terça-feira, 12 de julho de 2011

Felix Pastor, orientador e amigo (1933-2011)

Felix Pastor, orientador e amigo (1933-2011)

Faustino Teixeira

Nós, teólogos brasileiros, perdemos no dia 11 de julho um grande mestre e amigo. Deixou-nos o padre Felix Pastor, que tinha recém chegado de Roma para a sua temporada no Rio de Janeiro, onde também lecionava. Não há como lembrar de sua presença senão com alegria e saudade e hoje, em especial, muita saudade. Foram inúmeros teólogos brasileiros e latino-americanos que passamos por sua competente e atenta orientação. Impressionante a sua capacidade de doação e a argúcia de seu método. Foi alguém que abriu as portas da Pontifícia Universidade Gregoriana para muitos dos teólogos pesquisadores que se encontram hoje atuando em Universidades e Institutos Teológicos no Brasil e tantas outras localidades. Como bem acentuou o cardeal Aloísio Lorscheider, no prefácio de obra em sua homenagem, Pastor “é um benemérito da Igreja universal e, de modo especial, da Igreja que está no Brasil. A Igreja do Brasil deve muito a este sacerdote zeloso e dedicado. Várias gerações passaram por suas mãos” (O mistério e a história. São Paulo: Loyola, 2003). Tive em particular essa alegria de poder conviver de perto com esse grande mestre. Um contato que começou quando era estudante do mestrado em teologia na PUC-RJ, numa época de grande florescimento da teologia, marcada pela presença de muitos jovens estudantes leigos. Tinha nascido no período a idéia de trazer Felix Pastor para ajudar no ensino e na orientação dos estudantes de teologia. Sua vinda foi celebrada por todos, e assim nasceu uma parceria maravilhosa. A cada ano, Pastor dedicava um semestre ao ensino na Gregoriana e o outro na PUC-RJ. Essa presença no Brasil foi geradora de muitas vocações teológicas. Muitos de nós, seus alunos na PUC, fomos recebidos por ele com afeto e alegria na Gregoriana, para os estudos doutorais. E isso também foi favorecido pela grande sensibilidade de Pastor aos temas candentes da teologia latino-americana, como a teologia da libertação, as comunidades eclesiais de base e as pastorais sociais. Estávamos diante de um teólogo apaixonado pelo tema do Reino e da História. Num de seus livros, dedicados a esta questão, dizia com segurança: “Descobrindo a unidade teológica da história dos homens, criados a participar da salvação escatológica, a Teologia da Libertação descobre a unidade profunda do temporal e do espiritual, do escatológico e do histórico, do individual e do comunitário, do religioso e do político”. A teologia para ele estava diante de uma tarefa nova e fundamental: armar sua tenda na história dos humanos, sem perder jamais, a sedução do Mistério. A salvação deixa de ser uma questão extra-terrena e passa a ocupar o cenário das lutas do dia-a-dia: “A salvação cristã inclui a realidade do homem novo e da nova terra, em que habita a justiça. Postular a sua realização e lutar pelo seu advento não é uma usurpação prometeica, mas uma exigência da ética cristã”. Esse foi o aprendizado que dele recebemos, e que foi decisivo para as nossas trajetórias.

Pastor foi também um grande teólogo, possuidor de invejável cultura teológica, mas que não ficava restrita a esse campo do saber. Impressionava sua abertura ao universo da literatura, do cinema e da arte em geral. Sua paixão teológica voltava-se, de modo particular, para dois grandes clássicos da teologia: Agostinho e Paul Tillich. A eles dedicou inúmeros cursos, conferências e muitos artigos, publicados em periódicos reconhecidos internacionalmente. Admirava igualmente Karl Rahner, e com grande maestria nos ajudava a desvendar as difíceis e sedutoras entranhas desse grande teólogo alemão. Não me esqueço de suas brilhantes e instigantes intervenções no seminário em torno do Curso fundamental da fé, de Karl Rahner, dado na Gregoriana. Foram aulas que abriram horizontes inesperados para reflexões futuras.

Nascido na Galícia, em 25 de fevereiro de 1933, entrou para a Companhia de Jesus em novembro de 1950. Os estudos de filosofia foram realizados na Universidade de Comillas, a partir de 1954, depois de formação em Letras Clássicas, Humanidades e Retórica no Colégio de Salamanca. Veio em seguida, em 1957, a destinação missionária para o Brasil, instalando-se na Província Jesuítica Goiano-Mineira, na época do padre João Bosco Penido Burnier. No noviciado de Itaici, em São Paulo, aperfeiçoou seus estudos de língua portuguesa, sendo em seguida encaminhado ao magistério no Colégio Loyola de Belo Horizonte. Os estudos de teologia iniciaram-se em 1960, no Colégio Máximo Cristo Rei, em São Leopoldo (RS), tendo prosseguimento na Alemanha, na Faculdade de Teologia da Hochschule Sankt-Georgen (Frankfurt/Main), onde concluiu seu bacharelado, em 1962. Sua ordenação presbiteral aconteceu em 27 de agosto de 1963, na catedral de Frankfurt. Motivado pelo então provincial, Marcelo de Azevedo, foi cursar o doutorado em teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma), na época do evento conciliar. A conclusão do doutorado ocorreu em junho de 1967, com tese orientada por Donatien Mollat (SJ), versando sobre tema eclesiológico em E. Schweizer. Sua tese foi publicada em 1968 na prestigiosa coleção Analecta Gregoriana (vol. 168 – La eclesiología Juanea según E.Schweizer). A partir de outubro de 1967 ficou responsável pela direção espiritual do Colégio Pio Brasileiro, em Roma. E também a partir desse ano iniciou suas atividades acadêmicas na Gregoriana.

Dentre suas inúmeras publicações, destacam-se os livros: Existência e Evangelho (1973), O reino e a história (1982), Semântica do Mistério (1982) e a Lógica do inefável (1986 e 1989). No campo do ensino, dedicou-se em particular aos temas relacionados à Eclesiologia, ao Tratado de Deus e outras questões teológicas e ecumênicas. Merece destaque sua atenção à problemática teológica latino-americana, como bem destacado por Maria Clara L. Bingemer e Paulo Fernando Carneiro de Andrade: “Sua ligação com a América Latina e com a teologia produzida deste lado do mundo, juntamente com sua sensibilidade social e seu profundo sentido de justiça, fizeram igualmente do Pe. Pastor um exímio especialista e agudo crítico da teologia latino-americana, tendo ministrado cursos, publicado vários trabalhos e orientado diversas teses sobre o tema da relação entre Teologia e Práxis, e sobre as tendências mais atuais da teologia do continente”. Pude também encontrar nele um importante apoio em momento delicado de meu retorno ao Brasil, quando titubeava o processo de autorização canônica para o meu retorno à PUC-RJ. Ele veio prontamente em minha defesa, junto com Juan Alfaro, desanuviando os sombrios horizontes. Essa é uma marca importante na personalidade de Felix Pastor: o profundo respeito pela reflexão de seus orientandos. Mesmo que não partilhasse inteiramente das posições teológicas de seus alunos, incentivava a reflexão mantendo sempre acesa a imprescindível chama do direito à liberdade de expressão. É um dos exemplos mais bonitos que pude verificar nessa trajetória de caminhada comum e que busco manter vivo na experiência com meus alunos.

O toque decisivo de sua atuação estava no dom da orientação acadêmica. É difícil encontrar um orientador com tamanha capacidade de desbravar caminhos e horizontes. As dificuldades trazidas por seus orientandos ganhavam com ele sempre uma solução precisa. Os alunos entravam em seu gabinete preocupados com o destino de seu trabalho e saíam sorridentes com as soluções encaminhadas. Era sobretudo um grande pedagogo, com impressionante experiência nesse campo de apoio, presença e orientação dos alunos. E essa prática vinha amparada por muitos anos de experiência com a análise psicanalítica. Seus cursos de metodologia ficam guardados na memória. Trouxe essa experiência em aulas memoráveis, sobretudo na PUC-RJ, mas também em outros centros de estudo como a Faculdades dos Jesuítas (FAJE) e a Universidade Federal de Juiz de Fora, onde também esteve presente algumas vezes para falar de sua experiência de orientação acadêmica.

É difícil precisar o número exato de seus orientandos no mestrado e no doutorado. Foram, certamente, mais de 350 estudantes que passaram por essa rica experiência. No âmbito do doutorado, foram mais de 90 teses por ele orientadas, das quais cerca de 55 de alunos brasileiros. Entre alguns dos doutores que passaram por sua orientação: Álvaro Barreiro e Alfonso Garcia Rúbio (1972-1973), Mário de França Miranda (1973-1974), Carlos Palacio (1975-1976), Juan A.R. de Gopegui (1976-1977), Ênio José da Costa Brito (1978-1979), Valdeli Carvalho da Costa (1980-1981), Faustino Teixeira e Antônio Jose de Almeida (1985-1986), Alexander Otten e Vitor G. Feller (1986-1987), Elias Leone, Maria Clara L. Bingemer e Paulo Fernando Carneiro de Andrade (1988-1989), Afonso Murad (1991-1992), Paulo Sérgio Lopes Gonçalves (1996-1997), Laudelino José Neto (1997-1998), Antônio Reges Brasil (2000-2001), Marcial Maçaneiro e Paulo César Barros (2000-2001) e muitos outros.

O bonito é perceber que ele deixou entre nós um exemplo vivo de paixão e testemunho, de maravilhosa abertura ao Mistério sempre maior. Dele guardamos o carinho e o largo sorriso, de um orientador, mas sobretudo um amigo sempre presente. Eu estava particularmente feliz ao poder reencontrar-me com ele num simpósio internacional de teologia, previsto para acontecer em setembro de 2011 na PUC-RJ. Não contava os dias para esse encontro. Infelizmente, esse diálogo ficou adiado para mais adiante. Fico com a bela imagem de sua presença amiga, regada pela alegria de encontros maravilhosos, tanto no Brasil como na Itália. Seguindo uma pista de Walter Rauschenbusch, Pastor deixa-nos como herança “a graça de ter um coração valente, para que possamos caminhar por esta estrada com a cabeça levantada e com um sorriso no rosto”.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Taisen Deshimaru e o ritmo do universo

Taisen Deshimaru e o ritmo do universo

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

“Três vezes vi

a lua cheia

num céu sem nuvens”

Basho

É significativa a presença do zen budismo no ocidente, e em particular na América do Norte e na Europa. Isso ocorreu por influxo de mestres e pensadores como Eugen Herrigel (1885-1955) Daisetz Teitaro Suzuki (1870-1966), e Taisen Deshimaru (1914-1982), dentre outros. Com Herrigel, a filosofia zen budista ganha terreno na Alemanha dos anos 1920, sendo sua obra A arte cavalheiresca do arqueiro zen (1948), um importante ponto de referência. Em território norte americano, a influência decisiva vai ser de Suzuki, sendo suas principais obras os Ensaios sobre o zen budismo (em 3 volumes: 1927, 1933 e 1934) e a Introdução ao zen budismo (1934). E o influxo do zen budismo na França foi favorecido pela marcante presença do mestre Taisen Deshimaru, que chegou na região em 1967. É sobre ele que vamos dedicar nossa reflexão nesse breve ensaio, aproveitando o ensejo da publicação na França de uma obra que retrata pela primeira vez, a vinda e atuação de Deshimaru na Europa: Dominique Blain. Sensei Taisen Deshimaru, maître zen. Paris: Albin Michel, 2011. Essa obra serviu de base para a reflexão que se segue.

A expressão japonesa sensei designa, em sentido amplo, o mestre, o mentor e o educador. Assim veio reconhecido Taisen Deshimaru, por sua vida, exemplo e trabalho. Entre seus pares da tradição sôtô foi também identificado com o titulo de rôshi (mestre confirmado). Entre suas influência maiores podem ser destacadas as presenças de Dôgen (1200-1253), o fundador do Sôtô Zen no Japão e do mestre Kôdô Sawaki (1880-1965), outro importante guia zen japonês do século XX. Foi por esse mestre que Deshimaru foi ordenado monge, em 1965, e encaminhado para o ocidente com a intenção de reflorir o budismo. E assim ocorreu, tendo ele chegado à França em julho de 1967, aos cinqüenta e três anos de idade, estando ainda a Europa na ocasião bem virgem do espírito espiritual oriental.

O mestre Dôgên, que preferia utilizar a expressão dharma (o caminho, a via) em lugar de zen, dizia que o crescimento espiritual não dependia da elevação de templos ou da multiplicação das imagens de Buda. Não era esse o caminho ideal de expansão da espiritualidade e fator de iluminação. A seu ver, bastava uma choupana e a sombra de uma árvore para a prática do zazen (a meditação sentada). Em seu clássico Shôbôgenzô, Dôgên sinalizava que o melhor lugar para estudar o caminho era nas montanhas, com a prática do zazen. Não há para ele melhor via em direção à “pura subjetividade” do que a prática da meditação sentada: “deixar cair o corpo e a mente” (shin jin datsu raku). É o melhor recurso para superar a dicotomia entre o sujeito e o objeto. É também o canal de acesso para a “presença mental”, onde o sujeito deixa-se iluminar pelas coisas e cria a possibilidade de alcançar a verdade do Buda. Na esteira de Dôgên, Sawaki consagrou igualmente toda a sua vida à prática do zazen.

Em dedicação profunda a esta prática de desapego e abertura, de mergulho no sûnyatâ, Deshimaru afirmava que “o zen é o zazen”. Nada mais fundamental do que “deixar passar os pensamentos” e buscar o claro enigma da consciência profunda, para além das agitações da superfície. Deshimaru dizia que o universo inteiro está concentrado num grão de trigo e que se o espírito firma-se na pureza é como dar nascimento à primavera. Quando o corpo e a consciência deixam-se penetrar pelo espírito do zazen irradia-se um som que se assemelha ao do vento quando atravessa os ápices dos pinheiros. Mais que seguir os rastros de seus mestres, Deshimaru buscava aquilo que os mestres buscavam. Não há que imitar senão a Via, gostava ele de repetir.

A pista que ensejava seguir era a da profundidade. Numa de suas inúmeras cartas endereçadas a seus discípulos dizia: “Eu creio que vocês deveriam compreender a verdade do budismo. A Índia atual ou o Japão necessitam de uma grande revolução, voltada para a retomada da essência da verdadeira religião. A verdadeira essência do budismo ou da religião não existe mais nos templos ou mosteiros, mas na profundidade de nossos espíritos”. A seu ver, a religião do porvir transcenderia dogmas e teologias, fundando-se, sobretudo, num “senso religioso oriundo da experiência de todas as coisas, naturais e espirituais, em espírito de total unidade”. Em linha de descontinuidade com a tradição da modernidade pós-cartesiana, dizia: “Eu não penso, logo eu sou”. Buscando fidelidade ao seu pensamento, há que deixar-se habitar pelo vasto e ilimitado espaço do Vazio, um Vazio pleno de significado. Há que deixar-se envolver pela “musica rítmica do universo”, como “crianças do Sol e da Terra”. Partilhava com seu amigo, Claude Lévi-Strauss, a idéia de que o homem ocidental cunhou sua perspectiva equivocadamente, entendendo-se mais como um ser pensante do que como um ser vivente, tornando-se, assim, incapaz de harmonizar-se com a natureza.

O caminho proposto por Deshimaru vai na linha de uma espiritualidade interreligiosa, de profunda harmonização. Dizia, com acerto, que uma só flor não faz uma guirlanda e que uma única mão não é capaz de produzir o som. Para que isso ocorra é necessário o exercício de comunhão. Aquilo que visava em sua vida e prática era o caminho em favor da essência de todas as formas de espiritualidade, em sintonia com o espírito zen. Admirava os evangelhos, que abrigavam as atitudes de abertura de Jesus, e também a rica espiritualidades dos mestres sufis. Tudo aquilo que reforçava os caminhos de profundidade espiritual, era por ele acolhido e incentivado. Sua espiritualidade não estava deslocada do tempo, nem do exercício essencial da compaixão. Dizia que aqueles que se sentiam incapazes de amar os outros estavam distantes da compreensão do zen. Sublinhava que “a dimensão última vivida nas profundezas do ser, a dimensão suprema da vida” envolvia a consciência e o amor universal.

Foi irradiadora a presença de Deshimaru na França, sobretudo depois que conseguiu firmar um lugar para realizar o seu sonho de reunir toda a sangha da comunidade européia para a pratica do zazen. Isto aconteceu em Gendronnière, a partir de junho de 1979. A seu redor reuniu um grande círculo de discípulos e amigos, entre os quais pensadores como Karl Jaspers, André Malraux, Jean Paul Sartre e Claude Lévi-Strauss. Também entre seus seguidores, artistas como Maurice Bejart e Arnaud Desjardins. O encontro e a experiência com Deshimaru favoreceu a Bejart a viva consciência da importância essencial da busca interior para a conformação da arte da dança. Dentre seus inúmeros discípulos, o cineasta Arnaud Desjardins, que dedicou a ele um dos belos filmes em torno da tradição zen: “Zen ici et maintenant et partout et toujours”.

Sensei Taisen Deshimaru firmou-se como um verdadeiro embaixador do Sôtô Zen na Europa, e em particular na França. Sua mensagem irradiou-se com sua prática e seu exemplo. Suas inúmeras viagens aos Estados Unidos, Montreal, China, Casablanca, Alemanha, Suíça e Londres serviram para reforçar sua influência num âmbito mais amplo. Um de seus motes singulares, tomados da Sutra do Lótus, indicava que o verdadeiro tesouro está bem próximo da cada um. Não é nos confins da terra que se encontra a paz derradeira, mas ela está aqui bem próxima, ao alcance da mão e do olhar. Basta abrir os olhos e ver: “simplesmente ver o mundo tal como é”. É exercitar-se no precioso dom de si. E sem perder jamais o otimismo, mesmo quando os horizontes se encurtam: “Quando uma porta se fecha, uma outra se abre”.

Deixou como legado singulares trabalhos em torno de sua experiência com o zen budismo, entre os quais destacam-se: L´autre rive. Textes fondamentaux du zen; Zen et vie quotidienne; Le bol et le bâton; Questions à un maître zen; La pratique du zen. Faleceu em abril de 1982 em razão de um câncer no pâncreas. Como ocorre com os grandes mestres, recebeu após sua morte o nome honorífico de Keisan, ou seja, aquele que desvendou a montanha.

(Publicado no Portal da Amai-vos em 06/07/2011)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Marco Lucchesi: Itinerários

Marco Lucchesi – Itinerários

 

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

 

Marco Lucchesi acaba de ser eleito para a cadeira de número 15 da Academia Brasileira de Letras (03/03/2011), que tem como patrono Gonçalves Dias. A cadeira vinha antes ocupada pelo padre jesuíta, Fernando Bastos de Ávila, falecido em 06 de novembro de 2010. A posse está marcada para o dia 20 de maio de 2011, na ABL. Marco Lucchesi nasceu no Rio de Janeiro, em 09 de dezembro de 1963. Como  identificou sua amiga Nise da Silveira, o símbolo do sagitário expressa bem a personalidade desse carioca especial: “O Centauro, os pés encravados na Terra, com mãos firmes busca orientar a flecha em direção às estrelas”. Alguém animado pela “nostalgia do mais”, com o coração fincado na terra e o olhar habitado pelo horizonte maior. Um apaixonado pelas línguas, da terra e do céu. Filho único, nasceu sob o embalo bilíngue toscano-carioca. Herdou de sua mãe, Elena Dati, a paixão pelo piano e pelo canto, e nessa ternura filial foi tecendo os traços fundamentais de seu cotidiano. Relata em entrevista que a música foi fundamental para ele, e com ela “a poesia das coisas”.

 

 Em seguida veio o interesse pela literatura e a filosofia, desdobrando-se no amor à poesia. Assinala que sua primeira tradução séria foi a do “Cântico Espiritual”, de João da Cruz, realizada aos dezesseis anos: “Deixei o piano visível (ou quase) pelo piano invisível da poesia...”. E Marco se revelará um tradutor de primeira grandeza. Vale lembrar a impressionante tradução de Baudolino, de Umberto Eco (Record, 2001), inspirada pelas paisagens de Itacoatiara, da Itália e do Irã. Revela que essa tradução foi pontuada pela leveza, mesmo assim, foram cerca de doze versões do primeiro capítulo. Identifica-se como um “tradutor dostoievskiano”, cujo trabalho não tem nada de solar, mas vem acompanhado por muito sofrimento e tortura. Busca sempre “a equivalência impossível. A palavra perdida”. São ilhas irredutíveis. A tradução é para ele “um processo físico tremendo”, fervido em insônias inesgotáveis. Daí ter decidido mudar de perspectiva, e diz: “Resolvi acabar com o tradutor que me habita, antes que ele acabasse comigo”. Mesmo assim, num trabalho realizado em comum, brindou-nos novamente com o seu dom, no livro “O canto da unidade: em torno da poética de Rûmî” (Fissus, 2007 – Prêmio Mario Barata, UBE 2008), com lindas traduções dos Rubayats de Rûmî. Marco traduziu ainda outros poemas de Rûmî (A sombra do amado: poemas de Rûmî, Rio de Janeiro: Fisus, 2000 – Prêmio Jabuti 2001). E também Giambatista Vico (Record, 2000), Primo Levi (Companhia das Letras,1997), Georg Trakl (Topbooks,1996 – Prêmio Paulo Rónai, 1996), Rilke ( Topbooks,1996) e Khliébnikov (Cromos,1993).

 

Como tão bem mostrou o saudoso Antônio Carlos Villaça, Marco Lucchesi é um poeta da sensibilidade. No centro da sua vida está a literatura. É mais do que um erudito tradicional, pois vem temperado pela poesia: “A sua intimidade com a poesia, com a melhor poesia, o salva de si mesmo e do eruditismo”. Os poemas de Lucchesi são magníficos, temperados com a seiva e o vigor da vida:

 

“Um laço misterioso en

laça e desenlaça

umas às outras as palavras

 

atiça e des

atina

o silêncio

das florestas

 

move e dis

persa os pássaros in

visíveis que regem

o sentido das coisas”

 

 As imagens que captam o movimento lírico de sua imaginação são preciosas: as “praias esquecidas”, os “oceanos maravilhas”, a “metafísica das alturas”, os minaretes “ávidos de altura e infinito”, o “mar da divindade”, o “planetário de Deus” e o azul, o profundo e inacabado azul de Isfahan... A emoção nos avizinha quando nos deparamos com a beleza de seus Poemas Reunidos (Record, 2000), bem como de outros poemas recolhidos nos livros  Sphera (Record, 2003) e Meridiano celeste & bestiário (Record, 2006). Nessa última obra tomamos contato com sua companheira, de olhar profundo, Constança, inspiradora de poemas, mas sobretudo da vida.

 

Há também o Marco ensaísta e buscador, que desvenda os desertos e as escarpas da alma. Em belos ensaios revela, com o calor de sua intimidade, encontros memoráveis, como os realizados com Nize da Silveira, Adélia Prado, Naguib Mahfuz, Roger Garaudy e tantos outros. Desce também, com dor, pelos “porões da humanidade” e nos possibilita ver o desolador “deserto da loucura”, dos “rostos desfigurados” e dos “corpos descobertos”; o silêncio doloroso e triste de Canudos: “o mais triste silêncio de minha vida”; e o “mundo esquálido e sombrio” dos refugiados palestinos de Sabra e Chatila, esse “horizonte sem horizonte. Tristeza difusa e sem lágrimas”. Do coração do poeta rasga-se o grito de raiva e compaixão... “A...............lla..................ah! O gemido é um dos nomes de Deus”. Dentre os livros de ensaios: Saudades do paraíso (Lacerda Editores, 1997), O sorriso do caos (Record, 1997), Os olhos do deserto (Record, 2000), Memória de Ulisses (Civilização Brasileira, 2006) e Ficções de um gabinete ocidental. Ensaios de história e literatura (Civilização Brasileira, 2009). Ultimamente, o Marco poeta e ensaísta mostra também o seu dom para o romance, com a obra O dom do crime. Rio de Janeiro/São Paulo, 2010.

 

Marco Lucchesi guarda um carinho especial pelo diálogo das civilizações, e o encontro das religiões. Talvez seja um dos intelectuais brasileiros mais ativos em favor da salvaguarda do islã verdadeiro e de sua profundidade mística. É portador de um grande Jihâd, o da paz universal. Lança-se com coragem em favor de uma nova perspectiva, de um novo olhar sobre o outro, rompendo com a estreiteza e parcialidade que marca a tradicional mirada ocidental, sobretudo com respeito às culturas do Oriente.

 

Seus livros nos trazem a profundidade dos grandes místicos como Hallaj, Attar e Rûmî. Nos ajuda, com eles, a desvendar as melodias escondidas do Mistério sempre maior. Nada melhor do que estar à sombra do Amado. Como diz Rûmî, numa de suas cartas: “Se não posso compreender que árvore é essa, contudo sei que, depois que deitei meu olhar sobre ela, meu coração e minha alma se tornaram frescos e verdes. Vou me colocar a sua sombra”. Na obra de Lucchesi, como assinala Constança, “as fronteiras são desfeitas: culturas diversas se aproximam, inesperadas, num diapasão musical de novas tessituras”.

 

O deserto tem um lugar particular em sua vida: “O corpo do deserto me fere de modo irreversível. Sou habitado por uma paisagem de pedra e areia, pela qual sigo enamorado, e beijo seus lábios de vento e desabrigo”. O deserto e o islã o fascinam, e com eles a suave e áspera língua árabe, “de lâminas e espadas”, das línguas a mais bela, a que mais se aproxima do céu empíreo e do sorriso de Beatriz. Para Marco, “o árabe coagula e condensa, com a força do ferro e o brilho do cristal, a idéia  que emerge do Sagrado”. O seu deserto “revela oásis inesperados, e deve ter sido a língua escolhida por Deus para falar aos homens. Um Deus infinito e áspero. Físico e Metafísico. Amante da Parte e do Todo...”. Contagia-se também com a beleza da estética do Islã, com seus minaretes que anunciam “impossíveis horizontes”. E também seus buscadores de diálogo, como Massignon e Paolo dall´Oglio.

 

O currículo de Marco impressiona. Formado em história pela UFF, é também mestre e doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ e pós-doutor em filosofia da Renascença na Universidade de Colônia (Alemanha). Leciona atualmente no departamento de letras da UFRJ e é pesquisador do CNPQ. Tem sob sua responsabilidade a edição de duas importantes revistas: Poesia Sempre (Fundação Biblioteca Nacional) e Tempo Brasileiro. Outra marca de sua formação é o fabuloso conhecimento e domínio de línguas estrangeiras. Um erudito, sem dúvida, mas sem perder jamais a ternura e a humildade, dois de seus mais preciosos valores. Aquela linda casa, na Rua dos Cravos, em Itacoatiara (Niterói) guarda um coração generoso e hospitaleiro. Ali bate forte o dom da música e da poesia, que facultam um “cerco de paz” e possibilitam a cidadania da alegria e da esperança.

 

Referências Bibliográficas

 

LUCCHESI, Marco. A paixão do infinito. Niterói: Cromos, 1994.

LUCCHESI, Marco. O sorriso do caos. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 1997.

LUCCHESI, Marco. Saudades do paraíso. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997.

LUCCHESI, Marco. Poemas reunidos. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2000.

LUCCHESI, Marco. Os olhos do deserto. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2000.

LUCCHESI, Marco. A sombra do Amado. Poemas de Rûmî. Rio de Janeiro: Fisus, 2000.

LUCCHESI, Marco. Viagem à Florença. Cartas de Nise da Silveira a Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

LUCCHESI, Marco. Sphera. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2003.

LUCCHESI, Marco. A memória de Ulisses. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

LUCCHESI, Marco. Meridiano celeste & Bestiário. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2006.

LUCCHESI, Marco. Ficções de um gabinete ocidental. Ensaios de história e literatura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

LUCCHESI, Marco (Org). Caminhos do islã. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2002.

LUCCHESI, Marco & TEIXEIRA, Faustino (Orgs). O canto da unidade. Em torno da poética de Rûmî. Rio de Janeiro: Fissus, 2007.

 

Entrevistas:

 

Marco Lucchesi no paiol literário. Rascunho. O jornal de literatura do Brasil. Curitiba, 12 de abril de 2011:

http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=45&lista=0&subsecao=0&ordem=2285&semlimite=todos (acessado em 12/04/2011)

 

Entrevista: Marco Lucchesi:

www.periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/dowload/5686/5186 (acessado em 12/04(2011)

 

Bety ORSINI. Acordes literários. Caderno Ela, p. 4. O Globo, 02 de abril de 2001.


(A ser publicado na Revista Teoliterária: Revista Brasileira de Literaturas e Teologias)

 

 

 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Paulo Dall´Oglio e a espiritualidade no mundo muçulmano

Paolo Dall´Oglio e a espiritualidade no mundo muçulmano

 

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

 

O recente e premiado filme “Homens e deuses”, de Xavier Beauvois, sobre os monges trapistas de Tibhirine, na Argélia, colocou em cena o caminho trilhado por muitos buscadores do diálogo, em particular com o islã. São muitas e ricas as experiências que se encontram em curso no tempo atual, com relatos impressionantes sobre a vocação de hospitalidade cristã no mundo muçulmano. São buscadores que seguem a preciosa trilha de Charles de Foucauld e Louis Massignon. Nesses últimos anos saíram publicadas duas singulares obras sobre o itinerário de Paolo Dall´Oglio, um jesuíta que vem consagrando sua vida ao diálogo fraterno com o islã: Guyonne de Montjou. Mar Moussa. Un monastère, un homme, un désert. Paris: Albin Michel, 2006; Paolo Dall´Oglio. Amoureux de l´islam, croyant en Jésus. Yvry-sur-seine: Les Éditions de l´Atelier, 2009 (com prefácio de Régis Debray) .

 

Paolo Dall´Oglio nasceu em Roma, no ano de 1954. Entrou para os jesuítas em 1975 e teve sua formação em línguas e civilização oriental no Instituto Universitário Oriental de Nápoles, bem como na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, onde finalizou seu doutorado em missiologia, em 1990, publicando sua tese em seguida: Speranza nell´islâm. Interpretazione della prospettiva escatologica di Corano XVIII. Genova: Marietti, 1991. Sua vocação mais profunda não estava, porém, voltada para a vida acadêmica. Um chamado mais forte vinha do deserto, do desafio de vida e comunhão com o mundo muçulmano. Os primeiros sinais dessa vocação nasceram fortuitamente, quando em viagem ao Oriente, em 1982, descobriu num velho guia turístico da Síria a existência de um mosteiro cristão abandonado no meio do deserto. A atração foi imediata, e um novo caminho descortinou-se para o jovem jesuíta. Tratava-se do Mosteiro de São Moisés o Abissínio (Deir Mar Musa el-Habashi). O mosteiro encontrava-se sob os cuidados da eparquia sírio-católica de Homs, Hama e Nebek, mas estava em ruínas. Sob o impulso de Paolo Dall´Oglio, com a ajuda do governo sírio, da Igreja local e de um grupo de voluntários, procedeu-se sua restauração, iniciada em 1984.

 

Ali, naquele ermo incrustado na rocha, às margens do deserto, nasce a comunidade mista al-khalil (“o amigo de Deus”), um título bíblico e corânico aplicado a Abraão. A regra da confederação monástica, aprovada pelo Vaticano em 2006, indica três prioridades básica e um horizonte específico. Dentre as prioridades, a vida contemplativa, o empenho no trabalho manual e a hospitalidade abraâmica. Quanto ao horizonte almejado, a particular consagração ao amor de Jesus Redentor para os muçulmanos e a comunidade (Umma) muçulmana. Em síntese, uma comunidade integralmente voltada para o diálogo interreligioso. A comunidade conta hoje com dez pessoas. Além de Paolo Dall´Oglio, que é o prior, comungam também da experiência: Jacques, Houda, Jihad, Jens, Boutros, Dima, Yussef, Dany e Diane. Há que sublinhar a profunda amizade que liga Paolo a Houda, das primeiras monjas que entrou para a comunidade. Depois de perder o marido de forma violenta num acidente de carro, encontrou a acolhida espiritual em Mar Musa. Paolo fala do misterioso amor que se firmou entre os dois, “grande como o mosteiro e todos os desertos”. Sobre ele falou: “Houda ensinou-me a amar mais profundamente. E eu a ensinei a amar a todos. Aprendemos a nos amar numa casta nupcialidade. Fomos consignados à relação com Deus, que nos convoca continuamente ao outro, como para o próprio espelho”.

 

A comunidade assumiu o rito sírio-católico como forma de melhor se inculturar entre os muçulmanos. Foi igualmente uma forma de reatualizar o monaquismo oriental que o islã conheceu e respeitou desde o século VII. Foram razões dialogais que motivaram essa adesão: tanto a oração como a liturgia siríacas vinham marcadas pelo mesmo ritmo da espiritualidade muçulmana. Adotou-se também o árabe como língua comunitária. Sobre essa decisão argumenta Paolo: “Aqui falamos a língua do Corão; somos uma igreja que tem mais de quinze séculos e falamos a língua sagrada e litúrgica de todo o islã... porque o islã é uma religião que tende integralmente para a Verdade, e é aqui que se encontra com nós cristãos”. Para os muçulmanos, a língua árabe é como a hóstia para os cristãos, é “carne da revelação corânica”, o “ditado sobrenatural” que evidencia e cristaliza o Deus único.

 

Num país de grande maioria muçulmana, com 75% de muçulmanos sunitas e um pouco mais de 10% de muçulmanos xiitas, a presença de uma comunidade cristã aberta ao diálogo ganha um significado precioso. O outro aparece aqui como um “caminho de acesso ao mistério”. O segredo e vitalidade da comunidade de Mar Musa está nessa abertura gratuita, no dom da hospitalidade. Seguindo a trilha de Massignon, Paolo Dall´Oglio busca fazer de Mar Musa uma comunidade de pessoas que se oferecem ao outro. Retoma-se a inspiração da badaliya, que significa “substituição”. É um termo que deriva da expressão árabe abdâl (abdâl é o plural de badal). Os abdâl são como os santos muçulmanos desconhecidos, os bons muçulmanos, marcados por uma espiritualidade do cotidiano. Eles são escolhidos por Deus para “cicatrizar as feridas do mundo mediante o dom de si mesmos, através da paciência, da humildade, do silêncio e da pequenez assumida com amor”.

 

A ousadia dialogal dessa experiência comunitária provocou mal entendidos e desconfiança entre determinados segmentos da comunidade católica, que viam o risco do sincretismo. Coloca-se também a questão da “dupla pertença” defendida pelo prior da comunidade. Ele, porém, justifica:

 

“Vivo a minha relação com o islã como uma espécie de pertença. Mas sejamos claros, a minha fé cristã não vem jamais camuflada ou diminuída por tal pertença; ao contrário, ela quer ser ortodoxa, total e fiel à sua dinâmica específica. Quando digo que pertenço ao islã, quero dizer que do ponto de vista cultural, linguístico e simbólico, sinto-me profundamente em casa no mundo muçulmano”.

 

Paolo assinala que é sua relação pessoal com Jesus de Nazaré e o amor à Igreja que garantem a tranquilidade de sua pertença cristã. E acrescenta que se tal vínculo não existisse já se teria convertido ao islã. Marco Lucchesi, que visitou a comunidade de Mar Musa, e com ela se encantou, descreve a posição de Paolo Dall´Oglio, que é uma das razões que garantem a ousadia dialogal: “Abrimo-nos profundamente à religião muçulmana e à sua civilização, em virtude da tranquilidade de nossa fé em Cristo, e não por uma dúvida a seu respeito” (M.Lucchesi. Os olhos do deserto. São Paulo: Record, 2000, p. 57).

 

Paolo Dall´Oglio defende uma inculturação guiada pela “hermenêutica do amor”. Vê a Igreja como uma comunidade em movimento, sempre operada pela ação inusitada do Espírito, que abre caminhos singulares de seguimento. O caminho dialogal não se deixa perder por meras assimilações recíprocas ou equívocas misturas, mas volta-se para um “horizonte condiviso sobre o qual projetam-se sínteses capazes de pluralismo na comunhão”. Na comunidade de Mar Musa ocorre a partilha de experiências interreligiosas. Mas Paolo não desconhece, por exemplo, a complexidade que envolve a oração interreligiosa. Admite a existência de níveis diversos que regem o culto em comum. Há momentos que se permitem intercessões comuns e a recordação de Deus ( dhikr); mas outros que guardam uma peculiaridade identitária, própria de cada particularidade, como as orações litúrgicas cristãs ou muçulmanas. E também um nível misterioso, operado pelo Espírito, que convoca lábios e corações a uma invocação partilhada.

 

Exemplificando um traço dessa peculiaridade interreligiosa, Paolo Dall´Oglio relata uma situação vivida no diálogo com um amigo sufi. Busca aconselhar-se com o amigo sobre um rapaz muçulmano que acorrera ao mosteiro buscando a conversão cristã. E indaga sobre qual melhor decisão tomar. Em sua resposta, o amigo sufi simplesmente assinala: “O Senhor o enviou, tu deves guiá-lo com sinceridade do coração”. Em seguida, o amigo sufi encaminha-se para as abluções preparatórias para a oração, uma vez que a noite se anunciava, e convida Paolo para fazer o mesmo. Seguindo um caminho inusitado, Paolo fecha os olhos e se volta para o Gólgota, lavando-se com a água que saía do flanco do Senhor. Depois de feitas suas abluções, o amigo sufi convida Paolo para fazer o mesmo e ele responde: “Já o fiz”. Os dois partilham com intensidade suas orações. Ao final, o amigo pergunta a Paolo sobre o local em que fez suas abluções. E ele responde: “Em Jerusalém, nos pés da cruz”. E amigo conclui: “Compreendo, a tua oração é legítima”.

 

O que anima a vida e a prática da comunidade de Mar Musa, e de Paolo Dall´Oglio, em particular, é o respeito ao outro. Não pode haver diálogo fora dessa dinâmica de atenção, acolhida e respeito à alteridade. É verdade que os cristãos buscam a unidade, uma unidade que está sendo a cada momento construída, mas também os muçulmanos vivem em profundidade essa experiência de unidade. Num congresso sobre ecumenismo, ocorrido em Damasco, Paolo assinalou que aqueles que não amam a unidade dos muçulmanos não podem nem compreender nem amar a unidade dos cristãos: “Um cristão que não ama ver os muçulmanos unir-se entre si não pode desejar a unidade na própria religião. A unidade não se divide. Ou se ama a unidade para todos, ou não se ama a unidade”. Para Paolo, esconde-se misteriosamente em toda a diversidade das religiões uma sabedoria de Deus, que acolhe com alegria o sussurro do plural. É alguém que acredita no diálogo em profundidade: “Tenho confiança no fato de que, mediante o diálogo, a Igreja descobrirá a atividade do Espírito nas outras tradições, compreenderá o ato consumado por Deus naquela revelação polêmica que o islã representa na história da humanidade”.

 

Em sua visita à grande mesquita  de Damasco, dos Omíadas, em 2001, o papa João Paulo II veio acompanhado por monges de Mar Musa, entre os quais Paolo Dall´Oglio. Nessa ocasião Paolo dirigiu-lhe as seguintes palavras: “Santo Padre, há dezoito anos, na chiesa del Gesù, em Roma, abençoastes minha vocação ao diálogo. Ofereço-lhe agora o fruto dessa bênção: uma comunidade monástica, consagrada ao diálogo islamo-cristão”. Com o olhar voltado para o grupo, o papa alçou suas mãos e abençoou a todos. Como tão bem sublinhou o poeta Marco Lucchesi, esse mosteiro no deserto, que abriga buscadores tão especiais, é uma luz que se avista de longe e que ilumina o coração. É uma parada obrigatória no curso de nossa peregrinação, “na qual Deus se torna nosso hóspede e nos tornamos hóspedes de Deus”.

 (Publicado no Portal da Amai-vos em 05/05/2011)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Marco Lucchesi: paixão infinita

Marco Lucchesi: paixão infinita

 

Faustino Teixeira

 

É uma tarefa muito difícil delinear a figura singular de Marco Lucchesi, eleito no dia 03 de março de 2011 para a Academia Brasileira de Letras, na cadeira anteriormente ocupada pelo padre jesuíta Fernando Bastos de Ávila. Marco é um jovem poeta, ensaísta e tradutor, dos mais brilhantes que estão entre nós. O que, porém, mais impressiona em sua vida é o toque da humildade, da abertura, da hospitalidade e da delicadeza. Conviver com Marco é partilhar desses dons preciosos que adornam sua vida e caminhada. Marco é sobretudo um viajante, com os olhos e o coração abertos para o infinito. A leitura de suas inúmeras notas de viagem revelam um buscador insaciável:

 

“O corpo do deserto me fere de modo irreversível. Sou habitado por uma paisagem de pedra e de areia, pela qual sigo enamorado, e beijo seus lábios de vento e desabrigo”

 

Num de seus mais belos textos, registrados no livro Saudades do paraíso (1997), descreve sua busca de Deus, o Deus que ampara e atormenta:

 

“Conhecer Deus e provar-lhe a existência. Conhecer Deus e procurá-lo sem dar-lhe trégua. Eis a tarefa. Queria estar junto dele, subindo escarpas íngremes e algo impenetráveis, devassando as suas entranhas invisíveis, logrando a theoria, sem os enigmas da imanência. Não um Deus-remissão, mas um Deus-concreção. Desejava o claro enigma”.

 

Essa paixão por Deus, pelo mundo e pelas coisas já o devorava desde cedo. Escolheu o íngreme caminho da metafísica, enquanto outros buscaram o recurso das drogas. Enveredou pela filosofia e pela teologia em busca desse “rosto perdido”, mas nada acalmava o seu desassossego abissal. Não o satisfazia o Deus tomista dos atributos, da imobilidade e da infinitude. Queria um “Deus solar”, primaveril:

 

“Queria uma árvore que não desse conceitos. Queria abocanhar-lhe os frutos”

 

Era difícil para ele suportar “a falta de um rosto”. Precisava “dialogar com Deus” e sentir o hálito de sua Presença. O encontro com a teologia da libertação, quando tinha cerca de 20 anos, exerceu um impacto decisivo em sua vida, apontando a Presença viva de um Deus concreto, que acolhe o outro com carinho e misericórdia. Mas nada arrefecia a sede interior que o devorava. Partia para conhecer novas paisagens, oceanos e florestas. Dava-se conta de uma realidade pontuada pelo desencontro permanente:

 

“Deus não estava senão em Deus. E eu estava longe de mim”

 

Esse sentimento de impermanência e incompletude marca a trajetória de Marco e pontua a beleza de sua poesia. Em sintonia com Dante, busca o céu Empíreo, o “céu dos céus” e a alegria do sorriso de Beatriz. A poesia favorece-lhe asas para sondar as alturas:

 

“A poesia promove uma abertura sem termo, que empresta a cada verso o sentimento do infinito, a paixão das alturas, a nostalgia do mais, a vontade de Deus”

 

Animado pelo pathos de Deus, atormenta-se com as dissonâncias do mundo e expressa sua revolta contra os labirintos sombrios e opressivos que marcam o triste caminho de nosso tempo. Ao visitar os campos de Sabra e Chatila, comove-se com o sofrimentos dos palestinos:

 

“Meu Deus, até quando tanto horror? Até quando este repulsivo campo, que corrói, silencioso, a dignidade dos homens, que tira de suas vidas o próprio nome, que mina seus corpos com doenças devastadoras? Até quando, tantas gerações condenadas a viver?”

 

Reconhece adolorado que as partes não são capazes de acolher o dom gracioso do Todo, que tudo abarca:

 

“Reclama o Todo

as suas devidas

partes

 

faminto de pro

fundas harmonias

em fogo se transmuta

ácido espelho

 

e a parte

contra

o Todo

 

se dissolve

se consome

e se estilhaça”

 

Mesmo no “mar desprovido de azuis”, o rosto permanece em toda parte. Não há como fugir deste “abismo” que nos abraça. É a mensagem que percorre os inúmeros poemas de Marco, providos de uma beleza única que arrebata. Esse rosto abre uma esperança renovadora:

 

“Teu rosto

acende meus sonhos

de reparação

algo me atinge me confunde e me arrebata”

 

A alegria de poder conviver com esse amigo e partilhar de sonhos comuns de esperança é algo fascinante. Não há dúvida de que sua presença na ABL vai favorecer a abertura de caminhos inusitados. Não se trata apenas de alguém que preenche um vazio, mas de uma vida que irradia alegria e esperança.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A dimensão espiritual do diálogo interreligioso

A dimensão espiritual do diálogo interreligioso

 

Faustino Teixeira

 

“O essencial é saber ver”

(Fernando Pessoa)

 

Introdução

 

O pluralismo religioso é um fato incontornável de nosso tempo. As diferenças estão aí, por toda parte, a convocar novas perspectivas de conversação e entendimento. É um tempo de mobilidade maior, onde o contato entre as pessoas de crenças diversificadas vem intensificado. As distinções religiosas tornam-se mais imediatas num mundo de fronteiras frágeis. Como indica Clifford Geertz, “as diferenças de crenças, às vezes mais radicais, são mais diretamente visíveis, com frequência crescente, e mais diretamente encontradas: prontas para a suspeita, a preocupação, a repugnância e a altercação”1. Estas diferenças podem, porém, suscitar reconciliação e diálogo. É o grande desafio de nosso século XXI. Enquanto o século anterior deixou como herança um perigoso “estado de inquietação”, com índices de violência assustadores, o século que se inicia traz como possibilidade um caminho dialogal alternativo. Em lugar do “choque de civilizações”, abre-se a perspectiva do “intercâmbio e diálogo entre elas”. É mediante a parceria e conversação que as culturas e religiões afirmam-se mais profundamente como si mesmas. O caminho está no empreendimento cooperativo, como tão bem sublinhou Edwar Said:

 

Parece-me que, se não enfatizarmos e fomentarmos o espírito de cooperação e intercâmbio humanístico - e aqui falo não de deleite desinformado e entusiasmo amadorístico pelo exótico, mas de um profundo compromisso existencial e trabalho em prol do outro -, vamos acabar batendo no tambor estridente e superficial da defesa de ´nossa` cultura contra todas as demais2.

 

Acreditar no diálogo não é escamotear as dificuldades reais de entendimento entre os povos e as religiões. A imagem que ainda vigora em nosso tempo é a das afirmações identitárias rígidas, de um mundo marcado pela diabolização do outro e pela irradiação dos nacionalismos mortíferos. Mas há que buscar horizontes alternativos, de ampliação da visão e de exercício de um cuidado singular com os outros, em sua diferença irredutível e irrevogável. Há que ampliar as cordas para suscitar um novo conhecimento e abertura dialogais. Ou cultivamos esse conhecimento mútuo ou terminamos “isolados num mundo beckettiano de solilóquios em choque”3.

 

O pluralismo religioso vem sendo cada vez mais vislumbrado como um valor irrevogável. Deixa de ser reconhecido como um fenômeno conjuntural passageiro, um fato provisório, para ser percebido na sua riqueza, como um pluralismo de princípio ou de direito. Torna-se uma “realidade cognitiva” que delineia a forma como percebemos nós mesmos e os outros. Aqueles que se fixam no conhecimento restrito de sua própria tradição religiosa não a conhecem em profundidade, pois a presença do “desvio” do outro, em sua alteridade singular, faculta uma melhor inteligência de nossa identidade. O pluralismo religioso, enquanto realidade fundamental, “tem invadido, explodido e transformado o mundo religioso de muitos de nós – por meio do olhar, da voz e do toque de um Outro religioso que é parte das nossas vidas”4.

 

Esta diversidade nos envolve por todos os lados e guarda consigo “potencialidades secretas”, abrindo espaços inusitados para o exercício novidadeiro de uma vida comum incrementada pela dinâmica da generosidade. A presença provocadora da diferença e da alteridade amplia o campo das possibilidades e faculta o real exercício de uma conversação enriquecedora.

 

O encontro entre as religiões torna-se um imperativo humano de nossos dias. O diálogo aparece como um desafio singular para captar e compreender a extraordinária diversidade das tradições religiosas, bem como deixar-se enriquecer por ela. Nenhuma religião consegue exaurir o campo da experiência religiosa humana, sempre aberta a novas significações. As religiões não são “mônadas isoladas” e destacadas da dinâmica plural do real. Elas inserem-se numa teia complexa de relações e aprendizados, que relativiza as seduções particularistas. E os místicos assinalam, com acerto, que os desacordos que dividem as religiões e os seres humanos, ocorrem pelo apego à superficialidade dos nomes e das formas. Se houvesse maior atenção à dinâmica de profundidade que as aproxima e envolve, o entendimento e a paz seriam alcançados5.

 

1. O mistério e sedução da alteridade

 

O diálogo interreligioso envolve sempre a relação entre interlocutores diferentes, num processo construtivo voltado para o conhecimento mútuo e o enriquecimento recíproco. O diálogo não pode prescindir da identidade e da firmeza de posição, mas pressupõe igualmente a consciência da vulnerabilidade, da disposição de abertura diante de um enigma que ultrapassa as particularidades. Envolve um movimento de recolhimento de si para “para deixar valer o outro”. O outro humano é um patrimônio de mistério que se revela a cada momento, deixando sempre adiante uma virtualidade a ser captada. A alteridade desconcerta e seduz. Ela traduz o mistério da maravilha, que é fascínio e admiração. É quando a alteridade apresenta-se de maneira substantiva e se dá o “impacto com o outro, com a sua indeduzível e improgramável presença”6  É essa admiração que faculta estupor e aciona uma provocação inédita de desarme e abertura.

 

A presença do outro suscita não apenas maravilha, mas também agonia, na medida em que sua presença nos desconcerta e nos desvia do caminho seguro até então trilhado. É a outra face da dinâmica da alteridade, que nos faz viver a experiência do limite e da fronteira. É agonia na medida em que nos convoca a viver a radicalidade de um exercício de fronteira, um embate com um irredutível que remove as entranhas intelectuais e afetivas. Trata-se de uma convocação dolorosa a romper com as defesas e alongar as cordas, quebrar os preconceitos e aceitar o desafio da abertura às surpresas que acompanham o advento do outro.

 

O outro permanece, porém, resguardado por um “mistério pessoal intransponível”, mysterium tremendum, que expressa uma experiência de mundo que é única. Há um silêncio que não pode ser ocupado por ninguém, que escapa ao alcance da linguagem, mas um silêncio que convida, pois é também um mysterium fascinans. O diálogo traduz o movimento de aproximação e encontro entre dois mundos distintos. Ele provoca o alargamento de espaços e a expansão das individualidades,  deixando sempre em todos os que o realizam uma “marca” diferencial:

 

Um diálogo é, para nós, aquilo que deixou uma marca. O que perfaz um verdadeiro diálogo não é termos experimentado algo de novo, mas termos encontrado no outro algo que ainda não havíamos encontrado em nossa própria experiência de mundo (...). O diálogo possui uma força transformadora. Onde um diálogo teve êxito ficou algo para nós e em nós que nos transformou7.

 

2. O diálogo como apropriação de novas possibilidades

 

O diálogo interreligioso envolve uma conversação delicada e desafiadora entre interlocutores distintos, animados por convicções fundadas, que buscam encontrar “semelhanças na diferença”. Não se trata de demandar uma realidade que apague ou escamoteie as distinções, mas de apropriar-se de novas possibilidades. Há que estar autenticamente animado pela vontade de entrar em conversação com o outro, e isso é inquietante pois exige do sujeito a disposição de “arriscar toda sua auto-compreensão atual” ao disponibilizar-se a levar a sério a perspectiva do outro, que também exige para si o reconhecimento de sua autenticidade e verdade.

 

Não há como sair ileso de um diálogo verdadeiro. Todos saem modificados. Em qualquer conversação dialogal, ou diálogo dialógico, os interlocutores encontram-se diante da possibilidade de uma mudança, que pode ser mais radical, como indica o termo religioso “conversão”, ou menos intensa, mas também singular, quando ocorre a apropriação de uma nova possibilidade para o sujeito: o que para ele era antes diferente ou estranho, torna-se agora verdadeiramente possível8.

 

Num dos documentos mais abertos do magistério católico, Diálogo e Anúncio (DA), do Pontifício Conselho para o Diálogo Interreligioso, assinala-se que o diálogo interreligioso é auto-finalizado, tendo em si mesmo o seu próprio valor. Indica-se que o seu objetivo fundamental é a “conversão mais profunda de todos para Deus”. No processo de interlocução criadora pode, porém, ocorrer uma decisão de mudança radical. E reportando a um documento anterior, sobre o Diálogo e Missão, do Secretariado para os não-cristãos, assinala-se: “Nesse processo de conversão, ´pode nascer a decisão de deixar uma situação espiritual ou religiosa anterior, a fim de se dirigir para outra`”. O diálogo sincero requer, por um lado, o reconhecimento da existência das diferenças, e, pelo outro, o profundo respeito pela convicção das pessoas e sua livre decisão em conformidade com a consciência9.

 

É verdade que o diálogo profundo exige dos interlocutores a prontidão para “se deixar transformar pelo encontro” (DA 47). Mas o diálogo requer que os parceiros entrem em conversação mantendo a integralidade de sua própria fé. Há que respeitar e amar a própria tradição de pertença, sentir-se domiciliado. Ao “auto-respeito genuíno” soma-se o desafio imprescindível da “auto-exposição ao outro”. E isso não significa ceder a um “pluralismo frouxo de privacidades”, mas deixar-se interpelar pela verdade do outro. Como assinala David Tracy, “cada auto-identidade, no auto-respeito por sua própria particularidade, irá descobrir de maneira nova a si própria ao liberar-se para a auto-exposição no diálogo com os outros. Parece assegurado que cada um será modificado por esse diálogo”10.

 

3. Espiritualidade e abertura dialogal

 

Há uma importante dimensão espiritual do diálogo interreligioso que vem sendo destacada por autores que trabalham o tema. Em sua reflexão pioneira, Raimon Panikkar assinala que o encontro genuíno entre as diversas religiões não pode acontecer sem esta indispensável dimensão espiritual e mística:

 

Sem uma certa experiência que transcende o reino mental, sem um certo elemento místico na própria vida, não se pode esperar superar o particularismo da própria religiosidade, e menos ainda ampliá-la e aprofundá-la, ao ser defrontado com uma experiência humana diferente11.

 

A espiritualidade, entendida como caminho para atingir a experiência suprema da Realidade, torna-se um fator essencial para o exercício dialogal. É ela que fornece o tônus fundamental para a nossa ação no mundo e qualifica o nosso procedimento.

 

A espiritualidade é como uma ´carta de navegação` no mar da vida do homem: a soma dos princípios que dirigem o seu dinamismo para ´Deus`, dizem alguns; para uma sociedade mais justa ou para a superação do sofrimento, dizem outros. Podemos, então, falar de espiritualidade budista, ainda que os budistas não falem de Deus; e também de uma espiritualidade marxista, embora os marxistas sejam alérgicos à linguagem religiosa. O conceito, assim tão amplo, exprime melhor uma qualidade de vida, de ação, de pensamento etc., não ligado a uma doutrina, confissão ou religião determinada, ainda que seus pressupostos sejam facilmente reconhecíveis12.

 

É a sensibilidade espiritual que desoculta a dimensão de profundidade, onde habita o “ponto luminoso” que dá razão e sentido ao nosso ser. Animados por ela conseguimos despertar para a “infinita Realidade que existe dentro de tudo que é real”13.  Importantes místicos das tradições islâmica e cristã identificaram este “ponto” (nuqta) como o centro nevrálgico da esfera da unidade14. Trata-se de um “ponto cego e suave”, um “ponto virgem” que expressa a misteriosa presença do Mistério em nós, recolhido em nosso mais íntimo rincão, como centelha que ilumina o olhar. É o ponto que está na base de todas as luzes, cores e silêncio e preside a dinâmica de nosso ser. O impulso espiritual possibilita-nos captar essa presença e irradiá-la em nossa vida. É necessário e essencial, como diz o poeta, “saber ver”, mas isto exige uma “aprendizagem de desaprender”, a superação da perspectiva egocêntrica que domina a nossa trajetória. As mesmas coisas estão sempre aí, mas nem sempre são motivo de nossa atenção. O olhar atento é capaz de desocultar uma dimensão completamente diversa, um sentido oculto e o sentimento vibrante do real. Esse ponto privilegiado e singular está sempre aí e pode ser percebido a cada momento, desde que haja clima para a sua recepção. O místico francês, Teilhard de Chardin, identificou-o como um “centro móvel”, que favorece “a eterna descoberta e o eterno crescimento”:

 

Quanto mais cremos compreendê-lo, mais Ele se revela outro. Quanto mais pensamos possuí-lo, mais Ele se recua, atraindo-nos para as profundezas de si mesmo. Quanto mais nos aproximamos dele, por meio de todos os esforços da natureza e da graça, mais Ele aumenta, em um mesmo movimento, sua atração sobre nossas potências e sobre a receptividade dessas potências ao encanto divino15.

 

O acesso a esse “ponto luminoso”, que pode também ser identificado com o centro do coração, se dá através do desapego e do despreendimento. Esse é o caminho essencial para o encontro com a realidade em sua densidade verdadeira. E, curiosamente, o despreendimento não significa um abandono das coisas ou distanciamento da realidade, mas um adentramento mais fino em sua espessura. As coisas, uma vez percebidas com a ocular de quem sintonizou-se com o “ponto luminoso”, são apaixonadamente amadas em sua grandeza. E isso vale também para as religiões, que passam a ser percebidas em sua peculiaridade e riqueza, como um patrimônio espiritual.

 

Ao despojamento segue-se a abertura do coração. Não se adentra nos segredos divinos senão mediante o despojamento e a purificação. Seguindo as pistas abertas pela tradição mística sufi, o coração (qalb) é o órgão por excelência da percepção mística, o “ponto de impacto dos acontecimentos espirituais” e o “lugar do segredo divino”16. A própria raiz da palavra em árabe, Q-L-B, indica a idéia de “receptáculo” ou “suporte” das diversificadas epifanias divinas. O coração está animado por uma infindável capacidade de captar e acolher formas e imagens. É um órgão plástico por excelência, de pulsação contínua, capaz de inversões, mudanças e flutuações inusitadas, como traduz um outro termo derivado da mesma raiz: taqallub. Em clássico poema,  Ibn ´Arabî assinala:

 

Meu coração está aberto a todas as formas:

É uma pastagem para as gazelas,

E um claustro para os monges cristãos,

Um templo para os ídolos,

A Caaba do peregrino,

As tábuas da Torá,

E o livro do Corão.

Professo a religião do Amor,

Em qualquer direção que avancem Seus camelos;

A religião do Amor

Será minha religião e minha fé17.

 

As teofanias divinas sucedem-se e modificam-se constantemente. A cada segundo o coração capta imagens diversificadas da presença do Mistério sempre maior. E em sua plasticidade é capaz de acolher com generosidade esse dom da diversidade. São manifestações que expressam aspectos diferenciados da Verdade divina. Não há, porém, como conter e exprimir essa Verdade em sua totalidade. Daí a necessidade permanente de manter aberta a porta da percepção. Não há porque fixar-se numa única tradição religiosa, excluindo a possibilidade do enriquecimento advindo da relação e do diálogo com o diferente. Ligar-se dessa forma exclusiva a um credo particular é deixar escapar bens preciosos18. 

Na medida em que se aprofunda em direção ao núcleo do coração, as representações tornam-se movediças, os nomes e formas superficiais vão perdendo sua couraça de impenetrabilidade, e passam a ser enriquecidos pelo calor das diversas teofanias que brilham por todo canto. As religiões deixam de ser “mônadas isoladas” e passam a ser percebidas como “fragmentos” que participam de uma sinfonia singular, pontuada pela abertura e inacabamento. Nada mais problemático que o “encarceramento na aparência”. Há que avançar sempre para dentro, no âmbito da profundidade.

 

É nessa direção da interioridade que se realizam as experiências mais profundas e enriquecedoras do diálogo entre as religiões. É quando o diálogo torna-se mais profícuo, enquanto “enriquecimento recíproco e cooperação fecunda, na promoção e preservação dos valores e dos ideais espirituais mais altos do homem”19. Um dos grandes mestres neste âmbito foi Thomas Merton, que empreendeu um caminho de abertura interreligiosa admirável. Num de seus últimos trabalhos, em torno do diálogo da experiência monástica, assinala que o monge “deve ser um exemplo vivo da realização tradicional e interior. Deve estar completamente aberto à vida e à nova experiência por ter utilizado integralmente sua própria tradição e a ter ultrapassado”20. Na verdade, ao se penetrar com seriedade intensa na própria tradição religiosa, o buscador se dá conta da riqueza ainda muito maior do mistério, que brilha também alhures. Essa interiorização permite uma maior desprendimento e, sobretudo, liberdade. É um mergulho que disponibiliza para o outro, que mantém as portas e janelas abertas para a tradição e herança das experiências que acontecem em outras comunidades religiosas.

 

Nada mais letal, segundo Merton, do que o entrincheiramento identitário, a afirmação individualista e auto-suficiente da própria tradição. O caminho que ele propõe vai noutra direção, de abertura e aceitação dos outros:

 

Serei melhor católico, se puder afirmar a verdade que existe no catolicismo e ir ainda além (…). Se eu me afirmo como católico simplesmente negando tudo que é muçulmano, judeu , protestante, hindu, budista etc., no fim descobrirei que, em mim,  não resta muita coisa com que me possa afirmar como católico: e certamente nenhum sopro do Espírito com o qual possa afirmá-lo21

Todos que no cristianismo ou em outras tradições religiosas trabalham na  linha da perspectiva mística vão reforçando uma convicção cada vez mais clara de que quanto mais se aprofunda e se adentra na experiência religiosa, tornada possível na sua própria tradição, tanto mais cresce a consciência de que a Realidade experimentada não se limita à própria religião. No apogeu de sua reflexão teológica, Paul Tillich intuiu de forma extremamente profunda esta questão ao indicar o caminho da profundidade como a condição essencial de ultrapassagem de uma particularidade limitada do cristianismo: não se trata de um caminho que leve ao abandono da própria tradição religiosa, mas de seu aprofundamento mediante a oração, o pensamento e a ação. Para ele,

 

na profundidade de toda religião viva há um ponto onde a religião como tal perde sua importância e o horizonte para o qual ela se dirige provoca a quebra de sua particularidade, elevando-a à uma liberdade espiritual que possibilita um novo olhar sobre a presença do divino em todas as expressões do sentido último da vida humana22.

 

Em semelhante linha vai a reflexão de Mestre Eckhart num de seus sermões alemães, quando trata da importância da “límpida humildade” para o acesso ao “fundo de Deus”. E a surpresa para quem faz essa experiência é a percepção viva da força generosa do amor de Deus, que brilha em todo canto:

 

As estrelas derramam toda sua força no fundo da terra, na natureza e no elemento da terra, produzindo ali o ouro mais límpido. Quanto mais a alma chega no fundo e no mais íntimo de seu ser, tanto mais a força divina nela se derrama plenamente e opera veladamente de maneira a revelar grandes obras e a alma tornar-se-á bem grande e elevada no amor de Deus, que se compara ao ouro límpido23.

 

Todo esse mergulho na interioridade faculta a tônica do amor, que potencializa a abertura do ser humano para a beleza de todas as coisas. Em viva sintonia com a perspectiva do Cântico dos Cânticos, Eckhart indica que “quando a alma flui totalmente em Deus, ela não sabe de mais nada a não ser de amor”24. Igualmente Tauler, num de seus sermões, assinala que “é onde o vale é mais profundo que a água escorre de forma mais abundante”25.

 

Conclusão

 

No terceiro volume de sua trilogia cristológica, Edward Schillebeeckx acentuou que a acolhida da diversidade está na essência mesma do cristianismo, sendo o seu fundamento o anúncio e prática do reino de Deus por Jesus26. A fidelidade autêntica a Jesus Cristo envolve a abertura para os outros. É Jesus mesmo que nos lança ao desafio radical da alteridade. Na verdade, “Jesus é o caminho que está aberto para outros caminhos”27. As religiões, enquanto inseridas na história, são habitadas por ambiguidades que não podem ser apagadas. Elas estão no tempo e sofrem a dinâmica de sua limitação. Não há como considerar uma religião abrangentemente verdadeira. Utilizando uma expressão de Paul Ricoeur, elas são fragmentos, e cada fragmento “sugere unidade potencial, mas seu conjunto, não tendo nenhum horizonte comum, não se impõe como unidade: talvez fique à espera de uma unidade para o momento indiscernível”28. Trata-se de uma sinfonia sempre adiada, pois a totalidade é inimaginável. Querer ocupar todo o espaço seria uma pretensão arrogante, ou mesmo ilusória. Todas as religiões estão confrontadas com limites bem definidos. Cada fragmento é convocado a aprofundar sua lógica, a respeitar seu intuito universal, mesmo sabendo que ele encontra-se ainda vazio “de todo conteúdo capaz de unificar o diverso religioso”29. A palavra mesma de Jesus constitui um alerta contra possíveis pretensões totalizantes, funcionando como uma admoestação contra a tentação de ultrapassagem de fronteiras que são precisas. É uma palavra que “convida cada fragmento a não ultrapassar suas fronteiras para incluir nele próprio a exterioridade”30. O Deus que Jesus anuncia é também um Deus de todos: “Ele é o ´Pai do céu`. Não está ligado ao templo de Jerusalém nem a qualquer outro lugar sagrado. É o Pai de todos, sem discriminação nem exclusão alguma. Não pertence a um povo privilegiado. Não é propriedade de uma religião. Todos podem invocá-lo como Pai”31.

 

(Publicado na Revista Tempo Brasileiro, nº 183, out/dez 2010, pp. 45-56)



1 GEERTZ, Clifford. Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 158.

2 SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 330.

3 GEERTZ, Clifford. Nova luz sobre a antropologia, p. 82.

4 KNITTER, Paul F. Jesus e os outros nomes. São Bernardo do Campo: Nhandu Editora, 2010, pp. 48-49.

5 RÛMÎ, Djalâl-od-Din. Mathnawî. La quête de l´Absolu. Paris: Rocher, 1990, p. 516 (MII, 3680).

6 FORTE, Bruno. Teologia in dialogo. Milano: Raffaello Cortina Editore, 1999, p. 60.

7 GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método II. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 247.

8 TRACY, David. Pluralidad y ambigüedad. Madrid: Trotta, 1997, p. 142-143.

9 PONTIFÍCIO Conselho para o Diálogo Interreligioso. Diálogo e Anúncio. Petrópolis: Vozes, 1991, n. 41. Ver também: SECRETARIADO para os Não-Cristãos. A Igreja e as outras religiões (Diálogo e Missão). São Paulo: Paulinas, 2001, n. 37.

10 TRACY, David. A imaginação analógica. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004, p. 567.

11 PANIKKAR, Raimon. La nuova innocenza 3. Sotto il Monte: Servitium, 1996, p. 156.

12 PANIKKAR, Raimon. Vita e parola. La mia opera. Milano: Jaca Book, 2010, p. 24.

13 MERTON, Thomas. Novas sementes de contemplação. 2 ed. Rio de Janeiro: Fisus, 2001, p. 10

14 RUSPOLI, Stéphane. Le message de Hallâj l´expatrie. Paris: Cerf,  2005, pp. 148 e 264; MASSIGNON, Louis. La passion de Hallaj III. Paris: Gallimard, 1975, p. 26; MERTON, Thomas. Reflexões de um espectador culpado. Petrópolis: Vozes, 1970, pp. 151, 175 e 183.

15 CHARDIN, Teilhard. O meio divino. Petrópolis: Vozes, 2010, p. 115.

16 MASSIGNON, Louis. Écrits mémorables II. Paris: Robert Lafont, 2009, pp. 309-310.

17 IBN ´ARABI. L´interprète des désirs. Paris: Albin Michel, 1996, p. 95. Para o aprofundamento desse tema ver: IBN ´ARABÎ. Le livre des chatons des sagesses. Tome premier. Beyrouth: Al-Bouraq, 1997, pp. 318-319 e 328-338; SOUZA, Carlos Frederico Barboza. A mística do coração. A senda cordial de Ibn´Arabî e João da Cruz. São Paulo: Paulinas, 2010, pp. 248-253.

18 Tanto Al Hallaj como Ibn ´Arabî alertam para o risco de fixação numa única tradição religiosa, negando o aprendizado que pode ser obtido com as outras religiões. A negação desse aprendizado traduz, na verdade, a negação de imensos bens que procedem do “Princípio fundamental” que preside e anima todas estas tradições. Ver a respeito: HALLÂJ, Husayn Mansur. Dîwân. Paris: Éditions du Seil, 1981, p. 108 (Muqatta´a 50);  IBN ´ARABÎ. Le livre des chatons des sagesses. Tome premier, p. 278.

19 SECRETARIADO para os Não-Cristãos. A Igreja e as outras religiões (Diálogo e Missão), n. 35.

20 MERTON, Thomas. O diário da Ásia. Belo Horizonte: Vega, 1978, p. 248.

21 MERTON, Thomas. Reflexões de um espectador culpado, p. 166.

22 TILLICH, Paul. Le christianisme et les religions. Paris: Aubier, 1968, p. 173.

23 ECKHART, Mestre. Sermões alemães 1. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 297 (Sermão 54 a).

24 ECKHART, Mestre. Sermões alemães 2. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 67 (Sermão 71).

25 TAULERO, Giovanni. I sermoni. Milano: Paoline, 1997, pp. 418-419 (Beati gli occhi che vedono cio che voi vedete).

26 SCHILLEBEECKX, Edward. Umanità la storia de Dio. Brescia: Queriniana, 1992, p. 218.

27 KNITTER, Paul F. Jesus e os outros nomes, p. 108.

28 DUQUOC, Christian. O único Cristo. A sinfonia adiada. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 88.

29 Ibidem, p. 170.

30 Ibidem, p. 163.

31 PAGOLA, José Antonio. Jesus aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2010, p. 392.