de Deus” e sua objetivação escritural, vem revelar o “capital” de Mistério que permanece resguardado, como dom gratuito de Deus. Fala-se em “reserva escatológica” de Deus sobre as religiões e a história, mas também sobre as Escrituras sagradas. A fonte mesma da Revelação de Deus vem preservada por um “silêncio”, que é o dom do Mistério indizível de Deus.

Conclusão

Um dos desafios que hoje se apresentam para a teologia cristã do pluralismo religioso é o de avançar corajosamente em direção a uma teologia aberta das sagradas escrituras, reconhecendo o valor e a dignidade das outras escrituras, que entram em colaboração com as escrituras bíblicas. E, mais ainda, saber reconhecer com ousadia o seu caráter novidadeiro no desvelamento de aspectos do mistério divino. Os teólogos Claude Geffré e Jacques Dupuis foram pioneiros nessa reflexão, ao buscarem ampliar a compreensão do “envolvimento pessoal de Deus com a humanidade” e sua presença viva nas escrituras das diversas tradições religiosas. Para além de uma “teologia do acabamento”, souberam valorizar nos outros livros sagrados o toque da “Palavra de Deus”, rompendo com a visão unilateral que reconhecia nesses livros apenas conhecimento “natural” de Deus ou “marcos de espera” para sua realização nas escrituras da tradição judaico-cristã. Como mostrou com acerto Jacques Dupuis, a própria liturgia cristã deveria poder experienciar o exercício de uma complementaridade, acolhendo na Liturgia da palavra, as palavras de Deus presentes nas outras tradições religiosas. Isso poderia revelar, surpreendentemente, a “espantosa convergência” que vincula os livros sagrados em suas diferenças[31]. Sublinha ainda que “por mais que isso possa parecer paradoxal, um contato prolongado com as escrituras não-bíblicas pode ajudar os cristãos – se praticado dentro da fé – a descobrir com maior profundidade alguns aspectos do mistério divino que eles contemplam como revelado a eles em Jesus Cristo”[32]. Trata-se de uma teologia cristã do pluralismo religioso que aponta para uma “teologia interreligiosa”, de forma a enriquecer a singular perceção do mistério da Palavra de Deus no exercício salutar das próprias diferenças.

Indicações bibliográficas

AMALADOSS, Michael. Rinnovare tutte le cose. Dialogo, pluralismo ed evangelizzazione in Asia. Roma: Arkeios, 1993,

DUPUIS, Jacques. Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso. São Paulo: Paulinas, 1999.

DUPUIS, Jacques. O cristianismo e as religiões. São Paulo: Loyola, 2004.

GEFFRÉ, Claude. De Babel à Pentecôte. Essais de théologie interreligieuse. Paris: Cerf, 2006.

GEFFRÉ, Claude. Le Coran, une parole de dieu différente? Lumière et Vie, n. 163, p. 21-32, 1983.

GEFFRÉ, Claude. Révélation et révélations. In: LENOIR, F & MASQUELIER, Y.T. (Eds) Encyclopédie des religions II. Paris: Bayard, 1997, p. 1415-1424.

(Publicado no livro: Fernando Altemeyer Junior & Vera Ivanise Bombonatto (Orgs). Teologia e Comunicação. São Paulo: Paulinas, 2011, pp. 76-87)



[1] Faustino Teixeira é teólogo e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora. É também pesquisador do CNPQ e consultor do ISER-Assessoria (RJ). As áreas de interesse em suas pesquisa e publicações relacionam-se aos temas de teologia das religiões, diálogo inter-religioso e mística comparada das religiões.

[2] Michael AMALADOSS. Rinnovare tutte le cose. Roma: Arkeios, 1993, p. 131.

[3] Karl RAHNER. Curso fundamental da fé. São Paulo: Paulinas, 1989, p. 164.

[4] Ibidem, p. 163.

[5] Edward SCHILLEBEECKX. História humana revelação de Deus. São Paulo: Paulus, 1994, p. 31.

[6] Roger HAIGHT. Jesus, símbolo de Deus. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 477.

[7] Claude GEFFRÉ. Révélation et révélations. In: LENOIR, F & MASQUELIER, Y.T. (Eds) Encyclopédie des religions II. Paris: Bayard, 1997, p. 1415.

[8] Paul TILLICH. Teologia sistemática. 5 ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2005, p. 123.

[9] Jacques DUPUIS. O cristianismo e as religiões. São Paulo: Loyola, 2004, p. 170.

[10] Raimon PANIKKAR. Iniziazione ai Veda. Milano: Servitium, 2003, p. 11.

[11] Kajiyaa YÛICHI. O Prajñâpâramitâ e o surgimento da tradição Mahâyâna. In: Takeushi YOSHINORI (Org.) A espiritualidade budista. São Paulo: Pespectiva, 2006, p. 153-159.

[12] Ver a respeito: Masao ABE. Buddhismo. In: Arvind SHARMA (Ed.) Religioni a confronto. Vicenza: Néri Pozza, 1996, p. 131-139.

[13] Ibidem, p. 101.

[14] Jacques DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso. São Paulo: Paulinas, 1999, p. 348.

[15] Jacques DUPUIS. O cristianismo e as religiões, p. 168.

[16] COMISSÃO Teológica Internacional. O cristianismo e as religiões. São Paulo: Loyola, 1997, n. 92 (p. 48).

[17] Seminário de Bangalore (1974). Apud Michael AMALADOSS. Rinnovare tutte le cose, p. 58.

[18] Jaques DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso, p. 350; Michael AMALADOSS. Rinnovare tutte le cose, p. 70; Edward Schillebeeck. História humana revelação de Deus, p. 215-216.

[19] Jacques DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso, p. 23. Ver ainda: Hans KUNG & J. VAN ESS & H.VON STIETENCRON & H. BECHERT. Cristianesimo e religioni universali. Milano: Arnaldo Mondadori, 1984, p. 210-214.

[20] Claude GEFFRÉ. La portée théologique du dialogue islamo-chrétien. Islamochristiana, n. 18, p. 16, 1992.

[21] JOÃO PAULO II. Ai giovani musulmani del marocco. In: PONTIFICIO Consiglio per il Dialogo Interreligioso. Il dialogo interreligioso nel magistero pontifício. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1994, p. 345.

[22] Hans KUNG. Islam. Passato, presente e futuro. Milano: Rizzoli, 2005, p. 88.

[23] Claude GEFFRÉ. Révélation et révélations, p. 1420

[24] Claude GEFFRÉ. Le Coran, une parole de dieu différent? Lumière et Vie, n. 163, 1983, p. 22.

[25] Claude GEFFRÉ. La raison islamique selon Mohammed Arkoun. In: Joseph DORÉ (Ed.) christianisme, judaïsme et islam. Fidélité et ouverture. Paris: Cerf, 1999, p. 166.

[26] Marc-Alain OUAKNIN. O Deus dos judeus. In: Jean BOTTÉRO & Marc-Allain QUAKNIN & Joseph MOINGT. A mais bela história de Deus. Rio de Janeiro: Difel, 2001, p. 64.

[27] Claude GEFFRÉ. Révélation et révélations, p. 1418.

[28] Claude GEFFRÉ. Le Coran, une parole de Dieu différent?, p. 23; Hans KUNG. Islam, p. 86

[29] Mohammed ARKOUN. Ouvertures sur l´islam. Paris: Jacques Grancher, 1989, p. 61s; Claude GEFFRÉ. Révélation et révélations, p. 1419.

[30] Claude GEFFRÉ. Profession théologien. Paris: Albin Michel, 1999, p. 124 (Entretiens avec Gwendoline Jarczyk).

[31] Jacques DUPUIS. O cristianismo e as religiões, p. 180 e também, p. 295-314 (a respeito da oração interreligiosa).

[32] Jacques DUPUIS. O cristianismo e as religiões, p. 180.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Felix Pastor, orientador e amigo (1933-2011)

Felix Pastor, orientador e amigo (1933-2011)

Faustino Teixeira

Nós, teólogos brasileiros, perdemos no dia 11 de julho um grande mestre e amigo. Deixou-nos o padre Felix Pastor, que tinha recém chegado de Roma para a sua temporada no Rio de Janeiro, onde também lecionava. Não há como lembrar de sua presença senão com alegria e saudade e hoje, em especial, muita saudade. Foram inúmeros teólogos brasileiros e latino-americanos que passamos por sua competente e atenta orientação. Impressionante a sua capacidade de doação e a argúcia de seu método. Foi alguém que abriu as portas da Pontifícia Universidade Gregoriana para muitos dos teólogos pesquisadores que se encontram hoje atuando em Universidades e Institutos Teológicos no Brasil e tantas outras localidades. Como bem acentuou o cardeal Aloísio Lorscheider, no prefácio de obra em sua homenagem, Pastor “é um benemérito da Igreja universal e, de modo especial, da Igreja que está no Brasil. A Igreja do Brasil deve muito a este sacerdote zeloso e dedicado. Várias gerações passaram por suas mãos” (O mistério e a história. São Paulo: Loyola, 2003). Tive em particular essa alegria de poder conviver de perto com esse grande mestre. Um contato que começou quando era estudante do mestrado em teologia na PUC-RJ, numa época de grande florescimento da teologia, marcada pela presença de muitos jovens estudantes leigos. Tinha nascido no período a idéia de trazer Felix Pastor para ajudar no ensino e na orientação dos estudantes de teologia. Sua vinda foi celebrada por todos, e assim nasceu uma parceria maravilhosa. A cada ano, Pastor dedicava um semestre ao ensino na Gregoriana e o outro na PUC-RJ. Essa presença no Brasil foi geradora de muitas vocações teológicas. Muitos de nós, seus alunos na PUC, fomos recebidos por ele com afeto e alegria na Gregoriana, para os estudos doutorais. E isso também foi favorecido pela grande sensibilidade de Pastor aos temas candentes da teologia latino-americana, como a teologia da libertação, as comunidades eclesiais de base e as pastorais sociais. Estávamos diante de um teólogo apaixonado pelo tema do Reino e da História. Num de seus livros, dedicados a esta questão, dizia com segurança: “Descobrindo a unidade teológica da história dos homens, criados a participar da salvação escatológica, a Teologia da Libertação descobre a unidade profunda do temporal e do espiritual, do escatológico e do histórico, do individual e do comunitário, do religioso e do político”. A teologia para ele estava diante de uma tarefa nova e fundamental: armar sua tenda na história dos humanos, sem perder jamais, a sedução do Mistério. A salvação deixa de ser uma questão extra-terrena e passa a ocupar o cenário das lutas do dia-a-dia: “A salvação cristã inclui a realidade do homem novo e da nova terra, em que habita a justiça. Postular a sua realização e lutar pelo seu advento não é uma usurpação prometeica, mas uma exigência da ética cristã”. Esse foi o aprendizado que dele recebemos, e que foi decisivo para as nossas trajetórias.

Pastor foi também um grande teólogo, possuidor de invejável cultura teológica, mas que não ficava restrita a esse campo do saber. Impressionava sua abertura ao universo da literatura, do cinema e da arte em geral. Sua paixão teológica voltava-se, de modo particular, para dois grandes clássicos da teologia: Agostinho e Paul Tillich. A eles dedicou inúmeros cursos, conferências e muitos artigos, publicados em periódicos reconhecidos internacionalmente. Admirava igualmente Karl Rahner, e com grande maestria nos ajudava a desvendar as difíceis e sedutoras entranhas desse grande teólogo alemão. Não me esqueço de suas brilhantes e instigantes intervenções no seminário em torno do Curso fundamental da fé, de Karl Rahner, dado na Gregoriana. Foram aulas que abriram horizontes inesperados para reflexões futuras.

Nascido na Galícia, em 25 de fevereiro de 1933, entrou para a Companhia de Jesus em novembro de 1950. Os estudos de filosofia foram realizados na Universidade de Comillas, a partir de 1954, depois de formação em Letras Clássicas, Humanidades e Retórica no Colégio de Salamanca. Veio em seguida, em 1957, a destinação missionária para o Brasil, instalando-se na Província Jesuítica Goiano-Mineira, na época do padre João Bosco Penido Burnier. No noviciado de Itaici, em São Paulo, aperfeiçoou seus estudos de língua portuguesa, sendo em seguida encaminhado ao magistério no Colégio Loyola de Belo Horizonte. Os estudos de teologia iniciaram-se em 1960, no Colégio Máximo Cristo Rei, em São Leopoldo (RS), tendo prosseguimento na Alemanha, na Faculdade de Teologia da Hochschule Sankt-Georgen (Frankfurt/Main), onde concluiu seu bacharelado, em 1962. Sua ordenação presbiteral aconteceu em 27 de agosto de 1963, na catedral de Frankfurt. Motivado pelo então provincial, Marcelo de Azevedo, foi cursar o doutorado em teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma), na época do evento conciliar. A conclusão do doutorado ocorreu em junho de 1967, com tese orientada por Donatien Mollat (SJ), versando sobre tema eclesiológico em E. Schweizer. Sua tese foi publicada em 1968 na prestigiosa coleção Analecta Gregoriana (vol. 168 – La eclesiología Juanea según E.Schweizer). A partir de outubro de 1967 ficou responsável pela direção espiritual do Colégio Pio Brasileiro, em Roma. E também a partir desse ano iniciou suas atividades acadêmicas na Gregoriana.

Dentre suas inúmeras publicações, destacam-se os livros: Existência e Evangelho (1973), O reino e a história (1982), Semântica do Mistério (1982) e a Lógica do inefável (1986 e 1989). No campo do ensino, dedicou-se em particular aos temas relacionados à Eclesiologia, ao Tratado de Deus e outras questões teológicas e ecumênicas. Merece destaque sua atenção à problemática teológica latino-americana, como bem destacado por Maria Clara L. Bingemer e Paulo Fernando Carneiro de Andrade: “Sua ligação com a América Latina e com a teologia produzida deste lado do mundo, juntamente com sua sensibilidade social e seu profundo sentido de justiça, fizeram igualmente do Pe. Pastor um exímio especialista e agudo crítico da teologia latino-americana, tendo ministrado cursos, publicado vários trabalhos e orientado diversas teses sobre o tema da relação entre Teologia e Práxis, e sobre as tendências mais atuais da teologia do continente”. Pude também encontrar nele um importante apoio em momento delicado de meu retorno ao Brasil, quando titubeava o processo de autorização canônica para o meu retorno à PUC-RJ. Ele veio prontamente em minha defesa, junto com Juan Alfaro, desanuviando os sombrios horizontes. Essa é uma marca importante na personalidade de Felix Pastor: o profundo respeito pela reflexão de seus orientandos. Mesmo que não partilhasse inteiramente das posições teológicas de seus alunos, incentivava a reflexão mantendo sempre acesa a imprescindível chama do direito à liberdade de expressão. É um dos exemplos mais bonitos que pude verificar nessa trajetória de caminhada comum e que busco manter vivo na experiência com meus alunos.

O toque decisivo de sua atuação estava no dom da orientação acadêmica. É difícil encontrar um orientador com tamanha capacidade de desbravar caminhos e horizontes. As dificuldades trazidas por seus orientandos ganhavam com ele sempre uma solução precisa. Os alunos entravam em seu gabinete preocupados com o destino de seu trabalho e saíam sorridentes com as soluções encaminhadas. Era sobretudo um grande pedagogo, com impressionante experiência nesse campo de apoio, presença e orientação dos alunos. E essa prática vinha amparada por muitos anos de experiência com a análise psicanalítica. Seus cursos de metodologia ficam guardados na memória. Trouxe essa experiência em aulas memoráveis, sobretudo na PUC-RJ, mas também em outros centros de estudo como a Faculdades dos Jesuítas (FAJE) e a Universidade Federal de Juiz de Fora, onde também esteve presente algumas vezes para falar de sua experiência de orientação acadêmica.

É difícil precisar o número exato de seus orientandos no mestrado e no doutorado. Foram, certamente, mais de 350 estudantes que passaram por essa rica experiência. No âmbito do doutorado, foram mais de 90 teses por ele orientadas, das quais cerca de 55 de alunos brasileiros. Entre alguns dos doutores que passaram por sua orientação: Álvaro Barreiro e Alfonso Garcia Rúbio (1972-1973), Mário de França Miranda (1973-1974), Carlos Palacio (1975-1976), Juan A.R. de Gopegui (1976-1977), Ênio José da Costa Brito (1978-1979), Valdeli Carvalho da Costa (1980-1981), Faustino Teixeira e Antônio Jose de Almeida (1985-1986), Alexander Otten e Vitor G. Feller (1986-1987), Elias Leone, Maria Clara L. Bingemer e Paulo Fernando Carneiro de Andrade (1988-1989), Afonso Murad (1991-1992), Paulo Sérgio Lopes Gonçalves (1996-1997), Laudelino José Neto (1997-1998), Antônio Reges Brasil (2000-2001), Marcial Maçaneiro e Paulo César Barros (2000-2001) e muitos outros.

O bonito é perceber que ele deixou entre nós um exemplo vivo de paixão e testemunho, de maravilhosa abertura ao Mistério sempre maior. Dele guardamos o carinho e o largo sorriso, de um orientador, mas sobretudo um amigo sempre presente. Eu estava particularmente feliz ao poder reencontrar-me com ele num simpósio internacional de teologia, previsto para acontecer em setembro de 2011 na PUC-RJ. Não contava os dias para esse encontro. Infelizmente, esse diálogo ficou adiado para mais adiante. Fico com a bela imagem de sua presença amiga, regada pela alegria de encontros maravilhosos, tanto no Brasil como na Itália. Seguindo uma pista de Walter Rauschenbusch, Pastor deixa-nos como herança “a graça de ter um coração valente, para que possamos caminhar por esta estrada com a cabeça levantada e com um sorriso no rosto”.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Taisen Deshimaru e o ritmo do universo

Taisen Deshimaru e o ritmo do universo

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

“Três vezes vi

a lua cheia

num céu sem nuvens”

Basho

É significativa a presença do zen budismo no ocidente, e em particular na América do Norte e na Europa. Isso ocorreu por influxo de mestres e pensadores como Eugen Herrigel (1885-1955) Daisetz Teitaro Suzuki (1870-1966), e Taisen Deshimaru (1914-1982), dentre outros. Com Herrigel, a filosofia zen budista ganha terreno na Alemanha dos anos 1920, sendo sua obra A arte cavalheiresca do arqueiro zen (1948), um importante ponto de referência. Em território norte americano, a influência decisiva vai ser de Suzuki, sendo suas principais obras os Ensaios sobre o zen budismo (em 3 volumes: 1927, 1933 e 1934) e a Introdução ao zen budismo (1934). E o influxo do zen budismo na França foi favorecido pela marcante presença do mestre Taisen Deshimaru, que chegou na região em 1967. É sobre ele que vamos dedicar nossa reflexão nesse breve ensaio, aproveitando o ensejo da publicação na França de uma obra que retrata pela primeira vez, a vinda e atuação de Deshimaru na Europa: Dominique Blain. Sensei Taisen Deshimaru, maître zen. Paris: Albin Michel, 2011. Essa obra serviu de base para a reflexão que se segue.

A expressão japonesa sensei designa, em sentido amplo, o mestre, o mentor e o educador. Assim veio reconhecido Taisen Deshimaru, por sua vida, exemplo e trabalho. Entre seus pares da tradição sôtô foi também identificado com o titulo de rôshi (mestre confirmado). Entre suas influência maiores podem ser destacadas as presenças de Dôgen (1200-1253), o fundador do Sôtô Zen no Japão e do mestre Kôdô Sawaki (1880-1965), outro importante guia zen japonês do século XX. Foi por esse mestre que Deshimaru foi ordenado monge, em 1965, e encaminhado para o ocidente com a intenção de reflorir o budismo. E assim ocorreu, tendo ele chegado à França em julho de 1967, aos cinqüenta e três anos de idade, estando ainda a Europa na ocasião bem virgem do espírito espiritual oriental.

O mestre Dôgên, que preferia utilizar a expressão dharma (o caminho, a via) em lugar de zen, dizia que o crescimento espiritual não dependia da elevação de templos ou da multiplicação das imagens de Buda. Não era esse o caminho ideal de expansão da espiritualidade e fator de iluminação. A seu ver, bastava uma choupana e a sombra de uma árvore para a prática do zazen (a meditação sentada). Em seu clássico Shôbôgenzô, Dôgên sinalizava que o melhor lugar para estudar o caminho era nas montanhas, com a prática do zazen. Não há para ele melhor via em direção à “pura subjetividade” do que a prática da meditação sentada: “deixar cair o corpo e a mente” (shin jin datsu raku). É o melhor recurso para superar a dicotomia entre o sujeito e o objeto. É também o canal de acesso para a “presença mental”, onde o sujeito deixa-se iluminar pelas coisas e cria a possibilidade de alcançar a verdade do Buda. Na esteira de Dôgên, Sawaki consagrou igualmente toda a sua vida à prática do zazen.

Em dedicação profunda a esta prática de desapego e abertura, de mergulho no sûnyatâ, Deshimaru afirmava que “o zen é o zazen”. Nada mais fundamental do que “deixar passar os pensamentos” e buscar o claro enigma da consciência profunda, para além das agitações da superfície. Deshimaru dizia que o universo inteiro está concentrado num grão de trigo e que se o espírito firma-se na pureza é como dar nascimento à primavera. Quando o corpo e a consciência deixam-se penetrar pelo espírito do zazen irradia-se um som que se assemelha ao do vento quando atravessa os ápices dos pinheiros. Mais que seguir os rastros de seus mestres, Deshimaru buscava aquilo que os mestres buscavam. Não há que imitar senão a Via, gostava ele de repetir.

A pista que ensejava seguir era a da profundidade. Numa de suas inúmeras cartas endereçadas a seus discípulos dizia: “Eu creio que vocês deveriam compreender a verdade do budismo. A Índia atual ou o Japão necessitam de uma grande revolução, voltada para a retomada da essência da verdadeira religião. A verdadeira essência do budismo ou da religião não existe mais nos templos ou mosteiros, mas na profundidade de nossos espíritos”. A seu ver, a religião do porvir transcenderia dogmas e teologias, fundando-se, sobretudo, num “senso religioso oriundo da experiência de todas as coisas, naturais e espirituais, em espírito de total unidade”. Em linha de descontinuidade com a tradição da modernidade pós-cartesiana, dizia: “Eu não penso, logo eu sou”. Buscando fidelidade ao seu pensamento, há que deixar-se habitar pelo vasto e ilimitado espaço do Vazio, um Vazio pleno de significado. Há que deixar-se envolver pela “musica rítmica do universo”, como “crianças do Sol e da Terra”. Partilhava com seu amigo, Claude Lévi-Strauss, a idéia de que o homem ocidental cunhou sua perspectiva equivocadamente, entendendo-se mais como um ser pensante do que como um ser vivente, tornando-se, assim, incapaz de harmonizar-se com a natureza.

O caminho proposto por Deshimaru vai na linha de uma espiritualidade interreligiosa, de profunda harmonização. Dizia, com acerto, que uma só flor não faz uma guirlanda e que uma única mão não é capaz de produzir o som. Para que isso ocorra é necessário o exercício de comunhão. Aquilo que visava em sua vida e prática era o caminho em favor da essência de todas as formas de espiritualidade, em sintonia com o espírito zen. Admirava os evangelhos, que abrigavam as atitudes de abertura de Jesus, e também a rica espiritualidades dos mestres sufis. Tudo aquilo que reforçava os caminhos de profundidade espiritual, era por ele acolhido e incentivado. Sua espiritualidade não estava deslocada do tempo, nem do exercício essencial da compaixão. Dizia que aqueles que se sentiam incapazes de amar os outros estavam distantes da compreensão do zen. Sublinhava que “a dimensão última vivida nas profundezas do ser, a dimensão suprema da vida” envolvia a consciência e o amor universal.

Foi irradiadora a presença de Deshimaru na França, sobretudo depois que conseguiu firmar um lugar para realizar o seu sonho de reunir toda a sangha da comunidade européia para a pratica do zazen. Isto aconteceu em Gendronnière, a partir de junho de 1979. A seu redor reuniu um grande círculo de discípulos e amigos, entre os quais pensadores como Karl Jaspers, André Malraux, Jean Paul Sartre e Claude Lévi-Strauss. Também entre seus seguidores, artistas como Maurice Bejart e Arnaud Desjardins. O encontro e a experiência com Deshimaru favoreceu a Bejart a viva consciência da importância essencial da busca interior para a conformação da arte da dança. Dentre seus inúmeros discípulos, o cineasta Arnaud Desjardins, que dedicou a ele um dos belos filmes em torno da tradição zen: “Zen ici et maintenant et partout et toujours”.

Sensei Taisen Deshimaru firmou-se como um verdadeiro embaixador do Sôtô Zen na Europa, e em particular na França. Sua mensagem irradiou-se com sua prática e seu exemplo. Suas inúmeras viagens aos Estados Unidos, Montreal, China, Casablanca, Alemanha, Suíça e Londres serviram para reforçar sua influência num âmbito mais amplo. Um de seus motes singulares, tomados da Sutra do Lótus, indicava que o verdadeiro tesouro está bem próximo da cada um. Não é nos confins da terra que se encontra a paz derradeira, mas ela está aqui bem próxima, ao alcance da mão e do olhar. Basta abrir os olhos e ver: “simplesmente ver o mundo tal como é”. É exercitar-se no precioso dom de si. E sem perder jamais o otimismo, mesmo quando os horizontes se encurtam: “Quando uma porta se fecha, uma outra se abre”.

Deixou como legado singulares trabalhos em torno de sua experiência com o zen budismo, entre os quais destacam-se: L´autre rive. Textes fondamentaux du zen; Zen et vie quotidienne; Le bol et le bâton; Questions à un maître zen; La pratique du zen. Faleceu em abril de 1982 em razão de um câncer no pâncreas. Como ocorre com os grandes mestres, recebeu após sua morte o nome honorífico de Keisan, ou seja, aquele que desvendou a montanha.

(Publicado no Portal da Amai-vos em 06/07/2011)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Marco Lucchesi: Itinerários

Marco Lucchesi – Itinerários

 

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

 

Marco Lucchesi acaba de ser eleito para a cadeira de número 15 da Academia Brasileira de Letras (03/03/2011), que tem como patrono Gonçalves Dias. A cadeira vinha antes ocupada pelo padre jesuíta, Fernando Bastos de Ávila, falecido em 06 de novembro de 2010. A posse está marcada para o dia 20 de maio de 2011, na ABL. Marco Lucchesi nasceu no Rio de Janeiro, em 09 de dezembro de 1963. Como  identificou sua amiga Nise da Silveira, o símbolo do sagitário expressa bem a personalidade desse carioca especial: “O Centauro, os pés encravados na Terra, com mãos firmes busca orientar a flecha em direção às estrelas”. Alguém animado pela “nostalgia do mais”, com o coração fincado na terra e o olhar habitado pelo horizonte maior. Um apaixonado pelas línguas, da terra e do céu. Filho único, nasceu sob o embalo bilíngue toscano-carioca. Herdou de sua mãe, Elena Dati, a paixão pelo piano e pelo canto, e nessa ternura filial foi tecendo os traços fundamentais de seu cotidiano. Relata em entrevista que a música foi fundamental para ele, e com ela “a poesia das coisas”.

 

 Em seguida veio o interesse pela literatura e a filosofia, desdobrando-se no amor à poesia. Assinala que sua primeira tradução séria foi a do “Cântico Espiritual”, de João da Cruz, realizada aos dezesseis anos: “Deixei o piano visível (ou quase) pelo piano invisível da poesia...”. E Marco se revelará um tradutor de primeira grandeza. Vale lembrar a impressionante tradução de Baudolino, de Umberto Eco (Record, 2001), inspirada pelas paisagens de Itacoatiara, da Itália e do Irã. Revela que essa tradução foi pontuada pela leveza, mesmo assim, foram cerca de doze versões do primeiro capítulo. Identifica-se como um “tradutor dostoievskiano”, cujo trabalho não tem nada de solar, mas vem acompanhado por muito sofrimento e tortura. Busca sempre “a equivalência impossível. A palavra perdida”. São ilhas irredutíveis. A tradução é para ele “um processo físico tremendo”, fervido em insônias inesgotáveis. Daí ter decidido mudar de perspectiva, e diz: “Resolvi acabar com o tradutor que me habita, antes que ele acabasse comigo”. Mesmo assim, num trabalho realizado em comum, brindou-nos novamente com o seu dom, no livro “O canto da unidade: em torno da poética de Rûmî” (Fissus, 2007 – Prêmio Mario Barata, UBE 2008), com lindas traduções dos Rubayats de Rûmî. Marco traduziu ainda outros poemas de Rûmî (A sombra do amado: poemas de Rûmî, Rio de Janeiro: Fisus, 2000 – Prêmio Jabuti 2001). E também Giambatista Vico (Record, 2000), Primo Levi (Companhia das Letras,1997), Georg Trakl (Topbooks,1996 – Prêmio Paulo Rónai, 1996), Rilke ( Topbooks,1996) e Khliébnikov (Cromos,1993).

 

Como tão bem mostrou o saudoso Antônio Carlos Villaça, Marco Lucchesi é um poeta da sensibilidade. No centro da sua vida está a literatura. É mais do que um erudito tradicional, pois vem temperado pela poesia: “A sua intimidade com a poesia, com a melhor poesia, o salva de si mesmo e do eruditismo”. Os poemas de Lucchesi são magníficos, temperados com a seiva e o vigor da vida:

 

“Um laço misterioso en

laça e desenlaça

umas às outras as palavras

 

atiça e des

atina

o silêncio

das florestas

 

move e dis

persa os pássaros in

visíveis que regem

o sentido das coisas”

 

 As imagens que captam o movimento lírico de sua imaginação são preciosas: as “praias esquecidas”, os “oceanos maravilhas”, a “metafísica das alturas”, os minaretes “ávidos de altura e infinito”, o “mar da divindade”, o “planetário de Deus” e o azul, o profundo e inacabado azul de Isfahan... A emoção nos avizinha quando nos deparamos com a beleza de seus Poemas Reunidos (Record, 2000), bem como de outros poemas recolhidos nos livros  Sphera (Record, 2003) e Meridiano celeste & bestiário (Record, 2006). Nessa última obra tomamos contato com sua companheira, de olhar profundo, Constança, inspiradora de poemas, mas sobretudo da vida.

 

Há também o Marco ensaísta e buscador, que desvenda os desertos e as escarpas da alma. Em belos ensaios revela, com o calor de sua intimidade, encontros memoráveis, como os realizados com Nize da Silveira, Adélia Prado, Naguib Mahfuz, Roger Garaudy e tantos outros. Desce também, com dor, pelos “porões da humanidade” e nos possibilita ver o desolador “deserto da loucura”, dos “rostos desfigurados” e dos “corpos descobertos”; o silêncio doloroso e triste de Canudos: “o mais triste silêncio de minha vida”; e o “mundo esquálido e sombrio” dos refugiados palestinos de Sabra e Chatila, esse “horizonte sem horizonte. Tristeza difusa e sem lágrimas”. Do coração do poeta rasga-se o grito de raiva e compaixão... “A...............lla..................ah! O gemido é um dos nomes de Deus”. Dentre os livros de ensaios: Saudades do paraíso (Lacerda Editores, 1997), O sorriso do caos (Record, 1997), Os olhos do deserto (Record, 2000), Memória de Ulisses (Civilização Brasileira, 2006) e Ficções de um gabinete ocidental. Ensaios de história e literatura (Civilização Brasileira, 2009). Ultimamente, o Marco poeta e ensaísta mostra também o seu dom para o romance, com a obra O dom do crime. Rio de Janeiro/São Paulo, 2010.

 

Marco Lucchesi guarda um carinho especial pelo diálogo das civilizações, e o encontro das religiões. Talvez seja um dos intelectuais brasileiros mais ativos em favor da salvaguarda do islã verdadeiro e de sua profundidade mística. É portador de um grande Jihâd, o da paz universal. Lança-se com coragem em favor de uma nova perspectiva, de um novo olhar sobre o outro, rompendo com a estreiteza e parcialidade que marca a tradicional mirada ocidental, sobretudo com respeito às culturas do Oriente.

 

Seus livros nos trazem a profundidade dos grandes místicos como Hallaj, Attar e Rûmî. Nos ajuda, com eles, a desvendar as melodias escondidas do Mistério sempre maior. Nada melhor do que estar à sombra do Amado. Como diz Rûmî, numa de suas cartas: “Se não posso compreender que árvore é essa, contudo sei que, depois que deitei meu olhar sobre ela, meu coração e minha alma se tornaram frescos e verdes. Vou me colocar a sua sombra”. Na obra de Lucchesi, como assinala Constança, “as fronteiras são desfeitas: culturas diversas se aproximam, inesperadas, num diapasão musical de novas tessituras”.

 

O deserto tem um lugar particular em sua vida: “O corpo do deserto me fere de modo irreversível. Sou habitado por uma paisagem de pedra e areia, pela qual sigo enamorado, e beijo seus lábios de vento e desabrigo”. O deserto e o islã o fascinam, e com eles a suave e áspera língua árabe, “de lâminas e espadas”, das línguas a mais bela, a que mais se aproxima do céu empíreo e do sorriso de Beatriz. Para Marco, “o árabe coagula e condensa, com a força do ferro e o brilho do cristal, a idéia  que emerge do Sagrado”. O seu deserto “revela oásis inesperados, e deve ter sido a língua escolhida por Deus para falar aos homens. Um Deus infinito e áspero. Físico e Metafísico. Amante da Parte e do Todo...”. Contagia-se também com a beleza da estética do Islã, com seus minaretes que anunciam “impossíveis horizontes”. E também seus buscadores de diálogo, como Massignon e Paolo dall´Oglio.

 

O currículo de Marco impressiona. Formado em história pela UFF, é também mestre e doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ e pós-doutor em filosofia da Renascença na Universidade de Colônia (Alemanha). Leciona atualmente no departamento de letras da UFRJ e é pesquisador do CNPQ. Tem sob sua responsabilidade a edição de duas importantes revistas: Poesia Sempre (Fundação Biblioteca Nacional) e Tempo Brasileiro. Outra marca de sua formação é o fabuloso conhecimento e domínio de línguas estrangeiras. Um erudito, sem dúvida, mas sem perder jamais a ternura e a humildade, dois de seus mais preciosos valores. Aquela linda casa, na Rua dos Cravos, em Itacoatiara (Niterói) guarda um coração generoso e hospitaleiro. Ali bate forte o dom da música e da poesia, que facultam um “cerco de paz” e possibilitam a cidadania da alegria e da esperança.

 

Referências Bibliográficas

 

LUCCHESI, Marco. A paixão do infinito. Niterói: Cromos, 1994.

LUCCHESI, Marco. O sorriso do caos. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 1997.

LUCCHESI, Marco. Saudades do paraíso. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997.

LUCCHESI, Marco. Poemas reunidos. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2000.

LUCCHESI, Marco. Os olhos do deserto. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2000.

LUCCHESI, Marco. A sombra do Amado. Poemas de Rûmî. Rio de Janeiro: Fisus, 2000.

LUCCHESI, Marco. Viagem à Florença. Cartas de Nise da Silveira a Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

LUCCHESI, Marco. Sphera. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2003.

LUCCHESI, Marco. A memória de Ulisses. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

LUCCHESI, Marco. Meridiano celeste & Bestiário. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2006.

LUCCHESI, Marco. Ficções de um gabinete ocidental. Ensaios de história e literatura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

LUCCHESI, Marco (Org). Caminhos do islã. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2002.

LUCCHESI, Marco & TEIXEIRA, Faustino (Orgs). O canto da unidade. Em torno da poética de Rûmî. Rio de Janeiro: Fissus, 2007.

 

Entrevistas:

 

Marco Lucchesi no paiol literário. Rascunho. O jornal de literatura do Brasil. Curitiba, 12 de abril de 2011:

http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=45&lista=0&subsecao=0&ordem=2285&semlimite=todos (acessado em 12/04/2011)

 

Entrevista: Marco Lucchesi:

www.periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/dowload/5686/5186 (acessado em 12/04(2011)

 

Bety ORSINI. Acordes literários. Caderno Ela, p. 4. O Globo, 02 de abril de 2001.


(A ser publicado na Revista Teoliterária: Revista Brasileira de Literaturas e Teologias)

 

 

 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Paulo Dall´Oglio e a espiritualidade no mundo muçulmano

Paolo Dall´Oglio e a espiritualidade no mundo muçulmano

 

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

 

O recente e premiado filme “Homens e deuses”, de Xavier Beauvois, sobre os monges trapistas de Tibhirine, na Argélia, colocou em cena o caminho trilhado por muitos buscadores do diálogo, em particular com o islã. São muitas e ricas as experiências que se encontram em curso no tempo atual, com relatos impressionantes sobre a vocação de hospitalidade cristã no mundo muçulmano. São buscadores que seguem a preciosa trilha de Charles de Foucauld e Louis Massignon. Nesses últimos anos saíram publicadas duas singulares obras sobre o itinerário de Paolo Dall´Oglio, um jesuíta que vem consagrando sua vida ao diálogo fraterno com o islã: Guyonne de Montjou. Mar Moussa. Un monastère, un homme, un désert. Paris: Albin Michel, 2006; Paolo Dall´Oglio. Amoureux de l´islam, croyant en Jésus. Yvry-sur-seine: Les Éditions de l´Atelier, 2009 (com prefácio de Régis Debray) .

 

Paolo Dall´Oglio nasceu em Roma, no ano de 1954. Entrou para os jesuítas em 1975 e teve sua formação em línguas e civilização oriental no Instituto Universitário Oriental de Nápoles, bem como na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, onde finalizou seu doutorado em missiologia, em 1990, publicando sua tese em seguida: Speranza nell´islâm. Interpretazione della prospettiva escatologica di Corano XVIII. Genova: Marietti, 1991. Sua vocação mais profunda não estava, porém, voltada para a vida acadêmica. Um chamado mais forte vinha do deserto, do desafio de vida e comunhão com o mundo muçulmano. Os primeiros sinais dessa vocação nasceram fortuitamente, quando em viagem ao Oriente, em 1982, descobriu num velho guia turístico da Síria a existência de um mosteiro cristão abandonado no meio do deserto. A atração foi imediata, e um novo caminho descortinou-se para o jovem jesuíta. Tratava-se do Mosteiro de São Moisés o Abissínio (Deir Mar Musa el-Habashi). O mosteiro encontrava-se sob os cuidados da eparquia sírio-católica de Homs, Hama e Nebek, mas estava em ruínas. Sob o impulso de Paolo Dall´Oglio, com a ajuda do governo sírio, da Igreja local e de um grupo de voluntários, procedeu-se sua restauração, iniciada em 1984.

 

Ali, naquele ermo incrustado na rocha, às margens do deserto, nasce a comunidade mista al-khalil (“o amigo de Deus”), um título bíblico e corânico aplicado a Abraão. A regra da confederação monástica, aprovada pelo Vaticano em 2006, indica três prioridades básica e um horizonte específico. Dentre as prioridades, a vida contemplativa, o empenho no trabalho manual e a hospitalidade abraâmica. Quanto ao horizonte almejado, a particular consagração ao amor de Jesus Redentor para os muçulmanos e a comunidade (Umma) muçulmana. Em síntese, uma comunidade integralmente voltada para o diálogo interreligioso. A comunidade conta hoje com dez pessoas. Além de Paolo Dall´Oglio, que é o prior, comungam também da experiência: Jacques, Houda, Jihad, Jens, Boutros, Dima, Yussef, Dany e Diane. Há que sublinhar a profunda amizade que liga Paolo a Houda, das primeiras monjas que entrou para a comunidade. Depois de perder o marido de forma violenta num acidente de carro, encontrou a acolhida espiritual em Mar Musa. Paolo fala do misterioso amor que se firmou entre os dois, “grande como o mosteiro e todos os desertos”. Sobre ele falou: “Houda ensinou-me a amar mais profundamente. E eu a ensinei a amar a todos. Aprendemos a nos amar numa casta nupcialidade. Fomos consignados à relação com Deus, que nos convoca continuamente ao outro, como para o próprio espelho”.

 

A comunidade assumiu o rito sírio-católico como forma de melhor se inculturar entre os muçulmanos. Foi igualmente uma forma de reatualizar o monaquismo oriental que o islã conheceu e respeitou desde o século VII. Foram razões dialogais que motivaram essa adesão: tanto a oração como a liturgia siríacas vinham marcadas pelo mesmo ritmo da espiritualidade muçulmana. Adotou-se também o árabe como língua comunitária. Sobre essa decisão argumenta Paolo: “Aqui falamos a língua do Corão; somos uma igreja que tem mais de quinze séculos e falamos a língua sagrada e litúrgica de todo o islã... porque o islã é uma religião que tende integralmente para a Verdade, e é aqui que se encontra com nós cristãos”. Para os muçulmanos, a língua árabe é como a hóstia para os cristãos, é “carne da revelação corânica”, o “ditado sobrenatural” que evidencia e cristaliza o Deus único.

 

Num país de grande maioria muçulmana, com 75% de muçulmanos sunitas e um pouco mais de 10% de muçulmanos xiitas, a presença de uma comunidade cristã aberta ao diálogo ganha um significado precioso. O outro aparece aqui como um “caminho de acesso ao mistério”. O segredo e vitalidade da comunidade de Mar Musa está nessa abertura gratuita, no dom da hospitalidade. Seguindo a trilha de Massignon, Paolo Dall´Oglio busca fazer de Mar Musa uma comunidade de pessoas que se oferecem ao outro. Retoma-se a inspiração da badaliya, que significa “substituição”. É um termo que deriva da expressão árabe abdâl (abdâl é o plural de badal). Os abdâl são como os santos muçulmanos desconhecidos, os bons muçulmanos, marcados por uma espiritualidade do cotidiano. Eles são escolhidos por Deus para “cicatrizar as feridas do mundo mediante o dom de si mesmos, através da paciência, da humildade, do silêncio e da pequenez assumida com amor”.

 

A ousadia dialogal dessa experiência comunitária provocou mal entendidos e desconfiança entre determinados segmentos da comunidade católica, que viam o risco do sincretismo. Coloca-se também a questão da “dupla pertença” defendida pelo prior da comunidade. Ele, porém, justifica:

 

“Vivo a minha relação com o islã como uma espécie de pertença. Mas sejamos claros, a minha fé cristã não vem jamais camuflada ou diminuída por tal pertença; ao contrário, ela quer ser ortodoxa, total e fiel à sua dinâmica específica. Quando digo que pertenço ao islã, quero dizer que do ponto de vista cultural, linguístico e simbólico, sinto-me profundamente em casa no mundo muçulmano”.

 

Paolo assinala que é sua relação pessoal com Jesus de Nazaré e o amor à Igreja que garantem a tranquilidade de sua pertença cristã. E acrescenta que se tal vínculo não existisse já se teria convertido ao islã. Marco Lucchesi, que visitou a comunidade de Mar Musa, e com ela se encantou, descreve a posição de Paolo Dall´Oglio, que é uma das razões que garantem a ousadia dialogal: “Abrimo-nos profundamente à religião muçulmana e à sua civilização, em virtude da tranquilidade de nossa fé em Cristo, e não por uma dúvida a seu respeito” (M.Lucchesi. Os olhos do deserto. São Paulo: Record, 2000, p. 57).

 

Paolo Dall´Oglio defende uma inculturação guiada pela “hermenêutica do amor”. Vê a Igreja como uma comunidade em movimento, sempre operada pela ação inusitada do Espírito, que abre caminhos singulares de seguimento. O caminho dialogal não se deixa perder por meras assimilações recíprocas ou equívocas misturas, mas volta-se para um “horizonte condiviso sobre o qual projetam-se sínteses capazes de pluralismo na comunhão”. Na comunidade de Mar Musa ocorre a partilha de experiências interreligiosas. Mas Paolo não desconhece, por exemplo, a complexidade que envolve a oração interreligiosa. Admite a existência de níveis diversos que regem o culto em comum. Há momentos que se permitem intercessões comuns e a recordação de Deus ( dhikr); mas outros que guardam uma peculiaridade identitária, própria de cada particularidade, como as orações litúrgicas cristãs ou muçulmanas. E também um nível misterioso, operado pelo Espírito, que convoca lábios e corações a uma invocação partilhada.

 

Exemplificando um traço dessa peculiaridade interreligiosa, Paolo Dall´Oglio relata uma situação vivida no diálogo com um amigo sufi. Busca aconselhar-se com o amigo sobre um rapaz muçulmano que acorrera ao mosteiro buscando a conversão cristã. E indaga sobre qual melhor decisão tomar. Em sua resposta, o amigo sufi simplesmente assinala: “O Senhor o enviou, tu deves guiá-lo com sinceridade do coração”. Em seguida, o amigo sufi encaminha-se para as abluções preparatórias para a oração, uma vez que a noite se anunciava, e convida Paolo para fazer o mesmo. Seguindo um caminho inusitado, Paolo fecha os olhos e se volta para o Gólgota, lavando-se com a água que saía do flanco do Senhor. Depois de feitas suas abluções, o amigo sufi convida Paolo para fazer o mesmo e ele responde: “Já o fiz”. Os dois partilham com intensidade suas orações. Ao final, o amigo pergunta a Paolo sobre o local em que fez suas abluções. E ele responde: “Em Jerusalém, nos pés da cruz”. E amigo conclui: “Compreendo, a tua oração é legítima”.

 

O que anima a vida e a prática da comunidade de Mar Musa, e de Paolo Dall´Oglio, em particular, é o respeito ao outro. Não pode haver diálogo fora dessa dinâmica de atenção, acolhida e respeito à alteridade. É verdade que os cristãos buscam a unidade, uma unidade que está sendo a cada momento construída, mas também os muçulmanos vivem em profundidade essa experiência de unidade. Num congresso sobre ecumenismo, ocorrido em Damasco, Paolo assinalou que aqueles que não amam a unidade dos muçulmanos não podem nem compreender nem amar a unidade dos cristãos: “Um cristão que não ama ver os muçulmanos unir-se entre si não pode desejar a unidade na própria religião. A unidade não se divide. Ou se ama a unidade para todos, ou não se ama a unidade”. Para Paolo, esconde-se misteriosamente em toda a diversidade das religiões uma sabedoria de Deus, que acolhe com alegria o sussurro do plural. É alguém que acredita no diálogo em profundidade: “Tenho confiança no fato de que, mediante o diálogo, a Igreja descobrirá a atividade do Espírito nas outras tradições, compreenderá o ato consumado por Deus naquela revelação polêmica que o islã representa na história da humanidade”.

 

Em sua visita à grande mesquita  de Damasco, dos Omíadas, em 2001, o papa João Paulo II veio acompanhado por monges de Mar Musa, entre os quais Paolo Dall´Oglio. Nessa ocasião Paolo dirigiu-lhe as seguintes palavras: “Santo Padre, há dezoito anos, na chiesa del Gesù, em Roma, abençoastes minha vocação ao diálogo. Ofereço-lhe agora o fruto dessa bênção: uma comunidade monástica, consagrada ao diálogo islamo-cristão”. Com o olhar voltado para o grupo, o papa alçou suas mãos e abençoou a todos. Como tão bem sublinhou o poeta Marco Lucchesi, esse mosteiro no deserto, que abriga buscadores tão especiais, é uma luz que se avista de longe e que ilumina o coração. É uma parada obrigatória no curso de nossa peregrinação, “na qual Deus se torna nosso hóspede e nos tornamos hóspedes de Deus”.

 (Publicado no Portal da Amai-vos em 05/05/2011)