sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Raimon Panikkar: a arriscada aventura no solo sagrado do outro

Raimon Panikkar: a arriscada aventura no solo sagrado do outro

 

Faustino Teixeira

 

Resumo: Não há como falar em diálogo interreligioso sem lembrar o nome desse grande buscador que foi Raimon Panikkar (1918-2010). Foi um pioneiro na abertura dialogal, abrindo pistas inovadoras na reflexão sobre o tema. Sua contribuição não se resume ao campo teórico, mas também ao exercício vital de hospitalidade, doação e entrega ao Mistério que habita no solo sagrado do outro. Esse artigo tem como objetivo apresentar o seu itinerário de vida e reflexão, sinalizando alguns dos traços mais significativos de seu original pensamento.

 

Palavras-Chave: Diálogo, Cristianismo, Hinduísmo, Mística, Alteridade

 

Introdução

 

Raimon Panikkar (1918-2010) foi um dos mais ousados e singulares buscadores do diálogo. Sem dúvida alguma, um pioneiro no campo do diálogo das religiões, que abriu pistas e caminhos novidadeiros para a reflexão e exercício de uma dinâmica inovadora na relação do cristianismo com as diversas tradições religiosas, e em particular com o hinduísmo. Sua longa vida foi marcada pelo dom da abertura e do aprendizado com o outro. Uma vida “caleidoscópica”, como assinalou o amigo Miquel Siguan, também estudioso do místico catalão. Um traço peculiar de Panikkar, enquanto pensador, é a criatividade e o manejo original de lidar com as palavras. Com seu singular jargão, Panikkar favorece a viagem ao mundo sagrado do outro, desvendando caminhos, quebrando preconceitos e suscitando uma admiração que transforma o horizonte da  auto-compreensão. Vale bem para Panikkar, o que David Tracy falou sobre a difícil arte da conversação interreligiosa, esse “inquietante lugar” que provoca mudanças na auto-compreensão do sujeito ao levar realmente a sério as posições do outro[1].

 

1. Traços biográficos

 

A sua vida familiar já reflete uma dinâmica dialogal e multicultural. Nasce em Barcelona, em novembro de 1918, numa típica família burguesa. Sua mãe, Carmen Alemany, era catalã e profundamente católica. Uma mulher marcada por grande abertura, que cultivava a música e as artes; seu pai, Ramun Panikkar[2], um hindu de origem aristocrática e passaporte britânico. O casal teve quatro filhos. Panikkar fala dos pais com carinho. Recorda a gentileza de seu pai e o caráter decisivo de sua mãe. É dela que recebe uma singular educação católica, que o levou a enamorar-se, desde cedo, da pessoa de Jesus Cristo. Essa marca multicultural de sua vida vai ser por ele lembrada em passagens de sua reflexão: “Havia uma harmonia profunda entre meu pai e minha mãe, sendo de duas tradições diferentes”[3]. No âmbito dessa experiência familiar, de compreensão e respeito, é que se gestou uma perspectiva distinta para o itinerário de Panikkar. Ele assinala que esse aprendizado vem do início de sua vida: “Aquelas dimensões da fé cristã  que me permitiam vivem em paz com a outra parte de meu ser: a discreta influência de meu pai, que me cantava e explicava o Bhagavad Gita, que me fornecia os fundamentos do sânscrito e me envolvia numa não-confessional atmosfera hindu”[4].

 

A questão religiosa foi marcante na vida de Panikkar. Admite em entrevista concedida a Gwendoline Jarczyk que esteve sempre “preocupado por aquilo que hoje se define como o problema religioso”[5]. Sua formação inicial aconteceu com os jesuítas de Barcelona, no colégio Santo Inácio de Sarriá. Os estudos universitários foram realizados nas Universidades de Barcelona, Bonn e Madri. Em 1946, ano de sua ordenação sacerdotal, doutorou-se em filosofia e letras na Universidade de Madri, com uma tese sobre O conceito de natureza. Análise histórico e metafísica de um conceito[6]. O segundo doutorado veio em 1958, em Ciências Químicas, defendido na mesma Universidade, com uma tese sobre alguns problemas limítrofes entre ciência e filosofia. Sobre o sentido da ciência natural[7]. Três anos depois, em Roma, defende seu doutorado, na Universidade Lateranense, com uma tese que tratou o tema do Cristo desconhecido do hinduísmo. O orientador inicial foi Pietro Parente, que deixou o trabalho para outro professor da Lateranense, assim que se tornou cardeal. A tese foi convertida num dos livros mais traduzidos e exitosos de Panikkar, publicado originalmente em inglês, em 1964[8].

 

Durante parte de seu processo de formação, Panikkar esteve ligado à Opus Dei. Entra na organização disposto “a colaborar com todo o seu ser para a edificação do reino de Deus na terra, com o entusiasmo dos jovens em sua reação ao esfacelamento da sociedade. Aceita o rigorismo da organização como um dever para modelar o próprio caráter e tornar-se um perfeito cristão”[9]. Permanece ligado à organização por mais de duas décadas, dos anos 1940 a 1964, mas sua relação com a Opus Dei foi ficando aos poucos mais difícil, à medida em que avançava em sua reflexão e compromisso de vida. Passa por momentos de incompreensão e animosidade, encontrando resistências localizadas. Sua presença torna-se causa de incômodo. Vem então dispensado canonicamente de seus compromissos com a organização e incardina-se na Diocese de Varanasi (Índia).

 

Quando Panikkar doutorou-se em teologia, em 1961, já tinha feito sua primeira viagem à Índia, terra de seu pai, e isso ocorreu no final de 1954, numa missão apostólica. Passa um ano no Sul da Índia, estabelecendo-se em Varanasi. Já tinha certo domínio do sânscrito, que aprendera em Barcelona. Com 36 anos de idade vislumbrava com essa viagem o nascimento de um novo e decisivo período em sua vida e o relata de forma viva num testamento: “Parece-me necessário falar de mim uma última vez para cancelar um período de minha vida, que quase com toda certeza abarca mais da metade cronológica de minha existência terrestre... Posso dizer que começa um período novo em minha vida, com a morte real de minhas ilusões e ideais assumidos até agora...”[10]. Em Varanasi leva uma vida “quase monástica”, estudando, meditando e escrevendo. Ocorre que um de seus textos vem descoberto por um professor de Harvard, que o convida para ser professor visitante nessa prestigiosa Universidade. Estimulado pelo bispo de Varanasi, Panikkar aceita o convite e ministra o curso em Harvard. Foi tal o sucesso alcançado, que ele vem nomeado professor por mais cinco anos. Como Panikkar não desejava deixar a Índia, acabou fazendo um contrato de permanência semestral[11]. Durante mais de vinte anos, Panikkar divide o seu tempo entre a Índia e os Estados Unidos. Para tecer o fio dessa complexa convivência entre cidades tão díspares como Santa Bárbara e Varanasi, tão distantes quanto ao índice de desenvolvimento humano, só mesmo uma vida interior de profundidade. E Panikkar relata a respeito: “Eu me descobri, desse modo, não entre, mas no meio do Oriente e do Ocidente, em suas respectivas versões hindu-budista e cristã-secular, que se tornaram parte do meu universo pessoal”[12].

 

Como professor visitante, ministra cursos de religiões comparadas nas Universidades de Harvard e Califórnia, mas também atua nas Universidades de Cambridge (Inglaterra) e Montreal (Canadá). Vem nomeado, em seguida, professor catedrático de filosofia comparada das religiões e história das religiões na Universidade da Califórnia-Santa Bárbara, onde se estabelecerá entre os anos de 1971 a 1987. É com gosto que Panikkar trabalha na Universidade da Califórnia, numa década particularmente favorável para o exercício critico e a criatividade. Ele relata a respeito:

 

A Califórnia é a terra do mais forte espírito critico norte-americano; face ao conservadorismo de Boston (Universidade de Harvard), a Califórnia teve sempre uma larga tradição de abertura. Foi nela que brotou a cultura de protesto e a contracultura nos anos 60-70, os movimentos inconformistas universitários, o movimento hippie, movimentos antimilitaristas e outros movimentos radicais[13].

 

Na visão de Panikkar, viver na Califórnia era “estar no centro vital”, e poder participar de toda renovação espiritual que ali acontecia, e também deixar-se enriquecer pela sua dinâmica intercultural e interreligiosa, de particular abertura ao Oriente. Reconhece também o traço pioneiro das Universidades americanas no campo do estudo das religiões:

 

A universidade norte-americana é, possivelmente, a primeira no sentido de levar a sério, acadêmica e cientificamente, o problema religioso, na segunda metade do século XX. O estudo acadêmico das religiões deu um passo gigantesco com o aporte da Universidade norte-americana. Diferentemente das universidades européias, onde o estudo das religiões passou quase que por esquecido[14].

 

Em 1987, Panikkar retorna às suas raízes, na Catalunha. Deixa a Universidade de Santa Bárbara, agora como professor emérito, e passa a viver em Tavertet, um pequeno povoado da província de Barcelona (Comarca de Osona). Sem romper com suas atividades (cursos, seminários e encontros), passa a ter uma vida mais concentrada, voltada sobretudo para a meditação. É nesse vilarejo montanhoso, “envolvido por silêncio e beleza”, que vive sua última etapa da vida, vindo a falecer em agosto de 2010, aos 91 anos de idade. Deixou uma vasta obra publicada, que agora vem sendo recolhida de forma sistemática pela editora Jaca Book (Itália), sob a organização de Milena Carrara Pavan. Estão previstos 18 volumes, tratando os seguintes temas: Mística e Espiritualidade (dois tomos), Religião e religiões, Cristianismo, Hinduísmo (dois tomos), Budismo, Culturas e religiões em diálogo (dois tomos), Hinduísmo e cristianismo, Visão trinitária e cosmoteândrica: Deus-Homem-Cosmo, Mistério e hermenêutica (dois tomos), Filosofia e teologia, secularidade sagrada, Espaço, tempo e ciência, Miscelânia (Reunião de Textos), Fragmentos de um diário[15].

 

2. Os apelos da Índia

 

O traço interreligioso já estava impresso no coração de Panikkar. Não foi difícil para ele mergulhar corajosamente no mistério da Índia. Desde o seu primeiro contato com a Índia, no final de 1954, foi tomado por uma paixão avassaladora. Recorda em seus trabalhos que foi um dos períodos mais felizes de sua vida. Foi a oportunidade de viver a fundo a dinâmica interreligiosa e descobrir a idéia de relação, que será tão importante para ele ao longo de sua trajetória. Em resposta às perguntas sobre o seu itinerário humano, respondia com tranquilidade: “Parti cristão, me descobri hindu e retornei budista, sem jamais ter deixado de ser cristão”. E complementou sua reflexão mais tarde, dizendo que em seu retorno reconheceu-se um “melhor cristão”[16].

 

Foi no desvelamento de seu itinerário de busca que Panikkar encontrou o hinduísmo e o budismo, e isto ocorreu de forma natural e sem angústia[17]. Reconhece que foi à Índia como um aprendiz que indaga, como alguém que se achega aos pés de um mestre:

 

Não fui à Índia como um professor, mas como aluno... como aquele que busca, como alguém que se senta sem dificuldade aos pés de um mestre, que aprendia a língua dos aborígenes e queria ser um deles... Isso não era uma tática, nem mesmo algo que havia planejado. Era o meu karma. Ocorreu simplesmente assim... Queria identificar-me com minha identidade hindu, e para isso não havia o que fazer senão deixá-la emergir em mim[18].

 

A tradição hindu já era um traço familiar, que retomou com alegria. A abertura ao budismo veio na sequência, como desdobramento de um aprofundamento de sua dinâmica vital:

 

Minha identidade budista desenvolveu-se de outra maneira, uma vez que não havia nascido com ela. Minhas iniciações no budismo chegaram, também, de forma natural, mas foram resultado do trabalho interior, que com muita paciência e humildade assemelhava-se minutis minuendis ao Buda: a radical sensibilidade humana, ou uma experiência comparável a que os hindus e cristãos fazem do nada[19].

 

Panikkar tem plena consciência do caráter inefável de uma experiência religiosa, de seu traço único e singular, que não pode ser comparável a outra. Há nela um mistério que é intransponível. Mesmo assim, reconhece a possibilidade de alguém falar duas linguagens experienciais, e ele mesmo é um exemplo vivo disso. Acredita ser possível alguém penetrar de modo “existencial e vital” em outras cosmovisões, de encarnar-se numa outra cultura, de penetrar sua linguagem e partilhar o seu mundo. Tudo isso de forma natural, desde que essa relação não comprometa as “próprias intuições fundamentais”[20].

 

Assim como Panikkar, temos outros exemplos de místicos cristãos que ampliaram sua forma de compreender a identidade cristã, enriquecendo-a com outras perspectivas religiosas, como é o caso de Henri le Saux, Thomas Merton e Louis Massignon. Alguns falam em linguagem “híbrida”, outros em “bilinguismo” ou “dupla pertença”. As expressões nem sempre conseguem traduzir de forma clara o que se dá na experiência viva, de cristãos que se dão conta, no exercício relacional, que a realidade do Mistério não consegue esgotar-se numa única tradição religiosa. Há, de fato, aspectos novidadeiros e inusitados nas múltiplas formas de aproximação e entendimento com Deus, que transbordam a experiência específica do cristianismo. Teólogos cristãos como Jacques Dupuis reconhecem que apesar da dificuldade real em partilhar duas fés religiosas diversas, não se pode omitir uma tal possibilidade, uma vez que experiências profundas nessa direção não são raras nem desconhecidas[21].

 

A relacionalidade é um traço tão rotineiro na vida de Panikkar, que acreditar na possibilidade de uma experiência profunda e partilhada com tradições religiosas distintas é para ele algo natural e inquestionável. Vai ainda mais longe ao sustentar que aquele que não consegue fazer uma tal experiência interreligiosa, brotando do íntimo do coração, ainda que de forma incoativa, corre o risco de tornar-se um fanático. O caminho da autenticidade  passa, necessariamente, pela abertura radical do coração ao mundo da diferença e da diversidade. Trata-se de uma experiência que é única e preciosa para a afirmação da identidade. Na visão de Panikkar, “aquele que não conhece senão sua religião, não a conhece verdadeiramente”[22], daí a importância essencial do diálogo interreligioso. É insuficiente considerar que basta fixar-se na própria tradição religiosa, aprofundando-a, para encontrar o Mistério sempre maior, que está na fonte de toda busca. Para Panikkar, tal solução é insuficiente e não convincente: “Sem um diálogo externo, ou seja, sem um intercâmbio constante com outras pessoas, as religiões afogam-se (...). Dificilmente alguém (...) poderá entender a fundo sua religião sem ter uma idéia da existência e legitimidade de outros universos religiosos”[23].

 

A pista para o encontro verdadeiro está na direção da profundidade. Não é fruto exclusivo de um trabalho racional: “É na profundidade do conhecimento obscuro da fé que as duas espiritualidades podem encontrar-se e é ali que pode ocorrer, para as duas partes, uma real conversão”[24]. Serve aqui a distinção estabelecida por Panikkar entre fé e crença. Enquanto para ele a fé é sempre transcendente e aberta, não podendo ser expressa em fórmulas universais, a crença é sempre particular. Ela busca traduzir a fé no âmbito das estruturas relativas a uma dada tradição particular, mas deve estar sempre referendada ao horizonte transcendente mais amplo. A fé transcende as formulações dogmáticas das diversas tradições religiões, mas está sempre vinculada a idéias e fórmulas, expressas nas crenças, sem, porém, identificar-se com elas em momento algum. Na medida em que a fé identifica-se cegamente com a crença, não deixando o horizonte aberto, o diálogo vem interrompido e firma-se a realidade de um exclusivismo problemático e necrófilo[25].

 

Em sua permanência na Índia, foram decisivos os encontros com Jules Monchanin (1895-1957), Bede Griffiths (1906-1993) e em particular Henri le Saux (1910-1973). O exemplo de Abhishiktananda, como Le Saux vem nomeado, marcou profundamente Panikkar. Ele o via como um dos “espíritos ocidentais mais autênticos” no que toca ao mergulho na experiência indiana. Foi no encontro e convivência com ele que soube aprofundar-se no caminho do advaita (a-dualidade) e na experiência do diálogo com o hinduísmo, aproximando-se da “natureza abissal do encontro”. Naquele final dos anos 1950 e inícios de 1960, um período marcado por tantas dificuldades e incompreensões, Panikkar e Abhishiktananda partilharam uma grande amizade e, sobretudo, comunhão. Em carta de Panikkar ao amigo falecido, na quaresma de 2005, expressa que o distanciar do tempo o fez perceber melhor o significado de sua “obstinada existência” em busca do apelo interior do atman[26].

 

3. Um buscador permanente

 

Um dos traços que melhor define Raimon Panikkar é o de buscador permanente e apaixonado. Conjuga com sabedoria o amor à vida, a atenção ao cosmos e a abertura ao outro. Encaixa-se bem na definição que ele mesmo cunhou para o ser humano religioso: um buscador e peregrino que caminha com segurança por caminhos inexplorados. Alguém que esta aberto e disponível para captar a novidade do cotidiano, em cada um de seus preciosos momentos, sem deixar de lado a herança que traz em sua bagagem. Traduz fielmente a vocação monástica que é a aspiração ao simples[27].  O mistério para ele está em toda parte, o que se requer é saber escutar o seu canto. Há que deixar-se abandonar ao inesperado sopro da brisa, vencendo as barreiras impostas pela vontade. Há que viver, simplesmente, deixando fluir a vida em cada instante[28].

 

O peregrino é alguém que se dispõe a “expor-se a novas paisagens”, a perigos e incertezas. O mergulho no mundo do outro, na realidade distinta, é sempre arriscado. Panikkar fala em “salto mortal”, pois envolve a totalidade da pessoa, com ameaças precisas para a sua auto-compreensão. Esse caminhar faz parte da dinâmica humana:

 

o senso da peregrinação parece responder a uma profunda necessidade que o ser humano sente de ir além dos limites da experiência ordinária e entrar no misterioso reino do além; e os lugares de peregrinação parecem ter a força de um ímã biológico-espiritual geográfico que atrai os peregrinos para o campo de seu mistério doador de vida[29].

 

A peregrinação verdadeira, como indica Panikkar, traduz o caminho para o núcleo da pessoa, para o seu centro. E só está preparado para realizá-la aquele que morreu para o seu “pequeno eu” e está sintonizado com o tempo e aberto para a união com o Si universal[30]. Em sua presença na Índia, Panikkar realizou duas importantes peregrinações espirituais: às fontes do Ganges e ao monte Kailasa. Retoma, assim, o movimento que o povo indiano faz, a cada ano, aos seus lugares sagrados. Trata-se do deslocamento de retorno às fontes, de onde provêem todas as águas, capazes de restaurar as forças e a dinâmica vital. A peregrinação às fontes do Ganges ocorreu em junho de 1964 e Panikkar esteve acompanhado por Henri le Saux. Essa experiência inspirou um dos livros do místico catalão: Uma missa nas fontes do Ganges, cuja primeira edição ocorreu em 1967[31]. A outra peregrinação ocorreu décadas depois, em setembro de 1994, no monte Kailasa, considerado como o “templo do Absoluto”, e venerado pela maior parte das religiões do sul da Ásia. A narrativa dessa peregrinação está registrada em outro livro de Panikkar, Peregrinação ao Kailasa (2006)[32]. Sua companheira de viagem, Milena Carrara, pergunta ao mestre, a certa altura, qual a razão de considerarem alguns lugares mais sagrados, já que Deus encontra-se em toda parte. E relata sua explicação:

 

Ele me explica que Deus manifesta-se mais vivamente naqueles lugares que foram carregados pela espiritualidade das grandes almas que ali viveram a sua união com Deus; estes ascetas puderam perceber em seu tempo a atração por aqueles lugares, em geral distantes, solitários, desertos, onde a sua sensibilidade soube colher vibrações particulares ou simplesmente onde o silêncio é mais absoluto, dumia, de que fala Elias na Bíblia[33].

 

4. A intuição cosmoteândrica e a percepção do advaita

 

Em relato sobre a sua biografia, Panikkar assinala que nunca viveu uma experiência semelhante à de Paulo, na estrada de Damasco, que assinalaria um ponto preciso de conversão. Sua vida desenvolveu-se de forma intensa e crescente. Há, porém, um momento em que se dá conta de uma intuição cosmoteândrica, relacionada à sua experiência da Trindade. Percebe com clareza que toda a realidade é uma cristofania e  que a Trindade constitui a resposta verdadeira de sua busca. Ao falar de intuição cosmoteândrica, faz recurso ao teandrismo da tradição ortodoxa, acrescentando toda a sua reflexão original sobre o cosmos, tão negligenciado nas espiritualidades cristãs. Na visão de Panikkar, os três elementos que compõe a visão cosmoteândrica ou teoantropocósmica – Deus, Homem e Matéria -, traduzem três “dimensões constitutivas da realidade”. Não há como escapar da presença envolvente de Deus ou do divino. Ele está em todo lugar. Isso não significa, porém, assumir um panteísmo. O que ocorre é uma identificação tópica, mas o mistério transborda infinitamente tudo o que se pode pensar, ver ou imaginar.

 

Cosmoteândrica será, pois, esta visão, esta experiência, de que somos uma parte da Trindade, e que há três dimensões do real: uma dimensão de infinito e de liberdade, que chamamos divina; uma dimensão de consciência, que chamamos humana; e uma dimensão corporal ou material, que chamamos cosmos. Todos participamos desta aventura da realidade[34].

 

Essas três dimensões do real estão em profunda interpenetração, expressão que traduz para hoje a idéia clássica de perichôrêsis ou circumincessio. Trata-se de uma interpenetração recíproca que não coloca em causa nenhuma das particularidades das dimensões em questão. O que vigora é a idéia de relação. Na linha dessa perspectiva indivisa da realidade, Deus não pode ser captado como puramente transcendente ou exclusivamente imanente. Ele é simultaneamente transcendente e imanente, é “relacionalidade pura”[35]. A experiência de Deus acontece no dinamismo vivo que entrelaça o humano com toda a realidade:

 

A experiência de Deus é a raiz de toda experiência. É a experiência em profundidade de todas e cada uma das experiências humanas: do amigo, da palavra, da conversa. É a experiência subjacente a toda experiência humana: dor, beleza, prazer, bondade, angústia, frio... subjacente a toda experiência no tanto que nos descobre uma dimensão de infinito, não-finito, in-acabado[36].

 

Para acessar a imagem mais profunda da Trindade, Panikkar faz recurso a uma intuição hindu, que supera as tentações da unidade ou dualidade. Trata-se da perspectiva advaita, da a-dualidade, que indica a ausência de dualidade na estrutura própria da realidade[37]. Na linha dessa reflexão, “a divindade não está individualmente separada do resto da realidade, nem é totalmente idêntica a ela”[38]. A intuição advaita traduz o Mistério que preside a relação cosmoteândrica. Um mistério que não pode ser reduzido nem ao “um” ou ao “dois”. É antes “a-dual”, possibilitando a dinâmica viva do pluralismo. Os cristãos acessam a esse Mistério através de Jesus Cristo, mas outras vias possibilitam igualmente sua acolhida[39].

 

A perspectiva advaita envolve também uma singular espiritualidade. A divindade deixa de ser percebida como um objeto, ou como um Outro, porque não há mais sujeito a fazer uma tal experiência. Para o advaitin, a divindade não é “algo” que se percebe em si ou fora de si, mas “uma luz na qual o Real é iluminado e descoberto”. A contemplação emerge como “a visão da Realidade total na qual o ego (eu psicológico) enquanto tal, não tem mais nenhum lugar; é a experiência do Absoluto na sua simplicidade e na sua complexidade, alegria perfeita alcançada na en-stasi da união”[40].

 

 

 

5. O caminho do diálogo dialogal

 

As religiões são também provocadas a viverem uma “interpenetração recíproca”. É um dos temas mais presentes na reflexão de Raimon Panikkar. Trata-se do desafio de uma nova relação entre as diversas tradições religiosas, para além do exclusivismo, inclusivismo e paralelismo. O caminho revela-se na abertura para uma nova dinâmica relacional, que resguarde a particularidade de cada uma das tradições envolvidas. Não é um trajeto simples, mas importante e inevitável, doloroso mas purificador. Para que se realize com vigor requer uma mudança de compreensão e de atitude. Esse processo não é pontual, mas contínuo e progressivo e envolve abertura e paciência. É um caminho que está sempre se fazendo. O objetivo proposto “não é chegar à completa unanimidade, ou de misturar todas as religiões, mas sobretudo comunicação, simpatia, amor, complementaridade polar”[41].

 

Em momentos diversificados, Panikkar utilizou a expressão “ecumenismo ecumênico” para traduzir esse desafio dialogal. Para além do ecumenismo tradicional, voltado para a unidade dos cristãos, aponta-se agora para um ecumenismo mais amplo, que estende a dinâmica de abertura para toda a família humana. A sua perspectiva vem definida com clareza:

 

O objetivo é uma melhor compreensão, uma crítica corretiva e, possivelmente, uma mútua fecundação entre as tradições religiosas do mundo, sem mitigar suas respectivas heranças ou comprometer sua possível harmonia ou as eventuais diferenças irredutíveis[42].

 

Esse trabalho ecumênico, em sentido largo, é inesgotável e revelador de possibilidades inusitadas. Requer também muita humildade, pois deve estar animado pela consciência da contingência e do limite. Nenhuma religião é capaz de exaurir o campo da experiência humana e das manifestações do sagrado. A realidade plural está sempre aí a desafiar a compreensão humana. Há que combater incessantemente a sedução da autosuficiência e da hybris totalitária, que constituem impedimentos precisos para a abertura ao pluralismo de princípio. Esse “ecumenismo crítico exige magnanimidade, serenidade, humildade e também supõe uma certa consciência mística do caráter inefável da realidade”[43].

 

É verdade que os cristãos estão empenhados na busca da unidade, mas torna-se cada vez mais claro nesse tempo de pluralismo religioso que a unidade está sempre em processo, traduzindo um esforço comum de adentrar-se no Mistério sempre maior. Mesmo estando convictos do conteúdo fundamental de sua fé, os cristãos

 

não podem conhecer quais serão os ulteriores desenvolvimentos de sua Igreja; eles não têm acesso aos planos da providência divina; não devem, portanto, agarrar-se a um esquema fixo ou a uma fé congelada. Novos dogmas, formulações renovadas, evoluções reais e progressos são características constantes do cristianismo, como de todas religiões. Ninguém sabe como o cristianismo aparecerá quando as águas da fé unirem-se às de outras religiões para formar um rio mais caudaloso, onde os povos do futuro saciarão sua sede de verdade, bondade e salvação[44].

 

A perspectiva de um ecumenismo mais ecumênico aflui para um caminho de “diálogo dialogal”, como gosta de expressar Panikkar. Trata-se de um diálogo mais existencial, sem a intenção de convencer ninguém, mas sobretudo compreender o outro e deixar-se enriquecer por ele. É diferente do “diálogo dialético”, que expressa mais uma arena ou disputa intelectual que aponta razões e equívocos dos interlocutores[45]. O diálogo dialogal ou dialógico é sobretudo um “ato religioso” movido por amor. Não pode ter outra motivação senão a partilha de dons e a mútua fecundação. Ele tem o “seu próprio valor”, sendo auto-finalizado.

 

Nem todos conseguem exercitar esse dom dialogal, sobretudo nesse tempo de pluralismo moderno, onde os conhecimentos auto-evidentes perdem sua plausibilidade. Peter Berger nomeia-os como “virtuosos do pluralismo”, pois lidam melhor com esta perspectiva dialogal, ao contrário de tantos outros que vivem a insegurança de participarem de um “mundo confuso e cheio de possibilidades de interpretação”[46]. Para entrar nesse caminho requer-se liberdade interior, bem como a gratuidade de viver uma experiência de partilha e busca de uma verdade que ultrapassa a consciência possível dos próprios interlocutores. Como indica Panikkar, o diálogo verdadeiro é “um ato essencialmente religioso”, envolvendo a experiência da contingência, da confiança mútua e da busca comum de um Mistério que a todos transborda[47]. Há uma dimensão experiencial e mística do diálogo que nem sempre é levada em consideração, mas que é muito importante:

 

O encontro das religiões tem uma indispensável dimensão experiencial e mística. Sem uma certa experiência que transcende o reino mental, sem um certo elemento místico na própria vida, não se pode esperar superar o particularismo da própria religiosidade, e menos ainda ampliá-la e aprofundá-la, ao ser defrontado com uma experiência humana diferente[48].

 

O diálogo interreligioso pressupõe o diálogo intra-religioso. É outra das teses defendidas por Panikkar. Esse diálogo intra se dá no interior mesmo das confissões religiosas. Trata-se da tomada de consciência da própria contingência, relatividade e vulnerabilidade. É o essencial “colocar-se em questão”, tão bem acentuado por Agostinho: quaestio mihi factus sum (fiz de mim mesmo um problema)[49]. O diálogo autêntico requer esse permanente espírito de auto-crítica: “Se não descubro em mim mesmo o cético, o incrédulo, o muçulmano e tantas outras realidades, sinto-me incapaz de entrar em diálogo com os outros”[50]. Como mostrou com acerto Adolphe Gesché, a fé cristã tem necessidade de uma “ausência cristã”, tanto diante dela como em seu próprio interior. A interface do outro ou um “lugar fora de sua residência” torna-se fundamental para a construção da própria identidade. O grande risco é manter a tradição encerrada em si mesma, sem interlocução criadora.

 

É evidente que é preciso ao cristianismo o sensus fidelium, o sentido da fé que os crentes têm, mas é preciso, igualmente, aquilo que chamo de sensus infidelium, o sentido que os não-crentes têm das coisas deste mundo (e mesmo das coisas da fé, pelo espírito crítico que possuem), essa pars paganorum, essa parte de paganidade ao lado da pars nostra, essa parte exterior, essa ´impureza`- no sentido estabelecido anteriormente -, essa impureza da sabedoria que vem em socorro da pureza de seu profetismo, para que este não se torne paroxístico, destruidor, alucinatório[51].

 

O diálogo é sempre uma “aventura arriscada”, mas revela-se uma exigência essencial no tempo atual, condição imprescindível para a paz entre as nações. Como sustenta Panikkar, ele é um fato importante, inevitável e urgente, mas também desconcertante e perigoso, pois coloca em questão o fundamento mesmo das próprias convicções. O risco maior é o de perder-se ou se afogar, “pois, literalmente, nesse encontro tocamos o fundo”.  Mas há que jogar-se na água e nadar, ainda que as pernas estremeçam e o coração vacile. Desse encontro todos saem purificados, pois ele possibilita compreender a inexaurível profundidade do ser humano e deparar-se com o misterioso enigma que pontua o mundo das diferenças[52].

 

6. A cristofania

 

Em diversos momentos de sua reflexão, Panikkar indicou que o indispensável encontro entre as tradições religiosas envolve uma transformação na auto-compreensão das religiões. Ele busca responder a tal desafio com propostas audaciosas no campo da hermenêutica cristã para o terceiro milênio. Dentre as pistas por ele abertas, insere-se a original reflexão sobre a cristofania. Argumenta que a cristologia vigente nos últimos vinte séculos é marcadamente ocidental, nascida da fé cristã em diálogo com o judaísmo, com o mundo greco-romano e, posteriormente, com a tradição germânica e a cultura islâmica. Sua proposta vai no sentido de uma maior universalização dessa perspectiva:

 

Depois de estar historicamente ancorado por quase dois milênios nas tradições monoteístas originadas de Abraão, o cristianismo, caso pretenda ser católico, deve meditar profundamente sobre a kenosis de Cristo e ter a coragem, como no primeiro Concílio de Jerusalém, de desvincular-se da tradição hebraica (cujo símbolo era a circuncisão) e das tradições romanas (cujo símbolo é a cultura ocidental) sem com elas romper, deixando-se fecundar pelas outras tradições da humanidade[53].

 

Segundo Panikkar, a experiência de Cristo feita pelos cristãos não esgota a riqueza mesma da realidade do Cristo, que na verdade é um “símbolo – que os cristãos designam com esse nome – do Mistério sempre transcendente, mas também sempre humanamente imanente”[54]. A publicação da tese doutoral de Panikkar, em 1964, sobre O Cristo desconhecido do hinduísmo, suscitou mal entendidos, facultando uma interpretação limitada e inclusivista de seu pensamento. Em edição posterior, o autor esclareceu que, em verdade, o Cristo desconhecido do hinduísmo era também desconhecido do cristianismo histórico[55]. Na linha dessa reflexão, Panikkar busca acentuar a realidade de Cristo como um Mistério que envolve as duas tradições religiosas. Enquanto alguns autores utilizam expressões como “Cristo cósmico” ou “Cristo total”, Panikkar prefere falar em “Cristo cosmoteândrico”, ou simplesmente Cristo. Para ele, Cristo é o “símbolo de toda a realidade”, e nele encontram-se contidos todos os “tesouros da divindade”, os “mistérios do homem” e a “densidade do universo”[56].

 

A Cristofania envolve, assim, uma abertura à realidade mais ampla do Espírito, o que implica uma abertura genuína ao diálogo com outras religiões. A confissão cristã que indica que “Jesus é o Cristo” é pertinente e legítima. De fato, é através de Jesus que os cristãos podem encontrar o Cristo. É uma confissão que reflete uma “afirmação existencial”, mas que não pode ser entendida em sentido objetivante e universal. Na verdade, como mostra Panikkar, “Jesus é o Cristo, mas o Cristo não pode ser completamente identificado com Jesus”[57]. Isso significa que os cristãos não têem o monopólio do Cristo, que permanece, também para eles, como Mistério que sempre advém. Um Mistério que se manifesta igualmente, sob outras formas, em todas religiões autênticas[58].

 

 

 

7. A mística como experiência da vida

 

Um dos desafios essenciais do tempo atual é responder a um apelo que brota de todas as partes e que se relaciona com a sede radical pela transformação do significado mesmo da vida. Em seus últimos trabalhos, Panikkar dedicou-se de forma intensiva a essa reflexão, dando um espaço significativo ao tema da mística e da espiritualidade. Identificou na “mística cosmoteândrica”, que envolve Deus, Homem e Mundo, o novum do terceiro milênio[59]. Na visão de Panikkar, a experiência mística envolve toda a realidade, mantendo-se aberta a todos os problemas humanos. É, por excelência, a “experiência do totum”, a “experiência integral da realidade”. Ele faz opção pela expressão “realidade” por considerá-la menos problemática e mais neutra, com uma mais decisiva densidade ecumênica. A mística faculta, assim, um “acesso à completa realidade (chame-a Deus, o Tudo, o Nada, o Ser, ou outra coisa) que se nos apresenta na sua plenitude (...)”[60].

 

Panikkar sublinha que, infelizmente, o tempo contemporâneo perdeu esse senso místico da existência, fixando-se na “epidemia reinante da superficialidade”. Urge recuperá-lo, para que se faculte a essencial harmonização das energias humanas em torno de valores como o Bem, a Beleza e a Verdade. A mística não implica uma fuga do mundo, ou desprezo das realidades terrestres, mas um mergulho ainda mais fundo nas entranhas do real e na tessitura do tempo. Trata-se de uma experiência pessoal, mas não individualista, cujas repercussões são vivas, propagando-se como ondas que se espalham sem cessar por todo canto. Enquanto a mística é a “experiência suprema da realidade”, a espiritualidade é o “caminho para se atingir tal experiência”[61].

 

A espiritualidade é como uma ´carta de navegação` no mar da vida do homem: a soma dos princípios que dirigem o seu dinamismo para ´Deus`, dizem alguns; para uma sociedade mais justa ou para a superação do sofrimento, dizem outros. Podemos, pois, falar de espiritualidade budista, embora os budistas não falem de Deus; e também de uma espiritualidade marxista, ainda que sejam eles alérgicos à linguagem religiosa. Em seu conceito amplo, a palavra espiritualidade expressa sobretudo uma qualidade de vida, de ação, de pensamento etc., não ligada a uma doutrina, confissão ou religião determinadas, ainda que seus pressupostos sejam facilmente reconhecíveis[62].

 

O verdadeiro contemplativo, como mostra Panikkar, é alguém marcado por intensa liberdade e pureza de coração. Está voltado atentamente para o tempo, vivendo, simplesmente, inserido na “tempiternidade”, ou seja, na eternidade que se capta em cada momento temporal da existência[63]. Sua linguagem tem afinidade com a linguagem poética, sendo capaz de favorecer um olhar distinto sobre o real, captando o que escapa ao olhar superficial. Ele traz consigo uma fragrância contagiante, que traduz “o respiro mesmo da vida”. E todo o ser vem envolvido: “Se o teu olho é simples, todo o seu corpo será luminoso”.

 

Conclusão

 

Panikkar foi um dos grandes precursores do diálogo interreligioso entre os autores cristãos. Talvez a contribuição mais decisiva que deixou como legado foi de afrouxar os nós do etnocentrismo cristão e favorecer uma nova atitude para com as outras tradições religiosas: de abertura, hospitalidade e acolhida. Mostrou com vitalidade e vigor que o verdadeiro diálogo requer dos interlocutores um profundo respeito e cuidado com o enigma do outro. No diálogo caminha-se sobre um “solo sagrado”, e os interlocutores devem estar desarmados para viver a dinâmica de reciprocidade de dons que esse encontro revela e traduz. Foi um grande “virtuoso do pluralismo religioso”, um assíduo defensor da diversidade irredutível e irrevogável que marca o mundo das religiões. Pontuou igualmente a centralidade da dimensão espiritual para o exercício dialogal, enfatizando a importância da humildade, do despojamento e da pureza de coração para a afirmação de uma nova disponibilidade de encontro autêntico com o diferente.

 

 

Faustino Teixeira é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), Pesquisador do CNPq e Consultor do ISER Assessoria (RJ). É autor de vários livros entre os quais: A espiritualidade do seguimento. São Paulo: Paulinas, 1994; Teologia das religiões: uma visão panorâmica, São Paulo: Paulinas, 1995; Os encontros intereclesiais de CEBs no Brasil, São Paulo: Paulinas, 1996; Ecumenismo e diálogo interreligioso, Aparecida: Santuário, 2008. Esteve também na organização das seguintes obras: No limiar do mistério, São Paulo: Paulinas, 2004; Nas teias da delicadeza, São Paulo: Paulinas, 2006; Sociologia da religião, 3ª ed., Petrópolis: Vozes, 2010; O canto da unidade. Em torno da poética de Rûmî, Rio de Janeiro: Fissus, 2007 e Catolicismo plural: dinâmicas contemporâneas, Petrópolis: Vozes, 2009.

Endereço: Rua Antônio Carlos Pereira, 328 (Condomínio Tiguera)

                   36071-120 – Juiz de For a – MG

                   e-mail: Faustino.teixeira@ufjf.edu.br

 

 



[1] D. TRACY, Pluralidad y ambigüedad, Madrid: Trotta, 1997, p. 142.

[2] O nome Panikkar era um titulo nobiliário malabar.

[3] V. P. PRIETO, Más allá de la fragmentación de la teología. El saber y la vida: Raimon Panikkar, Valencia: Tirant lo Blanch, 2008, p. 41.

[4] Ibid, p. 41. Em reflexão expressa em 2001, lembra Panikkar: “Fui educado no catolicismo de minha mãe espanhola, mas sem jamais ter deixado de permanecer unido à tolerante e generosa religião de meu pai hindu”: R.PANIKKAR, “Non devo difendere la mia verità, ma viverla”, Missione Oggi 4 (2001). Ver ainda: R.PANIKKAR & M.CARRARA, Pellegrinaggio al Kailâsa, Troina: Servitium, 1996, pp. 63-64.

[5] R.PANIKKAR, Entre Dieu et le cosmos, Paris: Albin Michel, 1998, p. 19 (Entretiens avec Gwendoline Jarczyk).

[6] A tese foi publicada em Madrid, em 1951, com posterior edição revisada em 1972.

[7] A tese foi publicada em Madrid, em 1961, com o titulo: Ontonomia de la ciencia. Sobre el sentido de la ciencia y sus relaciones con la filosofia, Madri: Gredos, 1961.

[8] R.PANIKKAR, The Unknown Christ of Hinduism, London: Darton Longman & Tod, 1964 (com posteriores edições em espanhol, francês, italiano, alemão e chinês).

[9] R. PANIKKAR & M.CARRARA, Pellegrinaggio al Kailâsa, p. 65.

[10] R. PANIKKAR, “Mi testamento”. Apud V. P. PRIETO, Más allá de la fragmentación de la teología, p. 53.

[11] R.PANIKKAR, Entre Dieu et le cosmos, p. 21.

[12] R. PANIKKAR & M.CARRARA, Pellegrinaggio al Kailâsa, p. 69.

[13] Apud V. P. PRIETO, Más allá de la fragmentación de la teología, p. 62.

[14] Ibid, p. 63.

[15] São volumes que cobrem um grande itinerário de vida, em torno de 70 anos. Aos volumes citados vem também acrescentado um livro que expressa a síntese de seu pensamento, onde se recolhe as introduções de todos os volumes de sua obra completa (Opera Omnia): R.PANIKKAR, Vita e parola. La mia opera, Milano: Jaca Book, 2010.

[16] R.PANIKKAR, Il dialogo intrareligioso, Assisi: Cittadella, 1988, p. 60; Id. Entre Dieu et le cosmos, p. 84.

[17] Diferentemente de outro buscador, Henri le Saux (Abhishiktananda), a comunhão de Panikkar com o hinduísmo não foi motivo de angústia. Ele reconhece que o simultâneo sentir-se cristão e hindu, monoteísta e advaitin, não foi para ele um problema. Cf. S.BOULAY, La grotte du coeur. La vie de Swami Abhishiktananda (Henri le Saux), Paris: Cerf, 2007, p. 14.

[18] Apud V. P. PRIETO, Más allá de la fragmentación de la teología, p. 55.

[19] Ibid, pp. 55-56.

[20] R.PANIKKAR, L´esperienza della vita. La mistica, Milano: Jaca Book, 2005, pp. 184-185.

[21] J.DUPUIS, Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso, São Paulo: Paulinas, 1999, p. 518; P.F.KNITTER, Introdução à teologia das religiões, São Paulo: Paulinas, 2008, pp. 357-358; C.GEFFRÉ, Profession théologien, Paris: Albin Michel, 1999, p. 242 (Entretiens avec Gwendoline Jarczyk)

[22] R.PANIKKAR, Entre Dieu et le cosmos, pp. 74 e 174.

[23] R.PANIKKAR, “Religion (Dialogo intrarreligioso)”, in C.FLORISTAN & J.J.TAMAYO (Eds), Conceptos fundamentales del cristianismo, Madrid: Trotta, 1993, p. 1148.

[24] R.PANIKKAR, Il Cristo sconosciuto dell´induismo, Milano: Jaca Book, 2008, p. 129. Na visão de Panikkar, é na profundidade da experiência mística que se dá a possibilidade de harmonizar as diversas tradições religiosas, e não numa “abertura horizontal indiscriminada”: S.CALZA, La contemplazione. Via privilegiata al dialogo cristiano-induista, Milano: Paoline, 2001, pp. 176-177. Ele também assinala que “só partindo do fundo mesmo do mistério, e não de suas manifestações, poderemos dizer se as outras religiões são verdadeiras ou simplesmente aparências ilusórias”: R.PANIKKAR, La nuova innocenza 3, Sotto il Monte: Servitium, 1996, p. 142.

[25] R.PANIKKAR, Il dialogo intrareligioso, pp. 76, 85-87 e 110.

[26] R.PANIKKAR, “Préface”, in S.BOULAY, La grotte du cœur, p. 13.

[27] Ver a respeito o belo livro de R.PANIKKAR, Éloge du simple. Le moine comme archétype universel, Paris: Albin Michel, 1995.

[28] R.PANIKKAR & M.CARRARA, Pellegrinaggio al Kailasa, p. 61.

[29] C.DUQUOC & V.ELIZONDO, “Peregrinação: ritual permanente da humanidade”, Concilium (Br) nº 266 (1996) 8.

[30] R.PANIKKAR & M.CARRARA, Pellegrinaggio al Kailasa, p. 61.

[31] H. LE SAUX & O. BAUMER & R.PANIKKAR, Alle sorgenti del Gange. Pellegrinaggio sprituale, Milano: Cens, 1994.

[32] R.PANIKKAR & M.CARRARA. Pellegrinaggio al Kailasa, op.cit.

[33] Ibidem, p. 84.

[34] R.PANIKKAR, Entre Dieu et le cosmos, p. 135.

[35] Para Panikkar, a Trindade expressa uma “concepção propriamente revolucionária, na medida em que se cessa de considerar Deus como uma substância. Deus é relacionalidade pura, ou melhor, ele é uma das dimensões da relacionalidade de todo o real. É nisto que consiste, precisamente, a visão cosmoteândrica”: R.PANIKKAR, Entre Dieu et le cosmos, p. 122.

[36] R.PANIKKAR, Ícones do mistério. A experiência de Deus, São Paulo: Paulinas, 2007, p. 77.

[37] R.PANIKKAR, Il dharma dell´induismo, Milano: Bur, 2006, pp. 171-173. 

[38] R.PANIKKAR, Ícones do mistério, p. 110. O que predomina é a “inter-relação mútua entre imanência e transcendência (...). A divindade é, precisamente, esta imanência e transcendência inserida no coração de cada ser ”: ibidem, pp. 72-73.

[39] R.PANIKKAR, Il Cristo sconosciuto dell´induismo, pp. 54-55.

[40] R.PANIKKAR, Trinità ed esperienza religiosa dell´uomo, Assis: Cittadella Editrice, 1989, p. 70. É interessante constatar a sintonia dessa reflexão de Panikkar com a tradição místico-especulativa alemã, em particular com as reflexões de Margherite Porete, Mestre Eckhart e Angelus Silesius. Para esses místicos da tradição cristã, Deus não pode ser pensado como objeto, daí a dificuldade de falar em “alteridade”, pois nesse caso cai-se na determinação, e Deus não pode ser determinado, pois é infinito. Deus é visto como “propriamente nada” e para que a alma humana dele se aproxime, é necessário que “perca seu próprio nome”, que desapareça enquanto determinada e desapegue-se radicalmente a ponto de transformar-se naquilo que ama. Ver a respeito as reflexões de Marco Vannini in: M.PORETE, Lo specchio delle anime semplice, Cinisello Balsamo: San Paolo, 1994, p. 208, n. 104 e A.SILESIUS, Il pellegrino cherubico, Cinisello Balsamo: San Paolo, 1989, p. 36.

[41] R.PANIKKAR, L´incontro indispensabile: dialogo delle religioni, Milano: Jaca Book, 2001, p. 71.

[42] R.PANIKKAR, La nuova innocenza 3, p. 60.

[43] R.PANIKKAR, “Religion (Dialogo intrarreligioso)”, in C.FLORISTAN & J.J.TAMAYO (Eds), Conceptos fundamentales del cristianismo, p. 1153. Panikkar insiste muito nessa dimensão contemplativa do verdadeiro ecumenismo. E adverte: “Quanto mais estamos convencidos de nossas opiniões, tanto mais seremos ´vencidos` pelo mistério que nos ultrapassa”: Id, La nuova innocenza 3, p. 64.

[44] R.PANIKKAR, Il Cristo sconosciuto dell´induismo, p. 93. Em semelhante linha de reflexão, o teólogo dominicano Christian Duquoc assinala que a “obsessão pela unidade” pode abafar o caráter enigmático que preside a assimetria das religiões. Prefere trabalhar com a metáfora da “sinfonia sempre adiada”. As religiões são representadas como “lugares de múltiplas composições, cuja unidade nos escapa”: C.DUQUOC, O único Cristo. A sinfonia adiada, São Paulo: Paulinas, 2008, p. 166.

[45] R.PANIKKAR, Entre Dieu et le cosmos, p. 149.

[46] P.L.BERGER & T.LUCKMANN, Modernidade, pluralismo e crise de sentido, Petrópolis: Vozes, 2004, p. 54.

[47] R.PANIKKAR, Entre Dieu et le cosmos, pp. 74, 150 e 172.

[48] R.PANIKKAR, La nuova innocenza 3, p. 156.

[49] R.PANIKKAR, Il dialogo intrareligioso, pp. 114-115.

[50] R.PANIKKAR, Entre Dieu et le cosmos, p. 161. Algo semelhante disse Thomas Merton : « Se eu me afirmo como católico simplesmente negando tudo que é muçulmano, judeu, protestante, hindu, budista etc., no fim descobrirei que, em mim, não resta muita coisa com que me possa afirmar como católico : e certamente nenhum sopro do Espírito com o qual possa afirmá-lo » : T.MERTON, Reflexões de um espectador culpado, Petrópolis : Vozes, 1970, p. 166.

[51] A.GESCHÉ, O sentido, São Paulo: Paulinas, 2005, p. 136 (e também p. 135).

[52] R.PANIKKAR, La nuova innocenza 3, pp. 100-103 e Id. L´incontro indispensabile: dialogo delle religioni, pp. 30 e 61.

[53] R.PANIKKAR, Il Cristo sconosciuto dell´induismo, p. 19 (em consideração feita por Panikkar no início da nova edição italiana, em 2007). Para Panikkar, esse é o grande desafio teológico do terceiro milênio, ou seja, “levar em consideração as culturas dos dois terços do mundo que não pertencem ao filão cultural greco-semítico e não vêem a realidade sob a mesma luz”. Trata-se de levar a sério a kenosis de Cristo, o que não significa romper com as precedentes interpretações, mas abrir-se para uma nova consciência do Mistério sempre maior (de Cristo): Ibidem, p. 73.

[54] R.PANIKKAR, Il dialogo intrareligioso, p. 112.

[55] R.PANIKKAR, Cristofania, Bologna: EDB, 1994, p. 26.

[56] R.PANIKKAR, La plenitude de l´homme, Arles: Actes Sud, 2007, p. 197.

[57] R.PANIKKAR, Cristofania, p. 17 (Ver também p. 16); Id. Il Cristo sconosciuto dell´induismo, pp. 94 e 201.

[58] R.PANIKKAR, La nuova innocenza 3, pp. 139 e 142. Assinala Panikkar: “Embora os cristãos não possam chamar Cristo com outros nomes, permanecem aspectos ou dimensões ainda desconhecidos aos cristãos, que não estão incluídos no nome de Cristo, embora a ele relacionados”: Ibidem, p. 141.

[59] R.PANIKKAR, Mistica pienezza di vita, Milano: Jaca Book, 2008, p. 12 (Mistica e spiritualità, tomo 1 – Opera Omnia).

[60] R.PANIKKAR, L´esperienza della vita. La mistica, p. 59.

[61] R.PANIKKAR, Vita e parola. La mia opera, Milano: Jaca Book, 2010, p. 21.

[62] Ibidem, p. 24.

[63] Como assinala Panikkar, “não é fugindo do tempo – uma vez admitido que seria isso possível – que o contemplativo descobre a dimensão tempiterna. Mas integrando-o completamente na dimensão vertical que constantemente entrecorta a linha horizontal do tempo. A tempiternidade não é a ausência, mas a plenitude do tempo, e esta plenitude não é, certamente, só o futuro”: R.PANIKKAR, Mistica pienezza di vita, p. 57.

(Publicado na Revista Perspectiva Teológica, v. 42, n. 118, set/dez 2010, pp. 363-380)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pluralismo religioso, dono di Dio

Pluralismo religioso, dono di Dio 

Principi di base  

per una convivenza pluralista tra le religioni 



1. Il pluralismo religioso è un dono di Dio, e rivela le singole ric- 

chezze della sua saggezza infinita e multiforme. 


2. Per quanto esprimano una ricerca a tentoni di Dio, le religioni 

sono accolte in sé da Dio nella dinamica della sua infinita apertura e mise- 

ricordia. Non sono solo gli assetati a cercare l’acqua, ma è anche l’acqua 

a cercare gli assetati. 


3. Le religioni sono “frammenti” in mezzo a una sintonia il cui oriz- 

zonte porta il segno dell’incompiutezza. Non è possibile che una tradizio- 

ne pretenda di essere da sola in possesso della verità.. 


4. La verità che anima il cammino delle religioni non è qualcosa di 

cui ci si possa appropriare come una garanzia assicurata, ma un mistero 

sempre aperto da cui le religioni devono lasciarsi possedere. 


5. Le religioni presentano limiti e ambiguità, ma sono ugualmente 

assistite dalla meravigliosa libertà dello Spirito, che conosce cammini 

misteriosi e inattesi. 


6. Ogni religione è portatrice di un enigma irriducibile e irrevoca- 

bile, non potendo essere intesa come un segno di attesa che troverebbe 

la propria continuità logica e il proprio compimento pieno in un’altra tra- 

dizione religiosa. La ricchezza delle religioni non è qualcosa che si trovi 

al di fuori di esse, come se il loro valore consistesse nella loro capacità di 

aprirsi positivamente a quello che ignorano. 


7. Disconoscere questo enigma o mistero che coinvolge ogni tradi- 

zione religiosa significa non onorare la sua specificità unica, e disprezzare 

la ricchezza insuperabile dell’alterità. 


8. Sostenere un’asimmetria di base tra le religioni - la cosiddetta 

asimmetria di principio - va contro la dinamica misteriosa dei doni di un 

Dio che abbraccia la diversità. 


9. L’esperienza di fede in un Dio creatore, presente e operante in 

tutti i popoli del mondo, implica il riconoscimento della sua presenza viva 

e accogliente tra le diverse tradizioni religiose. 


10. Dio opera nella storia attraverso mediazioni distinte e diversifi- 

cate. Non c’è ragione plausibile per concentrare la mediazione fondamen- 

tale della presenza salvifica di Dio in un’unica istanza o “porta”, dovendo 

al contrario riconoscere altre forme di questa mediazione, che possono 

essere una persona, ma anche delle Scritture, un avvenimento storico, un 

insegnamento o una prassi. 


11. Accettare il pluralismo religioso come un valore in sé - il cosid- 

detto pluralismo di principio - è una condizione essenziale per il vero 

dialogo interreligioso. Non è possibile dialogare veramente con l’altro 

disconoscendo la ricchezza e il valore irriducibile della sua dignità reli- 

giosa. 


12. Limitarsi a un’unica tradizione religiosa, escludendosi dalla 

provocazione creativa del dialogo con l’alterità, comporta la perdita delle 

ricchezze preziose che irradia la dinamica rivelatrice di Dio, che opera 

nella storia sempre e in ogni luogo. 


13. Il riconoscimento della presenza del Mistero Maggiore negli 

altri conferisce una nuova prospettiva all’identità, rendendo possibile 

l’apertura a nuove e arricchenti dimensioni della stessa fede. 


14. Lungi dall’indebolire la fede, il vero dialogo apre orizzonti 

nuovi e fondamentali per la sua affermazione in un mondo plurale. 


15. Accogliere il pluralismo come un valore in sé non implica solo 

il dialogo tra le religioni, ma anche l’apertura e la complementarità verso 

altre forme di opzioni spirituali, che siano religiose, a-religiose o post- 

religiose. 


http://www.adistaonline.it/js/uploaded/Religioni_e_Pace.pdf

Faustino TEIXEIRA 


Juiz de Fora, Brasile

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O Jesus de Pagola Resenha

Jesus, aproximação histórica, por José Antonio Pagola. Vozes, Petrópolis, 1 vol. Br., 160 x 230 mm, 651 p. – ISBN 978-85-326-4017-8

 

Trata-se de uma excelente novidade editorial da Vozes. Refere-se à nona edição de um livro que vem se tornando bestseller na Espanha, com traduções ao Catalão (Claret), Euskera (Idatz), Italiano (Borla) e Inglês (Paperback). A primeira edição do livro foi publicada na Espanha em setembro de 2007 pela editora PPC (dos religiosos marianistas) e logo alcançou grande sucesso, chegando à oitava edição em fevereiro de 2008. Foi uma acolhida “muito mais ampla e positiva” que a esperada pelo próprio autor, José Antonio Pagola, com formação em teologia e ciências bíblicas pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Pontifício Instituto Bíblico de Roma e Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. A obra provocou igualmente criticas negativas e reações do episcopado espanhol. A primeira delas partiu de Mons. Demetrio Fernández, bispo de Tarazona, que em carta pastoral de dezembro de 2007 assinalou que a “tentação ariana” assoma a obra em seu conjunto. Veio em seguida a apreciação crítica de José Rico Pavés, diretor do Secretariado Episcopal para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), que sinaliza o risco de um “dissenso sutil e daninho” na investigação histórica realizada por Pagola sobre o ensinamento de Jesus. Todas as reações culminaram na nota de clarificação sobre o livro feita pela Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé da CEE, publicada em junho de 2008, que apontou deficiências da obra tanto no plano metodológico como doutrinal. A preocupação maior relacionava-se ao que consideravam uma “apresentação reducionista de Jesus como um mero profeta” e a “negação de sua consciência filial divina”, além de outras questões conexas.

Em defesa da obra posicionou-se o então bispo da diocese de San Sebastián, Juan Maria Uriarte. Ali atuava Pagola como vigário episcopal até o ano 2000 e permanecia atuando como diretor do Instituto de Teologia e Pastoral. Diante da situação crítica, Uriarte solicita a dois qualificados teólogos e a um bispo teólogo a avaliação da obra. Com a sugestão de algumas modificações, a obra ganha o Nihil Obstat de Uriarte e chega assim à sua nona edição, em junho de 2009. É essa versão que sai agora publicada em português. Dentre as mudanças observadas, verifica-se que esta nona edição ganhou uma apresentação mais detalhada e uma significativa ampliação do capítulo final, que trata o tema do aprofundamento da identidade de Jesus.

Na apresentação da obra, Pagola apresenta as razões de sua investigação histórica sobre Jesus. Sua motivação maior é captar o segredo que “se encontra neste fascinante galileu, nascido há dois mil anos numa aldeia insignificante do Império romano e executado como um malfeitor perto de uma antiga pedreira, nos arredores de Jerusalém, quando beirava os 30 anos” (p.11). Lança a questão: “Quem foi este homem que marcou decisivamente a religião, a cultura e a arte do Ocidente chegando até a impor inclusive seu calendário?”(p.11). O objetivo do autor é lançar-se numa séria investigação, a mais rigorosa possível, sobre essa figura fascinante: sobre sua vida, suas lutas e a força e originalidade de sua atuação na história. Para tal aproximação histórica, o autor fez recurso ao rico instrumental à disposição na investigação moderna, e sempre em perspectiva interdisciplinar. Buscou igualmente apresentar seu trabalho numa linguagem simples e acessível, o que muito favorece sua leitura que é agradável e convidativa. Sente-se nessa nova apresentação uma preocupação do autor em explicitar sua intenção de concentrar-se na investigação histórica sobre Jesus, o que não significa abafar o vigor de sua confissão cristã que afirma Jesus como “verdadeiro Deus e verdadeiro homem” (p. 15). Indica claramente que seu propósito não é avançar pelos “complexos caminhos da gestação e desenvolvimento da fé cristológica” (p. 26 e p. 363, n. 2).

Como assinala Pagola, o livro nasceu de sua fé e amor a Jesus Cristo, e estimulado por essa mesma fé buscou narrar a história de Jesus de forma viva e significativa para os tempos atuais. Direciona o livro não apenas para os que se confessam cristãos, mas também para aqueles que ignoram sua realidade ou aqueles que se afastaram ou desencantaram com a igreja e buscam caminhos alternativos de vida (p. 26- 27). Sua intenção é favorecer a aproximação histórica de Jesus “estudando sobretudo a lembrança que ele deixou nos seus” (p.19). E esta aproximação é contagiante: “É difícil aproximar-se dele e não sentir-se atraído por sua pessoa. Jesus traz um horizonte diferente para a vida, uma dimensão mais profunda, uma verdade mais essencial” (p. 22).

Os treze primeiros capítulos da obra buscam favorecer essa aproximação histórica de Jesus, mediante seus traços mais importantes. Tais capítulos facultam aos cristãos conhecer de forma mais palpável os traços humanos daquele em quem Deus revelou-se de modo único e singular: “comover-se-ão ao ver que Deus encarnado conviveu entre os homens fazendo o bem, ´curando a vida`, ´defendendo os últimos`, ´amando a mulher`e procurando a verdadeira dignidade” (p. 24). E aos demais, a possibilidade de “conhecer melhor um homem que marcou a história da humanidade” (p. 23).

Nos dois primeiros capítulos Pagola busca situar Jesus em seu contexto histórico, enquanto judeu da Galiléia e vizinho de Nazaré. Foi sob o império de Roma que viveu esse galileu de nome Yeshua, entre pessoas do campo e num ambiente de viva presença religiosa. Ele “cresceu no meio da natureza, com os olhos muito abertos para o mundo que o rodeava” (p.64), e isso se expressa na abundância de imagens que emprega em sua fala, adornada com elementos de seu espaço circundante: os pássaros do céu, as anêmonas das colinas de Nazaré, as ramas das figueiras, a beleza do sol e a força das chuvas. O seu estilo de vida difere dos ascetas do deserto, pois vem marcado pela vontade de vida e pelo toque festivo. A sua experiência de fé foi desdobrando-se de sua vida simples na Galileia, no clima religioso propício de sua aldeia. Ali foi percebendo que “Deus é o ´Pai do céu`. Não está ligado a um lugar sagrado. Não pertence a um povo ou a uma raça concretos. Não é propriedade de nenhuma religião. Deus é de todos” (p. 73-74). Ali cresceu apaixonadamente em seu coração o amor pelo reino de Deus, que se tornará a razão central de sua vida e atuação (p. 83).

 Nos capítulos terceiro e quarto, apresenta Jesus como buscador de Deus e profeta do reino de Deus. Assim como o profeta João Batista, que o precede, Jesus busca captar a vontade de Deus, mas sua perspectiva é distinta. Seu estilo de vida é festivo, marcado pelo tônus da alegria. Vai dedicar-se “a algo que João nunca fez: curar os enfermos que ninguém curava, aliviar a dor de pessoas abandonadas, tocar leprosos que ninguém tocava, abençoar e abraçar crianças.” (p. 106). Enquanto a missão do Batista estava vinculada à questão do pecado, o projeto de Jesus tinha como objetivo aplacar o sofrimento dos mais excluídos e necessitados, anunciando-lhes uma Boa Notícia: “É mais determinante em sua atuação  eliminar o sofrimento do que denunciar os diversos pecados das pessoas” (p. 213). No cerne de sua atuação encontra-se a “paixão pelo reino de Deus”. Trata-se do núcleo medular de sua pregação, da convicção mais profunda que o anima e o segredo de sua motivação existencial. E essa mensagem do reino volta-se privilegiadamente para os pobres. Jesus declara-os felizes porque Deus é amigo da vida e quer fazer do seu reino uma manifestação da compaixão de Deus que rompe com a situação de miséria e opressão e anuncia uma perspectiva nova de esperança e alegria (p. 130-131). Esta é a razão do impacto exercido pela mensagem de Jesus desde o início: “Aquela maneira de falar de Deus provoca entusiasmo nos setores mais simples (...). Era o que eles precisavam ouvir: Deus se preocupa com eles. O reino de Deus que Jesus proclama corresponde ao que eles mais desejam: viver com dignidade” (p. 124). Esse reino que vem, longe de ser uma expressão de poderio ou glória, é a manifestação efetiva da bondade e compaixão de Deus, que removem as entranhas.

Nos capítulos quinto e sexto, aparece Jesus como o poeta da compaixão e curador da vida. É à linguagem dos poetas que Jesus recorre para expressar a sua experiência e compreensão do reino de Deus. São ricas as imagens, metáforas e parábolas que utiliza para traduzir de forma simples, clara e acessível o seu projeto de vida. O que anuncia é um Deus compassivo, inigualável metáfora para expressar o seu mistério de vida. E o autor indaga: “Será esta a melhor metáfora de Deus: um pai acolhendo de braços abertos os que andam ´perdidos` fora de casa e suplicando a todos os que o contemplam e ouvem que acolham com compaixão a todos?” (p. 164). Com base na parábola do bom samaritano, Pagola sinaliza que “a melhor metáfora de Deus é a compaixão para com um ferido”, e que o reino de Deus acontece onde quer que “as pessoas atuam com misericórdia” (p. 174). Jesus é também curador da vida: alguém que contagia saúde e vida, e junto a ele não há lugar para a tristeza ou solidão. A acolhida e o cuidado são traços singulares de sua atuação. Na base dessa força curadora está a dinâmica de sua própria pessoa: “seu amor apaixonado à vida, sua acolhida afetuosa a cada enfermo ou enferma, sua força para regenerar a pessoa a partir de suas raízes, sua capacidade de transmitir sua fé na bondade de Deus. Seu poder de despertar energias desconhecidas no ser humano criava as condições que tornavam possível a recuperação da saúde” (p. 202).

Os traços de Jesus como defensor dos últimos e amigo da mulher aparecem nos capítulos sétimo e oitavo. A Boa Notícia do reino de Deus toca de modo particular os mais sofridos e pequeninos. Essa é a grande revolução trazida por Jesus, inaugurando a centralidade do “código da compaixão”. Com base na parábola do juízo final (Mt 25,31-46), Pagola indica que “o caminho que conduz a Deus não passa necessariamente pela religião, pelo culto ou pela confissão de fé, mas pela compaixão com os ´irmãos pequenos`”. Conclui dizendo que “a religião não detém o monopólio da salvação; o caminho mais acertado é a ajuda ao necessitado. Por ele caminham muitos homens e mulheres que não conhecem Jesus” (p. 235). Em seu livro, Pagola confere um importante lugar para as mulheres  no movimento de Jesus. Foram verdadeiras “discípulas de Jesus”, estando presentes e atuantes desde a Galileia até Jerusalém. Elas “fizeram parte do grupo que seguia Jesus desde o início”. Algumas são nomeadas, como Maria de Mágdala, que ocupa um lugar de destaque, sendo sua melhor amiga (p. 280-281). O autor assinala a presença delas na última ceia e o seu lugar protagônico na fé pascal (p. 276-277).

Nos três capítulos seguintes, nono, décimo e décimo primeiro, abordam-se os temas de Jesus como mestre de vida, criador de um movimento renovador e crente fiel. Jesus foi um “mestre pouco convencional”. Para ele não é a lei que está no centro, mas o amor. Em sintonia com toda a reflexão anterior, Pagola indica que o reino de Deus anunciado por Jesus exige, antes de tudo, fidelidade ao Deus da Vida e da Aliança. O importante “não é contar com pessoas observantes da leis, mas com filhos e filhas que se pareçam com Deus e procurem ser bons como ele o é” (p. 299). O que Jesus criou, de fato, foi um “movimento renovador”, um “movimento de homens e mulheres saídos do povo” que, em sua companhia, firmam a “consciência da proximidade salvadora de Deus” (p. 323). Seus seguidores são chamados a “compartilhar sua paixão por Deus e sua disponibilidade ao serviço de seu reino” (p. 340). Na edição anterior do livro havia uma passagem que foi retirada na nova edição e que dizia “que Jesus não pôde nem quis colocar em marcha uma instituição forte e organizada, mas um movimento curador que foi transformando o mundo numa atitude de serviço e amor. Não há como explicar a atuação profética de Jesus sem captar o mistério de sua relação amorosa com Deus. ”. É Deus que está no centro de sua vida.  Para Jesus, Deus não se reduz a uma teoria, mas é uma Presença que o transforma interiormente e faculta a tonalidade de sua vida de abertura e compromisso com os outros. A Deus, como Pai, dedica sua oração nos momentos cruciais de sua caminhada. Jesus sempre se dirige a Deus como “Pai”, com quem partilha confiança e intimidade (p. 383 e 392). É o Pai do céu, que “não está ligado ao templo de Jerusalém nem a nenhum outro lugar sagrado. É o Pai de todos, sem discriminação nem exclusão alguma. Não pertence a um povo privilegiado. Não é propriedade de uma religião. Todos podem invocá-lo como Pai” (p. 392). O mistério de Deus é vivido por Jesus de forma peculiar: nele encontra o “melhor amigo do ser humano” e o “amigo da vida”. Estabelece também com ele uma peculiar “intimidade filial”. Uma das “deficiências” indicadas pela crítica da CEE contra o livro de Pagola foi a carência de uma explicitação da consciência filial divina de Jesus. O que o autor sublinha em seu livro, em sintonia com o seu propósito de se fixar no âmbito da investigação histórica, é que “Jesus mostra-se muito discreto sobre sua vida interior” (p. 363). Retoma a questão mais adiante assinalando que “ao que parece, Jesus nunca se pronunciou abertamente sobre sua pessoa. A questão de sua messianidade respondia de forma ambígua” (p. 452). Na edição anterior tinha sido mais contundente: “Em nenhum momento manifesta pretensão alguma de ser Deus: nem Jesus nem seus seguidores em vida utilizaram o titulo de ´Filho de Deus` para confessar sua condição divina”.

Nos capítulos doze, treze e quatorze o autor desenvolve os temas da morte e ressurreição de Jesus. Pagola indica em sua obra que o final trágico encontrado por Jesus foi resultado de sua vida e luta em favor do reino de Deus: “Não foi uma surpresa. Fora sendo gestado desde que ele começou a anunciar com paixão o projeto de Deus que ele trazia no coração” (p. 399). Foi alguém “coerente até o final”, um “mártir do reino de Deus”. Segundo Pagola, a investigação histórica indica que a morte de Jesus não pode ser interpretada numa perspectiva sacrificial. Na verdade, “nunca se vê Jesus oferecendo sua vida como uma imolação ao Pai para obter dele clemência para o mundo. O Pai não precisa que ninguém seja destruído em sua honra. O amor que ele tem por seus filhos é gratuito, seu perdão é incondicional” (p. 419). Essa posição do autor também causou dificuldade para seus opositores. Na apresentação de sua obra, Pagola sinaliza que não quis concluir o seu livro com a perspectiva da cruz. Argumenta que “não quis deixar os leitores confusos diante de um Jesus executado cruelmente num patíbulo. Nem tudo terminou ali. Se a crucifixão tivesse sido a última lembrança que restou de Jesus, não teriam escrito os evangelhos nem teria nascido a Igreja” (p.24). Daí a centralidade da ressureição em sua obra, mas o autor sublinha que sua abordagem do tema foi marcada pela fidelidade ao rastreamento histórico das fontes (p. 25). Na linha dessa abordagem, a ressurreição não significou um retorno de Jesus “à sua vida anterior na terra” (p. 495). Nao foi, propriamente, um “fato histórico” constatável e verificável, mas um “fato real”, que habitou e marcou a vida de seus discípulos, e para os que crêem, um fato decisivo na história humana (p. 497). Trata-se de um “fato real” pois a fé dos seguidores de Jesus não se fundou num vazio. De fato, “algo aconteceu neles. Todas as fontes o afirmam: viveram um processo que não só reavivou a fé que tinham em Jesus, mas os abriu para uma experiência nova e inesperada de sua presença entre eles” (p. 499).

No último capitulo, Pagola desenvolve o tema da identidade de Jesus. Seguindo o critério estabelecido por James Dunn, segundo o qual o objetivo realista de uma pesquisa histórica sobre Jesus é o “Jesus recordado”, o autor vai traçar as repercussões do impacto da ressurreição nos seguidores mais próximos de Jesus. Sob o impacto desse “fato real”, é toda uma releitura da vida e significado de Jesus que vem processada: “Aquela vida surpreendente e cativante que conheceram de perto e cuja memória guardam viva no coração adquire agora uma profundidade nova”. Pagola defende, assim, a idéia de que a “lembrança” traduz o “ponto de partida da fé cristológica” (p. 528).

No epílogo da obra, Pagola adverte sobre a importância de situar Jesus no centro do cristianismo, mas evitando “reduzir sua pessoa a uma sublime abstração” (p. 566). Driblando um dos riscos mais ameaçadores para o cristianismo atual, que é o monofisismo, o autor busca sublinhar os traços do Jesus profeta que percorreu com coragem os caminhos da Galileia. Nada mais problemático para o cristianismo do que um Jesus sem reino e Pagola está muito atento a isto. É para o reino que Jesus vive, é ele que motiva a sua paixão e dá significado à sua vida. Assinala com precisão que “o que ocupa o lugar central na vida de Jesus não é Deus simplesmente, mas Deus com seu projeto sobre a história humana. Jesus não fala de Deus simplesmente, e sim de Deus e seu reino de paz, compaixão e justiça” (p. 568). São lindas reflexões que trazem à tona o percurso reflexivo original da cristologia da libertação latino-americana. O tema do seguimento de Jesus entra no final, coroando com êxito a reflexão de Pagola. O que Jesus deixou atrás de si foi o projeto de dar continuidade ao seu sonho de fraternidade. Não “pensou numa instituição dedicada a garantir no mundo a verdadeira religião. Jesus pôs em marcha um movimento de ´seguidores` que se encarregassem de anunciar e promover seu projeto do ´reino de Deus` (...). Por isso, não há nada mais decisivo para nós do que reativar sempre de novo, dentro da Igreja, o seguimento fiel à pessoa de Jesus” (p. 569).

Não há como ler este livro de Pagola sem se emocionar. Através do recurso de uma linguagem simples mas rigorosa consegue com felicidade apresentar o itinerário histórico de Jesus e provocar as entranhas de compaixão. É uma obra grandiosa e vai, certamente, deixar rastros importantes na reflexão sobre Jesus Cristo e a dinâmica de seu seguimento na história. Muito acertada e pertinente a decisão da editora Vozes em facultar o seu acesso aos leitores brasileiros.

 

(Publicado na REB, v. 70, n. 280, outubro 2010, pp. 974-978)

domingo, 5 de dezembro de 2010

O pluralismo religioso como um dom de Deus

O pluralismo religioso como um dom de Deus

 

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

 

  1. O pluralismo religioso é um dom de Deus e revela as riquezas singulares de sua sabedoria infinita e multiforme.
  2. Antes de expressarem uma busca tateante de Deus, as religiões já foram acolhidas por Deus na dinâmica de sua infinita abertura e misericórdia. Não são os sedentos que buscam a água, mas a água que busca os sedentos.
  3. As religiões são “fragmentos” que participam de uma sinfonia cujo horizonte é marcado pela tônica do inacabamento. Não há possibilidade de uma única tradição pretender-se detentora da posse da verdade.
  4. A verdade que anima a caminhada das religiões não é algo que se apropria como uma garantia assegurada, mas um mistério sempre aberto pelo qual as religiões devem deixar-se possuir.
  5. As religiões são marcadas por limites e ambigüidades, mas estão igualmente envolvidas pela maravilhosa liberdade do Espírito, que indica caminhos que são misteriosos e inusitados.
  6. Cada religião é portadora de um enigma que é irredutível e irrevogável, não podendo ser entendida como um marco de espera que encontra o seu acabamento ou remate numa outra tradição religiosa. A riqueza das religiões não é algo que se encontra fora delas, como se o seu valor estivesse na sua capacidade de abrir-se positivamente àquilo que ignoram.
  7. Desconhecer esse enigma ou mistério que envolve cada tradição religiosa é deixar de honrar a sua especificidade única e macular a riqueza intransponível da alteridade.
  8. A defesa de uma assimetria de princípio entre as religiões compromete a dinâmica misteriosa dos dons de um Deus que abraça a diversidade.
  9. A experiência de fé num Deus criador, que está presente e vivo em cada domínio do planeta, implica em reconhecer sua presença viva e acolhedora entre as diversas tradições religiosas.
  10. Deus atua na história através de mediações distintas e diversificadas. Não há razão plausível para concentrar a mediação fundamental da presença salvífica de Deus numa única instância ou “porta”, mas há que perceber outras formas dessa mediação, que podem ser uma pessoa, mas também um livro, um evento, um ensinamento ou uma práxis.
  11. A acolhida do pluralismo de princípio é uma condição essencial para o verdadeiro diálogo interreligioso. Não há como dialogar verdadeiramente com o outro desconhecendo a riqueza e o valor irredutível de sua dignidade religiosa.
  12. Fixar-se numa única tradição religiosa, excluindo-se da provocação criadora da interlocução da alteridade, é deixar escapar bens preciosos  que irradiam na dinâmica reveladora de Deus, sempre em ação na história.
  13. O reconhecimento da presença do Mistério Maior nos outros confere uma nova perspectiva à identidade, facultando a abertura para novas e enriquecedoras dimensões da própria fé.
  14. Longe de enfraquecer a fé, o diálogo verdadeiro abre horizontes novos e fundamentais para a sua afirmação num mundo plural.
  15. A acolhida do pluralismo de princípio requer não apenas o diálogo entre as religiões, mas também a abertura e aprendizado com outras formas de opções espirituais, sejam  religiosas, a-religiosas ou pós-religiosas.

 

 

El pluralismo religioso como don de Dios

 

1. El pluralismo religioso es un don de Dios, y revela las riquezas singulares de su sabiduría infinita y multiforme.

2. Aunque expresan una búsqueda a tientas de Dios, las religiones son acogidas en sí mismas por Dios en la dinámica de su infinita apertura y misericordia. No es sólo que los sedientos buscan agua, sino que el agua busca a los sedientos.

3. Las religiones son «fragmentos» en medio de una sinfonía cuyo horizonte lleva la marca del inacabamiento. No es posible que una tradición pretenda estar solamente ella en posesión de la verdad.

4. La verdad que anima el caminar de las religiones no es algo que pueda ser apropiado como una garantía asegurada, sino un misterio siempre abierto, por el que las religiones deben dejarse poseer.

5. Las religiones tienen límites y ambigüedades, pero están igualmente asistidas por la maravillosa libertad del Espíritu, que conoce caminos misteriosos e inesperados.

6. Cada religión es portadora de un enigma irreductible e irrevocable, no pudiendo ser entendida como un marco de espera que encuentra su continuidad lógica y su cumplimiento pleno en otra tradición religiosa. La riqueza de las religiones no es algo que se encuentre fuera de ellas, como si su valor consistiese en su capacidad de abrirse positivamente a aquello que ignoran.

7. Desconocer ese enigma o misterio que envuelve a cada tradición religiosa es no honrar su especificidad única, y despreciar la riqueza insuperable de la alteridad.

8. Sostener una asimetría básica entre las religiones -la llamada asimetría de princípio- va contra la dinámica misteriosa de los dones de un Dios que abraza la diversidad.

9. La experiencia de fe en un Dios creador, presente y actuante en todos los pueblos del mundo, implica reconocer su presencia viva y acogedora entre las diversas tradiciones religiosas.

10. Dios actúa en la historia a través de mediaciones distintas y diversificadas. No hay razón pausible para concentrar la mediación fundamental de la presencia salvífica de Dios en una única instancia o «puerta», sino que debemos reconocer otras formas de esa mediación, que pueden ser una persona, pero también unas Escrituras, un acontecimiento histórico, una enseñanza, o una praxis.

11. Aceptar el pluralismo religioso como un valor en sí mismo -el llamado pluralismo de principio-  es una condición esencial para el verdadero diálogo inter-religioso. No es posible dialogar verdaderamente con el otro desconociendo la riqueza y el valor irreductible de su dignidad religiosa.

12. Limitarse a una única tradición religiosa, excluyéndose de la provocación creativa del diálogo con la alteridad, conlleva la pérdida de las riquezas preciosas que irradia la dinámica reveladora de Dios, que actúa en la historia siempre y en todo lugar.

13. El reconocimiento de la presencia del Misterio Mayor en los otros confiere una nueva perspectiva a la identidad, posibilitando la apertura a nuevas y enriquecedoras dimensiones de la propia fe.

14. Lejos de debilitar la fe, el diálogo verdadero abre horizontes nuevos y fundamentales para su afirmación en un mundo plural.

15. Acoger el pluralismo como un valor por sí mismo, no sólo implica el diálogo entre las religiones, sino también la apertura y la complementariedad hacia otras formas de opciones espirituales, sean religiosas, a-religiosas o pos-religiosas.

(Publicado também em IHU-Notícias, de 14/01/2011:

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=39870 )

 

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O pluralismo religiso como desafio para a teologia

O pluralismo religioso como desafio para a teologia

 

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

 

O inclusivismo religioso tem raízes profundas e solidificadas na tradição teológica cristã. É muito difícil romper essa impermeável barreira que obstaculiza a abertura sincera para as outras tradições religiosos, no que elas tem de irredutível e irrevogável. Não há como honrar a singularidade das religiões mantendo uma perspectiva de superioridade, seja explícita ou mais sutil. Nesses últimos decênios temos verificado no âmbito da conjuntura eclesiástica católica uma crescente afirmação de posicionamentos que confirmam essa perspectiva restritiva. Vale mencionar a homilia proferida pelo papa Bento XVI na abertura da Assembléia Especial para o Médio Oriente, em 10 de outubro de 2010. O papa reconhece a presença de uma salvação universal, que passa porém por uma “mediação determinada, histórica: a mediação do povo de Israel, que depois se torna a de Jesus Cristo e da Igreja”. Há uma “porta” definida e necessária para que o evento da salvação aconteça de fato. Essa idéia é recorrente e firmada na tradição católico-romana, com um significativo aporte da reflexão teológica. São poucos os teólogos que se aventuram numa reflexão distinta, e aqueles que o fazem encontram duras barreiras para a continuidade de sua “livre” reflexão. Vivemos, infelizmente, um tempo marcado pela afirmação das identidades, e não da disponibilidade dialogal. O caminho tradicionalmente traçado vai na linha da exigência evangelizadora explícita, ou de uma nova evangelização, para tentar frear a crise que envolve o campo cristão nessa alvorada do terceiro milênio. A recente criação de um Pontifício Conselho para a Nova Evangelização é expressão desse novo momento, como uma exigência que deve animar corações e mentes.

Nós, que acreditamos num pluralismo de princípio caminhamos numa direção distinta. A idéia que nos anima é a do “inacabamento”. Estamos todos envolvidos numa “sinfonia sempre adiada”, para utilizar uma rica expressão de Christian Duquoc. Não há possibilidade de garantia alguma de posse da verdade ou do mistério. A verdade não é algo de que nos apropriamos como garantia, mas um mistério sempre aberto, pelo qual nos devemos deixar possuir (DA 49). Todas as religiões são “fragmentos” animados de forma diversificada por uma Presença Espiritual que é permanente surpresa. Trata-se de uma ilusão imaginar que cada um desses fragmentos está destinado a encontrar o seu acabamento numa dada tradição religiosa. Todos eles estão envolvidos pela maravilhosa liberdade do Espírito, que indica caminhos que são misteriosos e inusitados. Nada mais problemático que defender uma assimetria de princípio. Uma tal assimetria não consegue abarcar a “extraordinária diversidade das tradições” e muito menos honrar a dignidade da diferença. Na perspectiva defendida por aqueles que acreditam numa complementação, realização ou acabamento, o que há de valor nas outras tradições religiosas é sua “capacidade de abrir-se positivamente àquilo que ignoram”. Não se dá aí um respeito à sua identidade única e intransponível.

Para os que defendem um pluralismo de princípio, há uma convicção firmada de que Deus atua na história através de mediações distintas e diversificadas. E isso não prejudica em nada o compromisso que cada um deve assumir com a sua experiência específica de Deus. Como sublinhou Roger Haight, “a experiência cristã do que Deus fez em Jesus Cristo não se afigura diminuída pelo reconhecimento do Deus verdadeiro atuante em outras religiões”. Não há por que concentrar a mediação fundamental da presença salvífica de Deus numa única instância, ou numa única “porta”. O reconhecimento da verdade das religiões implica, necessariamente, uma abertura para percebê-las como canais verdadeiros da presença gratuita e misteriosa de Deus. As religiões são mediadoras da salvação de Deus. Se para o cristianismo a mediação basilar da presença e da salvação de Deus à humanidade vem identificada com a pessoa de Jesus, e isso define existencialmente e confessionalmente a perspectiva cristã, isso não exclui outras formas dessa mediação divina na dinâmica das outras religiões. A mediação pode ser ali um livro, um evento, um ensinamento ou uma práxis. Há, portanto, diversos caminhos de acesso ao Mistério maior, que os cristãos nomeiam como Deus. Há ainda que acrescentar que o reconhecimento da presença do Mistério Maior nos outros confere uma nova perspectiva para a identidade. Não há como firmar a identidade religiosa num tempo plural, excluindo o apelo que vem do mundo do outro. A fé cristã, por exemplo, como mostrou Adolphe Gesché, necessita de uma interface ou de um “lugar fora de sua residência” para o exercício de sua realização. Ela se vê hoje desafiada não apenas pelo diferenciado mundo das religiões, mas também pelo enriquecedor universo das distintas opções espirituais, sejam religiosas ou não.