terça-feira, 25 de maio de 2010

Louis Massignon: a hospitalidade dialogal

Louis Massignon: a hospitalidade dialogal[1]

 

“Pour comprendre l´autre,

il ne faut pas se l´annexer,

mais devenir son hôte”

 

 

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

 

 

Resumo: O diálogo inter-religioso apresenta-se hoje como um dos grandes desafios do século XXI, sendo caminho essencial para a afirmação de um horizonte de paz para a humanidade. Trata-se de uma das artes mais difíceis e arriscadas da conversação, mas essencial na construção de uma cidania que respeite a alteridade. O objetivo desse artigo é apresentar a trajetória de um dos grandes interlocutores do diálogo entre cristianismo e islã, Louis Massignon (1883-1962), um pioneiro na abertura da igreja católica ao mundo muçulmano. Com sua perspectiva de vida e reflexão favoreceu um novo olhar sobre o islã, esse mundo religioso que envolve hoje cerca de uma em cada cinco pessoas do mundo.

 

Palavras-Chave: Diálogo, Cristianismo, Islã, Mística, Hospitalidade.

 

Introdução

 

Louis Massignon (1883-1962) foi um grande buscador no campo do diálogo inter-religioso, com sua particular vocação de abertura ao islã. É reconhecido como um dos singulares conhecedores do islã e dos árabes, sendo responsável pela renovação dos estudos de mística muçulmana e também pela mudança da perspectiva missiológica católica com respeito ao mundo muçulmano. Na visão de Henri Teissier, ele representou para a igreja católica o papel de “precursor incontestável, artesão incansável e testemunho extraordinário do empenho evangélico em favor da solidariedade espiritual com o islã e mais em geral com todos aqueles que buscam o absoluto no nosso tempo”.[2] Um traço original de sua vida foi a capacidade de conjugar pesquisa e vida, empenho acadêmico e desvelo espiritual. Trata-se de alguém marcado por grande sensibilidade e entranhas de compaixão. Ao testemunhar sobre o amigo Massignon, depois de sua morte, Jacques Maritain sublinhou como traço de sua herança a unidade radical entre a ciência mais erudita, a “devoradora sede mística de justiça e de absoluto” e a “fé extraordinariamente reta e pura”[3].

 

1. O caminho da conversão

 

Louis Massignon nasce no dia 25 de julho de 1883, na cidade de Nogent-sur-Marne (França), sendo filho de um conhecido escultor agnóstico e de uma mãe católica praticante. Recebe sua educação religiosa em Paris, mas num ambiente marcado pela laicidade. O interesse pelo Oriente nasce por ocasião de seus estudos secundários no Liceu Montaigne e Louis-le-Grand, quando então faz contato com Henri Masperò e a biblioteca de seu pai, o conhecido egiptólogo Gaston Masperò. As primeiras angústias metafísicas o acompanham desde este período. Traços significativos da personalidade de Massignon são revelados em sua correspondência com o amigo Henri Masperò. Nas primeiras cartas, datadas de 1901, já se capta a sua “insaciável curiosidade de espírito”[4].  Termina o bacharelado em 1900 e se inscreve na universidade onde faz seus estudos de letras e história. Sua primeira viagem em terras muçulmanas (Argéria) acontece em 1901, quando tinha 17 anos. A escolha do tema de seus estudos na universidade[5] cria as condições para outras viagens aos países muçulmanos. Durante o período em que faz o serviço militar, nos anos 1902 e 1903 em Rouen, perde a fé cristã de sua infância. Em 1906 diploma-se em árabe na Escola de Linguas Orientais, sendo igualmente nomeado no mesmo ano membro do Instituto Francês de Arqueologia Oriental no Cairo, o que favoreceu sua dedicação em tempo integral ao estudo da arte e da civilização árabe[6]. Durante uma missão arqueológica na Mesopotâmia, nos anos 1907-1908, vem aprisionado no rio Tigre pela polícia turca e acusado de espião. A experiência suscita uma forte crise religiosa, que culminou em tentativa de suicídio, em 3 de maio de 1908. Foram feitas na ocasião inúmeras especulações sobre sua saúde.[7] É no contexto desta dolorosa experiência que se dá o processo de conversão de Massignon, identificada pelo evento da “visita do Estrangeiro”[8]. Sobre este episódio, Massignon guardou segredo por muito tempo, só revelando o seu significado  em texto publicado sete anos antes de sua morte: “Ele acendeu um fogo no meu coração onde a faca havia falhado, cicatrizando o meu desespero que Ele havia lacerado, como a fosforescência de um peixe ressurgido do fundo das águas abissais”.[9] Este evento transfigura o universo para Massignon, proporcionando-lhe novo alento vital. Para a retomada de sua fé foi de fundamental importância a hospitalidade que encontrou junto a alguns amigos muçulmanos[10]. Em carta de 1938  assinala o lugar que teve o islã em sua conversão:

 

É bem verdade que sou crente, profundamente cristão, católico. E não é menos verdade que se  retornei à minha crença, há trinta anos, depois de cinco anos de incredulidade, deve-se aos amigos muçulmanos de Bagdá, os Alussy (...). É em árabe que falaram de mim a Deus, suplicando-lhe, e de Deus a mim; é em árabe que pensei e vivi minha conversão, em maio-junho de 1908 (...). Daí o meu profundo reconhecimento ao islã, do qual dou testemunho em todos meus trabalhos científicos.[11]

 

Quem acompanhou bem de perto todo esse processo de conversão de Massignon, foi o amigo Paul Claudel (1868-1955). São inúmeras as cartas que, nesse período, traduzem a grande amizade espiritual que se firmou entre os dois companheiros. Paul Claudel foi não só o confidente próximo como também o grande interlocutor de Massignon após o evento de sua conversão. Em carta dirigida a Claudel, em fevereiro de 1911, Massignon assinala a presença dos árabes em sua conversão e a importância de sua experiência na Mesopotâmia, em 1908, quando então se cauteriza o seu agnosticismo. Reconhece que é ali na Mesopotâmia que acontecem as mais ricas ocasiões para o decisivo aprendizado de que é no sacrifício integral que se amplia a potencialidade do amor[12].

 

É significativo perceber como foi mediante a hospitalidade islâmica que Massignon descobriu o sentido do sagrado. Em singular passagem de seu diário, Paul Claudel relata com cores vivas o processo de conversão de Massignon, que a ele foi relatado pelo amigo em confidência e segredo. Ao final de um longo e doloroso caminho, que esbarrou na sedução do suicídio, Massignon foi tocado por teofanias singulares: a visita do estrangeiro e o encontro com o Deus de Abraão, a revelação da verdade (haqq) no bater das asas das pombas no hospital muçulmano de Bagdá, e a profonda sensação da presença de Deus como o Pai que acolhe o filho pródigo[13].

 

O estudioso, Guy Harpigny, assinala a presença de três ciclos no itinerário de vida de Louis Massignon: o ciclo de Hallaj, o ciclo de Abraão e o ciclo de Gandhi[14]. O primeiro ciclo conclui-se com a realização da grande pesquisa de Massignon sobre o místico persa muçulmano al-Hallaj (858-922)[15], que resultou em sua tese doutoral, defendida em 1922. O segundo ciclo envolve as novas pesquisas de Massignon que avançam até sua ordenação sacerdotal, em 1950. O terceiro ciclo acompanha o período final da vida de Massignon, marcado por seu engajamento temporal e sua compaixão universal.

2. O ciclo de Hallaj: Um outro olhar sobre o islã

 

Louis Massignon percebe no caminho do Oriente a possibilidade de retomada do coração. Não mais lhe satisfaz o deserto frio e estéril do racionalismo, mas a riqueza viva e emotiva do universo simbólico do islã. O conhecimento do árabe favoreceu-lhe o acesso aos escritores, poetas, filósofos e sobretudo os místicos sufis (persas e árabes). Mediante a leitura do Memorial dos Santos, do grande místico persa Farid ud din Attar (sec. XII), toma conhecimento de outro grande nome do sufismo, Hussayn Mansur al Hallaj (857-922), que se tornará seu grande objeto de reflexão e estudo. Assim que tomou conhecimento da obra de al Hallaj, em 24 de março de 1907, no Cairo, Massignon  decidiu dedicar seu doutorado em letras ao estudo do grande mártir místico do islã. Comunica sua decisão ao pai em abril do mesmo ano, em carta onde fala do encanto que lhe produz a cor intensa e o andamento trágico do martírio de al Hallaj.[16]

 

Sua tese foi concluída em 1914, mas em razão da guerra só pôde ser apresentada na Sorbone em 24 de maio de 1922.  Uma parte do manuscrito, consignado na tipografia de Louvain, foi destruído pelo fogo dos primeiros bombardeamentos da cidade, em 1914. A volumosa tese teve como título: La passion de Husayn Ibn Mansûr Hallaj: martyr mystique de l´islam exécuté à Bagdad le 26 mars 922[17].

 

Louis Massignon foi profondamente marcado pela experiência vital de al-Hallaj, uma das mais extraordinárias figuras da mística muçulmana. Tratava-se, a seu ver, de um grande “amante de Deus”, que conseguiu alcançar um excepcional nível de união com o divino. Em carta de 1949, Massignon relata a força dessa presença em sua vida: alguém que o ajudou a compreender a cruz e a rezar em árabe[18]. Seu objetivo maior era, mediante o léxico de al-Hallaj, alcançar o “coração do islã”[19], deixando-se hospedar pela tradição mística do islã. Na especificidade dos textos místicos, de sua linguagem peculiar, encontrava a chave de acesso ao Real e a experiência única de “comoção mesma do contato divino”[20]. Como mostrou Roger Arnaldez, foi mediante a espiritualidade hallajiana que Massignon discerniu o lugar singular de abertura do islã ao cristianismo, e pela razão dessa mística favorecer um “sentido e verdade à unidade do monoteísmo abraâmico”[21]. Por intermédio da mística de al-Hallaj, Massignon descobre a sintonia que enlaça o islã ao cristianismo através da perspectiva maior do amor.

 

Em testemunho sobre a espiritualidade de Massignon, Roger Arnaldez sinaliza a íntima ligação da espiritualidade com a língua. Não há nada de acessório na utilização de uma língua na reflexão sobre a mística. No caso do árabe, trata-se de uma língua vista como essencial para o acesso ao Mistério Divino, e os muçulmanos o reconhecem profundamente. Também Massignon confidencia o valor dessa língua, mediante a qual acessou o mistério de Cristo[22]. Trata-se de uma das línguas mais sublimes, como bem sinalizou Marco Lucchesi:

 

Uma das portas do sagrado. Fogo primordial. Tempo forte. Tempo mítico. Para Massignon, o árabe não sofre a anemia das línguas modernas. Sua estratégia é outra. Não se utiliza de períodos amplos e hierarquizados (…). O árabe coagula e condensa, com a força do ferro e o brilho do cristal, a idéia que emerge do Sagrado (…). E as letras são vassalos da revelação. Estrelas em órbitas de fogo, consoantes em chamas, altas e indecifráveis, que aos poucos se agregam umas às outras – formando sistemas estelares -, a seguir o rumo dos astros, do oriente ao ocidente[23].

 

Curiosa essa confidência de Massignon, ao assinalar a presença de um místico muçulmano na abertura de horizontes para a compreensão do mistério cristão. Esse allargamento de horizontes vem reconhecido por Jacques Maritain, ao tratar da importância da abertura inter-religiosa vivenciada por Massignon. Sinaliza o exemplo do estudo de al-Hallaj, realizado por Massignon, como prova da possibilidade de que sábios e eruditos de outras tradições religiosas possam ajudar a clarificar a própria tradição cristã[24].

 

Movido pela sedução do martírio de al-Hallaj, Massignon interessou-se pelo tema dos sete santos dormentes de Éfeso. São mártires da fé, venerados por cristãos e muçulmanos, que encontraram o dom da ressurreição depois de terem sido murados vivos[25]. Segundo a cifra muçulmana[26], eles permaneceram 309 dias em “sono sagrado nas mãos de Deus”, até encontrarem a Ressurreição final. Esse número “309” ganha um simbolismo particular para Massignon, pois converge com a data do martírio de al-Hallaj, ocorrido no ano de 309 do calendário muçulmano. Esse culto dos sete dormentes encontra uma ressonância singular em muitos países, inserindo-se hoje na dinâmica da busca de uma ecumene abraâmica. Após 1954, no final de julho de cada ano, sob o impulso de Massignon, cristãos e muçulmanos encontram-se na Bretanha para orar em favor de uma “paz serena”, selados pela fé na ressurreição em Deus[27].

Em razão de sua comprovada competência no campo dos estudos islâmicos, Massignon encontrará um amplo espaço na carreira universitária e acadêmica. Em junho de 1919 vem proposto como sucessor de A.Chatelier no Collège de France, na cadeira de sociologia e sociografia muçulmanas, permanecendo como docente de forma ininterrupta até o ano de 1954. Em 1933 vem nomeado como diretor dos estudos em ciências religiosas na École Pratique des Hautes Études, bem como presidente do Instituto de Estudos Iranianos. Teve um papel importante na direção da Revue du monde musulman, com a produção de inúmeros artigos. Atuou igualmente no Annuaire du Monde Musulman, respondendo pelas edições de 1926, 1929 e 1954. Atuou ainda em prestigiosas instituições acadêmicas e científicas tanto no mundo ocidental como do mundo árabe-muçulmano. Foram também inúmeros os convites para professor visitante nos Estados Unidos, Canadá, Egito e Irã.

 

3. O ciclo de Abraão: O desafio da hospitalidade

 

A visão dialogal de Massignon está toda ela fundada na importante noção de hospitalidade. Trata-se de uma palavra chave na compreensão da personalidade de Massignon. A hospitalidade  (diyâfa) é para ele um dever sagrado que deve se estender a todos os domínios, incluindo  o religioso e místico. Este apelo da hospitalidade  foi fruto de seu aprendizado com os árabes, que lhe ensinaram que o dever de hospitalidade vem exercitado em nome de Deus; um apelo que se enraíza no projeto de Abraão, o grande precursor das tradições religiosas  semíticas, que instaura a hospitalidade celebrada na acolhida do estrangeiro (Gn 18,1-16[28]).  Com os muçulmanos Massignon conseguiu captar o mistério essencial de um Deus de hospitalidade.[29]  

 

A reflexão em torno de Abraão será central na vida de Massignon, envolvendo o coração mesmo de sua aventura espiritual e informando a novidade de sua visão sobre o islã. Esta presença ganha vitalidade em sua espiritualidade cotidiana, com as três orações de Abraão, recitadas a cada Angelus após julho de 1920[30]. Será também fundamental no engajamento político de Massignon em favor da Palestina, na sequência dos acontecimentos de 1947: a retomada do apelo de Abraão em favor de Jerusalém como a cidade de eleição de todos os crentes[31].

 

Em sua clássica reflexão sobre as três orações de Abraão, reunidas em obra de 1997, Massignon trata da legitimidade do islã, entendido como uma religião “centrada na fé”[32]. Esse tema foi particolarmente desenvolvido na parte dedicada à hégira de Ismael, que traduz a reflexão mais articulada e ampla do livro. Esse autor fala do islã como um “bloco espiritual autêntico e homogêneo”, já que cimentado na “fé do verdadeiro Deus, que provém de Abraão”[33].

 

O apelo da hospitalidade em Massignon abre um espaço singular para a acolhida do outro em sua especificidade, enquanto “proprium”, enquanto “alter” (e não “aliud”), enquanto alguém que é mistério impenetrável e irrepetível. Não é possível para ele captar o seu significado senão mediante o gesto da aproximação desarmada de preconceitos. Exige-se para tanto mais do que simples boa vontade, mas o gesto ousado de “penetrar através do logos no mithos do outro”, hospedando-se no seu interior. Todo o trabalho de pesquisa e, sobretudo, o estilo de sua vida espiritual estará marcado por este “método interiorista”, que indica que uma tradição religiosa só pode ser verdadeiramente conhecida a partir de dentro: “Entrando na casa do islã pela porta privilegiada da mística, conseguiu conhecer intimamente a religião dos filhos de Ismael; do alto da santidade, encarnada sobretudo por Hallaj, pôde estender o seu olhar, tornado agudo e penetrante pela própria experiência religiosa, para a imensa e contrastante terra do islã, oferecendo dela um importante afresco em seus escritos”.[34] A presença de al-Hallaj na vida de Massignon foi um fator decisivo para a sua percepção da importância do “critério de experimentação interior” para a percepção de uma outra tradição religiosa[35].

 

A hospitalidade é também para Massignon um requisito essencial para a busca da verdade. Esta acontece no bojo de uma relação espiritual serena, de acolhida mútua entre interlocutores que buscam um horizonte fraterno. Não há como compreender o outro senão tornando-se seu hóspede. Este é um tema recorrente na reflexão da Massignon. O verdadeiro encontro com o outro não acontece mediante o caminho de sua anexação, mas do exercício autêntico de hospitalidade. É mediante o trabalho de partilha do mesmo pão, do mesmo trabalho e da mesma vida que a verdade pode vir à tona[36].

 

 A abertura ao islã possibilitou  a Massignon  descobrir com maior profundidade  algumas dimensões  inusitadas  do mistério divino. O seu catolicismo não ficou enfraquecido com o diálogo, mas enriquecido com a nova visada: tornou-se mais exigente. Ao oferecer uma visão mais amorosa e interna do islã, contribuiu decisivamente para uma mudança de perspectiva na visão católico-romana sobre o tema, abrindo o caminho para a colaboração e o diálogo islamo-cristão.  Há hoje um reconhecimento explícito sobre o influxo exercido por Massignon em textos decisivos do concílio Vaticano II que tratam das religiões não cristãs, em especial do islamismo. Tanto o número 16 da Constituição Dogmática Lumen Gentium, sobre a igreja, como o texto da Declaração sobre as religiões não cristãs, Nostra Aetate, refletem esta influência. Há que recordar os laços de grande amizade que unia Massignon a Paulo VI.[37] Na visão de Robert Caspar, que foi perito no Concílio Vaticano II e consultor junto ao Secretariado para os não cristãos, Massignon contribuiu de forma decisiva para a mudança de perspectiva na Igreja católico-romana com respeito ao islã. Abriu-se com ele uma “brecha significativa no compacto muro de desconfiança e incompreensão que separava o islã do cristianismo até a primeira metade do século XX”[38]. 

 

Na trillha aberta por Massignon surgiram novos pensadores e teólogos católicos dedicados ao tema do diálogo com o islã, entre os quais podem ser citados: Georges Anawati, Jacques Jomier, Jean-Mohammed Abd-el-Jalil, Serge de Beaurecueil, Maurice Borrmans, Robert Caspar, entre outros[39].

 

4. O ciclo de Gandhi: A dinâmica da compaixão

 

Na perspectiva aberta por Massignon, a compaixão é um alargamento da hospitalidade. Na última etapa de sua vida, esse tema da compaixão será para ele decisivo. Tendo se aposentado em 1954, firma-se seu compromisso social e político, já pontuado pelo engajamento em favor dos palestinos. É onde entra a inspiração de Gandhi. O primeiro contato com Gandhi se deu em 1912, por ocasião de sua breve passagem por Paris, tendo-o reencontrado ali em 1931. Nele encontrava Massignon algo de precioso e um fermento novo para sua vida espiritual:

Talvez pela primeira vez no mundo, um homem teve tamanha influência sobre os povos de outras religiões, com resultados importantes na ordem social. Na Europa, perdemos o senso do sagrado na vida social, mas através de pessoas como Gandhi poderemos reencontrá-lo[40].

 

   Os ideais de Gandhi vão penetrando sua visão de mundo até ganhar sua marca decisiva nos anos posteriores a 1953. Na fase derradeira da vida de Massignon, todas as suas ações e julgamentos serão inspirados pelo pensamento de Gandhi[41]. A noção mesma de hospitalidade vem agora aprofundada e envolvida pela dinâmica da compaixão pelo outro. A admiração suscitada em Massignon por Gandhi deve-se sobretudo à sintonia das escolhas nos âmbitos moral e espiritual. Pode-se também acrescentar o toque de sua exemplaridade, bem como de sua reivindicação cívica em favor do verdadeiro (satyagraha). Há também comunhão no campo da espiritualidade, fundada em valores semelhantes como a oração, o jejum e a peregrinação, bem como no âmbito da opção comum pelos pobres. Não há como desconhecer a presença de Gandhi na inspiração da dinâmica de compaixão-substituição presente em Massignon, em particular na sua atenção para com os oprimidos e na sua ampla solidariedade[42]. Como assinala Rocalve, Massignon sente-se

 

envolvido na política da França com respeito aos povos muçulmanos. Sua carreira de islamólogo e seu desejo pessoal de reconhecimento do islã, de hospitalidade do islã, convergem no serviço a todos os muçulmanos golpeados pela injustiça na Palestina, no Maghreb, na metrópole (visitas aos prisioneiros, acorrida aos operários argelinos)[43]

 

Em carta de abril de 1948, Massignon firma o seu compromisso: “Estou cada vez mais decidido a manter minha ´shahada`[44] em favor da justiça até a morte”[45]. Como indica Edward Said, esta atuação prática e humanista era o que para ele havia de melhor em Massignon. Ele “era um lutador incansável em defesa da civilização muçulmana e, como demonstram seus numerosos ensaios e cartas após 1948, em defesa dos direitos dos árabes muçulmanos  e cristãos na Palestina contra o sionismo, contra aquilo que, em referência a alguma coisa dita por Abba Eban, ele chamou severamente de ´colonialismo burguês`israelense”.[46]  Estava sempre antenado com os problemas de seu tempo. Vale lembrar o seu papel na criação do Instituto Dar Es Salam (a casa da paz), ocorrida em 1947 no Cairo e sua presença nas obras de misericórdia no núcleo dos amigos de Gandhi.

 

5. Caminhos de vida interior

 

Massignon deixa rastros importantes também no âmbito da vida espiritual. Juntamente com Mary Kahil[47], funda em fevereiro de 1934 a Badaliya[48],  um espaço garantido para a vida de oração e a hospitalidade do coração. Tratava-se de um lugar de acolhida do outro, do estrangeiro. Na Badaliya “toma forma um modelo de espiritualidade interconfessional que suscita uma concepção teológica-mística do ´diálogo` para além dos modelos sócio-culturais evocados pela cultura humanista”.[49] Em pacto concluído na ocasião pelos dois na igreja franciscana de Damiette, local onde São Francisco apresentou-se ao sultão al-Malik al Kâmil, decidem fazer o oferecimento de suas vidas aos muçulmanos. Não para que se convertessem ao cristianismo, mas “para que a vontade de Deus pudesse ser feita para eles e por eles”. A experiência da Badaliya é assumida pelos dois como um “voto de substituição”e um convite a viver a santidade em meio aos muçulmanos. Traduzindo ao padre jesuíta Bonneville, no Cairo, a força da opção realizada pelos dois, Mary Kahil assim se expressa: “Queremos fazer nossas as suas orações, nossas as suas vidas, apresentando-as ao Senhor”.[50] A partir de 1934, ano da fundação da Badalliya, Massignon  vai se aproximando  cada vez mais da comunidade católica melquita, de rito bizantino, até fazer sua transferência definitiva para ela em 1949, sob autorização de Pio XII. Era o passo que faltava para sua maior comunhão, enquanto cristão, com os árabes. Em janeiro de 1950 vem ordenado sacerdote na igreja grego melquita Sainte-Marie-de-la-Paix. 

 

Para o crescimento espiritual de Massignon foi muito importante a presença de  Charles de Foucauld (1858-1916). Foi algém  decisivo no processo pessoal de afirmação da vocação espiritual e solidária de Massignon em favor do islã. Os dois sempre estiveram unidos por uma grande e profunda amizade, apesar da diferença de idade de 25 anos. Foucauld torna-se para Massignon um intercessor, confidente e amigo: um autêntico “diretor espiritual”. A intimidade espiritual entre os dois está registrada na correspondência regular mútua que se inicia em novembro de 1908, e que soma cerca de 80 cartas. Em clara proposta de vida monástica, Foucauld faz em setembro de 1909 um convite a Massignon para prosseguir seus estudos teológicos junto a ele no deserto. Ainda que seduzido pela proposta, Massignon acaba optando pelo matrimônio, que veio a realizar-se em 27 de janeiro de 1914, em Bruxelas. O caminho escolhido por Massignon ganha a acolhida carinhosa de Foucauld. No mesmo mês do casamento, uma bela carta de Foucauld a Massignon expressava o valor da nova e maravilhosa opção realizada pelo amigo, de uma vocação dada por Deus para viver a santidade do matrimônio no mundo.[51]

 

Para Massignon, o amigo Foucauld representava um “arco estendido para um Absoluto, para a Verdade”. Tornou-se dele um discípulo ao longo da caminhada, buscando beber intensamente sua “experiência vital do sagrado junto aos outros”, e também o desafio essencial do compromisso com os irmãos mais pobres. Via a necessidade de intensificar seu contato espiritual com o mestre para poder captar “sua iniciação experimental à compreensão verdadeira da condição humana, sua ciência experimental da compaixão”. O que pressentia por experiência pessoal, viu realizado na prática vital de Foucauld: a importância de optar pelos muçulmanos, enquanto filhos de Abraão, esses “misteriosos excluídos das preferências divinas na história”. Aprendeu também a centralidade do anúncio do evangelho pela via da humildade, do exercício da hospitalidade, entendido como “verdadeiro pão espiritual”[52]. São, portanto, três os aspectos que unem o pensamento de Massignon a Charles de Foucauld: a visão comum sobre a responsabilidade da França com respeito aos países colonizados; a partilha da hospitalidade, entendida como valor sagrado; a percepção da dignidade única de cada ser humano, sobretudo dos mais abandonados e excluídos, nos quais pulsa uma experiência vital do sagrado[53].

 

Conclusão

 

O grande legado de Louis Massignon insere-se no campo do diálogo do cristianismo com o islã. Ele favoreceu, sem dúvida alguma, uma nova visada sobre essa tradição religiosa que para o Ocidente representou um “trauma duradouro”. Apontou caminhos singulares para uma percepção do islã a partir de dentro, buscando discernir o “sopro do islã”, sobretudo a partir da contribuição dos grandes místicos da tradição sufi, em particular al-Hallaj. Privilegiou o caminho do coração, como lugar privilegiado de acesso ao “segredo divino”. Defendia e acreditava com vigor na idéia de que o melhor caminho de acesso ao outro é mediante a empatia, a simpatia e a hospitalidade. Foi um pioneiro do diálogo inter-religioso, abrindo canais alvissareiros para a abertura do cristianismo ao islã.  Como bem sinalizou Édouard-Martin Sabanegh, um de seus discípulos, Massignon foi o grande artesão na mudança de perspectiva do mundo cristão com respeito ao islã[54], com um substantivo influxo no Concílio Vaticano II. No mundo católico, foi ele um dos pioneiros no reconhecimento do islã como religião abraâmica. Os testemunhos sobre eles são diversificados. O papa Pio XI referiu-se a ele como um “muçulmano católico” . O grande orientalista Jacques Berque identificava-o como um “sheikh admirável”. O irmãozinho de Jesus, René Voillaume, encontrou nele “um testemunho privilegiado da herança espiritual de Charles de Foucauld”. Esse reconhecimento aconteceu também no mundo muçulmano, onde vem reverenciado ainda hoje com reconhecimento e respeito. Insere-se no amplo leque dos buscadores do diálogo, que fizeram de sua trajetória de vida uma aventura arriscada e exigente de deixar-se envolver pelo enigma do outro.

 

(Publicado na Revista Perspectiva Teológica, Ano XLII, n. 116, jan/abr 2010, pp. 77-90)

 



[1] Para Marco Lucchesi, amigo e irmão nessa linda aventura espiritual de encontro com o outro.

[2] H. TEISSIER, “Prefazione, Louis Massignon um precursore, um artigiano e un testimone del dialogo interreligioso”, in J. KERYELL, Il giardino di Dio. Con Louis Massignon incontro all`islam, Bologna: EMI, 1997, p. 10.

[3] Apud J. KERYELL, Il giardino di Dio, p. 25.

[4] G. BASETTI SANI, Louis Massignon, Firenze: Alinea, 1985, p. 59.

[5] O tema escolhido foi “Tableau géografique du Maroc d´après Léon l´Africain”. Apresenta o seu trabalho no ano de 1904, sendo o mesmo publicado em 1906 na Argéria. O seu trabalho chega ao conhecimento de Charles de Foucauld, em seu eremitério de Beni-Abbès, na Argéria,  abrindo espaço para uma amizade que o acompanhará em toda vida.

[6] Antes dos estudos de árabe, Massignon dedicou-se ao estudo do sânscrito sob a orientação de Silvan Levi (1863-1935), reconhecido indianista francês.

[7] Falou-se em turbamento de consciência,  crise de demência,  crise aguda de malária e congestão cerebral. Cf. J. KERYELL, Il giardino di Dio, pp. 89, 93, 100, 101; D. MASSIGNON, Le voyage en Mésopotamie et la conversion de Louis Massignon en 1908,  Paris: Cerf, 2001, pp. 10, 28-30, 53ss.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

[8] Para esse tema da “visita do estrangeiro” cf. L. MASSIGNON, Parole donne, Paris: Seuil, 1983, p. 283; L. MASSIGNON, Mystique en dialogue, Paris: Albin Michel, 1992, pp. 6-8 (Question De, numero 90); L. MASSIGNON, L´hospitalité sacrée, Paris: Nouvelle Cité, 1987, pp. 40-45; D. MASSIGNON, Le voyage en Mésopotamie et la conversion de Louis Massignon em 1908, Paris: Cerf, 2001, pp. 58-59.

[9] L. MASSIGNON, L´hospitalité sacrée, p. 40.

[10] Massignon encontrou acolhida entre os Alussi, que responderam em seu favor junto às autoridades turcas que o haviam condenado como espião. Na intercessão em favor de Massignon, assinalam que ele é membro da família, um hóspede sagrado, que não pode ser eliminado. Ele foi, assim, salvo em 1908 por ser hóspede, e isso marcou Massignon pelo resto de sua vida. Ver a respeito: G. BASETTI SANI, Louis Massignon (1883-1962), Firenze: Alinea, 1985, p. 241.

[11] L. MASSIGNON, L´hospitalité sacrée, p. 204 (carta a A.M. Noureddin Beyum – 26 de fevereiro de 1938).

[12] Apud J. KERYELL, Il giardino di Dio, p. 57. Ver também pp. 70-71.

[13] Apud J. KERYELL, Il giardino di Dio, pp. 99-104.

[14] G. HARPIGNY, Islam et Christianisme selon Louis Massignon, Louvain-la-Neuve, 1981: Ver também a respeito: P. ROCALVE, Louis Massignon et l´islam, Damas: Institut Fraçais de Damas, 1993, p. 15.

[15] Para maiores detalhes de sua vida cf. L. MASSIGNON, Ciencia de la compasión, Madrid: Trotta, 1999, pp. 39-74 (Al-Hallâj místico del islam e Vida de Halâj); A. SHIMMEL, Le soufisme ou les dimensions mystiques de l´islam, Paris: Cerf, 1996, pp. 89-106; S. RUSPOLI, Le message de Hallâj l´expatrié, Paris: Cerf, 2005, pp. 15-53.

[16] J. KERYELL, Il giardino di Dio, p. 53. Relata também o papel central de al Hallaj em sua vida, em carta à sua mulher: cf. Louis MASSIGNON. L´hospitalité sacrée, p. 60. Fala a ela da importância do místico não só para a afirmação de sua personalidade científica e posição universitária, mas também para sua acolhida do mistério de Deus.

[17] A tese foi publicada em dois volumes pela editora Geuthner de Paris, em 1922. Uma nova edição foi posteriormente publicada em 4 volumes pela Gallimard de Paris, em 1975. Como tese complementar  ele apresentou o Essai sur les origines du lexique technique de la mystique musulmane, publicada inicialmente  em Paris em 1922, pela editora Geuthner, reeditada posteriormente em Paris: Editions du Cerf, 1999. Ainda sobre al-Hallaj, Massignon traduziu para o francês, seu Dîwân, em 1936, posteriormente reeditado em 1938, 1955 e 1981. Outras conferências e artigos de Massignon foram publicados em sua Opera Minora, uma coletânea de 207 artigos publicados em 3 volumes e editados por Youakin MOUBARAC (Beyrouth: Dar al-Maaref, 1963).

[18] L. MASSIGNON, L´hospitalité sacrée, p. 258.

[19] L. MASSIGNON, La passion de Hallâj, Paris: Gallimard, p. 10 (Tome III).

[20] L. MASSIGNON, Ciencia de la compasión, Madrid: Trotta, 1999, p. 78.

[21] R. ARNALDEZ, “Sa spiritualità”, in L. MASSIGNON, Mystique en dialogue, p. 107.

[22] Ibidem, pp. 103-104.

[23] M. LUCCHESI, Os olhos do deserto, Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 61.

[24] J. MARITAIN, O camponês do Garzona, Lisboa: União Gráfica, 1967, p. 97.

[25] Ver a referência aos sete dormentes na Sura 18 do Corão, denominada Sura da Caverna (Al-Kahf).

[26] Corão 18:25.

[27] L. MASSIGNON, L´hospitalité sacrée, pp. 291-292 e 364-365; J. KERYELL, Il giardino di Dio, p. 31-32; C. DREVET (Ed.), Massignon et Gandhi. La contagion de la verité, Paris: Cerf, 1967, p. 28.

[28] Esses “honrados hóspedes” de Abraão serão recordados também no livro do Corão (15:51 e 51:24).

[29] R. ARNALDEZ, “Sa spiritualità”, in L. MASSIGNON. Mystique en dialogue, 102.

[30] Trata-se da tríplice oração patriarcal de Abraão, baseada na experiência da aparição de Iahweh no Carvalho de Mambre, descrita no livro do Gênesis 18,1-3. São as orações por Sodoma, Ismael e Isaac, trabalhadas e desenvolvidas por Massignon em sua preciosa obra: Les trois prières d´Abraham, Paris: Cerf, 1997 (As duas primeiras orações tinham sido antes publicadas à parte, em 1930 e 1935; e a última, dedicada a Isaac não ganhou publicação independente).

[31] Em intervenção de Massignon  na Semana dos Intelectuais Católicos, em maio de 1949 em Paris (“La foi aux dimensions du monde”), ele assinala o significado de Abraão em sua vida, refazendo como seu o itinerário de Abraão, finalizado em Jerusalém. Sinaliza ter compreendido, com o Pai de todos os crentes, que a Terra Santa não poderia ser um “monopólio de uma raça, mas a Terra prometida a todos os peregrinos como ele”. Cf. P. ROCALVE, Louis Massignon et islam, pp. 30-31.

[32] L. MASSIGNON, Les trois prières d´Abraham,  p. 98. Por sua vez, a religião judaica se enraiza, a seu ver, na esperança e o cristianismo na caridade.

[33] Ibidem, p. 106.

[34] D. CANCIANI, “L´altro volto dell´islam”, in L. MASSIGNON, La suprema guerra santa dell´islam, Troina: Città Aperta, 2003, p. 12. A propósito do método interiorista ver ainda: L. MASSIGNON, L´ospitalità de Abramo, p. 14 (Introduzione de Domenico Canciani);

[35] L. MASSIGNON, La passion de Hallâj, pp. 10-12 (Tome 3). Ver a propósito: P. ROCALVE, Louis Massignon et l´islam, p. 102. Vale também registrar a importância dada por Massignon ao coração, como “órgão preparado por Deus para a contemplação”: ibidem, p. 26. Ver também: L. MASSIGNON, “Il ´cuore`(al-qalb) nella preghiera e nella meditazione musulmane”, in Id, Il soffio dell´islam. La mistica araba e la letteratura occidentale, Milano: Medusa, 2008, pp. 119-126.

[36] P-F BÉTHUNE, L´hospitalité sacrée entre les religione, Paris: Albin Michel, 2007, pp. 136-137 e 203; G. BASETTI SANI, Louis Massignon (1883-1962), p. 74.

[37] L. MASSIGNON, L´hospitalité sacrée, p. 141; Id, Ciencia de la compasión, Madrid: Trotta, 1999, p. 40, n. 3 (em nota de Jesús Moreno Sanz). Em sua viagem à Terra Santa, em 1964, o papa Paulo VI acolheu em âmbito da reflexão magisterial, em sintonia com Massignon, a idéia de três religiões abraâmicas. Ver a respeito: G. BASETTI SANI, Louis Massignon (1883-1962), p. 79.

[38] L. MASSIGNON, L´hospitalitá di Abramo, p. 20 (introduzione de Domenico Canciani). Ver também: M. L. FITZGERALD, “Relações entre as religiões abraâmicas”, in: B. E. HINZE, Herdeiros de Abraão, São Paulo: Paulus, 2007, pp. 87-88.

[39] Para uma reflexão a respeito ver: J-J PÉRENNÈS, Georges ANAWATI (1905-1994). Un chrétien égyptien devant le mystère de l´islam, Paris: Cerf, 2008; Massignon - Abd-el-Jalil. Parain et filleul (1926-1962). Correspondance. Paris: Cerf, 2007; M. BORRMANS, Orientamenti per un dialogo tra cristiani e musulmani, Roma: Pontificia Università Urbaniana, 1991; R. CASPAR, Para una visión cristiana del islam, Santander: Sal Terrae, 1995.

[40] Intervenção de Masssignon sobre Gandhi em Seminário organizado pela Unesco, em Janeiro de 1953, in C. DREVET (Ed), Massignon e Gandhi, La contagion de la vérité,  p. 112.

[41]C. DREVET (Ed), Massignon et Gandhi,  p. 44.

[42] G. RIZZARDI, L.Massignon (1883-1962). Un profilo dell´orientalista cattolico, Milano: Glossa, 1996, pp. 60-61. É conhecido o texto de Massignon onde ele apresenta a exemplaridade singular de Gandhi: Louis MASSIGNON, Parole donne, pp. 130-139.

[43] P. ROCALVE, Louis Massignon et l´islam, p. 140.

[44] Profissão de fé ou testemunho.

[45] L. MASSIGNON, L´hospitalitè sacrée, p. 250. E continua, na sequência: “Notre vocation c´est de justifier Dieu, de le faire aimer par ceux-là mêmes à qui Il manque et qui semblent abandonnés: les pauvres, les exclus, les inconsolés. C`est cela que Jésus a fait en venanti ici-bas à l´appel de Marie”.

[46] E. SAID, Orientalismo. O Oriente como invenção do Occidente, São Paulo: Companhia das Letras, 2001, pp. 274-275.

[47] Tendo conhecido Massignon em 1912-1913, Mary Kahil (1889-1979) viverá uma experiência de intensa comunhão espiritual com Massignon. Os dois exerceram grande influência no diálogo islamo-cristão. Para maiores detalhes cf. Louis MASSIGNON, L´hospitalité sacrée, p. 77ss.

[48] Seu significado em árabe é “substituição”.

[49] G. RIZZARDI,  L.Massignon (1883-1962). Un profilo dell´orientalista cattolico, p. 150.

[50] L. MASSIGNON, L´hospitalité sacré, p. 101.

[51] C. FOUCAULD, Opere spirituali, Roma: Paoline, 1984, p. 722,

[52] L. MASSIGNON, Parole donne, pp. 63-64 (Toute une vie avec um frère parti au désert: Foucauld).

[53] G. RIZZARDI. L.Massignon (1883-1962). Un profilo dell´orientalista cattolico, p. 60.

[54] J-J PÉRENNÈS, Georges ANAWATI (1905-1994). Un chrétien égyptien devant le mystère de l´islam, p. 84.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Marks of an Inter-Religious Mysticism

MARKS OF AN INTER-RELIGIOUS MYSTICISM

 

Faustino Teixeira

 

Going back to its etymology, the word mysticism comes from myein: which means to close the eyes or the lips. A “mystic” is a person who lives the experience of a mystery; mystic is the person who is the subject of an experience which has Mystery as its object. From the beginning the word mystikós has been used as an adjective and it is only since the 17 the century that it has become accepted as a substantive.1 It’s from then on that we begin to speak of mystical language as a unique new language. In Christian usage, mysticism was used to designate a different way of coming to know God, a way different from common knowing, a way marked by the force of a Presence beyond our capacity of expressing. Down through history different definitions have been given to this experience: Thomas Aquinas called it cognitio Dei experimentalis “experiential knowledge of God”; Angelus Silesius spoke about it as the “interior union of God with the soul”; for John of the Cross it was “a loving listening to God” as for Jacques Maritain “a joyful experience of the Absolute.”

 

It’s worth while pointing out the force involved in two essential terms implied in this extraordinary direct or immediate access to Mystery and Reality: these words are “experience” and “presence.” In his sermons based on the biblical Song of Songs, Bernard of Clarivoux points out that it is by means of the book of “experience” that we can reach the mystery of God. From his point of view it is through “experience” that human intelligence is able to delve into the deepest fields of understanding.2 Mystics of different religious traditions give us important testimony about the force of this experience. The French intellectual Simone Weil, in an autobiographical letter describes the sharp experience of God that she experienced in Solemes in the year 1938: “Christ himself came down and possessed me.”3 Likewise the Nicaraguan mystic Ernesto Cardenal wrote: “You also swiftly entered into me while my defenseless soul was seeking to hide its shame.”4 We can also mention the “experience of God” found in the beautiful history of Theresa of Avila:

 

“Sometimes it happened to me, as I have said, although it was over briefly, the beginning of what I will speak now: it happened to me in this fantasy that I placed myself next to Christ, as I have said, and even at times reading, unexpectedly there came upon me the feeling that I was in no way able to doubt that the presence of God was within me and I completely wrapped up in Him. This was not as it were in a vision; I believe they call it theological mysticism. The soul is, as it were, suspended so that everything seems to be outside of oneself: the will loves, the memory seems to be almost lost, the understanding seems not to function but is not lost; rather as I say, it does not function but instead seems as though it becomes frightened by the amount it does understand since God wants it understood that nothing should be understood about the way His Majesty is represented.”5

 

Mystics of all traditions very clearly recognize that the abysmally inaccessible mystery in its totality, pierces through and goes beyond the experience. Despite efforts to express the experience, the tongue is poor and deficient in translating the richness that has been experienced. What often happens is that mystics have to “mangle words” and “murder the language” in order to describe even in a limited manner, the force of an illuminating presence.

 

Without denying the singularity and specific weight which distinguish the different religious traditions, we must recognize the presence of “great similarities and analogies in religious experience.”5 They are resemblances that do not annul differences but rather reserve space for an experience which is always unique. Likewise in the realm of spiritual depth it is always necessary to share with the other. This is the reason for the great difficulty in judging the spiritual experiences of others, so as not to relativize or degrade them as inferior. It’s extremely complicated attempting to interpret a certain religious or mystical experience without being in syntonic perfection with it. One must use tremendous spiritual delicacy to be able to approach a distinct religious experience. This holds good also for judging different rituals. These always make reference to a “pristine experience” and its re-actualization. They are rituals that do not transmit simply knowledge but rather and above all an experience. As Amaladoss correctly noted, “anyone who has not had the experience and is now capturing the tradition from outside, very possibly will not be able to reach an authentic interpretation of it.”7

 

Simone Weil was strongly questioned by certain Catholic theologians for having affirmed that “mystics of almost all traditions are almost in identical accord”.8 Opposing the author and also the defenders of a “philosophy for all times” who are trying to give support to “the transcendental unity of religions” the theologian Henri de Lubac tried to give strength to the idea of “the qualitative difference that separates other religious traditions from the Christian tradition”.9 In his classical work on Catholicism, De Lubac admits that even outside Christianity, humanity has - “as exceptions” - been able to reach spiritual heights. Nevertheless by the force of his “theology of consummation” he brings into question the love of the Buddhists and the mysticism of the Hindus. In his vision, the most beautiful and powerful human efforts have to be “fertilized by Christianity in order to produce fruits for eternity.”10

 

It’s impossible to deny the differences among religious traditions, as likewise the peculiarities that distinguish the experience and the interpretation of the Mystery developed by mystics of the different religions. Therefore it’s necessary to recover the “hidden equivalences” and underline the “profound similarities” that join in brotherhood the mystics on their path searching for Reality. To recognize differences does not mean to belittle the “intense confraternity” underlying these deep personal experiences. This is the great challenge that animates those who believe that mysticism is alike and that there is the possibility of an inter-religious mysticism or even a mysticism that goes beyond religions.

 

 

1     Mysticism as an experience of Reality

 

“Mysticism as an experience of Reality” comes up as highly helpful in the search for a positive path to reach an understanding of an inter-religious mysticism or concept of Reality. The author who appears here as a light for reflection is Raimon Panikkar, the Catalonian theologian and mystic who has contributed a lot to the development of an enriching debate in the inter-religious field. In a work of his published in 2005, Panikkar notes that mysticism is not a specialization but rather an “anthropological dimension” that accompanies a person during all his existential trajectory.11 The human being is potentially empowered to discover the Mystery that inhabits reality and then to irradiate this experience to others just as waves wash up on the shore of a lake. Mysticism describes this as “the experience of the ultimate reality”, as “the complete experience of reality.”12 The category “reality” (or “Reality”) is chosen because of its greater neutrality and for its macro-ecumenical potential. Reality is the symbol chosen to translate the All, (to holon). In this way mystical experience is an integral experience which makes possible access to integral reality which can be designated in different forms: God, All, Nothing, Being, etc. We’re not talking about something superficial or merely passing but rather an in-depth insertion into the very interiority of the experimented object. And all this does not mean accepting pantheism since mystical experience barely touches reality on the edge and then only contingently. The Mystery keeps on burning. Divinity envelopes all reality but it passes through it infinitely.

 

Because of the influence of the Christian Orthodox tradition, and also of the Indian advaita spirituality, Panikkar has recourse to the “cosmo-theo-andric intuition” in order to express the three dimensions of reality: divine, human and cosmic. These are three dimensions that interpenetrate each other and reveal the fundamental enigma of the relation.13 This advaita (aduality) vision favors a perception of reality which supersedes both monism and dualism and gives birth to a harmony of relation and integration of the transcendent with the immanent. For Panikkar, “the advaita intuition does not consist in affirming the unity nor negating the duality, but rather precisely by means of vision that transcends intellection and recognizes the absence of duality in the base of a reality which in itself lacks duality”.14 The very structure of reality is dialogic and harmonic. The human being participates in an “adventure of reality” which involves the transcendent and the immanent which is at the same time divine, human and material.

 

 The great challenge consists in awakening this reality, catching the diaphanous state of the other world that permeates this world, picking up the little signals and lights which shine forth from the very interior of things. It’s necessary to tune the ear to present time, undertake a “poetical listening” to the entire cosmos. The essence of the gift of contemplation as Thomas Merton points out, is to awaken the “infinite Reality that exists within everything that is real.”15 Its an experience that involves permanent tranquility and attention. Its not something that is limited to a few virtuous people, but rather it’s open to everyone who is disposed to pay attention to the occasion with sensibility and transparency. From his rich experience with spiritual direction of the Trappist novices at Gethsemany (USA) Thomas Merton points out the intimate relation between contemplative and active life. For him, the exercise of the contemplative life was nothing complicated, but rather a gift for living simply, for feeling life flowing, for advancing into the depths of the great mystery that lives in time. In his reflections for the novices he said that contemplative life “was simply to live like a fish in water.”16

 

In his attentive observation of the dawn, Merton managed to distinguish “a virginal point” between darkness and light which expresses the ineffable secrete of the encompassing presence of the mystery. In the contemplation of night, a bit before light peopled the dawn, while the birds were still initiating their first songs and “creation in its innocence solicited permission to “exist” again”, the Trappist mystic discovered the presence of that “soft, blind point” which lives in the very center of being and which he identified as the presence of God’s pure glory.”17 What is meant is the irreducible secrete center of the heart. For Merton, that point of simplicity of inexpressible innocence reveals the sacredness of the self-conscience , liberty and peace. It’s a point of unveiling the “immense open secret which lies there for everybody, which is completely gratuitous and to which nobody pays any attention.”18 The inspiration of this image of the “virgin point” (point-vierge) comes from the influence of the French oriental expert Louis Massignon, deeply learned in sufi mysticism. In the mystic psychology of Islam, and especially in the thought of al-Hallaj, the “primordial luminous point” suggests the profound mysticism of the knowledge of “Reality” (al-Haqq). This point represents the “neurological center of the sphere of tawhid (unity)”19 In the point of view of Hallaj, the organic principle of everything which expresses the nucleus of the original light, is that luminous point (nuqta). It is interesting to know that some Muslim teachers learned in the Koran, place their concentration on the importance of the diacritical point that marks the letter ba in Arabic. The book of the Koran begins with the letter b: Basmala (“In the name of Allah”). The sufi teachers hold as the base for esoteric symbolism that the contents of the entire Koran are concentrated in that diacritical point of the b found at the beginning of Basmala.

 

2. All names of The Reality

 

In one of his beautiful homilies on the Song of Song, Gregory of Nissa, one of the three great Capadotians of the IV century, speaks about water which hides beneath the spring. If someone approaches a spring he is astounded at the abundance of water that constantly gushes up. But there is no access to “all the water”, which mysteriously remains hidden in the bosom of the earth. And this water that never ceases to flow, permanently stirs the desire of the thirsty person.20 Reality is like the “spring of the source” in its ceaseless movement of generosity and gratuity.

 

Just as “all the water” of the spring can not be seen, likewise Reality always remains hidden. The reason for choosing the word Reality to express the Ultimate Mystery, is due to his use of language of certain religious traditions. In the Jewish-Christian tradition God is spoken of “He Who is.” (Ex 3,14); the Sanskrit language of the Hindu tradition uses the expression sat; in Arabic al Haqq. These are corresponding expressions that despite imprecise and frail human language try to translate the greatest mystery that has no name. The Buddhist tradition opts for “God’s Silence”, which absolutely does not mean atheism. The negation serves as a “sign of the transcendence”. Velasco has pointed out that “God’s Silence” practiced by Buddha “is the most radical form of preserving the mysterious condition of the ultimate, the supreme which is the focus of all religion.

 

The different names that are attributed to God or the Major Mystery do not apply to his essence which remain untouchable. The names always imply a state of determination and boundary. The “Spiritual Presence” which breaks through into all history becomes fragmentary when showing itself in time and space. The names or attributes of God are “miserable leftovers” that still give off “perfume of the divine nature” 22 ; they are an isthmus barzakh that serves as a bridge between the essence of the mystery and the cosmos. Mystics of different traditions indicate that Reality is beyond names: Master Eckhardt makes a distinction between God in her/his own self and the God of creatures. Gregory of Nissa makes a distinction between God in her/his essence and God in her/his attributes who carries out operations in history; Ibn ‘Arabi of the sufi tradition, distinguishes the Divine Absolute and the Divinity of dogmatic convictions “that is prisoner of limitations;” in the advaita of the Hindu tradition a distinction is made between God in Self and God of names and forms (n_maúpa). In the classical German sermon #2, Master Eckhardt speaks of the incandescent and burning force of God which flows without ceasing into the “intimate room” of the soul. But it’s a God who is “free of all names and stripped of all forms, totally unencumbered and in liberty.”23

 

The flow of self-revelation of the Mystery is always continual and never repeated. From here mystics like Ibn ‘Arabi pointed out as very important that searchers broaden out their beliefs in order to participate in and enjoy the numberless benefits that animate Reality. There is no way of placing limits on Reality. Beliefs in their turn are always fragmentary, they are chains or bonds that put limits on Reality. They are like the “numberless colors that persons impose on colorless light by means of their own limited existence.24 Religions and beliefs are really systems and symbols that refer to Reality, which is at one and the same time transcendent and immanent. But Reality is beyond that which we are able to grasp by means of symbols. Religions play an important role en anamnesis, that is the living, actualizing memory of the dynamic transforming power of Reality that instigates in persons a longing to practice ego-de-centralization and re-centering on the Mystery of the Other. As the theologian John Hick well indicated, Reality constitutes the essential starting point for human transformation: “It’s that reality in virtue of which, by means of our response to one or the other of its manifestations as figures of God or of the non-personal Absolutes we are able to reach the blessed state of ego decentralization which is our supreme good.”25

 

3.    Reality and its fragrance

Being infinite and intangible, Reality is manifest in the depth of the human being, in the very heart of the heart. In one of his sermons, Eckhardt emphasizes that access to the “depth of God” is gained through the depth of the person who purifies the heart of all attachments and lives in humility pure receptivity for the gift of the Mystery. Eckhardt points out: “Those who know say that the stars pour out their powers into the depth of the earth, into nature and the earthly elements producing there the purest of gold. The more that the soul reaches the depth of the most intimate of its being, so much more the divine power is poured bountifully into her and acts in a hidden manner which reveals great works ...26 . In the depth of the heart is where is revealed the “great door of the mercy of God.” But there is necessary a permanent work of purification of the heart, of breaking the knots which impede the exercise of loving reception of the other and of spiritual delicacy. This idea of the heart as the mirror which reflects God was also given much emphasis by Gregory of Nissa. He has some beautiful reflections on “the pure of heart” commentating on Mat 5,8. Actually the pure of heart will see God, but for this to occur it is necessary that the mirror be well polished so that it might be able to reflect with tenderness and strength the unceasing rays of the Mystery of light.

 

When one gets down to the bottom line, the “defused perfume” of the Mystery is poured out and embraces all “names and forms.” In the depths it manages to grasp the dynamism proper to the heart which is permanent motion, oscillation and pulsation. At every moment the heart catches the different unforeseen forms of the mystery of Reality. The same thing happens when the faithful of different religious traditions make efforts to move deeply into religious experience by going down deeper into their own proper religion. In so far as they extend their efforts they begin to realize that the mystery that inhabits the experience can not be limited to just their own religion. The theologian Paul Tillich realized this very clearly: “In the depths of every living religion there is a point where religion as such looses its importance and the horizon towards which it sets its course permits it to supersede its particularity and raise itself to a spiritual liberty that makes possible a new overview of the presence of the divine in all expressions of the ultimate meaning of human life.

 

The value and richness of a religion is revealed in it potential for humanizing fragrance, or if you wish, visible fruits. For Gandhi, what proves the truth of a religion is its “fragrance” of love, spirituality and peace.28 In his letter to the Galatians, Paul speaks of the importance of the visible fruits inscribed by the Spirit: of “love, joy, peace, patience, amiability, goodness, faithfulness, modesty, and self control” (Gal 5, 22-23) The essential path is to follow these fruits of the Spirit. The great sufi mystic, Rúmi, expressed abundantly the centrality of these visible fruits in the very dynamic of salvation: “On the day of resurrection, men and women will appear pallid and trembling with fear at the final judgment. I will present this your love in my hands and I will say to You: interrogate this, this will respond”.29 The fragrance of spirituality does not appear only in religions. Human beings are capable of developing to a high degree special qualities of the spirit such as love, compassion, delicacy, courtesy, patience, hospitality, caring for othrs, etc. These virtues are not the exclusive property of religions.

 

Conclusion

 

 An authentic inter-religious mysticism needs to recognize the irradiation of the Spiritual Presence, of the power of Reality which envelopes all the universe and soaks into all of history. We are talking about a presence that manifests itself in beliefs but radically transcends them. Nothing is more essential than the capacity to amplify one’s vision so as to be able to recognize the presence of Reality in all of its transcendent and immanent manifestations. It’s possible to take part in a profound vision of Reality only through the application of beliefs and strengthening the potential sensibility to be able to perceive the divine in every place. As the mystic Teilhard de Chardin used to say: “nothing is profane for the person who knows how to see.” And from this the fundamental importance for an “education of sight.” As Henri le Saux, another great searcher used to say, “it’s enough just to open up one’s eyes” in order to perceive the presence of the Grail. One of the most daring mystics of all times, Ibn ‘Arabi, recognizes as very few do, that the heart is the place most fitting for the mystical perception of Reality: a heart capable of grasping all the forms. He says in one of his poems: “People have the most varied beliefs regarding God; but I profess all of them; I believe in all beliefs.”31 In the mystery of the depths, one finds the key of really true spiritual delicacy, of a singular courtesy that makes it possible to perceive the dynamics of the manifestation of the divine in all particular forms. To fix oneself exclusively on the transcendent mission (tanzíh) in order to grasp the divine, is in itself a limitation, just as is to fix exclusively on the dimension of immanence (tasbíh). One must combine the two dimensions: transcendence and proximity in order to approach the Mystery which is and hides, a Mystery which is not only transcendence but also self-revelation for the world.


(Publicado em: José María Vigil (Ed). Toward a Planetary Theology. Along the Many Paths of God. Montreal: Dunamis Publishers, 2010, pp. 170-179)

domingo, 25 de abril de 2010

O mistério e a palavra

O mistério e a palavra

 

Faustino Teixeira

 

 

“A ressurreição já está sendo urdida,

os tubérculos da alegria estão inchando úmidos,

vão brotar sinos”

 

 

A palavra é o singular instrumento dos místicos e poetas, mas é frágil para expressar a dimensão oceânica do Real e o horizonte daquilo que se busca. Ela traduz apenas um aceno ou alusão da força que habita a experiência. Mesmo reconhecendo a incapacidade da linguagem comunicar a intensidade da experiência, os místicos e poetas sabem que ela é tudo o que possuem para aproximar-se desse objetivo impossível. É na dinâmica da palavra e em seu potencial criativo que ocorre o “movimento enigmático” de ruptura de fronteiras, de resistência à opacidade do tempo, de abertura, ainda que limitada, às cores vibrantes e sutis do Real. Como tão bem sinaliza Pablo Neruda, “algo canta entre estas palavras fugazes”.

 

Enlaçados no amor, sem tu nem eu,

livres de palavras vãs, tu e eu! (Rûmî)

 

Um leito comum irmana a mística e a poesia: a experiência amorosa, o enamoramento das pequenas grandes coisas e a atenção aos sinais do cotidiano. Em sublime passagem da Noite Escura, João da Cruz indica que o enlace amoroso convoca os amantes a deixarem-se conduzir para o alto, onde a vida humana permanece suspensa e a brisa sopra mais suavemente:

 

Da ameia a brisa amena,

quando eu os seus cabelos afagava,

com sua mão serena

o meu colo tocava

e todos os meus sentidos suspendia (João da Cruz)

 

A densidade da experiência amorosa não destaca o místico de seu tempo, mas provoca um “desaforado amor pelo todo”. No ápice da união, é toda a beleza do mundo que readquire senso e valor, agora de forma mais ampla e profunda.

 

De forma semelhante ao que ocorre na linguagem mística, a poesia adentra-se na espessura do Real, suscitando a “redescoberta da novidade perene da vida nas pequenas/grandes coisas do dia a dia”1. Um claro exemplo pode ser visto nos trechos do poema Eu vi uma rosa, de Manuel Bandeira:

 

Eu vi uma rosa

- Uma rosa branca -

Sozinha no galho.

No galho? Sozinha

No jardim, na rua. (...)

 

A graça essencial,

Mistério inefável

- Sobrenatural -

Da vida e do mundo,

Estava ali na rosa

Sozinha no galho.

 

A peculiaridade da focalização poética faculta uma intensidade única, capaz de desvendar na “estreiteza do finito, a extensão do infinito”. Segundo José Paulo Paes, “ a visão poética isola aqui um pormenor do mundo para o rever com uma intensidade tal que nele se engolfa por inteiro, esquecida da natureza circundante, agora excessiva ante a plenitude da rosa”2. A linguagem poética tem esse dom de “iluminar a linguagem de todos os dias” e desocultar ali um significado aberto e novo: “As cores próprias da vida se adensam, dançam e se desprendem em redor da visão que se elabora”.3 Tem igualmente o potencial de rememorar a presença do aberto e ilimitado que margeia o mundo impermanente. A poesia traz consigo o dom de ouvir o “canto das coisas”. Na busca incessante de “significar o máximo com o mínimo”, ela recorre a “todos os recursos expressivos disponíveis do idioma”4. Em muitos casos, a sede de alcançar a experiência provoca uma “afirmação sintaticamente improvável”. Não se satisfazendo com o “mundo da frase pronunciada”, o poeta ousa mais, reiventando formas de expressão capazes de corresponder à sua ilimitada ânsia de superação. O caso de Rimbaud é sugestivo, em seu mergulho no desconhecido para trazer o novo:

 

Inventei a cor das vogais! – A negro, E branco, I rubro, O azul, U verde. – Regulei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, me vangloriava de inventar um verbo poético acessível, algum dia, a todos os sentidos. (...) Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.5

 

Como sublinha Ivo Barroso, “ler a poesia de Rimbaud é se dar conta de um incêndio estilístico, em que esse aventureiro do verbo vai queimando as pontes por onde passou, evoluindo ou mudando de rumo quase a cada verso, numa busca ou numa fuga em direção ao Insabido, ao Transcendente, ao Nada”6. Esta poesia é um dos melhores exemplos para poder entender a ousadia da linguagem mística. Há uma sede intensa no coração do poeta, que parte “com amor infinito” e a “alma acesa” em busca de “afetos e rumores novos”.

 

A linguagem mística possui semelhante ritmo encantatório e hipnótico7, marcado por singular magia acústica. É o que se observa nas canções XIV e XV do Cântico Espiritual de João da Cruz:

 

Meu Amado, as montanhas,

os vales solitários nemorosos,

as ilhas mais estranhas,

os rios sonorosos,

o sibilar dos ares amorosos

 

A noite sossegada,

nos raios suavíssimos da aurora,

a musica calada,

a solidão sonora,

a ceia que deleita e enamora.

 

A linguagem mística brota viva de uma experiência particular, que é única e intraduzível. Mesmo assim, o místico busca comunicar essa experiência incontida na alma. No prólogo do Cântico Espiritual, João da Cruz assinala a impossibilidade de explicar com clareza, por meio de palavras, as “expressões amorosas da inteligência mística”. Daí a razão de se empregar “estranhas figuras” para esboçar ou acenar algo vivido na experiência. Para o olhar desatento e comum, tais expressões soam como “dislates” ou disparates, mas na verdade traduzem um saber que é fruto do amor8. Em seu livro biográfico, Teresa de Jesus fala da vitalidade de sua experiência do mistério, que só pode ser entendida por quem passa por algo semelhante. Para expressar tal densidade e louvar o Senhor, ela desejaria “ser toda línguas”. Também a mística de Ávila recorre aos “desatinos santos” para comunicar as maravilhas de Deus. São “disparates” que traduzem a suprema insuficiência lingüística para expressar suas vivências. 9

 

A ousadia e audácia da linguagem mística vêm justificadas por Michel de Certeau, que reconhece a singularidade de uma licença para usar termos particulares e fora de comum. E isto ocorre em razão dessa linguagem tratar de coisas sublimes, sagradas e secretas, que tocam mais de perto a experiência que a especulação. A linguagem mística traduz uma “manipulação técnica das palavras”. Trata-se de uma prática de “destacamento”, onde a língua vem “desnaturada”, perdendo sua função de imitação das coisas. As palavras são “atormentadas” para poderem dizer o que literalmente não conseguem.10 O recurso ao símbolo aparece como exigência da linguagem mística, na medida em que favorece um “abismo de intuições” e fidelidade à profundidade da experiência.

 

O místico é alguém que vive um “tumulto” interior em razão da presença iluminadora de algo não natural, que o envolve e abrasa. Em decorrência dessa visita interior, ele passa a viver desassossegado, buscando romper a crisálida de seu ensimesmamento em direção ao mistério maior que o convoca. Não há como seguir vivendo da mesma forma: há que “atravessar os umbrais da vida”. Nada pode fixá-lo, nada pode matar sua implacável sede, senão o Mistério que o habita. Um mistério, porém, cuja fragrância encontra-se presente em toda a criação, daí seu amor universal. Ao místico aplicam-se as palavras do poeta Neruda: “todas as coisas estão cheias da minha alma”, ou Rimbaud: “Com amor infinito dentro da alma acesa”.

 

Há uma estreita vinculação entre poesia e mística. O místico, como o poeta, vive na espreita de um mistério maior, e alimenta-se também do ar, das rochas, do ferro e carvão11. Ele sabe que é no mundo que o mistério exerce o seu assédio, penetrando e modelando quem vem tocado por sua graça. Impossível distanciar-se de suas camadas mais ardentes. Dizia com acerto Teilhard de Chardin, que “nada é profano neste mundo” para quem sabe ver. E acenava a profundidade como o lugar da Diafania luminosa do Totalmente Outro: “Como pagão, adoro um Deus palpável. Até consigo tocar esse Deus por meio da superfície e toda a profundidade do Mundo da Matéria em que estou contido”. 12

 

Poetas e místicos são tomados por semelhante admiração e amor pelas coisas, pelos pequenos/grandes sinais do cotidiano, pela atenção decisiva a tudo o que existe. Nada mais equivocado que a visão comum de que o místico distancia-se do tempo. Na verdade, o mergulho na profundidade é revelador de uma sintonia nova com o Real. O despojamento e esvaziamento que acompanham o itinerário místico traduzem um amor radical pelas coisas. Quando descobertas em Deus, passam a ser apaixonadamente amadas em sua grandeza. É na mais funda obscuridade do silêncio e na profundidade interior que o místico capta a presença de todas as coisas, que o aguardavam ansiosamente: as montanhas, os vales solitários, as ilhas estranhas, os rios sonorosos e os ares amorosos.

 

Em sua importante experiência de direção espiritual na Trapa, em Getsêmani (EUA), Thomas Merton recordava a seus noviços que a vida contemplativa não podia separar-se de nenhum interesse humano. Tratava-se de algo muito simples e sensível: “simplesmente viver, como o peixe na água”13. Fala-se hoje em mística como “experiência integral da Vida”, como “experiência da realidade”14. Daí sua grande afinidade com a linguagem artística, em especial com a linguagem poética.

 

Uma palavra sobre a edição da antologia

 

A presente antologia de mística e poesia tem uma dimensão bem pessoal, refletindo minha ocular de teólogo interessado particularmente nesses dois campos singulares de expressão da palavra. É um trabalho que traz as digitais de meus estudos nas áreas de mística comparada das religiões e diálogo inter-religioso. Não pensei em elaborar uma antologia abrangente, mas circunscrita aos poetas e místicos que fui encontrando em meu caminho de vida e pesquisa, e que se relacionam com a temática da edição. Em razão da delimitação da revista, tive que fazer escolhas, que são sempre dolorosas. Poderia ter selecionado trechos de outros poetas que não compõem a presente antologia, mas que são muito importantes, como Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Ivan Junqueira, Francisco Carvalho, José Paulo Paes e tantos outros. Tive que dividir as escolhas entre poetas e místicos, dando uma atenção particular à mística islâmica, ainda desconhecida entre nós, e marcada por uma riqueza literária única.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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LUCCHESI, Marco. A sombra do Amado. Rio de Janeiro: Fissus, 2000.

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PAES, José Paulo. Gaveta de tradutor. Versões de poesia. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1996.

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PANIKKAR, Raimon. L´esperienza della vita. La mistica. Milano: Jaca Book, 2005.

PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.

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(Publicado na Antologia de Poesia e Mística da Revista Poesia Sempre, n. 31, – Biblioteca Nacional – Janeiro 2010 – sob curadoria de Faustino Teixeira)



1 José Paulo Paes. Jornal de Poesia. Entrevista com Rodrigo de Souza Leão:

http://www.revista.agulha.nom.br/r2souza08c.html

2 José Paulo Paes. Os perigos da poesia e outros ensaios. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, p. 31. Para o poema de Manuel Bandeira cf. Estrela da vida inteira. 14 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987, pp. 163-164.

3 Arthur Rimbaud. Prosa poética. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998, p. 219 (Being Beauteous)

4 José Paulo Paes. Jornal de Poesia. Entrevista com Rodrigo de Souza Leão.

5 Arthur Rimbaud. Prosa poética, p. 161 (Uma estadia no inferno)

6 Arthur Rimbaud. Poesia completa. 2 ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995, p. 9.

7 Luce López-Baralt. Asedios a lo indecible. Madrid: Trotta, 1998, p. 71.

8 João da Cruz. Obras completas.  2 ed. Petrópolis: Vozes, 1988, pp. 575-577.

9 Teresa de Jesus. Obras de Santa Teresa de Jesus. Burgos: Monte Carmelo, 1949, p. 91 (Livro da Vida XVI,4).

10 Michel de Certeau. La fable mystique 1. XVI e XVII siècle. Paris: Gallimard, 1982, p. 195.

11 Arthur Rimbaud. Prosa poética, p. 171 (fome).

12 Pierre Teilhard de Chardin. Hymne de l´Univers. Paris: Seuil, 1961, p. 26.

13 Ernesto Cardenal. Vida perdida. Memórias 1. Madrid: Trotta, 2005, p. 144.

14 Raimon Panikkar. L´esperienza della vita. La mistica. Milano: Jaca Book, 2005.

(Publicado na Revista Poesia Sempre, nº 31, Ano 16, 2009, pp. 9-12 (Fundação Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro)