domingo, 5 de dezembro de 2010

O pluralismo religioso como um dom de Deus

O pluralismo religioso como um dom de Deus

 

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

 

  1. O pluralismo religioso é um dom de Deus e revela as riquezas singulares de sua sabedoria infinita e multiforme.
  2. Antes de expressarem uma busca tateante de Deus, as religiões já foram acolhidas por Deus na dinâmica de sua infinita abertura e misericórdia. Não são os sedentos que buscam a água, mas a água que busca os sedentos.
  3. As religiões são “fragmentos” que participam de uma sinfonia cujo horizonte é marcado pela tônica do inacabamento. Não há possibilidade de uma única tradição pretender-se detentora da posse da verdade.
  4. A verdade que anima a caminhada das religiões não é algo que se apropria como uma garantia assegurada, mas um mistério sempre aberto pelo qual as religiões devem deixar-se possuir.
  5. As religiões são marcadas por limites e ambigüidades, mas estão igualmente envolvidas pela maravilhosa liberdade do Espírito, que indica caminhos que são misteriosos e inusitados.
  6. Cada religião é portadora de um enigma que é irredutível e irrevogável, não podendo ser entendida como um marco de espera que encontra o seu acabamento ou remate numa outra tradição religiosa. A riqueza das religiões não é algo que se encontra fora delas, como se o seu valor estivesse na sua capacidade de abrir-se positivamente àquilo que ignoram.
  7. Desconhecer esse enigma ou mistério que envolve cada tradição religiosa é deixar de honrar a sua especificidade única e macular a riqueza intransponível da alteridade.
  8. A defesa de uma assimetria de princípio entre as religiões compromete a dinâmica misteriosa dos dons de um Deus que abraça a diversidade.
  9. A experiência de fé num Deus criador, que está presente e vivo em cada domínio do planeta, implica em reconhecer sua presença viva e acolhedora entre as diversas tradições religiosas.
  10. Deus atua na história através de mediações distintas e diversificadas. Não há razão plausível para concentrar a mediação fundamental da presença salvífica de Deus numa única instância ou “porta”, mas há que perceber outras formas dessa mediação, que podem ser uma pessoa, mas também um livro, um evento, um ensinamento ou uma práxis.
  11. A acolhida do pluralismo de princípio é uma condição essencial para o verdadeiro diálogo interreligioso. Não há como dialogar verdadeiramente com o outro desconhecendo a riqueza e o valor irredutível de sua dignidade religiosa.
  12. Fixar-se numa única tradição religiosa, excluindo-se da provocação criadora da interlocução da alteridade, é deixar escapar bens preciosos  que irradiam na dinâmica reveladora de Deus, sempre em ação na história.
  13. O reconhecimento da presença do Mistério Maior nos outros confere uma nova perspectiva à identidade, facultando a abertura para novas e enriquecedoras dimensões da própria fé.
  14. Longe de enfraquecer a fé, o diálogo verdadeiro abre horizontes novos e fundamentais para a sua afirmação num mundo plural.
  15. A acolhida do pluralismo de princípio requer não apenas o diálogo entre as religiões, mas também a abertura e aprendizado com outras formas de opções espirituais, sejam  religiosas, a-religiosas ou pós-religiosas.

 

 

El pluralismo religioso como don de Dios

 

1. El pluralismo religioso es un don de Dios, y revela las riquezas singulares de su sabiduría infinita y multiforme.

2. Aunque expresan una búsqueda a tientas de Dios, las religiones son acogidas en sí mismas por Dios en la dinámica de su infinita apertura y misericordia. No es sólo que los sedientos buscan agua, sino que el agua busca a los sedientos.

3. Las religiones son «fragmentos» en medio de una sinfonía cuyo horizonte lleva la marca del inacabamiento. No es posible que una tradición pretenda estar solamente ella en posesión de la verdad.

4. La verdad que anima el caminar de las religiones no es algo que pueda ser apropiado como una garantía asegurada, sino un misterio siempre abierto, por el que las religiones deben dejarse poseer.

5. Las religiones tienen límites y ambigüedades, pero están igualmente asistidas por la maravillosa libertad del Espíritu, que conoce caminos misteriosos e inesperados.

6. Cada religión es portadora de un enigma irreductible e irrevocable, no pudiendo ser entendida como un marco de espera que encuentra su continuidad lógica y su cumplimiento pleno en otra tradición religiosa. La riqueza de las religiones no es algo que se encuentre fuera de ellas, como si su valor consistiese en su capacidad de abrirse positivamente a aquello que ignoran.

7. Desconocer ese enigma o misterio que envuelve a cada tradición religiosa es no honrar su especificidad única, y despreciar la riqueza insuperable de la alteridad.

8. Sostener una asimetría básica entre las religiones -la llamada asimetría de princípio- va contra la dinámica misteriosa de los dones de un Dios que abraza la diversidad.

9. La experiencia de fe en un Dios creador, presente y actuante en todos los pueblos del mundo, implica reconocer su presencia viva y acogedora entre las diversas tradiciones religiosas.

10. Dios actúa en la historia a través de mediaciones distintas y diversificadas. No hay razón pausible para concentrar la mediación fundamental de la presencia salvífica de Dios en una única instancia o «puerta», sino que debemos reconocer otras formas de esa mediación, que pueden ser una persona, pero también unas Escrituras, un acontecimiento histórico, una enseñanza, o una praxis.

11. Aceptar el pluralismo religioso como un valor en sí mismo -el llamado pluralismo de principio-  es una condición esencial para el verdadero diálogo inter-religioso. No es posible dialogar verdaderamente con el otro desconociendo la riqueza y el valor irreductible de su dignidad religiosa.

12. Limitarse a una única tradición religiosa, excluyéndose de la provocación creativa del diálogo con la alteridad, conlleva la pérdida de las riquezas preciosas que irradia la dinámica reveladora de Dios, que actúa en la historia siempre y en todo lugar.

13. El reconocimiento de la presencia del Misterio Mayor en los otros confiere una nueva perspectiva a la identidad, posibilitando la apertura a nuevas y enriquecedoras dimensiones de la propia fe.

14. Lejos de debilitar la fe, el diálogo verdadero abre horizontes nuevos y fundamentales para su afirmación en un mundo plural.

15. Acoger el pluralismo como un valor por sí mismo, no sólo implica el diálogo entre las religiones, sino también la apertura y la complementariedad hacia otras formas de opciones espirituales, sean religiosas, a-religiosas o pos-religiosas.

(Publicado também em IHU-Notícias, de 14/01/2011:

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=39870 )

 

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O pluralismo religiso como desafio para a teologia

O pluralismo religioso como desafio para a teologia

 

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

 

O inclusivismo religioso tem raízes profundas e solidificadas na tradição teológica cristã. É muito difícil romper essa impermeável barreira que obstaculiza a abertura sincera para as outras tradições religiosos, no que elas tem de irredutível e irrevogável. Não há como honrar a singularidade das religiões mantendo uma perspectiva de superioridade, seja explícita ou mais sutil. Nesses últimos decênios temos verificado no âmbito da conjuntura eclesiástica católica uma crescente afirmação de posicionamentos que confirmam essa perspectiva restritiva. Vale mencionar a homilia proferida pelo papa Bento XVI na abertura da Assembléia Especial para o Médio Oriente, em 10 de outubro de 2010. O papa reconhece a presença de uma salvação universal, que passa porém por uma “mediação determinada, histórica: a mediação do povo de Israel, que depois se torna a de Jesus Cristo e da Igreja”. Há uma “porta” definida e necessária para que o evento da salvação aconteça de fato. Essa idéia é recorrente e firmada na tradição católico-romana, com um significativo aporte da reflexão teológica. São poucos os teólogos que se aventuram numa reflexão distinta, e aqueles que o fazem encontram duras barreiras para a continuidade de sua “livre” reflexão. Vivemos, infelizmente, um tempo marcado pela afirmação das identidades, e não da disponibilidade dialogal. O caminho tradicionalmente traçado vai na linha da exigência evangelizadora explícita, ou de uma nova evangelização, para tentar frear a crise que envolve o campo cristão nessa alvorada do terceiro milênio. A recente criação de um Pontifício Conselho para a Nova Evangelização é expressão desse novo momento, como uma exigência que deve animar corações e mentes.

Nós, que acreditamos num pluralismo de princípio caminhamos numa direção distinta. A idéia que nos anima é a do “inacabamento”. Estamos todos envolvidos numa “sinfonia sempre adiada”, para utilizar uma rica expressão de Christian Duquoc. Não há possibilidade de garantia alguma de posse da verdade ou do mistério. A verdade não é algo de que nos apropriamos como garantia, mas um mistério sempre aberto, pelo qual nos devemos deixar possuir (DA 49). Todas as religiões são “fragmentos” animados de forma diversificada por uma Presença Espiritual que é permanente surpresa. Trata-se de uma ilusão imaginar que cada um desses fragmentos está destinado a encontrar o seu acabamento numa dada tradição religiosa. Todos eles estão envolvidos pela maravilhosa liberdade do Espírito, que indica caminhos que são misteriosos e inusitados. Nada mais problemático que defender uma assimetria de princípio. Uma tal assimetria não consegue abarcar a “extraordinária diversidade das tradições” e muito menos honrar a dignidade da diferença. Na perspectiva defendida por aqueles que acreditam numa complementação, realização ou acabamento, o que há de valor nas outras tradições religiosas é sua “capacidade de abrir-se positivamente àquilo que ignoram”. Não se dá aí um respeito à sua identidade única e intransponível.

Para os que defendem um pluralismo de princípio, há uma convicção firmada de que Deus atua na história através de mediações distintas e diversificadas. E isso não prejudica em nada o compromisso que cada um deve assumir com a sua experiência específica de Deus. Como sublinhou Roger Haight, “a experiência cristã do que Deus fez em Jesus Cristo não se afigura diminuída pelo reconhecimento do Deus verdadeiro atuante em outras religiões”. Não há por que concentrar a mediação fundamental da presença salvífica de Deus numa única instância, ou numa única “porta”. O reconhecimento da verdade das religiões implica, necessariamente, uma abertura para percebê-las como canais verdadeiros da presença gratuita e misteriosa de Deus. As religiões são mediadoras da salvação de Deus. Se para o cristianismo a mediação basilar da presença e da salvação de Deus à humanidade vem identificada com a pessoa de Jesus, e isso define existencialmente e confessionalmente a perspectiva cristã, isso não exclui outras formas dessa mediação divina na dinâmica das outras religiões. A mediação pode ser ali um livro, um evento, um ensinamento ou uma práxis. Há, portanto, diversos caminhos de acesso ao Mistério maior, que os cristãos nomeiam como Deus. Há ainda que acrescentar que o reconhecimento da presença do Mistério Maior nos outros confere uma nova perspectiva para a identidade. Não há como firmar a identidade religiosa num tempo plural, excluindo o apelo que vem do mundo do outro. A fé cristã, por exemplo, como mostrou Adolphe Gesché, necessita de uma interface ou de um “lugar fora de sua residência” para o exercício de sua realização. Ela se vê hoje desafiada não apenas pelo diferenciado mundo das religiões, mas também pelo enriquecedor universo das distintas opções espirituais, sejam religiosas ou não.

 

 

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Caminhos de intolerância

Caminhos de Intolerância

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=37487

IHU, 20-10-10

Faustino Teixeira, professor e pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora, comenta a proibição do uso do véu na França. Faustino Teixeira é graduado em Ciência das Religiões e Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Fez mestrado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutorado, na mesma área, pela Pontificia Universidade Gregoriana, de onde recebeu o título de pós-doutor. Atualmente, é professor na Universidade Federal de Juiz de Fora. Entre seus diversos livros publicados, destacamos: Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso (Aparecida do Norte: Santuário, 2008) e Teologia das Religiões: uma visão panorâmica (São Paulo: Paulinas, 1995). Faustino Teixeira seleciona, organiza e edita as Orações inter-religiosas, publicadas semanalmente, sempre às quintas-feiras, no blog do IHU. A entrevista é de Regina Folter e publicada pela revista Livrevista, outubro de 2010.

A lei que proíbe o uso de véu que cubra integralmente o rosto foi aprovada pelo Senado francês na terça-feira, dia 14 de setembro, sob o argumento de que “utilizar um véu num espaço público vai contra a igualdade entre cidadãos porque constitui um atentado à igualdade e ofende a dignidade humana, em especial a da mulher”. Qual é sua opinião a respeito desse argumento? Existe alguma pretensão por detrás da decisão do governo francês?

A questão é bem mais complexa. Envolve a preocupação do governo francês com a presença de uma população muçulmana que já se revela a segunda religião da França, com cerca de 5 milhões de adeptos. É a mais forte presença na Europa. Como indica a socióloga Danièle Hervieu-Léger, estamos diante de um conflito social e cultural “bem mais fundamental ainda, que é o do lugar a ser dado, numa sociedade democrática desestabilizada pelo desemprego, às comunidades imigradas e, portanto ao islã, com o qual elas estão relacionadas”. A religião firma-se para tais comunidades como o “lugar da conquista possível de sua dignidade e da construção de sua individualidade”. Está também em jogo a discussão sobre a laicidade, tema tão caro na França. No final da década de 80, quando a presença socialista era mais hegemônica, defendia-se uma posição bem mais “temperada”, com a defesa de uma laicidade amistosa, não agressiva ou de combate: uma “laicidade mediadora”. Os tempos mudaram com o acirramento ideológico do cenário politico, e o temor relacionado a um “choque de civilizações”. O que vigora em toda a Europa, como bem mostrou Manuel Castells, em artigo no jornalLa Vanguardia(25/09/2010), é um xenofobismo crescente e preocupante, que envolve um “coquetel de intolerância” onde o anti-islamismo é “o principal ingrediente, agora associado ao estigma do terrorismo potencial”.

A recente proibição do niqab, o véu integral, em lugares públicos é uma viva expressão dessa nova “explosão de xenofobia” e de desrespeito à alteridade. A França é o segundo país europeu, seguindo o exemplo da Bélgica, a proceder tal gênero de interdição. Visa-se, oficialmente, a evitar a “dissimulação do rosto no espaço público”, mas o que se pretende é algo mais doloroso… E isto vem ocorrendo em toda Europa. O que mais preocupa é que medidas preocupantes de intolerância vêm ganhando apoio da população. Cerca de 82% dos franceses apoiam a deportação de ciganos, definida no governo deSarkozy. Em cidades com significativa presença muçulmana, como Marselha, a população vem apoiando a proibição das convocatórias dos muezins à oração. Um referendo na Suiça determinou a proibição de novos minaretes, e isso serve de exemplo para os franceses. O veto do niqab e da burqa, que também ocorre na Itália ou prédios públicos da Catalunha, insere-se nessa política mais geral.

Qual é a importância da utilização da burqa ou do niqab para a religião islâmica? O que esses objetos representam para os muçulmanos?

Antes de entrar na questão temos que reconhecer que o mundo muçulmano não é assim um quadro monolítico e homogênio como vem apresentado pelo imaginário cultural e pelo discurso politico das sociedades euro-americanas, mas apresenta uma enorme diversidade histórica, cultural e política, como bem mostrou o pesquisador Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto em brilhante obra sobre a religião e civilização no islã (Santuário, 2010). É também incorreto afirmar, como o faz Samuel Huntington, que a sociedade islâmica é “inóspita” para as concepções liberais ocidentais. Trata-se de uma visão claramente ideologica e preconceituosa. Nada mais empiricamente falso do que identificar o islã com uma “essência fixa” que se reproduz igualmente por toda parte. O que ocorre não é somente uma pluralidade geográfica, étnica e cultural, mas também uma “enorme diversidade nas formas de interpretação, prática e experiência no islã”.

Essa diversidade reflete-se também no âmbito das interpretações e usos desse importante símbolo do islã, que é o véu. Há referências canônicas, expressas no Alcorão, para esse uso: “Dize também às crentes que recatem seus olhares, conservem seus pudores e não mostrem seus encantos naturais, além do imprescindível (…)” (24:31 e também 33:59).

Mas como mostrou Paulo Gabriel, o islã, como outras tradições religiosas, está “em constante processo de atualização e recriação de seus modelos normativos, cujos elementos constitutivos podem ser ressignificados e modificados em cada momento histórico e contexto cultural”. Isso se dá também com o uso do véu: o niqab, que cobre todo o corpo da mulher, com exceção das mãos e dos olhos, é mais utilizado na Arábia Saudita e em boa parted a Península Arábica.

Na França são cerca de 2.000 muçulmanas que utilizam esse traje integral. Já a burqa, que cobre inclusive os olhos com uma gaze de tecido, vem utilizada no Afeganistão. No Irã, o rosto fica à mostra com o chador, que é um longo pano que envolve o corpo da mulher. Já na Síria, Líbano e Turquia, temos a presença do hijab, um lenço que oculta os cabelos, e vem muitas vezes combinado com modernas calças jeans, que realçam as formas femininas. O véu é um símbolo de distinção, um sinal de proteção e de afirmação de dignidade (horma). O significado etimológico do termo hijab é esclarecedor: significa separação, véu de proteção e preservação.

Como as mulheres muçulmanas serão afetadas com a medida? Vão ocorrer mudanças estruturais em suas vidas?

É evidente que uma tal proibição viola a dignidade das mulheres muçulmanas e seu direito de convicção religiosa. Não sem razão, instâncias como a Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa e a Anistia Internacional pronunciaram-se contra uma tal decisão, com um argumento semelhante: é algo que fere o direito à liberdade de expressão e de religião das mulheres muçulmanas, para as quais esse símbolo traduz também um traço de sua identidade.

Na sua opinião, os muçulmanos podem te algum tipo de reação contra a lei, como deixar o país?

Tendo como base a situação atual da França, com a mudança da condição dos imigrados, que se sedentarizam e com a chegada à idade adulta de gerações de origem muçulmana nascidas ali, as que mais sofrem com as dificuldades de integração social e profissional, uma semelhante discriminação pode provocar reações inusitadas. Projetos de exclusão, com toques de islamofobia, podem “prefigurar a violência sob todas as formas”.

Como os países muçulmanos e não-muçulmanos vão encarar a aprovação da lei?

É difícil prever de antemão as possíveis reações. Não creio, porém, que serao muito positivas. Entre os estudiosos de Al-Azhar, um dos principais centros de teologia islâmica no mundo, as opiniões dividiram-se. Determinadas autoridades defenderam o respeito à decisão tomada pelo senado francês, enquanto outras criticaram duramente a decisão, por contrariar o princípio fundamental da liberdade. É interessante constatar que ali mesmo em Al-Azhar, o presidente Americano, Barak Obama, defendeu vigorosamente esse princípio da liberdade, no clássico discurso de 04 de junho de 2009: “É importante que os países ocidentais evitem impedir os cidadãos muçulmanos de praticar sua religião como bem entenderem – ditando, por exemplo, o vestuário de uma mulher muçulmana. Não podemos disfarçar com supostas pretensões liberais a hostilidade diante de uma religião”.

Na sua opinião, a lei fere os direitos humanos?

Considero imprescindível a discussão em torno da laicidade e a defesa de uma sociedade multiconfessional. Importante também a busca de caminhos de uma concordância fundada na razão. Defendo a ideia de uma “laicidade mediadora”, uma laicidade amistosa, radicalmente distinta de uma laicidade de combate, como estamos vendo renascer ultimamente. Trata-se, na verdade, de uma “laicidade de incompetência”, como diriaRegis Debray, que desconhece o desafio fundamental de conhecer o mundo do outro, para com ele melhor conviver. Não é rompendo com a dinâmica da liberdade e invadindo o âmbito da consciência que se firma uma sociedade democrática. Na verdade, como bem sublinhou Edward Said, “as culturas são em geral mais naturalmente elas mesmas quando entram em parceria com outras”

Diversidade, dom de Deus

Diversidade e diálogo: Entrevista com Faustino TeixeiraPDFStampaE-mail
Scritto da Jaime C. Patias, IMC   
Martedì 05 Ottobre 2010 00:00

diversidad"As religiões deveriam transparecer com sinais vitais na história o mistério de um Deus de misericórdia"."A diversidade é um dom que se insere na dinâmica misteriosa dos desígnios divinos. O pluralismo de princípio significa reconhecer a diversidade como um valor, como uma riqueza fundamental, como parte do mistério de Deus que nós não conseguimos compreender na sua totalidade", afirmou o professor Faustino Teixeira, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais (UFJF), em entrevista à revista Missões durante curso sobre Ecumenismo, promovido pelo Centro Ecumênico de Serviço à Evangelização Popular - CESEP, no mês de julho, em São Paulo. Faustino é pós-doutor pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG), Itália, doutor em Teologia pela mesma universidade, mestre em Teologia, pela PUC-RJ e graduado em Filosofia e em Ciências da Religião pela UFJF. É autor de vários livros, dentre os quais "Nas teias da delicadeza" (Paulinas, 2006) e "As religiões no Brasil: continuidades e rupturas" (Vozes, 2006), este em parceria com Renata Menezes.

Faustino Teixeira nasceu em Juiz de Fora, numa família numerosa e muito religiosa. Seus pais tiveram 15 filhos, dez homens e cinco mulheres; ele é o oitavo filho e atribui à influência da família e dos amigos a sua busca por valores universais. O sonho do pesquisador é que exista um maior entendimento e respeito à diversidade de culturas e de religiões.

Para se dispor ao diálogo inter-religioso e ecumênico, que atitudes a pessoa deveria ter?

Uma disposição fundamental é a humildade, virtude indispensável para viver uma perspectiva dialogal em profundidade. Ter a consciência da contingência, de que não somos permanentes, mas que estamos em viagem neste mundo com outras pessoas, outras comunidades. O cultivo da humildade é uma das disposições mais difíceis e importantes. A segunda disposição é a abertura, ou seja, perceber que o outro com o qual eu entro em relação é alguém marcado por um mistério que eu não consigo jamais englobar, é alguém que experimenta a sua vida num espaço sagrado e que por isso tenho de respeitar a alteridade. Reconhecer que o outro é alguém que merece confiança, que tem uma dignidade e que sua convicção religiosa deve ser respeitada. Uma terceira disposição é a consciência do meu valor, da minha dignidade.

O diálogo deve ser feito por alguém que ama e acredita na sua identidade. Não pode dialogar quem não conhece os traços fundamentais da sua própria identidade. Tenho que dialogar com as minhas convicções para ser respeitado e respeitar as convicções do outro. O diálogo não é feito para abafar as individualidades. Não há diálogo verdadeiro quando eu escondo a minha identidade. Preciso levar ao interlocutor com quem dialogo aquilo que eu acredito. Uma quarta disposição é o sentimento comum de busca da verdade. Os interlocutores devem estar intimamente animados pela ideia de que caminham juntos em busca de um horizonte que só Deus conhece. Nunca um interlocutor está em posse radical do mistério. Somos itinerantes, estamos a caminho, ninguém está em sua pátria. Estamos envolvidos por uma verdade que nos ultrapassa. E é na dinâmica inter-relacional, dialogal, que a verdade vai florescendo. A verdade é a expressão de uma sinfonia inter-religiosa. Uma última disposição é a ecumene da compaixão, o exercício da compaixão. As religiões se unem animadas por uma compaixão comum de luta em favor do outro, da dignidade da terra, do criado, na luta contra o sofrimento, numa disposição de misericórdia.

Vivemos num tempo favorável ao diálogo, por outro lado percebemos um endurecimento das relações com o surgimento de fundamentalismos e extremismos. Como explicar isso?

Essa é a grande estranheza que a gente sente. Apesar de vivermos num tempo marcado pela abertura dialogal, vivenciamos simultaneamente um apego identitário muito forte, identidades que às vezes se revelam mortíferas que não só se fecham nos seus guetos como atacam, não abrindo espaços nas pessoas e comunidades para a percepção do valor. Vivenciamos essa dupla dialética, pelo fato do pluralismo balançar as nossas identidades, colocando-nos diante dum desafio aberto que está relacionado com o mistério do outro que provoca em nós um certo temor e a necessidade de mudar a nossa auto-compreensão. Todo o diálogo autêntico provoca mudança na nossa perspectiva de inserção no mundo e na nossa compreensão da identidade. Mas, nem todos estão preparados, e queremos uma transformação no nosso modo de ser.

Em seus escritos você fala num "pluralismo de princípios". O que seria esse conceito?

Deveríamos distinguir entre um pluralismo de fato e um pluralismo de princípios ou de direito. O pluralismo de fato significa que existe a diversidade religiosa como um fato e não há como driblar essa realidade. Pluralismo de princípio é que existe em nós uma perspectiva diferente; não apenas aceitar isso como um dado histórico, mas perceber essa realidade como algo adquirido por Deus. A diversidade é um dom que se insere na dinâmica misteriosa dos desígnios divinos. Então o pluralismo de princípio significa não apenas apurar a diversidade, mas reconhecer a diversidade como um valor, como uma riqueza fundamental, como parte do mistério de Deus que nós não conseguimos compreender na sua totalidade. O importante é perceber que há uma riqueza nessa diversidade e que ela manifesta a diversificação de um mistério que é sempre maior.

Em que as igrejas e religiões poderiam contribuir para garantir a sobrevivência da humanidade ameaçada?

As religiões têm um potencial garantidor do sentido, de resgatar o sentido ameaçado. Todas as religiões trabalham com elementos de profundidade, com um toque de espiritualidade. Elas têm uma tarefa fundamental de fazer valer essas entranhas do mistério misericordioso. A de rejeitar radicalmente uma situação de sofrimento humano, da terra e têm o papel de se unir em favor da paz mundial como afirmou Hans Küng: "não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões". Então as religiões são convocadas a se unir contra o sofrimento do mundo. Talvez esse seja um dos mais fortes dinamizadores do diálogo inter-religioso.

Muitos conflitos são gerados por motivos religiosos. Qual é a relação entre guerra e religião?

Isso, infelizmente, porque as religiões não são somente portadoras de paz. As religiões estão na história e são marcadas por essa precariedade, são fragmentárias. Portanto, nem sempre, necessariamente as religiões desdobram na sua prática os elementos positivos do mistério. Muitas vezes elas expressam a vontade de determinados grupos ou setores. Penso que a tarefa profética que deve animar todas as religiões é o de lutar contra essas ambiguidades e fazer com que transpareçam como sinais vitais na história, o mistério de um Deus de misericórdia. Nem sempre as religiões são isentas dessa ambiguidade, portanto, elas podem ser tanto portadoras de paz como provocadoras da violência na medida em que elas se deixam levar pela vontade da arrogância de humanos.

Como entender e situar a Missão no horizonte do pluralismo religioso?

Sob o ponto de vista do cristianismo, nós temos como centro de referência fundamental Jesus Cristo. Não há como apagar para nós e para os outros com os quais entramos em contato esse sonho de Jesus, o significado de Jesus como curador da vida, como portador de alegria e como recuperador dos sonhos mais fundamentais. O trabalho da Missão eu vejo muito mais como um exercício de amor e não como um mandato. A Missão não pode ser vista como uma obrigação, mas como uma experiência de amor daqueles que viveram de forma profunda a experiência de contato e de sedução por Jesus Cristo e querem transmitir aos outros essa experiência de amor. Não só de Jesus Cristo como pessoa, mas dos valores que ele trouxe; da cortesia, da hospitalidade, da abertura, da delicadeza, da alegria... Nós somos convocados a partilhar com os outros o significado fundamental desses valores que ele deixou pra nós. Ou seja, nós somos convidados a não deixar apagar esse sonho do Reino de Deus na história. É uma missão respeitosa dos outros.

Que avaliação faz das iniciativas do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs - CONIC, como a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e a Campanha da Fraternidade Ecumênica?

São iniciativas brilhantes. Os ganhos que se têm no diálogo inter-religioso não obstaculizam os trabalhos feitos no campo do ecumenismo. Inclusive, o trabalho ecumênico prepara o campo para uma abertura inter-religiosa. Todas as iniciativas no Brasil e no mundo são peças de grande importância na sensibilização do respeito ao outro, do respeito à consciência do outro. O meu diálogo com o outro é capaz de oferecer percepções da verdade que eu não capto na minha comunidade de fé. O outro é capaz de revelar pra mim elementos inéditos da minha experiência de Deus. Isso abre possibilidade mais ampla para um diálogo inter-religioso que não diminui a importância e o valor do diálogo ecumênico.


(Publicado na Revista Missões, Ano XXXVII, nº 7, setembro 2010, pp. 26-27)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A presença dos espíritos no imaginário da sociedade brasileira

A presença dos espíritos no imaginário da sociedade brasileira

 

Faustino Teixeira

Entrevista ao IHU Online

 

 

1. Como explicar a presença e aceitação do espiritismo num país de marcada presença católica ?

 

O campo religioso brasileiro vem sofrendo mudanças substantivas nas últimas décadas. O catolicismo vai perdendo aos poucos sua tranquila hegemonia, tendo que conviver com uma dinâmica religiosa marcada pela presença crescente dos pentecostais e dos “sem religião”. Um fenômeno recorrente a partir dos anos 1980 é o “trânsito religioso”. Pesquisas realizadas por Ronaldo de Almeida, indicam que uma em quatro pessoas mudou de religião no Brasil nos anos 1990 e uma em cada três na Grande São Paulo, nos anos 2000. Outra pesquisa realizada em 1994, desenvolvida pelo ISER, sobre a presença dos evangélicos, apontou que “cerca de 70% dos evangélicos do Grande Rio não nasceram, nem foram criados num lar evangélico. Entraram na igreja por adesão voluntária, rompendo com a religião dos pais”. A pesquisa constatou que a maior parte desses evangélicos vieram do catolicismo (61%), que é o maior “doador” de fiéis, e em seguida aparece a umbanda ou candomblé (16%) e o espiritismo kardecista (6%). Os dados do ultimo Censo IBGE (2000) indicam que o catolicismo ainda responde por 73,8% da declaração de crença. Trata-se, porém, de um catolicismo marcadamente plural. Como assinala Carlos Brandão, o nosso catolicismo é uma religião que abraça a diversidade e possibilita diversas alternativas de viver a crença e a fé. Uma religião “em que Deus pode ter muitos rostos”. Pierre Sanchis vai ainda mais longe, ao afirmar que “há religiões demais nesta religião”. A plasticidade é uma marca característica da religião no Brasil. Como diz o personagem Riobaldo Tartarana, no Grande Sertão: Veredas,

 

“Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces do compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca”.

 

Estudiosos e observadores do campo religioso no Brasil destacam a presença de uma “impregnação espírita”, ou “querela dos espíritos” na sociedade brasileira que escapam à percepção do Censo. O Censo de 2000 indicou que a declaração de crença espírita envolve cerca de 1,4% da população, em torno de 2.337.432 adeptos. Mas não há dúvida de que o “imaginário espírita” tem uma abrangência muito maior. Em entrevista concedida ao IHU On-Line (nº 169 – dezembro de 2005), Bernardo Lewgoy sublinhou a “alta ressonância social” das crenças espíritas no Brasil, que escapa de sua vinculação exclusiva aos centros espíritas. Para ele “o kardecismo é um caso de importância qualitativa muito superior à quantitativa”. Vale também lembrar que o povo brasileiro tem uma familiaridade particular com os “espíritos”. Como assinala com razão o antropólogo José Jorge de Carvalho, “são dezenas de milhões de brasileiros que entram em transe regularmente, recebem entidades ou estabelecem relações personalizadas (de perturbação ou apoio) com a mais variada gama de espíritos”. E deixar-se habitar pelos “espíritos” é também fator de afirmação de uma dignidade singular, de intensificação da qualidade do ser sujeito, como mostrou Roger Bastide em sua bela reflexão sobre a dança dos deuses:

 

“Não são mais costureirinhas, cozinheiras, lavadeira que rodopiam ao som dos tambores nas noites baianas; eis Omolu recoberto de palha, Xangô vestido de vermelho e branco, Iemanjá pentenando seus cabelos de algas. Os rostos metamorfosearam-se em máscaras, perderam as rugas do trabalho cotidiano, desaparecidos os estigmas desta vida de todos os dias, feita de preocupação e de miséria; Ogum guerreiro brilha no fogo da cólera, Oxum é toda feita de volúpia carnal. Por um momento, confundiram-se África e Brasil; aboliu-se o oceano, apagou-se o tempo da escravidão (…). Não existem mais fronteiras entre natural e sobrenatural; o êxtase realizou a comunhão desejada”.

 

A forma de viver a religiosidade no Brasil é bem mais alargada do que aquela declarada no Censo. Há no Brasil o fenômeno recorrente da dupla pertença. Em pesquisa realizada por Luiz Eduardo Soares e Leandro Piquet Carneiro, em 1990, por solicitação e patrocínio do Centro João XXIII (IBRADES), com base nos dados do Gallup, constatou-se que 46% dos católicos praticantes acreditam na reencarnação. Dado também confirmado por outra pesquisa realizada no mesmo ano na Arquidiocese de Belo Horizonte. Em levantamento feito com paroquianos de frequência regular nas missas da Arquidiocese, com aplicação de 270.000 fichas, verificou-se que 54,8% dos entrevistados declararam acreditar na reencarnação.

 

2. Há ainda outros elementos que ajudam a compreender essa aproximação ?

 

Não há como tratar dessa familiaridade que aproxima a tradição espírita do catolicismo, bem como da receptividade peculiar que a tradição kardecista vem alcançando no Brasil, sem assinalar a sua interface com o catolicismo. Como mostrou José Jorge de Carvalho, “o espiritismo é também cristão ou neo-cristão, na medida em que reintroduz, revaloriza noções cristãs tais como a de caridade. Ele não só ressemantiza aspectos do cristianismo como introduz o mundo dos espíritos de uma forma agora muito mais ampla, complementando a doutrina equivalente praticada pelas tradições esotéricas e pelas religiões afro-brasileiras”. Alguns pesquisadores que se dedicam ao estudo do espiritismo no Brasil, como Bernardo Lewgoy e Sandra Stoll, falam de um “ethos católico do espiritismo brasileiro”. O exemplo mais claro disso é a presença de Chico Xavier. Em seu livro sobre o espiritismo à brasileira (2003), Sandra Stoll assinala que “esse modo católico de ser espírita, concretizado por Chico Xavier através do exemplo de vida, parece ser responsável, em larga medida, pela transformação dessa que era uma doutrina estrangeira em religião integrante do ethos nacional. Da moda de salão, da atividade de cunho terapêutico, o Espiritismo passou a integrar o imaginário brasileiro”. Esse imaginário vem reforçado por uma impressionante literatura espírita e sua presença nos meios de comunicação social, particularmente nas telenovelas de caráter espírita. Só Chico Xavier contribui com mais de 400 livros psicografados, em 70 anos de produção. Para Sandra Stoll, “num momento em que a inserção na mídia, em especial a televisão, se destaca como fator de divulgação doutrinária, constituindo um novo campo de disputa no espaço público, o Espiritismo vem allargando sua inserção social, especialmente entre os segmentos de classe media, por meio de investimento no campo literário”. Vale também ressaltar o sucesso de bilheteria de filmes como “Chico Xavier” e o mais recente, “Nosso lar”.

 

3. Comentar as perseguições que os cultos de origem africana sofreram a partir da proclamação da república, cuja inspiração positivista os via como motivo de atraso e por isso tentou proibí-los, inclusive pela força da lei. 

 

Em clássico artigo publicado na revista Religião e Sociedade, de março de 1986, a antropóloga Yvonne Maggie aborda a questão da repressão sofrida pelas religiões mediúnicas no Brasil, e o faz por intemédio de pesquisa realizada nos arquivos de processos judiciais instaurados para julgar acusados de práticias ilegais de medicina, curandeirismo e magia. Serve-se em particular do decreto 847 da Código Penal de 1890, o primeiro grande conjunto de leis a reger a nova ordem juridical associada ao nascente regime republicano. O artigo 157 prescreve prisão e multa para aquele que “praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancias, para despertar sentimentos de ódio ou amor, inculcar cura de moléstias curáveis ou incuráveis, enfim, para fascinar e subjugar a credulidade pública”. Estava, assim, configurado um “medo do feitiço”. Esse tema foi também objeto da dissertação de mestrado de Emerson Giumbelli, depois publicada em livro: “O cuidado dos mortos. Uma história da condenação e legitimação do Espiritismo” (1995). Em seu trabalho, Giumbelli destacou que as ações policiais e os processos judiciais contra grupos filiados à doutrina de Kardec antecedem ao Código Penal de 1890, e indica referências a isso já em 1881.

 

4. Por que o espiritismo antes tão condenado pela igreja católica, agora passou a ser perseguido pelas núcleos neopentecostais?

 

O Brasil foi sempre reconhecido como o país do sincretismo religioso, pela rica capacidade de ressemantização das identidades religiosas, mediante processos de relações e aprendizados com os diferentes. Nas últimas décadas temos verificado, com preocupação, expressões crescentes de exclusivismo religioso, com toques de “beligerância iconoclasta”. Em 1995 teve o triste episódio, conhecido como “chute na santa”. Mais recentemente atearam fogo na imagem de Santo Expedito, no interior de São Paulo (Ourinhos). Exercícios de intolerância religiosa ocorrem em templos neopentecostais e mesmo em circuitos da renovação carismática católica. No livro do bispo Macedo, Orixás, caboclos e guias, com inúmeras edições, busca-se identificar o apoderamento do demônio com a participação direta ou indireta nos centros espíritas ou com os trabalhos realizados pelas tradições religiosas afro-brasileiras. Não muito distante, temos também a linguagem etnocêntrica e excludente do padre Jonas Abib, da Canção Nova, em seu livro Sim,sim, Não, não, com mais de 400 mil exemplares vendidos, e que provocou intensa reação na Bahia. Sobretudos algumas igrejas pentecostais que se firmam a partir década de 1970, dando ênfase ao tema da libertação e do exorcismo, os adversários simbólicos são bem definidos: sobretudo as religiões afro-brasileiras, e de forma mais ampla, as crenças que compõem o repertório “católico-afro-kardecista”, povoado por  santos, energias, espíritos, promessas, trabalhos, feitiços etc. Na já mencionada pesquisa realizada pelo ISER em 1994, sobre os evangélicos no Grande Rio, verificou-se que eles “se percebem como militantes de um grande confronto espiritual. 89% acreditam na existência de religiões demoníacas”.  Nas respostas dos evangélicos entrevistados, 95% atribuem este caráter à Umbanda e ao Candomblé; 83% ao Espiritismo Kardecista; 52% ao ateísmo e 30% ao Catolicismo.  A demonização é palavra corrente nos livros doutrinais, nos cultos e rituais desses núcleos neopentecostais e, em especial, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Mas curiosamente, como mostrou Ronaldo de Almeida, em trabalho sobre a guerra das possessões, a IURD acaba elaborando uma “antropofagia da fé inimiga”. Por mecanismos singulares de “fagocitose religiosa” acaba assimilando traços essenciais das crenças que são combatidas. 

(Publicado no IHU-Notícias de 09/09/2010)

sábado, 28 de agosto de 2010

Raimon Panikkar, buscador do mistério

Raimon Panikkar, buscador do Mistério

 

Faustino Teixeira

 

Os místicos dizem que a morte mais difícil não é a morte física, essa morte pequena, mas aquela que acontece com o desapego radical e o mergulho na profundidade da alma. A expressão utilizada é “morrer antes de morrer”. Assim aconteceu com Raimon Panikkar, que nos deixou nesse agosto de 2010, aos 91 anos de idade. Talvez tenha sido um dos Buscadores do Mistério mais ousados e provocadores. Sua vida foi toda tecida pela dinâmica da relação. De mãe católica e pai hindu, traz em sua vida esse traço de dialogação. Uma vez perguntado sobre o seu itinerário pessoal respondeu que partiu cristão, descobriu-se hindu e retornou budista, sem ter jamais cessado de ser cristão. E anos depois, acrescentou que no seu retorno, descobriu-se um cristão melhor. Esse é Panikkar, referência singular para o diálogo das religiões e a reflexão sobre a espiritualidade. A perspectiva dialogal estava envolvida em sua vida como o musgo na pedra. Não via futuro nas religiões a não ser no intercâmbio criativo entre elas. Dizia que sem a interlocução externa as religiões não poderiam senão afogar-se. Propunha um “diálogo dialógico”, mais existencial, de “fecundação mútua”, que pudesse de fato envolver os parceiros numa busca comum do mistério. O diálogo para ele era, antes de tudo, um ato espiritual, que implicava uma profunda consciência da humildade e vulnerabilidade dos interlocutores diante do Mistério sempre maior e adiante. Mesmo reconhecendo todas as dificuldades que acompanham a abertura e o êxodo para o mundo do outro, acreditava que esse era o caminho seguro para a construção da identidade. Tornava-se necessário conhecer e dialogar com uma outra tradição religiosa para poder situar verdadeiramente a própria tradição. Em frase lapidar, assinalava que “aqueles que não conhecem senão sua própria religião não a conhecem verdadeiramente”.

Na visão de Panikkar, o diálogo interreligioso requer como condição fundamental a atitude de “uma busca profunda, uma convicção de que estamos caminhando sobre um solo sagrado”. Há que se despir de preconceitos para acessar o mundo do outro. E essa viagem não é fácil. Mas há que sair do “esplêndido isolamento”. O encontro com o outro torna-se hoje “inevitável, importante e urgente”. Mas alongar as cordas é sempre muito difícil. Exige um questionamento profundo às nossas convicções e a disposição de deixar-se transformar pelo outro. Como indica Panikkar, é também um encontro “perigoso e desconcertante”, mas certamente purificador. É a condição indispensável para nos darmos conta da profundidade inexaurível da experiência humana e dos limites precisos de nossos vínculos contingenciais e limitados. Para Panikkar, o salto desarmado na realidade é “audacioso e mortal”, e esse foi o exemplo deixado por peregrinos como Buda e Jesus. No horizonte dessa busca o que existe é algo encantadoramente simples, como destaca Mestre Eckhart: algo que é “florescente e verdejante”. Panikkar indica que o verdadeiro buscador deve voltar-se para o que é simples por excelência: o Mistério que nos habita e que também brilha no mundo do outro. Na verdade, o diálogo é uma viagem novidadeira que toca de perto nossa própria peregrinação pessoal, no sentido do encontro com a plenitude de nós mesmos. Há que jogar-se com liberdade nessa água, nos diz Panikkar, ainda que nossas pernas vacilem e nosso coração titubeie. Mesmo sabendo que há o risco de nele nos perdermos e afogar, é o caminho essencial para tocar o fundo.

No último período de sua jornada, Panikkar dedicou-se ao tema da mística e da espiritualidade. Para ele, a mística vem entendida como a “experiência integral da vida” ou “experiência da Realidade última”. E a categoria Realidade assumia para ele uma importância única, de densidade mais ecumênica para expressar o significado profundo da experiência do Mistério sempre maior. Enquanto a mística traduz para ele essa “experiência suprema da realidade”, a espiritualidade vem entendida como o caminho para alcançar essa experiência. É ela que faculta o essencial fermento para a qualidade da vida e para o encontro autêntico com o outro.

Em bela iniciativa da editora italiana Jaca Book, toda a obra de Panikkar está sendo recolhida e organizada e vários volumes, divididos por temas, entre os quais: mística e espiritualidade, religião e religiões, cristianismo, hinduísmo, budismo, cultura e religiões em diálogo, hinduísmo e cristianismo, visão trinitária e cosmoteândrica, mistério e hermenêutica, filosofia e teologia, secularidade sagrada, espaço tempo e ciência (Opera Omnia). 

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Testemunhos Espirituais

Testemunhos Espirituais

 

Faustino Teixeira

 

 

Em sua clássica obra sobre a teologia da libertação (1972), Gustavo Gutiérrez sublinhou a importância de uma espiritualidade marcada pelo toque da gratuidade, entendida como o segredo para um testemunho libertador efetivo. O encontro com o Deus gratuito firma-se como um requisito essencial para o despojamento necessário ao exercício de amor aos outros: “Só o amor gratuito vai até a raiz de nós mesmos e faz aí brotar o verdadeiro amor”. Ao definir a espiritualidade da libertação, Gutiérrez sinalizou que ela “é uma forma concreta, movida pelo Espírito, de viver o evangelho. Maneira precisa de viver ´diante do Senhor` em solidariedade com todos os homens”. Dois importantes exemplos desse testemunho espiritual, singulares teólogos da libertação, deixaram o nosso convívio nesses últimos meses. Dois teólogos chilenos virtuosos: Ronaldo Muñoz (1933-2009) e Segundo Galilea (1928-2010). Não há como falar da teologia da libertação sem recordar esses dois profetas da espiritualidade. Ronaldo Muñoz, que faleceu em dezembro de 2009, foi uma das figuras mais delicadas de nossa reflexão teológica latino-americana. Conseguiu articular com maestria o trabalho acadêmico com a experiência junto às comunidades cristãs populares. Impressiona o carinho com que se dedicou aos mais pobres, que para ele refletiam de forma viva e transparente o rosto de Jesus. Em depoimento dado num encontro de teólogos da libertação em Embu-Guaçu (São Paulo), no ano de 1989, e que depois saiu em vídeo (Iser-Vídeo 1990), dizia que a opção pelos pobres é de direito divino, pois eles são os prediletos de Jesus: “É Deus mesmo que opta pelos pobres. Os pobres são a ´debilidade` de Deus. São o ponto de onde Deus se faz sensível, sofrido e esperançado na história humana”. Em sua rica e permanente convivência com  comunidades cristãs populares encontrou um povo sofrido e esperançoso, marcado por infinita acolhida e ternura. E confessa: “Devo dizer que para mim o carinho de meus vizinhos, dos meus irmãos de comunidade, entre os pobres, tem chegado a ser como as mãos de Deus que me sustentam na vida e na alegria de viver”. Todos os que tiveram a alegria e o privilégio de entrar em contato com ele, puderam captar a irradiação viva de sua ternura, acolhida e generosidade. Também Segundo Galilea, que faleceu em maio de 2010, foi exemplo de uma espiritualidade viva. Aliás, sempre que se fala em espiritualidade da libertação é um nome que vem à tona. Foi um dos pioneiros dessa reflexão na teologia da libertação. No clássico numero da revista internacional de teologia, Concilium, de 1974 (n. 96), dedicado à teologia da libertação, o teólogo Claude Geffré sublinhava no editorial o nascimento de um novo tipo de espiritualidade, marcado pela dimensão bíblica do compromisso. Dizia: “Não se trata de negar outras dimensões tradicionalmente válidas de contemplação cristã, mas de tornar a encontrar por meio da integração a dimensão bíblica, histórica, comprometida, da contemplação, dimensão tão esquecida pelos cristãos”. No mesmo número da revista, o artigo de Segundo Galilea expressava o novo modo de compreender a espiritualidade na América Latina, pontuado pela doação e pelo compromisso. A experiência contemplativa e o toque da oração são traços essenciais que irrigam com nova luz e vida a dinâmica de inserção na história. Como indica Galilea, “o Cristo encontrado e contemplado na oração ´se prolonga` no encontro com o irmão”. Anos mais tarde, Gustavo Gutiérrez iria traduzir e aprofundar essa perspectiva no belo livro Beber no próprio poço, firmando a idéia de que a gratuidade faculta um “clima” essencial para o compromisso histórico. Um clima fino e precioso que “envolve e banha nosso empenho em sermos eficazes na história”. Em singular imagem bíblica, Galilea evoca o exemplo de Moisés para delinear a dinâmica de proximidade e êxodo que acompanham a espiritualidade libertadora. A experiência de Deus não se encerra na esplêndida contemplação da sarça ardente no deserto. Ali se dá o encontro com o Mistério do “Outro”, que é pessoal e solitário: “Tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa” (Ex 3,5). Mas esse encontro provoca a sede pelo Mistério dos “outros” e a missão de responder ao clamor de Deus em favor da libertação do povo cativo no Egito (Ex 3,7ss). Esses dois teólogos chilenos deixaram um exemplo transparente de simplicidade, abertura e compromisso com os mais pobres. Esse é o testemunho que fala mais alto. A primeira geração dos teólogos da libertação começa a brilhar noutras esferas, deixando para nós o desafio imprescindível de levar à frente uma espiritualidade sintonizada com o tempo e atenta aos dons do Mistério sempre maior.