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terça-feira, 20 de abril de 2010

O fundamentalismo em tempos de pluralismo religioso

O fundamentalismo em tempos de pluralismo religioso

 

Faustino Teixeira

PPCIR/UFJF

 

Resumo: O texto busca apresentar algumas razões que explicam a emergência do fundamentalismo em tempos de globalização e pluralismo religioso. Depois de uma breve caracterização da globalização e da emergência de uma “ordem social pós-tradicional”, busca-se situar o fenômeno do fundamentalismo como uma reação à contaminação cognitiva que acompanha o pluralismo, e em particular ao clima de incerteza que se instaura na nova dinâmica da modernidade.

 

 

Um dos fenômenos característicos de nosso tempo e que produz impactos decisivos sobre a religião é o dado da globalização, entendida como a afirmação de uma nova consciência global e planetária, que incide sobre a sociedade e os indivíduos. Trata-se de uma globalização intensificadora, que não se restringe a uma dimensão econômica, mas diz respeito “à transformação de contextos locais e até mesmo pessoais de experiência social”[1].  Atividades locais e cotidianas passam a ser influenciadas ou mesmo determinadas por acontecimentos que ocorrem do outro lado do mundo, bem como hábitos ou estilos de vida. Este fenômeno incide igualmente sobre os sistemas de crença, cujos confins simbólicos não conseguem mais controlar suas “fronteiras”. Os símbolos religiosos transgridem seus confins originários, e passam a circular livremente, podendo inclusive ser utilizados por atores religiosos distintos.

 

     Com a globalização ocorre um “processo de decomposição e recomposição da identidade individual e coletiva que fragiliza os limites simbólicos dos sistemas de crença e pertencimento”[2]. Diante da “contaminação cognitiva” favorecida pela globalização e a insegurança que acompanha a incidência do pluralismo sobre as estruturas de plausibilidade dos sujeitos concretos, dois desdobramentos podem ocorrer. De um lado, a demarcação de identidades particulares, ou seja, o refúgio em universos simbólicos que favoreçam a impressão de uma unidade coerente e compacta da realidade social. De outro, a abertura à “mestiçagem cultural”, a negociação ou intercâmbio cognitivo com o horizonte da alteridade.

 

A dinâmica atual da globalização e da pluralização correlata provoca a emergência de uma “ordem social pós-tradicional”, onde as tradições, sem perder o seu sentido de identidade, mudam de status: são discursivamente forçadas a uma exposição. Numa sociedade pós-tradicional as identidades religiosas são permanentemente provocadas a se declararem, a entrar em contato e se enriquecer com o diferente. Não há como escapar do processo permanente de redefinição da identidade e de reinvenção da tradição (ressemantização do sentido) numa sociedade plural. As mudanças em processo provocam um sério questionamento às “certezas” de fé enrijecidas ou cristalizadas. Não se trata, porém, de abandonar a tradição, mas de “reinterpretá-la” criativamente, adequando-a à situação contemporânea.

 

Nesta nova perspectiva, as tradições são colocadas diante de uma dupla opção: ou a recusa do engajamento discursivo e da comunicação ou a abertura dialogal. A escolha da primeira opção implica muitas vezes na assunção do fundamentalismo, que consiste na “defesa da tradição de forma tradicional”, em reação às novas circunstâncias da comunicação global. A segunda opção, da comunicação dialógica, impõe-se hoje como um dos desafios mais fundamentais da humanidade.

 

O exercício de uma comunicação dialógica implica necessariamente um deslocamente de fronteiras. Trata-se de um tema crucial para os próximos decênios: como trabalhar a questão das fronteiras com as outras tradições religiosas, ou melhor, como exercer a “arte de transpor fronteiras”. A “conversação” inter-religiosa é uma realidade não só possível como fundamental no momento presente. Poucas são as conversações tão importantes, e poucas tão complexas e difíceis, já que envolvem um processo de interpretação. Quando realmente autêntica, uma conversação exige abertura à mútua transformação. Exige ainda a capacidade de reconhecer “semelhanças na diferença”. Entrar em conversação é estar disposto a “arriscar toda a sua auto-compreensão atual e levar a sério as posições do outro que reclama para si igual reconhecimento de autenticidade e verdade em sua auto-compreensão”[3].

 

A conversação constitui um dos mais essenciais imperativos de manutenção do sentido para os sujeitos. É mediante a conversação com os “outros significativos” que os indivíduos se apropriam do mundo, como é igualmente por ela que o mundo construído se mantém ou reconstrói sua plausibilidade.  Segundo a perspectiva da biologia do conhecer, trabalhada por Humberto Maturana, é na conversa que o ser humano se constitui como tal na história evolutiva. É na interação com os outros, na aceitação de sua  singularidade, no emocionar-se com eles, que brota o amor, que é fundamento do fenômeno social. “A origem antropológica do Homo sapiens não se deu através da competição, mas sim através da cooperação, e a cooperação só pode se dar como uma atividade espontânea através da aceitação mútua, isto é, através do amor”[4].

 

Um dos maiores entraves para o diálogo inter-religioso é o sentimento de predomínio sobre os outros ou a competição cega que apaga a sua singularidade única. A original reflexão de Maturana ajuda a compreender que toda competição abafa a possibilidade do amor, gerando a cegueira e  reduzindo a dinâmica de criatividade e as circunstâncias da humana convivialidade. O amor implica gratuidade. Trata-se de um “anseio biológico que nos faz aceitar a presença do outro ao nosso lado sem razão, nos devolve à socialização e muda a referência de nossas racionalizações. A aceitação do outro sem exigências é o inimigo da tirania e do abuso, porque abre um espaço para a cooperação. O amor é inimigo da apropriação”[5] Não pode haver diálogo inter-religioso sem esta gratuita aceitação do outro, de seu envolvimento no espaço aberto do amor.

 

Como indica Peter Berger, com a modernidade veio um aumento quantitativo e qualitativo da pluralização, marcada por enorme abrangência e velocidade. Tornam-se disponíveis e acessíveis uma pluralidade de modos de pensar e viver, também no âmbito da religião. No espaço da modernidade plural fica extremamente difícil manter e assegurar a auto-evidência do conhecimento tradicional: todas as interpretações perdem a garantia de sua exclusividade, e tornam-se hipóteses dentro de um quadro bem mais amplo de possibilidades.  Uma semelhante situação provoca nos indivíduos e em suas comunidades insegurança e temor. Para uma gama significativa de pessoas, o pluralismo é visto como um peso e uma ameaça: “é muito cansativo ter de levar a própria vida sem poder ´agarrar-se` a padrões de interpretação e normas de comportamento inquestionavelmente válidos. Isto leva a uma nostalgia manifesta pelos bons e velhos tempos da não liberdade”[6]. Não há como assegurar na situação moderna de pluralização a firmeza de “muros protetores” e sólidos: haverá sempre a possibilidade de brechas dispersivas. Os projetos restauradores atualmente em curso nos diversos domínios religiosos direcionam-se nitidamente para uma orientação de seus fiéis, e muitas vezes incluem a supressão ou pelo menos a limitação do pluralismo.[7]  

 

É a mudança no desenho da tradição na sociedade pós-tradicional  que provoca tantas dificuldades  em setores mais conservadores. Há uma grande dificuldade  em compreender que o elemento de continuidade  entre o passado e o presente deve ser sempre dinamizado pela incorporação das inovações e reinterpretações em função dos dados do presente. Não ocorre uma ruptura da preservação do código de sentido anterior, mas há uma mudança no mesmo. Entender a tradição de forma estática é esvaziá-la de seu conteúdo de reinvenção permanente. Com a mudança do papel da tradição, uma nova dinâmica social vem introduzida, e com ela, a exigência de um modo de vida mais aberto e reflexivo[8]. No mundo cosmopolita e plural torna-se muito difícil a preservação de identidades isoladas e estanques. Torna-se inevitável o contato e a relação de umas pessoas com outras, a percepção da diversidade plural de formas de pensamento e ação e o imperativo da reflexividade.

 

Esta nova situação terá um influxo importante no campo religioso. Com a crescente mobilidade, verifica-se o contato entre pessoas de crenças diferentes. Instaura-se, de fato, uma realidade de pluralismo religioso mais imediata, mas não menos tensa: “as diferenças de crenças, às vezes muito radicais, são mais diretamente visíveis, com freqüência crescente, e mais diretamente encontradas: prontas para a suspeita, a preocupação, a repugnância e a altercação”[9]. Esta mesma diferença pode, entretanto, propiciar um espaço para a afirmação de um novo entendimento e solidariedade  mútuos. Na base de muitos dos conflitos religiosos  em curso hoje na humanidade encontra-se a busca ou construção da identidade. Enquanto no passado esta identidade era mais garantida e unificada, ela passa no mundo moderno “para um regime plural”[10], mas diante de tal regime o sujeito fica dividido  entre duas possibilidades:  o diálogo  cosmopolita  ou a redução fundamentalista. Trata-se de duas possibilidades concretas de reagir ao desafio da globalização.  A ameça da segunda possibilidade  está muito patente no momento atual, ou seja, da “recusa do diálogo num mundo cujo ritmo e continuidade  dependem dele”[11].

 

O fundamentalismo é um fenômeno marcadamente moderno, expressão de uma reação às influências da globalização  e do pluralismo.  Ao acentuar dissonâncias  cognitivas, o pluralismo provoca em indivíduos ou grupos um sentimento de insegurança significativamente  ameaçador para a plausibilidade   de sua inserção no mundo. Como sublinha  Peter Berger,

 

“o pluralismo  cria uma condição de incerteza permanente com respeito ao que se deveria crer e ao modo como se deveria viver; mas a mente humana abomina a incerteza, sobretudo no que diz respeito ao que se conta na vida. Quando o relativismo alcança certa intensidade, o absolutismo volta a exercitar um grande fascínio”[12].

 

Ao sentimento de insegurança responde-se com uma redução cognitiva defensiva ou ofensiva. Diante do risco dissolvedor  da dúvida, reage-se com a afirmação ortodoxa. No primeiro caso, ocorre um fechamento comunitário, é a estratégia do gheto. No segundo caso, mais ameaçador, adota-se a estratégia da cruzada, ou seja, o caminho da reconquista da sociedade em nome da tradição religiosa particular. Todo fundamentalismo vem circundado de uma potencialidade  de violência.  Há na sua base uma “espiral degenerada de comunicação” e uma recusa explícita a qualquer potenciamento dialogal.  O que “originalmente  é apenas um isolacionismo, ou talvez a insistência na pureza de uma tradição local, pode se essa for a tendência das circunstâncias, transformar-se em um ciclo vicioso de animosidade e rancor”[13].

 

O fenômeno do fundamentalismo, como bem acentuou Giddens, deve ser analisado “contra o pano de fundo do surgimento da sociedade pós-tradicional”[14].  Ele implica, de fato, a realidade de uma “tradição sitiada”. Diante da ameaça globalizadora, ele reage com a afirmação tradicional da tradição. Rejeita-se  todo e qualquer engajamento dialogal  com a modernidade, bem como qualquer possibilidade  de reflexividade da tradição. Na raiz do fundamentalismo há o sentimento de insegurança, desorientação ou anomia resultantes de uma dinâmica modernizadora. Torna-se intolerável para os fundamentalistas a possibilidade de esvaecimento de seus valores tradicionais. Reagem ao abalo provocado pelas crises do mundo moderno em suas comunidades de fé e em suas convicções básicas. Como medidas de contra-ataque, recusam todos os vetores associados à lógica moderna: a hermenêutica, o pluralismo, o relativismo, a evolução e o desenvolvimento; e reforçam os canais de solidariedade  grupal.

 

“Com sua capacidade de recriar nexos de solidariedade grupal, de dotar a vida de sentido e finalidade, de inventar um passado mítico em que não existiam as tensões e as incertezas do mundo contemporâneo, de alimentar a esperança numa vida futura que possa compensar todas as humilhações do presente e de fazer da religião uma trincheira de resistência cultural, capaz de enfrentar as pressões niveladoras provocadas pela globalização, o fundamentalismo parece constituir uma resposta para todas as frustrações da vida moderna”[15]. 

 

O fundamentalismo é uma realidade recorrente nas religiões nos tempos modernos, surgindo sempre como uma reação aos problemas da modernidade. Com respeito ao contexto religioso,  este termo foi aplicado pela primeira vez por volta da passagem do século XIX para o século XX, referindo-se a um movimento teológico de origem protestante. Este movimento nasce nos Estados Unidos como reação ao modernismo e liberalismo  teológico,  e assume como bandeira as idéias de inerrância bíblica, de escatologia milenista e anti-ecumenismo[16]. Os fundamentalistas buscam reagir ao processo de “adaptação cognitiva” do cristianismo ao mundo moderno realizado pela teologia liberal protestante, de modo particular ao método de interpretação bíblica em perspectiva histórico-crítica. Entre os traços que marcam o movimento estão a rejeição da hermenêutica, do pluralismo e do evolucionismo[17]. Como bem mostrou Jürgen Moltmann, “os fundamentalistas não reagem às crises do mundo moderno, mas às crises que o mundo moderno provoca em sua comunidade de fé e em suas convicções básicas”[18]. Diante do temor suscitado pelo pluralismo, percebido como um endosso do relativismo, os fundamentalistas reagem de forma vigorosa:

 

“A identidade fundamentalista é uma identidade ameaçada, amedrontada, cheia de incerteza e, por isso, uma identidade que reage agressivamente. É uma identidade que não tem consciência de si mesma, mas se define pela delimitação ou negação de inimigos reais o supostos”[19]

 

  Sobretudo após os episódios  violentos de 11 de setembro de 2001, a questão do fundamentalismo foi muito enfatizada pelos diversos meios de comunicação. Há uma tendência na mídia ocidental, fortalecida após esta data, a identificar e/ou reduzir  o fenômeno do fundamentalismo  à questão islâmica.[20] Trata-se na realidade de um grande equívoco. Na verdade, a tendência fundamentalista  irá marcar presença no Islã bem mais tarde do que a verificada nas outras duas grandes tradições monoteístas, ou seja, o judaísmo e o cristianismo.  Esta tendência irá ocorrer no Islã sobretudo por volta dos anos de 1960 e 1970, em reação ao enraizamento da cultura moderna em solo muçulmano[21].

 

Há que sublinhar a questão específica da terminologia. O termo fundamentalismo está intimamente ligado à sua origem no contexto cristão, assumindo uma conotação bem determinada. Afirma-se como uma tendência do conservadorismo protestante americano, tendo como base fundamental uma interpretação literalista e estreita da Bíblia. Para evitar distorções problemáticas, a aplicação deste termo a outras designações religiosas  deve ser realizada de forma mais matizada. Alguns autores preferem utilizar outras designações quando tratam do fenômeno análogo que ocorre em outras tradições: integrismo, conservadorismo etc. O fenômeno atual do fundamentalismo marca presença em várias tradições religiosas, envolvendo também aquelas caracterizadas por perspectiva inclusiva,  como o hinduísmo e o budismo.[22]

 

  No âmbito do judaísmo, a resposta aos desafios da modernidade ocorreu seguindo trajetórias diferentes. Ao lado de posições reformistas e abertas ao processo de assimilação da dinâmica moderna, houve igualmente o reforço de tendências ortodoxas, rigidamente críticas a toda e qualquer contaminaçao cognitiva provinda dos ideais iluministas.  Há que reconhecer a importância do lugar concedido à interpretação no judaísmo. Trata-se de um povo com “vocação hermenêutica”. Na linha do espírito de abertura do Talmude, Deus não pode ser encerrado numa perspectiva petrificada, pois é um Deus infinito.  Resguarda-se um espaço livre para a interpretação e o horizonte aberto para a apreensão de novos sentidos. Segundo uma importante passagem do Talmude: “Palavras de uns e de outros, palavras do Deus vivo”[23]. Este espírito de abertura não encontrou, porém, espaço em formas particulares do Judaísmo Ortodoxo atualmente florescente. Verifica-se nestes casos pontos de concordância bem precisos com a nebulosa fundamentalista.  Deve-se sublinhar, em particular, a “concepção segregacionisa” que toma forma nestas expressões concretas do judaísmo, marcada por traços bem característicos, sobretudo a rejeição de todo intercâmbio com o mundo circunstante e a concepção exclusivista da verdade.[24] Afirmam-se no atual cenário judaico não apenas os núcleos ultra-ortodoxos, mas também os grupos sionistas religiosos,  que vem marcando presença de forma articulada desde 1902. Como indica Bernard Sorj, “o sionismo,  primeiro como movimento social e depois como ideologia de um Estado que devia criar uma nova cultura homogênea, participou dessa tendência excludente. Centrado no dogma de que a diáspora era a origem de todos os males do povo judeu, o sionismo desvalorizava todas as outras expressões do judaísmo moderno”[25]. O que se verifica atualmente em Israel é uma expressão do triunfo político do sionismo,  cujos resultados estão bem visíveis no atual conflito com os palestinos. Os desdobramentos conflitivos desta realidade são questionados por José Saramago em impressionante depoimento:

 

“É nisto que consiste, desde 1948, com ligeiras variantes meramente táticas, a estratégia política  israelita. Intoxicados mentalmente pela idéia messiânica de um Grande Israel que realize finalmente os sonhos expansionistas do sionismo mais radical; contaminados pela monstruosa e enraizada ‘certeza’ de que neste catastrófico e absurdo mundo existe um povo eleito por Deus e que, portanto, estão automaticamente justificadas e autorizadas, em nome também dos horrores passados e dos medos de hoje, todas as ações próprias resultantes de um racismo obsessivo, psicológica e patologicamente exclusivista”[26].

 

Com respeito ao catolicismo, o traço do fundamentalismo estará mais evidenciado nos procedimentos modernos com os quais a tradição eclesiástica busca resguardar as decisões doutrinais obrigatórias. Enquanto os protestantes sublinham a infalibilidade  da Escritura, os católicos acentuarão a infalibilidade do magistério.  Uma dinâmica mais conservadora diante dos tempos modernos irá paulatinamente ganhando espaço no campo católico com o tridentinismo. Trata-se aqui da afirmação de um sistema e de um espírito, constituídos  a partir do Concílio de Trento (1545-1563), que envolverão diversos setores do mundo católico: teologia, ética, prática religiosa, liturgia, organização eclesiástica etc. Este tridentinismo irá favorecer uma representação particular do catolicismo romano, reticente e crítico face aos desafios da modernidade. Uma expressão viva de tal representação irá ocorrer por ocasião da “controvérsia modernista”, no início do século XX. Em reação ao espírito do tempo, o Papa Pio X lançará em 1907 a encíclica Pascendi, que em nome da infalibilidade  do magistério, condenará em sua globalidade  os “erros” do modernismo. Instaura-se, assim, um elemento singular no campo católico, caracterizado pelo zelo doutrinal e  pela perseguição aos que se desviam do “caminho reto”.[27]  Embora tais forças conservadoras encontraram um importante contra-ponto no Concílio Vaticano II (1962-1965) e nos movimentos eclesiais renovadores que o anteciparam e sucederam, elas voltarão a exercer o seu influxo a partir da  década de 80, durante o pontificado de João Paulo II.  Na atual conjuntura eclesiástica, estão presentes e ativas forças conservadoras e articuladas em favor de uma restauração, entendida como a busca de um novo equilíbrio, depois dos “exageros” da abertura conciliar.

 

A afirmação fundamentalista no Islã ocorrerá sobretudo como uma reação ao laicismo coercitivo que acompanha a sedução modernizadora. Nasce como fruto de uma insegurança e apreensão face à dinâmica secularizadora, ao temor da perda da tradição e da exclusão do divino da vida pública.  Depois de viver um período de grande floração e expansão, cujo apogeu encontra-se no século XIII[28], o Islã viverá um momento de crise. Este período coincidirá com a dinâmica de afirmação colonialista européia. O desgaste sofrido pode ser atribuído tanto ao processo de devastação resultante das várias ondas de invasão dos mongóis, como ao declínio econômico e político-militar  dos países muçulmanos.

 

Com a crise de plausibilidade  instaurada, haverá espaço para um novo rearranjo e interrogações alternativas sobre o destino do Islã.  O contato com a Europa colonialista  possibilitou  um processo de abertura ao modernismo. A busca de renovação da comunidade (umma) muçulmana seguirá o modelo ocidental: o novo imperativo será de reforma (islâh), de busca do novo e de esforço interpretativo (ijtihâd). Um  dos grandes inspiradoras para tal reforma foi Jamâl ad-din al-Afghânî (m. 1897), que atuou no Cairo em defesa do retorno às fontes da Escritura islâmica, contra a exegese tradicional  em curso. Deixou uma leva de discípulos, entre os quais Muhammad ‘Abduh (m.1905). Os dois propunham a busca de uma nova e revitalizadora leitura do Corão.[29] O processo de secularização ganhou, porém, um acento particular e radicalizado em determinados países muçulmanos como a Turquia, Egito e Irã. No caso da Turquia, o processo foi bem agressivo, e ocorreu durante o governo de Ataturk, que em 1924 abole o califado otomano, instaura uma república nacionalista turca e dá início a um processo de “ocidentalização do islamismo”.  Dentre suas iniciativas, pode-se mencionar a abolição das ordens sufis, o fechamento das escolas de ensinamento do Corão, a obrigação do uso de trajes ocidentais e a proibição do véu para as mulheres[30]. Um similar processo de modernização ocorre no Egito e no Irã. Neste último país, o programa de modernização levado a efeito por Reza Shah foi igualmente implacável.[31]

 

As reações ao processo secularizador vieram em seguida. O primeiro movimento fundamentalista no Islã, os Irmãos Muçulmanos, nasce no Egito em 1928, como reação crítica à dinâmica modernizadora e secularizadora em curso, acusada de ocasionar a desestruturação da comunidade islâmica. Lançam um slogan que estará sempre presente nas correntes islamitas: “A nossa constituição é o Corão”[32].  A mesma reação ao laicismo usurpador do Ocidente presidiu a formação do movimento Jamaat-i-Islami  em 1948 no Paquistão. O seu grande ideólogo foi Mawdudi (1903-1979),  que  defende um novo caminho de islamização do Estado, que possibilite  uma soberania exercida em nome de Allah. Aos cinco tradicionais pilares do Islã, ele acrescentará um sexto, a jihad, entendida como luta contra as forças que provocam o aniquilamente cultural e religioso do Islã. A influência  deste ideólogo se fará sentir em outro grande nome do fundamentalismo islâmico, Sayyid Qutb (1906-1966).  Este reformador exercerá uma forte oposição ao laicismo e “paganismo” de al-Nasser no Egito, em nome da criação de um verdadeiro Estado muçulmano. Na base do fundamentalismo sunita está a influência da ideologia de Qutb, que pontuou igualmente a afirmação do poder dos talibãs em 1994 no Afeganistão.

 

  Para estes e tantos outros movimentos fundamentalistas que estarão presentes no campo islâmico, sobretudo a partir dos anos 70, a solução para os problemas políticos  dos muçulmanos não pode encontrar sua resposta em valores exógenos, mas na afirmação efetiva de um Estado islâmico que aplique  concretamente a lei muçulmana (shari’a).  A revolução iraniana de 1978-1979 foi um divisor de águas importante, e a partir dela a ofensiva fundamentalista ganhará expressão mais decisiva. Ela não surgiu, porém, do nada, mas foi longamente gestada numa contra cultura religiosa. O sucesso e prestígio deste empreendimento revolucionário acabaram alimentando uma série de fenômenos aproximativos seja nas zonas diretamente marcadas pelo xiismo iraniano, como o Líbano e os Estados do Golfo, bem como em outras partes.[33]

 

Não há como desconhecer a presença do fenômeno fundamentalista em curso no Islã. Mas seria incorreto e equivocado concluir que todo o Islã é fundamentalista, como afirmou o historiador inglês Paul Johson[34]. Na verdade, “a atual explosão integralista, nas suas várias formas e facetas, significa certamente um fenômeno profundo e preocupante mas claramente minoritário (e se espera não duradouro) da secular tensão entre tradição e modernidade, entre sabedoria divina e sabedoria humana que caracteriza o Islã desde suas origens”[35] As formas mais “explosivas” e contundentes dos movimentos islamitas  acabam prevalecendo e abafando a realidade mais ampla e complexa do fenômeno do Islã. A exigência de uma relativização não invalida  a importância de um trabalho crítico  e científico que deve ser feito em favor da compreensão da tradição islâmica para além das transgressões que ela sofreu ao longo da história[36]. Não se pode, entretanto deixar de acentuar a difícil  e dolorosa situação que vem provocando a insurgência e afirmação fundamentalista no Islã. Embora seja difícil diagnosticar  com precisão  as causas deste fundamentalismo, não há como negar sua realidade de “efeito objetivo  de fatores cuja eliminação requer nada menos que uma correção de rumos na estrutura de nossa modernidade”[37].

(Artigo plublicado no livro: Alberto da Silva Moreira & Irene Dias de Oliveira (Orgs). O futuro da religião na sociedade global. São Paulo: Paulinas, 2008)

[1] Anthony GIDDENS. Para além da esquerda e da direita. São Paulo: Unesp, 1995, p. 13.

[2] Enzo PACE. Religião e globalização. In: Ari Pedro ORO & Carlos Alberto STEIL (Orgs.) Globalização e religião. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 32.

[3] David TRACY. Pluralidad y ambigüedad, p. 142.

[4] Humberto MATURANA. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1997, p. 185.

[5] Ibidem, p. 186.

[6] Peter BERGER. Modernidade, pluralismo e crise de sentido. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 57.

[7] Ibidem, p. 58.

[8] O conceito de reflexividade é de grande importância na obra de Anthony Giddens. Para ele, “a reflexividade da vida social moderna consiste no fato de que  as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter”: As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991, p. 45.

[9] Clifford GEERTZ. Novo olhar sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2000, p. 158.

[10] Pierre SANCHIS. Religiões no mundo contemporâneo: convivência e conflitos. Belo Horizonte, Mimeo, 2001, p. 4.

[11] Anthony GIDDENS. Mundo em descontrole. Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 59.

[12] Peter L. BERGER. Una gloria remota: avere fede nell’epoca del pluralismo. Bologna: Il Mulino, 1994, p. 48.

[13] Anthony GIDDENS. Para além da esquerda e da direita, p. 277. Ver ainda: Amin MAALOUF. L´identità.  Milano: Bompiani, 2007 (onde o autor trabalha com a idéia de “identidades mortíferas”).

[14] Ibidem, p. 14.

[15] Sérgio Paulo ROUANET. Os três fundamentalismos. Folha de São Paulo – Caderno Mais, 21 de outubro de 2001, p. 13. Ver também: Jurgen MOLTMANN. Fundamentalismo e modernidade. Concilium, v. 241, n. 3, p. 146, 1992.

[16] Antônio Gouvêa MENDONÇA & Prócoro VELASQUES FILHO. Introdução ao protestantismo no Brasil. São Paulo:  Loyola, 1990, pp. 120-129; Martin N. DREHER. Fundamentalismo. São Leopoldo: Sinodal, 2006.

[17] Martin E. MARTY. O que é fundamentalismo? Concilium, v. 241, n. 3, 1992, pp. 16-22.

[18] Jürgen MOLTMANN. Fundamentalismo e modernidade. Concilium, v. 241, n. 3, 1992, p. 142.

[19] Ibidem, p. 146.

[20] A questão do medo do Islã, afirmada em território europeu e atualmente disseminada por outros lugares, tem uma longa história. Está relacionada ao impressionante crescimento do Islã desde a morte de seu profeta, em 632. Como bem sublinhou  Edward Said, “o Islã passou a simbolizar o terror, a devastação, o demoníaco,  as hordas de odiosos bárbaros. Para a Europa, o Islã era um trauma duradouro”: Orientalismo, p. 69. Este temor vem  acentuado hoje no espaço americano, com a afirmação de teses como a de  Samuel Huntington, para o qual o ressurgimento islâmico significa um risco concreto de choque civilizacional. Cf. Samuel P. HUNTINGTON. O choque de civilizações. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.

[21] Karen ARMSTRONG. O Islã. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, pp. 219-220.

[22] Para uma abordagem sintética dos fundamentalismos etno-religiosos na Índia contemporânea e no neo-hinduísmo cf. Enzo PACE. Il regime della verità. Bologna: Il Mulino, 1990, pp. 120-131.

[23] Marc-Alain QUAKNIN. O Deus dos judeus. In: Jean BOTTÉRO & Marc-Alain QUAKNIN & Joseph Moingt. A mais bela história de Deus. São Paulo: Difel, 2001, p. 64.

[24] Jacob NEUSNER. O desafio do fundamentalismo judaico contemporâneo. Concilium, v. 241, n. 3, p. 67-71, 1992.

[25] Nilton BONDER & Bernardo SORJ. Judaísmo para o século XXI. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 56.

[26] José SARAMAGO. Das pedras de Davi aos tanques de Golias. O Globo, 14 de abril de 2002, p. 44.

[27] Giuseppe ALBERIGO. Instituições eclesiais para a salvaguarda da ortodoxia. Concilium, v. 212, n. 4, pp. 95-96, 1987; Hans KÜNG. Contra o fundamentalismo romano-católico hodierno. Concilium, v. 241, n. 3, p. 151, 1992; Pierre LATHULIÈRE. Le fondamentalisme catholique. Paris: Cerf, 1995.

[28] Alguns autores como Roger Arnaldez sublinham a crucialidade deste momento histórico, cuja contribuição foi fundamental para a gênese da Europa e do Ocidente moderno. Cf. Roger ARNALDEZ. A la croisée des trois monotheísmes: une communauté de pensée au Moyen-Age. Paris: Albin Michel, 1993, pp. 7-8.

[29] Carlo SACCONE. Allora Ismaele s’allontanò nel deserto... I percorsi dell’Islam da Maometto ai nostri giorni. Padova: Editrice Messaggero Padova, 1999, pp. 287-297.

[30] Karen ARMSTRONG. Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, pp. 220-221.

[31] Ibidem, pp. 249-250 e 257-258.

[32] Gilles KEPEL. Jihad Ascesa e declino: storia del fondamentalismo islamico. Roma: Carocci, 2001, p. 28.

[33] Dentre os movimentos fundamentalistas surgidos a partir da década de 70 no mundo islâmico podem ser assinalados os seguintes: Jihad al-islami (Egito-1970), Fronte de salvação islâmico (Algéria-1989), Fronte nacional islâmico (Sudão-1978), Hesbollah (Líbano-1982),  Hamas (Palestina-1987).

[34] Em entrevista à revista Veja, de 26 de setembro de 2001, p. 9.

[35] Carlo SACCONE. Allora Ismaelle..., p. 306.

[36] Vale registrar o esforço que vem sendo feito por islamólogos como Mohammad Arkoun, no sentido da construção de uma teologia da tradição islâmica, bem como de abertura para a investigação antropológica e semiótica com respeito ao Corão e aos Hadith. Cf. Mohammed ARKOUN. L’islam actuel devant sa tradition. In: Joseph DORÉ (Ed.) Christianisme judaisme et islam: fidelité et ouverture. Paris: Cerf, 1999, pp. 126-140.

[37] Sérgio Paulo ROUANET. Os três fundamentalismos, p. 13. 

terça-feira, 13 de abril de 2010

O pluralismo inclusivo de Jacques Dupuis

O Pluralismo Inclusivo de Jacques Dupuis 

Faustino Teixeira

PPCIR-UFJF

 

O tema do pluralismo religioso vem hoje envolvendo de forma cada vez mais decisiva a teologia cristã, que é provocada a posicionar-se positivamente a respeito. O quadro das posições em jogo é bem complexo e envolve uma variante bem diversificada. Dentre os autores que apresentam propostas específicas de reflexão encontra-se o teólogo belga Jacques Dupuis (1923-2004), cujo livro “Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso”[1] constitui um importante marco no balizamento metodológico neste campo de abordagem teológica. O objetivo deste capítulo é especificar o traço distintivo do modelo proposto pelo teólogo belga e que vem definido como pluralismo inclusivo. Mas antes faz-se necessária uma breve síntese dos paradigmas e modelos existentes.

 

Os paradigmas da teologia cristã do pluralismo religioso

 

O itinerário seguido pela teologia cristã, no seu esforço de compreender a relação do cristianismo com as outras religiões pode ser sintetizado em três diferentes perspectivas adotadas no tratamento da questão[2]. Há que reconhecer que são perspectivas que envolvem inúmeras variações e nuances. O caminho mais tradicional de abordagem sobre o tema identifica-se com o paradigma[3] exclusivista, presente tanto em âmbito católico-romano como protestante. Trata-se de uma posição que vincula a possibilidade de salvação ao conhecimento explícito de Jesus Cristo e a pertença à Igreja. Sua vigência encontra-se mais rarefeita no tempo atual, restringindo-se a grupos católicos mais conservadores e núcleos de fundamentalistas protestantes[4].

 

Um caminho hoje mais partilhado identifica-se com o paradigma inclusivista, que se apresenta diversificado em modelos diferenciados. É uma perspectiva que já admite a atribuição de valor positivo às religiões, sem contudo conferir-lhes uma autonomia salvífica, em razão da defesa da unicidade e universalidade da salvação em Jesus Cristo. Podem-se destacar três posições (ou modelos) presentes neste paradigma.

 

Em primeiro lugar, o que se convencionou chamar de teoria do acabamento (ou cumprimento), defendida por teólogos como Jean Daniélou, Henri de Lubac e Hans Urs von Balthasar, entre outros. Nesta posição, são reconhecidos os valores positivos das outras religiões, mas estas são destinadas a encontrar o seu “acabamento” ou “remate” no cristianismo. As outras tradições religiosas, tidas como naturais, são concebidas como “preparação evangélica” ou “marcos de espera” para a sua realização no cristianismo.

 

Uma segunda posição, associada ao pensamento de Karl Rahner, marca uma mudança de perspectiva. Em razão de uma compreensão mais aberta da dinâmica da revelação, as outras religiões deixam de ser vistas como simples expressões “naturais” de uma busca humana, e passam a ser reconhecidas em sua dimensão sobrenatural, definida pela operante presença do mistério de Jesus Cristo em seu interior. Rahner enfatiza a presença de um “componente existencial sobrenatural” nas diversas religiões, o que impossibilita considerá-las simplesmente fruto da especulação humana, da depravação ou vontade autônoma de criação[5]. Mas permanece para ele em vigência a idéia da constitutividade salvífica de Jesus Cristo, ou seja, de Jesus como causa da salvação.

 

Uma terceira posição, hoje dominante entre teólogos como Jacques Dupuis e Claude Geffré, afirma a defesa de um pluralismo religioso inclusivo. Trata-se de uma posição que busca conciliar o “cristocentrismo inclusivo” com o “pluralismo teocêntrico”[6]. É uma  perspectiva que reconhece e acolhe o pluralismo religioso de princípio, entendido como realidade que se insere positivamente no desígnio misterioso de Deus. Mas que ao mesmo tempo mantém vigente e vinculante a afirmação de fé e a doutrina nuclear cristã sobre a unicidade de Jesus Cristo[7], enriquecida, porém, com uma compreensão mais dinâmica e aberta do processo das auto-manifestações de Deus e de seu Espírito na história. O pluralismo inclusivo defende com vigor o “valor intrínseco” das outras tradições religiosas, enquanto vias misteriosas de salvação.

 

Mas há também um outro caminho de resposta à questão, identificado com o paradigma pluralista, que envolve uma gama de posicionamentos teológicos, e que vem defendido entre outros  por John Hick e Paul Knitter. Como traço característico deste paradigma está o reconhecimento das outras tradições religiosas como instâncias legítimas e autônomas de salvação, como religiões verdadeiras e não como um cristianismo diminuído. Mas para tanto, torna-se necessário romper com a idéia da constitutividade salvífica de Jesus Cristo. Na hipótese pluralista de Hick, firma-se a idéia da centralidade do Real, que é fonte e fundamento de tudo, em torno do qual as diversas tradições religiosas encontram-se alinhadas, podendo a ele responder positivamente mediante um processo de transformação que leve do autocentramento ao recentramento no mistério maior da alteridade.

Uma cristologia trinitária e pneumatológica

 

As pistas teológicas abertas por Jacques Dupuis em favor de uma teologia cristã do pluralismo religioso foram apresentadas nas suas duas últimas obras, que compõem uma trilogia envolvendo o tema do cristianismo e as religiões[8]. O que ele propõe são roteiros que possam resultar num  “salto qualitativo da teologia cristã e católica das religiões, para uma avaliação teológica mais positiva delas e uma atitude concreta mais aberta com relação a seus seguidores”[9]. E roteiros que se inserem “deliberadamente no quadro da fé eclesial”, mas sempre abertos à interlocução criadora. É este “salto qualitativo” que pode garantir, segundo Dupuis, a credibilidade da mensagem cristã num tempo marcado pela dinâmica multicultural e multireligiosa.

 

O modelo proposto por Dupuis busca manter-se eqüidistante tanto do absolutismo como do relativismo. Trata-se de uma perspectiva que busca levar a sério a questão do pluralismo religioso, entendido como dado de princípio e situado no desígnio de Deus para a salvação da humanidade. Sua proposta consiste em mostrar a compatibilidade da afirmação da identidade cristã com “um reconhecimento autêntico da identidade das outras comunidades de fé”[10]. Para Dupuis, a auto-revelação do Mistério Absoluto, que opera sempre num desígnio unitário, manifesta-se em “diversos percursos religiosos” legítimos. Esta percepção abre novas perspectivas para o diálogo inter-religioso, que possibilita aos cristãos descobrir com admiração “tudo aquilo que a ação de Deus, através de Jesus Cristo e do seu Espírito, realizou e continua realizando no mundo e na humanidade inteira”[11]. Longe de lhes enfraquecer a fé, o diálogo a aprofunda, facultando-lhe sua abertura a novas e inéditas dimensões do Mistério de Deus. É nesse sentido que Dupuis justifica sua tese de que “uma teologia das religiões deve ser, em última análise, uma teologia do pluralismo religioso”[12].  

 

A  cristologia trinitária e pneumatológica vem identificada por Dupuis como chave interpretativa fundamental de acesso a uma teologia do pluralismo religioso, que possibilita a afirmação de um modelo teológico “para além dos paradigmas inclusivista e pluralista”. Trata-se de um projeto que foi nomeado por Dupuis como “pluralismo inclusivo”, cujo traço de especificidade consiste na busca de harmonização “do que se deve reter do inclusivismo cristológico com o que se pode afirmar teologicamente a respeito de um certo pluralismo das religiões no desígnio de Deus”[13]. 

 

Para Dupuis, uma falsa dicotomia determinou a recíproca contraditoriedade entre os paradigmas inclusivista e pluralista. A seu ver, “modelos que em si mesmos deveriam ser vistos como reciprocamente complementares foram, de fato, transformados em paradigmas contraditórios entre si”[14]. O novo modelo teológico permite a interação da fé cristã com outras perspectivas de fé, resguardando a singularidade de cada adesão particular.

 

Segundo Dupuis, a transformação do cristocentrismo em paradigma restritivo se deu em razão de uma inadequada atenção à dimensão inter-pessoal da cristologia, ou seja, das relações interpessoais entre Jesus e Deus e Jesus e o Espírito. Uma teologia do pluralismo religioso pressupõe uma “tensão construtiva” entre a centralidade do acontecimento histórico de Jesus Cristo e a influência dinâmica do Verbo e do Espírito.

 

Uma cristologia integral recupera, assim, a dimensão trinitária do mistério cristológico, mantendo intimamente unidas a “jesuologia” e a “cristologia”. Para Dupuis,  não tem sentido um Jesus sem o Cristo nem um Cristo sem Jesus. No mistério de Jesus Cristo, enquanto “universal concreto”, está dado tanto o seu significado universal como a sua particularidade histórica. O Cristo proclamado pela fé cristã é o mesmo Jesus histórico que por Deus foi constituído Cristo na sua ressurreição dos mortos (At 2,36)[15]. Uma cristologia adequada é, portanto, aquela que desvela o “Filho-de-Deus-feito-homem-na-história”[16].

 

A abertura das relações de Deus com a humanidade não se restringe em razão da adoção de uma perspectiva cristocêntrica. A restrição só acontece quando se trabalha o “cristocentrismo” em tom menor, deslocado de sua perspectiva trinitária. É o que ocorre quando não se desenvolve adequadamente a relação de Jesus com Deus e a tensão construtiva entre a centralidade do evento histórico Jesus Cristo e a ação universal do Espírito de Deus.

 

De acordo com Dupuis, a relação de Jesus com Deus pode ser caracterizada como uma relação recíproca de unidade (proximidade) e distância. A unidade é que confere o caráter específico à consciência religiosa de Jesus. É singular e inaudita a familiaridade com que Jesus se refere ao Pai; familiaridade que nasce de uma profunda e única intimidade com Ele. O Evangelho de João expressou com clareza esta realidade: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).[17] Para Dupuis, esta intimidade implica “uma imanência recíproca (Jo 10,38; 14,11; 17,21), um mútuo conhecimento (10,15), um amor recíproco (5,20; 15,10), uma ação comum – aquilo que Jesus realiza, o Pai realiza junto com ele (5,17)”[18]. Esta união de Jesus com o Pai encontra o seu fundamento último para além da condição humana.

 

Esta proximidade única que une Jesus com Deus, em virtude do próprio mistério da encarnação, não pode, segundo Dupuis, apagar a “distância abissal que permanece entre o Pai e Jesus na sua existência humana”. Em razão das implicações de uma cristologia trinitária, não se pode jamais pensar Jesus Cristo como realidade que substitua o Pai[19]. Isto não invalida a perspectiva cristã que identifica em Jesus Cristo a realização da plenitude da revelação. Mas esta plenitude é qualitativa e não quantitativa, na medida em que deixa aberto o espaço para as surpresas do Deus que sempre vem[20]. A revelação de Deus em Jesus permanece, porém, relativa:

 

“A consciência humana de Jesus, embora sendo a do Filho, é, todavia, uma consciência humana e, portanto, limitada. Não teria podido ser de outra forma, em vista do mistério da encarnação. Nenhuma consciência humana, nem mesmo a do Filho-de-Deus-que-se-tornou-ser-humano, pode ´compreender`, ou seja, abranger e exaurir o mistério divino na sua totalidade. Nenhuma expressão do mistério em palavras humanas, nem sequer as que brotam da experiência única do Filho na sua humanidade, pode exaurir a totalidade do mistério: somente a consciência intra-divina, partilhada pelas três pessoas no mistério da Trindade, é que o pode fazer”[21]. 

 

O tratamento que Dupuis dá ao tema da unicidade e universalidade de Jesus Cristo é bem precavido, de forma a preservar uma teologia aberta das religiões e do pluralismo religioso. Em defesa desta perspectiva, ele prefere falar do evento  Jesus Cristo  como “constitutivo” da salvação, em vez de falar de Jesus como “Salvador absoluto”.  O que busca assegurar em sua reflexão é a especificidade humana de Jesus. E o que vale para Jesus, vale mais decisivamente ainda para o cristianismo. A absolutez não pode, a seu ver, constituir-se em atributo de Jesus Cristo, enquanto Filho-de-Deus-feito-homem, e a nenhuma outra realidade criada e contingente. Daí evitar

 

“a todo custo falar de ´absolutez`quer referindo-se a Jesus Cristo quer, a fortiori, referindo-se ao cristianismo. A razão é que o ´absoluto`é um atributo da Realidade última ou Ser Infinito, que não deve ser atribuído a nenhuma realidade finita, até mesmo a existência humana do Filho-de-Deus-feito-homem. O fato de Jesus Cristo ser Salvador ´universal`não faz dele o ´Salvador Absoluto`, que é o próprio Deus”[22].

 

 

 A história continua, assim, sendo palco da auto-revelação de Deus, embora “nenhuma revelação pode superar ou igualar, antes ou depois de Jesus Cristo, aquela que nos foi dada nele, o Filho divino encarnado”[23].  Dupuis é extremamente cuidadoso na escolha das palavras para definir o caráter singular do evento Jesus Cristo. Trata-se para ele de um evento decisivo, mas não definitivo, na medida em que deixa em aberto a dinâmica das manifestações divinas mediante a ação do Logos e do Espírito. Em sua visão, “a auto-manifestação definitiva de Deus à humanidade, como igualmente a completa realização da função salvífica de Cristo, coincidirá com o advento da plenitude do reino de Deus no eschaton (cf. 1 Cor 15, 26-28)”[24]

 

Ao contrário do que pensam determinados críticos[25], Dupuis não relativiza ou desconhece a “união hipostática e o caráter verdadeiramente teândrico da ação de Jesus Cristo”. O que ele faz, e com razão, é precisar os elementos de unidade e distinção presentes na relação filial de Jesus com Deus. Quando o autor trabalha a tônica da consciência filial de Jesus, sobretudo no capítulo terceiro da segunda parte de sua obra mais clássica[26], ele define com precisão e clareza o que de fato estabelece a “diversidade” de Jesus , ou seja, sua identidade pessoal de Filho (filiação divina). Garante-se, assim, o caráter qualitativamente diferente da revelação de Deus em Jesus Cristo. 

 

Assim como uma cristologia trinitária deve acentuar as relações interpessoais presentes na relação de Jesus com Deus, deve igualmente expressar a relação existente entre Jesus e o Espírito. A cristologia deve, necessariamente, incluir uma “cristologia pneumatológica”, capaz de perceber e acentuar a “presença universal e operante do Espírito de Deus no evento Cristo”[27]. Isto implica reconhecer a influência do Espírito em toda a trajetória  terrena de Jesus, desde o momento de sua concepção por influxo da dinâmica do Espírito (Lc 1,35), até o coroamento de sua ressurreição, por força do mesmo Espírito (Rm 8,11). Reconhecer também, para além da ressurreição, a presença de uma relação dinâmica entre a “ação do Senhor ressuscitado e a economia do Espírito Santo”. Uma tal cristologia mostra-se capacitada para discernir a presença e ação universal do Espírito na história concreta, não apenas enquanto dado afirmado, mas como “fio condutor e princípio guia”[28].

 

Esta renovada insistência sobre o papel do Espírito na economia da salvação, muito enfatizada no cristianismo oriental, constitui fator importante para ressaltar a imensa riqueza e variedade das auto-manifestações de Deus à humanidade. É verdade que o Espírito não constitui uma “alternativa a Cristo”, estando a ele referido, mas é igualmente verdade que a cristologia não existe sem a pneumatologia, caso contrário acaba por desembocar num cristomonismo problemático. Como indica Dupuis, “a censura que o cristianismo oriental fez muitas vezes à tradição ocidental, considerada uma forma de ´cristomonismo`, produziu o feliz resultado de desenvolver na teologia ocidental recente uma renovada insistência no papel do Espírito na economia divina da salvação, não último na cristologia em sentido estrito”[29]

 

 O evento Cristo, como indica Dupuis, é ativado e torna-se operante no tempo e no espaço pela ação e obra do Espírito, que já desde o início se fazia presente no mundo (AG 4). Uma cristologia do Espírito constitui canal fundamental para a superação de um exclusivismo particularista no sentido de um inclusivismo disponível para a recepção plural. Com base em tal cristologia as religiões em sua pluralidade podem ser reconhecidas como um valor, enquanto animadas pelo Espírito, que as dinamiza para a meta do mistério absoluto da Divindade.  

 

Com sua cristologia trinitária e pneumatológica, Dupuis busca preservar a reserva escatológica de Deus. O Deus revelado por Jesus permanece “irremediavelmente escondido”. Sem desconsiderar a singularidade do evento de Jesus Cristo, de modo particular para os cristãos, há que reconhecer que ele não “esgota e nem pode esgotar, o poder salvífico de Deus”. É uma perspectiva cristológica singular, que favorece

 

uma perspectiva global capaz de manter unidas a unicidade constitutiva de Jesus Cristo Salvador e o engajamento pessoal de Deus junto aos povos através de toda a história da humanidade. O evento ´constitutivo` de salvação é evento ´relacional`, que se insere necessariamente no conjunto do plano orgânico de Deus para a humanidade. Os diversos componentes deste plano único e orgânico são interdependentes e relacionais. O evento Jesus Cristo, constitutivo da salvação para todos, não exclui nem inclui, absorvendo-os, nenhuma outra figura ou tradição salvadora. Há mais verdade e graça divina em curso na história global das intervenções de Deus em favor do gênero humano do que o que se pode encontrar na única tradição cristã”[30]

 

Uma sabedoria infinita e multiforme

 

Na construção de seu modelo de “pluralismo inclusivo”, Dupuis busca complexificar o quadro da economia trinitária, assinalando outras dimensões assumidas pela mediação da graça, como a potência universal do Logos e a ação ilimitada do Espírito. A plenitude qualitativa (de intensidade) da revelação em Jesus Cristo não significa, como lembra Dupuis, que após a realização desse evento histórico, Deus deixe de continuar revelando-se por meio dos sábios e profetas das outras tradições religiosas, como no caso do profeta Mohammad (Maomé)[31]. A história continua a ser palco da auto-revelação de Deus. Daí se afirmar que a plenitude é não quantitativa. Este autor abre espaço em sua reflexão para uma compreensão da revelação como evento progressivo e diferenciado.

 

Com respeito à potencia universal do Logos, Dupuis retoma a referência ao prólogo do evangelho de João para mostrar a dinâmica peculiar de sua ação mais ampla, que não se exaure no evento-Cristo mas manifesta sua operatividade em toda a história humana. Como ele mesmo assinala, “a incomparável força iluminadora do Verbo divino - ´a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem`(Jo 1,9) – foi universalmente operativa antes de sua manifestação na carne e continua operativa através de toda  a história da salvação, mesmo depois do evento Jesus Cristo e para além das fronteiras do cristianismo”[32]. Os elementos de “verdade e graça” (AG 9) presentes nas tradições religiosas da humanidade constituem expressões desse Logos. E para Dupuis, esta ação universal do Logos não rompe com a unidade do desígnio divino para a salvação da humanidade, que encontra no evento Cristo, “o ponto culminante do processo de autocomunicação divina, o eixo que sustenta todo o processo”[33]. 

 

Segundo Dupuis, a singularidade do evento-Cristo está em sua condição de “sacramento universal da vontade salvífica de Deus”. Mas tal evento não constitui a única expressão possível dessa mesma vontade de Deus, já que

 

“o poder salvífico não está ligado exclusivamente ao sinal universal que ele projetou para sua ação salvífica. Isso significa, em termos de uma cristologia trinitária, que a ação salvífica de Deus por meio do Logos não encarnado (Logos ásarkos), sobre o qual o Prólogo segundo João declara que ´era a luz verdadeira, aquela que ilumina todo homem` vindo ao mundo (Jo 1,9) persiste também depois da encarnação do Logos (Jo 1,14), assim como também existe a ação salvífica de Deus pela presença Universal do Espírito, quer antes, quer depois do evento histórico de Jesus Cristo”[34]. 

 

Assim como há uma ação universal do Logos, há também uma ação ilimitada do Espírito. O Espírito está sempre presente e em ação na história, antes e depois do evento Jesus-Cristo. E ele atua não apenas na vida das pessoas, mas igualmente nas diversas culturas e tradições religiosas. A dinâmica da salvação vem operada pelo Verbo de Deus e pelo Espírito, que foram tão singularmente nomeados por santo Irineu como as “duas mãos” do Pai[35]. E Dupuis recorre também à imagem de Deus como o oleiro (Is 64,7), que com suas duas mãos realiza uma única economia de salvação. São mãos unidas e inseparáveis, mas também distintas e complementares. Ele assinala que “à luz desta metáfora torna-se mais fácil compreender que a comunicação do Espírito por obra do Cristo ressuscitado não exaure necessariamente a operosidade do Espírito depois do evento-Cristo”[36].

 

A complementaridade inter-religiosa

 

Com base na epístola aos Hebreus, há que reconhecer os “modos diversos” (Hb 1,1) em que Deus se revelou e continua a se revelar na história. Isto ocorre também por meio das diversas tradições religiosas da humanidade. Todas elas participam da “história da salvação, que é una e multiforme”, e de maneira misteriosa contribuem igualmente para a afirmação do Reino de Deus[37].

 

A reflexão desenvolvida por Jacques Dupuis sobre a unicidade de Jesus Cristo destacou como um de seus traços importantes o caráter relacional. O significado universal do evento-Cristo vem, assim, situado no horizonte mais amplo do desígnio salvífico de Deus para a humanidade. A questão que agora se coloca diz respeito ao modo de relação recíproca que vigora entre o ‘caminho’ representado por Jesus Cristo e os outros “caminhos” propostos pelas demais tradições religiosas a seus membros.

 

Reconhecer as outras religiões como “caminhos de salvação” é dar um passo além da perspectiva inclusivista tradicional, que restringe a experiência religiosa que acontece nestas tradições a meros “anseios” ou “busca tateante” de Deus. O novo passo implica em reconhecer que é Deus mesmo que se faz presente em toda experiência religiosa autêntica[38]. As religiões em si não são a “causa” primária da salvação, já que esta “causa” só pode ser pertinentemente aplicada ao Pai, que em Cristo reconciliou o mundo consigo (2 Cor 5,19). Elas, porém, podem ser “utilizadas por Deus como ‘canais’ de sua salvação”; podem “se tornar ‘caminhos’ ou ‘meios’ que comunicam o poder do Deus salvífico”[39].

 

A ênfase dada por Jacques Dupuis nas religiões como “caminhos de salvação” implica o reconhecimento da legitimidade de “diversos percursos religiosos”, mas sempre direcionados para o horizonte da comunhão com o Deus uno e trino. Não há, portanto, lugar em sua reflexão para a tese que defende um “pluralismo de orientações”, entendido como a afirmação de “fins religiosos diferentes” para a humanidade. Uma semelhante tese entra em tensão com a vontade salvífica universal de Deus, relativiza a unidade do gênero humano e a comum dignidade de todos os seres humanos perante Deus.

 

As diversas religiões não se encontram deslocadas das “alianças” estabelecidas por Deus com a humanidade. Santo Irineu falava em quatro alianças de Deus com a humanidade: com Adão, Noé, Moisés e Cristo[40]. A teologia das religiões retoma em particular o significado universal da aliança com Noé, simbolizada pelo arco iris: “Eis o sinal da aliança que instituo entre mim e vós e todos os seres vivos que estão convosco, para todas as gerações futuras” (Gn 9, 12). Em cada uma das alianças estabelecidas por Deus com a humanidade pulsa o “ritmo trinitário”. As tradições extra-bíblicas, como manifesta a aliança com Noé, estão igualmente envolvidas e abraçadas pelos traços da trindade, participando assim da dinâmica da comunicação amorosa de Deus.      

 

Entre as várias tradições religiosas, incluindo aí o cristianismo, existem valores de uma “complementaridade recíproca”[41], o que não significa conceder o mesmo significado salvífico a todas as manifestações do Verbo ou do Espírito na história. A consciência de uma tal complementaridade a nível dos valores salvíficos permite concluir a existência de uma “convergência entre as tradições religiosas e o mistério de Jesus Cristo, enquanto itinerários – certamente desiguais – ao longo dos quais Deus procurou e continua procurando os seres humanos na história, no seu Verbo e no seu Espírito”[42]. Em Jesus Cristo o processo salvífico universal revela uma fisionomia concreta, mas este mesmo processo ganha “realizações particulares” também nas outras tradições religiosas. Em Jesus Cristo, o desígnio salvífico de Deus para a humanidade ganha a sua densidade culminante, mas não no sentido de representar a única manifestação do Verbo ou a completa e exaustiva revelação de Deus[43].

 

O reconhecimento de uma “complementaridade recíproca” entre as diversas tradições religiosas deve ocorrer respeitando-se a “alteridade irredutível” de cada uma delas[44]. Levar a sério as religiões é nelas reconhecer algo de irredutível e irrevogável, que jamais será tematizado ou totalizado no cristianismo. O caráter único e singular de cada religião não impede, mas exige uma dinâmica de abertura ao outro. Na experiência do encontro ocorre um “intercâmbio e uma partilha de valores salvíficos” em favor de uma transformação e enriquecimento mútuos[45].

 

O diálogo inter-religioso constitui o espaço singular para esta experiência de “complementaridade recíproca” entre as religiões. Trata-se de um dos desafios mais importantes nesse novo milênio. Longe de significar um enfraquecimento da fé, o diálogo torna-a mais profunda, convocando-a a navegar em outros espaços e a se abrir a novas e inusitadas dimensões. O cristianismo sai igualmente enriquecido com a experiência da alteridade. Dupuis salienta como mediante o diálogo os cristãos podem descobrir em maior profundidade determinados aspectos ou dimensões do mistério divino, não tão acentuados na tradição cristã[46].

 

A experiência de “complementaridade recíproca” e o encontro inter-religioso contribuem também para o crescimento do Reino de Deus na história, sempre ordenado para a sua plenitude escatológica. A recapitulação de todas as coisas em Cristo, de que fala Efésios 1,10, não acontecerá de forma “totalitária”, mas no respeito e salvaguarda do “caráter irredutível impresso em cada tradição pelo automanifestação de Deus por intermédio do seu Verbo e de Seu Espírito”[47]. Esta riqueza plural não constitui apenas um fenômeno histórico mas prolonga-se igualmente no horizonte escatológico, quando então haverá uma “maravilhosa convergência” de todas as tradições religiosas no Reino de Deus e no Cristo Universal.  

 

A perspectiva aberta pela cristologia trinitária e pneumatológica de Dupuis, bem como o tratamento que dá ao tema da complementaridade inter-religiosa abrem espaço fundamental a uma nova valorização do pluralismo religioso, que vem acolhido como um fator positivo. Ganha a nível teológico uma plausibilidade “de direito”, deixando de ser visto como um dado conjuntural passageiro, uma ameaça ou expressão da fragilidade missionária da Igreja. Trata-se de um fenômeno rico e fecundo, que haure sua razão de ser no próprio desígnio de Deus, favorecendo ainda a transparência de toda a “riqueza multiforme” de seu mistério.[48] Enquanto fator positivo, o pluralismo religioso sinaliza a profunda generosidade com que Deus manifestou o seu mistério de modo diversificado à humanidade, bem como as “respostas pluriformes” dadas pelos seres humanos na diversidade de suas culturas à auto-revelação divina. Este novo “salto qualitativo” requer mudanças fundamentais no âmbito da linguagem teológica, muitas vezes pontuada por dinâmica ofensiva e deletéria com respeito às outras tradições religiosas. Mas requer ainda “uma purificação do próprio entendimento teológico e uma compreensão renovada no modo de pensar os ´outros`e seu patrimônio cultural e religioso”[49].

 

( Publicado no livro: Afonso Maria Ligorio SOARES (Org.). Dialogando com Jacques Dupuis. São Paulo: Paulinas, 2008, pp. 153-177)



[1] Jacques DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã do pluralismo religioso. São Paulo: Paulinas, 1999.

[2] Mais recentemente, o teólogo Paul Knitter propôs uma terminologia alternativa: ela fala em 4 modelos de abordagem da teologia das religiões: da substituição, do cumprimento, da reciprocidade e da aceitação. Cf. Introduzione alle teologie delle religioni. Brescia: Queriniana, 2005.

[3] Segue-se aqui a distinção estabelecida por Dupuis entre paradigma e modelo. Para este autor, os modelos têm um “caráter descritivo”, não se excluindo necessariamente. Já os paradigmas constituem “princípios de inteligibilidade”, enquanto proporcionam “chaves de interpretação complexiva da realidade”. Os paradigmas são marcados por diferenças substantivas: cf. J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., pp. 252-253.

[4] John HICK. Teologia cristã e pluralismo religioso. O arco-íris das religiões. São Paulo: PPCIR/Attar, 2005, p. 43.

[5] Faustino TEIXEIRA. Karl Rahner e as religiões. In: P.R. OLIVEIRA & C.PAUL (Orgs). Karl Rahner em perspectiva. São Paulo: Loyola, 2004, pp. 243-262.

[6] J. DUPUIS. O cristianismo e as religiões. São Paulo: Loyola, 2004, p. 124. Na defesa de uma semelhante perspectiva cf. C.GEFFRÉ. De babel à pentecôte. Paris: Cerf, 2006, pp. 46, 53 e 116.

[7] Aqui se encontra o dado que distingue Dupuis dos pluralistas: a afirmação da constitutividade de Jesus, ou seja, a concepção de que a unicidade e universalidade de Jesus Cristo “pertencem à essência da salvação”; de que Jesus Cristo “possui significado salvífico para toda a humanidade”, sendo o evento Cristo (que envolve o mistério pascal de sua morte e ressurreição) “verdadeiramente ´causa` de salvação para todos os homens”: O cristianismo e as religiões, p. 212; Id. Rumo a uma teologia cristã..., p. 421. Esta posição de Dupuis, de corte bem rahneriano, não vem partilhada por Roger Haight, que assinala sua inconsistência diante da linguagem da graça universal: cf. Roger HAIGHT. Jesus, símbolo de Deus. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 497 (e também p. 474, em especial n. 25).

[8] Ao lado dos dois livros de Dupuis já citados, publicados em 1997 e 2001 pode-se também acrescentar um que é pioneiro: Gesù Cristo incontro alle religioni. Assisi: Cittadella Editrice, 1989.

[9] J. DUPUIS. O cristianismo e as religiões, p. 322.

[10] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 294.

[11] Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso. Diálogo e Anúncio. Petrópolis: Vozes, 1991, n. 50.

[12] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 282.

[13] J.DUPUIS. O cristianismo e as religiões, p. 319 (e também p. 124).

[14] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 287.

[15] Dupuis afirma a existência de uma continuidade de identidade pessoal entre Jesus e o Cristo, bem como uma descontinuidade de condição humana. Com base em At 2, 36, ele afirma que Jesus é o Cristo, assim transformado em virtude de sua ressurreição dos mortos. Cf. J. Dupuis. Gesù Cristo incontro alle religioni, p. 251.

[16] J.DUPUIS. Introduzione alla cristologia. 3 ed. Casale Monferrato: Piemme, 1996, p. 55.

[17] O exegeta R. Schnackenburg, ao analisar esta passagem joanina no contexto em que se encontra, sublinhou que a mesma indica somente “o poder conferido a Jesus de preservar as suas ovelhas, os homens a ele confiados (10,29). Por suas obras deve-se reconhecer e compreender que o Pai está nele e ele no Pai (10,38). Dado que Jesus está em tal comunhão com o Pai, os inimigos nada lhe podem fazer (10,39).” Há, portanto, segundo este autor, uma relação recíproca e de tensão dialética entre a cristologia do enviado e aquela do filho. Cf. R.SCHNACKENBURG. La persona di Gesú Cristo nei quattro vangeli.  Brescia: Paideia, 1995, p. 354.

[18] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 374. Este autor acrescenta: “Jesus não é, em sua experiência, o Pai, mas entre ele e o Pai a comunicação de semelhança e, mais ainda a unidade, são de tal modo que exigem ser expressas em termos de uma relação Pai-Filho”: Ibidem, p. 374.

[19] Há sempre uma “excedência” e “desbordamento” de Deus com respeito ao finito, inclusive com respeito à realidade criada de Jesus. A auto-consciência humana de Jesus, como o sublinha Rahner, não pode ser monofisiticamente identificada com a consciência do Logos de Deus. Entre as duas existe uma “distância infinita”. Para este tema ver: K.RAHNER. Corso fondamentale  sulla fede. Roma: Paoline, 1978, p. 323 e 294-295.; Id.Teologia dall’esperienza dello Spirito. pp. 370 e 375. E também: Christian DUQUOC. L´unique Christ. Paris: Cerf, 2002, pp. 128-129.

[20] Interessante observar as pertinentes reflexões a esse propósito elaboradas por Eberhard Jüngel em seu livro: Dio, mistero del mondo.  2 ed. Brescia: Queriniana, 1991, p. 493. Este autor trabalha a idéia do ser de Deus como evento do vir-a-ser.

[21] J.DUPUIS. O cristianismo e as religiões, p. 172. Ver também: Id. Rumo a uma teologia cristã..., p. 346; Id. Gesù Cristo incontro alle religioni, p. 240-241. É interessante verificar como a reflexão de Dupuis a respeito foi ganhando precisão, sendo corrigidas as possíveis ambigüidades: é só comparar a forma como se expressa nos três livros citados. Esta mesma questão é recorrente nas reflexões de Edward SCHILLEBEECKX. Cf. Umanità la storia di Dio. Brescia: Queriniana, 1992, p. 218-219.

[22] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 390; Id. O cristianismo e as religiões, pp. 210-211; Id. La teologia del pluralismo religioso rivisitata, Rassegna di Teologia, v. 40, n. 5, 1999,  pp. 680-681.

[23] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 347.

[24] J.DUPUIS. La teologia del pluralismo religioso rivisitata, p. 671. Ver ainda: Rumo a uma teologia cristã..., pp. 347-348.

[25] Veja em particular a recensão feita pelo comitê de redação da revista tomista ao livro de Dupuis: “Tout récapituler dans le Christ” Revue Thomiste, v. 98, n. 4, 1998, p.  604. E também a Instrução Pastoral da Conferencia Episcopal Espanhola, por ocasião de sua LXXXVI Assembléia Plenária: Teologia y secularización en Espana – Madrid, 30 de marzo de 2006 (em especial o n. 31):

http://www.conferenciaepiscopal.es/documentos/Conferencia/teologia.htm (acessado em 09/09/2006).

[26] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., pp. 373-378.

[27] J.DUPUIS. Introduzione alla cristologia, p. 55.

[28] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 289.

[29] J.DUPUIS. O cristianismo e as religiões, p. 128.

[30] J.DUPUIS. Vers une théologie chrétienne du pluralisme religieux. La Vie Spirituelle, v. 151, n. 724, 1997, p. 578 (e também pp. 576-577).

[31] Outro teólogo jesuíta que retoma a pista pneumatológica é Roger Haight. Em sua visão, é Deus como Espírito que constitui “o fundamento universal da salvação”. Sem desconsiderar o lugar de Jesus Cristo enquanto “mediação basilar da presença e da salvação de Deus à humanidade”, Haight sublinha que a presença salvífica de Deus pode ser mediada por “um evento, um livro, um ensinamento, uma práxis”. Não precisa ser, necessariamente, uma pessoa: cf. Roger HAIGHT. Jesus, símbolo de Deus. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 477. Para uma visão mais ampla da reflexão cristológica de Haight cf. Faustino TEIXEIRA. Uma cristologia provocada pelo pluralismo religioso. REB, v. 65, n. 258, 2005, pp. 293-314.

[32] J.DUPUIS. O cristianismo e as religiões, p. 206; Id. Rumo a uma teologia cristã..., pp. 440-442. E essa reflexão de Dupuis encontra sua fundamentação exegética em autores como Leon Dufour e Schnackenburg: J.DUPUIS. La teologia del pluralismo religioso rivisitata, p. 669s. E também em teólogos como Claude Geffré, que com base nos padres da Igreja situa “a economia do Verbo encarnado como sacramento de uma economia mais vasta, a do Verbo eterno de Deus que coincide com a história religiosa da humanidade”: C.GEFFRÉ. Crer e interpretar. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 165.

[33] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 441.

[34] Ibidem, p. 413. E continua Dupuis: “Se a ação humana do Lógos énsarkos é o sacramento universal da ação salvífica de Deus, ele não esgota a ação do Logos. Continua a ocorrer uma ação distinta do Lógos ásarkos”. E isto não significa uma “economia da salvação distinta”, mas “expressão da gratuidade superabundante e da liberdade absoluta de Deus”: Ibidem, p. 413. Esta perspectiva apontada por Dupuis indica que a revelação de Deus permanece sempre aberta. Assim como “a consciência humana de Jesus enquanto Filho não podia, por sua própria natureza, esgotar o mistério divino (...), de maneira análoga o evento-Cristo não esgota – nem poderia – o poder salvífico de Deus”: Ibidem, p. 412. E menciona o risco de um “monofisismo invertido”, que seria a “possível absorção da natureza divina na humana, de forma a reduzir  a natureza divina à medida daquela humana”: Id. La teologia del pluralismo religioso rivisitata, p. 673.

[35] J.DUPUIS. Vers une théologie chrétienne du pluralisme religieux, p. 577.

[36] J.DUPUIS. La teologia del pluralismo religioso rivisitata, p. 676. Sem desconsiderar a conexão entre a ação do Espírito com o evento Jesus Cristo, Dupuis fala na necessidade de se garantir uma “discrição, ou melhor, certo silêncio apofático, respeitoso da transcendência do mistério, na tentativa de descobrir e explicar o ´como`de tal ligação e relação”: ibidem, p. 678.

[37] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 472.

[38] Em linha bem distinta da “teologia do acabamento”, Dupuis sublinha que ao falar das religiões como caminhos de salvação quer expressar não apenas uma “simples busca de Deus”, universalmente presente nos sere humanos,  mas “em primeiro lugar à busca deles por parte de Deus e à graciosa iniciativa tomada por Deus ao convidá-los a participar da própria vida”: J.DUPUIS. O cristianismo e as religiões, p. 213; Id. J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 421. Na mesma direção vai a reflexão de Claude Geffré, ao assinalar que a história religiosa da humanidade testemunha não apenas uma busca humana tateante, mas traduz sobretudo “a pluralidade dos dons de Deus em busca do ser humano”: De babel à pentecôte,  p. 114.

[39] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 422.

[40] Cf. IRINEU. Contro le eresie e gli altri scritti. A cura di E. Bellini. Milano: Jaca Book, 1979.

[41] J.DUPUIS. J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 449. Este questão será igualmente motivo de algumas críticas sofridas por Dupuis, como as tecidas pelo teólogo G.de Rosa e pelos teólogos dominicanos da revista tomista: cf. Una teologia  problematica del pluralismo religioso, p. 142-143; Comité de rédaction de la Revue Thomiste. “Tout récapituler dans le Christ”, p. 627. Nos últimos trabalhos, Dupuis passou a falar em complementaridade “recíproca” e “assimétrica”, de forma a enfatizar que “o reconhecimento de valores adicionais e autônomos de verdade e de graça nas outras tradições não cancela a transcendência insuperável da revelação e da autocomunicação de Deus na pessoa e na obra de Jesus Cristo”: O cristianismo e as religiões, p. 320.

[42] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 452.

[43] Ibidem, p. 452.

[44] C.Geffré chamou a atenção para esta questão em sua reflexão sobre a obra de Dupuis. Este autor manifesta dificuldade com respeito à expressão “complementaridade”, que para ele pode deixar em suspenso o traço da “alteridade irredutível” presente nas religiões não-cristãs. Prefere manter a idéia do pluralismo religioso como um “enigma”. Neste tempo da história, sublinha este autor, torna-se necessário “aceitar esta situação de ‘contestação recíproca’”: C.GEFFRÉ. Le pluralisme religieux comme question théologique. La Vie Spirituelle, v. 151, n. 724, 1997, p. 585; id. Crer e interpretar, pp. 178-179.

[45] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 449.

[46] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 521. Em sua obra anterior, Dupuis afirma: “Por mais paradoxal que possa parecer, o contato prolongado com as Escrituras não bíblicas – praticado no interior da própria fé – pode ajudar o cristão a descobrir mais profundamente certos aspectos do mistério divino plenamente revelado em Jesus Cristo.”: J.DUPUIS. Gesu Cristo incontro alle religioni, p. 245. De forma semelhante afirma E.Schillebeeckx: “Existem verdadeiros, bons e belos – e surpreendentes – aspectos positivos e irredutíveis nas múltiplas formas de harmonia religiosa com Deus, também nas formas que não encontraram nem encontram lugar na vivência específica do cristianismo.”: Religião e violência, Concilium, v. 272, n. 4, 1997, p. 179.

[47] J.DUPUIS. Rumo a uma teologia cristã..., p. 530.

[48] Como indica Geffré, o pluralismo religioso deve ser visto como “a expressão mesma da vontade de Deus, que necessita da diversidade das culturas e religiões para melhor manifestar as riquezas da Verdade última”: Crer e interpretar, p. 137.

[49] J.DUPUIS. O cristianismo e as religiões, p. 321.